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A Flor da Esperança - Livro I

A Flor da Esperança - Livro I

Autor:: Rachel Raya
Gênero: Romance
Ravenna Osborne cresceu sob o manto de um pai poderoso e influente, o famoso Duque de Northumberland, o que a deixava em uma situação confortável para ser livre e tomar suas próprias decisões. Porém, ela aprende da pior maneira que algumas atitudes podem ter consequências desastrosas que mudarão de uma vez por todas seu futuro. Nesse romance de época embarque na jornada de amadurecimento de uma mulher à frente de seu tempo que busca uma segunda chance de corrigir seus erros do passado. Será que ela conseguirá superar a dor que reside dentro de si e permitirá que as cicatrizes que outrora a relegavam a uma vida vazia, finalmente se fechem?"Ravenna é uma protagonista que você se questiona a todo tempo "eu gosto dela?". Raya propositalmente fez uma personagem imperfeita, que na arrogância de sua juventude e poder, toma as decisões sem pensar nas consequências" (Um Livro Nos Contou.)

Capítulo 1 PRÓLOGO

Copyright © 2021 Rachel Raya

Registro: Fundação Biblioteca Nacional

Capa: Tomaz Lopes

Revisão e diagramação: Ana Zarpelon

Rachel Raya. ― 2ªed ― Publicação independente

2021.

1. Literatura brasileira 2. Romance de época

A autora desta obra detém todos os direitos autorais registrados perante a lei. Em caso de cópia, plágio e/ou reprodução completa e/ou parcial indevida sem a autorização, os direitos do mesmo serão reavidos perante à justiça.

"Lei nº 9.610, de 19 de fevereiro de 1998."

Esta é uma obra de ficção. Nomes, personagens, lugares e acontecimentos descritos são produtos da imaginação do autor. Qualquer semelhança com nomes, datas e acontecimentos reais é mera coincidência.

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Para meus pais que me amam incondicionalmente, suportam meus estresses e patrocinam meu novo vício em chá de camomila.

Para a Ana Zarpelon, que me inspirou de diversas formas e aturou minhas milhões de mensagens no WhatAspp.

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Ravena, Itália. 1825

Para um casal aristocrata britânico acostumado a mudar-se para outros países conforme a Coroa determinasse, morar em um país como a Itália era um adorável presente que chegara em ótima hora para a família. Nem mesmo a animada Paris conseguia devolver uma alegria genuína ao casal. O que era uma grande surpresa, já que a cidade era famosa por suas infinitas formas de alegrar uma pobre alma.

Muitas mulheres, inclusive várias do círculo social da Senhora Osborne, não suportariam a vida de esposa de um diplomata, diferente de Marissa, que amava viajar com o marido e sentia-se esplêndida por ele partilhar com ela o que ocorria em seus trabalhos de campo, como ele costumava chamar. Costumava achar admirável a dedicação do marido ao trabalho, e a adrenalina de envolver-se em aventuras pelo continente ao lado de seu grande amor. Mas esses foram outros tempos, ela ainda amava tudo o que o marido conquistou, porém sentia que seu coração precisava de descanso. Agora ela era mãe e desejava segurança e calmaria para poder criar sua família e cuidar de seu marido. Sentia falta de pertencer a apenas um lugar e criar raízes. Jamais diria isso à James, é claro, pois sabia que o marido desistiria do trabalho e embarcaria com ela e Berlin para Londres na manhã seguinte, o que não seria justo com ele.

James dedicara a vida a sua carreira e tudo o que eles possuíam eram graças aos seus esforços, já que Marissa não possuía um dote e o pai de James recusava-se a favorecer o segundo filho. Sabia a vida que ele levava antes de aceitar o pedido de casamento. James tentara fazê-la entender de todas as formas o que aconteceria a ela se a desposasse, e Marissa aceitou de bom grado aquela vida, mas agora sentia falta da Inglaterra, talvez os últimos acontecimentos a fizessem sentir-se dessa forma, ou talvez fosse seu desejo de proteger com unhas e dentes essa nova vida que carregava dentro de si.

Marissa e James Osborne amavam a irreverência e a amabilidade do povo italiano, e a forma como ela e seu marido foram acolhidos pelos habitantes da cidade trouxera certo alívio aos seus corações, ainda enlutados mesmo após dois anos. Depois de passar três longos anos em Paris, finalmente poder mudar-se para um lugar novo trazia aos Osborne a esperança de um novo começo. Fazia apenas alguns meses desde sua chegada à cidade e o casal aguardava a chegada do terceiro bebê. O que trazia aos dois alegria, e também medo de que a história pudesse repetir-se.

A noite estava fresca, a brisa suave e as estrelas iluminavam o céu italiano da cidade de Ravena como gotas de prata numa imensidão escura. Os Osborne voltavam para casa em sua carruagem após um animado jantar na residência da família Coppola, um comerciante amigo de James, quando Marissa começou a sentir fortes dores e em seguida um líquido desceu por suas pernas molhando suas roupas.

- Oh não, James! A criança só deveria chegar no próximo mês! - Desesperada ela sentiu suas pernas perderem as forças e suas mãos começaram a tremer, estava prestes a reviver seu pior pesadelo.

James a abraçou e ordenou ao cocheiro que fosse o mais depressa que pudesse.

- Tenha calma, minha querida. Logo chegaremos em casa e chamarei um médico para nos ajudar. Tudo ficará bem. Eu prometo.

Marissa escondeu o rosto no peito do marido em busca de algum conforto para a dor que já despontava entre suas pernas.

- Eu estou com medo, James... e se... - Sem terminar a frase ela sentiu a garganta queimar e o peito arder.

- Essa criança nascerá e viverá uma vida saudável e feliz. Não se preocupe. Eu estarei ao seu lado o tempo todo - ele disse, em tom reconfortante.

