Eu não sou a mocinha em perigo que precisa ser salva, se olhar bem de perto vai perceber que eu nem sou a mocinha.
Passei parte da minha vida em regime militar e depois de cometer um erro em uma operação secreta, fui recrutada pelo governo para usar minhas habilidade seduzindo homens importantes e tirando informações deles, mas como qualquer mulher com o mínimo de amor próprio, eu odiava isso.
Então quando recebi a chance de salvar o resto da minha dignidade em um novo emprego, aceitei sem pensar duas vezes. Eu não estava certa se fazer parte de uma equipe era uma boa idéia e tive a certeza quando quase botei tudo a perder novamente. Não que meu novo trabalho fosse uma merda, o problemas é que quando você dorme com um desconhecido e acorda na manhã seguinte sabendo que ele é seu superior, você finalmente se dá conta que tem uma vida fodida.
Capitão John Hale. Um homem quente e sedutor, sua beleza máscula e imponente faz até as mulheres imparciais ou resistentes a um homem fardado hiperventilar só em vê-lo. A tempestade com 1,90 de altura, é o homem mais atraente que eu já conheci e embora ele me odiasse, meu corpo fervia toda vez que eu olhava pra ele.
No dia em que nos conhecemos eu estava me despedindo de Londres e só queria uma companhia em minha última noite solitária na cidade.
O problema é que eu não costumo falar quem é meu pai e isso fez com que o capitão ficasse um pouco irritado, já que transar loucamente com a filha do general, seu superior, não é o mais indicado em nosso meio de trabalho.
Meu pai, general Miller. Um homem egocêntrico e vaidoso que não costuma ser contrariado e por pena resolveu me dar uma chance de salvar o resto da minha dignidade me oferecendo uma vaga em sua equipe de elite nas forças armadas, onde John é o capitão.
Naquela noite, eu não tinha como saber quem ele era e apesar de lamentar, eu com certeza faria tudo novamente e esse é meu grande problema.
Por me entregar demais, eu consegui acabar com a minha carreira, a única coisa que eu era boa de verdade e no processo, arrastei algumas pessoas comigo. Mas ao mesmo tempo que a vida foi tão medíocre, ela conseguiu ser graciosamente generosa me dando a chance de recomeçar no Kansas, bem aqui no meio do nada.
É estranho como o destino tem uma forma curiosa de colocar as coisas. Quando você acredita estar tão destruída, ele simplesmente te surpreende e então você encontra um motivo para seguir em frente. O meu motivo era moreno, alto, tinha cabelos e olhos castanhos misteriosos e profundos e um corpo de tirar o fôlego.
Ele é do tipo de pessoa que dá paz e a tira ao mesmo tempo, é como uma brisa fresca num dia quente no deserto... aos poucos foi virando uma droga pra mim, viciante, intenso e profundo.
Mas alguém como eu, tão quebrada não poderia amar de novo, já que amor e confiança eram algo que eu prometi a mim mesma que nunca iria dar de presente.
Grósnia - Chechênia.
Eu já estava ali parada a mais de uma hora. Com certa impaciência eu observei o homem baixo e robusto saindo do carro enquanto era escoltado pela sua comitiva de guarda-costas desajeitados. Ele atravessou a rua despreocupadamente e seguiu para o mesmo bar de todas as noites, deixando seus brutamontes do lado de fora.
Assim que entrei no lugar senti olhos em todas as partes, o minúsculo vestido e o salto alto irritante parecia cumprir bem seu propósito. Continuei caminhando e me sentei ao seu lado. Com as mãos, sacudi meus cabelos castanhos espalhando sob minhas costas, segurando apenas alguns fios e girando entre dois dedos.
- Tequila com tônica - ele pediu enquanto afrouxava sua gravata.
- O mesmo pra mim, por favor!
Fixei meus olhos no barman a frente enquanto senti os olhos do homem desconhecido ao meu lado.
- É uma bebida forte para uma mulher tão delicada.
- Uma garota precisa aprender a se virar - respondi sem desviar os olhos.
Ele esboçou um sorriso leve, enquanto colocava os cotovelos sobre a mesa apoiando as mãos sobre o queixo.
- Já nos conhecemos? - ele perguntou interessado.
- Não. Você provavelmente se lembraria - respondi ousadamente. O que o fez sorrir novamente.
- Disso você tem razão. Acho que caras como eu não esquecem mulheres como você.
- Mulheres como eu? - perguntei fixando meus olhos nos seus.
