Pov Charlie
As pessoas costumam dizer que o ser humano é capaz de se adaptar a tudo, que nos modificamos ou modificamos o ambiente à nossa volta para nos adequar e nos adaptar.
Eu era a prova viva de que isso é mentira.
Durante muito tempo me vi em uma situação de cárcere, sem me conformar nem por um minuto enquanto era mantida naquele cubículo.
Um espaço de três por dois e meio, era possível contar nos dedos a quantidade de passos que eu dava para cruzá-lo, sufocante, escuro, com apenas uma janela retângular com grade de onde nem era possível ver a rua. Ainda assim, era o meu mundo.
Passei os dedos pelas lombadas dos livros na estante mais alta, títulos infantis e juvenis na maioria, mesmo que meus preferidos fossem romances censurados em qualquer parte onde havia toque. Eu preenchia as lacunas com meus pensamentos, isso ele não podia controlar.
Quando o autor dizia "ele se aproximou", eu deitava no travesseiro e ficava imaginando motivos para se aproximar de alguém, de mim, onde ele tocaria? No meu rosto? Na minha mão? No vão triangular entre minhas pernas? Um lugar que aprendi a odiar ao longo dos anos, coberto pelo ferro da castidade onde nem o mais hábil ladino das histórias de fantasia conseguiria invadir
Algo escorregou pelo espaço entre a porta e o chão, me tirando da minha fantasia abstrata. Me levantei depressa, o bilhete que eu tanto ansiava finalmente havia chegado.
"Tudo pronto". Era o que dizia, mas a esperança de que sairia daquele quarto em breve foi manchada por duas marcas de digitais carimbadas em sangue no papel e sufocada pelo baque oco na porta pelo lado de fora.
Dei alguns passos para trás, até estar encostada na estante de onde caiu alguns livros, ouvi cada um dos trincos na porta serem abertos, os sons metálicos agindo como catalisador, juntando toda a agonia naquela contagem regressiva assustadora.
Ao final dos cinco cadeados, um silêncio de alguns segundos onde havia uma falsa paz, antes da porta abrir, lentamente, revelando uma visão assustadora.
O homem que me prendeu, ao qual eu era obrigada a chamar de pai, apoiou o braço no batente da porta, parecia cansado e furioso, em sua outra mão ele segurava o cabelo castanho claro de um garoto que não devia ter mais que a minha idade, alguns ainda o chamariam de criança, mas ele era o único que me encontrou ali, alguém que meu pai confiou um dia para me entregar os livros, comida, roupas. Alguém que eu também confiei que acabaria com meu sofrimento.
Ele me olhou com súplica, seu rosto estava irreconhecível, deformado pela surra, eu não tinha como ajudá-lo, eu também estava assim por dentro.
- É isso que acontece quando tenta fugir - a voz rouca que vinha carregada de pena fez meus pelos se arrepiarem - quando você vai aprender?
Meu pai sacou uma pistola da parte de trás da calça e rápido como arrancar uma farpa, ele a encostou na nuca do garoto e puxou o gatilho, o som do tiro naquele espaço minúsculo reverberou pelas paredes e fez meus sentidos entorpecerem.
Meu pai soltou o corpo morto que caiu do lado de fora do quarto e se aproximou de mim, exatamente como eu tinha imaginado, mas seu toque em meu rosto foi áspero e asqueroso.
Não era a primeira vez e naquele momento soube que não seria a última. Ele saiu do quarto e a porta bateu, ouvir aquelas trancas se fecharem doeu muito mais do que em qualquer dia.
Me sentei na cama, eu já nem conseguia mais chorar. Não sabia quando teria outra chance de ao menos tentar fugir, então precisava começar cedo. Jogar bilhetes pela janela não resolveu, meu pai colocou uma rede de pegava tudo o que caía daquele pequeno espaço que o vidro abria, assim como quebrar o vidro para pular também se mostrou ineficaz, mal tinha espaço para minha cabeça.
Fingir ficar doente, quando meu pai trouxe um médico que foi executado depois de me tratar. Gritar, implorar, ficar sem comer, sem banho, sem água. Nada funcionava. Nem mesmo partir para o coração mole dos poucos subordinados de meu pai que sabiam da minha existência.
Mas tinha que ter uma saída. O que os livros me mostravam era que coisas absurdas aconteciam, mas o herói sempre dava um jeito de tudo dar certo no final. Eu precisava ser a heroína da minha própria história, porque ninguém viria me salvar.
Só me trouxeram comida no dia seguinte, me levantei e como protesto, peguei a faca da bandeja e mesmo que ela não fosse afiada o suficiente, a usei para cortar as mechas longas do meu cabelo. Não foram cortes precisos, apenas peguei pequenas mechas e segurei em arco para então passar a faca partindo os fios.
