O cheiro de desinfetante no hospital era forte, sufocante. Eu estava no corredor, a tremer, com o telemóvel na mão, tentando desesperadamente ligar para o meu marido. Lá dentro, a minha mãe lutava pela vida contra um cancro avançado.
Finalmente, a chamada atendeu, mas não era a voz do Pedro. Era a da irmã dele, Sofia, a reclamar do tom de irritação, porque o Pedro estava "ocupado" na festa de aniversário do sobrinho. Enquanto a minha mãe estava entre a vida e a morte, eles celebravam. "A tua mãe vai ficar bem. Não sejas tão dramática", disse ela, antes de desligar com desdém. O telemóvel escorregou da minha mão, o som ecoando no vazio.
As suas palavras, "Vamos passar por isto juntos, meu amor", repetiam na minha cabeça, agora vazias. O palhaço e a festa eram mais importantes que a vida da minha mãe.
Quando a cirurgia acabou e o médico disse que ela estava estável, o alívio deu lugar a uma raiva fria e avassaladora. Recebi uma mensagem do Pedro: "Desculpa, amor. A festa estava uma loucura. Ligo amanhã."
Amanhã. Era a gota de água. Sem pensar duas vezes, enviei uma única frase: "Pedro, quero o divórcio." A partir daquele momento, a minha vida nunca mais seria a mesma. Eu estava prestes a lutar pela minha liberdade.
O cheiro de desinfetante no hospital era forte, quase me sufocava.
Eu estava sentada num banco frio do lado de fora da sala de cirurgia, com a minha mão a tremer enquanto segurava o telemóvel.
O meu marido, Pedro, não atendia.
Liguei de novo. E de novo.
Dentro daquela sala, a minha mãe estava a lutar pela vida. Cancro do pâncreas, em estado avançado. Os médicos disseram que a cirurgia era a nossa única esperança.
Finalmente, a chamada foi atendida. Não era a voz de Pedro, mas sim a da sua irmã, Sofia. A voz dela soava irritada, cheia de impaciência.
"Mariana? O que queres? O Pedro está ocupado."
"Ocupado?", a minha voz saiu rouca, "A minha mãe está na sala de cirurgia, Sofia. Eu preciso dele aqui."
Ouvi um barulho ao fundo, risos. Parecia uma festa.
"Ah, isso", disse Sofia com desdém, "Olha, o Tiago, o meu filho, está a fazer oito anos hoje. É a festa de aniversário dele. Não podemos simplesmente ir embora."
"Ele é o teu sobrinho, Mariana. O Pedro é o tio dele. A família tem de estar unida nestes momentos."
A ironia daquelas palavras quase me fez rir. Família.
"A minha mãe pode morrer, Sofia."
Houve um silêncio, depois um suspiro. "Não sejas tão dramática. A tua mãe vai ficar bem. O Pedro disse que liga mais tarde. Agora tenho de ir, o palhaço chegou."
Ela desligou.
O telemóvel caiu da minha mão, o som ecoou no corredor vazio do hospital.
Eu estava sozinha. Completamente sozinha.
Olhei para a porta da sala de cirurgia. A luz vermelha por cima dela parecia um olho a olhar para mim, sem piscar.
Lembrei-me de como Pedro me tinha prometido, na noite anterior, que estaria ao meu lado. Ele segurou a minha mão e disse: "Vamos passar por isto juntos, meu amor. Eu não te vou deixar."
As suas palavras agora eram apenas um eco vazio.
A festa de aniversário do seu sobrinho era mais importante. Um palhaço era mais importante.
Senti um nó a formar-se na minha garganta.
Eu e Pedro estávamos casados há cinco anos. Nos primeiros anos, ele era atencioso. Mas desde que a sua família se mudou para a nossa cidade, tudo mudou.
A sua mãe, a Dona Helena, e a sua irmã, Sofia, nunca gostaram de mim. Elas achavam que eu não era boa o suficiente para o seu precioso Pedro.
E Pedro, em vez de me defender, começou a ceder a todas as vontades delas.
"Sê paciente, Mariana", ele dizia, "Elas só querem o melhor para mim."
