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A Gordinha Do CEO

A Gordinha Do CEO

Autor: Totomo
Gênero: Bilionários
Ser a secretária do CEO mais cobiçado de Milão era para ser apenas um emprego. Para Bianca Rossi, uma jovem plus size com curvas de dar inveja e um coração que ansiava por aceitação, trabalhar para o arrogante e enigmaticamente lindo Dante Moretti era um teste diário de paciência e desejo proibido. Dante Moretti é a personificação do poder. Frio, controlador e com uma beleza estonteante que fazia qualquer mulher suspirar, ele comandava seu império com mão de ferro. Mas por trás da fachada de chefe implacável, escondia-se um homem atormentado por seus próprios demônios e por desejos sombrios que lutava para controlar desejos que, para sua irritação, eram despertados pela presença inocente e pelas curvas voluptuosas de sua dedicada secretária. Bianca sempre se sentiu invisível aos olhos de Dante. No entanto, quando uma viagem de negócios os coloca em um jogo perigoso de proximidade, as barreiras profissionais começam a ruir. Dante, o CEO arrogante, não consegue mais ignorar a atração magnética que sente pela doce Bianca. Ele a quer, e o que Dante Moretti quer, ele consegue. Mas ele logo descobre que Bianca guarda um segredo que o deixa ainda mais obcecado: ela é intocada, um território virgem que ele anseia explorar e possuir. Atraída para o mundo luxuoso e sombrio de Dante, Bianca se vê dividida entre a razão e um desejo avassalador. Ele promete prazeres que ela nunca ousou imaginar, mas exige sua submissão completa. Em meio a contratos milionários, segredos do passado, uma ex-amante vingativa e a descoberta de um amor que queima lentamente, Bianca e Dante embarcam em uma jornada tórrida de autodescoberta, dominação e paixão.
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Capítulo 1

Bianca

A chuva em Miami não era como a chuva em São Paulo.

Em São Paulo, a chuva chegava com aviso prévio, trovoadas dramáticas, aquele cheiro de terra molhada subindo do asfalto quente. Aqui, não. Aqui, o céu simplesmente desabava. Sem cerimônia, sem aviso, sem piedade. Como se Deus tivesse virado um balde gigante sobre a cidade e decidido que hoje seria o dia de testar a paciência de todos os mortais.

E, claro, tinha que ser logo hoje.

Logo no dia da entrevista mais importante da minha vida.

- Merda, merda, merda - murmurei, apertando o passo na calçada escorregadia.

Meus sapatos de salto, aqueles que eu tinha comprado em uma promoção online e que claramente não foram feitos para sobreviver a uma tempestade tropical, afundavam em poças que mais pareciam pequenos lagos urbanos. A pasta com meus documentos estava encharcada, meu cabelo - que eu tinha alisado com tanto esforço naquela manhã - agora se transformava em cachos rebeldes e úmidos que grudavam no meu rosto.

Eu parecia um gato molhado. Um gato gordo, molhado e desesperado.

Não que eu tivesse problemas com a palavra "gorda". Eu tinha aprendido, aos vinte e quatro anos, a abraçar minhas curvas. Meu corpo plus size era parte de quem eu era, e eu me recusava a me envergonhar dele. Mas naquele momento, com a roupa colada no corpo e a maquiagem escorrendo, eu me sentia simplesmente ridícula.

O Moretti Group ficava a três quarteirões dali. Três quarteirões que, sob aquela chuva, pareciam três maratonas.

Olhei para o relógio de pulso. Quinze minutos para a entrevista.

Respirei fundo. Eu conseguia. Eu tinha sobrevivido a coisas piores. Sobrevivi a um voo de onze horas de São Paulo para Miami. Sobrevivi a três anos morando com meu irmão, Carlos, que tinha o dom especial de transformar qualquer situação em um desastre financeiro. Sobrevivi a empregos humilhantes, a chefes abusivos, a noites mal dormidas me perguntando se eu algum dia conseguiria sair do buraco.

Uma entrevista de emprego não ia me derrotar.

Eu. Conseguia.

Foi exatamente nesse momento de autoconfiança forçada que o universo decidiu me dar uma bofetada.

O carro surgiu do nada.

Bem, não exatamente do nada. Ele surgiu da esquina, rápido demais, potente demais, um Porsche preto que cortava a chuva como uma faca. Eu não tive tempo de reagir. Só senti o impacto da água suja da sarjeta explodindo sobre mim, me atingindo em cheio, me cobrindo da cabeça aos pés.

Fiquei paralisada.

A água escorria pelo meu rosto, pelo meu cabelo, pela minha roupa. Minha blusa branca, que eu tinha escolhido com tanto cuidado para parecer profissional, agora estava transparente e manchada de lama. Minha saia lápis parecia um pano molhado. Meus sapatos... bem, meus sapatos já estavam condenados antes.

Mas o choque durou apenas um segundo.

Porque a raiva veio logo em seguida.

- SEU FILHO DA PUTA! - gritei, sem pensar, sem medir as consequências, deixando que anos de frustração acumulada explodissem em palavras. - SEU CORNO DE MERDA! NÃO OLHA POR ONDE DIRIGE, NÃO? TÁ CEGO? SUA DESGRAÇA!

O Porsche parou.

O vidro traseiro começou a descer lentamente, como se o motorista tivesse todo o tempo do mundo. E quando o rosto apareceu, eu senti meu coração parar.

Não de medo. Não de vergonha.

De... algo que eu não soube nomear naquele momento.

Ele era italiano. Tinha que ser. Ninguém no mundo tinha aquele rosto sem ser italiano. O queixo forte, a mandíbula definida, os olhos escuros como café sem açúcar, o cabelo preto levemente ondulado, penteado para trás. Ele parecia ter saído de uma capa de revista, daquelas que faziam mulheres suspirarem em salas de espera de salão de beleza.

E ele estava me olhando com uma expressão que misturava tédio e desprezo.

- Você fala comigo? - perguntou ele, a voz carregada de sotaque, profunda e perigosa.

Eu deveria ter me desculpado. Deveria ter abaixado a cabeça e ido embora. Deveria ter feito qualquer coisa além de encarar aquele homem como se ele fosse o próprio diabo.

Mas eu era brasileira. E brasileira com raiva não foge de briga.

- Falo com você sim, seu motorista de merda! - respondi, gesticulando com as mãos. - Você acabou de me encharcar da cabeça aos pés! Olha o que você fez com a minha roupa! Eu tenho uma entrevista de emprego agora, seu idiota! E por sua causa, eu pareço um rato afogado!

Ele ergueu uma sobrancelha. Apenas uma. Aquele gesto arrogante, típico de quem está acostumado a ser servido, a ser obedecido, a nunca ser questionado.

- E eu deveria me importar... por quê?

A pergunta veio com uma frieza que me desarmou por um segundo. Ele não estava sendo sarcástico. Ele realmente não se importava.

- Porque... porque é o mínimo de decência humana! - balbuciei, sentindo a raiva se misturar com algo parecido com incredulidade. - Você me molhou e nem ao menos vai pedir desculpas?

