Eu era a "sugar baby" de Anderson Vasconcellos, seu bibelô. Mas quando o vi beijar a cunhada, Esperança - seu único e verdadeiro amor -, soube que precisava fugir.
Planejei minha fuga meticulosamente, com o objetivo de desaparecer no segundo em que meu contrato terminasse. Eu me tornaria uma cientista, encontraria um homem gentil e comum, e construiria minha própria vida.
Mas Anderson não me deixaria ir. Ele sabotou a carreira de Caleb, o homem bom por quem eu me apaixonei, e usou minha mãe, de quem eu me afastei, para me humilhar publicamente, tudo para me forçar a voltar para sua gaiola dourada.
"Case-se comigo, Ayla", ele propôs, um contrato vitalício para substituir o antigo. "Você será verdadeiramente livre. Comigo."
Os gritos da minha mãe ecoavam em meus ouvidos: "Ela é uma vagabunda! Sua vagabunda! Mercadoria suja!" E Caleb, meu Caleb, ouviu cada palavra.
Olhei para os olhos frios e possessivos de Anderson, depois para os de Caleb, cheios de uma dor que partiu meu coração. Eu tinha que fazer uma escolha.
Desta vez, eu não iria apenas fugir. Eu iria acabar com isso, de uma vez por todas.
Capítulo 1
Ponto de Vista de Ayla Thompson:
Todo mundo sabia o que eu era. A "sugar baby" de Anderson Vasconcellos. A garota da sua gaiola dourada. Seu troféu. Um bibelô que ele mantinha por perto.
Eu sorria quando ele queria que eu sorrisse. Usava os vestidos que ele escolhia. Assentia nos momentos certos, ria das piadas certas. Minha beleza era uma performance, uma linguagem silenciosa falada para uma plateia que nunca me via de verdade. Para eles, eu era linda, obediente e, total e perfeitamente, dele. Uma boneca cujos fios não eram visíveis a olho nu.
Eles viam os diamantes, as roupas de grife. Não viam as mensalidades da faculdade, a conta bancária vazia, a ordem de despejo. Não viam o desespero que roía meu estômago, o medo corrosivo que me levou a esta prisão brilhante e sufocante. A USP não era barata, e minha família se certificou de que eu não tivesse mais nada.
Ele olhava através de mim, mesmo com a mão pousada nas minhas costas em algum baile de caridade. Então, ele olhava para o outro lado do salão, para Esperança, sua cunhada, seu "único e verdadeiro amor", e uma luz diferente, um anseio desesperado, brilhava em seus olhos. Eu era apenas uma substituta, um corpo quente, uma distração conveniente. Eu suportava sua frieza, sua indiferença pública, as farpas sutis de seu círculo íntimo. Eu suportava tudo por causa de Esperança, o fantasma que assombrava cada uma de nossas interações, a mulher de cuja sombra eu nunca conseguiria escapar.
Todos eles pensavam que eu acabaria sozinha, destruída, agarrando-me aos restos de sua riqueza. Uma história de advertência. Outro rosto esquecido. Eles me imaginavam afogando-me nas consequências, perdida sem suas correntes douradas me protegendo do mundo. Um brinquedo bonito, eventualmente descartado.
Mas eles estavam errados. Eu não estava apenas sobrevivendo. Eu estava planejando minha fuga. E esta noite, tudo começava. O cronômetro estava acionado.
Meu celular vibrou com uma notificação. Uma transferência da conta de Anderson. Mensalidade paga. Mais um mês garantido. Fechei o aplicativo do banco, um lembrete gritante das algemas de ouro que eu ainda usava. Cliquei em um aplicativo de mensagens. Kaila, minha melhor amiga, já estava mandando memes sobre as provas finais.
"Você tem certeza disso, Ayla?" A voz de Kaila estava tensa de preocupação quando liguei para ela mais tarde. "Ele não vai simplesmente deixar você ir embora."
Encostei-me na vidraça fria do meu luxuoso e temporário apartamento, observando as luzes da cidade se tornarem um borrão. "Ele nem vai notar no começo, Kaila. Eu sou apenas uma conveniência. Um acessório bonito." As palavras pareciam pesadas, mesmo que eu as tivesse repetido mil vezes.