Ao chegarem à entrada da residência, o marido a pegou em seus braços e a levou para o segundo andar. Vendo a esposa entrar em pânico em seus braços, James tentou acalmá-la e a si mesmo:

- Meu amor, não tenha medo. Desta vez será diferente, eu prometo - beijando a testa dela enquanto a carregava, ele continuou tentando acalmá-la. - Um médico eficiente virá e tudo ocorrerá como planejamos, nosso filho ou filha chegará ao mundo com saúde. - Ele a colocou gentilmente sobre o colchão e ajeitou os travesseiros para que ela possa deitar.

Pouco depois o médico já se encontrava nos aposentos do casal ajudando Marissa a trazer uma criança ao mundo. James segurava a mão da esposa enquanto ela fazia força e empurrava a criança para fora de seu corpo. Não era comum que o marido assistisse ao parto, porém, todos sabiam que o Senhor Osborne jamais deixaria a esposa só em um momento como aquele.

O suor molhava sua testa e o médico tentava incentivá-la a não perder as esperanças de uma criança saudável. Marissa chorava preocupada pela criança que, segundo as instruções do médico francês que a examinara meses antes, só deveria nascer quatro semanas mais tarde.

O trauma de perder a segunda filha, Paris, que nascera prematura, deixara a família desolada. Para desespero do casal, na noite anterior completara dois anos desde de que Paris deixara este mundo. James e a esposa preocupavam-se que a tragédia tornasse a acontecer, levando ao túmulo mais uma semente do amor dos dois.

O filho mais velho dos Osborne esperava do outro lado da porta ansioso por notícias de sua mãe e seu irmão ou irmã. Quem sabe dois bebês de uma só vez? Paris poderia voltar para eles e trazer mais um irmão junto. Ele pensou, de forma inocente. Berlin torcia por uma menina, assim a mãe poderia ficar feliz e parar de chorar por Paris. Sua irmãzinha que - muito decidida para alguém que havia acabado de nascer - resolveu virar um anjo e sair de casa para morar no céu.

A criada responsável por cuidar do menino finalmente o achou e, convencendo o rapazinho que seria melhor aguardar em seu quarto escolhendo qual livro leria para o bebê, conseguiu arrancar a criança da porta do quarto dos pais.

-Aguente firme, querida. Você está quase lá - James a encorajou, tentando transmitir segurança para a esposa. - Ficará tudo bem, confie em mim. Eu já a desapontei antes?

Marissa conseguiu esboçar um sorriso e responder ao marido as mesmas palavras de sempre:

- Apenas uma vez... quando dançou com Lady Lastings antes de mim. - As dores das contrações recomeçaram e ela voltou a empurrar a criança para fora de seu ventre.

Após mais algumas contrações e gritos de dor, Marissa Russell Osborne deu à luz a sua terceira filha. A menina de cabelos escuros como carvão berrava a plenos pulmões exigindo ser alimentada e idolatrada pelos pais. "Uma pessoa tão pequena e já demonstra sinais de uma grande personalidade", Marissa pensou ao olhar a filha. James sorria abraçado à esposa, aquela era sua princesa. Já conseguia imaginar-se batendo em centenas de cafajestes que correriam atrás dela, pois sabia que sua filha seria dona de uma beleza e personalidade sem igual.

- Graças aos céus! Ela é uma menina saudável e forte, mio Signore. Creio que o dottore que examinou sua esposa tenha falhado em determinar o período da gestação. Sua figlia não é uma criança prematura, eu diria que ela nasceu no tempo certo de uma gestação normal. - O médico disse, feliz por ter concluído o parto sem nenhum tipo de complicação. - Já decidiram como vão chamá-la?

James olhou para a esposa que acenou a cabeça em concordância, antes mesmo dele sequer proferir qualquer palavra. Ele sorriu para ela em uma espécie de linguagem que apenas os dois compreendiam. Ambos estavam de acordo em manter a tradição que criaram de nomear seus filhos com os nomes das cidades onde nasciam. Como James precisava mudar-se para outros países à trabalho, sua esposa teve a ideia de batizar os futuros filhos em homenagem aos lugares que serviram como seu primeiro berço. James, incapaz de negar qualquer pedido a ela, adorou a ideia abraçando-a como sua. Voltando-se para o homem baixo e calvo parado próximo a porta, ele respondeu:

- Ela se chamará Ravenna Emerald Russell Aldwin Osborne.

Capítulo 2 ep

Dezesseis anos depois

Inglaterra, 1841

Ser filha de um duque trazia inúmeros benefícios e, talvez, algumas liberdades que outras damas inglesas jamais poderiam aproveitar, sem que fossem rechaçadas pelas matronas que regiam quem deveria ser aceito, ou tornar-se pária da sociedade. Junto dos benefícios vinham grandes responsabilidades, já que a imagem da família era um espelho para toda a nobreza. Algumas damas conseguiam tornar-se em duquesas, o que daria uma certa autonomia para as felizardas, mas não uma real liberdade, pois mesmo estando abaixo apenas da realeza, nem todos os duques possuíam grande influência na sociedade. Alguns estavam afundados em dívidas devido à má administração de suas heranças, ou pela falta de adaptação às mudanças advindas da modernização, seja na agricultura ou nas minas.

O que muitos não entendiam, era que ser filha de um duque não bastava para que uma jovem como Ravenna tivesse toda a liberdade que desejava, qualquer duque inglês não seria suficiente para seu espírito. A única maneira de conseguir viver suas aventuras e realizar seus sonhos, era ter nascido filha de James Prescott Russel Aldwin Osborne, o sexto Duque de Northumberland. Um dos maiores diplomatas de sua época. Um homem que entendia a complexidade do sexo feminino, acolhia e incentivava o senso crítico de seus dois filhos, educando ambos igualmente e os preparando para lutar pelo que acreditavam.

