Passei sete anos em uma prisão clandestina por um crime que minha irmã cometeu. Hoje, meu noivo - o homem que a escolheu em vez de mim - finalmente veio buscar sua propriedade.
Mas ele não veio para me salvar. Veio me buscar como quem cobra uma dívida, observando com olhos frios enquanto eu era empurrada para um galpão imundo, uma desgraça que deveria ser mantida fora de vista.
Minutos depois, o celular dele tocou. Era minha irmã. Sem dizer uma palavra, ele me deixou ali, parada na terra batida, para correr até ela.
Abandonada. De novo.
Através das paredes finas da minha nova prisão, ouvi a voz da minha própria mãe. Ela estava planejando me enviar para um convento remoto, para ser enterrada de vez.
Eles não apenas me trancaram para proteger sua filha adotiva perfeita. Eles planejavam me apagar completamente.
Mas, enquanto eu estava sentada no escuro, um celular pré-pago barato vibrou no meu bolso. Uma única mensagem brilhava na tela.
"Sindicato do Norte. Podemos tirar você daí. Você tem dez dias."
Capítulo 1
Ponto de Vista de Alana:
Passei sete anos em uma prisão clandestina por um crime que minha irmã cometeu. Hoje, meu noivo - o homem que a escolheu em vez de mim - finalmente veio buscar sua propriedade.
A pesada porta de ferro rangeu ao se abrir, lançando um retângulo de luz ofuscante no chão de pedra úmido. Eu me encolhi, protegendo os olhos. A silhueta parada ali era maior do que eu me lembrava. Mais larga. Mais dura.
Dante Alcântara. O Dom da Família Alcântara. Meu marido prometido.
Ele não veio para me salvar. Veio me buscar como quem cobra uma dívida.
Levantei-me do colchão fino, minha perna gritando em protesto. Os ossos haviam se fundido de forma errada, uma lembrança permanente e latejante de uma surra que recebi no meu terceiro ano aqui. A dor era uma velha amiga. Uma companheira fria e familiar.
"Levante-se, Helena", a voz de Dante era um trovão baixo, desprovida de qualquer calor. Ele ainda usava meu nome antigo, o nome da garota que eles jogaram fora.
Ele não ofereceu a mão. Apenas observou, seus olhos escuros percorrendo minhas roupas rasgadas de prisioneira e meu corpo esquelético com a avaliação distante de um açougueiro inspecionando um pedaço de carne.
Eu era a filha perdida, entende? A original. Sequestrada de um parque aos cinco anos, eu era uma história de fantasma, um conto de advertência sussurrado para outras crianças da máfia. Meus pais sofreram, e então fizeram o que os poderosos fazem: me substituíram. Adotaram Sofia, uma garota com os mesmos cabelos escuros, e derramaram todo o seu amor na substituta.
Quando fui encontrada treze anos depois, uma adolescente sem memória deles, não voltei para casa para uma celebração. Voltei para casa como uma perturbação. Meus pais olharam para mim, sua filha de sangue, e viram uma estranha ameaçando a família perfeita que haviam construído com minha substituta. Sofia, a filha perfeita, viu uma ameaça.
Ela passou anos envenenando-os contra mim com mentiras sussurradas e lágrimas de crocodilo, me pintando como instável, ingrata, selvagem. Eu já era um fantasma em minha própria casa muito antes de me enterrarem nesta cela.
A traição final veio em uma terça-feira chuvosa. Sofia, bêbada e imprudente em seu carro esportivo importado, atropelou o filho mais novo de uma família rival. Um acidente fatal. Um ato de guerra.
Lembro-me da reunião no escritório do meu pai. O cheiro de couro e medo. Meu pai, o Conselheiro, expôs a situação como um negócio. Sofia era frágil, amada, a futura esposa perfeita para o próximo Dom. Eu era... descartável.
Minha mãe nem sequer olhou para mim quando concordou. "É para o bem da Família."
Olhei para Dante, o garoto que havia jurado me proteger, minha última esperança. Implorei a ele com os olhos. Ele apenas me encarou de volta, seu rosto uma máscara de pedra. Seu silêncio foi minha sentença de morte.
