O cheiro de terra molhada era a primeira coisa que ela sentia. Não vinha de um lugar específico, mas parecia subir do chão, das raízes, das sombras. A floresta era densa, escura, árvores altas se inclinavam como testemunhas silenciosas enquanto Kaya corria, sentindo os pés afundarem na lama fria enquanto galhos rasgavam sua pele, mas ainda assim ela não diminuía o ritmo. Não podia. O som vinha de trás, passos pesados, firmes, não humanos.
O ar vibrava com um rosnado grave, profundo, que fazia seus ossos tremerem e parecia se aproximar cada vez mais rápido.
- Não... - sua voz saiu fraca, engolida pelo vento.
- Socorro! Alguém me ajuda!
Ela não olhava para trás, sabia o que encontraria se fizesse isso. Sabia desde o início do sonho, desde o momento em que seus pulmões começaram a queimar e o medo se alojou em seu peito como algo impossível de se ignorar, familiar demais para ser apenas imaginação. Parecia real, uma premonição talvez.
A floresta parecia se fechar ao redor dela, as árvores se aproximavam, os troncos retorcidos formavam caminhos impossíveis, enquanto a lua grande e brilhante cheia, observava tudo de cima, indiferente, como se pouco se importasse com o terror que a garota vivia. O lobo uivou, e o som atravessou seu corpo como uma conexão. Kaya tropeçou e caiu de joelhos, com a lama grudando em suas mãos, fria e viscosa.
O coração batia tão forte que parecia querer saltar de seu peito, ela tentou se levantar, mas era tarde demais. O lobo saltou. Ela sentiu o impacto antes de ver, sentiu o peso esmagador, o calor da respiração próxima ao seu pescoço, o cheiro forte de sangue e selvageria e, quando finalmente ergueu os olhos, encontrou os dele. Olhos dourados. Profundos. Não havia raiva ali, nem ameaça. Apenas conexão.
Os dentes se aproximaram, brancos demais, afiados demais... e então os olhos dela se abriram para a claridade do dia. O ônibus deu um solavanco no exato momento em que seus olhos se abriram, e seu corpo estava tenso, com os dedos cravados no tecido da poltrona e o coração disparado como se ainda estivesse correndo pela floresta. Demorou alguns segundos para perceber onde estava.
Não havia árvores. Nem lua. Nem lobo. Apenas o interior abafado de um ônibus de viagem, o zumbido constante do motor e o cheiro misturado dos passageiros, o perfume barato, salgadinho e cigarro.
Pela janela, ela via o trânsito passando enquanto as primeiras casas começavam a surgir. Respirou fundo, passando a mão pelo rosto pálido, ainda sentindo o gosto amargo impregnado na boca, como se o sonho tivesse deixado um resíduo físico.
- Droga... - falou para si mesma, antes de olhar novamente pela janela e suspirar.
A placa surgiu à margem da estrada, grande e enferrujada, cercada de vegetação:
"Bem-vindo a São Veridiano."
Depois de horas, haviam chegado, a cidade nova. Era um recomeço forçado. O lugar onde nada de bom, segundo seu instinto, poderia acontecer. Kaya observou enquanto o ônibus diminuía a velocidade, entrando pela estrada principal, e as construções surgiam aos poucos: sítios, casas antigas, fachadas desbotadas. Tudo parecia parado no tempo, como se a cidade estivesse esperando por algo. Ou alguém. Era uma cidade pequena e feia, insossa.
Um arrepio percorreu sua pele e a deixou arrepiada, ao passar por um posto de combustível e ver um grupo de jovens, aparentemente ricos, com motos de trilhas e carros de luxo.
- Acordou, bela adormecida?
O chute veio logo em seguida, forte o suficiente para balançar sua poltrona. Kaya fechou os olhos por um instante, respirando fundo, enquanto atrás dela Nilufer se remexia no assento, claramente satisfeita com a provocação. Ela era sua irmã caçula, uma verdadeira pentelha.
Mesmo sem olhar, Kaya conseguia imaginá-la perfeitamente: postura impecável, roupas delicadas, acessórios meigos, cabelo preso de forma elegante, tudo para impressionar as pessoas da cidade nova. Ela era a filha perfeita. A irmã boazinha. O oposto dela.
