Quatro anos após o sequestro de Alana Ribeiro, uma rica herdeira, ela milagrosamente voltou para casa, apenas para encontrar seu noivo, Caio Sampaio, e seu irmão, André Ribeiro, completamente enfeitiçados por sua irmã adotiva, Beatriz Campos.
Ela tentou expor a verdade, mas eles descartaram suas alegações como delírios induzidos pelo trauma. Em vez de encontrar conforto, Alana foi esbofeteada, empurrada escada abaixo, falsamente acusada e humilhada.
Sua própria família, as pessoas que ela mais amava, a traíram. Eles ficaram do lado de Beatriz, acreditando em cada mentira dela, e até enviaram Alana de volta para o mesmo complexo de tráfico humano onde ela foi mantida em cativeiro por anos. Lá, ela suportou uma tortura inimaginável mais uma vez.
Por que eles eram tão cegos? Como puderam ser tão facilmente manipulados pela fachada doce de Beatriz? Por que as pessoas que diziam amá-la a puniram por dizer a verdade?
Em sua hora mais sombria, Alana encontrou uma câmera escondida no medalhão de sua mãe. Ela gravou meticulosamente cada ato de traição e cada momento de seu pesadelo renovado. Então, com um ato final e desesperado de desafio, ela incendiou o complexo e saltou de um penhasco, usando sua própria vida como a prova definitiva. Ela os deixou com uma bomba-relógio de verdade, forçando-os a confrontar seus erros monstruosos.
Capítulo 1
A lama estava fria e espessa, grudando na pele de Alana Ribeiro através dos rasgos em seu vestido fino. Quatro anos. Quatro anos sendo um fantasma, uma propriedade trocada no escuro. Agora, a liberdade era uma lufada de ar úmido e terroso e o ritmo frenético e doloroso de seus próprios pés descalços no chão da floresta. Ela não olhou para trás. Não podia.
Ela tropeçou em uma estrada asfaltada assim que o dia amanheceu, fazendo sinal para o primeiro carro que viu. A motorista, uma senhora de rosto gentil, ofegou ao vê-la, mas não hesitou em ajudar.
Na delegacia, as luzes fluorescentes foram um choque depois de anos em quartos escuros. Um policial gentilmente enrolou um cobertor em seus ombros. Ela lhes deu seu nome. Alana Ribeiro. O nome soava estranho em sua língua, uma relíquia de outra vida.
O mundo lá fora explodiu. A notícia de que a herdeira desaparecida dos Ribeiro fora encontrada viva se espalhou como fogo.
Horas depois, a porta da pequena sala de interrogatório se abriu com um estrondo.
"Alana!"
Caio Sampaio, seu noivo, entrou correndo, sua estrutura poderosa preenchendo a porta. Seu terno, geralmente impecável, estava amassado, seu rosto marcado pela exaustão e incredulidade. Logo atrás dele estava seu irmão mais velho, André Ribeiro, seus traços afiados e bonitos, pálidos de choque.
Eles tinham sido o seu mundo. Os dois homens que ela mais amava.
Caio a puxou para um abraço forte, seu corpo tremendo. "Você está viva. Meu Deus, você está viva."
André se ajoelhou diante dela, sua voz embargada de emoção. "Lana, nós nunca paramos de procurar. Nem por um dia."
Lágrimas escorriam pelo rosto de Alana, gotas quentes de alívio. Ela estava segura. Estava em casa. "Eles me levaram", ela sussurrou, sua voz rouca. "Era um complexo, um vilarejo inteiro. Eles traficam pessoas."
Ela estava pronta para contar tudo, para levar os monstros que a mantiveram cativa à justiça. Ela começou a dar os detalhes ao policial, a localização, os nomes que tinha ouvido.
Mas Caio colocou a mão em seu braço, seu aperto firme. "Querida, vá com calma. Vamos tirar você daqui primeiro. Você está segura agora. Podemos lidar com isso em particular."
