Gênero Ranking
Baixar App HOT
Início > Moderno > A Geladeira e o Segredo
A Geladeira e o Segredo

A Geladeira e o Segredo

Autor:: Xiang Si
Gênero: Moderno
A geladeira zumbia baixo, um som constante que eu nunca notava, até Ana Paula ir embora. Então, algo que nunca imaginei: escondido no fundo da geladeira, um pequeno frasco de vidro, frio ao toque, com um líquido transparente e algo minúsculo flutuando dentro. Minha esposa, perfeita e dedicada, no fundo, era uma farsante manipuladora. "Atestado de Procedimento de Interrupção de Gravidez." O pior veio depois: o nome do parceiro não era o meu, mas de Marcos, o amigo da faculdade que meu sogro tratava como filho. De repente, o homem apaixonado morreu, e em seu lugar nasceu um homem frio, calculista, com um único desejo: vingança. Descobri que ela ia a um "happy hour" que na verdade era um encontro com Marcos. Segui-a até um bairro nobre e vi os dois abraçados na sacada, rindo, trocando beijos longos e profundos. "Ele não desconfia de nada. É tão ingênuo." Sua voz foi como um soco no meu estômago. A dor era física, mas a humilhação de ter sido enganado por tanto tempo era ainda pior. A vingança não era mais apenas um desejo, era uma necessidade, a única coisa que me manteria vivo. Meus anos de sacrifício por ela, de abrir mão de promoções pelo nosso futuro, eram uma farsa. Ela me usou como provedor, enquanto se divertia com outro. No bar, o álcool queimava, mas não apagava a imagem deles juntos. Meu sogro queria um neto, e eu o daria um presente inesquecível em seu aniversário de 60 anos. Ao sair do bar, esbarrei novamente com eles no parque, no nosso lugar romântico. Não me contive. "Ricardo? O que você está fazendo aqui?" Eu o soquei sem dizer uma palavra. "Ricardo, para! Você está louco?" Ela não me ajudou; correu para ele e me deu um tapa, me jogando no lago. "Ele que se dane. Ele mereceu." Eles me abandonaram para morrer, a última fagulha do meu amor se extinguiu para sempre. No hospital, ela se importava apenas com o amante. "Eu agredi o Marcos? E você, Ana Paula? O que você fez? Você me deixou para morrer em um lago." Decidi que queria o divórcio e que daria ao meu sogro o presente que ele tanto queria na festa. O palco estava montado.

Introdução

A geladeira zumbia baixo, um som constante que eu nunca notava, até Ana Paula ir embora.

Então, algo que nunca imaginei: escondido no fundo da geladeira, um pequeno frasco de vidro, frio ao toque, com um líquido transparente e algo minúsculo flutuando dentro.

Minha esposa, perfeita e dedicada, no fundo, era uma farsante manipuladora.

"Atestado de Procedimento de Interrupção de Gravidez."

O pior veio depois: o nome do parceiro não era o meu, mas de Marcos, o amigo da faculdade que meu sogro tratava como filho.

De repente, o homem apaixonado morreu, e em seu lugar nasceu um homem frio, calculista, com um único desejo: vingança.

Descobri que ela ia a um "happy hour" que na verdade era um encontro com Marcos.

Segui-a até um bairro nobre e vi os dois abraçados na sacada, rindo, trocando beijos longos e profundos.

"Ele não desconfia de nada. É tão ingênuo."

Sua voz foi como um soco no meu estômago.

A dor era física, mas a humilhação de ter sido enganado por tanto tempo era ainda pior.

A vingança não era mais apenas um desejo, era uma necessidade, a única coisa que me manteria vivo.

Meus anos de sacrifício por ela, de abrir mão de promoções pelo nosso futuro, eram uma farsa.

Ela me usou como provedor, enquanto se divertia com outro.

No bar, o álcool queimava, mas não apagava a imagem deles juntos.

Meu sogro queria um neto, e eu o daria um presente inesquecível em seu aniversário de 60 anos.

Ao sair do bar, esbarrei novamente com eles no parque, no nosso lugar romântico.

Não me contive.

"Ricardo? O que você está fazendo aqui?"

Eu o soquei sem dizer uma palavra.

"Ricardo, para! Você está louco?"

Ela não me ajudou; correu para ele e me deu um tapa, me jogando no lago.

"Ele que se dane. Ele mereceu."

Eles me abandonaram para morrer, a última fagulha do meu amor se extinguiu para sempre.

