Capítulo 1 - A Fuga da Realidade
Mia Collins
O ar dentro do The Velvet Room era denso, carregado de perfume caro, fumaça aromatizada e o tilintar abafado de taças de cristal. Para qualquer um que olhasse de fora, aquele lounge exclusivo na cobertura de um dos prédios mais caros de Manhattan era o ápice da sofisticação e do sucesso. Para mim, no entanto, não passava de um esconderijo temporário. Um refúgio covarde onde a música baixa de jazz tentava, sem sucesso, sufocar os gritos estridentes da minha própria mente.
Encarei o copo enquanto o balançava. O líquido âmbar do uísque bateu contra o gelo, desenhando círculos lentos. Já era a minha terceira dose pura. Minha garganta queimava com uma aspereza que eu acolhia quase com gratidão. A queimação física era infinitamente mais fácil de tolerar do que o nó sufocante instalado no meu peito desde o meio-dia.
"Você devia agradecer de joelhos, Mia. É a chance de ouro da nossa família."
A voz estridente de Helena, minha madrasta, ainda ecoava no fundo dos meus ouvidos como um zumbido corrosivo. Ela havia dito aquelas palavras com um sorriso asqueroso no rosto, enquanto apontava para um catálogo de vestidos de noiva horríveis jogados sobre a mesa de centro da casa do meu pai.
Ao lado dela, Cecília, minha meia-irmã, examinava as próprias unhas postiças com um ar de vitória doentia. E o meu pai? Robert Collins permaneceu encostado no batente da porta, com os olhos baixos, acovardado, como sempre esteve desde o dia em que minha mãe deu seu último suspiro naquele hospital frio há sete anos.
Eles tinham falido. Robert perdeu quase tudo em investimentos idiotas e dívidas de jogo, e a solução brilhante que a víbora da esposa dele encontrou foi simples: me vender. Literalmente me empurrar para a cama e para o altar de Gregory Stone, o velho chefe asqueroso do meu pai, um homem de quase sessenta anos conhecido no submundo corporativo por seu temperamento violento e por colecionar esposas troféu para depois descartá-las como lixo.
- Beba devagar, garota. Se você apagar no meu balcão, vou ter que chamar a segurança.
A voz grossa do barman cortou meus pensamentos. Ele limpava um copo com um pano branco, me encarando com uma mistura de tédio e compaixão profissional.
- Não vou apagar - murmurei, apoiando os cotovelos no mármore polido e engolindo mais um gole generoso. - Eu só preciso de silêncio. Por uma noite. Apenas uma.
Ele deu de ombros, acostumado com os desgraçados de coração partido ou encurralados pela vida que apareciam por ali nas noites de quinta-feira, e se afastou para atender um grupo de engravatados no outro extremo do balcão.
Fechei os olhos por alguns segundos. Minha cabeça girava levemente, amortecendo a dor aguda da traição. Eu sempre soube que Helena me odiava. Sabia que Cecília competia comigo por migalhas de atenção. Mas achar que o meu próprio pai assinaria embaixo da minha destruição sem pestanejar? Aquilo tinha arrancado o chão sob os meus pés. A sensação de abandono era uma lâmina afiada cravada no meu estômago.
Foi quando o ar ao meu redor mudou.
Não foi um barulho alto, nem um toque físico. Foi uma alteração sutil na atmosfera, uma presença que se impôs com tanta força que minha pele se arrepiou antes mesmo que eu erguesse a cabeça. Um cheiro marcante invadiu meu espaço pessoal: notas profundas de sândalo, couro nobre e o frescor cortante de uma colônia masculina cara.
Olhei de soslaio.
Ele havia acabado de se sentar no banco exatamente ao meu lado, deixando um espaço mínimo entre nós.
Era o tipo de homem que não precisava abrir a boca para comandar um ambiente. Tinha os ombros largos cobertos por um paletó escuro de corte sob medida impecável. A camisa branca estava com os dois primeiros botões abertos, revelando a base de um pescoço forte e uma linha de mandíbula tão quadrada e bem delineada que parecia esculpida em granito. Mas foram os olhos dele que me prenderam.
