Eu estava grávida de oito meses do herdeiro do império criminoso do meu marido, o homem que eu idolatrava.
Até que encontrei o certificado de vasectomia dele, datado de um ano atrás - seis meses antes de ele me implorar por um filho.
Nosso casamento inteiro era uma mentira, um jogo cruel orquestrado para a irmã obsessiva dele. Eu o ouvi admitir que deixou seus homens abusarem de mim, transformando minha gravidez em uma aposta pública só para provar que podia construir um trono para mim e depois me ver queimar nele.
Meu amor, minha vida, meu filho - tudo não passava de um sacrifício ritual.
Mas eles se esqueceram de uma coisa sobre a mulher que planejavam destruir.
Enquanto tramavam minha humilhação final, fiz uma única ligação para o único homem que meu marido realmente teme.
"Pai", eu disse baixinho. "Estou pronta para voltar para casa."
Capítulo 1
Alina POV:
Descobri que meu casamento tinha acabado do mesmo jeito que descobri que minha vida era uma mentira: encontrando um pedaço de papel dobrado na mesa do meu marido.
Era um certificado de vasectomia.
Eu estava grávida de oito meses.
Era para ser uma vida perfeita. Eu era Alina Carbone, esposa de Marco Carbone, o Subchefe da família criminosa mais poderosa de São Paulo. Ele era um homem esculpido em sombras e violência, um rei em uma cidade que se curvava à sua vontade. Para o mundo, ele era um monstro. Para mim, ele era o homem que segurava meu rosto entre as mãos e me prometia a eternidade.
Eu o amava. Meu Deus, eu o amava com uma pureza que não pertencia ao mundo dele. Era um amor estúpido e imprudente, do tipo que te faz fugir do seu próprio nome, do seu próprio sangue, só para ficar com o homem que você acha que é o seu tudo.
Eu estava organizando o escritório dele em casa, um espaço de madeira escura com o cheiro fraco de charuto e uísque. Passei a mão pela minha barriga inchada, um lembrete constante e alegre da vida que crescia dentro de mim. Nosso filho. O futuro da família Carbone.
Uma gaveta trancada em sua pesada mesa de mogno sempre fora proibida. Mas a chave estava lá, escondida sob um mata-borrão. Eu a girei.
Dentro estava o certificado. Paciente: Marco Carbone. Procedimento: Vasectomia. A data era de um ano atrás. Seis meses antes de ele me implorar pela primeira vez por um filho.
O ar na sala congelou. Meu corpo se moveu antes que minha mente pudesse acompanhar. Eu precisava vê-lo. Precisava ouvi-lo explicar aquele pedaço de papel impossível e devastador.
Dirigi até sua sede no centro da cidade, um arranha-céu de vidro escuro que perfurava o céu na Faria Lima. Os seguranças conheciam meu rosto. Eles assentiram enquanto eu passava apressada, meus saltos batendo um ritmo de pânico no piso de mármore.
O escritório dele ficava no último andar. Quando alcancei as pesadas portas duplas, ouvi um som que me paralisou.
Risadas. Risadas altas e profundas. Era Marco e seu Capitão, Enzo.
"Ela está radiante", a voz de Enzo zombou, carregada de diversão. "Anda por aí como uma santa grávida, esfregando aquela barriga enorme. Totalmente sem noção."
Minha mão congelou, a centímetros da maçaneta.
Então veio a voz de Marco. A voz do meu marido. Estava oca, tingida com um desprezo tão profundo que pareceu um golpe físico.
"Quanto mais alto ela sobe, maior é a queda", disse ele, seu tom plano e entediado. "Deixe-a aproveitar. É o ato final."
"Ainda não entendo o 'porquê' de tudo isso, Marco", disse Enzo, o som de gelo tilintando em um copo. "Essa obra-prima de crueldade de nove meses. Casar com ela, o garoto... é muito teatro."
Marco ficou em silêncio por um momento. Quando falou novamente, sua voz estava diferente. Mais suave. Quase devocional. "Este não era o meu plano, Enzo. Foi o meu juramento. A Helena."