Quando Ravenna nasceu, seu pai ainda não dispunha do título de duque, porém, semanas após Ravenna completar sete anos de vida, o irmão de James, John, morrera precocemente ao ser catapultado por seu cavalo e ter o pescoço e a coluna quebrados em vários pontos. O falecimento de John fora uma tragédia inesperada para toda a sociedade que o tinham em alta estima, o que causou tamanha comoção a ponto de dias depois levar o quinto duque, avô de Ravenna, para o túmulo. Deixando assim, todo o extenso ducado nas mãos de James, que preferia ser tudo, menos um duque. Joseph, o irmão caçula, odiava a ideia de assumir a responsabilidade, preferindo viver uma vida de aventuras explorando cidades perdidas em outros países. O caçula Osborne detestava o pai então nem se deu ao trabalho de voltar à Inglaterra para o velório, parabenizou o irmão através de uma carta sincera e continuou com suas viagens. Depois dessa terrível tragédia, James retornou à Inglaterra com a família para assumir o lugar de seu pai e de seu irmão.

Na semana anterior ao seu aniversário de dezesseis anos, Ravenna decidira cavalgar com sua melhor amiga, Eva, e uma prima da parte de sua mãe que viera para seu aniversário. Como suas propriedades eram vizinhas, podiam encontrar-se sempre que desejassem. Eva, ou senhorita Mela, como Ravenna costumava chamá-la, era considerada como membro honorário da família Osborne, autorizada a chamar o duque e a duquesa de "tio James" e "tia Mary" - o que era uma honra e tanto considerando a posição social em que estava - e a chutar a canela do herdeiro ducal quando este resolvia importunar as jovens com suas histórias sobre grandes filósofos e um tal de Platão. Eva era um ano mais velha do que Ravenna, considerava os Osborne como parte de seu lar e amava a dinâmica familiar que os pais da amiga decidiram adotar. A amizade dos Osborne e dos O'Hara surgira anos antes do nascimento de suas filhas, James sempre investira em novas indústrias e resolvera investir na fábrica O'Hara, o que o aproximou de Dominic, criando um forte laço de amizade entre os dois homens. A amizade da geração anterior prolongou-se até as filhas, que formaram uma dupla inabalável composta pelas duas personalidades mais distintas da Inglaterra.

- Eu decidi que este ano dedicarei mais tempo à leitura. - Disse Ravenna, enquanto trotava suavemente pelo campo.

Eva a olhou atônita pela revelação feita pela amiga e disse:

- Você? Dedicando-se à leitura mais do que antes? - Eva riu e rebateu em tom debochado - Acho mais fácil você pintar vinte quadros em dois dias do que passar uma tarde agarrada a um livro.

- Dio mio... está me chamando de ignorante, senhorita Mela? - Ravenna a recriminou a chamando por seu apelido que significava maçã em italiano.

Eva caiu na gargalhada ao contemplar o olhar de reprovação de Georgiana, que interveio para tentar amenizar os ânimos das amigas e ainda ofereceu um olhar de reprovação à Eva ela dizendo:

- Rave, acredito que o que ela quis dizer, é que você é uma pessoa dada mais às artes plásticas do que a literatura, o que não é uma ofensa. Não seja tão afetada, querida prima.

Ravenna riu ao observar a prima tentando apaziguar seus ânimos e respondeu:

- Acalme-se, minha querida prima. Eu apenas fingi estar ofendida. - Com um tom de voz desdenhoso ela prosseguiu - Não poderia me ofender sabendo que Mela diz a verdade. Não é mesmo, querida? - Ela enviou um beijo a Eva através do vento e piscou o olho esquerdo em um flerte coquete.

Georgiana balançou a cabeça em sinal de desistência, aquelas duas eram impossíveis. Não conseguia desvendar quando falavam sério ou apenas implicavam uma com a outra.

- Rave, conte-nos o motivo de sua nova devoção ao mundo literário. O que pretende ler? Filosofia ou romances? - A prima questionou.

- Georgie, minha querida florzinha. Não lhe ensinaram que uma mulher em busca de um bom casamento jamais deveria ler filosofia, ou livros que abram os olhos femininos para a verdade de que somos tão humanas e criaturas de Deus como qualquer homem? - Ravenna disse em total cinismo. - Jamais leria livros que me impediriam de ser uma mula adestrada por um homem tapado, que ultraje...

Eva soltou uma estridente gargalhada, que logo impulsionou as outras a juntar-se a ela.

-Ravenna, você definitivamente não vale uma libra sequer, quem dirá um xelim. - Eva disse, secando as lágrimas dos olhos. - Não sei como acreditei em sua dedicação à leitura por um breve momento, talvez seja porque tio James vive pedindo para que você leia pelo menos alguns textos esclarecedores. Há uma quinzena ele lhe entregou alguns livros sobre modernização da agricultura, e lembro de você tê-los esquecido "acidentalmente" na sala privativa de tia Marissa.

- Sim, eu sei. Não pense que não dou ouvidos às palavras de papà. - Ajeitando uma mecha de cabelo rebelde que escapava de sua trança ela continuou:

- Eu leio todos os livros que ele me pede, apenas demoro mais do que uma pessoa habituada a ler diariamente. No último mês li Oliver Twist graças a grande importunação de meu irmão. Não posso negar o quão excelente é a narrativa e como ele consegue mostrar a realidade da nossa sociedade através de um romance.

As duas jovens contemplaram Ravenna como se estivessem surpresas por ela sequer conhecer Charles Dickens, e mais ainda por ter gostado de um de seus livros.

- O que foi? Realmente acham que não possuo sequer um pequeno conhecimento literário? - Bufando ela desmontou de seu cavalo e atrelou as rédeas a um galho baixo próximo ao rio.

- Perdoe-me, Rave. Não sabia que vinha dedicando-se aos livros, achei que gastasse seu tempo livre pintando ou cavalgando. - Georgiana deu de ombros, relembrando a preferência da amiga por atividades ao ar livre - Não passo tanto tempo com vocês como gostaria. Sabe que minha mãe prefere que eu fique em casa bordando e praticando canto.