Eram escuros, tempestuosos e carregados de uma intensidade quase perigosa. Ele não estava sorrindo. Na verdade, a expressão em seu rosto era tão sombria e exausta quanto a minha devia parecer.
- Bourbon duplo. Sem gelo - a voz dele ressoou baixa, um barítono rouco e aveludado que reverberou diretamente na base da minha coluna.
O barman serviu a bebida quase instantaneamente, com um respeito imediato que homens daquela envergadura costumam arrancar sem esforço. O desconhecido pegou o copo, virou metade do líquido de uma vez só e soltou uma respiração lenta e pesada pelo nariz.
Fiquei encarando. O álcool já havia desarmado os meus filtros habituais de prudência. Eu não conseguia desviar o olhar do perfil imponente dele, da maneira como os dedos longos e firmes seguravam o copo, da tensão evidente nos músculos de suas costas largas.
Sem virar a cabeça na minha direção, ele falou:
- É falta de educação encarar, sabia?
Um arrepio desceu pela minha nuca. Dei uma risada baixa, rouca pelo uísque, sem recuar um único milímetro.
- Você sentou do meu lado num balcão com vinte lugares vazios. Achei que quisesse atenção.
Ele finalmente virou o rosto para mim. Seus olhos passaram lentamente pelos meus cabelos castanhos ondulados caídos sobre os ombros, desceram pelo decote simples do meu vestido preto e voltaram para a minha boca, terminando nos meus olhos. O calor daquele olhar fez o sangue correr quente nas minhas veias.
- Não quero atenção - ele rebateu, a voz mantendo aquele tom grave e pausado que parecia quase uma carícia involuntária. - Eu só queria uma bebida forte para esquecer que o mundo lá fora é composto por abutres e incompetentes.
- Que coincidência curiosa - soltei, erguendo meu copo quase vazio na direção dele com uma ironia amarga nos lábios. - Eu estou aqui tentando esquecer que a minha própria família é uma alcateia de hienas querendo me vender ao melhor ofertante.
Uma sobrancelha escura se arqueou na testa dele. Havia uma fagulha nova na escuridão dos seus olhos agora. Curiosidade. E algo mais sombrio, mais magnético.
- Família? - ele perguntou, apoiando um cotovelo no balcão e virando o corpo levemente para o meu lado. - Eles costumam ser os piores inimigos. Sangue não garante lealdade. Garante apenas desilusão.
- Você fala por experiência própria?
- Falo - ele respondeu sem hesitar, o olhar fixo no meu. - Pessoas esperam demais de nós. Ou querem tirar tudo o que temos até que sobre apenas uma casca vazia.
Engoli em seco. Era exatamente aquilo. Aquele homem misterioso, vestido com roupas que deviam valer o salário de um ano inteiro do meu pai, resumiu a agonia sufocante que eu vinha engolindo há semanas com apenas duas frases.
- Então temos um acordo silencioso aqui - declarei, sentindo meu corpo se inclinar involuntariamente na direção dele, atraída pelo magnetismo quase palpável que emanava da sua postura. - Dois desastres ambulantes fugindo da realidade.
- Um acordo me parece justo - ele disse, com o primeiro vestígio de um sorriso cínico surgindo no canto dos lábios bem desenhados. - Sem nomes. Sem profissões. Sem perguntas incômodas sobre quem vai pagar a conta amanhã.
- Sem amanhã - completei em um sussurro corajoso, sentindo meu coração disparar contra as costelas. O efeito do álcool misturado à adrenalina pura me fazia sentir invencível pela primeira vez em meses. - Só esta noite.
O desconhecido pousou o copo vazio no balcão com um estalo firme. Ele tirou a carteira do bolso interno do terno, jogou várias notas de cem dólares sobre a bancada sem sequer contar e se levantou. Com mais de um metro e oitenta e cinco de altura, ele parecia gigantesco sobre mim, dominando todo o espaço.