"Anderson Vasconcellos não 'deixa de notar' as coisas. Especialmente as coisas que ele considera suas, Ayla. Ele é possessivo, você sabe disso." A voz de Kaila tinha um tom de aviso, um medo que eu entendia muito bem. Anderson me via como uma extensão de seu poder, um objeto belo a ser exibido, nunca questionado. Ele era um homem que controlava tudo e todos em sua órbita, um homem cuja presença preenchia uma sala mesmo quando não estava falando. Sua frieza não era falta de emoção; era uma arma, afiada e precisa.
"Ele é obcecado pela Esperança. Não por mim." Forcei uma leveza em meu tom, uma leveza que eu não sentia. "Ele vai estar muito distraído. O mundo inteiro dele gira em torno dela. Você já viu. Todos nós vimos."
Kaila suspirou. "Ok, quando exatamente você vai fazer sua grande saída?"
"No segundo em que meu último contrato terminar. Nem um dia antes, nem um dia depois. Calculei tudo." Minha voz era firme, resoluta. Isso não era um capricho; era um plano meticulosamente construído. Eu tinha uma nova cidade escolhida, até um novo nome, um novo começo onde ninguém conheceria a "sugar baby de Anderson Vasconcellos". Eu ia encontrar um emprego tranquilo, talvez em uma biblioteca, e me apaixonar por um homem comum que me visse, que realmente me visse, por quem eu era por dentro. Uma vida simples, honesta e livre. Esse era meu único sonho agora.
Lá fora, o céu de São Paulo chorava, uma garoa fria e insistente espelhando o frio que se instalara no fundo dos meus ossos. A chuva sempre fazia as coisas parecerem mais pesadas, mais dramáticas. Como se a própria cidade estivesse de luto por algo, ou avisando sobre algo que estava por vir. A previsão do tempo dizia céu limpo, mas São Paulo raramente ouvia as previsões.
Um brilho de luz chamou minha atenção na chuva lá embaixo. Um carro preto e elegante, seus faróis cortando a penumbra, parou no meio-fio. Meu coração deu um salto. Anderson. Ele não deveria voltar esta noite. Ele deveria estar com... ela.
Um tremor estranho percorreu meu corpo. Não era medo, não exatamente. Mais como um choque de reconhecimento, um aperto familiar no peito que não tinha nada a ver com ele e tudo a ver com o papel que eu desempenhava.
Eu o observei sair, alto e imponente mesmo na luz fraca. Seu contorno era nítido, seus movimentos precisos. Ele era uma silhueta de poder contra o pano de fundo da cidade. Ele não olhou para cima, apenas caminhou rapidamente em direção à entrada, sua presença irradiando uma frieza quase palpável.
Respirei fundo, alisando meu robe de seda. Hora de interpretar o papel. Abri a porta, um sorriso suave e praticado nos lábios. "Anderson, você voltou cedo. Pensei que tivesse uma reunião até tarde." Minha voz era leve, com uma sutil sugestão de queixa brincalhona. Dei um passo à frente, minha mão alcançando seu braço, um gesto gentil e familiar.
Ele não se encolheu, não se abrandou. Seus olhos, escuros e indecifráveis, encontraram os meus por um segundo fugaz, depois passaram por mim. "Preciso que prepare um banho para mim, Ayla", disse ele, sua voz monótona, desprovida de calor. "E pegue aquele arquivo da minha mesa. O vermelho."
Enquanto ele passava, um cheiro fresco me atingiu - perfume caro misturado com algo metálico. Só quando ele se virou ligeiramente que eu vi: um leve hematoma começando a florescer em sua mandíbula, quase escondido por sua barba por fazer. Um pequeno corte, quase invisível, traçava a linha de sua têmpora. Minha respiração ficou presa. O que tinha acontecido?
Engoli em seco, forçando minha expressão a ficar em branco. "Claro, Anderson." Movi-me rapidamente, com cuidado, em direção ao banheiro, sua frieza um peso familiar.