Ainda assim, dias se passaram até que algo realmente acontecesse. Meu pai entrou no quarto com passos firmes.
- As coisas que você me obriga a fazer - seus olhos se encheram de água.
Pela porta um homem grande entrou empurrando uma caixa de madeira, a primeira coisa que pensei foi em como eu iria caminhar pelo quarto com aquela coisa ali dentro, demorei alguns segundos para perceber que ela era o suficiente para suportar minha altura e largura do meu quadril.
- Não, pai. Não.
- Você pediu por isso, Charlie - ele agarrou meu pulso, eu lutei, me debati, bravejei com toda a força que meus 156 centímetros permitiam, mas eu tinha apenas quatorze anos, contra dois homens adultos e maus.
Fui jogada para dentro da caixa, algo duro bateu na minha lombar me fazendo gritar de dor, então meu pai tirou o objeto e o prendeu em torno da minha cintura, era frio. O outro homem saiu do quarto sem expressar o mínimo de emoção.
- Eu odeio você - cuspi as palavras com toda a raiva em meu peito.
- Um dia, você vai entender - ele se afastou e olhou para mim ali dentro - você é preciosa demais para esse mundo, Charlie.
Ele bateu a porta do caixão enquanto eu gritava e ouvi mais uma vez cadeados serem trancados, bem mais perto dessa vez, em poucos segundos tudo estava escuro e silencioso, nos dias, meses e anos que se passaram, não existiu um só dia que eu não o quisesse morto, sete anos depois, Luke me deu isso.
***
Pov Luke
O interior espaçoso do meu Land Rover preto estacionado em frente a fábrica têxtil desativada, havia se tornado sufocante nos últimos cinco minutos, tudo piorava com a comitiva de homens armados com metralhadoras e canhões automáticos que cercavam o carro e mais alguns posicionados no telhado e no final da rua sem saída.
Spooky apertou a escuta em sua orelha, inclinando o rosto para o lado do vidro a fim de ouvir melhor, ao voltar ele tinha péssimas notícias.
- Mais dez minutos - suas palavras secas me desanimaram ainda mais.
Deitei a cabeça para trás até encostar no banco, ninguém do lado de fora conseguiria me ver vulnerável com o insulfilm negro que cobriam todos os vidros, meus olhos se distraíram com os clarões nas janelas quebradas, luzes que acompanhavam o som dos tiros de revólveres e Ak-47, os fuzis de assalto eram dos meus homens, as pistolas da quadrilha de menor poder não tinham a menor chance.
Dez minutos de pensamentos corroendo minha sanidade, dez minutos de desespero interno sufocados pela natureza da minha profissão. Dez minutos até que a porta do carro abrisse e eu pudesse assumir a máscara de assassino de aluguel bem sucedido, com um senso de humor mórbido e uma crueldade sem limites.
- Está limpo - Spooky saiu do carro e deu a volta no SUV até parar ao lado da minha porta. Desci com calma, a falta de pressa fazia parte do personagem, andei com confiança até a entrada da fábrica que teve seu portão de ferro aberto pelo lado de dentro.
O galpão já deixava claro para que fim aquele local era utilizado, à esquerda estavam as mesas compridas com balanças de precisão e embalagens, além de montes de coca, crack e maconha. Nada glamuroso, apenas mais um traficante de drogas sujo.
Sim, é verdade, eu mato por dinheiro, criei um império assim e quase não preciso colocar a mão na massa, meus subordinados fazem o serviço. Apesar de assassinato por encomenda ainda ser minha especialidade, aos poucos tomei conta de várias atividades ilícitas na cidade, incluindo tráfico, mas nunca concordei em como esse lixo é vendido para qualquer um, homem, mulher, criança... esse último é o que mais me incomoda.
À direita uma sala improvisada, provavelmente onde os capangas se juntavam para foder as mentes com a droga. Sofás tirados do lixo circulavam caixotes com todo tipo de substância.
Um corpo foi tirado de uma cadeira de ferro marcada com bala e pólvora, para que eu me sentasse, endireitei o terno mesmo que ele estivesse perfeitamente alinhado. Sentei e dobrei uma perna sobre a outra. Só então virei meus olhos para o único homem, além dos meus, que estava vivo.
O porco havia apanhado, seu olho direito inchado e roxo quase não abria e tinha mais sangue em sua camisa que nos machucados, provavelmente a garganta estava cheia desse líquido vermelho.
Fiz sinal para que o troglodita que o segurava se aproximasse, o porco foi arrastado até próximo a mim, ele sabia que havia perdido, seria torturado e morto sem piedade alguma. Só isso já era suficiente para fazer qualquer um chorar, mas o filho da puta estava aguentando bem. Assim que foi colocado de joelhos na minha frente, ele cuspiu, respingando sangue nos meus joelhos. Ignorei a malcriação, o troco viria logo.