As amigas seguiram o exemplo de Ravenna e desceram de suas montarias para aproveitar a brisa leve e a sombra.

- Esquecem que li todos os livros publicados de Austen? Até mesmo meu irmão emocionou-se ao saber que eu concordava com sua opinião a respeito do Sr. Darcy. - Deitando na grama ela concluiu sua defesa - Vocês me envergonham ao subestimar minha capacidade de dedicação à leitura.

Eva deitou ao lado de Ravenna e a abraçou para consolar a amiga, enquanto a outra dama sentou na grama educadamente.

- Não fique assim, minha amiga. Nós a amaríamos mesmo que fosse estúpida feito uma porta, o que não é o caso já que você se destaca por sua brilhante mente maquiavélica. - Tirando um embrulho de um dos bolsos de sua saia Eva entregou uma pequena caixa a Ravenna contendo uma pulseira de prata, com um pingente retangular preso nas laterais pela fina corrente. Aproximando o pingente Ravenna consegue enxergar as iniciais "R.E." gravadas na parte interior enquanto uma rosa adornava a frente.

- Eva! Esse... - com os olhos cheio de lágrimas e a voz embargada Ravenna tentou continuar - Oh mia cara amica! Esse é o presente mais lindo que já ganhei! Não precisava comprar nada, sabem que a única coisa com a qual me importo é a presença de vocês.

Eva estica o braço direito na direção da amiga e a pulseira reluz em seu pulso robusto.

- Também tenho um. Achei que seria um presente digno de nós, para honrar a amizade e o carinho que temos uma pela outra.

Georgiana contempla a demonstração de carinho entre as duas e sente-se feliz pela prima, por ter encontrado alguém como a senhorita O'Hara para compartilhar uma amizade.

- Estamos todas crescendo, não é? Logo estaremos casadas e com filhos. - Georgiana suspirou. Ravenna riu e levantou, depositando um beijo na testa de sua prima.

- Fale por você, Georgie. Eu não acredito que casarei logo. Se bem que... - Ravenna abriu um sorriso de lado e começou a enrolar uma mecha de seu cabelo - Tia Susannah virá para meu aniversário e trará nossos primos dessa vez. Quem sabe Cameron não está mais bonito ainda e propenso a um casamento entre família? - Ela debochou.

- Casaria com nosso primo? - Georgiana questionou, surpresa pelas afirmações da prima. - Não seria estranho, já que somos parentes diretos?

- Non. O que nos impediria? Não somos irmãos. Muitos primos casaram-se no Livro Sagrado. Por que não poderíamos fazer o mesmo? - Acenando despreocupadamente na direção da prima, ela continuou. - Não se preocupe. As chances de acontecer algo entre nós dois são tão grandes quanto as de Jaden casar-se com Meredith.

As três riram outra vez pois sabiam que Jaden, o cavalariço de Ravenna, nutria sentimentos até então não correspondidos pela criada.

- Ora, não seja tão cruel com Jaden, quem sabe algum dia Meredith se rende aos encantos daquele belo jovem alto e atraente... ele é um cavalariço e tanto. - Eva disse, relembrando a vez em que o viu tomando banho no lago sem roupa alguma. - Que sorte sua criada tem por Jaden ser completamente apaixonado por ela...

- Eva O'Hara! Não acredito que está suspirando pelo criado de Ravenna! Conhecemos Jaden desde crianças. - Georgiana empertigou-se, achando cômico que qualquer uma delas pudessem olhar para o rapaz daquela forma.

- Georgiana, se tivesse visto o que eu e Rave vimos no último verão, não pensaria dessa forma. Aliás, posso afirmar que a maturidade fez muito bem ao nosso amigo. - Eva a informou sem nenhuma timidez e Ravenna acenou em concordância.

- Não consigo enxergá-lo dessa maneira, porém, admito que o tempo fez bem a ele. - Ravenna disse, dando crédito à Eva.

- Por falar no rapaz, aquele não é Jaden correndo em nossa direção? - Georgiana apontou, estreitando os olhos para tentar enxergar melhor o jovem que se aproximava.

- Ra-v-ven! P-p-precisa v-voltar i-m-media-t-tamente! - O rapaz conseguiu dizer ao se aproximar o suficiente para ser ouvido. - Lady S-s-susannah cheg-g-gou antes do p-previsto e a aguarda no c-c-castelo.

Ravenna levantou do chão em um pulo surpresa pelas notícias, e limpou a grama de suas calças.

- Tia Susan já está em Alnwick? Dio mio! Por que não me avisaram antes?

Passando uma mão no cabelo castanho claro desgrenhado enquanto apoiava a outra na cintura, o jovem esguio disse:

- E-e-eu não c-c-consegui achá-la antes. - E então ele abriu um belo sorriso envergonhado.

- Olá Jaden. Anda tomando muitos banhos no rio? - Eva perguntou em tom de deboche para implicar com o jovem que, ao ouvir aquelas palavras, logo ficou ruborizado ao relembrar o dia que foi apanhado nu pelas duas jovens.

- O-olá senhorita Eva. - O rapaz disse, timidamente. Voltando-se para a outra jovem ele a cumprimenta de igual modo.

- Deixemos as cortesias por ora. - Ravenna olhou para a amiga. - Eva, pare de constranger este pobre jovem inocente. Não corrompa meu amigo se não tem intenções de desposá-lo em seguida.

-Tudo bem, perdoe-me por abusar de tão inocente alma. - Eva riu.

- Minha adorável amiga, agradeço imensamente por esta manhã gloriosa em sua companhia, mas receio ter de partir imediatamente. Aguardarei sua presença para o jantar de meu aniversário e a matarei se não comparecer!