O cheiro de seu perfume, uma mistura particular de cedro e algo vagamente esfumaçado, emanava dele. Não era um cheiro que eu amava, mas se tornara indelevelmente ligado a ele, a esta vida. Era o cheiro do poder, da riqueza e da gaiola em que eu vivia. Trouxe uma estranha e indesejada onda de déjà vu, arrastando-me de volta para outro cheiro: o apartamento mofado e apertado que eu um dia chamei de lar.
O lamento distante de uma sirene de polícia cortou o zumbido da cidade, um som que sempre me puxava de volta. Não era o som em si, mas a maneira como se misturava com a chuva, a maneira como costumava se filtrar pelas paredes finas do meu quarto de infância. Essa mistura particular carregava o peso da memória, uma memória de um tempo em que meu mundo havia sido irrevogavelmente despedaçado.
Foi no verão depois do meu último ano do ensino médio. A carta de aceitação da USP tinha chegado, um farol de esperança, um bilhete para sair de uma vida que eu odiava. Mas então minha mãe, Anete, me sentou, seus olhos arregalados com lágrimas falsas. "Sua irmã, Ayla, ela precisa disso mais do que você. A saúde dela... é tão frágil." Minha irmã mais nova, sempre a frágil, sempre a que minha mãe mimava, mesmo quando estava perfeitamente saudável. Eu sabia que era uma mentira, uma manipulação. Minhas notas do ENEM foram adulteradas, minha inscrição sabotada. Anos de ressentimento, anos sendo preterida em favor da minha irmã, tudo culminando neste golpe final e esmagador.
A voz da minha mãe, enjoativamente doce, ainda ecoava em meus ouvidos. "Você é tão forte, Ayla. Você sempre pode tentar de novo no próximo ano. Pense na sua irmã." Nunca foi sobre minha irmã. Foi sobre a preferência da minha mãe, seu favoritismo cruel, seu desejo distorcido de me manter pequena, por perto e subserviente.
Meus sonhos da USP, de uma bolsa de estudos, de um futuro pelo qual eu havia trabalhado tanto, evaporaram. As provocações dos vizinhos ainda doíam: "Ah, Ayla, que pena. Ouvi dizer que você não passou nas provas. Sua irmã, no entanto, ela é tão delicada, precisa de todo o apoio que puder ter." A pena deles era uma ferida fresca, um lembrete do meu fracasso público.
"Você não pode simplesmente desistir, Ayla!" Kaila tinha esbravejado, sua lealdade feroz. "Você pode refazer o ENEM. Vamos estudar juntas."
Mas minha mãe me encurralou novamente, sua voz envenenada pela chantagem emocional. "Não se atreva a nos abandonar, Ayla. Sua irmã precisa de você. Eu preciso de você. Se você for embora, não sei o que vou fazer. Somos uma família, Ayla. Você não pode simplesmente jogar isso fora."
Eu senti as paredes se fechando, me sufocando. A luta drenou cada gota do meu espírito. Eu me rendi, meus sonhos se desfazendo em pó. Consegui um emprego de baixo salário, economizando cada centavo, planejando minha fuga. Levei dois anos, dois anos me virando, suportando as crueldades sutis da minha mãe e a alegria alheia da minha irmã. Dois anos me sentindo como um fantasma em minha própria casa.
Quando finalmente economizei o suficiente, comprei uma passagem só de ida, fiz uma única mala e deixei um bilhete. Um adeus curto e sem emoção. A ligação furiosa da minha mãe veio dias depois, uma torrente de maldições e acusações. "Nunca mais volte, Ayla! Você me ouviu? Você está morta para mim!" Suas palavras, por mais duras que fossem, eram uma espécie de liberdade.
Mas a liberdade em um novo país, uma nova cidade, foi brutal. Trabalhei em vários empregos, estudei incansavelmente, finalmente juntando o suficiente para a USP. Mas então um assalto, um encontro violento e aterrorizante que me deixou fisicamente ferida e emocionalmente quebrada, me tirou tudo o que eu havia economizado. Todo o dinheiro, sumiu. Minha determinação, estilhaçada. Liguei para minha mãe, um apelo desesperado por ajuda. "Fui assaltada, mãe. Não tenho mais nada."