- Saqueiem tudo, armas, equipamento tático, dinheiro - dei a ordem a esmo, servia para todos que não estavam ocupados com a guarda.
Pela primeira vez o porco se agitou sob a mão pesada do meu homem, quando os outros começaram a derrubar tudo, a intenção era mais bagunçar do que roubar.
- O que quer que façamos com a droga?
- Jogue na lixeira e ateie fogo - abri os botões do terno devagar e de dentro dele tirei uma faca tratorada que fiz dançar nos meus dedos enquanto me inclinava em direção ao porco - vamos começar? - pedi como quem convida para dançar.
- O que eles estão fazendo? - o homem cuspiu as palavras que saíram repletas de sangue de sua boca e meneou a cabeça em direção a escada modular.
- Que tal esquecer o que eles estão levando e se concentrar em me dizer alguns nomes.
- Nomes - ele forçou o riso o que me fez sorrir também, eles sempre pareciam confiantes no começo - como se eu soubesse quem me pagou.
- Nesse caso, vamos começar com o que eles te pagaram para fazer?
- Comer a sua mãe.
- Ah, leitãozinho - meu sorriso cresceu - você está me dando exatamente a diversão que eu procuro.
Sem que eu precisasse falar ou gesticular, o troglodita colocou a mão do homem sobre um dos caixotes e segurou firme, ele tentou se soltar, mas foi inútil, rodei a faca mais uma vez e a deixei com a ponta para baixo e comecei a cantar.
Aquela encenação estava começando a sufocar, queria nomes, queria informação, queria achar quem foi o verme que teve coragem de matar o meu irmão e agora estava galgando um lugar que conquistei ao longo dos últimos quinze anos. Apesar disso, eu não podia me despir da máscara, embora ninguém que eu não quisesse fosse sair vivo dali, nem todos os homens que trabalhavam para mim eram de extrema confiança.
- Oh, I have all my fingers, the knife goes chop, chop, chop. If I miss the spaces in between, my fingers will come off - a cada palavra a faca batia com força entre os dedos, ao final do verso inclinei a lâmina para baixo arrancando o dedo médio com uma precisão cirúrgica.
Aquele grito fez eu me sentir vivo.
- Sigilo... eles pediram sigilo - ele berrou.
- Eles? Estamos chegando em algum lugar - eu brinquei.
- É modo de falar, seu filho da puta. Já disse que não sei quem são.
Um alvoroço começou no andar de cima, olhei primeiro para Spooky que se colocou em ação, se dirigindo à escada com passos pesados. Endireitei o corpo e acompanhei meu braço direito com o olhar enquanto ele andava sem pressa pelo local, eu estava louco para ir embora daquele lugar, a última coisa que eu queria era mais problema
Pov Luke
- O que foi? Cansou, seu escroto - o porco começou a se debater e tentar a todo custo chamar minha atenção.
- Está com medo? O que você não quer que eu ache?
O ódio em seu olhar foi quase palpável, Spooky apareceu no parapeito do mezanino modular com uma expressão tão confusa que me deixou intrigado.
- Hei, Luke. Acho que vai querer ver isso.
- Eu juro que vou matar você.
- É, está se saindo muito bem. Segurei seu dedo recém arrancado e joguei contra o rosto dele.
Dei às costas ao porco que sangrava sem parar, a escada de ferro vibrou com meus passos e assim que entrei no mezanino pude ouvir o alvoroço mais atentamente. Além da porta por onde entrei, havia uma outra que havia sido aberta com um pé de cabra pelos meus homens, contei seis trancas nela, um garoto recém contratado apontava a pistola insistentemente para um alvo que eu ainda não conseguia ver.
- O que tem aí?
- Ainda não sabemos - respondeu Spooky revirando uma cama no mezanino que também contava com uma mesa repleta de grana e um sofá de couro velho.
- O que está fazendo?
O novato tinha um desespero tenso na voz que deixava bem claro sua inexperiência e misturada a dele, havia um som, uma voz com timbre mais agudo e sutil. Um pedido de socorro. Coloquei a mão em seu ombro e ele se afastou, mas mantendo a pistola apontada para uma caixa de madeira em pé.
- Estou procurando a chave - Spooky anunciou enquanto revirava a mesa no escritório, derrubando dinheiro para todo lado.
Tirei o revólver da mão do mais novo e mirei atentamente para o cadeado que prendia a caixa, disparei duas vezes e a tranca caiu.
- Abra - ordenei ao menino enquanto eu me mantinha em pé na frente da caixa. Ele puxou a tampa e pela primeira vez no dia, esqueci de interpretar um personagem.
- Mas que porra é essa?