- Vai começar cedo hoje? - respondeu com a voz baixa, controlada demais para alguém que queria virar e socar a cara da irmã.
Nilufer riu, um som curto e irritante.
- Só achei engraçado você babando enquanto dormia. Combina com esse visual depressivo. Eu te disse, deveria ter vindo, mais arrumada.
Kaya esfregou os olhos devagar. Pensou em se virar, pensou em dizer algo cruel, algo que realmente machucasse, porque ela tinha um talento natural para isso, palavras eram chamas em sua boca, sempre prontas para queimar onde mais doía. Mas o gosto ruim voltou com força, amargando sua boca como carne crua pingando sangue. Não valia a pena. Nunca valia, pois a mãe delas, tinha uma filha preferida e não era Kaya.
Ela apenas esticou a mão, pegou os fones de ouvido e os encaixou, isolando o mundo externo. A música começou a tocar, Lana Del Rey, era pesado, melancólico, com batidas profundas que vibravam em seu peito. Seu refúgio era sempre, se isolar. Olhou novamente para a cidade. São Veridiano se revelava pouco a pouco, pessoas caminhavam pelas calçadas, algumas paravam para observar o ônibus passar e havia curiosidade nos olhares. E algo mais. Algo que ela não gostou: Expectativa.
"Ótimo", pensou. "Uma cidade pequena, o paraíso do julgamento alheio. Não tinha um buraco melhor para minha mãe me enfiar?"
Kaya passou os dedos pelos próprios braços, sentindo as mangas pretas cobrindo sua pele pálida, enquanto correntes discretas pendiam do pescoço e anéis diversos adornavam seus dedos. Seu estilo não era um pedido de atenção, estava mais para uma armadura, gostava de afastar as pessoas para que elas não enchessem seu saco com coisas que não valiam a pena.
Ela nunca tentou se encaixar, e nunca foi perdoada por isso.
Sua mãe odiava aquele seu jeito de ser e sempre quis que ela fosse mais como Nilufer, e pensar nisso fez ela soltar um risinho amargo, mesmo sem querer. A mente voltou, involuntariamente, ao sonho. Ela visualizava o lobo, perfeitamente. A forma como ele a perseguiu, não com pressa, mas como quem sabia exatamente o que estava fazendo. Como se soubesse exatamente onde ela estaria e como se não importasse o quanto ela corresse, porque ele sempre a alcançaria.
O ônibus parou com um chiado alto. As portas se abriram.
- Chegamos. - anunciou a mãe delas, sem entusiasmo.
Kaya engoliu em seco. Algo dentro dela se contraiu, um pressentimento pesado, quase físico, como se o ar estivesse mais denso ali fora. Ela não acreditava em destino, muito menos em sinais. Mas acreditava em instinto. E o dela gritava, que algo ia acontecer.
Enquanto se levantava, sentiu o olhar de Nilufer em suas costas, e não precisou virar para saber que a irmã carregava aquele sorriso contido, satisfeito. Nilufer adorava mudanças, novas chances, novas plateias para seu teatro de perfeição. Para Kaya, aquilo era apenas mais um exílio. Ela desceu do ônibus, o vento da cidade bateu contra seu rosto, trazendo consigo o mesmo cheiro de terra úmida do sonho.
Seu estômago revirou.
- Não é possível... - sussurrou.
São Veridiano parecia silenciosa demais, sombria mesmo à luz do dia, misteriosa demais e, de alguma forma, lhe lembrava da floresta, do lobo, do sonho... Um arrepio subiu por seu corpo, fazendo-a encolher os ombros enquanto ela erguia o olhar, observando as ruas, os guiches e as sombras longas projetadas pela luz do sol.
Teve a sensação absurda de estar sendo observada, não por pessoas, mas por algo escondido entre a vegetação, entre as árvores ... Ela colocou as mãos nos bolsos da blusa de moletom, com os dedos tremendo levemente. Algo estava errado. Algo estava prestes a mudar. E Kaya teve certeza de uma coisa:
Aquele sonho não era apenas um sonho...