A voz dela era fria, distante. "É isso que você ganha por abandonar sua família, Ayla. Este é o castigo de Deus. Não me ligue mais." A linha ficou muda.
Essa foi a noite em que fiz minha escolha. Minhas opções eram zero. Pobreza, falta de moradia, ou... isso. Olhei no espelho, não para mim mesma, mas para o potencial. O cabelo longo e escuro, as maçãs do rosto salientes, o tipo de beleza marcante que poderia ser uma moeda. Passei semanas refinando-a, praticando sorrisos, aprendendo a linguagem da sedução. Tingi meu cabelo de um preto mais profundo e rico, escolhi roupas que acentuavam minha figura, transformando-me em uma mulher que poderia chamar a atenção.
Entrei em um leilão de caridade de luxo, um lugar onde riqueza e poder se misturavam. Ele estava lá, Anderson Vasconcellos, uma sombra de fria indiferença em uma sala cheia de sorrisos dourados. Ele estava conversando com um homem mais velho, sua expressão indecifrável, mesmo enquanto comandava a conversa. Eu tinha ouvido sussurros sobre ele, sobre sua família, sobre sua imensa e intocável riqueza. E eu sabia, com uma certeza arrepiante, que ele era minha única saída. Ele era meu alvo.
Aproximei-me dele, meu coração martelando contra minhas costelas, uma taça de coquetel firme em minha mão. "Sr. Vasconcellos?" Minha voz era suave, cuidadosamente modulada. Ele se virou, seus olhos escuros percorrendo-me, um brilho de algo indecifrável em suas profundezas.
Ele mal me deu uma olhada. "Sim?" Seu tom era desdenhoso, mais frio que o gelo na minha taça.
Ponto de Vista de Ayla Thompson:
Seu "sim" tinha sido um desafio, uma parede de gelo. Lembrei-me daquele momento vividamente, da maneira como seu olhar me dispensou, uma avaliação fugaz que me relegou a apenas mais um rosto bonito em um mar deles. Minha persona cuidadosamente construída, meu sorriso ensaiado, pareciam frágeis sob sua avaliação fria.
Um barulho repentino da cozinha me trouxe de volta ao presente. Eu tinha deixado cair a caneca de cerâmica que estava enchendo com água para o banho dele. Ela se estilhaçou, a porcelana se espalhando pelos azulejos brancos imaculados. Meu coração deu um salto. Isso não fazia parte do ato de namorada obediente. Rapidamente peguei uma toalha, tentando limpar antes que ele notasse.
A porta do banheiro estava aberta, derramando uma fresta de luz no apartamento mal iluminado. Ele estava de pé junto às janelas altas, de costas para mim, silhuetado contra o horizonte escuro da cidade. Ele não estava olhando para a vista, mas encarando o nada, sua postura rígida, ombros quadrados. A chuva lá fora havia se aprofundado em uma chuva constante, batendo contra o vidro como uma canção fúnebre.
Seu cabelo escuro estava ligeiramente desgrenhado, um contraste gritante com sua habitual aparência impecável. O leve hematoma em sua mandíbula parecia mais escuro agora, mais proeminente. Ele ainda usava o paletó do terno, o tecido caro grudando levemente por causa da umidade. Ele parecia menos Anderson Vasconcellos, o bilionário intocável, e mais uma estátua esculpida em granito. Frio, inflexível e totalmente sozinho.
Eu olhava para suas costas, uma dor familiar torcendo em meu peito. Morávamos no mesmo apartamento, às vezes compartilhávamos a mesma cama, mas havia um abismo intransponível entre nós. Ele era Anderson Vasconcellos, um titã nascido em berço de ouro, o nome de sua família sinônimo de poder e influência por gerações. E eu era Ayla Thompson, a garota do nada, aquela que lutou para sair da pobreza.
