Fiquei do lado de fora da mansão dos Bittencourt, na chuva congelante, por duas horas, esperando o homem que eu amava me deixar entrar.
Eu era Helena Ramalho, a brilhante contadora forense que acabara de lavar duzentos milhões de reais para a família. Eu era a filha adotiva, a resolvedora de problemas e a noiva do subchefe, Lucas.
Mas no momento em que Sofia, a filha "de verdade", retornou, eu me tornei nada mais que um tapa-buraco.
Lucas me olhou nos olhos, girando seu uísque no copo, e desferiu o golpe.
"Preciso que você entregue seu trabalho para a Sofia. Ela precisa do prestígio para ser aceita pelo Conselho."
Ele exigiu que eu abrisse mão do trabalho da minha vida - um complexo algoritmo de lavagem de dinheiro - para que sua nova favorita pudesse levar o crédito.
Quando recusei, a humilhação começou.
Sofia fingiu uma queda na piscina, e meu pai adotivo me chutou para o fundo "para me ensinar uma lição".
Eu quase me afoguei.
Lucas não me salvou. Ele me entregou uma máscara de mergulho e me disse para encontrar o anel perdido de Sofia no fundo da piscina congelante antes que eu pudesse me aquecer.
Eles roubaram meu código. Arruinaram minha reputação na universidade. Me estapearam na frente da imprensa.
Eles achavam que eu era uma vira-lata sem ter para onde ir.
Eles estavam errados.
Deitada na cama do hospital, disquei um número que havia memorizado anos atrás.
"Aqui é o Ativo 724", sussurrei. "Estou pronta para voltar para casa."
No dia seguinte, o império Ramalho começou a desmoronar.
E quando um comboio de SUVs pretos chegou para me buscar, Lucas finalmente percebeu seu erro.
Meu verdadeiro pai não era um ninguém.
Ele era Dom Moretti, o Rei do Sul.
E ele estava aqui para transformar o mundo deles em cinzas.
Capítulo 1
Os portões de ferro da mansão dos Bittencourt se erguiam diante de mim, uma barreira de metal preto entre mim e o único homem que eu já amei, enquanto a chuva gelada encharcava minha blusa de seda e transformava minha pele em gelo.
Eu estava parada ali há duas horas.
Eu vinha apertando a campainha até meus dedos ficarem dormentes, sabendo que Lucas estava lá dentro. Sabendo que ele me via nos monitores de segurança. E sabendo que ele simplesmente não se importava o suficiente para apertar o botão que me deixaria entrar.
Eu não era apenas uma mulher esperando na chuva. Eu era Helena Ramalho.
Eu era a filha adotiva da família criminosa Ramalho, a noiva do subchefe dos Bittencourt e a brilhante contadora forense que acabara de lavar duzentos milhões de reais do dinheiro sujo deles sem deixar um único rastro digital.
Mas esta noite, eu era apenas um incômodo.
A campainha finalmente soou - um ruído áspero e irritante.
Os portões pesados rangeram ao se abrir. Eu não corri. Eu andei, meus saltos estalando no pavimento molhado, tremendo violentamente enquanto me dirigia às enormes portas de carvalho da frente.
A porta se abriu antes mesmo que meu punho pudesse tocar a madeira.
Lucas estava lá. Ele parecia impecável. Sua camisa branca estava engomada, desabotoada no colarinho para revelar a pele bronzeada de sua garganta, seu cabelo escuro perfeitamente penteado. Ele segurava um copo de uísque em uma mão e me olhava com uma expressão que não era ódio, mas algo muito pior.
Indiferença.
"Você está atrasada", disse ele, virando as costas para mim e entrando no calor do hall de entrada.
Eu o segui, pingando água no chão de mármore impecável. Meus dentes batiam tanto que não consegui formar palavras imediatamente. Eu precisava de uma toalha. Precisava de calor. Precisava que ele olhasse para mim e visse a mulher que havia limpado seus erros táticos imprudentes por onze anos.
"Lucas", consegui sussurrar. "Foi a tempestade. As estradas estavam alagadas."
Ele não me ofereceu uma toalha. Não me ofereceu uma bebida. Ele se sentou no sofá de veludo e girou seu uísque.
"Preciso do livro-caixa, Helena", disse ele, sua voz suave e distante. "A contabilidade forense para a fusão com as Tríades. Preciso que você entregue os códigos de acesso e o relatório final para a Sofia."
O frio em meus ossos de repente pareceu insignificante em comparação com o gelo em meu peito.
Sofia. A filha biológica dos Ramalho. A garota que fora sequestrada ao nascer e retornara há seis meses. A Criança de Ouro que não fazia nada além de chorar e quebrar coisas, mas era tratada como porcelana.