Ele estendeu a mão direita. Grande, quente, com a pele ligeiramente áspera nas pontas dos dedos.
- Tem uma suíte reservada no meu nome no último andar deste hotel. Vamos continuar nossa fuga lá em cima.
O bom senso gritou em algum canto distante do meu cérebro para que eu recusasse. Disse que era loucura subir para um quarto com um completo estranho cujo nome eu nem sabia. Mas a dor que me esperava do lado de fora daquele prédio, o casamento forçado, a covardia do meu pai, a humilhação premeditada por Helena, era mil vezes mais assustadora do que qualquer coisa que aquele homem pudesse fazer comigo.
Eu só queria esquecer. Queria sentir que o meu corpo ainda pertencia a mim. Queria ser desejada por quem eu era naquele instante, não usada como uma moeda de troca podre para salvar dívidas alheias.
Coloquei minha mão pequena sobre a dele.
Os dedos dele se fecharam ao redor dos meus com uma firmeza possessiva, quente e irresistível. Uma onda de eletricidade pura subiu pelo meu braço.
- Me leve pra lá - pedi, com a voz firme apesar do tremor nos joelhos.
O trajeto até o elevador privativo foi um borrão de passos apressados e olhares carregados de fome reprimida. Assim que as portas de metal espelhado se fecharam, cortando o restante do mundo, as defesas caíram. Ele não esperou que chegássemos à suíte. Com um movimento ágil e preciso, ele me prensou contra a parede espelhada do elevador, suas mãos firmes segurando minha cintura enquanto seus lábios tomavam os meus em um beijo devastador.
Foi um choque. Ele beijava como se precisasse daquilo para respirar, com uma urgência voraz que me tirou o fôlego e qualquer resquício de lucidez. Minhas mãos subiram involuntariamente para os ombros largos dele, agarrando o tecido fino do seu paletó enquanto eu abria a boca para receber sua língua, me entregando a um calor que nunca havia sentido na vida.
Quando o elevador apitou anunciando o trigésimo andar, nós mal conseguíamos manter os olhos abertos de tanta intensidade. Ele me puxou pelo corredor silencioso, destravou a porta da suíte master com o cartão e me empurrou para dentro no escuro, chutando a porta para fechá-la atrás de nós.
A cidade inteira brilhava através das paredes de vidro do quarto, luzes infinitas de Nova York como pequenas estrelas artificiais, mas a única coisa que eu conseguia enxergar era a silhueta daquele homem se livrando do paletó e vindo em minha direção.
Ali, na penumbra daquele quarto luxuoso, nós nos despimos de tudo: das roupas, do peso do mundo e de todas as mágoas que carregávamos nos ombros. Os toques dele na minha pele eram fogo puro, uma mistura alucinante de aspereza máscula e uma atenção minuciosa que fazia cada terminação nervosa do meu corpo vibrar em puro êxtase. Eu me perdi no cheiro dele, no calor do seu peito contra o meu, nos gemidos baixos e roucos que ele soltava contra o meu pescoço quando me possuía com uma intensidade que arrancava a minha alma do lugar.
Por algumas horas, eu não era a filha traída de um covarde. Não era a jovem que seria sacrificada por conveniência. Eu era apenas uma mulher viva, entregue a uma paixão furiosa e anônima nos braços de um homem que me fazia esquecer até mesmo como se respirava.
Quando a exaustão finalmente nos venceu, me aninhei contra o calor firme do peito dele, ouvindo as batidas compassadas do seu coração no escuro. Aquele ritmo forte parecia uma promessa silenciosa de segurança, um porto seguro ilusório no meio da minha tempestade.
Abracei aquela ilusão com todas as minhas forças e fechei os olhos, caindo em um sono pesado e sem sonhos, sem fazer ideia de que aquela noite não seria apenas uma fuga...