André assentiu, sua expressão mudando de alívio para uma espécie de preocupação tensa. "Ele está certo, Lana. Você já passou por muita coisa. Deixe nossa equipe cuidar disso. Não precisa envolver... tudo isso." Ele gesticulou vagamente para a delegacia.
Um arrepio gelado de confusão a percorreu. "Não. Eles precisam ser presos. Todos eles."
Naquele momento, uma voz suave veio da porta. "Caio? André? Ela está bem?"
Beatriz Campos estava ali, seus olhos grandes e inocentes, arregalados de preocupação. Ela parecia uma boneca frágil em seu vestido branco simples, as mãos unidas nervosamente. Beatriz, a órfã que a família deles patrocinava, a garota que eles acolheram, que se tornou sua irmã adotiva.
"Estou tão feliz que você voltou, Alana", disse Beatriz, sua voz trêmula. "Estávamos todos tão preocupados."
O som daquela voz doce e melodiosa atingiu Alana como um golpe físico. Uma memória, nítida e brutal, brilhou em sua mente. Um quarto escuro. O clique de uma fechadura pesada. O comentário casual de um guarda.
"Não se preocupe, a irmã do chefe disse para te tratar bem. A Beatriz quer que você seja mantida em boas condições."
A voz no telefone, dando instruções. A voz de Beatriz.
O sangue de Alana gelou. O ar lhe faltou nos pulmões. Sua mão disparou, o dedo tremendo enquanto ela apontava para a garota na porta.
"Foi você."
A sala ficou em silêncio.
"Ela", Alana ofegou, seu corpo tremendo incontrolavelmente. "Eu ouvi a voz dela. Ela... ela foi a mandante."
O rosto de Caio endureceu. A testa de André se franziu em confusão.
"Alana, do que você está falando?" O tom de Caio não era mais gentil. Era ríspido, impaciente.
Os olhos de Beatriz se encheram de lágrimas. Ela se encolheu, parecendo aterrorizada. "Eu não entendo. Alana, o que eu fiz?"
"Você está mentindo!" Alana gritou, o som rasgando sua garganta. "Ela orquestrou tudo! Ela é a mente por trás de tudo!"
"Já chega!" André explodiu, sua voz um estalo de chicote. Ele se levantou, sua postura protetora agora dirigida a Beatriz. "Alana, você passou por um trauma horrível. Você não está pensando com clareza."
"Eu estou lúcida!" ela insistiu, seu desespero aumentando. Ela agarrou um pequeno pedaço de tecido sujo em sua mão - rasgado das roupas de um de seus captores durante sua fuga. "Isso! Isso era de um dos homens. Tem o cheiro deles, a sujeira deles."
Ela estendeu o pedaço, uma prova tangível de seu pesadelo.
André o pegou dela. Sua expressão era de dor, como se olhar para ela lhe causasse desconforto físico. Ele olhou para o tecido, depois para o rosto de Beatriz, manchado de lágrimas. Sem uma palavra, ele caminhou até uma pequena lixeira no canto e jogou o tecido lá dentro.
Alana ficou olhando, seu coração parando. "O que você fez?"
"Vamos retirar a queixa", disse Caio, sua voz fria e sem emoção. Ele se virou para o policial perplexo. "Vamos levá-la para casa. Isso é um assunto de família. Foi um erro vir aqui."
O policial olhou do rosto de aço de Caio para o de Alana, horrorizado, e finalmente apenas assentiu, superado pelo poder na sala.
"Não", Alana sussurrou, balançando a cabeça. A traição era um abismo se abrindo a seus pés. "Vocês não podem."
"Podemos", disse André, seu tom não deixando espaço para discussão. Ele olhou para ela, seus olhos cheios de decepção. "Olhe para você. Você não é a mesma. Você volta e ataca a única pessoa que manteve esta família unida enquanto você estava fora."
O olhar de Alana mudou do rosto frio de seu irmão para o impaciente de seu noivo. Eles não estavam olhando para uma sobrevivente. Estavam olhando para um problema. Uma perturbação.
Uma determinação amarga endureceu em seu peito. As lágrimas pararam. O tremor diminuiu, substituído por uma calma gélida.