- Desculpas - repetiu ele, como se estivesse saboreando a palavra pela primeira vez. - Não. Não vou pedir desculpas. Você estava no lugar errado, na hora errada. Talvez da próxima vez preste mais atenção por onde anda.

E antes que eu pudesse responder, o vidro subiu novamente.

O Porsche arrancou, me deixando ali, parada na calçada, encharcada, humilhada e com a boca aberta.

- CORNO! - gritei uma última vez, mesmo sabendo que ele não ouviria mais. - TOMARA QUE SUA ESPOSA TE TRAIA COM O PERSONAL TRAINER!

Respirei fundo, tentando recuperar o controle. Minhas mãos tremiam. Meu corpo inteiro tremia. Mas não era de frio, apesar da chuva gelada. Era de ódio.

Que homem desprezível. Que sujeito arrogante. Que...

Balancei a cabeça, tentando afastar a imagem daqueles olhos escuros da minha mente.

- Foco, Bianca. Foco.

A entrevista. Eu ainda tinha uma entrevista.

Olhei para o relógio. Oito minutos.

Corri.

Um silêncio pesado pairou no ar.

E então, para minha completa surpresa, ele riu.

Não uma risada alta ou escandalosa. Mas um som baixo, profundo, que pareceu reverberar no meu peito. Seus olhos brilharam com algo que eu não soube identificar.

- Sabe qual é o seu problema, senhorita Rossi? - perguntou ele, dando um passo para trás e voltando para a cadeira. - Você não tem filtro. Diz exatamente o que pensa.

- E isso é um problema?

- Para a maioria dos empregadores, sim. Para mim... - Ele fez uma pausa, ajeitando o paletó. - Para mim, é refrescante.

Senti uma pontada de esperança.

- Isso significa que... eu tenho uma chance?

Ele se sentou novamente, apoiando os cotovelos na mesa e cruzando os dedos.

- Significa que estou disposto a ignorar o fato de que você chegou parecendo um rato afogado e me insultou duas vezes em menos de uma hora.

- Três vezes - corrigi, sem pensar.

Ele ergueu a sobrancelha.

- Desculpe - murmurei, baixando os olhos. - Força do hábito.

- Vou levar isso em consideração - disse ele, a voz carregada de ironia. - Agora, sente-se, senhorita Rossi. E me conte por que eu deveria contratá-la.

Sentei-me na cadeira em frente à mesa dele, tentando não pensar na água que escorria da minha roupa para o estofado caro. Meu coração ainda batia acelerado, mas agora por um motivo diferente.

Aquela era a minha chance.

E eu não ia desperdiçá-la.

O Moretti Group ocupava um arranha-céu inteiro no coração de Brickell, o bairro financeiro de Miami. O prédio de vidro e aço refletia as nuvens cinzentas da tempestade, parecendo tocar o céu. Eu já tinha passado por ali dezenas de vezes, sempre olhando para cima com admiração e sonhando em trabalhar naquele lugar.

Agora, entrando pela porta giratória encharcada e tremendo, o sonho parecia mais um pesadelo.

O lobby era grandioso, com piso de mármore branco, um balcão de recepção que parecia ter saído de um filme de ficção científica e funcionários impecavelmente vestidos que me olhavam com uma mistura de pena e espanto.

Eu não podia culpá-los. Eu parecia um desastre.

- Posso ajudar? - perguntou a recepcionista, uma mulher loira e magra com um sorriso falso colado no rosto.

- Eu... eu vim para a entrevista - disse, tentando ajeitar o cabelo encharcado. - Bianca Rossi. Vaga de secretária executiva.

O sorriso da recepcionista vacilou por um instante, mas ela se recompôs rapidamente.

- Claro. O senhor Moretti a está esperando no trigésimo andar. O elevador é ali à esquerda.

Assenti, agradecendo com um aceno e me dirigindo ao elevador. Minhas mãos ainda tremiam, mas agora era por outro motivo.

Nervosismo.

Não era todo dia que se entrevistava para trabalhar diretamente para um dos homens mais poderosos de Miami. Dante Moretti era uma lenda no mundo dos negócios. Italiano, herdeiro de um império bilionário, conhecido por sua inteligência afiada e por seu temperamento... difícil.

Eu tinha lido tudo sobre ele. Sabia que ele era exigente, que demitia secretárias com uma frequência assustadora, que era considerado impossível de agradar. Mas também sabia que o salário era excelente, os benefícios eram incríveis e que trabalhar para ele poderia abrir portas que eu nunca imaginei.

E eu precisava desesperadamente daquele emprego.

As portas do elevador se fecharam, e eu me vi refletida no espelho.

Meu Deus.

Minha blusa branca estava manchada de lama. Meu cabelo, que deveria estar liso e profissional, agora era uma massa de cachos úmidos e rebeldes. Minha maquiagem tinha escorrido, deixando manchas escuras sob meus olhos. E meus sapatos... bem, meus sapatos estavam oficialmente mortos.

Eu parecia um desastre ambulante.

Mas eu não ia desistir. Não depois de tudo o que eu tinha passado para chegar até aqui.

Respirei fundo, tentando ajeitar a roupa com as mãos. Não adiantou muito. Mas eu era brasileira, e brasileira não desiste fácil.

- Você consegue, Bianca. Você consegue.

O elevador parou no trigésimo andar com um som suave.

As portas se abriram.

E eu me vi diante de um dos escritórios mais elegantes que já tinha visto. Paredes de vidro, móveis modernos, uma vista deslumbrante da baía de Miami. Tudo ali exalava poder e dinheiro.

Uma mulher elegante, de cabelos ruivos e óculos de armação fina, me recebeu com um sorriso profissional.

- Senhorita Rossi? - perguntou ela, a voz suave. - Eu sou a Amanda, assistente do senhor Moretti. Ele a está esperando. Por aqui, por favor.

Assenti, seguindo-a por um corredor silencioso, sentindo meu coração bater cada vez mais forte. Meus sapatos faziam um som desagradável a cada passo, um lembrete constante do meu estado lamentável.

Amanda parou diante de uma porta dupla de madeira escura e bateu suavemente.

- Senhor Moretti, a senhorita Rossi chegou.

Uma voz respondeu de dentro.

- Pode entrar.

Meu estômago se contorceu.

Aquela voz.

Eu conhecia aquela voz.

Era a mesma voz que tinha me perguntado, com tanto desprezo: "E eu deveria me importar... por quê?"

Não.

Não, não, não, não, não.

Deus, por favor, não.

Amanda abriu a porta, e eu entrei no escritório, sentindo minhas pernas falharem.

O escritório era gigantesco. Uma mesa de mogno imponente ocupava o centro do espaço, cercada por janelas do chão ao teto que ofereciam uma vista espetacular da cidade. Estantes de livros cobriam as paredes, e um sofá de couro preto estava posicionado em um canto.

Mas nada disso importava.