...mas o início de toda a minha vida.
Capítulo 2 - O Rastro de um Fantasma
Ethan Vance
O peso habitual nos meus ombros não estava lá quando comecei a despertar.
Pela primeira vez em meses, talvez anos, o sono não tinha sido interrompido por relatórios corporativos, projeções de risco de fusões internacionais ou pela voz sufocante dos conselheiros da Vance Enterprises cobrando resultados trimestrais. Meu corpo estava relaxado de uma forma quase entorpecente, mergulhado na penumbra do quarto com isolamento acústico impecável.
Virei o corpo de lado instintivamente, procurando o calor suave que havia preenchido os meus braços durante toda a madrugada.
Minha mão deslizou pelos lençóis.
Nada.
Apenas tecido esticado, liso e frio.
Abri os olhos em um golpe. A luz cinzenta da manhã de Nova York cortava timidamente os cantos da cortina blackout entreaberta. O lado direito da cama king-size estava deserto. O travesseiro trazia apenas o afundamento leve onde uma cabeça havia repousado horas antes.
Sentei na beirada do colchão, passando as duas mãos pelo rosto e respirando fundo. Minha mente, ainda ligeiramente lenta pelo Bourbon consumido na véspera, tentou puxar o fio das últimas doze horas.
Não havia sido uma ilusão. O cheiro dela continuava pairando pelo ar da suíte: uma combinação delicada de baunilha fresca, flores de laranjeira e a assinatura inconfundível de pele feminina quente e entregue.
- Droga - praguejei baixo, a voz áspera pelo sono.
Me levantei nu, sem me importar com o piso gelado sob as solas dos pés, e caminhei até o banheiro. A porta estava aberta. O vapor do chuveiro já havia se dissipado por completo, restando apenas algumas gotas secando na parede de vidro fosco. As toalhas haviam sido usadas e dobradas de maneira ordenada sobre a bancada de mármore.
Ela não estava ali.
Voltei para o quarto principal e examinei o espaço. O vestido preto que eu havia arrancado com urgência na noite anterior sumiu do carpete. A bolsa pequena que ela segurava no balcão do bar, também. Sobre a cômoda escura, ao lado da chave-cartão e da minha carteira intacta, não havia um pedaço de papel, um guardanapo com número anotado ou uma única pista de quem ela era.
Absolutamente nada.
Caminhei até a imensa parede de vidro e olhei para baixo. O trânsito de Manhattan começava a se mover como veias pulsantes de concreto e metal amarelo. A cidade estava acordando. Milhões de almas transitando pelas calçadas, pegando o metrô, correndo para os seus compromissos diários.
E, no meio daquela massa anônima, a mulher que havia feito o meu mundo parar durante algumas horas simplesmente se camuflou e desapareceu.
Passei a mão pelos cabelos bagunçados, sentindo uma irritação aguda subir pela garganta.
Eu era Ethan Vance. Eu comandava um conglomerado avaliado em bilhões de dólares. Homens de negócios experientes baixavam os olhos quando eu entrava em uma sala de reuniões. Eu não era o tipo de homem que era deixado para trás na cama de um hotel como um encontro casual descartável.
Mas havia sido exatamente isso o que aconteceu.
"Sem nomes. Sem profissões. Sem perguntas incômodas sobre quem vai pagar a conta amanhã."
Minhas próprias palavras no balcão do The Velvet Room voltaram como um eco irônico na minha mente. Eu tinha sido taxativo. E ela, havia deixado claro que buscava apenas uma válvula de escape contra um inferno pessoal que parecia consumi-la viva.
Eu lembrava do brilho machucado nos olhos castanhos dela quando mencionou a família. Aquele olhar que misturava orgulho ferido com uma vulnerabilidade tão crua que me desarmou no primeiro segundo de conversa. Eu a desejei pelo visual marcante, pelas curvas elegantes que aquele vestido preto simples abraçava, mas foi a tempestade interna dela que me prendeu no lugar.