"Eu não vou retirar a queixa", disse ela, sua voz baixa, mas firme. "E eu vou fazer vocês pagarem. Todos vocês."
Eles a olharam como se ela fosse uma estranha. Talvez ela fosse. A herdeira mimada que eles lembravam estava morta, enterrada em algum lugar naquele complexo.
Quatro anos. Ela fora vendida e devolvida várias vezes. "Danificada demais", um comprador reclamara, suas palavras ecoando em sua memória. Cada vez que era mandada de volta, o castigo era pior. Quebravam seus ossos, a deixavam passar fome, a trancavam em uma caixa sem luz por dias. A dor era uma companheira constante.
Mas essa dor, a que florescia em seu peito agora, era mil vezes pior.
Seu olhar queimou em direção a Beatriz, que agora estava sendo confortada nos braços de André. Em seguida, moveu-se para Caio, que desviou o olhar, incapaz de encará-la.
"Alana, não seja ridícula", disse Caio, sua voz tensa de frustração. "Beatriz não fez nada além de cuidar de nós. Ela procurou por você, rezou por você. Você lhe deve um pedido de desculpas."
"Eu não devo nada a ela", Alana cuspiu, as palavras com gosto de ácido.
"Pare de agir como uma criança!" A voz de André era dura. Ele agarrou o braço dela, seus dedos cravando no osso. "Você desapareceu por quatro anos, e é assim que você volta? Fazendo acusações malucas e magoando as pessoas que te amam?"
O aperto em seu braço enviou uma onda de dor através dela, mas não era nada comparado à agonia em seu coração. Lágrimas brotaram novamente, desta vez de raiva e coração partido. "Foi ela quem me machucou! Vocês estão cegos?"
André a empurrou. "Cresça, Alana."
Ela cambaleou para trás, seu quadril batendo na borda de metal frio da mesa. Uma criança? Ela havia sobrevivido a horrores que ele não conseguia nem imaginar. Ela havia lutado para sair do inferno, apenas para descobrir que seus salvadores eram seus novos carcereiros.
O absurdo de tudo aquilo era sufocante. Ela era a vítima, mas aqui estava ela, sendo punida. Sua luta por justiça estava sendo descartada como uma fantasia induzida pelo trauma.
Um sorriso quebrado e doloroso tocou seus lábios. "Ok", ela sussurrou.
A expressão de Caio suavizou ligeiramente com sua aparente rendição. "Alana..."
"Está tudo bem, Caio", disse Beatriz, dando um passo à frente. Sua voz era gentil, um bálsamo calmante de veneno. Ela pegou a mão dele suavemente. "Ela passou por tanta coisa. Ela só precisa de tempo. Vamos levá-la para casa."
A intimidade casual do gesto - a mão de Beatriz na de Caio - foi uma ferida nova. Antes, Caio tinha limites rígidos com outras mulheres. Ele mal tolerava abraços amigáveis. Agora, ele estava deixando Beatriz se agarrar a ele, seu polegar acariciando as costas da mão dela em um gesto reconfortante.
A visão clareou a mente de Alana. O que quer que acontecesse a seguir, Beatriz era a inimiga. E essa rede de tráfico, quer Beatriz fizesse parte dela ou fosse apenas uma cliente, tinha que ser destruída.
Mas ela era inteligente o suficiente para saber que não podia lutar contra eles agora. Não assim. Eles detinham todo o poder e acreditavam nas mentiras de Beatriz. Ela não tinha provas.
"Tudo bem", disse Alana, sua voz desprovida de emoção. "Eu vou deixar pra lá."
A viagem de volta para a mansão dos Ribeiro foi sufocantemente silenciosa. Alana sentou-se no banco de trás do Porsche de Caio, o cheiro familiar de couro e seu perfume sutil uma dolorosa lembrança de uma vida que não existia mais. Ele costumava trazer seus chefs favoritos de todo o país apenas para cozinhar uma única refeição para ela. Ele cancelara negócios de milhões de reais para ficar ao seu lado quando ela tinha um simples resfriado. Ele a pedira em casamento em um iate sob um céu cheio de fogos de artifício, prometendo-lhe o mundo.