Porque sentado atrás da mesa, com aqueles mesmos olhos escuros e aquela mesma expressão arrogante, estava o homem do Porsche.

Ele usava um terno preto sob medida que devia custar mais do que meu aluguel mensal. O cabelo estava perfeitamente penteado, sem um fio fora do lugar, apesar da tempestade lá fora. E ele me olhava com... divertimento.

Ele estava se divertindo.

O desgraçado estava se divertindo.

- Senhorita Bianca Rossi - disse ele, a voz carregada de ironia, provando meu nome como se fosse um vinho caro. - Que... surpresa.

Fiquei paralisada.

Meu cérebro parecia ter travado. Minhas pernas se recusavam a se mover. Minha boca se abria e fechava sem emitir som algum.

Ele era Dante Moretti.

O carrasco que tinha me encharcado com o Porsche era o homem para quem eu estava prestes a trabalhar.

O homem que eu tinha chamado de corno, de filho da puta, de desgraçado.

O universo, definitivamente, me odiava.

- Eu... eu posso explicar - balbuciei finalmente, sentindo o calor subir pelo meu rosto.

- Explicar? - Ele ergueu uma sobrancelha, o mesmo gesto arrogante de antes. - Explicar que a candidata à vaga de secretária executiva tem o vocabulário de um estivador e o temperamento de uma cadelinha raivosa?

Aquilo me despertou da paralisia.

- Ei, quem começou foi você! - disparei, apontando o dedo para ele sem pensar. - Você me encharcou da cabeça aos pés e ainda foi grosso comigo!

Ele se recostou na cadeira, cruzando os braços. O sorriso no rosto dele era de puro deboche.

- E você me chamou de... como foi mesmo? - Ele fingiu pensar. - Ah, sim. "Corno". "Filho da puta". "Desgraçado". E desejou que minha esposa me traísse com o personal trainer.

Senti meu rosto queimar ainda mais.

- Eu... eu estava nervosa - tentei justificar. - E molhada. E a senhora... o senhor foi insuportavelmente grosseiro.

- E continua me tratando por "você" e me interrompendo - observou ele, a voz cortante. - Está fazendo um trabalho excelente em sua entrevista, senhorita Rossi.

A palavra "entrevista" me atingiu como um balde de água fria.

A entrevista.

Meu Deus, a entrevista.

Tudo o que eu tinha planejado, todas as respostas ensaiadas, toda a postura profissional que eu pretendia manter... tudo tinha ido para o espaço no momento em que aquele homem tinha me encharcado com o carro.

- Senhor Moretti, eu... - comecei, tentando recuperar o controle.

- Silêncio.

A palavra veio seca, autoritária, carregada de um poder que me fez calar imediatamente.

Ele se levantou da cadeira, e pela primeira vez percebi o quão alto ele era. Alto e imponente, com ombros largos e uma presença que preenchia todo o espaço. Ele contornou a mesa lentamente, como um predador avaliando sua presa.

Eu me senti pequena. E não era só por causa dos meus sapatos destruídos.

- Sabe por que estou procurando uma nova secretária, senhorita Rossi? - perguntou ele, a voz baixa e perigosa.

Balancei a cabeça negativamente.

- Porque as últimas três não duraram mais do que um mês. Uma era incompetente. A outra era fofoqueira. E a terceira... bem, a terceira cometeu o erro de se apaixonar por mim.

Ele parou diante de mim, perto demais. Meu coração batia tão forte que eu tinha certeza de que ele podia ouvir.

- Eu não tolero incompetência. Não tolero fofoca. E definitivamente não tolero sentimentos inadequados no ambiente de trabalho. - Ele inclinou a cabeça, estudando-me. - Você parece ser as três coisas ao mesmo tempo.

- Eu não sou nenhuma dessas coisas - respondi, encontrando forças que não sabia que tinha. - Sou competente. Sei guardar segredos. E a última coisa que eu faria seria me apaixonar por um homem como você.

Ele sorriu.

E aquele sorriso não era de deboche. Era de... interesse.

- Um homem como eu? - repetiu ele, aproximando-se mais um passo. - E que tipo de homem eu sou, senhorita Rossi?

Senti o cheiro dele naquele momento. Amadeirado, com notas de couro e algo mais escuro, mais profundo. Era intoxicante, e eu odiei o fato de perceber isso.

- Arrogante - respondi, sustentando o olhar dele. - Grosseiro. Insensível. Mimado. E aparentemente cruel.

Ele não piscou.

- E o que mais?

- E motorista de merda.

A entrevista durou quarenta minutos.

Quarenta minutos de perguntas afiadas, respostas ensaiadas e aquele olhar penetrante me analisando a cada palavra. Dante Moretti não era um entrevistador comum. Ele não se contentava com respostas superficiais. Ele queria detalhes, exemplos, provas de que eu era capaz.

E eu dei tudo de mim.

Falei sobre minha formação em administração, sobre meus anos de experiência como assistente em São Paulo, sobre minha fluência em português, inglês e espanhol. Falei sobre minha capacidade de organização, minha discrição, minha determinação.

E, para meu alívio, ele pareceu genuinamente impressionado.

- Você tem um currículo sólido - admitiu ele, folheando os documentos encharcados que eu havia tirado da pasta. - Melhor do que a maioria.

- Obrigada - respondi, tentando não sorrir.

- Mas há a questão do seu... temperamento.

Senti o sorriso morrer nos meus lábios.

- Eu não costumo xingar estranhos na rua - defendi-me. - O senhor... o senhor provocou uma reação extrema.

- E se um cliente me provocar? Você o xingará também?

- Claro que não. Eu sei separar as coisas.

- Hmm.

Ele me estudou por um longo momento. Eu sustentei o olhar, recusando-me a desviar. Podia estar encharcada, humilhada e com os sapatos destruídos, mas não ia deixá-lo me intimidar.

- O contrato será de período de experiência de três meses - disse ele finalmente, fechando a pasta. - Começa amanhã às oito. Se chegar atrasada, nem se dê ao trabalho de aparecer.

Pisquei, sem acreditar.

- Eu... eu fui contratada?

- Temporariamente - enfatizou ele. - Ainda não decidi se você serve para o cargo. Considere os próximos três meses um teste. Um longo, exaustivo e provavelmente frustrante teste.

Eu queria pular da cadeira e gritar de alegria. Queria agradecê-lo, apertar sua mão, fazer qualquer coisa que demonstrasse minha gratidão. Mas contive-me.

- Entendido - disse, assentindo. - Não vou decepcioná-lo.

Ele sorriu aquele sorriso novamente. O sorriso que não era de deboche, mas de algo mais.

- Veremos, senhorita Rossi. Veremos.

Levantei-me, pronta para sair, quando a voz dele me deteve.

- Senhorita Rossi.

Virei-me.

- Sim?

- Da próxima vez que me chamar de corno - disse ele, os olhos brilhando com perigo -, certifique-se de que está pronta para as consequências.

Senti um arrepio percorrer minha espinha.

E não era de frio.