Tinha uma garota em pé naquele caixão, mas não estava simplesmente em pé, ela era apoiada dentro da caixa de madeira artesanal que não dava nenhum espaço para que se virasse. Seu corpo claro e delgado parecia não se encaixar com aquela crueldade.
Fios de cabelo longo e preto escorriam de seu couro cabeludo, como uma cortina de contas pelo seu rosto e colo ofegante. Ela era bonita e inocente, como uma miragem.
Ela me encarou, o movimento de sua garganta quando engoliu em seco fez um som oco contra o silêncio do quarto, meus homens na porta pareciam prender até a respiração enquanto eu me aproximava dela. Inspecionei a parte de dentro da caixa e depois o corpo dela enquanto a garota ficava em silêncio, ela vestia uma saia longa que cobria até os pés e uma camiseta de malha de manga comprida que fazia o mesmo com o tronco e braços, mas havia algo estranho. Uma protuberância logo abaixo das costelas.
Levantei a barra da blusa e percebi que sua cintura era presa por um cinto de ferro que criava feridas abertas em seu corpo.
- Santo Deus, quem faria isso? É doentio.
- Meu pai - a voz dela era doce como açúcar.
O homem lá embaixo continuava gritando maldições para mim, fiz uma pequena menção com a cabeça.
- Ele é seu pai?
Ela assentiu, não havia nenhuma emoção em seu rosto.
- Posso atirar? – o garoto perguntou apressado.
- Não, por favor - ela implorou com a voz chorosa - eu não quero morrer aqui dentro.
- Consegue andar?
Ela assentiu.
- Senhor? - Spooky chamou minha atenção, mas ignorei.
Dei a mão a ela, seus dedos gelados tocaram nos meus calos sutilmente e ela deu um pequeno passo, uma distância extremamente curta que o cinto a deixava alcançar, a garota era ainda menor do que parecia.
- Posso atirar agora?
- Tira esse cara daqui - instrui Spooky que prontamente agarrou o novato pelo colarinho puxando para fora do mezanino - e me consiga uma serra, pelo amor de Deus.
Andei pelo quarto enquanto esperava, aquela merda tinha que acontecer comigo, eu só queria arrancar todos os dedos e a informação daquele cara, passar no drive-thru do Mcdonalds e ir para casa tomar um banho. Mas precisava ter uma garota bonita dentro de uma caixa, se algo não desse errado para mim eu até desconfiaria.
O quarto era pequeno, muito pequeno, mas tinha uma cama arrumada, mesmo que aquela garota parecesse estar presa na caixa há muito tempo. Uma escrivaninha sem cadeira e uma estante de livros abarrotada completavam a mobília. Peguei um dos livros e o folheei apenas para passar o tempo, mas havia tantas palavras e frases censuradas com caneta preta que seria impossível ler.
- Por sorte, sou bem criativo com castigos - brinquei ao ver Spooky e o novato voltarem com uma serra automática que provavelmente encontrou no porta-malas.
Spooky ligou a ferramenta na tomada e o som encheu o quarto, a garota não se assustou, os olhos dela focaram em mim, inocentes, calmos, negros como dois discos de hóquei, enquanto Spooky mexia em seu corpo sem cuidado e cerrava o ferro bem perto da sua pele, a concentração dela estava em mim.
Aquilo foi sexy pra caralho e até pensei em foder ela dentro da caixa. Um desejo que mostrava o quanto eu estava ferrado.
- Tire todos daqui - ordenei assim que ouvi o peso do cinto cair no chão - fica de olho nela - devolvi a pistola para o novato que se apressou em apontar para a cabeça da moça.
Dei as costas, mas fui parado por Spooky ainda no mezanino, normalmente ele não me questionava durante um trabalho, embora não fosse apenas um capanga que obedecia a ordens, entendia que na rua precisava ser.
- Luke, o que está fazendo? - ele sussurrou.
Olhei para a mulher ainda no quarto pequeno, imóvel como uma boneca esperando para ser tirada para brincar.
- É desumano.
- Ótimo, você a libertou, agora me deixa acabar com o sofrimento dela e volta lá pra baixo.
- Ainda não, ela parecia importante para aquele cara, vou usá-la para conseguir as informações que eu preciso.
***
Pov Luke
O homem não parava de gritar, estava louco para arrancar a língua dele. Me sentei na sua frente outra vez e apenas quando Spooky colocou o pé nas costas do homem e o brutamontes que o segurava antes saiu sob minha ordem, que o novato desceu com a garota, a colocando ao meu lado, mas ainda no meu campo de visão e apontava, insistentemente a pistola para a cabeça dela.
- Filhinha, não se preocupe, o papai vai resolver tudo.
- Ah claro - brinquei - diz pra ela que vai ficar tudo bem. Que vai me contar o que eu preciso saber e então vocês dois podem voltar lá pra cima e jogar esse jogo incestuoso nojento.