O padrasto de Kaya e pai de Nilufer, foi buscá-las, elas estavam com a mãe, guardaram as malas e entraram no carro.
Logo a casa surgiu no final da rua como uma promessa na qual Kaya não acreditava. Era grande demais para parecer acolhedora e antiga demais para ser chamada de nova. A pintura clara tentava disfarçar as rachaduras sutis nas paredes externas, e o jardim, embora aparado, tinha algo de abandonado, como se tivesse sido cuidado apenas para impressionar e receber eles.
Nilufer praticamente saltou do carro assim que o motor foi desligado.
- É perfeita! - disse, com os olhos brilhando como se tivesse acabado de ganhar exatamente o que sempre quis.
- Vocês viram isso? Parece aquelas casas de filme! Mãe, eu vou amar, viver onde você cresceu.
Kaya permaneceu sentada por alguns segundos a mais, observando tudo pela janela, com a sensação estranha da cidade ainda grudando nela como umidade, com o mesmo silêncio pesado e o mesmo cheiro distante de terra molhada.
- Parece um mausoléu. - murmurou, antes de finalmente abrir a porta.
Nilufer fez uma careta, mas ignorou o comentário, enquanto os pais começavam a descarregar as coisas do porta-malas. A mãe estava visivelmente cansada da viagem e tentava manter o controle, enquanto o padrasto já assumia aquele ar autoritário que vestia como uma segunda pele. Ele olhou para o final da rua.
- Vamos logo, não quero nada largado na calçada. Quero causar, boa impressão. - disse, sem olhar para ninguém em específico, mas Kaya sabia que aquela frase nunca era realmente para Nilufer.
Dentro da casa, o cheiro de ambiente fechado era ruim, Callum havia chegado dois dias antes e mesmo tentando, a casa ainda não estava em ordem. Kaya se sentiu enojada, cheirava madeira antiga, poeira, algo metálico no ar. As portas e janelas, rangiam, as torneiras tinham gotejamento.
- Eu fico com esse quarto! - Nilufer anunciou, pegando o maior, sem esperar resposta.
- Nilufer! Calma. - a mãe chamou, mas já era tarde.
Kaya suspirou, pegando duas caixas marcadas com seu nome e foi indo ver o outro, sem pressa, sentindo cada passo pesar como se carregasse algo além do próprio corpo.
O quarto que lhe coube ficava no final do corredor. Era menor que o da irmã, como sempre, mas tinha uma janela grande que dava para os fundos da casa, onde o fim do quintal se misturava com árvores altas demais para um bairro residencial.
- Ótimo - falou pensativa.
- Pelo menos não vou ouvir tanto a voz dela. E vou ter boa iluminação, para desenhar.
Fechou a porta com o pé e começou a empilhar as caixas sem qualquer cuidado, sem vontade nenhuma de organizar nada, porque cada objeto parecia carregar memórias que preferia deixar enterradas. Os últimos anos, haviam sido o auge, do sofrimento e conflito interno.
Ela havia deixado a vida e os poucos passa tempos que tinha, poucos mesmo, para trás sem nem ter a opção de recusar, e ainda era julgada por se entristecer com isso. Desempacotou apenas algumas poucas coisas: roupas pretas, cadernos de desenhos, lápis coloridos, bijuterias, roupas de correr, e um espelho pequeno, rachado em um dos cantos. Foi então que ouviu a porta abrir com força.
- O que é isso, Kaya? De novo, você com essa porcaria.
A voz da mãe veio dura, tensa. Yesenia era uma mulher normalmente doce, mas com Kaya parecia que as coisas nunca eram doces nem fáceis, tudo era pesado demais, irritante demais, porque as duas nunca se deram bem como ela e Nilufer se davam. Kaya se virou lentamente.
Ela estava parada no meio do quarto, segurando um maço de cigarros amassado entre os dedos, como se fosse uma prova de crime.
- Onde você achou isso? - Kaya perguntou, já sentindo o estômago se revirar.
- Numa das suas caixas! - a mãe respondeu, erguendo o objeto.
- Você tem ideia do que isso significa? O que pensa que está fazendo? Você prometeu.
- Significa que são meus. - Kaya tentou pegar.