- Entendido - sussurrei, sentindo o rosto queimar.

- Pode ir.

Saí do escritório com as pernas tremendo. Amanda me deu um sorriso simpático e me acompanhou até o elevador. Eu mal conseguia processar o que tinha acontecido.

Eu tinha sido contratada.

Por Dante Moretti.

O homem que me encharcou com o carro, que eu xinguei de corno, que parecia odiar tudo em mim... tinha me dado o emprego.

O que eu tinha acabado de fazer?

---

O apartamento que eu dividia com Carlos ficava em Little Havana, um bairro modesto e cheio de vida, repleto de restaurantes cubanos e música alta. Quando cheguei, encharcada e exausta, encontrei meu irmão estirado no sofá, jogando videogame e comendo uma pizza fria.

Carlos era três anos mais velho do que eu, mas às vezes parecia dez anos mais novo. Bonito, charmoso e completamente irresponsável, ele vivia pulando de um emprego para outro, sempre com uma desculpa pronta para explicar por que as coisas não davam certo.

- E aí, mana? - cumprimentou ele, sem tirar os olhos da tela. - Como foi a entrevista?

- Horrível - respondi, jogando a bolsa no chão e me afundando no sofá ao lado dele. - E maravilhosa ao mesmo tempo.

Ele fez uma pausa no jogo e me olhou.

- Isso não faz sentido nenhum.

- Eu sei.

- Mas você conseguiu o emprego ou não?

- Consegui.

Ele soltou um grito de comemoração e me abraçou, derrubando a pizza no processo.

- É isso aí! Eu sabia que você conseguia! Minha irmã mais nova, secretária de um bilionário!

- Temporária - lembrei. - Três meses de experiência.

- Não interessa. Você vai brilhar, mana. Você sempre brilha.

Sorri, apesar do cansaço.

- Obrigada, Carlos.

Ele voltou ao jogo, e eu me levantei para ir ao banheiro. Precisava de um banho quente. Precisava tirar aquela roupa encharcada. Precisava parar de pensar nos olhos escuros de Dante Moretti.

Mas, enquanto a água quente caía sobre meu corpo, eu sabia que aquele era apenas o começo.

Amanhã começaria uma nova fase na minha vida.

E, de alguma forma, eu tinha a sensação de que nada nunca mais seria igual.

---

Naquela noite, deitei na cama encarando o teto, incapaz de dormir.

A imagem de Dante Moretti não saía da minha cabeça. O jeito como ele me olhava, como se eu fosse um enigma que ele queria decifrar. A voz profunda, carregada de ameaça e promessa.

"Da próxima vez que me chamar de corno, certifique-se de que está pronta para as consequências."

Que tipo de consequências?, perguntei-me, sentindo o calor se espalhar pelo meu corpo.

Não. Não, não, não. Eu não podia pensar assim. Dante Moretti era meu chefe. Meu chefe arrogante, insuportável e completamente proibido.

E, além disso, um homem como ele nunca olharia para uma mulher como eu.

Uma mulher gordinha, cheia de curvas e inseguranças. Uma mulher que ainda era...

Fechei os olhos, afastando o pensamento.

Eu era virgem. Aos vinte e quatro anos, eu nunca tinha feito sexo. Não por falta de vontade, mas por falta de oportunidade. E por medo. Medo de me abrir para alguém, de me mostrar vulnerável, de ser rejeitada.

Dante Moretti era o tipo de homem que poderia ter qualquer mulher do mundo. Modelos, atrizes, herdeiras. Por que ele olharia para uma secretária gordinha com um irmão vagabundo e um guarda-roupa de brechó?

Ele não olharia.

E era melhor assim.

Eu precisava daquele emprego. Precisava pagar as contas, ajudar Carlos, construir uma vida melhor para nós dois. Não podia me dar ao luxo de me apaixonar pelo chefe.

Não podia.

Mas, enquanto o sono finalmente me alcançava, eu não pude evitar um último pensamento antes de mergulhar na escuridão:

Dante Moretti era o homem mais lindo que eu já tinha visto.

E isso era um problema muito, muito grande.

Capítulo 2

Dante

A chuva em Miami era um incômodo persistente, daqueles que grudam na pele e deixam o ar pesado. Eu odiava chuva. Odiava o som dela contra os vidros do carro, odiava o cinza do céu, odiava a umidade que fazia meu terno parecer mais apertado do que já era. Mas, naquele momento, a chuva era apenas um detalhe insignificante diante do caos que se tornara minha manhã.

Acordei com a cama vazia.

Não que isso fosse incomum. Vivian raramente passava a noite inteira. Ela dizia que precisava do próprio espaço, que dormir junto todas as noites estragava o mistério, que acordar ao meu lado todos os dias a faria se acostumar demais com a minha presença. Eu aceitava. Sempre aceitava. Vivian era a única mulher que eu realmente amava, e por ela eu tolerava coisas que nunca toleraria de mais ninguém.

Mas aquela manhã tinha sido diferente.

Ela saiu antes de o sol nascer, deixando apenas o cheiro do perfume no travesseiro e um bilhete rabiscado na mesa de cabeceira: "Negócios em Nova York. Volto em dois dias. Não sinta minha falta."

Senti.

Sempre sentia.

Vivian Whitmore era tudo o que um homem como eu poderia desejar. Elegante, ambiciosa, implacável quando necessário. Filha de um magnata do mercado imobiliário, ela entendia o meu mundo como ninguém. Não se intimidava com o meu temperamento, não se ofendia com a minha frieza, não exigia declarações românticas nem promessas vazias. Ela me aceitava como eu era.

E, na cama, ela era insaciável.

A noite anterior tinha sido prova disso. Ainda sentia as marcas das unhas dela nas minhas costas, o gosto do seu batom na minha boca, o som dos seus gemidos abafados contra o meu pescoço. Vivian gostava de intensidade. Gostava de ser dominada, de ceder o controle, de me provocar até o limite e depois se render completamente. Era um jogo que jogávamos havia três anos, desde que ficamos noivos, e eu nunca me cansava dele.

- Vai embora de novo? - perguntou Dominik, a voz arrastada pelo sono, quando passei pela sala.

Meu irmão estava esparramado no sofá, vestindo apenas uma calça de moletom velha e uma camiseta surrada. O cabelo escuro, idêntico ao meu, estava bagunçado, e os olhos carregavam aquelas olheiras perpétuas que ele insistia em ignorar.

- Tenho entrevistas hoje - respondi, ajeitando o paletó. - E você deveria procurar um emprego.

Dominik riu, aquele riso curto e debochado que me tirava do sério.

- Para quê? Você sustenta a casa muito bem sozinho, irmão.

- Isso não é uma casa. É um hotel cinco estrelas com serviço de quarto gratuito.

- E eu sou o hóspede preferido.

Ele pegou o controle remoto e aumentou o volume da televisão, encerrando a conversa. Eu poderia ter insistido. Poderia ter lembrado que ele tinha trinta e dois anos, que era formado em economia, que estava desperdiçando o potencial em uma espiral de autocomiseração. Mas não tinha tempo para essa batalha.