- Bem...- ele começou a falar, enquanto seus olhos examinavam descaradamente cada parte do meu corpo mal coberto pelo minúsculo vestido -É uma garota de luxo, gosta de homens exigentes já que eles tendem a ser mais generosos, que pague sua bebida, um jantar...
Eu ri alto, enquanto descansava gentilmente minhas mãos em sua perna, o encarando com olhos sedutores.
- Estou impressionada! O que posso dizer, sou uma mulher com gosto peculiar e que sabe apreciar os intelectuais.
- E supôs que eu sou um porque uso óculos?
- Não - eu me inclinei sobre ele, revelando o grande decote exibindo a curva dos meus seios - Eu sei disso porque você lê Guerra e Paz - eu apontei para a sua pasta que estava aberta exibindo parte da capa do livro.
- Então acha que só os intelectuais lêem Guerra e Paz?
Eu me aproximei sussurrando em seu ouvido - Eu acho que só os inteligentes o lêem - percebi quando seus pêlos do pescoço se arrepiaram enquanto sentia seu rosto quente e suas orelhas levemente rosadas.
Seus olhos se apressaram em encontrar os meus e percebi urgência em sua voz, agora soando um pouco mais rouca.
- Quer sair daqui?
- Eu sou uma mulher bem cara - respondi enquanto alisava sensualmente seu terno elegante.
- As caras são sempre as melhores - ele respondeu confiante, enquanto me conduzia pela mão à saída.
Ao encontrarmos seus guarda-costas, ele apenas dispensou seus serviços e pediu que não nos incomodasse pelo resto da noite.
Que estúpido. Tão incrivelmente estúpido!
Eu agarrei sua mão, enquanto ele me guiava em direção a uma área nobre no centro, onde adentramos no enorme e elegante edifício.
Assim que alcançamos sua suíte, percebi que ele estava nervoso. Talvez porque transar loucamente com uma prostituta de luxo antes de voltar para casa, o excitava.
Já fazia algumas noites que eu o seguia e sabia do seu segredinho sujo.
O homem me encarou em silêncio enquanto tomava alguns goles do seu uísque caro, logo em seguida, tomou coragem o suficiente para se aproximar de mim e pressionar sua boca ligeiramente bêbada na minha.
- Hoje a noite, vou garantir que você grite meu nome - ele disse tentando ser viril e sedutor.
Lamentável.
Minhas mãos deslizaram sob seu terno caro e enquanto nos beijavámos passei lentamente sua gravata ao redor do pescoço e com um movimento rápido eu girei e me posicionei em suas costas o enforcando com ela. Suas mãos lutaram desesperadamente para desengatar o nó, enquanto eu a prendia firmemente ao redor do seu pescoço.
- Desculpe amor, mas não vai rolar - eu disse enquanto soltava seu corpo robusto no chão.
Alcancei a mesa onde ele deixou sua pasta e a vasculhei em busca do disco rígido até encontrá-lo.
Ajeitei meu cabelo e chequei o vestido, em seguida abri a porta torcendo que seus brutamontes não estivessem parados ali. O fato de seu chefe ter sido tão rápido comigo provavelmente os alertariam, ou não. De qualquer forma, eu não queria ter que lidar com eles agora.
Touchê!
Parece que a ordem de não ser incomodado foi seguido à risca.
Desci graciosamente a escada que dava acesso ao grande saguão, acenando gentilmente para o porteiro que se curvou levemente me desejando uma boa noite.
Assim que alcancei o carro que me aguardava na saída do prédio, seguimos direto para o ponto de extração onde o helicóptero me esperava.
- Você conseguiu? - o motorista perguntou assim que partimos.
- Eu não estaria aqui se não tivesse conseguido.
Assim que chegamos no ponto de encontro, dois homens me encontraram com expectativa em seus olhos. Eu sorri para eles enquanto aguardava estrategicamente que o motorista se posicionasse ao seu lado saindo de trás das minhas costas. Eu não queria surpresas.
- Está com o objeto? - um deles perguntou.
- Eu sinto muito rapazes, mas não posso fazer isso.
Eles se olharam sem entender, até que seus olhos pousaram em minha arma que estava apontada em sua direção.
- Como é que é vadia? Está nos traindo?
- Não, porque pra isso eu teria que trabalhar junto com vocês - eu respondi asperamente - e eu trabalho sozinha -finalizei colocando uma bala em cada cabeça.