O silêncio que se seguiu foi rude.
- Você está na minha casa - a mãe disse, com a voz tremendo entre raiva e frustração.
- Não vou tolerar esse tipo de coisa! Já te disse isso várias e várias vezes, vai se arrepender, de não me respeitar
- Não é droga, mãe. É só um cigarro. Seu marido vive bêbado e você não diz nada.
- Não interessa! - respondeu Yesenia possessa.
- Você não aprende nunca? Sempre querendo chamar atenção!
Kaya riu, sem humor.
- Engraçado você dizer isso agora...
Yesenia abriu a boca para responder, mas Callum apareceu na porta antes que ela pudesse.
- Qual é o problema aqui? Ela já quer estragar, nosso dia?
- O problema - respondeu, sem tirar os olhos de Kaya.
- É que sua enteada continua sendo um péssimo exemplo. Irresponsável. Mentirosa.
Ele entrou no quarto, cruzando os braços.
- Eu já disse isso antes - começou, com aquele tom condescendente que Kaya odiava.
- Você podia muito bem se espelhar na sua irmã. Olha a Nilufer. Educada. Apresentável. Não anda por aí parecendo...
Ele fez um gesto vago com a mão, apontando para as roupas dela.
- Isso.
Kaya sentiu algo estalar dentro de si. E o enfrentou como nunca fazia.
- Termina a frase - disse, avançando um passo.
- Parecendo o quê?
- Parecendo uma qualquer, uma pu.ta, que vai ficar mal falada de novo, na cidade toda. - ele respondeu.
- Essa roupa, essa postura... você envergonha sua mãe. A mim.
- Já chega, Callum... - Yesenia tentou intervir, mas já era tarde.
- E ainda fuma, se droga escondida. - ele continuou.
- Você acha isso bonito? Acha que alguém vai te respeitar assim? Por isso, era tão mal falada.
Kaya sentiu o rosto queimar.
- Você não sabe nada sobre mim. Devia se preocupar mais, com a sua filha.
- Sei o suficiente - ele retrucou.
- Sei que você só dá trabalho, que nunca agradece nada. Que...
- Você não é meu pai! Não tem o direito de ficar falando essas mer.das pra mim, por.ra! - Kaya gritou.
- Um dia, vou sair e nunca mais voltar.
A frase ecoou pelo quarto como um soar de guerra. Callum ficou imóvel por um segundo e Yesenia empalideceu.
- Não fala assim com ele! Ele não é seu pai, mas é quem te cria e me ajuda a te sustentar, tem que respeitar ele, Kaya! - disse, dando um passo à frente.
- Não seja ingrata.
- Eu não devo respeito a quem nunca me respeitou! - Kaya respondeu, com a voz embargada.
- Você deixa ele falar comigo desse jeito e espera o quê? Que eu sorria? Ele nem gosta, de você, sua corna.
O tapa veio rápido e o som seco ecoou no quarto. Kaya sentiu o impacto antes da dor, sua cabeça virou de lado, e o gosto metálico se espalhou pela boca enquanto o quarto parecia girar por um instante.
- Aqui você vai aprender a respeitar - Yesenia disse, com a voz fria demais.
- Não importa o que você ache. Enquanto depender de nós, vai obedecer.
Do corredor, Nilufer assistia a tudo encostada na parede, com os braços cruzados, incomodada. Não disse uma palavra. Não precisava. Aquilo foi o que mais doeu.
- Saiam - Kaya disse, com a voz baixa.
- O quê? - Callum perguntou.
- Saiam do meu quarto. - Ela disse segurando a porta.
- Não ouse... - A mãe dela falou, segurando a porta.
- SAIAM! - ela gritou.
Por um segundo pareceu que ele iria a agredir, mas a esposa o puxou pelo braço.
- Chega por hoje - disse.
- Você está de castigo. Sem sair de casa, Kaya. Entendeu?
Kaya não respondeu, apenas bateu a porta com força, girou a chave e apoiou a testa na madeira, respirando com dificuldade enquanto as mãos tremiam e o rosto ardia onde havia sido atingida. O silêncio voltou, mas agora era sufocante.