E assim Ravenna partiu de volta ao lar ancestral da família com Jaden a reboque na sela de seu cavalo, e a prima cavalgando em uma sela lateral alguns metros atrás. O rapaz agarrava-se a Ravenna fazendo uma prece para que pudessem chegar vivos ao castelo, enquanto a amiga cavalgava como se estivesse em uma corrida de puros-sangues árabes.

Capítulo 3 ep

Completar dezesseis anos não era tão terrível quanto Ravenna esperava, sua vida continuava a mesma, talvez pudesse dizer que sua fluência em italiano melhorou consideravelmente, a ponto de pegar-se misturando idiomas em momentos de grande excitação ou nervosismo. Desde que viera morar na Inglaterra, dedicara-se a aprender a língua do país onde nascera e vivera na infância. Via essa busca como uma forma de se manter conectada ao lugar que a recebeu em sua primeira noite fora do ventre de sua mãe.

Seu pai adorava sua mistura de palavras e seus trejeitos na fala, já sua mãe a achava excêntrica e sempre a lembrava que precisava adequar-se mais ao padrão inglês.

Para muitas jovens, chegar aos 16 anos poderia significar que estavam próximas de serem leiloadas como éguas premiadas à futuros maridos, todavia, para ela, era como completar quinze anos, apenas mais um aniversário. A grande diferença era que agora seu corpo se parecia mais com o de uma jovem mulher do que antes. Não precisava usar roupas provocantes para realçar suas curvas e seu busto, nem poderia, pois seus pais não permitiriam que se exibisse de maneira sensual sendo ainda tão jovem. O mais leve e delicado dos tecidos e o mais sutil dos decotes já eram suficientes para dar a Ravenna um ar sedutor. Por mais que tentasse passar a imagem de mais pura inocência, seus grandes olhos escuros esbanjavam uma irreverente inteligência e autoconfiança. E seu primo, Cameron Stokehouse, ao longo da semana passada em Alnwick, notara o quão bem a jovem dama havia crescido, e ocasionalmente flertava com ela. Era difícil desviar o olhar daqueles seios perfeitamente emoldurados pelo espartilho e a forma como um colar de esmeraldas realçava a beleza daquele busto a cada respiração de Ravenna.

Ravenna sentava-se ao lado de Cameron na grande mesa de madeira nobre no salão de jantar - que a duquesa fizera questão de organizar em todo seu esplendor para o evento daquela noite - e beliscava um pedaço da codorna em seu prato quando notara o olhar malicioso do jovem sobre ela. Ravenna não considerava a si mesma uma dama inocente, alheia aos flertes que aconteciam entre um homem e uma mulher, conversava com as criadas mais experientes e até mesmo com seu pai. Já havia beijado alguns rapazes desde seus quatorze anos e sabia o que acontecia no quarto de um casal. Dera seu primeiro beijo em seu amigo Jaden, em uma tentativa de entender como funcionava aquela complexa dinâmica entre duas pessoas, como vira seus pais fazerem diversas vezes. O cavalariço jamais esquecera tal experiência e a classificava como a mais nojenta de sua vida, o que Ravenna concordava plenamente. Beijá-lo fora como beijar Berlin, o que era tão nojento quanto beijar um porco sujo de lama. Mas ela precisava aprender o que fazer para então cortejar o filho de um dos arrendatários de seu pai, um rapaz dois anos mais velho, loiro de olhos castanhos, orelhas avantajadas e com duas perfeitas covinhas nas bochechas, as quais faziam Ravenna suspirar só em vê-las. O romance terminou em apenas uma tarde após Ravenna beijá-lo e descobrir que o rapaz tinha o hálito de um defunto cremado.

- O que passa pela sua mente, minha doce prima? - Cameron a interrogou com seu sotaque americano, retirando Ravenna de seus pensamentos.

Às vezes Ravenna esquecia que Cameron era, de fato, americano. O primo não era como ela, que nascera na Itália, mas fora criada boa parte da vida na Inglaterra. Sua tia Susannah - irmã gêmea de Marissa - casou-se com Colin Stokehouse, um americano rico e dono de inúmeras fazendas, e mudou-se para a América antes de engravidar. Desde então viera poucas vezes para casa visitar a família.

- Apenas pensando em situações do passado, mio caro. - Ela rebateu, mantendo o tom divertido. - O que está achando do jantar e da ornamentação do salão? Espero que na América façam codornas tão suculentas como aqui.

Cameron abriu um pequeno sorriso de lado, mostrando seus dentes perfeitamente alinhados e, colocando uma mecha de seu cabelo castanho avermelhado atrás da orelha, ele disse:

- Jamais comi uma codorna tão bem preparada como esta, de fato, o molho está divino. O que puseram nele? - O rapaz prolongava o assunto, seguindo as convenções.

- Laranja, mel e algumas especiarias que a adorável Sra. Senfield jamais revelaria. - Berlin, que ocupava o lugar do outro lado de Cameron, introduziu a si mesmo na conversa sem notar que o tópico era um pequeno flerte entre a irmã e o primo.

- Mamãe mandou pintar o salão nesse tom de verde folha, pois acredita que dará aos convidados a sensação de comer ao ar livre. Nosso pai discordou da ideia, no entanto não a impediu de reformar o ambiente. Mantivemos todos os adornos em ouro e a tapeçaria. Alguns móveis foram substituídos, porém, os mais importantes não foram tocados. Nossa mãe manteve todas as pinturas, ela as considera ícones artísticos - Rindo ele continuou seu relato sobre a mudança no salão sem notar o desinteresse do primo - e alguns de fato o são. Acima da lareira de mármore temos um ícone italiano que nosso pai recebeu de presente enquanto ainda estávamos na Itália.

Cameron lançou um olhar desdenhoso à Ravenna, mostrando seu desinteresse em continuar um diálogo com Berlin.

- Claro, eu deveria ter imaginado que havia laranja. Que cabeça a minha... Obrigado por seu incrível relato sobre a reforma, não poderia ter sido mais detalhado. - Cameron sorriu, fingindo estar envergonhado e então agradecido. O jovem americano tentou manter algum assunto com Ravenna sem que o primo os interrompesse.