Mas o "melhor" para ele parecia significar o meu sofrimento.
A luz da cirurgia finalmente apagou-se. O médico saiu, com uma expressão cansada.
O meu coração parou.
"Doutor?", sussurrei.
Ele deu um pequeno sorriso. "A cirurgia correu bem. Conseguimos remover o tumor. Ela está estável, mas os próximos dias são cruciais."
Senti as minhas pernas fraquejarem de alívio. As lágrimas que eu tinha segurado finalmente caíram.
"Obrigada, doutor. Muito obrigada."
Aproximei-me do vidro da unidade de cuidados intensivos. A minha mãe estava deitada, pálida, com tubos ligados ao seu corpo. Mas estava a respirar.
Ela estava viva.
Nesse momento, o meu telemóvel vibrou. Era uma mensagem de Pedro.
"Desculpa, amor. A festa estava uma loucura. Como está a tua mãe? Ligo amanhã."
Amanhã.
Uma raiva fria começou a espalhar-se pelo meu peito.
Respondi com uma única frase.
"Pedro, quero o divórcio."
A resposta dele não demorou nem um minuto. O telemóvel começou a tocar.
Atendi.
"Estás maluca?", gritou ele, "Divórcio? Estás a falar a sério? Só porque eu não pude ir ao hospital?"
A sua voz estava cheia de indignação, como se eu fosse a culpada.
"A minha mãe quase morreu, Pedro. E tu estavas numa festa."
"Era o aniversário do meu sobrinho! A minha família precisava de mim! Não podes ser tão egoísta, Mariana!"
Egoísta. Eu era a egoísta.
"E eu? Eu não precisava de ti?", a minha voz tremeu.
"Já és crescida, consegues lidar com as coisas sozinha. Além disso, o médico disse que ela ia ficar bem, não disse? Estás a fazer uma tempestade num copo de água."
A sua falta de empatia era como uma parede de gelo.
"Não quero mais discutir. Vou tratar dos papéis."
"Mariana, não te atrevas!", a voz dele ficou mais baixa, ameaçadora, "Pensa bem no que estás a fazer. Vais deitar fora cinco anos de casamento por causa de um capricho?"
"Isto não é um capricho", disse eu, com uma calma que me surpreendeu a mim mesma, "Isto é o fim."
Desliguei o telefone e bloqueei o número dele.
Sentei-me novamente no banco, o meu corpo a tremer. A decisão estava tomada. Não havia volta a dar.
A porta do elevador abriu-se e a minha sogra, Helena, caminhou na minha direção. O seu rosto estava contorcido numa máscara de fúria. Sofia seguia-a, com um sorriso de satisfação.
"Tu!", gritou Helena, apontando um dedo para mim, "Como te atreves a pedir o divórcio ao meu filho?"
"Isso é um assunto entre mim e ele", respondi, levantando-me.
"Claro que é da minha conta! Tu estás a tentar destruir a nossa família!", ela cuspiu as palavras. "Sempre soube que não eras boa. Uma interesseira, que só queria o dinheiro do meu filho."
Ri-me, um som amargo. "Dinheiro? Pedro e eu construímos tudo o que temos juntos. Eu trabalhei tanto quanto ele."
"Não fales assim com a minha mãe!", interveio Sofia, "Tu és uma ingrata. O Pedro dá-te tudo, e é assim que tu agradeces? Ameaçando-o com o divórcio no dia do aniversário do meu filho? Estragaste a festa!"
A preocupação delas era com a festa. Não com a mulher que estava a lutar pela vida a poucos metros de distância.
"A vossa festa não me interessa. A minha mãe está aqui. E o meu marido, o vosso filho e irmão, não estava."
"Ele tinha uma obrigação familiar!", insistiu Helena.
"Eu sou a família dele!", gritei, a minha calma a desaparecer, "Eu sou a esposa dele!"
"Uma esposa que não sabe o seu lugar", disse Helena com desprezo, "Uma boa esposa apoia o marido, não cria problemas. O Pedro fez o que era certo. A família vem sempre em primeiro lugar."
E eu, aparentemente, não fazia parte dessa definição de família.