E a entrega dela na cama...
Fechei os punhos com força, sentindo o pulso acelerar ao lembrar da sensação de tê-la em meus braços. Não tinha sido sexo mecânico, nem um acordo frio de conveniência. Havia uma fome desesperada em cada beijo, uma necessidade urgente de sentir algo verdadeiro que me puxou para dentro do mesmo turbilhão.
Quando ela se aconchegou no meu peito de madrugada, respirando baixinho contra a minha clavícula, uma sensação estranha de paz e posse se instalou dentro de mim. Uma sensação que eu não sentia há tanto tempo que mal conseguia nomear.
E agora, o vazio do quarto zombava daquela ilusão.
O som insistente do meu telefone tocando sobre a mesa de cabeceira cortou o silêncio pesado da suíte. Resmunguei um palavrão e caminhei até lá para atender.
Na tela, o nome do meu assistente executivo brilhava. Deslizei o dedo pela tela.
- Fale, Mark.
- Bom dia, senhor Vance. Desculpe ligar tão cedo, mas o senhor tem uma reunião de diretoria em duas horas com os acionistas europeus. O carro já está a caminho do hotel para buscá-lo.
- Certo. Estarei pronto em trinta minutos.
- Mais uma coisa, senhor. O seu avô ligou para o meu gabinete há dez minutos. Ele quer saber se o senhor almoça com ele hoje na residência. Disse textualmente: "Diga ao meu neto cabeça-dura que se ele não aparecer, vou deserdá-lo e doar tudo para um asilo de gatos".
Um meio sorriso involuntário surgiu no canto dos meus lábios, aliviando minimamente o nó nos meus maxilares. Arthur Vance era a única pessoa na face da Terra que falava comigo naquele tom e saía impune.
- Diga ao meu avô que almoço com ele às uma da tarde. Mais alguma coisa?
- Apenas a senhorita Bennett. Ela ligou perguntando se o senhor compareceria ao baile de caridade no sábado.
A menção a Serena fez o resto da leveza desaparecer instantaneamente.
- Diga a Serena que estou ocupado e não pretendo ir a evento algum com ela. Já deixei clara a nossa situação meses atrás, Mark. Corte qualquer abertura.
- Entendido, senhor. Até breve.
Encerrei a chamada e joguei o aparelho sobre o colchão.
Caminhei até o banheiro, liguei a água fria na ducha e deixei que o impacto gelado acordasse cada músculo do meu corpo, tentando lavar o rastro que aquela desconhecida havia deixado na minha pele. Era ridículo. Eu era um homem adulto, pragmático e focado em resultados. Uma noite não definia nada.
Pessoas se encontravam, aliviavam a pressão do cotidiano e seguiam caminhos opostos todas as noites naquela cidade imensa. Era o padrão da vida moderna.
Por que, então, a ausência dela deixava um gosto metálico de derrota no fundo da minha boca?
Terminei o banho, me vesti com um terno cinza-chumbo impecável, ajustei a gravata de seda diante do espelho e coloquei o relógio de pulso. Ao lado da cama, me abaixei para conferir se algo havia caído durante a noite.
Perto do pé da mesa de cabeceira, quase escondido sob a saia da cama, vi um reflexo metálico.
Estendi os dedos e puxei o objeto.
Era um brinco pequeno. Uma peça delicada em prata envelhecida com uma pedra verde esmeralda cravada no centro, de desenho singular, quase artesanal. Claramente não era uma jóia industrializada dessas que qualquer herdeira rica comprava na Quinta Avenida. Tinha história. Tinha personalidade.
Fechei a mão ao redor do brinco. O metal frio esquentou rapidamente contra a palma da minha mão.
Guardei a peça no bolso interno do paletó, bem sobre o lado esquerdo do peito, e peguei minhas coisas.