Ele se movia em círculos que eu só podia observar. Sua riqueza não era apenas dinheiro; era um legado, uma rede de conexões poderosas que parecia se estender globalmente. Eu só conhecia detalhes vagos, trechos captados das conversas sussurradas de seus associados ou dos relatórios ofegantes nas notícias financeiras. Ele impunha respeito e medo, uma força silenciosa em um mundo que eu mal entendia. Ele era de um mundo onde palavras como 'legado' e 'dinastia' significavam algo tangível, algo que tinha mais peso do que qualquer vida individual.
"Ayla." Sua voz cortou o silêncio, afiada e abrupta, tirando-me de meus pensamentos. Não era uma pergunta, era um comando, desprovido de qualquer inflexão, um som que exigia atenção imediata.
Eu me encolhi, deixando a toalha cair. "Sim, Anderson?" Corri em sua direção, meus pés descalços batendo suavemente no mármore frio. Minha compostura cuidadosamente construída já estava começando a se desfazer.
Sua mão disparou quando me aproximei, agarrando meu braço com uma força que machucava. Ele me puxou bruscamente contra seu corpo rígido, seus dedos cravando-se em minha carne. "O que demorou tanto?" Sua voz estava carregada de uma impaciência que beirava a raiva, uma crueza que eu raramente ouvia. Ele não esperou por uma resposta, apenas me girou, seu aperto se intensificando.
Eu sufoquei um suspiro, a dor uma pontada aguda. Não era a primeira vez que ele era rude, mas sempre me assustava. Mantive meu rosto cuidadosamente em branco, meus lábios selados. Qualquer queixa, qualquer sinal de fraqueza, só alimentaria sua irritação.
Ele examinou meu rosto, seus olhos semicerrados. "Sem perguntas sobre meus ferimentos esta noite, Ayla? Você geralmente é tão... solícita." Havia um escárnio em sua voz, um tom zombeteiro que fez meu sangue gelar.
Rapidamente forcei um sorriso, minha voz cuidadosamente doce. "Claro que não, Anderson. Sei que você não gosta de ser questionado. Só quero ter certeza de que você está confortável. Você sabe que eu só me importo com o seu bem-estar." As palavras tinham gosto de cinzas, mas eram o roteiro que eu havia aperfeiçoado. Estendi a mão, pairando perto do hematoma em sua mandíbula, uma preocupação fingida. "Você se machucou muito?"
Ele recuou, um brilho de algo indecifrável em seus olhos. "Seja uma boa menina, Ayla. É tudo o que peço." Seu olhar era tão frio como sempre, um lembrete gritante de que meus esforços eram meramente uma performance, uma que ele esperava e raramente reconhecia.
Lembrei-me dos primeiros dias, quando eu tolamente pensei que minha preocupação genuína poderia tocá-lo. Que meu afeto silencioso, minhas tentativas de entendê-lo, poderiam realmente quebrar o gelo. Mas essa ilusão se desfez rapidamente. A primeira vez que ele foi verdadeiramente rude, verdadeiramente desdenhoso, foi um alerta. Eu reclamei, minha voz suave, mas insistente. "Você me machucou, Anderson."
Sua resposta foi dada com uma calma arrepiante. "Você quer ir embora, Ayla? Fique à vontade. Mas não espere mais um centavo. E não espere nunca mais pisar na USP." Suas palavras não eram uma ameaça; eram uma simples declaração de fato, apoiada pelo peso inegável de seu poder.
O pânico me tomou então, um medo frio e sufocante que ofuscou a dor. Eu não podia voltar atrás. Não podia arriscar tudo por um momento de orgulho. Então eu aprendi. Aprendi a me curvar, a aceitar, a me tornar a companhia perfeitamente maleável que ele desejava. Aprendi a desligar a parte de mim que sentia, a parte que esperava. Aprendi a me proteger tornando-me insensível.
Eu era sua posse, nada mais, nada menos. Um brinquedo bonito e caro que ele poderia descartar à vontade. Meu contrato estava quase no fim, e eu sabia, com certeza absoluta, que iria embora. Não olharia para trás. Eu me recuperaria.