"Aquele livro-caixa é meu trabalho", eu disse, minha voz tremendo. "Levei seis meses para construir o algoritmo. A Sofia não sabe ler um balanço, muito menos esconder um rastro de transações do FBI."
Lucas finalmente olhou para mim. Seus olhos estavam escuros, desprovidos do calor que costumavam ter quando éramos crianças.
"A Sofia precisa dessa vitória, Helena. Ela precisa do prestígio para ser aceita pelo Conselho. As famílias precisam vê-la como capaz."
"Mas ela não é capaz", argumentei, aproximando-me, deixando uma poça de água da chuva em seu tapete caro. "Se ela estragar a criptografia, a Polícia Federal terá uma linha direta para as contas offshore do seu pai."
"Ela não vai estragar porque você vai guiá-la das sombras", disse Lucas, tomando um gole de sua bebida. "Você é forte, Helena. Você é uma sobrevivente. Você não precisa da glória. A Sofia é frágil. Ela já sofreu o suficiente."
Eu o encarei. Eu havia sofrido por onze anos em uma família que me tratava como uma calculadora com batimentos cardíacos. Eu havia levado tiros - metafóricos e literais - por este homem.
"Você está me pedindo para entregar minha carreira a ela", eu disse.
"Estou te dizendo para fazer o que é melhor para a Família", ele corrigiu, seu tom endurecendo. "Não seja egoísta. Fica feio."
Egoísta. A palavra me atingiu como um tapa.
Olhei para o anel de noivado em meu dedo, um diamante modesto que parecia mais pesado a cada segundo. Percebi então que Lucas não me amava. Ele amava minha utilidade. Ele amava que eu era uma ferramenta que nunca reclamava, uma arma que nunca falhava.
"Tudo bem", sussurrei.
"Bom", disse ele, levantando-se. Ele passou por mim, o cheiro de seu perfume caro se misturando com o cheiro de chuva na minha pele. "Vá se limpar. Você parece um rato afogado. Vamos para a Costa Verde no próximo fim de semana."
Meu coração deu um pulo. Uma viagem? Só nós dois?
"Faça as malas para três", ele acrescentou por cima do ombro. "A Sofia nunca viu o mar. Eu prometi que a levaria."
Ele subiu as escadas, me deixando tremendo no hall de entrada.
Fui para o banheiro de hóspedes, ligando o chuveiro tão quente que o vapor encheu o quarto instantaneamente. Entrei debaixo do jato, sem me importar enquanto a água escaldante deixava minha pele congelada vermelha viva. Esfreguei meus braços até ficarem em carne viva, tentando lavar a chuva, a humilhação e o cheiro persistente de sua indiferença.
Saí, me envolvendo em um roupão, meu corpo queimando de febre. Minha cabeça latejava. Desabei na cama de hóspedes, encolhendo-me em uma bola.
Uma hora depois, meu telefone vibrou. Era o Lucas.
*A Sofia está tendo um ataque de pânico. Estou indo para o apartamento dela. Não me espere.*
Ele estava na mesma casa que eu. Eu estava queimando com uma febre que ele havia causado. E ainda assim, ele estava saindo para confortar uma garota que provavelmente estava fingindo para chamar a atenção.
Ouvi o motor de seu carro rugir e desaparecer na distância.
Fiquei deitada no escuro, o calor da febre distorcendo meus pensamentos. Peguei meu telefone, meus dedos tremendo. Não liguei para o Lucas. Não liguei para meus pais adotivos.
Disquei um número que havia memorizado de um arquivo criptografado que descobrira anos atrás. Um número que pertencia ao Sindicato mais poderoso do Sul.
A família Moretti.
O telefone tocou uma vez.
"Esta é uma linha segura", uma voz profunda atendeu. "Identifique-se."
"Aqui é o Ativo 724", murmurei, minha garganta em chamas. "Ou... Helena. Estou pronta."
"Pronta para quê?", a voz perguntou, afiada e alerta.
"Extração", sussurrei, fechando os olhos enquanto uma lágrima escorria. "Estou pronta para voltar para casa."
As luzes fluorescentes da clínica particular zumbiam com um som que se enterrava fundo no meu crânio.
Eu tinha dirigido até aqui às três da manhã, minhas mãos tremendo no volante enquanto minha temperatura atingia 40 graus. Minha visão ficou embaçada na rodovia, a estrada escorregadia com a chuva, mas eu consegui. Eu sempre conseguia. Essa era a minha maldição.
Eu era competente demais para morrer, e insignificante demais para ser salva.
Agora, eu estava deitada em uma sala de recuperação VIP, um gotejamento de soro solitário contando os segundos da minha vida em gotas claras e salinas. Ninguém estava sentado na cadeira ao lado da minha cama. Nenhuma flor na mesa. Apenas o cheiro estéril de antisséptico e a dor latejante em minhas articulações.