Ela se virou de repente e chutou a primeira caixa que viu pela frente. Depois outra. Seus cadernos caíram no chão, roupas se espalharam, e ela empurrou tudo, jogando objetos contra a parede, com o som dos impactos ecoando como gritos que não conseguia mais conter.
- Eu odeio essa vida... - sussurrou, sentando no chão nervosa, sentindo mais raiva, que o normal.
O peito doía, foi então que seus olhos encontraram a janela. A cortina leve balançava com o vento e, do lado de fora, as árvores se moviam lentamente, sombras se alongando conforme o céu escurecia. Pensou na liberdade, que tanto almejava. A ideia surgiu clara, simples.
Kaya se levantou, limpando o rosto com a manga da blusa, trocou de roupa, então abriu a janela e o ar frio do fim de tarde, entrou no quarto, trazendo novamente aquele cheiro familiar. Ela olhou para trás uma última vez. A casa não parecia um lar. Parecia uma prisão. E Kaya não tinha a menor intenção de ficar, caso realmente fosse expulsa.
Era fim de semana, a boate pulsava como um coração fora de controle. Luzes vermelhas e azuis cortavam a escuridão como raios, refletindo em corpos suados, copos erguidos e olhares famintos. O som grave da música eletrônica fazia o chão vibrar, entrando pelos ossos e anestesiando o resto. Ali dentro ninguém queria pensar, ninguém queria se conter, era só carne, desejo e distração.
Zarick estava encostado no balcão, com um copo de uísque na mão e um meio sorriso cínico nos lábios. Camisa preta com os primeiros botões abertos, colar de ouro à mostra, olhar de predador relaxado. O cabelo bagunçado do jeito que ele sabia que funcionava, barba por fazer, expressão de quem não precisava se esforçar para ser notado. Ele não pertencia à noite. A boate pertencia a ele.
- Você tem uma cara péssima pra alguém que tá rodeado de mulher gostosa. - disse Donavan, chegando com dois copos.
- Cara péssima é meu charme. - Zarick respondeu, brindando.
- Tem mulher que adora um problema.
Donavan riu alto, claramente já alto demais.
- Isso explica por que você vive cercado, de bruxas.
Zarick bebeu sem pressa, a língua passando lentamente pelo lábio inferior enquanto seus olhos se fixavam em uma loira de vestido curto amarelo no centro da pista. Ela dançava como se soubesse exatamente quem estava observando. Os quadris se moviam com uma provocação descarada, o vestido subindo um pouco mais a cada batida, as mãos subindo pelo próprio corpo, pelos se.ios, pelo pescoço, pelo cabelo.
Monaylle era uma bruxa que foi um dia, perdidamente louca por ele, ela o olhou, sustentou o olhar e sorriu.
Zarick não precisou fazer absolutamente nada, os dois estavam distantes a um tempo, mas aquilo estava para mudar.
Ela veio até ele. Sem pedir permissão, passou os braços ao redor do pescoço dele e colou o corpo ao seu, peito contra peito, a coxa pressionando entre as pernas dele como se já soubesse exatamente o efeito que causaria.
- Dança comigo? Rick? - sussurrou no ouvido dele, com a boca quente demais e a respiração lenta, proposital.
Zarick inclinou a cabeça, com os lábios roçando a orelha dela antes de mordê-la de leve.
- Eu prefiro pular as preliminares, hoje. - respondeu, com a voz baixa, debochada, suja.
Ela riu, um riso curto e exc.itado, e o puxou para a pista. Os corpos se encaixaram imediatamente, sem espaço, sem vergonha. Zarick segurou a cintura dela com firmeza, puxando-a mais contra si enquanto seu corpo acompanhava cada movimento. A música vibrava forte, lenta, pesada, como um convite perigoso para a luxúria. Algo que os lobos, como ele, adoravam.
As mãos dele desceram pelas costas dela sem pressa, apertando com firmeza, sentindo a reação imediata do corpo quente. A boca encontrou a dela no meio da batida, um beijo faminto, língua contra língua, a respiração ficou misturada.
- Cês não perdem tempo mesmo. - Donavan comentou ao passar com uma morena, que era como os dois.