Ao sair da suíte e caminhar pelo corredor silencioso em direção ao elevador privativo, uma certeza incômoda fincou raízes na minha mente. Aquela noite poderia ter acabado, mas aquela mulher ainda rondava os meus pensamentos como um enigma não resolvido.
E eu... eu odiava deixar qualquer coisa inacabada.
Capítulo 3 - O Peso de uma Escolha
Mia Collins
Sete semanas.
Esse era o tempo exato que havia se passado desde a noite no The Velvet Room. Quarenta e nove dias desde que eu deixei para trás um quarto silencioso na cobertura de Manhattan, calcei meus sapatos na ponta dos pés e fugi como uma ladra antes que os primeiros raios de sol tocassem o rosto do homem adormecido ao meu lado.
Eu ainda lembrava do calor da pele dele. Da sensação absurda de paz que experimentei nos minutos que antecederam minha fuga. Mas aquilo tinha ficado no passado, trancado em uma gaveta mental que eu me esforçava para não abrir. O que eu não esperava era que o passado cobrasse a conta tão cedo, de maneira tão irrevogável.
No banheiro minúsculo do meu apartamento alugado, minhas mãos tremiam tanto que o pequeno pedaço de plástico quase escorregou entre os meus dedos.
Duas listras vermelhas.
Nítidas. Sem margem para dúvida.
Apoiei as costas contra a porta de madeira desgastada e escorreguei até o chão frio, puxando os joelhos contra o peito. Minha respiração saía curta, entrecortada pelo pânico que subia pela garganta como ácido.
- Não, não, não... - sussurrei para o silêncio do cômodo, cobrindo o rosto com as mãos.
Eu estava grávida.
Grávida de um homem cujo nome eu sequer sabia. Um homem do qual eu guardava apenas a lembrança de um barítono rouco, um par de olhos escuros e a força protetora de braços que me seguraram no escuro.
Um teste de farmácia positivo já seria desesperador o bastante para qualquer jovem recém-formada que tentava entrar no mercado de design de interiores. Mas, na minha realidade, aquilo era uma sentença de morte social. Se a minha família descobrisse...
O som estridente de batidas pesadas na porta da frente cortou a linha dos meus pensamentos. Não eram toques gentis. Era uma pancada autoritária, daquelas que não pedem licença.
- Mia! Abra essa porta agora! - a voz estridente da Helena ecoou pelo corredor do prédio.
Meu coração saltou na boca. Me levantei em um pulo desajeitado, limpei as lágrimas que nem havia percebido que escorriam e joguei o teste dentro do fundo da lixeira do banheiro, cobrindo-o com papel higiênico. Lavei o rosto na pia com água gelada, respirei fundo três vezes e caminhei até a sala, destravando a tranca.
Assim que a porta cedeu alguns centímetros, Helena empurrou a madeira com o ombro e invadiu o espaço sem a menor cerimônia. Ela usava um casaco de pele sintética exagerado e óculos escuros que tirou com um gesto dramático. Logo atrás dela vinha Cecília, mascando chiclete com uma expressão de desdém puro, e, por último, meu pai, Robert, com as mãos enfiadas nos bolsos e a postura curvada de sempre.
- O que vocês estão fazendo aqui? - perguntei, mantendo o tom o mais firme que consegui, bloqueando a passagem para o corredor.
- Viemos acertar os detalhes que você tão covardemente vem ignorando nas últimas semanas - Helena disparou, cruzando os braços e examinando a sala simples com nojo evidente. - Gregory Stone ligou para o seu pai ontem à noite. Ele está impaciente, Mia. O noivado precisa ser anunciado neste fim de semana durante o jantar beneficente do clube.
Um embrulho violento revirou meu estômago. O nome daquele homem causava repulsa física em cada célula do meu corpo.
- Eu já disse que não vou me casar com ele - respondi, articulando cada sílaba com clareza. - Vocês não têm o direito de barganhar a minha vida para pagar as dívidas que o papai fez. Trabalhem. Vendam a casa. Façam o que quiserem, mas eu estou fora dessa equação.