- Seu desgraçado, eu juro que vou matar você.
Spooky fez sinal para mim e já sabia o que queria dizer, estávamos ficando sem tempo.
- Onde estávamos? Ah, é verdade. Quem te pagou e o que pediu?
- Vai a merda - o olhar dele variava de mim para a filha, eu sabia o que fazer, aliás a peguei para isso.
- Traga ela aqui.
- Não - o porco se debateu - se você tocar nela...
- Suas ameaças não me dizem nada - me levantei enquanto o novato a empurrava, seus passos lentos e olhar vazio me fizeram ter uma compaixão que nunca senti antes - fique parada - pedi ao colocá-la na minha frente, seu bumbum disfarçado com a roupa larga quase encostou em mim, peguei a faca novamente no terno e segurei a mão da garota mantendo a lâmina em seu dedo mindinho - quem?
- Eu já disse que não sei nenhum nome.
- Ah, mas a outras formas de dizer quem são - apertei a lâmina e ela estremeceu um filete de sangue escorreu do dedo dela sem que o porco expressasse uma preocupação maior, não foi difícil notar que a dor dela não significava muito para ele.
Soltei a mão dela e a senti suspirar em meu peito, passei a faca pela frente do seu corpo e segurei a barra da blusa, a rasgando com um movimento rápido, um triângulo abriu mostrando sua barriga através dele.
- O que vai fazer?
- Me desculpar com ela - coloquei minha mão em seu ventre, a pele macia se arrepiou com o toque, ela meneou a cabeça, quase olhando para mim atrás dela, esfreguei meus dedos devagar circulando seu umbigo e logo abaixo dele, encerrei dando um breve beijo no topo da sua cabeça.
Porra, meu pau já estava duro a essa altura e eu mal tinha encostado nela.
- Tá bem, tá bem. Eu falo - ele respirou e para aliviá-lo momentaneamente eu parei minhas carícias - tem um cara, ele atende na Royal Party, ele... ele sabe de alguma coisa.
Subi a mão lentamente pelo corpo dela, passando pelo meio dos seios.
- Esse cara me ofereceu um acordo, disse que me daria desconto nas taxas de importação se eu passasse a fazer com negócios com outra pessoa.
- Foi quem colocou a droga para dentro? - perguntei ainda subindo e descendo os dedos pelo vale entre os montes.
- Acho que sim, só sei que depois de aceitar e fazer a transação bancária as drogas chegaram.
- Qual o nome dele?
- Eu não sei, a conta no banco era fantasma, o destinatário era Stuart Keen. Eu juro, não sei de mais nada. Por favor - ele implorou - tire suas mãos da minha menininha.
Ele até podia estar dizendo a verdade, mas eu precisava ter certeza, desci a mão a passando para dentro da saia, claro que percebi que estava diferente, ela murmurou um 'não' quando passei pela calcinha rígida, mas foi quando toquei onde devia estar a boceta deliciosa dela que senti meu dedo sendo cortado profundamente.
- Porra! - a soltei enquanto o porco ria de se acabar - a merda de um cinto de castidade, seu doente?
Acertei o punho no queixo dele com tanta força que senti o osso se partir, empurrei a garota até próximo a ele e o novato me passou a pistola, apontei direto para a cabeça dela, eu queria que ele a visse morrer, sofresse com isso antes de ter o mesmo fim.
Mas eu sabia o que era ter um pai de merda, coloquei a pistola na mão delicada e a cobri com a minha, ela não estremeceu, no lugar disso segurou mais firme.
- Olha pra mim - sua voz baixa foi direcionada ao homem que ainda no chão com a bota de Spooky nas costas, virou o olhar para a filha.
Não dei tempo a ele de dizer que sentia muito, puxei o gatilho e descarreguei três tiros nele. Ela soltou a pistola, estava feito, com o homem morto o corpo frágil dela relaxou e de alguma forma isso também me fez sentir vingado.
- Luke, acaba logo com isso - Spooky chamou minha atenção mais uma vez.
- Posso fazer, senhor.
- Não, eu faço - apontei a pistola para a cabeça dela e a garota me surpreendeu ao virar de frente para mim em um giro rápido.
Ela agarrou minha camisa dentro do terno com os punhos fechados e enfiou o rosto em meu peito, o primeiro instinto foi de abraçar e proteger, mas então me lembrei de quem eu era. Ela respirou fundo e virou o rosto para mim, sua boca quase encostando na minha enquanto falava.
- Nos livros, os executores sempre dão ao abatido um último desejo - seus olhos se encheram de água e sua voz embargou tanto que mal a entendi - você vai me conceder um último pedido?