Ela tinha sido o centro do universo deles. Agora, ela era um inconveniente.
As cicatrizes novas e antigas em seu corpo latejavam, um mapa brutal de sua realidade.
Na frente, André e Beatriz falavam em tons baixos e reconfortantes. A presença deles enchia o carro, deixando Alana se sentindo como uma intrusa em sua própria vida.
No momento em que o carro parou na grande entrada da garagem, Alana empurrou a porta, desesperada por ar. Ela correu para dentro, precisando da familiaridade de seu próprio quarto.
Mas quando abriu a porta de sua suíte, ela parou abruptamente. Não era mais o quarto dela. As cores pastel suaves haviam sumido, substituídas por um cinza minimalista e frio. Os móveis eram diferentes. Um perfume masculino pairava no ar. O de André. E na mesa de cabeceira havia uma foto de André e Beatriz, sorrindo juntos.
Caio apareceu atrás dela. "Ah. O André se mudou para cá depois de... bem, podemos arrumar um quarto de hóspedes para você."
"Eu posso mover minhas coisas para o depósito", disse Beatriz, sua voz uma mistura perfeita de doçura e martírio. "Alana pode ficar com o meu quarto. Minhas coisas ainda estão lá, mas não deve ser um problema."
Caio pareceu surpreso. "Seu quarto?"
Beatriz sorriu tristemente. "André e eu guardamos as coisas dela lá para mantê-las seguras."
"Não", disse André firmemente da porta. Ele olhou para Beatriz com uma expressão de profundo afeto. "Aquele é o seu quarto, Beatriz. Sempre será o seu quarto."
Ele então se virou para Alana, seu tom paternalista. "Você pode ficar no quarto de hóspedes por enquanto. Beatriz está indo para Lisboa em breve para a universidade. Você pode ficar com o quarto dela então. É só por um tempinho."
Alana viu o brilho de triunfo nos olhos de Beatriz antes que fosse escondido por uma máscara de simpatia.
Ela encontrou o olhar de André, seus próprios olhos vazios. Ele hesitou, um lampejo de culpa cruzando seu rosto, antes de desviar o olhar.
"O depósito está bom", disse Alana, sua voz monótona. Ela só queria ficar sozinha. Queria encontrar um canto desta casa que ainda parecesse seu.
"Viu? Ela entende", disse Caio, aliviado.
Alana se virou e caminhou em direção ao final do corredor, para o quarto onde guardavam móveis velhos e coisas esquecidas. Ela fechou a porta atrás de si sem olhar para trás.
O quarto estava bagunçado e empoeirado. Caixas estavam empilhadas. Sua vida inteira, guardada.
Seus olhos pousaram em uma maleta de notebook em cima de uma pilha de caixas. Seu antigo notebook. Com as mãos trêmulas, ela o abriu.
Alana ligou o notebook. A tela piscou e acendeu, mostrando um plano de fundo familiar: uma foto dela, de Caio e de André, sorrindo em um iate durante uma viagem de verão anos atrás. Eles pareciam tão felizes, tão inseparáveis. Seu dedo traçou a imagem do rosto de Caio na tela. Parecia uma vida inteira atrás.
Ela percebeu então. Na casa principal, todas as fotos dela haviam sido substituídas. Na lareira, onde antes havia uma foto dela e de Caio na festa de noivado, agora havia uma de Caio e Beatriz, rindo em algum baile de caridade. No corredor, os retratos de família haviam sido reorganizados, com Beatriz inserida perfeitamente onde Alana costumava estar.
Seu coração doía com uma dor surda e pesada. Ela havia sido apagada.
Ela abriu um aplicativo personalizado na área de trabalho, um pequeno ícone em forma de coração. Caio, um magnata da tecnologia por direito próprio, o havia projetado para ela. Era o espaço privado deles, um diário digital onde ele deixava bilhetes, poemas e doces palavras para ela.