Eles a escolheram. Eles me jogaram fora para apaziguar nossos inimigos e proteger sua filha adotiva perfeita.
"Nosso pacto de noivado continua de pé", disse Dante agora, me puxando da lembrança. Suas palavras eram frias, transacionais. "É um contrato entre nossos pais. Será honrado."
Lei. Negócios de família. Não amor. Nunca amor.
Ele me guiou para fora da cela. Pelos corredores opulentos da mansão Alcântara, sussurros me seguiam como uma mortalha. Os soldados alinhados nas paredes, os empregados que saíam apressados do nosso caminho - seus olhos estavam cheios do mesmo olhar: desprezo. Eu era a desgraça da família que retornava dos mortos.
O novo Conselheiro - um homem que substituiu meu pai após sua "aposentadoria" - nos encontrou no hall de entrada. Ele não olhou para mim. Olhou para Dante.
"Para o bem da Família, Dom Alcântara, ela será alojada na antiga edícula. Para mantê-la... fora de vista."
As palavras foram um tapa. Uma marcação pública. Eu era lixo a ser escondido.
O celular de Dante vibrou. Ele olhou para a tela, e a máscara fria do Dom rachou, substituída por um lampejo de pânico genuíno.
"Sofia", ele sussurrou. Levou o celular ao ouvido. "Estou a caminho."
Sem outra palavra, sem sequer um olhar em minha direção, ele se virou e saiu da casa, me deixando ali. Abandonada. De novo.
Um guarda me escoltou até minha nova prisão, um galpão esquálido na beira da propriedade. Sozinha na poeira e nas sombras, ouvi vozes através das paredes finas. Minha mãe. Meu pai.
"...um convento", minha mãe dizia, sua voz tingida com uma preocupação tão falsa que chegava a ser cortante. "Um bem remoto. É a única maneira de proteger a paz de espírito de Sofia."
Minha respiração ficou presa na garganta. Eles não estavam apenas me escondendo. Estavam planejando me enterrar para sempre.
Uma leve vibração zumbiu contra meu quadril, vindo do bolso do casaco gasto que um guarda havia jogado em mim. Puxei um celular pré-pago pequeno e barato. Uma única mensagem brilhava na tela.
Sindicato do Norte. Podemos tirar você daí. Você tem dez dias.
A decisão não foi uma decisão. Foi uma lufada de ar depois de sete anos me afogando.
Ponto de Vista de Alana:
Acordei com o som de música. Risadas. O tilintar de cristal contra cristal. Era um mundo distante, uma vida à qual eu não pertencia mais.
Era o aniversário de dezoito anos de Sofia.
Minha perna era uma coluna de fogo, mas me recusei a me esconder nas sombras que me designaram. Forcei-me a ir até o pequeno espelho rachado, joguei água fria no rosto e prendi meu cabelo emaranhado. Eu não seria um fantasma em minha própria casa.
Minha chegada ao pátio principal congelou a festa no meio de uma risada. O ar engrossou com uma hostilidade tão palpável que eu podia sentir o gosto. O sorriso da minha mãe vacilou, desmoronando em uma máscara de horror de lábios apertados. A expressão do meu pai simplesmente endureceu em uma de fria indiferença. Livia, minha irmã mais nova, me fuzilou com uma fúria aberta que pareceu um soco no estômago.
Então Sofia, uma visão em um vestido branco que custava mais do que eu vira em sete anos, deslizou em minha direção. Ela colocou uma mão delicada no braço de Dante, seus olhos se arregalando em uma imitação teatral de preocupação.
"Ah, Helena, você veio", ela murmurou, alto o suficiente para que todos ouvissem. Helena. Um nome ao qual eu não respondia mais, um fantasma que eles insistiam em ver. Ela virou o rosto para Dante, sua voz baixando para um sussurro conspiratório. "No meu aniversário, meu Dom, você poderia me conceder um desejo? Proteja-me dela. A presença dela... é perturbadora."