E como eu iria negar? Ela estava ali, frágil e tinha sofrido muito. Eu era um assassino mercenário e não um carrasco sem sentimentos. Além disso, eu não gostava de matar.
- O que você quer?
- Eu nunca fui beijada.
- Luke? - esse era o limite para Spooky e seu tom urgente me dizia isso, ainda assim, fiz sinal para que ele se detivesse.
- Quer que eu a beije?
Ela assentiu, curto e rápido. Levantou seus lábios e esperou que eu cruzasse o resto do caminho, eu morreria por aquela boca e ela estava oferecendo a mim.
Me abaixei lentamente, encostando nos lábios dela devagar, ela apertou mais e suspirou. Porra, a cabeça dela estava tão ferrada. Meu braço doeu e precisei abaixar a arma, quando sentiu o cano de ferro se afastar, a garota segurou meu rosto com as duas mãos e apertou mais o beijo, abrindo a boca de leve, minha língua passou entre os seus lábios encontrando o vazio do outro lado, ela realmente não sabia o que fazer.
Quando me afastei, a garota permaneceu de olhos fechados.
- Luke, acaba logo com isso. A gente tem que ir.
- Senhor, eu posso...
- Você tá louco pra meter bala em alguém, não é? - perguntei ao novato que assentiu, me fazendo rir - coloca ela no carro.
O novato agarrou o braço dela com muita força a puxando para fora do galpão.
- Não precisa fazer isso.
- O que está fazendo? - Spooky me olhou desconfiado.
- Eu posso ter o que quiser - dei de ombros - você me diz isso o tempo todo. Eu quero ela.
- Porque não fazemos assim, eu mato o cara e a garota e te compro um peixe.
- Mas eu quero ela - bati o pé.
- E o que fazemos com ele?
- O novato? Vamos ficar de olho nele, enquanto ele estiver na torre, estaremos bem. Agora vamos embora, estou com fome.
Pov Charlie
Ao pisar do lado de fora do galpão, experimentei uma sensação de liberdade impressionante. Eu só queria respirar fundo e por muito tempo. O ar puro me invadia como uma coisa totalmente nova, o céu acima de mim, escuro como um manto negro parecia surrealmente infinito.
- Entra no carro - senti o cano da pistola nas minhas costas e obedeci, ou tentei mas por mais forte que eu tenha puxado a porta não abriu.
Ele reclamou e abriu a porta com tanta facilidade que me senti envergonhada, era um espaço pequeno, minúsculo na verdade, mesmo assim eu queria entrar e esperar por ele. Para que olhasse para mim de novo com aqueles olhos azuis perfeitos. Por mais que ele fosse apenas um homem, era meu salvador.
Era como me sentia naquele momento, salva, não a heroína da própria história.
Me sentei o máximo afastada da porta possível e reparei em como a textura do banco era diferente, parecia couro e não tecido, estava frio. Não demorou até que ele saísse do prédio e ao contrário do que eu pensei, ele não se sentou do meu lado, fiz um bico de choro que não foi notado por ninguém.
O carro ligou, silencioso e deslizou pelo asfalto. Na última vez que pisei do lado de fora foi quando cheguei no galpão e a rua ainda era de paralelepípedo, agora asfaltada. Pela avenida, prédios altos e vitrines se erguiam. Cada um deles iluminado, luzes refletiam no vidro criando linhas coloridas que precisei tocar.
- Vai deixar as janelas marcadas, garotinha.
Abaixei a mão rapidamente e olhei para ele. Estava sorrindo. Passei a observar e ouvir dentro e fora do carro.
Dentro, descobri que meu salvador era Luke, parecia o chefe de tudo, embora Spooky falasse com ele como um bom amigo, diferente de como eu ouvia os subordinados falarem com meu pai, o garoto do meu lado não parecia mais velho que eu e era chamado pelos outros de Novato, estava ansioso e manteve a arma apontada para mim o tempo todo.
Lá fora, percebi que passamos por muitas ruas mais de uma vez e demos muitas voltas antes de Spooky ter certeza que não estava sendo seguido e entrar no estacionamento subterrâneo do prédio.
Fiquei quieta enquanto os outros saíam do carro, Luke deu a volta e abriu a porta do meu lado, me virei para ele e esperei nova ordem.
- Chegamos - ele sorriu - como você se chama?
- Charlie.
- Bem, Charlie, tem alguém lá dentro que pode não gostar de ver você - ele se inclinou sobre a porta do carro e seu cabelo longo loiro caiu sobre seu rosto - digamos que trazer você aqui nesse momento é algo imprudente. Entende isso?
- Sim.
- Ótimo, mas vamos conseguir um quarto para você e te alimentar - ele suspirou pesadamente - porra, eu tô morrendo de fome.