Não hoje.

Hoje eu tinha que substituir mais uma secretária incompetente.

---

As secretárias eram um problema recorrente na minha vida.

A primeira durou três semanas. Era eficiente, organizada, mas tinha a irritante mania de fofocar com as assistentes dos outros andares. Descobri quando a vi cochichando com a recepcionista sobre um boato envolvendo a fusão com uma empresa concorrente. Demiti na hora.

A segunda era silenciosa demais. Nunca falava, nunca questionava, apenas obedecia. Parecia perfeita, até o dia em que encontrei um currículo escondido na gaveta da mesa dela. Estava procurando outro emprego enquanto fingia lealdade. Demiti com uma carta de recomendação falsa para queimá-la no mercado.

A terceira foi o pior caso.

Chamava-se Melissa. Bonita, ambiciosa, competente. Mas cometeu o erro de interpretar mal a minha cortesia profissional. Começou a usar roupas mais decotadas, a se inclinar sobre a mesa de propósito, a tocar meu braço "sem querer" durante reuniões. Quando finalmente tentou me beijar no elevador, eu a afastei com uma frieza que a fez chorar.

Ela pediu demissão no dia seguinte.

Eu não senti nada.

O trabalho era isso: trabalho. Eu não misturava negócios com prazer. Vivian era a única mulher que ocupava esse espaço na minha vida, e eu não tinha intenção de mudar isso.

Então, quando Bianca Rossi entrou no meu escritório parecendo uma sobrevivente de naufrágio, eu não esperava nada além de mais uma entrevista tediosa.

Estava enganado.

---

O dia da entrevista começou com o incidente do carro.

Eu vinha pela Collins Avenue, o Porsche preto cortando a chuva como uma lâmina, quando a vi. Uma mulher correndo pela calçada, os braços cruzados sobre o peito, a pasta pressionada contra o corpo. Ela não olhou para o lado antes de atravessar a poça, e o carro passou exatamente no momento em que ela estava no ponto mais baixo da sarjeta.

A água explodiu.

Eu vi o jato atingi-la em cheio, encharcando-a da cabeça aos pés. Vi a blusa branca colar no corpo, revelando curvas generosas e redondas. Vi o cabelo escuro transformar-se em uma massa de cachos molhados.

E então ouvi.

- SEU FILHO DA PUTA! SEU CORNO DE MERDA! NÃO OLHA POR ONDE DIRIGE, NÃO? TÁ CEGO? SUA DESGRAÇA!

Parei o carro.

Não porque me importasse com o que ela estava dizendo. Parei porque a voz dela, carregada de sotaque brasileiro e raiva genuína, despertou minha curiosidade. Eu queria ver o rosto da mulher que tinha coragem de me xingar daquele jeito.

E quando o vidro desceu, eu vi.

Ela era... inesperada.

Não bonita no sentido tradicional. As curvas eram abundantes demais para os padrões das mulheres com quem eu costumava me envolver. O rosto era redondo, com bochechas coradas pela raiva e lábios carnudos que tremiam de indignação. Os olhos castanhos, porém, eram magnéticos. Escuros, intensos, cheios de fogo.

- Você fala comigo? - perguntei, a voz carregada de tédio calculado.

Ela explodiu novamente.

Eu ouvi cada palavra, cada insulto criativo, cada acusação. E, em vez de me irritar, senti um divertimento inesperado. Aquela mulher não tinha medo de mim. Não sabia quem eu era, não se importava com o meu status. Ela apenas estava furiosa, e expressava isso com uma honestidade brutal.

- E eu deveria me importar... por quê? - respondi, erguendo uma sobrancelha.

Ela ficou boquiaberta.

E então veio a frase final, gritada com toda a força dos pulmões:

- TOMARA QUE SUA ESPOSA TE TRAIA COM O PERSONAL TRAINER!

Fechei o vidro.

E fui embora.

Mas o rosto dela ficou gravado na minha memória.

---

Duas horas depois, eu estava no meu escritório, analisando currículos.

A vaga de secretária executiva precisava ser preenchida com urgência. Os negócios não paravam, e a ausência de uma assistente estava começando a afetar minha produtividade. Amanda estava sobrecarregada, os e-mails se acumulavam, e eu não tinha paciência para lidar com detalhes burocráticos.

Entre os candidatos, um nome chamou minha atenção: Bianca Rossi.

Formação em administração. Cinco anos de experiência como assistente executiva em São Paulo. Fluente em três idiomas. Carta de apresentação bem redigida, profissional, sem erros gramaticais.

A foto anexada mostrava uma mulher de cabelos escuros e sorriso contido, vestida com um blazer cinza. Era difícil conciliar aquela imagem com a fúria que eu tinha presenciado na rua.

- Amanda - chamei pelo interfone. - Confirme a entrevista com a senhorita Rossi para hoje.

- Sim, senhor Moretti.

Eu não sabia se era curiosidade, sadismo ou simples coincidência. Mas queria vê-la novamente.

Queria ver se ela teria a mesma coragem quando descobrisse quem eu era.

A entrevista foi um espetáculo.

Bianca Rossi entrou no meu escritório parecendo um gato afogado, e a expressão de horror no rosto dela quando me reconheceu foi impagável. Os olhos castanhos se arregalaram, a boca se abriu, as mãos tremeram levemente.

Ela tentou se explicar. Gaguejou. Corou.

E então, quando eu provoquei, ela explodiu novamente.

- Ei, quem começou foi você! - disparou, apontando o dedo para mim. - Você me encharcou da cabeça aos pés e ainda foi grosso comigo!

Eu me recostei na cadeira, cruzando os braços. O sorriso no meu rosto era genuíno.

- E você me chamou de... como foi mesmo? Ah, sim. "Corno". "Filho da puta". "Desgraçado". E desejou que minha esposa me traísse com o personal trainer.

Ela corou ainda mais.

E continuou me desafiando.

A entrevista durou quarenta minutos. Perguntei sobre a experiência dela, sobre os motivos que a trouxeram para Miami, sobre como lidaria com clientes difíceis. Ela respondeu com competência, mas sempre com aquela faísca de rebeldia nos olhos.

E então, no final, quando eu estava prestes a dispensá-la, ela me chamou de motorista de merda.

E eu ri.

- Sabe qual é o seu problema, senhorita Rossi? - perguntei, voltando para a minha cadeira. - Você não tem filtro. Diz exatamente o que pensa.

- E isso é um problema?

- Para a maioria dos empregadores, sim. Para mim... é refrescante.

Era a verdade. Eu estava cansado de pessoas que sorriam para mim enquanto me apunhalavam pelas costas. Cansado de secretárias que fingiam lealdade enquanto planejavam me trair. Cansado de falsidade.

Bianca Rossi era muitas coisas. Falsa não era uma delas.

- Isso significa que... eu tenho uma chance? - perguntou ela, os olhos brilhando de esperança.