Ela rolou para trás, seus olhos embaçando com lágrimas enquanto lia as entradas antigas.
"Mal posso esperar para te ver esta noite, meu amor. Contando os segundos."
"Você estava tão linda hoje. Sou o homem mais sortudo do mundo."
Então ela chegou à data em que foi levada. As entradas mudaram.
Ela encontrou a primeira escrita após seu desaparecimento.
"Onde você está, Alana? Meu mundo está cinza sem você. Sinto muito, sinto tanto. Eu deveria ter te protegido. A culpa é toda minha. Volte para mim."
As entradas estavam cheias de angústia e autoculpa. Ele narrava sua busca desesperada e frenética. Descreveu um acidente de carro que sofreu enquanto perseguia uma pista falsa, como acordou no hospital com uma perna quebrada, chamando o nome dela.
Ler sua dor era uma forma estranha de tortura. Uma parte dela ansiava pelo homem que havia escrito aquelas palavras.
Então, um novo nome apareceu.
"Beatriz me trouxe sopa no hospital hoje. Ela chorou, dizendo que se sente tão impotente. Ela é uma garota doce. Me lembra um pouco de você."
As menções a Beatriz se tornaram mais frequentes.
"André está um caco. Beatriz é a única que consegue fazê-lo comer. Ela tem sido uma rocha para nós dois."
"Fui checar outra pista nas montanhas hoje. Beatriz veio comigo. É bom não estar sozinho."
Lentamente, o tom das entradas mudou. A dor crua começou a desaparecer, substituída por uma companhia silenciosa. Alana sentiu um nó de pavor se apertar em seu estômago, mas não conseguia parar de ler. Era como pressionar um hematoma, uma dor autoinfligida que ela não conseguia resistir.
Ele estava se apaixonando pela irmã dela. Sua substituta.
As entradas sobre a busca por Alana se tornaram menos frequentes. Em vez disso, estavam cheias de lugares que ele havia ido com Beatriz. A busca por ela havia se tornado a história de amor deles.
Alana encostou as costas na parede fria e empoeirada, o notebook pesado em seu colo. O homem que escreveu essas palavras era um estranho.
Então ela viu a última entrada, datada de apenas uma semana atrás.
"Eu a amo. Sei que não deveria. Sinto que estou te traindo, Alana, onde quer que você esteja. Mas eu amo a Beatriz. Não sei o que fazer."
Uma lágrima caiu na tela, distorcendo as palavras. Tinha acabado. O amor que ela havia se agarrado como um farol na escuridão se fora. Ele o havia dado a outra pessoa.
A porta rangeu ao se abrir. Caio estava ali, uma silhueta contra a luz do corredor.
Ele viu as lágrimas em seu rosto, seu olhar caindo para a tela do notebook. Ele não parecia surpreso. Parecia cansado.
Ele entrou e tentou fechar o notebook. A mão de Alana disparou, impedindo-o. Ela olhou para ele, seus olhos questionando, exigindo.
Ele suspirou, passando a mão pelos cabelos. Tirou um maço de cigarros do bolso e acendeu um, um hábito que adquirira depois que ela desapareceu. A fumaça se enrolou em volta de sua cabeça, obscurecendo seu rosto.
"Eu a amo, Alana", disse ele, as palavras silenciosas, mas claras na sala imóvel.
Uma coisa era ler. Outra era ouvi-lo dizer. A confirmação estilhaçou o último pedaço de seu coração.
"Mas você é minha noiva", ele continuou, sua voz assumindo um tom mais gentil e persuasivo. "Vou honrar minha promessa. Vamos nos casar. Eu só... preciso de um tempo."
Ele olhou para ela, seus olhos suplicantes. "Por favor, só não desconte na Beatriz. Ela é inocente em tudo isso. Assim que nos casarmos, cortarei o contato com ela, eu prometo."
Alana sentiu uma risada histérica borbulhar em sua garganta. Ele estava pedindo a ela, a vítima, para ser paciente enquanto ele superava seu amor por sua sequestradora.