Enlacei meus braços ao redor dele então, puxando-o para perto, pressionando meu rosto em seu peito. Era um gesto ensaiado, destinado a transmitir afeto, mas esta noite, era um escudo. As lágrimas, quentes e inesperadas, arderam em meus olhos. Eu as pisquei de volta, recusando-me a deixá-las cair, recusando-me a dar a ele qualquer vislumbre das emoções cruas e confusas que eu mantinha trancadas. Foi uma libertação, um grito silencioso contra o silêncio sufocante de nosso acordo.
Na manhã seguinte, acordei em uma cama vazia, os lençóis ainda frios onde ele estivera. Ele tinha ido embora, como de costume. O silêncio no apartamento era ensurdecedor, um companheiro familiar. Peguei meu celular, a tela se iluminando com uma dúzia de notificações. Chamadas perdidas de Kaila, uma enxurrada de conversas em grupo que eu geralmente ignorava. Um mau pressentimento se instalou em meu estômago.
Rolando pelas mensagens, uma de Kaila se destacou, uma única palavra: "Olha." Abaixo, um link para um vídeo. Meus dedos tremeram quando cliquei para abrir.
A qualidade do vídeo era granulada, filmado à distância, mas não havia como confundir as figuras. Anderson, de pé em um beco mal iluminado, seu rosto gravado com uma emoção crua e desesperada que eu nunca tinha visto dirigida a mim. E de frente para ele, Esperança. Seu cabelo dourado estava desgrenhado, seu elegante vestido de noite ligeiramente desalinhado. Ele estendeu a mão, segurando sua bochecha, seu polegar traçando a curva de sua mandíbula. O desespero em seus olhos, a ternura quase dolorosa. Era um olhar de puro e absoluto anseio.
Então ele a puxou para mais perto, sua cabeça se inclinando. Seus lábios encontraram os dela em um beijo rude e urgente. Foi profundo, consumidor, um beijo que falava de anos de desejo não dito, de um amor que o dilacerava. O tipo de beijo que eu só sonhava em receber.
Ponto de Vista de Ayla Thompson:
O vídeo cortou abruptamente, deixando-me encarando uma imagem congelada de seu abraço emaranhado. Minha respiração ficou presa. O hematoma em sua mandíbula, o corte em sua têmpora – tudo fazia sentido agora. Isso não foi uma briga qualquer. Era sobre Esperança. Sempre sobre Esperança.
Minhas mãos se fecharam ao redor do celular, o plástico cravando em minhas palmas. Uma dor surda começou em meu peito, espalhando-se por mim como tinta fria. Não foi surpresa. Eu sabia. Eu sempre soube. Mas ver, testemunhar a paixão crua e desesperada que ele sentia por outra mulher, foi como um golpe físico.
As conversas em grupo agora eram uma enxurrada de fofocas e especulações, capturas de tela do vídeo circulando como fogo em palha. "Meu Deus, Anderson e Esperança? Eu sabia!" "Pobre Ayla, sempre a segunda opção." "Ela realmente achou que tinha uma chance, não é?" Suas palavras, afiadas e venenosas, eram um coro familiar de schadenfreude.
Meu celular vibrou novamente. Kaila. "Ayla, você está bem? Eu vi o vídeo. Você está vendo isso? Aquelas vadias no grupo de conversa..."
Respirei fundo, trêmula, forçando minha voz a ficar firme. "Estou bem, Kaila. Está tudo bem. É exatamente o que eu esperava." A mentira tinha um gosto amargo na minha língua, mas era necessária. Eu não podia deixá-los ver as rachaduras. Eu não podia deixar ninguém ver. Eu era a mulher mantida por Anderson, e este era o preço do acordo. A ilusão tinha que ser mantida até o fim.
Eu era apenas um dano colateral em sua busca contínua e sem esperança por Esperança. Isso não era uma história de amor; era uma transação. E em breve, a transação estaria completa. Em breve, eu estaria livre. Repeti as palavras como um mantra, tentando reassumir o controle sobre a maré crescente de emoção.