Eu poderia tê-la contratado ali mesmo. Mas queria prolongar o momento. Queria vê-la se contorcer um pouco mais.

- Significa que estou disposto a ignorar o fato de que você chegou parecendo um rato afogado e me insultou duas vezes em menos de uma hora.

- Três vezes - corrigiu ela, sem pensar.

Ergui a sobrancelha.

- Desculpe - murmurou ela, baixando os olhos. - Força do hábito.

Eu ri por dentro.

Aquela mulher era um desastre.

E eu estava prestes a contratá-la.

---

Depois da entrevista, liguei para Vivian.

Não porque precisasse da opinião dela sobre a contratação. Precisava apenas ouvir a voz da minha noiva, lembrar que havia algo constante na minha vida além do trabalho.

- Dante? - atendeu ela no segundo toque, a voz firme e controlada. - Achei que estivesse em reunião.

- Acabei de entrevistar a nova secretária.

- E?

- E é um desastre ambulante. Brasileira, temperamental, me chamou de corno na rua antes de saber quem eu era.

Houve um silêncio do outro lado.

- E você a contratou?

- Sim.

Vivian riu, aquele riso baixo e sedutor que eu conhecia tão bem.

- Você está ficando louco, Dante. Sabe disso, não sabe?

- Talvez. Mas é um risco calculado.

- Hmm. Quando eu voltar, quero conhecê-la.

- Você vai odiá-la.

- Provavelmente. Mas quero ver com meus próprios olhos a mulher que teve coragem de te chamar de corno.

Falamos por mais alguns minutos sobre a viagem dela a Nova York, sobre a reunião com investidores, sobre o jantar beneficente que teríamos na semana seguinte. A voz de Vivian era um bálsamo para o caos da minha mente, e eu me senti mais calmo ao desligar.

Vivian era o meu porto seguro.

E ninguém, nem mesmo uma secretária brasileira com olhos de fogo, mudaria isso.

---

À noite, cheguei em casa exausto.

Dominik estava exatamente onde eu o havia deixado: esparramado no sofá, cercado por embalagens de comida e latas de refrigerante. A televisão estava ligada em um canal de esportes, mas ele não parecia estar prestando atenção.

- Você saiu do sofá hoje? - perguntei, jogando a chave na mesa de centro.

- Fui até a cozinha - respondeu ele, sem olhar para mim. - Duas vezes.

- Impressionante.

- Eu sei. Sou um atleta.

Sentei-me na poltrona ao lado do sofá e soltei um suspiro. O cansaço pesava nos meus ombros como uma capa de chumbo.

- Dominik, precisamos conversar.

- Sobre o quê?

- Sobre você. Sobre essa... situação.

Ele finalmente desviou os olhos da televisão. O rosto dele era um espelho do meu, mas com cicatrizes que eu não podia ver. Cicatrizes de uma guerra interna que ele lutava desde a morte do nosso pai.

- Que situação? - perguntou ele, a voz carregada de sarcasmo. - Estou muito confortável aqui, obrigado. A comida é boa, a cama é macia, e o Wi-Fi é rápido.

- Você tem trinta e dois anos. Deveria estar construindo uma carreira, não vegetando na casa do irmão.

- E quem disse que eu quero uma carreira?

- Todo mundo quer.

- Eu não.

Ele voltou a atenção para a televisão, encerrando a conversa. Eu queria insistir. Queria sacudi-lo pelos ombros e fazê-lo entender que estava desperdiçando a vida. Mas não tinha energia para essa batalha.

Não hoje.

- Vou tomar um banho - anunciei, levantando-me.

- Divirta-se.

Subi as escadas lentamente, sentindo o peso de mais um dia.

O chuveiro quente ajudou a relaxar os músculos tensos, mas não acalmou a tempestade na minha mente. A imagem de Bianca Rossi insistia em voltar. Os olhos castanhos, a boca carnuda, a raiva ardente.

Eu não deveria pensar nela.

Eu tinha Vivian. Tinha uma carreira. Tinha responsabilidades.

Mas, enquanto a água escorria pelo meu corpo, eu não pude evitar a lembrança daquela blusa branca molhada, colada às curvas generosas.

E me odiei por isso.

---

Naquela noite, antes de dormir, recebi uma mensagem de Vivian.

"Estou com saudade. O hotel está frio sem você."

Respondi imediatamente.

"Também estou. Volte logo."

"Tenho uma surpresa para você quando voltar."

"Que tipo de surpresa?"

"Você vai ter que esperar para descobrir."

Sorri no escuro.

Vivian sabia como me manter interessado. Era uma das muitas razões pelas quais eu a amava.

Fechei os olhos e tentei dormir.

Mas o sono demorou a chegar.

E quando finalmente veio, foi povoado por sonhos confusos, nos quais olhos castanhos me desafiavam de dentro de um Porsche preto, e uma voz com sotaque brasileiro me chamava de corno.

Acordei irritado.

E o dia ainda nem tinha começado.

Capítulo 3

Bianca

O despertador tocou às cinco e meia da manhã.

Eu já estava acordada havia pelo menos uma hora, encarando o teto do meu quarto, ouvindo a respiração irregular de Carlos no quarto ao lado e tentando convencer meu estômago a parar de se contorcer. Não funcionou.

Primeiro dia de trabalho.

Primeiro dia como secretária executiva de Dante Moretti.

Primeiro dia do que eu suspeitava que seria o período mais longo e torturante da minha vida.

Levantei-me da cama com a sensação de quem caminha para o cadafalso. Minhas pernas estavam pesadas, minha cabeça latejava, e cada célula do meu corpo gritava para eu voltar para debaixo das cobertas e fingir que nada daquilo estava acontecendo.

Mas eu não podia.

Eu precisava daquele emprego.

A conta de luz estava atrasada. O aluguel venceria em duas semanas. Carlos tinha conseguido - surpreendentemente - um bico em uma oficina mecânica, mas o dinheiro não dava para cobrir nem metade das despesas. Eu era a única esperança de estabilidade naquele apartamento minúsculo em Little Havana.

Então, engoli o medo, levantei-me e fui para o banheiro.

O chuveiro frio ajudou a despertar meu corpo, mas não acalmou minha mente. Enquanto a água escorria pelo meu rosto, eu repassava mentalmente tudo o que poderia dar errado naquele dia.

E a lista era longa.

Muito longa.

---

Escolhi o melhor conjunto do meu guarda-roupa limitado: uma saia lápis preta que modelava minhas curvas sem ser vulgar, uma blusa de seda cor de vinho que minha mãe tinha me dado antes de eu me mudar para Miami, e um blazer preto que escondia as inseguranças que eu insistia em ignorar. Os sapatos eram novos - bem, novos para mim - comprados em um brechó no mês anterior. Saltos baixos, confortáveis o suficiente para aguentar um dia inteiro em pé, mas elegantes o bastante para não parecerem baratos.

Olhei-me no espelho e tentei sorrir.