Ela não disse nada. Em vez disso, levantou-se lentamente. Sem uma palavra, ela levantou a barra de sua blusa.
A sala ficou em silêncio, exceto pela inspiração aguda de Caio. Seu tronco era um mapa da crueldade. Cicatrizes lívidas, antigas e novas, cruzavam sua pele. Queimaduras de cigarro pontilhavam seu estômago como constelações de dor.
"Eles continuavam me vendendo", disse ela, sua voz assustadoramente calma. "Mas meu corpo estava danificado demais. Os compradores reclamavam. Então eles me mandavam de volta. E toda vez que me mandavam de volta, eles me puniam por ser defeituosa."
Caio olhou, seu rosto uma máscara de horror. Ele deu um passo para trás, sua mão se erguendo como se para afastar a visão. Então ele a baixou rapidamente.
"Alana, eu...", ele começou, mas sua voz falhou. Ele não conseguia olhar para as cicatrizes dela. Não conseguia nem olhar para o rosto dela. Ele olhou para a parede atrás dela. "Não importa. Eu ainda vou me casar com você. Vamos conseguir os melhores médicos."
Mas ela viu. Naquela fração de segundo antes que ele mascarasse, ela viu o lampejo de repulsa em seus olhos. Ele era um homem obcecado pela perfeição. Seus carros, seus ternos, sua empresa, sua mulher. Ela não era mais perfeita. Ela estava manchada. Quebrada.
Um sorriso amargo torceu seus lábios. "Estou cancelando o noivado."
Ele pareceu chocado. "O quê?"
"Não posso me casar com um homem que está apaixonado por outra pessoa", disse ela, sua voz ganhando força. "Eu tenho meu orgulho."
"Orgulho?" Ele soltou uma risada áspera e incrédula. "Depois de tudo, você está falando de orgulho? O que mais você quer de mim, Alana? Eu ainda estou disposto a me casar com você!"
Suas palavras, que deveriam soar nobres, pareceram o insulto mais profundo. O amor que ele tinha por ela se fora, substituído por um senso de dever, de pena. E mesmo isso era condicional.
Seu coração, que ela pensava que não poderia se quebrar mais, parecia estar se transformando em gelo.
Naquele momento, a porta se abriu novamente.
"Caio? Está tudo bem? Achei que ouvi gritos." Beatriz estava ali, usando um deslumbrante vestido de noite de seda azul-clara. Ele brilhava sob a luz fraca, uma cascata de cristais costurados à mão cintilando no corpete.
Alana o reconheceu instantaneamente. Era uma peça de alta-costura única de um designer famoso. Caio o havia comprado para ela dois aniversários atrás.
Ele lhe dissera: "Este vestido foi feito para uma rainha. Foi feito para você, Alana. Ninguém mais no mundo poderia usá-lo."
E agora, estava em Beatriz.
Beatriz sorriu docemente, ignorando completamente a atmosfera tensa. Ela deu uma pequena pirueta. "Não é lindo, Alana? Caio disse que eu poderia usá-lo na minha festa de despedida."
A visão daquele vestido naquela mulher foi o golpe final e brutal. Era uma declaração de guerra. Uma afirmação de que tudo o que antes era de Alana agora pertencia a Beatriz.
Uma risada seca e rouca escapou dos lábios de Alana. Era um som de puro e absoluto coração partido.
Ela olhou para o rosto culpado de Caio, depois para o triunfante de Beatriz. Sem outra palavra, ela bateu a porta, trancando-os do lado de fora.
Ela ouviu o suspiro de frustração de Caio do outro lado, e então seus passos se afastando, seguidos pelos mais leves de Beatriz.
Alana deslizou pela porta, seu corpo finalmente cedendo. Ela se sentou no chão frio e duro do depósito, cercada pelos fantasmas de seu passado, e soube que estava completa e totalmente sozinha.
Durante toda a noite, ela ficou acordada, vasculhando metodicamente as caixas. Pegou cada foto, cada carta, cada presente de Caio e André e os selou em uma única e grande caixa. A cada item que guardava, sentia um pedaço de seu amor por eles morrer.