Zarick nem ouviu, Monaylle pressionou a coxa com mais força entre as pernas dele, provocando de propósito, sentindo a resposta imediata. Ele gem. eu baixo, puxando-a pela nuca, até os dois irem parar escorados em uma parede lateral. Zarick a prensou ali sem delicadeza, dominando o corpo dela enquanto a boca descia pelo pescoço, mordendo, sugando, marcando, as mãos entrando por baixo do vestido, subindo pelas coxas até tocar a calcinha, ele a sentiu molhada.
- P.orra...que saudades. - ela arfou, jogando a cabeça para trás.
- Vai continuar provocando assim, ou matar as saudades no meu chalé? - ele falou com deboche.
- Vai fazer o que tá querendo desde que me olhou hoje?
- Me leva pro banheiro. - ela respondeu, ofegante, apertando o braço dele.
Zarick sorriu, satisfeito, como o predador que era, um cafajeste. Mas antes que pudesse puxá-la, uma bruxa ruiva surgiu do nada. Com os olhos carregados de delineador, boca vermelha, vestido justo colado ao corpo.
- Esqueci que você não era de dividir, Zarick. - a ruiva disse, puxando Zarick pelo colarinho e beijando sua boca sem pedir permissão.
- Quem disse que nós, somos ciumentos amiga? - Monaylle respondeu, excitada.
Zarick riu, aquele som ousado e perigoso.
- Melhor ainda. - disse, passando um braço firme por cada uma.
Ele levou as duas para a área mais escura da boate, quase escondida, onde corpos se misturavam sem perguntas. Sentou no sofá do fundo e deixou que elas viessem até ele, uma em cada perna. Beijos trocados, bocas famintas, línguas explorando, mãos ousadas por baixo do tecido. O cheiro de perfume, álcool e t.esão dominava o ar.
Monaylle sentou no colo dele, rebolando devagar, sentindo claramente a reação dele. Zarick ge.meu baixo, puxando o cabelo dela enquanto a ruiva beijava o pescoço, descendo pelos botões abertos, abrindo o resto da camisa com pressa.
- Você é um problema. - Monaylle murmurou.
- Dissemos que não iríamos mais ficar, foi uma promessa.
- Eu avisei, você não resiste. - ele respondeu, com a voz carregada de desejo, enfiando a mão dentro da calcinha dela.
Por alguns minutos o mundo que os queria longe, deixou de existir. Só havia desejo, calor, escuridão e perdição. Sem se importar com os clãs, as regras e Zarick vivia assim, andando fora das regras, quando seus pais conservadores não o viam.
- Se a gente continuar assim. - Zarick disse entre beijos.
- Eu vou querer terminar isso em outro lugar.
- Então leva a gente. - Monaylle provocou.
- Vou devorar, uma de cada vez. - ele respondeu, com um sorriso lento e cruel.
Trocaram mais alguns beijos, mãos ousadas... até ele se levantar, ajeitando a camisa, com os olhos no limite, para não mudarem de cor, o corpo ainda quente, acelerado.
- Vou pegar mais bebida. Esperem aqui.
Donavan o encontrou no caminho de volta ao bar. Ele estava com marcas de batom no pescoço, o cabelo bagunçado, o sorriso satisfeito.
- Preciso perguntar o que você tava fazendo? Com as bruxas? - ele zombou.
- Precisa, não. - Zarick respondeu.
- Mas sei que você quer ouvir. Não vou cair nos jogos da Monaylle. Minha mãe vai me apresentar uma menina, que serve pra mim.
- Ela é linda, meiga, inteligente e sagaz. Será a mãe perfeita, para meus lindos lobinhos.
- Filho da p.uta. Vai casar, sem nem conhecer ela? - Donavan ficou intrigado.
- Sempre fui. Segundo a minha mãe, estamos destinados, então eu farei a coisa certa. Honrar minha família. - Zarick disse com deboche.
- Amanhã, devo conhecer minha futura esposa.
Eles beberam enquanto a boate atingia o auge do caos, com corpos cansados e excessos. Zarick ainda sentia o gosto das duas, mas o calor começava a desaparecer, dando lugar ao vazio de sempre. O tipo de vazio que nenhuma cama compartilhada preenchia.