- Você consegue, Bianca - murmurei para o meu reflexo. - Você é forte. Você é capaz. E ele é só um homem arrogante com um Porsche caro demais.

O reflexo não pareceu convencido.

- Vai dar merda - sussurrou uma voz traiçoeira na minha cabeça.

Ignorei.

Peguei minha bolsa, verifiquei se os documentos estavam em ordem e saí do quarto.

Carlos estava na cozinha, preparando café. O cheiro forte da bebida se espalhava pelo apartamento, e por um momento me senti quase normal. Quase em casa.

- Primeiro dia? - perguntou ele, sem olhar para mim.

- Sim.

- Nervosa?

- Não.

Ele riu.

- Você sempre foi uma péssima mentirosa, mana.

Suspirei, sentando-me à mesa. Carlos colocou uma xícara de café na minha frente e se sentou do outro lado, os olhos escuros - tão parecidos com os meus - me estudando com uma seriedade rara.

- Vai dar tudo certo - disse ele, a voz macia. - Você é a pessoa mais competente que eu conheço.

- Obrigada.

- E se aquele italiano te tratar mal, me avisa. Eu vou lá quebrar as pernas dele.

Ri, apesar do nervosismo.

- Você não quebraria nem um palito de dente, Carlos.

- Ei, eu posso ser mais assustador do que pareço.

- Claro que pode.

Ele sorriu, mas o sorriso logo se desfez.

- Bianca, eu... eu sinto muito por ser um peso.

- Você não é um peso.

- Sou sim. E eu sei disso. Mas estou tentando melhorar.

Alcancei a mão dele sobre a mesa e apertei.

- Eu sei que está. E é por isso que eu não desisto de você.

Ele assentiu, desviando o olhar. Havia algo mais que ele queria dizer, algo que estava preso na garganta, mas o momento passou antes que ele encontrasse as palavras.

- Melhor ir - disse ele, levantando-se. - O trânsito em Brickell é infernal.

Assenti, terminando o café em um gole.

Era hora de enfrentar o diabo.

---

Cheguei ao Moretti Group às sete e quarenta e cinco.

O prédio de vidro e aço parecia ainda mais imponente sob a luz da manhã. Os raios de sol refletiam nas janelas, criando um brilho quase ofuscante, e a fila de carros de luxo estacionados em frente era um lembrete constante de que eu não pertencia àquele mundo.

Mas eu estava ali.

E ia ficar.

A recepcionista - a mesma loira de sorriso falso do dia da entrevista - me reconheceu imediatamente. Desta vez, porém, não havia desprezo no olhar dela. Havia... curiosidade.

- Senhorita Rossi - cumprimentou ela, a voz açucarada. - O senhor Moretti a está esperando no trigésimo andar.

- Obrigada.

Caminhei até o elevador com passos firmes, ignorando os olhares que me seguiam. Eu sabia o que as pessoas pensavam quando me viam. "O que essa gordinha está fazendo aqui?" "Será que ela é nova?" "Deve ser estagiária."

Eu estava acostumada.

O elevador subiu em silêncio. Meu coração batia acelerado, e minhas mãos estavam úmidas apesar do ar-condicionado. Quando as portas se abriram no trigésimo andar, respirei fundo e entrei no escritório.

Amanda me recebeu com um sorriso profissional.

- Bom dia, Bianca. Pode me chamar de Amanda. O senhor Moretti me pediu para orientar você nas primeiras horas.

- Bom dia. Obrigada por me receber.

- Sem problemas. Vamos começar pela sua mesa.

A mesa ficava em uma antessala espaçosa, separada do escritório principal por uma porta de madeira escura. Era elegante, funcional, com um computador de última geração, uma cadeira ergonômica e uma vista deslumbrante para a baía.

- Suas atribuições principais serão gerenciar a agenda do senhor Moretti, atender telefonemas, organizar reuniões e filtrar e-mails - explicou Amanda, entregando-me um tablet. - As senhas e instruções de acesso estão aqui.

- Entendi.

- Uma dica: ele odeia imprevisibilidade. Tudo deve ser planejado com antecedência e comunicado com clareza. E ele odeia atrasos. Se uma reunião está marcada para as dez, você deve estar pronta às nove e cinquenta.

- Anotado.

- Outra coisa: não faça perguntas desnecessárias. Ele valoriza a objetividade.

- Entendido.

Amanda sorriu, mas havia algo no olhar dela que eu não soube decifrar. Pena? Preocupação? Ou talvez a consciência de que eu estava prestes a ser jogada aos leões?

- Boa sorte - disse ela, antes de se afastar.

Eu mal tive tempo de me sentar quando o interfone na minha mesa tocou.

- Senhorita Rossi - a voz de Dante soou fria e autoritária. - Café. Sem açúcar. Agora.

Pisquei.

- Bom dia para você também, senhor Moretti - murmurei baixinho, certa de que o interfone já tinha sido desligado.

Levantei-me e fui até a copa.

O café era gourmet, importado, com um aroma que preenchia o ambiente. Preparei a bebida exatamente como ele pediu: sem açúcar, forte, em uma xícara de porcelana branca. Caminhei até o escritório dele e bati suavemente.

- Entre.

Abri a porta e entrei.

Dante estava sentado atrás da mesa imponente, os olhos fixos na tela do computador. Usava um terno cinza-escuro que o fazia parecer ainda mais poderoso, e o cabelo preto estava perfeitamente penteado. Ele não olhou para mim.

- Coloque na mesa.

Obedeci, depositando a xícara com cuidado.

- Algo mais, senhor Moretti?

- Não. Pode sair.

Saí.

Era assim que seria, então. Um chefe frio, distante, que me trataria como uma serva invisível. Eu já esperava. Não deveria doer. Mas doía.

Voltei para a minha mesa e comecei a explorar o sistema. Os minutos passaram lentos, pontuados por pedidos secos de Dante: imprimir documentos, buscar relatórios, confirmar reuniões, cancelar compromissos. Cada interação era breve, impessoal, carregada de uma indiferença que me fazia sentir pequena.

Eu era boa no meu trabalho. Sempre fui. Mas com ele, parecia que nada estava bom o suficiente.

Às dez e quarenta, o interfone tocou novamente.

- A senhorita Whitmore está subindo - anunciou Dante. - Ela não deve esperar. Acompanhe-a até aqui imediatamente.

- Sim, senhor.

Levantei-me e fui até a recepção do andar.

E foi então que a vi.

Vivian Whitmore era deslumbrante.

Alta, magra, loira, com pernas que pareciam não ter fim e um rosto esculpido por cirurgiões plásticos que sabiam exatamente o que faziam. Usava um vestido branco colado ao corpo, saltos de grife e uma bolsa que devia custar mais do que o meu carro. O cabelo caía em ondas perfeitas sobre os ombros, e os olhos azuis me analisaram com uma frieza imediata.

- Você deve ser a nova secretária - disse ela, a voz doce, mas carregada de veneno.

- Sim, senhorita Whitmore. Bianca Rossi. É um prazer conhecê-la.