No hospital, ela se importava apenas com o amante.

"Eu agredi o Marcos? E você, Ana Paula? O que você fez? Você me deixou para morrer em um lago."

Decidi que queria o divórcio e que daria ao meu sogro o presente que ele tanto queria na festa.

O palco estava montado.

Capítulo 1

A geladeira zumbia baixo, um som constante na quietude da casa. Era um barulho que eu nunca notava, mas naquele momento, parecia preencher todo o espaço, todo o silêncio que Ana Paula havia deixado para trás. Abri a porta, procurando algo para beliscar, o dia de trabalho tinha sido longo e eu estava faminto. Meus olhos passaram pelas prateleiras organizadas, um reflexo do cuidado da minha esposa com nosso lar. Iogurtes, queijos, uma jarra de suco. E então, algo fora do lugar.

Atrás de um pote de maionese, escondido no fundo, havia um pequeno frasco de vidro, do tipo que se vê em laboratórios. Era frio ao toque. Dentro, um líquido transparente e algo minúsculo, quase imperceptível, flutuando. Uma etiqueta branca estava colada no vidro, mas as letras estavam borradas pela umidade. Senti um frio percorrer minha espinha, um que não vinha da geladeira. O que era aquilo? Ana Paula estava doente? Ela não me disse nada.

Fechei a porta da geladeira lentamente. A fome tinha desaparecido, substituída por uma ansiedade crescente. Fui para o nosso quarto, o coração batendo descompassado. Onde ela guardaria algo importante? A gaveta de sua mesa de cabeceira. Hesitei por um instante. Invadir sua privacidade era algo que eu nunca tinha feito em cinco anos de casamento. Mas o medo era maior que o respeito.

Abri a gaveta. Papéis, um livro, alguns recibos. E, no fundo, um envelope pardo. Dentro dele, um documento dobrado. Um atestado de uma clínica de saúde. Meu estômago se revirou. Comecei a ler, e o mundo ao meu redor desmoronou.

"Atestado de Procedimento de Interrupção de Gravidez."

O nome da paciente: Ana Paula Siqueira. Meu sobrenome não estava lá. E ao lado, no campo para o nome do parceiro, um nome que fez meu sangue gelar: Marcos Viana. Marcos. O colega de faculdade dela, o cara que eu sempre soube que tinha uma queda por ela, o mesmo Marcos que meu sogro, Seu Jorge, tratava como um afilhado.

O frasco na geladeira. O embrião. O filho deles.

Sentei na beira da cama, o papel tremendo em minhas mãos. Cada palavra era uma facada. A data do procedimento era de duas semanas atrás. A traição, o aborto... tudo feito em segredo, enquanto eu trabalhava para construir a vida perfeita que ela dizia querer. A dor era física, uma pressão no peito que me impedia de respirar. O amor que eu sentia por ela se transformou em pó, cinzas de uma fogueira que de repente se apagara.

Guardei o documento de volta no envelope e o coloquei no bolso da minha calça. Fui até a geladeira, peguei o pequeno frasco e o escondi no fundo de uma gaveta no meu escritório, um lugar que ela nunca mexia. Eu precisava de tempo. Precisava pensar. O Ricardo apaixonado e ingênuo morreu naquela tarde. Em seu lugar, nasceu um homem frio, calculista, consumido por um único desejo: vingança.

Quando ouvi a chave na porta, meu coração não acelerou de alegria como antes. Endireitei-me na cadeira da sala, fingindo ler um livro.

"Oi, amor! Cheguei!"

A voz dela, antes música para os meus ouvidos, agora soava como um arranhão em um disco.

"Oi, querida. Como foi o seu dia?"

Ela se aproximou, me deu um beijo no rosto. O cheiro do perfume dela, o mesmo de sempre, agora me causava náuseas.

"Cansativo. Mas estou feliz de estar em casa."

Ela foi para a cozinha, e eu a ouvi abrir a geladeira. O silêncio que se seguiu foi pesado, carregado de tensão. Eu sabia o que ela estava procurando.

"Ricardo?"

Sua voz estava diferente, um fio de pânico nela.

"Sim?"

"Você mexeu na geladeira? Tinha algo... algo meu guardado aqui."

Levantei os olhos do livro, encontrei o olhar dela. Seus olhos estavam arregalados, a máscara de esposa perfeita começando a rachar.

"Não, por quê? Sumiu alguma coisa?"

Eu menti com uma facilidade que me assustou.

"Sumiu. Uma coisa importante. Um... um exame médico."