- Vamos andando, amanhã temos jogo. - Donavan disse.
- Se eu dirigir agora, a polícia me leva. Você não cai de bêbado nunca, não é mesmo Rick?
- Com certeza. - Zarick concordou.
- Mas olha, eu tento. Muito.
O frio da madrugada bateu quando saíram. Ele terminava de beber, debochando de ter largado Monaylle querendo mais, estava com as mãos nos bolsos, corpo quente, mente estranhamente vazia. A rua estava fria, o céu começava a clarear, aquele tom azulado de fim de madrugada. Quase ninguém na rua, só silêncio depois da música alta.
- Cara... - Donavan disse.
- Você reparou como essa cidade tem ficado estranha de madrugada? Algo mudou, a minha avó disse, que devo estar atento.
- Estranha como? - Zarick perguntou.
- Como se estivessem observando a gente. Muitas pessoas tem chego, de fora.
Zarick riu despreocupado.
- Você bebeu demais.
- Sempre fala coisas assim e sua avó, não é uma fonte confiável. As histórias que ela contava, pareciam coisa de filmes.
Eles caminharam em silêncio por alguns minutos, até que aconteceu. Uma moça surgiu correndo da esquina rápido demais, distraída demais. Antes que Zarick pudesse reagir, ela esbarrou nele com força.
- Ei! Sai da frente. - exclamou.
A moça perdeu o equilíbrio e caiu no chão.
- Dro.ga... - murmurou derrubando os fones.
Ele se abaixou na hora, com a preocupação substituindo o álcool. Porque o impacto foi forte.
- Você tá bem? - perguntou, estendendo a mão.
Kaya ergueu o rosto, com os olhos um de cada cor diferente, profundos irritados.
- Não foi nada.
E, por um segundo, o mundo desacelerou. Os olhos dela carregavam raiva, cansaço, desafio. O cabelo escuro bagunçado, o rosto pálido, roupas escuras contrastando com a pele clara. Havia algo nela que não combinava com aquela cidade. Nem com aquela hora.
Bonita não era a palavra. Ela era... perfeita e destoante.
- Eu disse que tô bem - respondeu, ignorando a mão e se levantando sozinha.
Zarick ergueu a sobrancelha.
- Calma, a rua é pequena e...
- Não tô afim das suas desculpas - ela retrucou batendo a mão na roupa.
Donavan assistia de longe, se divertindo.
Zarick deu um passo.
- Pelo menos me deixa compensar. Um café, talvez?
Ela o encarou como se decidisse se matava com palavras ou ignorava.
- Até parece. Sai fora. Babaca, você está fedendo a bebida. - Disse mexendo no celular.
- Pode pelo menos dizer seu nome? É nova aqui? - Ele disse rindo.
- Meu nome é "Não é da sua conta".
E passou por ele sem olhar para trás. Zarick ficou parado observando. O jeito decidido de andar, a tensão nos ombros, como se fugisse de algo invisível.
- Uau... - Donavan comentou.
- Levou um fora da turista gata. Isso é novo.
Zarick não respondeu de imediato. Havia algo ali. Ele já tinha visto centenas de mulheres, flertado com todas e esquecido a maioria. Mas ela... Ela não tentou impressionar. Não tentou agradar. Não tentou nada. E isso incomodou.
- Qual o problema? - Donavan perguntou.
Zarick passou a mão pelos cabelos.
- Nenhum. Não sei. Ela...
Ele olhou na direção em que ela sumiu, sentindo uma curiosidade incômoda crescer no peito. Ela não disse o nome. Não sorriu. Não ficou. E, ainda assim, deixou algo para trás.
- Acho que você acabou de encontrar um novo problema. - Donavan riu.
Zarick sorriu de canto.
- Talvez. Viu os olhos dela? O cheiro que veio dela, era tão bom.
Donavan disse que sentiu a tensão dos dois e que ela era só mais uma humana, comum.
E talvez acabado de cruzar com alguém com quem não deveria cruzar. Porque, ele não prestava e ia se casar em breve.
Mesmo sem saber quem ela era, Zarick teve uma certeza estranha, quase irracional: Ela voltaria.
E quando voltasse, nada seria simples.