- Soube por sua mãe que aprimorou ainda mais seu dom em pintura. Gostaria que me levasse a um tour para poder apreciar suas obras, o que me diz?

- Pelo que me lembro, minha mãe mostrou os quadros de Rave a você há alguns dias. - Berlin parou o garfo com um pedaço da ave no meio do trajeto até a boca, confuso pelo pedido do primo para um segundo tour.

- Bem lembrado. - Ele respondeu, impaciente com as intromissões do jovem primo. - Mas receio não ter aproveitado o passeio, pois estava com uma terrível dor de cabeça. Acredito que um tour guiado pela autora das obras será muito mais esclarecedor. - Ele olhou para Ravenna e levantou uma das sobrancelhas em tom provocativo - Não concorda, milady?

A jovem sorriu, entendendo que ele gostaria de lhe falar algo em privado e então acenou a cabeça em concordância, explicando a Berlin que não haveria problema algum passear com seu primo por sua sala de pintura na tarde seguinte.

Eva tentou desvencilhar a atenção de Berlin da irmã e iniciou uma conversa com o rapaz sobre alguns livros que lhe foram recomendados. O que prendeu a atenção dele no mesmo instante, dando a Ravenna mais espaço para dialogar e entender as intenções do jovem Stokehouse.

- Você mudou bastante, Stokehouse. O que originou seu atual interesse por qualquer assunto relacionado a mim? Lembro bem que costumava evitar-me quando vinham nos visitar. - Ela o interrogou, descrente sobre o repentino interesse do primo, mas interessada em saber o que ele responderia.

- É simples. Antes você era infantil demais para despertar qualquer interesse meu, agora enxergo em você uma mulher formada e quem você se tornou me agrada. - Ele disse sucinto.

- Capisco... - Ela balançou hesitante o talher no prato. Sem realmente entender se o primo queria dizer que agora estava apaixonado por ela, ou se apenas se tornara interessante. Haviam tantos convidados à mesa que as conversas paralelas abafavam sua conversa com Cameron, o que era ótimo.

Seus pais aceitaram seu pedido para que não realizassem um baile em sua homenagem. No entanto, Lady Osborne jamais deixaria o aniversário de sua filha passar sem uma comemoração, trocando o baile por um modesto jantar em família para sessenta pessoas. Ravenna conhecia quase todos que vieram prestigia-la. O Marquês de Riverdale sentava próximo a eles, assim como a marquesa e dois filhos do casal. Seus tios sentavam próximos a sua mãe e Dominic, com quem conversavam fervorosamente sobre negócios. Eram tantas pessoas, pensou. Sentia-se como alguém realmente importante, alguém da realeza - que por sinal também marcara presença enviando um representante que era amigo de James desde a infância. Ravenna dera graças a Deus pela rainha não comparecer. Seu pai era um amigo próximo dos governantes e sua família encontrara-se com a realeza mais vezes do que Ravenna gostaria. Ela não nutria uma amizade pela rainha, as duas possuíam opiniões distintas em tudo, concordavam apenas sobre chá e biscoitos amanteigados. Ravenna não a considerava uma má pessoa, acreditava que a soberana precisava enxergar o mundo sob uma ótica diferente, além dos rigorosos conceitos morais que ela decidira adotar. Mesmo assim, as duas respeitavam suas diferenças e a jovem Osborne seguia estritamente o protocolo quando estava em sua presença. Enquanto debochava de toda a situação em seus pensamentos, é claro.

Erguendo o olhar e buscando seu pai, que ocupava a cadeira na ponta da mesa, lhe deu um pequeno sorriso. James piscou um dos olhos para ela e ergueu levemente uma taça de vinho em sua direção, saudando a filha pelo seu dia.

O jantar havia terminado e Ravenna decidira passar algum tempo sozinha na varanda de seu quarto, observando as estrelas depois de suas amigas partirem. Adquiriu este hábito quando criou maturidade o bastante para entender o que significava a morte, e que sua irmã mais velha havia morrido sem que Ravenna jamais a tivesse conhecido. Seus pais diziam que ela possuía o mesmo cabelo escuro como azeviche de Ravenna e os olhos claros de James, diferente de seus próprios intensos olhos castanho-escuros. Ela sabia que seus pais sempre depositavam uma rosa branca sobre a lápide de Paris todo ano no aniversário de sua morte, para lembrá-la do quanto a amavam. Fora uma decisão fácil para ambos a escolha de realizar o translado de Paris para o jazigo da família na Inglaterra para que ficassem próximos. Não conseguia sequer imaginar o que sentiam por lamentar a morte de uma filha em um dia e na manhã seguinte comemorar o nascimento da outra.

Enquanto contemplava as estrelas, Ravenna sentiu uma pedrinha acertá-la em cheio na testa. Soltando alguns impropérios em italiano, ela se debruçou sobre a sacada para olhar quem seria condenado à morte ao amanhecer.

- Olá novamente, Lady Osborne. - Cameron abriu um sorriso sedutor. - Acredito que não está tarde para um passeio no jardim, ou está?

Ravenna não ligava para formalidades no geral, muito menos entre familiares. Então ignorou a polidez de seu primo e dirigiu-se a ele por seu nome de batismo.

- Cameron! Acertou uma pedra na minha testa em uma tentativa de me cortejar? - Massageando o local atingido com a ponta dos dedos, ela continuou - É assim que cortejam as damas na América? Lembre-me de levar comigo algum chapéu para me proteger de jovens românticos como você. - Ela bufou em tom jocoso.

- Ora, minha prima. Peço perdão se a machuquei. Por que não desce aqui para que eu possa analisar a ferida mais de perto, e massagear onde estiver dolorido?