Mas meu olhar continuava voltando para a imagem congelada no meu celular. Seus olhos, o anseio cru, a maneira como seu corpo estava totalmente inclinado para ela. Era um desespero que falava de um amor profundo e agonizante. O tipo de amor que eu uma vez, tolamente, esperava inspirar. Fiquei olhando por um longo, longo tempo, até meus olhos arderem e minha cabeça latejar. A tela ficou embaçada, as lágrimas finalmente brotando, indesejadas, não solicitadas. Meu peito parecia apertado, uma pressão sufocante que dificultava a respiração.
Desliguei rapidamente o celular, forçando-me a levantar. Eu tinha aulas, trabalhos, uma tese para trabalhar. Meu futuro, meu futuro real, dependia disso. Mergulhei nos meus estudos, uma rotina implacável que mantinha os pensamentos à distância.
Mais tarde naquela noite, o céu ficou roxo, e um vento frio e cortante soprava pela cidade. Abracei meus livros com mais força, apressando-me para casa da biblioteca. A chuva começou de novo, uma névoa fina e gelada que transformava os postes de luz em halos nebulosos. Este tempo era apenas um mau presságio. Ou talvez apenas um reflexo de como eu me sentia por dentro.
Ao me aproximar do prédio do apartamento, uma melodia fraca flutuou de dentro. Um piano. O piano de Esperança. Meus passos vacilaram. Ele estava em casa. E ela estava aqui. Já? Meu estômago se revirou. Ele não poderia ter voltado ao trabalho depois daquela cena. Ele deve tê-la trazido diretamente para cá.
Abri a pesada porta da frente, as notas melancólicas de um noturno de Chopin me envolvendo. A sala de estar estava banhada pelo brilho suave de uma única lâmpada, e lá, no piano de cauda que eu nunca tive permissão para tocar, sentava-se Esperança Vasquez. Ela estava de costas para mim, seus dedos dançando sobre as teclas, extraindo uma melodia que era ao mesmo tempo bela e comovente.
Minha respiração ficou presa. Era ela, a mulher do vídeo, seu cabelo dourado brilhando sob a lâmpada. Fiquei paralisada na porta, de repente me sentindo uma intrusa em minha própria casa. Minha suposta casa.
Ela era deslumbrante. Seu perfil, iluminado pela luz suave, era etéreo, quase angelical. Ela era tudo o que eu não era - delicada, artística, refinada, nascida em um mundo de privilégio e beleza que eu só podia imitar. Sua elegância parecia preencher a sala, empurrando-me ainda mais para as sombras.
Suas mãos pararam nas teclas. Ela se virou lentamente, seus olhos azuis, grandes e inocentes, encontrando os meus. Um sorriso leve e conhecedor brincou em seus lábios. "Então, você é a Ayla, não é? A... esposa troféu." Sua voz era suave, sedosa, mas cada palavra era um punhal cuidadosamente colocado.
Minhas mãos se fecharam ao meu lado, minhas unhas cravando em minhas palmas. O insulto foi direto, brutal. Forcei um sorriso educado, minha voz calma. "Olá. Sou Ayla Thompson. É um prazer finalmente conhecê-la." Meu coração batia forte, mas eu não a deixaria me ver quebrar.
Ela não reconheceu minha apresentação, seu olhar varrendo a sala, pousando em um pequeno pássaro de madeira esculpido à mão na lareira. Era um presente do irmão de Anderson, uma antiguidade rara que ele valorizava. "Que trabalho intrincado", ela murmurou, quase para si mesma. "Ele sempre teve um olho perspicaz para a beleza."
Engoli em seco, minha garganta de repente seca. "Sim, ele tem", consegui dizer, minha voz uniforme. Ele era Anderson. O pássaro era um presente do irmão de Anderson para Anderson. Eu sabia o quanto ele valorizava aquele passarinho. Ele o limpava meticulosamente toda semana, seu toque surpreendentemente gentil.
Lembrei-me da vez, no início de nosso acordo, em que eu o peguei distraidamente, admirando seu delicado artesanato. Anderson apareceu silenciosamente atrás de mim, sua voz um rosnado baixo e perigoso. "Não toque nisso, Ayla." Seu olhar era de gelo, um aviso severo. Eu o deixei cair, meu coração batendo forte, desculpando-me profusamente. Ele apenas me encarou, depois pegou o pássaro com cuidado, polindo-o com um pano macio, como se meu toque o tivesse profanado de alguma forma.