O cheiro forte de antisséptico encheu as narinas de Alana antes mesmo que ela abrisse os olhos. O teto era de um branco estéril, o bipe de uma máquina um ritmo constante ao seu lado. Hospital. O estresse e a desnutrição finalmente a alcançaram.
Ela se sentia fraca, mas sua mente estava afiada. Pela porta entreaberta de seu quarto, ela podia ouvir a conversa abafada das enfermeiras em seu posto.
"Aquele pobre Sr. Sampaio e o Sr. Ribeiro", disse uma enfermeira. "Eles não saíram do lado da Srta. Campos. Ela é tão doce, e eles simplesmente a adoram."
"Ouvi dizer que a outra, a irmã que estava desaparecida, está naquele quarto", sussurrou outra voz. "Ela parece... difícil."
Uma terceira enfermeira as corrigiu. "O nome dela é Alana Ribeiro. Ela é a verdadeira herdeira. Aquela outra garota é apenas adotada."
As palavras ofereceram um pequeno e amargo conforto. Sua identidade ainda não havia sido completamente apagada.
Ela se ergueu, seus músculos protestando. Espiou pela fresta da porta. Do outro lado do corredor, em uma suíte de luxo particular, ela os viu. Caio e André flanqueavam a cama de Beatriz. Beatriz estava apoiada em uma montanha de travesseiros, parecendo pálida e frágil.
"Minha cabeça ainda dói", Beatriz choramingou, fazendo beicinho para Caio.
A expressão de Caio era de terna preocupação. Ele pegou um pequeno copo da mesa de cabeceira. "Aqui, tome seu remédio. Seja uma boa menina." Ele a ajudou a tomar o comprimido e segurou um copo de água para ela, como se ela fosse uma criança preciosa. André gentilmente afofou seus travesseiros. Os olhos deles, antes cheios de adoração por Alana, agora estavam focados apenas em Beatriz.
Assim que uma enfermeira estava fechando a porta de Beatriz, os olhos de Beatriz encontraram os de Alana do outro lado do corredor. A máscara de fragilidade caiu por uma fração de segundo, substituída por um olhar de puro e triunfante desprezo. Então a porta se fechou com um clique.
Lágrimas queimaram os olhos de Alana. Por quê? Por que tudo havia mudado? O amor deles tinha sido tão superficial, tão facilmente transferido para a próxima mulher disponível que pudesse desempenhar o papel de donzela em perigo?
Ela agarrou o medalhão em volta do pescoço. Era a última coisa que sua mãe lhe dera antes de morrer, um simples oval de prata. Era a única coisa de sua vida antiga que seus captores não haviam levado. Sua única âncora. Ela enterrou o rosto no fino cobertor do hospital e chorou, soluços silenciosos e convulsivos que rasgavam seu estômago vazio.
Durante a semana que passou se recuperando, Caio e André a visitaram apenas uma vez. Eles ficaram desajeitadamente aos pés de sua cama por cinco minutos.
"Temos que voltar para o escritório", disse André, seu tom brusco. "E a Beatriz precisa de nós."
Eles saíram sem outra palavra.
Mais tarde, navegando em seu celular com a mão trêmula, Alana viu a última postagem de Beatriz nas redes sociais. Uma foto de um salão de festas luxuosamente decorado. A legenda dizia: "Tão comovida que Caio e André estão me dando uma festa de despedida tão linda antes de eu ir para Lisboa! Vou sentir falta dos meus dois caras favoritos!"
A festa. Claro.
No dia em que recebeu alta, Caio a esperava na entrada do hospital. O silêncio entre eles no carro era pesado, um cobertor espesso de coisas não ditas. Ela se lembrava de um tempo em que qualquer silêncio entre eles seria preenchido com sua conversa brincalhona e os sorrisos indulgentes dele. Agora, ela não tinha nada a dizer a ele. Sem lágrimas, sem acusações. Apenas um vasto e frio vazio.