Meu coração parou. Helena, sua irmã adotiva. A garota cuja fotografia ele mantinha ao lado da cama, aquela que ele dizia ser apenas uma memória querida da irmã que seu pai cruel havia mandado embora.
"Meu pai a mandou embora porque viu o quão próximos éramos", continuou Marco, sua voz carregada de uma amargura antiga. "E enquanto ela estava lá, passou por um inferno. Espancada, usada por bandidos de rua. Isso quebrou algo nela. E todo aquele tempo, ela imaginava que eu estava seguindo em frente, esquecendo-a."
Ele soltou uma respiração curta e áspera. "Então eu conheci a Alina. Cometi o erro de mandar uma foto dela para a Helena, tentando mostrar que não tinha encontrado ninguém importante, apenas um tapa-buraco. Mas a Helena... ela viu a semelhança. Ela viu um fantasma usando seu rosto, vivendo a vida que foi roubada dela. A esposa do Subchefe. A dona da mansão. Ela chamou a Alina de substituta. Um insulto ambulante."
Senti o sangue sumir do meu rosto. Meus olhos. Ele sempre me disse que se apaixonou pelos meus olhos. Eram os olhos de Helena.
"Então ela propôs um teste", a voz de Marco baixou para um sussurro venenoso, como se citasse uma escritura. "'Quero que você prove sua lealdade, Marco', ela me disse. 'Quero que pegue essa substituta, essa garota que tem o meu rosto, e quero que construa um trono para ela só para poder vê-la queimar nele. Faça-a se sentir uma rainha, e então quero que deixe seus homens a transformarem em uma vadia. Prove para mim que ela não passa de um recipiente. Só então acreditarei que você ainda é meu.'"
A sala se dissolveu em um zumbido nos meus ouvidos. Isso não era apenas uma traição. Era um sacrifício ritual. Eu era a oferenda.
"E a aposta?", perguntou Enzo, sua voz um assobio baixo de compreensão crescente.
"A aposta é o registro público da minha devoção", disse Marco friamente. "Uma declaração de que esta criança, esta suposta linhagem, significa menos para mim do que a paz de espírito de Helena. Cada homem que aposta dinheiro dizendo que o herdeiro não é meu é mais um prego no caixão dela, mais uma flor aos pés de Helena."
"Caramba", sussurrou Enzo. "Então, quando eu... você sabe..."
"Você foi o primeiro instrumento do meu juramento", Marco completou por ele. "Exatamente como ela exigiu. O primeiro a profanar a substituta."
A dor era uma mão gigante espremendo meus pulmões. Mas então, algo mais surgiu das ruínas do meu coração. Era frio. Era afiado. Era o sangue Moretti que eu tanto tentei esquecer.
Eles haviam construído uma mentira dentro de mim. Este bebê, meu filho, era a vitória deles feita em carne. Uma corrente que eles usariam para me possuir para sempre.
E eu não os deixaria vencer.
Minha mão, milagrosamente firme, tirou meu celular da bolsa. Meu polegar rolou pelos meus contatos, passando pelos amigos que fiz nesta vida falsa, até um número que eu não discava há três anos. Um número que eu fora proibida de esquecer.
Minha voz não tremeu quando a chamada foi completada.
"Pai", eu disse baixinho. "Sou eu, Alina. Estou pronta para voltar para casa."
Alina POV:
Houve um longo silêncio do outro lado da linha, tão pesado que pude sentir o peso dos três anos da minha desobediência nele. Então, uma voz que soava como cascalho e uísque velho ressoou pelo alto-falante.
"Alina?"
O som da voz do meu pai, a voz de Dom Vicente Moretti, chefe do Consórcio de São Paulo, foi o suficiente para fazer a represa dentro de mim se romper. Uma única lágrima quente escapou e traçou um caminho pela minha bochecha.
"Sim, pai. Sou eu."
"Onde você está?" A pergunta não era um apelo. Era uma ordem. A voz de um homem acostumado a ver o mundo se reorganizar à sua vontade.