Eu queria dizer mais do que palavras soltas, mas tudo aconteceu tão de repente, ele me tirou do carro e o acompanhei até o elevador onde os outros dois esperavam.
- Senhor, eu só queria dizer que é uma honra estar na torre - o novato disse.
Mas os olhos de Luke estavam no espelho à nossa frente, onde ele fitava o reflexo da minha barriga exposta, ele tocou de novo, mais leve dessa vez e de novo eu estremeci com a dor de seus dedos ásperas sobre as feridas.
- Peça para ela fazer uma lista - Spooky disse a ele - peço a alguém para buscar amanhã.
O elevador demorou para chegar ao último andar, o painel eletrônico já havia me entediado profundamente. Saímos para um longo curto onde só havia uma porta, que ia do chão ao teto e era extremamente larga, poderíamos passar os quatro de uma só vez.
O interior era ainda mais impressionante, um amplo espaço aberto com mais de um ambiente, cozinha, sala de jantar, sala de estar, bar. Tudo à vista sem paredes, portas ou trancas na frente. As grandes janelas de vidro que ocupavam toda a extensão do apartamento futurístico faziam parecer ainda maior.
- Bem vinda ao lar, boneca - Spooky falou ao passar por mim, seu tom era entediado.
A porta foi trancada atrás de mim, o garoto abaixou a arma pela primeira vez, seus olhos estavam tão encantados e brilhantes quanto o meu.
- Donald? - Luke gritou da sala - temos visitas.
Meu corpo todo ficou tenso quando um homem de meia idade apareceu na escada, ele era grande e através das mangas dobradas da camisa eu pude ver os braços cobertos de tatuagens escuras, a barba grisalha ia até o peito e o cabelo bem cortado dava um ar de cuidado com a aparência inegável.
Ele olhou para mim com os olhos injetados.
- Mas que merda, Luke.
- Ah não fala assim. ela é minha agora.
- Saiu para buscar informações e volta com dois bichinhos de estimação?
Luke olhou para mim e murmurou um pedido de desculpas que eu não entendi. Ele não tinha nada a que se desculpar.
- Spooky vai te levar até o quarto de hóspedes, fique a vontade para um banho ou descansar e pode descer para jantar comigo depois.
- Vem garota - Spooky fez sinal para que eu o seguisse antes de se virar para o novato - e você fica aqui e em silêncio.
- Sem problemas, senhor.
- Tchau - fiz um aceno rápido para o novato antes de seguir escada acima.
Spooky andou pelo longo corredor cheio de portas e obras de arte nas paredes, sei que são obras de arte porque eram horrorosas como as do museu que eu ia com a escola.
- Acho que esse é o mais feminino - Spooky abriu uma portas girando a maçaneta e deu espaço para que eu entrasse.
Olhei a porta com atenção.
- O que está procurando?
- Não tem trincos ou cadeados?
- Não, mas não se engane, ninguém entra ou saí daqui sem permissão.
- Está bem, obrigada.
Assim que parei na porta meu coração também parou, não tinha palavras para descrever aquilo, eu poderia correr uma maratona ali dentro, a cama caberia umas dez pessoas e tinha mais duas portas dentro do quarto.
- É tudo um quarto só?
- Menina - ele riu - é uma pena que você vai ser descartada logo.
***
Pov Charlie
Fui empurrada para dentro daquele quarto de uma vez, não com as mãos, Spooky fazia o possível para não olhar para mim, quanto menos me tocar. O empurrão foi em minha mente, acho que ficar tanto tempo presa em um quarto minúsculo fez isso com a minha mente, vi um quarto, uma porta e entrei, não consegui resistir.
- O que eu faço? – me virei para Spooky atrás de instruções.
- Não pulando da janela, pra mim está ótimo.
Sem ao menos terminar a frase, ele saiu de frente da porta, corri e dei uma breve espiada, vendo que ele já estava no final do corredor, descendo as escadas. Ele nem tinha fechado a porta então fiz isso.
Quando voltei minha atenção para o quarto parecia ainda maior, á minha frente a cama ficava no centro, entre duas janelas do teto ao chão e cada uma com a largura do meu antigo quarto, andei com os pés descalços pelo carpete macio e quente, toquei o veludo da poltrona e a madeira fria da mesa, acima dela uma pequena prateleira com alguns livros, abri um deles, não haviam paginas faltando ou frases censuradas.
Continuei explorando, uma das portas que abri tinha um armário, um closet, estava recheado com roupões felpudos e cobertores, um espelho no final e em frente a ele um puff de veludo rosa claro.
- Eu poderia morar aqui – disse para mim mesma.
Do outro lado do quarto havia outra porta, que descobri ser o banheiro com uma grande banheira, eu não poderia imaginar um lugar assim nem mesmo nos mais absurdos sonhos, era tudo muito branco, exceto pela pia de mármore escuro, parei em frente a ela, abri a torneira e senti a temperatura da água.