Cecília soltou uma risadinha nasalada, dando um passo à frente com um sorriso venenoso.
- Sempre a filhinha moralista, não é? Acha que é boa demais para um milionário que bancaria todo o luxo que você nunca teve? Pois saiba que você não tem muita escolha, irmãzinha. Se o papai não fechar essa aliança, ele vai ser processado por fraude fiscal e vai apodrecer na cadeia. É isso que você quer?
Olhei diretamente para Robert. Ele continuava ali, perto da porta, sem coragem de me encarar nos olhos.
- É verdade, pai? - perguntei, sentindo uma mágoa antiga arder no peito. - Você realmente prefere me entregar para um abusador conhecido a assumir os erros dos seus negócios imbecis?
Robert engoliu em seco, passando a mão trêmula pela boca.
- Mia... por favor, entenda o meu lado. Stone prometeu perdoar toda a dívida da empresa. Ele vai colocar a família de volta nos trilhos. Você só precisa ser uma boa esposa, comparecer aos eventos ao lado dele... não é tão ruim quanto você pensa.
- Não é tão ruim? Ele bateu na última mulher, Robert! - gritei, perdendo o controle pela primeira vez. - O divórcio dela saiu há seis meses debaixo de medidas protetivas e processos sob sigilo! E você quer me colocar dentro daquela casa?
- Chega de histeria! - Helena interveio aos berros, avançando na minha direção e apontando o indicador com unha esmaltada de vermelho a centímetros do meu nariz. - Você vai se casar e ponto final! Stone é a salvação dessa família e você não vai arruinar tudo por causa do seu egoísmo nojento!
Eu estava pronta para mandá-los para o inferno e expulsá-los à força do meu apartamento quando uma pontada aguda me atingiu o ventre, seguida por uma náusea incontrolável.
O ar pareceu sumir dos meus pulmões. O cheiro do perfume enjoativo da Helena e o aroma forte de menta do chiclete de Cecília agrediram o meu olfato com uma violência brutal. Levei a mão à boca, empurrei o ombro da Helena para o lado e corri em desespero para o banheiro.
Caí de joelhos diante do vaso sanitário, vomitando com tanta força que meu peito doeu. A bile amarga queimava minha garganta enquanto espasmos involuntários sacudiam meus ombros.
- Mas o que é isso agora? - ouvi a voz de Helena vindo da porta do banheiro, com desconfiança afiada no tom. - Que teatro ridículo é esse?
Tentei puxar a descarga, mas Cecília foi mais rápida. Ela se abaixou ao lado da pia, o olhar curioso vasculhando o ambiente como o de um abutre farejando carniça. Seus olhos caíram sobre a lixeira perto do cesto de toalhas. O papel higiênico havia se deslocado com a pressa dos meus passos.
- Espera aí... - Cecília murmurou, enfiando a mão na lixeira antes que eu pudesse levantar.
- Larga isso, Cecília! - gritei, com a voz rouca, tentando agarrar o pulso dela.
Mas ela recuou um passo, erguendo o teste plástico contra a luz fluorescente do teto. Os olhos dela se arregalaram em uma mistura perversa de choque e triunfo doentio.
- Mãe... olha isso aqui.
Helena arrancou o teste das mãos da filha. Os olhos da minha madrasta percorreram as duas listras escarlates e depois pousaram sobre mim com uma fúria tão gélida que o sangue pareceu congelar nas minhas artérias.
- O que significa isso, Mia? - a voz dela soou baixa, quase sibilante como a de uma serpente pronta para o bote.
Apoiei a mão na bancada da pia e me levantei devagar, as pernas tremendo sob o meu próprio peso. Limpei o canto da boca com as costas da mão e mantive a cabeça erguida. O segredo estava exposto. Não havia mais para onde correr.
- Significa exatamente o que você está vendo - respondi, encarando-a sem piscar. - Estou grávida.