"Estou na cidade dele", sussurrei, incapaz de dizer o nome de Marco. "Eu cometi um erro. Um erro terrível."
Eu podia ouvi-lo respirar, um som lento e controlado que pouco fazia para esconder a fúria que fervia por baixo. "Você fugiu do seu dever. Fugiu da sua família. Você se casou com aquele... rato de esgoto sem a minha bênção."
"Eu sei", engasguei. "E estou pagando por isso."
Contei tudo a ele. As mentiras, a vasectomia, Helena. A aposta. O bebê que não era um herdeiro, mas uma ficha de pôquer. Não deixei nada de fora.
Quando terminei, o silêncio voltou, mas desta vez era diferente. Era a calmaria antes de um furacão.
"Ele pôs as mãos em uma Moretti", disse meu pai, sua voz baixando para um rosnado baixo e letal. "Ele pôs as mãos na minha filha. E ele te usou em um jogo."
"Sim", sussurrei.
"Esse subchefe de merda", continuou meu pai, uma nota arrepiante de desdém em seu tom, "ele vai aprender a diferença entre uma gangue de rua e o Consórcio. Ele vai aprender o que acontece quando se toca no que é meu."
Uma onda de alívio tão profunda que quase dobrou meus joelhos me invadiu. Eu não era mais Alina Carbone, a esposa traída e sem noção. Eu era Alina Moretti, e a ira do meu pai estava a caminho.
"Estou a caminho", disse ele. "Mas São Paulo não é aqui do lado. Preciso reunir meus homens. Os homens certos. Estarei aí amanhã à noite. Você consegue aguentar até lá, garotinha?"
A pergunta pairou no ar. Mais um dia. Mais vinte e quatro horas na casa do homem que me destruiu sistematicamente.
"Sim", eu disse, um caco de gelo se formando em meu peito. "Eu consigo aguentar."
"Bom", disse ele. "Não deixe que ele veja seu medo. Você é uma Moretti. Lembre-se disso. Aja o papel que você tem representado. A esposa amorosa. Só por mais um dia. Amanhã, queimaremos o mundo dele até o chão."
A linha ficou muda.
Fiquei ali por um longo momento, o telefone ainda pressionado contra minha orelha, o vidro frio um condutor para o aço que inundava minhas veias. Limpei meu rosto, alisei meu vestido sobre a barriga e forcei meus lábios em um sorriso sereno.
Mais um dia.
Eu podia fazer isso. Eu podia interpretar esse papel. Afinal, meu casamento inteiro tinha sido uma performance. Eu estava apenas assumindo o papel principal para o ato final.
Alina POV:
Voltar para a mansão dos Carbone foi como entrar no meu próprio túmulo. A imensa propriedade, antes um santuário, era agora uma jaula dourada - cada objeto bonito um testemunho da mentira que eu estava vivendo.
Antes de entrar, parei na guarita de segurança na beira da propriedade. Os guardas deviam lealdade a Marco, mas seus salários vinham da Carbone Holdings - uma entidade que eu sabia ter dedos dos Moretti, um fato do qual Marco estava felizmente inconsciente. Usei uma frase codificada que meu pai me dera anos atrás, uma relíquia de uma vida que eu havia abandonado. O chefe de segurança, um homem corpulento chamado Marcelo, ficou pálido. Ele me entregou uma minúscula câmera do tamanho da cabeça de um parafuso sem fazer uma única pergunta.
Coloquei-a na estante da sala de estar, sua lente apontada diretamente para o sofá principal. Meu palco estava montado.
Marco chegou tarde, cheirando a uísque e ao perfume de outra pessoa. Ele sorriu quando me viu, o mesmo sorriso amoroso que agora me dava arrepios.
"Aí está minha linda esposa", ele murmurou, puxando-me para um abraço que parecia uma armadilha. Ele me beijou, seus lábios uma marca de hipocrisia nos meus. Sua mão foi para minha barriga, acariciando a curva com uma ternura que era pura performance. Tive que travar meus músculos para não recuar.
"Eu trouxe algo para você", disse ele, voltando da cozinha momentos depois, com um copo de leite morno na mão. "Para o bebê. Você precisa manter suas forças."