Estava fria, muito diferente do que estava acostumada, comecei a chorar quando percebi o quão precioso era lavar o rosto em água fresca pela primeira vez em anos, não importava o quanto Spooky tenha tentado me assustar dizendo que não sairia dali sem a permissão de Luke, eu estava livre ou pelo menos tinha alguma dignidade, o que me lembrava das minhas feridas.
Levantei a blusa, só o ar já foi o suficiente para fazer as feridas doerem, haviam bolhas em toda a parte onde o cinto de ferro apertava, algumas com pus branco e nojento.
Ouvi uma batida na porta e demorei um tempo até perceber que era eu quem tinha que abrir.
- Comida? – novato deu um breve sorriso, ainda parecia um pouco nervoso, mas tentava ser simpático.
- Luke disse pra eu descer e jantar com ele.
- Eu sei, é que ele acabou ficando ocupado, pediu para eu subir e trazer isso – novato trazia uma bandeja de prata com uma grande redoma de mesma cor - como massa?
- Acho que sim.
Ele passou por mim e colocou a bandeja sobre a mesa perto da poltrona.
- Uau, esse quarto é demais.
- Parece empolgado em estar aqui.
- É, acho que sim – ele encostou na parede de braços cruzados – você não faz ideia de onde está, não é?
Balancei a cabeça.
- Bem, esse é o palácio do rei da cidade. Estar aqui, principalmente na cobertura significa que ele confia em você. Bem, no seu caso, acho que o motivo é outro.
- Ele me salvou.
- É, o que aconteceu com você foi uma merda, desumano no mínimo e pensar que ele era seu pai. Nossa.
- Nunca o vi assim, nos livros infantis os pais eram amorosos e atenciosos, cuidavam dos filhos com amor. Ele não me amava.
Novato me olhou por um tempo, o cheiro da comida estava impregnando tudo então tirei a redoma, era um prato com macarrão e um molho branco, havia brócolis também e alguma coisa marrom adocicada.
- Está com dor?
- Um pouco, mas acho que vou melhorar agora.
- Não quero que me entenda mal, mas eu entendo seu pai – levantei os olhos me mantendo inexpressiva – tipo, o mundo é cruel, garotas saem para uma festa do colégio e são drogadas, estupradas e mortas – cada palavra saía de sua boca com mais raiva – ele queria te proteger, só foi longe demais.
- Aconteceu com alguém que você amava?
- Minha irmã.
- Sinto muito.
- Se eu tivesse proibido ela de sair naquele dia, não teria acontecido. Seu ai fez basicamente isso.
- Por oito anos.
- Ele deve ter esquecido.
Não consegui evitar um sorriso, ele estava fazendo piada com uma situação dolorosa mas que havia ficado para trás.
- Desculpe ter apontado a arma para você.
- Tudo bem, não me incomodou.
- Era minha primeira missão assim.
- Parece mais relaxado agora.
- Você também. E, olha, meu nome é Adam. Nada de novato pra você, chegamos nessas juntos.
- Tá bem, me chama de Charlie.
Ele assentiu, me concentrei na comida, dei uma garfada e o sabor foi a coisa mais maravilhosa do mundo, tinha realmente gosto de comida e não de micro-ondas, não consegui parar até o prato estar completamente limpo.
- Nossa, você tava mesmo com fome. Quer que eu pegue mais.
- Não, obrigada.
Ele veio e tirou a bandeja da minha frente, deu as costas e depois voltou a me olhar quando já estava na porta.
- Olha, eu espero que dê tudo certo para você, depois do que passou.
- Obrigada.
Ele saiu e fechou a porta, agradeci por isso também. Adam parecia legal e achei muito gentil a forma como falou comigo. Me sentia cansada, estava tarde e toda aquela agitação foi exaustiva, nunca tinha me movimentado tanto, demoraria até que eu acostumasse com escadas, por exemplo, me deitei na cama, macia como algodão, completamente desconfortável.
Virei para um lado e para o outro, estava solta, parecia mergulhada em um mar de espaço infinito, tentei me encolher e usar os travesseiros, continuei com a sensação de estar em queda livre.
Era insuportável, me enrolei no cobertor mais quente e entrei no closet, ali dentro pude respirar melhor, era mais claro e mais limpo que meu antigo quarto, mas tão estreito quanto, o que já me causava alívio.
Deitei sobre o chão, um pouco mais duro do que eu estava acostumada, mas muito melhor que a cama, apague a luz e quase me senti em casa, ainda assim, faltava algo, faltava a caixa, faltava a dor e a angustia.
Como eu poderia sentir falta dessas coisas?
E mais uma vez, comecei a chorar, inconsolável.