Eu precisava de água. O botão da enfermeira estava fora de alcance, e meu corpo parecia chumbo. Rangendo os dentes, me levantei, arrastando o suporte do soro comigo enquanto me arrastava em direção à porta.
O corredor estava silencioso, ladeado por suítes de luxo para os soldados feridos do submundo. Então, ouvi uma voz familiar vindo de um quarto duas portas adiante.
"Abre a boquinha, passarinho. Só mais uma colher."
Eu congelei. Era o Lucas. Sua voz era terna, um barítono suave que eu não ouvia direcionado a mim há anos.
Eu não deveria ter olhado. Deveria ter continuado andando até o bebedouro. Mas eu era uma masoquista pela verdade. Tremendo, espiei pela fresta da porta.
Sofia estava sentada na cama, parecendo radiante apesar da camisola do hospital. Ela tinha um pequeno curativo no dedo - um corte de papel, talvez. Lucas sentava na beirada da cama, segurando uma tigela de sopa, soprando uma colherada antes de levá-la aos lábios dela.
Ele a olhava como se ela fosse feita de vidro soprado - preciosa, frágil e a única coisa que importava.
"Não consigo, Lucas", ela choramingou, virando a cabeça. "Dói."
"É só ansiedade, querida", ele acalmou, afastando uma mecha de cabelo do rosto dela. "Eu estou aqui. Não vou a lugar nenhum. Passei a noite inteira guardando sua porta."
Minha mão apertou o suporte do soro até meus nós dos dedos ficarem brancos. Ele me deixou queimando de febre para vigiar uma garota que estava saudável o suficiente para manipulá-lo.
"E a Helena?", Sofia perguntou, seus olhos se voltando para a porta como se sentisse minha presença. "Ela não está doente?"
Lucas suspirou, pousando a colher. "A Helena está bem. Ela é forte. Ela não tem o direito de se importar que eu te priorize agora. Você é quem precisa de proteção."
O som do meu coração se partindo foi silencioso, mas pareceu um tiro no corredor quieto.
Virei para sair, minhas pernas tremendo, e colidi com uma parede.
Dante Ramalho. Meu irmão adotivo. O Executor da família.
Ele olhou para mim com um sorriso de escárnio, observando meu rosto pálido e o suporte do soro.
"Espionando, Helena?", ele cuspiu, sua voz baixa e perigosa. "Deus, como você é patética."
"Estou doente, Dante", sussurrei, apoiando-me na parede para me sustentar. "Eu só queria água."
"Não minta para mim", ele sibilou, invadindo meu espaço pessoal. "Você está com ciúmes. Não suporta que a Sofia seja a verdadeira princesa e você seja apenas a vira-lata que pegamos para equilibrar as contas."
"Ele é meu noivo", eu disse, embora a palavra tivesse gosto de cinzas na minha boca.
"Por enquanto", disse Dante, cruzando os braços. "Você não tem vergonha, não é? Você roubou a vida da Sofia por onze anos. Você morou no quarto dela. Você usou as roupas dela. Você gastou a herança que deveria ser dela. E agora você inveja um pouco de conforto para ela?"
"Eu conquistei meu lugar", contestei, minha voz ganhando uma fração de força. "Eu lavei o dinheiro de vocês. Eu mantive vocês fora da prisão."
"Você fez o que foi mandada!", ele latiu, fazendo uma enfermeira no corredor olhar para cima. "Você era um tapa-buraco, Helena. Nós te mantivemos porque pegava mal para o Conselho jogar uma órfã de volta na rua. Mas a Sofia está de volta agora."
Ele se inclinou, seu hálito cheirando a tabaco velho e perfume caro.
"Faça um favor à família: termine o noivado. Deixe a Sofia ter seu lugar de direito. Ela o ama, e ele claramente a prefere. Pare de se agarrar a um homem que só te mantém por perto porque você é boa em matemática."
Minha visão turvou. A crueldade não estava apenas em suas palavras; estava na maneira casual como ele as proferiu, como se minha destruição fosse apenas mais uma tarefa em sua lista de afazeres.
Eu não respondi. Não conseguia. Virei-me e me arrastei de volta para o meu quarto, as rodas do suporte do soro rangendo contra o linóleo.
Subi de volta na cama fria e encarei o teto.
Dante estava certo sobre uma coisa. Eu era um tapa-buraco. Mas ele estava errado sobre o resto. Eu não estava mais me agarrando.
Eu estava deixando ir.
Três dias depois, voltei para a mansão dos Ramalho.
A mansão estava silenciosa, um mausoléu construído de mármore e ouro. Caminhei pelo grande salão, meus passos ecoando contra a pedra fria. Eu ainda estava fraca, meu corpo lutando para se recuperar da infecção, mas não tinha para onde ir. Ainda não.