Ele parecia estar estudando-a, uma expressão estranha em seu rosto. "Vamos dar uma festa hoje à noite", disse ele, sua voz suave, mas inflexível. "Uma festa conjunta. Para te dar as boas-vindas e para nos despedirmos da Beatriz."
Seus olhos encontraram os dela no espelho retrovisor. "E eu vou anunciar a data do nosso casamento."
Não era um pedido. Era um decreto. Um presente que ele estava lhe concedendo, um prêmio por seu sofrimento.
Alana baixou o olhar, escondendo a zombaria em seus olhos. "Não, obrigada."
Ela não precisava da caridade dele.
A festa foi realizada em um hotel cinco estrelas, o salão de festas brilhando com lustres e transbordando com a elite da cidade. Enquanto ela entrava de braço dado com Caio, uma tela gigante atrás do palco exibia uma apresentação de slides. Era uma montagem dos últimos quatro anos. Fotos de Caio e André em eventos de caridade, em viagens de negócios, em feriados. E em cada foto, Beatriz estava lá, sorrindo ao lado deles. Não havia uma única foto de Alana. Era uma declaração pública de que a vida havia continuado sem ela, que ela havia sido substituída.
Alana rapidamente se tornou invisível. Ela ficou em um canto, um fantasma em sua própria festa de boas-vindas. O centro das atenções era Beatriz, radiante em outro vestido deslumbrante, flanqueada por Caio e André.
Os sussurros dos convidados a seguiram.
"É ela? Alana Ribeiro? Ela não parece tão refinada quanto a Beatriz."
"Eu sei. A Beatriz tem uma graça. Ela e o Caio formam um casal muito melhor."
"É uma pena o noivado. Eu me pergunto o que realmente aconteceu com ela todos esses anos. A gente ouve histórias..."
As palavras eram como pequenas pedras afiadas atiradas nela. Ela não suportou. Virou-se e fugiu, indo para os andares superiores mais silenciosos do hotel.
Ao chegar ao patamar do segundo andar, ela ouviu uma voz raivosa e familiar.
"Idiotas! Como puderam deixá-la escapar? Eu disse para vigiá-la!"
Era Beatriz. Ela estava ao telefone, de costas para Alana, sua voz despojada de toda a sua doçura, agora áspera e furiosa.
"Meu plano inteiro está arruinado por causa da sua incompetência! Agora ela está de volta, enchendo a cabeça do Caio e do André com bobagens."
Sua voz suavizou um pouco, tornando-se calculista. "Tudo bem. Eu os tenho na palma da minha mão. E a polícia não vai fazer nada. Mas vocês precisam manter todos no vilarejo quietos. Muito quietos."
Alana congelou, a mão voando para a boca para abafar um suspiro. O vilarejo. Era assim que seus captores chamavam o complexo.
"Não se preocupe", continuou Beatriz, seu tom se tornando frio e cruel. "Vou encontrar uma maneira de mandá-la de volta. É lá que ela pertence."
Beatriz desligou e se virou, um sorriso satisfeito no rosto. O sorriso desapareceu quando ela viu Alana parada ali, seu rosto pálido.
Por um momento, elas apenas se encararam. Então, a máscara de inocência que Beatriz usava tão bem finalmente se quebrou, revelando o ciúme feio e distorcido por baixo.
"Você", Beatriz sibilou, seus olhos ardendo de ódio. "Por que você teve que voltar? Você tinha tudo! O dinheiro, a família, o amor! Eu não tinha nada! Deveria ter sido meu!"
A confirmação atingiu Alana com a força de um golpe físico. As pontas de seus dedos cravaram em suas palmas, a dor aguda a mantendo no presente. Era real. Tudo. Beatriz era o monstro.
Alana não perdeu o fôlego com palavras. Ela se virou, sua mente singular e focada. Tinha que fugir. Tinha que chamar a polícia. Tinha que fazê-los ouvir desta vez.
Ela veria Beatriz acorrentada se fosse a última coisa que fizesse na vida.