Um silêncio sepulcral caiu sobre o apartamento por alguns segundos. Robert se aproximou da porta do banheiro, empalidecendo ao ver o teste nas mãos da esposa.
- De quem é essa desgraça? - Helena avançou outro passo, a voz subindo de tom até se transformar em um rugido estridente. - De quem é esse bastardo, sua vagabunda?! Você está transando por aí enquanto a gente tenta salvar a sua vida? Quem é o pai?!
- Não é da sua conta - cuspi as palavras com todo o veneno que consegui reunir. - A única coisa que você precisa saber é que não vai haver casamento nenhum. Gregory Stone jamais aceitaria uma mulher grávida de outro homem. O plano de vocês acabou.
Cecília soltou uma gargalhada histérica.
- Ela acha que venceu, mãe! Ela realmente acha que nos deu um xeque-mate!
O rosto de Helena se transformou em uma máscara de pura crueldade calculista. Ela olhou para o teste, depois para Robert e, por fim, para mim. Não havia pânico nos olhos dela. Apenas uma determinação fria e nojenta que fez um arrepio de terror puro descer pela minha coluna vertebral.
- O plano não acabou, Mia. Ele só precisa de um ajuste rápido - Helena disse, a voz assustadoramente calma agora. - Você tem razão em uma coisa: Gregory Stone não pode saber disso. E não vai saber.
- Do que você está falando? - perguntei, dando um passo involuntário para trás, até bater as costas contra os azulejos do boxe.
- Você vai se livrar dessa coisa - Helena declarou, sem hesitar um segundo sequer. - Hoje mesmo. Conheço um médico no Bronx que resolve esse tipo de problema em meia hora, sem perguntas e sem registro médico. Amanhã você vai estar limpa e pronta para cumprir o seu papel.
- Ficou maluca?! - gritei, o desespero rompendo qualquer barreira de controle. Olhei para o meu pai, suplicando com os olhos. - Pai! Pelo amor de Deus, ouça o que essa mulher está dizendo! É o seu neto! É o meu corpo! Você vai permitir isso?!
Robert desviou o olhar para o chão de novo, incapaz de sustentar o meu desespero. A voz dele saiu fraca, patética:
- Mia... a Helena tem razão. Um bebê agora arruinaria tudo. Você é jovem, vai ter outros filhos quando estiver casada com uma vida estável. É o melhor para todo mundo.
Aquilo foi o golpe de misericórdia. O homem que deveria me proteger de qualquer perigo no mundo acabava de me entregar de bandeja para o abatedouro.
- Eu nunca vou fazer isso - declarei, as lágrimas escorrendo quentes pelo meu rosto, mas a mão pousada firmemente sobre o meu ventre plano em um gesto instintivo de proteção. - Eu vou ter esse bebê. E vocês nunca mais vão encostar um dedo em mim. Saiam daqui agora ou eu ligo para a polícia!
Helena trocou um olhar rápido e sombrio com Cecília. Havia algo conspiratório e terrivelmente calculado naquele silêncio que se seguiu.
- Não precisa se alterar tanto, querida - Helena disse, sua voz mudando de tom de forma tão abrupta que pareceu bizarra. Ela guardou o teste na bolsa e ajeitou o casaco. - Você está nervosa, com os hormônios alterados. Vamos conversar com calma mais tarde. Robert, Cecília, vamos embora. Deixem a Mia descansar.
Eles se viraram e saíram pelo corredor, batendo a porta da frente ao sair.
Fiquei parada no meio do banheiro, respirando com dificuldade enquanto o silêncio pesado tomava conta da casa. Meu corpo inteiro tremia em choque. Mas, sob o medo e a repulsa pela minha família, uma certeza inegociável nasceu dentro de mim: aquele bebê que começava a crescer no meu ventre não pagaria pelos pecados de ninguém.
Eu ainda não sabia o que o futuro reservava, mas sabia que lutaria até o meu último suspiro para mantê-lo a salvo.