Eu não poderia deixar o conteúdo daquele disco rígido cair nas mãos erradas. Aqueles homens faziam parte de uma gangue Chechenha e iriam vender no mercado negro as informações contidas ali. Eles não eram os caras bons.
Eu sei o que parece, é o sujo falando do mal lavado, afinal a verdade é só uma questão de perspectiva. Mas pode acreditar, ali eu é que era a mocinha.
Londres - Inglaterra.
Assim que cheguei a sede do SSB, fui instantaneamente recepcionada por olhos julgadores em todas as partes.
Caminhei mecanicamente até a sala do vice-diretor de operações, desejando que nossa conversa fosse a mais breve possível.
Eu odiava despedidas, mas odiava ainda mais aquele lugar. Detestava saber o motivo de ser mandada pra cá, minhas lembranças me atormentavam toda vez que meus pés tocavam aquele maldito prédio.
- Sam, sente-se - Daniel sorriu enquanto apontava para a cadeira à sua frente.
- Desculpe senhor, mas não pretendo demorar - eu disse recusando a oferta gentilmente.
- Parece que alguém não vê a hora de dar o fora daqui - ele disse com um sorriso fraco - É uma pena estar nos deixando, Sam.
- Você sabe que eu já deveria ter feito isso a dois anos, Dan.
- O que eu sei, é que você deveria ter superado isso a dois anos. O que aconteceu e como veio parar aqui, não foi culpa sua.
O senhor negro, calvo de olhos grandes e gentis, com certeza era a única pessoa de quem eu sentiria falta nesse lugar. Além de meu chefe, Dan foi um ótimo amigo e não me desamparou quando o pior aconteceu e todos se viraram contra mim.
- As pessoas aqui não acham isso. Todo mundo nesse lugar me odeia e eu nem posso culpá-los.
- Como é que as pessoas vão te perdoar se nem você consegue fazer isso? - sua voz soou em tom mais melancólico do que eu gostaria e seus olhos me observavam com tristeza.
Eu peguei o disco rígido recuperado na Chechênia e o entreguei, ignorando seu olhar de pena.
- Acha que está pronta para trabalhar em grupo novamente? - ele perguntou preocupado.
- Sim, senhor - respondi, forçando meu melhor sorriso já que precisava que ele acreditasse, pois não tinha a menor intenção de emendar essa conversa.
- Não minta pra mim, garota, eu te conheço.
Droga, tarde demais!
- Dan o que quer que eu diga? - eu disse cruzando os braços -Eu não posso mais continuar aqui. Eu odeio ter que atrair e manipular pessoas, eu só quero fazer meu trabalho sem ter que mentir sobre quem eu sou-desabafei.
- Desculpe, você está certa. Use tudo o que aprendeu aqui para fazer seu trabalho valer a pena. Acho que no fim das contas, estou sendo um filho da mãe egoísta não te deixando partir - ele disse soltando um longo suspiro - Eu só pensei que com o tempo as coisas ficariam mais fáceis pra você.
- Eu vou ficar bem, Dan - eu garanti, suplicando intimamente para não termos essa conversa... de novo
- Eu só estou cansada e ainda preciso terminar de empacotar algumas coisas pra mudança.
Ele me observou calado por alguns segundos que pareceram horas, enquanto eu abaixei meus olhos tentando fugir dos seus.
Eu esperei por um sermão, alguma lição de moral ou um último conselho. Mas ele não falou nada, apenas me observou com seus olhos tristes enquanto soltava um longo e pesado suspiro.
- Eu vou sentir sua falta, querida - ele disse seguindo até mim e me abraçando gentilmente - A agência com certeza vai lamentar a perda de uma das suas melhores agentes.
Segui meu caminho com suas últimas palavras ecoando em meus ouvidos. Eu tinha me colocado ali e é assim que pessoas como eu acabam. A SSB é uma agência que treina pessoas para tirar informações através de manipulação e eu estava tão farta disso.
Assim que cheguei em casa, me livrei dos malditos saltos que ferviam sob meus pés. Em seguida, tirei a pistola da minha coxa junto com a tira áspera que a prendia e antes que pudesse colocá-las sob a mesa, eu apontei a arma para a silhueta que se moveu sentada no escuro.
- Meu Deus do céu, Miller! Quer levar um tiro? - eu bufei de raiva quando reconheci seu rosto.
- Você sabe que eu odeio quando me chama assim - ele respondeu.
- E você sabe que eu odeio quando invade meu apartamento, droga!