- Oh, lo faro'. Sim, eu farei..., mas não para isso. Espero que esteja pronto para explicar um olho roxo ao duque amanhã. - Ela debochou e então voltou para seu quarto para pegar um casaco antes de descer.

Ao chegar ao jardim, Ravenna o encontrou próximo à um dos bancos de pedra lapidado em arabescos, segurando uma rosa vermelha. Cameron era um homem muito bonito, seu rosto exalava sensualidade e a cada sorriso dado, fazia com que Ravenna quisesse beijá-lo desesperadamente. A maturidade fizera muito bem a ele, pensou. A pele bronzeada pelo sol, os olhos verdes que seduziriam até mesmo uma freira, a boca reta e os lábios maliciosos. Cameron era uma tentação aos bons costumes, e Ravenna estava certa de se perder em toda aquela malícia.

- O que quer comigo a essa hora, Cameron? Não me diga que não conseguiu seduzir alguma de nossas criadas e agora tenta seduzir sua inocente prima? - Ela pôs a mão sobre o peito, em sinal de decepção.

Abandonando a etiqueta ele responde:

- Ravenna, sabe que eu jamais seduziria uma criada, não estão à minha altura. Confesso que não consegui tirar os olhos de você o jantar inteiro, nunca vi uma mulher tão tentadora. Seu irmão é um bobalhão sem igual, entretanto, até mesmo ele conseguiu perceber a atração que sinto por você. - Cameron se aproximou, colocando um dedo delicadamente sob o queixo de Ravenna. - Como um homem tão inútil pode ter uma irmã tão perfeita?

Ravenna desviou a mão do homem e andou em direção ao caminho de cascalhos que os levaria a um labirinto de arbustos.

- Se planeja conseguir algo de mim sugiro não insultar meu irmão em minha presença. Apenas eu tenho o direito de dizer qualquer coisa que seja de Berlin, e o advirto que sou bastante protetora com calúnias vinda de outros. Meu irmão não percebeu suas intenções, nem chegou a notar que você praticamente me despia com os olhos. Ele apenas queria conversar conosco.

Percebendo que Ravenna e Berlin gostavam um do outro, ele decidiu mudar a abordagem:

- Perdoe-me por minhas infelizes palavras. Estou acostumado a meus irmãos e esqueço que nem todos são insuportáveis. Ser o irmão mais velho tem suas desvantagens. - Entregando a rosa a dama ele prosseguiu. - É para você. Não posso evitar compará-la a uma perfeita rosa vermelha desabrochando em pura sensualidade.

Ravenna pegou a flor e a aproximou do nariz, deliciando-se com o suave perfume que exalava.

- Grazie. Desculpe-me se fui muito incisiva em minhas palavras. Não gosto quando pessoas que não conhecem Berlin de verdade, falam sobre sua personalidade. - Mudando o foco do assunto ela tentou voltar ao flerte inicial passando os dedos suavemente em uma mecha de seu próprio cabelo. - Diga-me, o que mudou para que você, enfim, me notasse?

Passando os dedos pela mesma mecha solta do cabelo de Ravenna, Cameron se aproximou quase colando seu corpo ao dela.

- Você está linda. Seu corpo é a pintura do pecado e eu sou o maior dos pecadores por admirá-la tão intensamente. Seus lábios incitam qualquer homem a começar uma guerra em seu nome, eu iria contra a Coroa para satisfazer qualquer desejo seu. Mal consigo conter-me neste momento, tamanha é a minha vontade de provar o sabor de seus lábios sensuais. Não consigo tirá-la da minha mente e... - Sorrindo sedutoramente ele continuou seu flerte. - Confesso que não tenho intenção em fazê-lo. Eu a desejo com todo meu corpo.

Colocando a mão sobre o rosto do homem à sua frente, Ravenna o puxou para que ele a beijasse, e Cameron obedeceu ao seu chamado beijando-a suavemente para não assustá-la. Ao perceber que Ravenna não era nenhuma leiga no assunto e tomava a iniciativa tanto quanto ele, aprofundou mais o beijo. Seus lábios exigiam mais a cada segundo enquanto suas mãos deslizavam por cima do tecido pela cintura e seios de Ravenna sem o menor pudor. A língua travessa dançava e explorava a boca da dama com insistência, destilando o sabor forte de vinho do porto ao mesmo tempo que a incitava a entregar-se ainda mais, enquanto Ravenna seguia seus passos e retribuía o beijo na mesma intensidade. Cameron a puxou para si colando seu corpo ao dela até onde o vestido permitia, como se necessitasse do calor daquele voluptuoso corpo feminino. Naquele instante, as saias volumosas a impediam de colar todo seu corpo ao dele. "Maldita hora para não estar usando calças", ela pensou, já que só possuía autorização para usá-las quando não estivesse na presença de convidados. Mas a proximidade que conseguiam já era o suficiente para que ela sentisse o calor que emanava daquele homem diabólico. Sentia os lábios de Cameron deixar sua boca e traçar um caminho até seu pescoço arrancando suspiros de seus lábios e a obrigando a agarrar-se a ele cada vez mais. Ele distribuía beijos por seu decote enquanto ela arfava de desejo. Com uma das mãos, ele tentava abrir os fechos do vestido carmesim para ter acesso àquelas duas preciosidades que o deixaram louco durante todo o jantar.

- Eu preciso tê-la para mim. Ravenna, seja minha esta noite. - Cameron disse, entre beijos e suspiros.

- Cameron... não podemos fazer isso aqui, e não tenho certeza se gostaria de entregar-me a você - ofegante ela tentou por seus pensamentos em ordem. - Não estamos indo rápido demais? Eu...

- Sim, é claro meu amor. - Ele a interrompeu, tentando evitar que ela desse lugar à razão. - Eu jamais a trataria dessa forma. Não acredito que me considera esse tipo de homem - Ele franziu o cenho, fingindo estar ofendido. - Estou deslumbrado por você, querida, acredite em mim, você é a mulher mais encantadora que conheci, qualquer homem cederia aos seus encantos. É uma enorme tortura manter-me longe de você. Eu... eu estou enfeitiçado pela sua beleza.