Ela sorriu. Um sorriso que não chegava aos olhos.

- O prazer é todo meu, querida. Dante me contou sobre você. Disse que você o chamou de... corno, foi?

Senti o rosto corar.

- Foi um mal-entendido.

- Claro que foi. - Ela inclinou a cabeça, estudando-me como se eu fosse um inseto interessante. - Sabe, eu admiro pessoas que falam o que pensam. Mas admiro ainda mais pessoas que sabem qual é o seu lugar.

O sorriso dela se alargou.

- Espero que você saiba o seu.

Antes que eu pudesse responder, ela passou por mim, o perfume caro preenchendo o ar, e caminhou até o escritório de Dante como se fosse a dona do lugar.

Porque, tecnicamente, ela era.

Eu fiquei parada, as mãos fechadas em punhos, o coração batendo forte. A vontade de responder foi quase incontrolável. Mas eu me contive.

Primeiro dia.

Eu não ia estragar tudo no primeiro dia.

---

O resto da manhã foi um turbilhão.

Vivian ficou no escritório de Dante por quase uma hora. Eu podia ouvir risadas abafadas através da porta, e algo no som me fazia apertar os dentes. Quando ela finalmente saiu, passou por mim sem olhar, o rosto sereno e satisfeito.

- Bom dia, querida - disse ela, a voz melosa. - Dante me pediu para avisar que vocês dois vão almoçar juntos. Ele quer discutir a agenda da semana.

- Perdão?

- Almoçar. Vocês dois. Ele odeia desperdiçar tempo, então aproveita as refeições para reuniões informais.

Ela sorriu novamente, aquele sorriso que eu já odiava.

- Não se preocupe, querida. Ele não morde. A menos que você queira.

E saiu.

Fiquei parada, processando a informação. Almoçar com Dante? A sós?

Meu estômago se contorceu.

O interfone tocou.

- Senhorita Rossi. Meu carro estará na frente do prédio em dez minutos. Não se atrase.

- Sim, senhor.

Respirei fundo.

O inferno estava apenas começando.

---

O restaurante era um daqueles lugares que eu só tinha visto em revistas.

Paredes de vidro, lustres de cristal, toalhas de linho branco e um maître que nos recebeu com reverência. Dante caminhava à minha frente, os ombros largos e a postura ereta, ignorando os olhares que o seguiam.

Fomos conduzidos a uma mesa reservada no canto, longe dos outros clientes. Ele puxou a cadeira para mim - um gesto surpreendentemente educado - e sentou-se à minha frente.

- O menu executivo é bom - disse ele, sem olhar para o cardápio. - Recomendo o salmão.

- Vou querer o salmão, então.

Ele fez o pedido para os dois, e um silêncio constrangedor se instalou.

Eu não sabia para onde olhar. Ele parecia perfeitamente confortável, os olhos escuros me estudando com uma intensidade que fazia minha pele formigar.

- Você está quieta - observou ele.

- Não tenho nada a dizer.

- Isso é raro. Ontem você tinha muito a dizer.

- Ontem eu não era sua funcionária.

Ele sorriu, aquele sorriso que não era de deboche, mas de puro divertimento.

- Então agora que é minha funcionária, vai ficar quietinha e obediente?

- Vou ser profissional.

- Que monótono.

O garçom chegou com os pratos, interrompendo a conversa. O salmão estava delicioso, macio e perfeitamente temperado, mas eu mal conseguia saborear. A presença de Dante era avassaladora, preenchendo todos os espaços ao meu redor.

- Quero que organize minha viagem para Chicago na próxima semana - disse ele, entre um bocado e outro. - Vou precisar de passagens, hotel e um carro alugado.

- Já providenciei.

Ele ergueu a sobrancelha.

- Já?

- Amanda me passou suas preferências. Reservei o hotel de sempre, um sedan preto e passagens de primeira classe. Vou enviar os detalhes para seu e-mail.

- Eficiente.

- Tento ser.

Ele me observou por um longo momento.

- Por que você veio para Miami, senhorita Rossi?

A pergunta me pegou desprevenida.

- Oportunidades - respondi, escolhendo as palavras com cuidado. - Em São Paulo, eu estava estagnada. Aqui, achei que poderia recomeçar.

- Recomeçar de quê?

- De tudo.

Ele não insistiu. Apenas assentiu, voltando a atenção para o prato.

O resto do almoço transcorreu em silêncio.

---

À tarde, o inferno recomeçou.

Dante me fez trabalhar sem parar. Pediu relatórios, planilhas, e-mails, telefonemas. Cada tarefa era urgente, cada prazo era impossível, e cada erro - por menor que fosse - era apontado com uma frieza que me fazia querer chorar.

- Isso está errado - disse ele, jogando um documento na minha mesa. - Eu pedi os números do terceiro trimestre, não do segundo.

- Vou corrigir imediatamente.

- Faça isso.

Respirei fundo e corrigi.

Às cinco e meia, quando finalmente terminei a última tarefa, eu estava exausta. Minhas costas doíam, meus pés latejavam, e minha cabeça latejava ainda mais.

- Pode ir - disse Dante, sem olhar para mim. - Amanhã às oito. Pontualmente.

- Sim, senhor.

Peguei minha bolsa e me levantei.

- Senhorita Rossi.

Parei.

- Sim?

- Vivian não gostou de você.

Virei-me lentamente.

- Eu percebi.

- Ela raramente gosta de mulheres bonitas.

A palavra me atingiu como um soco.

- Bonitas? - repeti, sem acreditar.

Ele me olhou, os olhos escuros indecifráveis.

- Bonitas - confirmou. - E ela odeia concorrência.

Não soube o que dizer.

- Até amanhã, senhorita Rossi.

Saí do escritório com as pernas tremendo.

Bonita.

Ele tinha me chamado de bonita.

E, por mais que eu odiasse admitir, aquilo me afetou mais do que deveria.

---

No caminho para casa, o telefone tocou.

Era Carlos.

- Mana, preciso te contar uma coisa.

O tom da voz dele me gelou o sangue.

- O que foi?

- Eu... eu me meti em um problema.

Fechei os olhos.

Claro que sim.

- Que tipo de problema?

- O dono da oficina me acusou de roubar uma caixa de ferramentas. Ele quer me demitir.

- E você roubou?

Silêncio.

- Carlos!

- Não roubei! - defendeu ele. - Mas... eu peguei emprestado sem pedir. Foi só por uma noite. Eu ia devolver.

Passei a mão pelo rosto, a exaustão se transformando em frustração.

- Você é impossível, sabia?

- Eu sei. Desculpa.

- Não peça desculpas. Resolva.

- Eu vou resolver.

- Espero que sim.

Desliguei.

E, pela primeira vez naquele dia, as lágrimas ameaçaram cair.

Eu estava cansada. Cansada de carregar o mundo nas costas. Cansada de lutar sozinha. Cansada de ser forte o tempo todo.

Mas eu não podia desistir.

Não agora.

Amanhã seria outro dia.

E eu estaria pronta.

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