- Tenha mais respeito. Eu sou o seu pai, garota.
- Isso não te dá o direito de invadir, pai. Será que não dá pra bater na porta como uma pessoa normal?
- Eu não ia ficar lá fora esperando -ele se defendeu, levantando e caminhando em minha direção.
Miller sabia o quanto eu odiava as invasões que fazia no meio da noite ao meu apartamento, mas ele não ligava. O general teimoso e egocêntrico costumava me deixar furiosa com bastante frequência e ele parecia adorar isso.
- Acabei de saber sobre a Chechênia. Meus parabéns! - ele disse-Aquele disco rígido está cheio de informações valiosas.
- Eu deixei a agência faz vinte minutos - eu questionei colocando as mãos na cintura - Como é que consegue saber dessas coisas tão rápido?
- É a parte boa de ser quem eu sou minha cara. Privilégios - ele disse me fazendo revirar os olhos com a sua costumeira falta de humildade.
- Você não precisa vir aqui cada vez que retorno de uma missão, pai - eu protestei irritada - Isso já está ficando chato.
- Bem... eu não vou mais precisar, já que estará comigo nos próximos dias - ele sorriu vencedor.
Eu bufei enquanto meus lábios formavam uma linha reta. Apesar de tudo, eu ainda não estava certa se deixar a minha vida em Londres era a melhor decisão.
Mas que porra de vida você tem aqui, Samantha?
Eu não tinha. Não mais.
Tudo o que consegui acumular nesses últimos anos foi um amontoado de frustrações e perdas pelo caminho.
- Eu só não sei se estou pronta para deixar Londres.
- Não há mais nada pra você aqui, Sam. Lembre-se que os Estados Unidos também é a sua casa. Pense nisso como uma nova chance - ele disse enquanto se aproximava - Um novo recomeço. Você precisa disso, querida.
- Eu já estou fazendo isso pai- sussurrei - Estou tentando recomeçar a dois malditos anos.
- Isso não é recomeço, Sam. Trabalhar sozinha nessas missões disfarçadas e se arriscando o tempo todo sem ter apoio, não é vida pra você.
- Eu dou conta.
- Eu sei. E é exatamente por isso que eu te recrutei para fazer parte da minha equipe.
Meu pai coordenava uma equipe de inteligência militar antiterrorismo no Kansas. Com o meu treinamento e experiência como agente de campo, ele estava me dando a chance de provar que eu ainda tinha algum valor e fazer as coisas certas dessa vez.
Lembrar do passado me assombrava. Pensar em quanto sofrimento eu causei e das pessoas que eu perdi no caminho apenas por confiar em mim, fazia meus demônios urrar dentro da minha cabeça.
Para o general, no entanto, era a chance de recuperar o tempo perdido com sua única filha. Eu sabia que depois do que aconteceu, ele não confiava mais no meu julgamento ou na minha habilidade de agente treinada. Agora era só a chance de finalmente termos um relacionamento pai e filha fácil e saudável.
Na verdade, nós nunca tivemos um relacionamento. Eu passei a minha infância vendo meu pai raramente. Na adolescência era uma vez por ano, depois... bem, o depois foi a dois anos atrás, quando ele me visitou na UTI.
Eu sabia que essa era a única, se não a última chance que teríamos e eu tinha que ao menos tentar.
- Amanhã vai haver uma condecoração e eu vou discursar. Gostaria que estivesse lá - ele disse, interrompendo meu auto flagelo.
Eu levantei as sobrancelhas em surpresa - Uma festa? Não, Obrigada!
Ouvir o discurso arrogante, orgulhoso e presunçoso de um general que adora ser bajulado, não está na minha lista de prioridades.
- Poderia ao menos considerar? Significaria muito pra mim. Eu realmente estou tentando, Sam.
Sim, ele falava de nós. Estávamos tentando ser uma família de novo desde que o general me encontrou entre a vida e a morte no St. Mary's.
Apesar de crescer na América, eu considerava Londres como minha casa já que também era Inglesa por parte de mãe.
Eu suspirei alto, balançando a cabeça e concordando.
Assim que se despediu, eu segui para o banho cheia de remorso inesperado e indesejado. Minha vida estava uma bagunça e eu sabia que ficar ao lado da única pessoa que me restava era a minha melhor opção no momento.
Afinal, não há nada de errado em recomeçar longe de tudo o que te machuca, quando você está tão destruída e quebrada por dentro.