Ela gaguejou, procurando uma desculpa.

"Um exame? Não vi nada. Tem certeza que deixou aí?"

A frustração tomou conta do rosto dela. Ela começou a revirar a geladeira, tirando as coisas do lugar, o desespero crescendo a cada segundo.

"Tenho certeza! Eu deixei aqui, bem no fundo! Era muito importante, Ricardo! Muito!"

A voz dela subiu de tom, quase um grito. A importância do frasco era clara. A prova do crime dela.

Eu a observei, sentindo um prazer sombrio em seu pânico. Ela não podia me dizer o que era, não podia admitir a verdade. Estava presa em sua própria teia de mentiras.

"Calma, Ana. Se estava aí, vai aparecer. Talvez você tenha guardado em outro lugar e não se lembra."

Minha voz era calma, razoável. Uma atuação digna de um prêmio.

Ela parou, as mãos na cintura, respirando fundo. Percebeu que não podia continuar a busca sem revelar seu segredo. Seus ombros caíram em derrota. Eu via o medo em seus olhos, a confusão. Ela não conseguia entender como aquilo, tão bem escondido, tinha desaparecido.

Ela se virou e saiu da cozinha sem dizer mais uma palavra. Foi para o quarto e fechou a porta. Eu a ouvi chorando, um choro baixo e abafado. Não senti pena. Senti apenas um ódio frio e crescente.

Fiquei sentado na sala, o livro esquecido no meu colo. Memórias da nossa vida juntos passavam pela minha mente. Lembrei do dia em que a pedi em casamento, da alegria em seus olhos. Lembrei das promessas que fizemos, das noites em que planejamos nosso futuro, os filhos que teríamos. Tudo mentira. Ela, a mulher dedicada e atenciosa, a esposa perfeita, era uma farsa. Uma manipuladora egoísta que me usou, me humilhou e descartou o filho de outro homem como se fosse lixo.

E Marcos. O nome ecoava na minha cabeça. Lembrei dele na nossa formatura, sempre perto dela, sempre com aquele sorriso sedutor. Lembrei das vezes que ele ligava, e Ana Paula sempre dizia que ele era um incômodo, um cara pegajoso do passado que não se tocava.

"Ele não me deixa em paz, Ricardo. É um chato."

Ela reclamava, e eu, como um tolo, acreditava. Eu a defendia.

Lembro de uma vez, há uns dois anos, em que o encontrei em um bar. Ele estava bêbado e veio falar comigo, dizendo coisas sobre como eu tinha roubado a mulher da vida dele. Naquele dia, eu o empurrei contra a parede e disse para ele nunca mais se aproximar da minha esposa.

"Se você chegar perto dela de novo, eu acabo com você."

Que ironia. Eu o ameacei para proteger a mulher que, pelas minhas costas, corria para os braços dele. A dor da traição era profunda, mas a humilhação de ter sido enganado por tanto tempo era ainda pior. Eu não era apenas um marido traído. Eu era um idiota.

Mas o idiota estava prestes a mudar o roteiro. O aniversário de 60 anos do meu sogro estava chegando. Uma grande festa, com toda a família e amigos. Seria o palco perfeito. Eu daria a Seu Jorge o presente que ele tanto sonhava: seu primeiro neto.

---

Capítulo 2

Os dias seguintes foram um exercício de autocontrole. Eu vivia sob o mesmo teto que a mulher que havia destruído minha vida, agindo como se nada tivesse acontecido. Eu sorria, conversava sobre o trabalho, perguntava sobre o dia dela. Por dentro, eu era um vulcão de raiva e dor, esperando o momento certo para entrar em erupção. A desconfiança era um veneno que corria em minhas veias. Cada ligação que ela recebia, cada mensagem que a fazia sorrir para a tela do celular, era uma nova tortura.

Na sexta-feira, ela disse que ia sair com umas amigas do trabalho. Um happy hour.

"Não me espere para o jantar, amor. Vou chegar tarde."

"Tudo bem. Divirta-se."

Mas eu sabia que era mentira. A ansiedade em sua voz, a maneira como ela evitava meu olhar. Eu esperei quinze minutos depois que ela saiu e peguei as chaves do meu carro. A necessidade de ver com meus próprios olhos era mais forte que qualquer resquício de esperança que eu ainda pudesse ter.