Ravenna tocou o tecido escuro do colete de Cameron e deslizou as mãos por dentro tocando sua camisa de linho branca. Ele era quente e seu corpo era esbelto, imaginava como seria despi-lo de toda aquela roupa. Ravenna o desejava, queria se entregar a este homem charmoso e sedutor. Conseguia imaginar uma vida divertida sendo esposa de Cameron, eles seriam um casal feliz e despojado. O amor viria com o tempo.

Cameron a puxou para si e Ravenna o abraçou sentindo o corpo relaxar ao inalar a fragrância de sabão e charuto. O coração de Cameron batia tranquilamente, sem sinais de descompasso, ao passo que o seu batia freneticamente em seu peito. Ravenna acreditava que em um momento como este os dois estariam eufóricos, talvez estivesse enganada. "Homens maduros como seu primo, podiam controlar a intensidade das reações físicas que uma mulher gerava em seus corpos, mesmo quando ardiam em desejo" Pensou.

Enquanto abraçava seu maior objeto de desejo, Ravenna pensava sobre a decisão que estava prestes a tomar. Não seria imprudência de sua parte entregar-se a seu primo, ou seria? Eles casariam em pouco tempo, sem dúvidas. Cameron estava apaixonado, ela pensou, e sentia que seu coração seria capaz de entregar-se a ele sem muito esforço. Poderia até arrepender-se depois, mas queria arriscar-se com o primo. O máximo que poderia acontecer era detestar a noite e desistir de casar.

- Acho que estou pronta - Ravenna disse, sentido um frio na barriga que a deixava nervosa e ansiosa. - Eu quero passar a noite com você, mio caro. O que sente por mim é verdadeiro, certo? Eu também possuo sentimentos por você. Acredito que seremos felizes, nós dois combinamos como um casal.

- Querida, é claro que é verdade - beijando-a com delicadeza ele então, afastou os lábios dos dela e continuou seu discurso não tão paciente e delicado como antes. - Não sabe o quanto a desejo e necessito provar da sua essência. Oh sim, seremos felizes, eu mostrarei a felicidade a você de uma forma que jamais esquecerá - segurando as mãos de Ravenna ele a guiou em direção ao castelo. - Venha comigo, ninguém a descobrirá em meu quarto, ele fica distante dos outros e, pelo visto, os criados não circulam com frequência por aquele corredor.

- Si, eu irei. Deixe a porta destrancada e eu irei até você. Preciso ir aos meus aposentos para avisar Meredith que demorarei a me recolher; se não a avisar antes, nós teremos problemas e ela acordará a casa inteira para me procurar.

Os dois seguiram de volta e Cameron a puxou para mais um beijo antes de entrarem no castelo. Ele distribuiu pequenas mordidas nos lábios de Ravenna, que a fizeram gemer e instintivamente colou o busto no peitoral de Cameron, que a beijou com ainda mais brutalidade.

Cameron a afastou e pediu que ela fosse antes que ele mudasse de ideia sobre esperá-la em seus aposentos. Ravenna correu em disparada para seu quarto para avisar Meredith que não dormiria em sua cama naquela noite, e também para trocar seus trajes.

Assim que Ravenna desapareceu pelos corredores, Cameron Louis Stokehouse pegou uma garrafa de vinho da despensa e tomou uma taça, antes de seguir para seu quarto e aguardar por sua doce e fogosa prima, que resolvera entregar-se a seu "primo apaixonado" tão rápido quanto uma vadia agarrava um xelim. Ele teria uma adorável noite desvirginando a jovem e a fazendo gritar seu nome. No dia seguinte partiria para o Brasil afim de resolver os assuntos de um novo projeto da família em solo brasileiro, como informara a seu pai no mês anterior.

- Milady está certa quanto a isso? - Meredith disse, preocupada com a decisão de Ravenna. - E se ele a estiver enganando? Não acha mais sensato esperar por um noivado pelo menos? Sei como Vossa Graça é um homem à frente de seu tempo e jamais a condenaria por entregar-se, mas acredito que o duque não será tão benevolente com o senhor Stokehouse.

Ravenna vestiu, com a ajuda da criada, sua camisola de verão feita de seda branca com um pequeno decote em V nas costas e bordados de renda lilás na barra e nas alças, e colocou seu roupão azul claro por cima.

- Eu sei o que estou fazendo, Mery. Cameron está apaixonado por mim, e eu o desejo como nunca desejei um homem antes. Não fique histérica, e sim, nós nos casaremos.

Soltando os cabelos e ajeitando os fios para que não parecessem uma confusão de cachos negros, ela foi até a penteadeira e derramou gotas de perfume pelo pescoço e colo.

- Mery, eu arcarei com as responsabilidades pelos meus atos. Não sou mais uma criança, muitas mulheres casam e administram casas na minha idade. Eu irei até Cameron, nós teremos uma noite mágica, amanhã ele pedirá minha mão a papà e tudo estará resolvido. E se por um acaso eu decidir não me casar, tenho certeza que meus pais apoiarão a minha decisão. Mamma talvez conteste minhas razões inicialmente, mas depois cederá.

Ravenna saiu do quarto e ao chegar à porta de Cameron, a encontrou destrancada. O quarto estava pouco iluminado e cheirava a charuto. Cameron caminhou lentamente até ela e jogou na poltrona seu casaco e em seguida o colete, aquela sensação de experimentar algo novo a deixava entusiasmada. Saber que passaria uma noite de prazer e sedução com seu futuro marido à deixava tão excitada, que mal podia conter a vontade de arrancar o restante das roupas do homem parado a sua frente. Sabia que sentiria dor, mas acreditava que Cameron saberia como contornar a situação.

- Enfim à sós - Ele disse, e então trancou a porta do quarto.

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