O aviso do meu pai ecoou em minha mente. Aja o papel.
"Obrigada, querido", eu disse, minha voz doce, enquanto pegava o copo.
Mas minha mão tremeu levemente, e uma gota de leite derramou em seu terno caro. "Oh, me desculpe!", exclamei, limpando o local com um guardanapo. "Deixe-me pegar outra bebida para você."
Foi uma distração desajeitada e patética, mas ele acreditou. Enquanto ele estava de costas, troquei o copo dele por um idêntico que eu havia preparado, cheio apenas de leite puro.
Quando lhe entreguei o copo de uísque novo, bebi o leite puro, fazendo questão de mostrar o quanto eu gostava. Ele me observou, seus olhos planos e frios.
"Boa menina", disse ele.
Fingi um bocejo. "Estou tão cansada. Acho que vou deitar um pouco aqui." Enrosquei-me no sofá, diretamente na linha de visão da câmera, e fingi adormecer.
Não precisei esperar muito. Ouvi a porta da frente se abrir suavemente. Helena e Enzo. Eles pararam sobre mim, seus rostos iluminados pela luz fraca de uma única lâmpada, olhando para minha forma supostamente inconsciente como se eu fosse um pedaço de carne.
"Olhe para ela", cuspiu Helena, sua voz um sussurro venenoso. "Tão presunçosa. Tão patética."
"Ainda está bonita, mesmo apagada", disse Enzo, seus olhos percorrendo meu corpo de uma forma que me fez sentir suja.
Helena ergueu um pequeno frasco transparente. "O soro da submissão", anunciou ela. "Vamos usar isso na festa. Vai mantê-la consciente o suficiente para saber o que está acontecendo, mas ela não conseguirá mover um músculo. Ou gritar."
"Por que você a odeia tanto?", perguntou Enzo.
"Ela tentou tirá-lo de mim", sibilou Helena, seus olhos fixos no meu rosto. "Ela tem os meus olhos. Toda vez que ele olhava para ela, era para estar pensando em mim. Mas ele começou a esquecer. Ela tentou fazê-lo esquecer o que era importante. Eu."
A porta da frente se abriu novamente. Marco entrou e, atrás dele, um homem estranho que eu nunca tinha visto.
"Este é o Beto", disse Enzo casualmente. "Um dos maiores lances. Ele queria um test drive antes do evento principal."
Meu sangue gelou. Um comprador.
Helena se inclinou sobre mim e usou um longo cotonete para coletar uma amostra do interior da minha bochecha. "Apenas testando os níveis do sedativo", explicou ela ao estranho. "Como pode ver, ela está completamente indefesa."
Ouvi o farfalhar de dinheiro sendo trocado. Marco e Helena então saíram, deixando Enzo e o estranho sozinhos comigo.
Fiquei perfeitamente imóvel, minha respiração regular, forçando cada músculo do meu corpo a permanecer mole enquanto Beto se inclinava sobre mim. Seu hálito era azedo, suas mãos ásperas ao tocarem meu braço.
"Ela é uma beleza", ele murmurou. "Mal posso esperar pela festa."
Ouvi-o sair, seguido por Enzo. A porta da frente se fechou com um clique. Esperei, contando até quinhentos no silêncio sufocante antes de finalmente permitir que meus olhos se abrissem.
A filmagem já estava sendo enviada para uma nuvem segura. Evidência. Meu pai iria querer ver.
Naquele exato momento, o som do carro de Marco entrando na garagem enviou uma descarga de pura adrenalina através de mim. Ele passou pela sala de estar sem olhar, subindo as escadas. Era minha chance. Peguei o celular dele de onde ele o havia deixado na mesa de centro. Eu o tinha visto usar antes - uma interface oculta disfarçada de um simples aplicativo de calculadora. Digitei o código que havia memorizado.
A tela mudou. Uma lista de grupos de bate-papo criptografados apareceu.
Meus olhos pousaram em um nome, e o ar me faltou.
Leilão da Alina.