Eu a segui à distância. Ela não foi para o bar onde costumava encontrar as amigas. Em vez disso, dirigiu para um bairro nobre, um lugar que não tínhamos o costume de frequentar. Estacionou em frente a um prédio moderno, com uma fachada de vidro. Eu parei meu carro do outro lado da rua, atrás de uma árvore, o coração martelando contra minhas costelas.

Ela desceu do carro, olhou para os lados e entrou no prédio. Alguns minutos depois, uma luz se acendeu em um apartamento no terceiro andar. E então, eu o vi. Marcos apareceu na sacada. Ele estava sem camisa, segurando duas taças de vinho. Ana Paula se juntou a ele. Ela o abraçou por trás, descansando a cabeça em seu ombro. Ele se virou e a beijou.

Não foi um beijo rápido. Foi um beijo longo, profundo, cheio de uma intimidade que me revirou o estômago. Eles eram um casal. Ali, na sacada, para quem quisesse ver. A imagem queimou em minha retina, uma prova irrefutável que despedaçou qualquer dúvida que eu pudesse ter. A dor era tão intensa que me deixou sem ar. Soquei o volante do carro, um gemido de pura agonia escapando dos meus lábios.

Senti um impulso de sair do carro, de subir naquele apartamento e acabar com aquilo. Mas o plano. A vingança. Eu precisava ser mais inteligente. Engoli a raiva, forcei-me a ficar ali, a observar.

A porta da sacada estava aberta, e com o silêncio da noite, eu conseguia ouvir fragmentos da conversa deles, levados pelo vento.

"...ele não desconfia de nada. É tão ingênuo."

Era a voz de Ana Paula. Ela estava rindo. Rindo de mim.

"Eu te disse que ele era um bobo apaixonado" , respondeu Marcos. "Mas e o susto? O que aconteceu com... aquilo?"

"Sumiu. Simplesmente sumiu da geladeira. Eu quase tive um ataque cardíaco. Ricardo disse que não viu nada. Eu não sei o que pensar."

"Relaxa, meu amor. Deve ter caído, ou ele jogou fora sem ver. O importante é que nos livramos do problema. Agora somos só nós dois."

Livraram-se do problema. O filho deles. Um problema. A frieza com que eles falavam sobre o aborto me enojou. Para eles, era apenas um inconveniente. Para mim, era a prova da depravação deles.

Eles entraram, mas deixaram as cortinas abertas. As luzes da sala de estar projetavam suas sombras na parede. Eu vi quando eles começaram a se despir, os corpos se movendo juntos. A intimidade deles era uma agressão, uma violação pública do nosso casamento. Cada beijo, cada carícia, era uma faca girando na minha ferida.

Não consegui mais olhar. Senti uma onda de náusea e um desespero avassalador. O homem que eu era, o marido que tentava salvar seu casamento, morreu ali, sentado naquele carro, observando as sombras de sua esposa com outro homem. Não havia mais nada para salvar. Não havia mais nada para lutar. A única coisa que restava era o vazio.

Dei a partida no carro e dirigi sem rumo, as lágrimas finalmente escorrendo pelo meu rosto. Eu não queria ir para casa. Nossa casa. O lugar estava contaminado com as mentiras dela. Parei no primeiro bar que encontrei, um lugar escuro e decadente que combinava com meu estado de espírito.

Pedi uma dose de uísque. E depois outra. E outra. O álcool queimava minha garganta, mas não conseguia apagar a imagem deles juntos. Cada gole era uma tentativa de afogar a dor, de silenciar as vozes na minha cabeça. O Ricardo que amava Ana Paula, que perdoaria qualquer coisa, estava sendo afogado em álcool e autopiedade.

Eu bebi até o mundo começar a girar, até o barman me dizer que era hora de fechar. Paguei a conta com dificuldade e cambaleei para fora. O ar frio da noite me atingiu, mas não aliviou a febre que queimava por dentro.

Enquanto eu estava ali, encostado em uma parede, o passado me assombrou. Lembrei de todos os sacrifícios que fiz por ela. Mudei de cidade quando ela conseguiu o emprego dos sonhos. Abri mão de uma promoção para que pudéssemos passar mais tempo juntos. Trabalhei em dois empregos no início para que ela pudesse terminar a faculdade sem dívidas. Cinco anos da minha vida dedicados a ela, a construir um futuro para nós. E no final, tudo foi em vão. Eu era apenas o provedor, o porto seguro conveniente enquanto ela se divertia com o outro. A amargura era um gosto horrível na minha boca, pior do que o do uísque barato.

---

Baixar livro

COPYRIGHT(©) 2022