Eu não senti nada. Apenas um vazio vasto e frio.
Virei-me para sair, mas Sofia não havia terminado. Ela mudou para o antigo dialeto da família, uma linguagem de segredos e poder, destinada a excluir e insultar.
"Você vê como ela é?", a voz de Sofia era doce, mas as palavras eram veneno. "Tão amarga. Tão ingrata depois de tudo que Dante fez por ela."
Minha mãe se juntou, sua voz tingida com uma decepção familiar e cansada. "Ela sempre foi uma criança difícil. Uma semente ruim."
A voz do meu pai, a voz do Conselheiro, foi o golpe final. "Ela traz vergonha para esta Família."
O que eles não sabiam, o que ninguém sabia, era que eu passei meus sete anos no inferno dominando línguas mortas. Era uma maneira de manter minha mente afiada, uma maneira de quebrar os códigos dos meus captores. O dialeto antigo era um deles. Eu entendia cada palavra venenosa.
"Estou cansada", eu disse em português claro, minha voz neutra. Virei as costas para eles.
"Bom", a voz da minha mãe me seguiu, de volta ao dialeto. "A presença dela azeda o ar."
Aquele insulto final não me atingiu como um golpe, mas como uma libertação. Uma calma fria e absoluta se instalou sobre mim. Este era o primeiro dia da minha nova liberdade.
Nove dias.
Ponto de Vista de Alana:
Eles me puseram para trabalhar nas cozinhas. Descascando batatas, esfregando o chão - um castigo disfarçado de tarefa. O trabalho físico era exaustivo, minha perna uma agonia constante e gritante, mas eu acolhia a queimação. Mantinha as memórias à distância.
Por um momento fugaz, lembrei-me de um tempo antes de me perder. Um tempo em que as mãos da minha mãe eram gentis, quando o sorriso do meu pai ainda alcançava seus olhos. Esmaguei a memória. Aquela família estava morta.
Uma noite, enquanto eu mancava de volta para o meu galpão, Dante me interceptou na beira do bosque. Um sedan de luxo preto e elegante estava parado por perto, seu motor um ronronar baixo.
Ele me estendeu uma pequena caixa. Dentro havia um bolinho com amoras silvestres, meu favorito de uma infância que parecia a vida de outra pessoa. Era uma tentativa desajeitada e patética de paz.
"Eu também comprei isto para você", disse ele, estendendo outra caixa.
Dentro, aninhado em veludo preto, havia um vestido de seda carmesim. O tipo de vestido que eu sonhava em usar como sua esposa, a Rainha desta cidade.
Minha mente voltou à emboscada quando éramos adolescentes. A dor de uma bala com ponta de prata destinada a ele. Ele nunca soube que fui eu. Sofia havia reivindicado a glória e, com ela, a dívida de vida que ele agora se sentia obrigado a pagar.
"Eu não gosto de vermelho", eu disse, empurrando a caixa de volta para ele. A confusão em seu rosto foi uma pequena e amarga vitória.
"Vamos dar uma volta", ele sugeriu, sua voz mais suave do que eu a ouvia há anos. "Até o Lago da Lua. Como costumávamos fazer."
Entrei no carro. Uma curiosidade amarga me impulsionou. Eu queria ver quanto tempo a performance duraria.
Estávamos na metade do caminho quando o celular dele vibrou. Ele olhou para a tela e seu corpo inteiro enrijeceu.
Claro que era ela. Sofia precisava dele.
Seu foco, seu mundo inteiro, voltou-se para ela. O breve calor em seus olhos desapareceu, substituído pela autoridade fria do Dom.
"Dê a volta no carro. Agora", ele latiu para o motorista.
Ele não pediu desculpas. Não explicou. Nem sequer olhou para mim.
O motorista parou no acostamento escuro e vazio da estrada. Dante gesticulou bruscamente em direção à minha porta - uma ordem, não um convite. Saia.
Eu saí.
A porta pesada bateu atrás de mim.
Ele me deixou ali, na beira da estrada, enquanto o sedan acelerava de volta para a mansão, de volta para ela.