O telefone tocou, quebrando o silêncio que eu tinha finalmente encontrado.
Pensei que a minha fuga daquela gaiola dourada, o meu casamento arranjado, me tinha concedido a liberdade.
Mas era Pedro, o meu marido, exigindo que eu voltasse para casa.
A minha família, os mesmos que me venderam, começaram a implorar, a manipular.
Diziam que o meu pai, o homem que me sacrificou por dinheiro, estava a morrer.
Que ele precisava de mim.
Por um breve instante, achei que tinha escapado.
Consegui um trabalho simples, uma vida anónima numa nova cidade.
Mas a paz foi brutalmente quebrada.
O meu meio-irmão apareceu, depois a minha madrasta, e então Pedro.
Ele não pediu, ele ameaçou.
E, numa noite de terror, ele invadiu o meu quarto de hotel e arrastou-me de volta à força.
Fui lançada de novo para a minha prisão, com a porta trancada por fora.
Como puderam eles fazer isto?
Como puderam exigir tanto, depois de me terem roubado tudo?
Quando o meu pai moribundo me pediu perdão, as suas palavras não foram as últimas que ele diria.
As minhas seriam.
Eu não o perdoaria.
Enquanto todos choravam a sua morte, eu tinha um segredo guardado.
Uma gravação.
Não só da sua confissão, mas também das ameaças do meu marido.
Preparei-me para a batalha final.
E desta vez, não haveria regresso.
O telefone tocou, quebrando o silêncio da noite. Eu atendi.
"Clara?"
Era o meu marido, Pedro. A sua voz estava baixa e rouca, como se estivesse a conter alguma emoção forte.
"Sim, sou eu."
"Onde é que estás? Porque é que não estás em casa?"
Olhei para as paredes brancas do quarto de hotel. Cheirava a desinfetante e a solidão.
"Estou fora. Preciso de um tempo."
"Um tempo? O que é que isso quer dizer? O teu pai está doente, ele precisa de ti. Ele não para de perguntar por ti."
O meu pai. O homem que me vendeu.
"Diz-lhe que estou morta," respondi, com a voz vazia de qualquer sentimento.
"Clara! Que raio estás a dizer? Ele é teu pai! Ele está a morrer!"
A sua voz subiu, cheia de raiva e incredulidade.
"Ele deixou de ser meu pai no dia em que me forçou a casar contigo para salvar a empresa dele."
Houve um silêncio do outro lado. Um silêncio pesado, carregado.
"Volta para casa, Clara. Vamos conversar sobre isto."
"Não há nada para conversar, Pedro. Eu quero o divórcio."
Desliguei antes que ele pudesse responder.
Bloqueei o número dele. Depois o da minha madrasta, Sofia. E o do meu meio-irmão, Tiago.
Finalmente, respirei fundo.
O casamento foi um negócio. Eu era o preço. O meu pai, Artur, estava à beira da falência. Pedro, o herdeiro de uma família rica, ofereceu-se para o salvar. A condição era simples: eu.
Casei com ele. A empresa do meu pai foi salva. Ele, a sua nova mulher Sofia e o filho dela, Tiago, continuaram a sua vida de luxo.
Eu fiquei presa.
Durante dois anos, vivi numa gaiola dourada. Pedro era um marido ausente, sempre a viajar, sempre ocupado. Eu era apenas um troféu que ele exibia em jantares de negócios.
O meu "pai" ligava-me todas as semanas. Não para saber de mim, mas para me lembrar do meu dever.
"Sê uma boa esposa, Clara. A nossa família depende disso."
A família deles. Eu não fazia parte dela.
Mas agora, o meu pai estava a morrer de cancro. Os médicos deram-lhe meses. De repente, eu tornei-me a sua filha querida outra vez.
Ele queria que eu implorasse a Pedro que usasse as suas ligações para conseguir um tratamento experimental no estrangeiro. Um tratamento que custava uma fortuna.
Eu recusei.
E pela primeira vez na minha vida, fugi.
Peguei no meu passaporte, em algum dinheiro que tinha guardado e saí daquela casa sem olhar para trás.
Não tinha para onde ir, por isso vim para este hotel barato numa cidade onde ninguém me conhecia.
A minha liberdade era estranha. Assustadora. Mas era minha.
No dia seguinte, encontrei um pequeno café perto do hotel. O cheiro a café fresco e pão quente era reconfortante.
Pedi um café e um pastel de nata, e sentei-me a uma mesa perto da janela.
Pela primeira vez em anos, senti-me normal. Ninguém me olhava como a "esposa de Pedro Bastos". Eu era apenas uma mulher a tomar o pequeno-almoço.
O meu telemóvel vibrou. Um número desconhecido. Ignorei.
Vibrou outra vez. E outra.
Finalmente, atendi, irritada.
"Estou?"
"Clara, sou eu, a Sofia."
A voz da minha madrasta era melosa, como sempre.
"O que é que queres?"
"Querida, o teu pai não está bem. Ele precisa de ti. Ele está a chamar por ti."
"Já disse ao Pedro. Eu não vou voltar."
"Não sejas assim, Clara. Ele ama-te. Nós todos te amamos. Estás a ser egoísta."
Egoísta. A palavra atingiu-me.
"Egoísta? Fui eu que fui vendida para que vocês pudessem manter os vossos carros de luxo e as vossas férias na Europa. E eu sou a egoísta?"
"Isso não é verdade! Foi um sacrifício pela família!"
"Não, Sofia. Foi um sacrifício da minha vida pela vossa família."
Desliguei o telefone.
As minhas mãos tremiam. O café parecia amargo agora.
Paguei a conta e saí. Precisava de andar.
As ruas estavam cheias de gente. Famílias a rir, casais de mãos dadas.
Senti uma pontada de inveja.
Será que algum dia eu teria aquilo? Uma vida simples, um amor verdadeiro?
Ou estava condenada a carregar o peso do meu passado para sempre?