Mas agora, ela estava falando sobre isso, quase acariciando-o com os olhos, e não houve repreensão dura de Anderson. A percepção me atingiu como uma onda fria: ela tinha o direito de tocá-lo. Ele não se importaria. Ela era quem pertencia aqui, sempre pertenceu. Eu era apenas a presença passageira. A amargura subiu, afiada e acre. Eu era apenas a substituta. Sempre.
Esperei, com a respiração presa, antecipando seu próximo movimento, outro golpe verbal. Mas ela apenas se virou para o piano, um sorriso fraco e condescendente brincando em seus lábios. Seus dedos encontraram as teclas novamente, a melodia de Chopin enchendo a sala, abafando o som do meu coração batendo. A música, antes bela, agora parecia zombeteira, sufocante. Meu peito apertou, uma dor surda se espalhando por mim.
De repente, a porta da frente se abriu com um estrondo. Anderson estava lá, seus olhos varrendo a sala, seu olhar pousando em Esperança. Ele congelou, todo o seu corpo rígido. A máscara fria que ele geralmente usava parecia rachar, revelando uma vulnerabilidade crua e assustada. "Esperança? O que você está fazendo aqui?" Sua voz era um sussurro tenso, uma coisa frágil que eu nunca tinha ouvido dele.
Esperança levantou-se do piano, seus olhos baixos, uma imagem de delicada tristeza. "Eu... eu precisava te ver, Anderson. Não consegui dormir." Ela parecia tão frágil, tão completamente perdida.
Um choque percorreu meu corpo. Minha mente disparou. Ela era sua cunhada. Casada com seu irmão. O 'único amor verdadeiro' pelo qual Anderson nutria uma paixão desde a infância. E aqui estava ela, no meu apartamento, sendo consolada pelo meu sugar daddy.
A expressão de Anderson suavizou, a frieza derretendo, substituída por uma preocupação profunda e dolorosa. "Esperança, você não deveria estar aqui. É tarde." Sua voz era gentil, carregada de uma ternura que fez meu estômago revirar.
"Eu só... eu só queria esperar por você", ela sussurrou, seus olhos cheios de lágrimas não derramadas. "Eu não sabia para onde mais ir." Ela parecia tão pequena, tão perdida, tão completamente inocente.
O olhar de Anderson piscou para mim, depois rapidamente se desviou, como se eu fosse uma sombra, uma presença inconveniente. Ele se moveu em direção a Esperança, sua mão alcançando o braço dela. "Você deve estar com fome. Vou preparar algo para você." Ele a conduziu em direção à cozinha, sua postura protetora, seu foco inteiramente nela.
Meus olhos se arregalaram enquanto eu o observava. Ele ia cozinhar para ela? Para ela? Lembrei-me da primeira vez que ele cozinhou para mim, uma rara, quase chocante demonstração de domesticidade. Tinha sido seu ensopado de carne, meu favorito. Eu fiquei tão comovida, tão tolamente esperançosa. Mas agora, enquanto o observava guiar Esperança, notei a maneira como ele estava preparando os ingredientes. Da mesma forma que ele preparou para mim. Os mesmos ingredientes exatos para o ensopado de carne.
Esperança olhou para mim, um sorriso doce e inocente nos lábios. "Ayla, querida, o que você geralmente prefere? Anderson conhece tão bem os gostos de todo mundo, não é?"
Anderson finalmente olhou para mim, seus olhos frios, distantes. "Ayla, vá fazer uma mala. Você vai ficar no St. Regis esta noite." Sua voz era monótona, uma demissão. Meu coração afundou.
"Mas Anderson", comecei, tentando manter minha voz uniforme, "minhas aulas começam cedo amanhã. Seria muito mais fácil se eu ficasse aqui." Eu sabia que era uma batalha perdida, mas tinha que tentar.
Ele me interrompeu, sua voz mais afiada agora. "Eu disse o St. Regis, Ayla. Não me faça repetir." Não havia espaço para discussão, nem espaço para negociação. Apenas um comando frio e duro.