Precisando de ar, fui para o quintal, atraída pelo som rítmico de água espirrando.
A piscina era uma monstruosidade de tamanho olímpico de azulejos turquesa, aquecida a perfeitos 26 graus. Tinha sido construída para mim quando eu tinha doze anos, na época em que o médico disse que nadar ajudaria minha asma.
Sofia estava lá.
Ela estava relaxando em uma espreguiçadeira, vestida com um biquíni branco que provavelmente custava mais do que o carro da maioria das pessoas. Ela me viu e sorriu - uma expressão afiada e predatória que não alcançou seus olhos.
"Olha só quem voltou", ela chamou, tomando um coquetel laranja brilhante. "A contadora."
Eu a ignorei, virando nos calcanhares para voltar para dentro.
"Espere!", ela gritou, levantando-se abruptamente. Ela ergueu um cartão-chave. "O Lucas me deu a chave do seu escritório. Ele disse que agora sou a Contadora Chefe. Aliás, ele dormiu no meu apartamento ontem à noite. Disse que eu tenho pesadelos, então ele teve que ficar."
Eu parei. Não me virei.
"Fique com a chave, Sofia. Você vai precisar dela quando a Receita Federal auditar as empresas de fachada."
Ouvi seus passos estalarem no concreto atrás de mim.
"Você se acha tão esperta", ela sibilou. "Mas você é só uma ladra. Esta piscina? É minha agora. Tudo aqui é meu."
Virei-me para encará-la. Ela estava perigosamente perto da borda da parte funda.
"Então aproveite", eu disse secamente.
De repente, Sofia soltou um grito agudo. Ela arranhou o próprio braço com as unhas, deixando três marcas vermelhas e raivosas, e se jogou para trás.
Ela atingiu a água com um enorme respingo.
"Socorro! Ela tentou me matar!", ela gritou, debatendo-se na água como se não soubesse nadar.
As portas do pátio se abriram instantaneamente. Franco e Maria Ramalho - meus pais adotivos - saíram correndo, seguidos por Lucas.
"Sofia!", Maria gritou, correndo para a beirada.
"Ela me empurrou!", Sofia lamentou, tossindo água. "A Helena me empurrou!"
Franco Ramalho não fez uma pergunta. Ele nem mesmo olhou para mim. Ele avançou como um touro.
Antes que eu pudesse falar, antes que eu pudesse levantar as mãos, a bota pesada de Franco bateu no meu peito.
O ar saiu dos meus pulmões em um silvo doloroso. Voei para trás, caindo na parte funda da piscina.
A água me engoliu. Afundei, o choque frio atordoando meu sistema. Eu não nadava bem - minha asma nunca tinha realmente desaparecido - e o pesado casaco de lã que eu usava me arrastava para baixo como uma âncora.
Debati-me, lutando pela superfície. Rompi a água, ofegante.
"Pai!", engasguei. "Eu não..."
"Mentirosa!", Maria gritou do deck. "Olhe para o braço dela! Sua pirralha cruel!"
Franco ficou na beirada, me observando lutar. "Você quer afogar minha filha? Então vai ver como é."
Afundei de novo. Meus pulmões ardiam. Chutei, lutando contra o peso esmagador das minhas roupas.
De repente, um respingo. Braços fortes envolveram minha cintura. Lucas.
Ele me puxou para a superfície e me arrastou em direção às escadas. Eu tossi, vomitando água clorada, agarrando-me a ele. Por um segundo, pensei que ele tinha me salvado porque se importava.
Ele me jogou no concreto e me soltou imediatamente. Minha cabeça bateu no azulejo duro com um baque doentio.
"Você está louca?", Lucas gritou, de pé sobre mim, água pingando de seu terno. "Olha o que você fez com ela!"
Fiquei ali, ofegante, olhando para eles. Sofia estava enrolada em uma toalha nos braços de Maria, chorando lágrimas falsas. Franco me olhava com puro ódio. E Lucas... Lucas parecia enojado.
"Eu não toquei nela", sussurrei, minha voz quebrada.
"Pare de mentir!", Lucas rugiu. "Você é incorrigível, Helena. Sempre causando drama. Sempre a machucando porque você tem ciúmes."
Ele caminhou até Sofia e passou o braço em volta dos ombros dela, puxando-a para perto.
"Toque nela de novo, Helena", disse Lucas, sua voz baixando para uma calma letal. "Toque nela de novo, e eu vou esquecer quem você é. Vou esquecer os últimos onze anos."
Ele virou as costas para mim.
"Vamos, Sofia. Vamos te levar para dentro."
Eles se afastaram, me deixando tossindo água no concreto frio, tremendo enquanto o sol começava a se pôr.