AVISO
Olá, você que está começando a leitura.
Passando para avisar que o tema religião/fanatismo é tratado de maneira fantasiosa. Não pretende ensinar, menos ainda ofender. Se considerar que seja um tema sensível, mesmo nesses termos, aconselho a não prosseguir com a leitura.
Talvez você encontre gatilhos durante a leitura, talvez não. Deixo avisado porque o que pode ser gatilho para alguns não é para outros.
No mais, boa leitura!
Beijos e abraços,
Gray
Sol Ávila
- Papai, olha! - dei uma rodadinha fazendo com que meu vestido de princesa fosse visto enquanto rodava.
- Está linda, minha princesa! - papai se abaixou e abriu os braços. Corri para abraçá-lo toda sorridente.
- Vamos, meus amores. - Mamãe passou por nós sorrindo. Tive vontade de tocar suas covinhas. Minha mãe era a mulher mais linda do mundo. Uma rainha. E o meu pai era o rei. Por isso vivíamos em um castelo.
Era o meu primeiro dia na escola. Apesar do vestido bonito, da mochila cor de rosa e do carinho dos meus pais, eu estava com muito medo. Meus únicos amigos eram os filhos dos empregados, pois meus pais decidiram me ensinar em casa até que eu estivesse pronta para começar o ensino fundamental. Não conhecia ninguém de fora dos domínios dos meus pais. E eu queria muito conhecer mais pessoas, ao mesmo tempo que não queria. Era um medo muito grande do desconhecido. Como se eu fosse encontrar um monte de monstros no caminho.
Assim que o carro parou na entrada do colégio, segurei a mão da minha mãe com força.
- Calma, Moranguinho! Prometo que você vai fazer um monte de amigos e brincar muito.
- E se ninguém gostar de mim? Se forem maus?
- Tenho certeza que todos vão te amar - respondeu com sua voz macia.
- Mas e se me odiarem? - insisti medrosa.
- Ai, a mamãe vem e te leva.
- Pode ir tranquila, bebê. Leva meu telefone. E quando sentir saudades, pode ligar para o trabalho do papai ou da mamãe. - Papai entrou na conversa.
- Só que precisa ser corajosa e ir até lá. O medo atrapalha. Igual quando te ensinamos a andar de bicicleta. Você estava com medo, mas foi forte e agora anda melhor que seu pai ou eu.
- Tá bom!
Minhas mãos estavam suadas quando peguei o telefone das mãos do meu pai e coloquei na mochila.
Meus pais seguiram comigo até a porta da minha sala. E ali eu descobri um novo mundo, repleto de amigos e descobertas. Foi muito bom enfrentar o medo. Minha mãe estava certa como sempre.
Eu ia para a escola todos os dias com um dos meus pais. E com o tempo passei a visitar a casa dos meus coleguinhas e a receber a visita deles. Eles me chamavam de Moranguinho, porque no primeiro dia contei que meus pais me chamavam assim por causa das minhas sardas e também porque quando eu era bebê eles diziam ter vontade de me morder. Acabou que o apelido pegou. Foi uma revelação inocente de uma menina que não sabia o que dizer ao ser colocada na frente da sala para me apresentar aos meus colegas.
Passaram dias, meses, anos.
No meu aniversário de treze anos, meus pais decidiram fazer uma festa e pude convidar todos os meus colegas, inclusive Fábio, o garoto mais lindo da escola. Sempre tive uma "queda" por ele e minhas amigas me contaram que ele está interessado, e que quer me dar um beijo na festa. Passei os dias que antecederam entre ansiosa e medrosa. Se acontecesse mesmo seria o meu primeiro beijo.
Durante a festa tentei não demonstrar tanto nervosismo. Até o momento de cantar os parabéns e cortar o bolo, meus pais ficaram presentes, depois deixaram as crianças se divertirem no espaço da festa.
- Moranguinho... - arrepiei toda ao ouvir a voz de Fábio atrás de mim. Meu coração disparou.
Quando me virei, vi que ele estava perto demais.
Jaqueta de couro preta, jeans rasgado, cabelo rebelde; o típico bad boy dos programas juvenis.
- Oi!
- Posso te dar o meu presente agora? - segurou o meu queixo suavemente.
Quem disse que eu tinha força para responder?! Apenas deixei seu rosto se aproximar do meu lentamente, seus lábios tocarem os meus. Foi um beijo suave, me fez sentir como se andasse sobre nuvens.
Quando acabou, abri os olhos lentamente. Ele me encarava com um sorriso presunçoso.
- Quer ser minha namorada?
Eu não conseguiria falar facilmente. Balancei a cabeça concordando.
- Sim. - Minha voz saiu baixa.
Ele ia me beijar novamente, pude ver em seu olhar, mas nossos amigos atrapalharam com suas graças sobre o novo casal; nós.
Não consegui mais ficar sozinha com ele, nem na despedida porque meus pais estavam presentes.
Mas ele sussurrou em meu ouvido na hora da despedida: "Na escola."
Não disse o que aconteceria na escola, mas pude adivinhar.
***
Naquela primeira manhã de aula onde eu tinha um namorado, me arrumei como se minha vida dependesse disso, ao mesmo tempo em que tentava não exagerar. Não queria que Fábio me achasse uma estranha. Queria que ele me achasse linda.
- Sinto que alguém conheceu o primeiro amor. - Mamãe entrou no quarto com aquele sorriso que só uma mãe é capaz de dar. Claro que ela sabia. Eu contei para ela que ele me pediu em namoro e me beijou.
- Mãe! - tapei o rosto com as mãos.
- Seu pai vai querer conhecê-lo. Devemos contar para ele.
- Estou com medo. Será que papai vai ficar contra?
- Eu cuido dele. Desde que a senhorita seja responsável. Já conversamos. Quero que me mantenha informada e não faça nada só para agradar aquele rapaz.
- Eu sei.
Mamãe falou um pouco mais sobre as mudanças no meu corpo, os avanços dos meninos da minha idade. Tudo que ela vinha me explicando desde a minha primeira menstruação.
Eu sempre escutava minha mãe, mas dessa vez minha mente viajava sobre como seria ao chegar na escola e encontrar Fábio.
Foi incrível, ele estava me esperando na entrada. Assim que me aproximei, ganhei um selinho, ele segurou a minha mochila e entramos de mãos dadas. Ao nosso redor um monte de burburinho. Me senti aquelas líderes de torcida nos filmes que namora o jogador mais importante.
Pode uma vida mais maravilhosa que a minha? Pais incríveis, amigos maravilhosos, um namorado perfeito.
Cada dia que passava, me sentia cada vez mais feliz.
O carro nos esperava para me levar a aula. Dessa vez, papai não iria conosco, teve que sair cedo para uma reunião na empresa. Mas ele me buscaria, tínhamos planos para comemorar seu aniversário de quarenta e dois anos. Como a data caiu na semana, decidimos jantar juntos para comemorar antes da festa oficial no fim de semana. Ele era o que mais gostava de festas. Mamãe costumava chamá-lo de "mulher da relação" porque ele gosta de novelas, detesta futebol, e em nada se parece com seus amigos e colegas de trabalho. Foge ao estereótipo. Gosto disso.
Mas hoje eu não estava muito satisfeita. Aliás nada me agradava. Era o período da minha menstruação. Mesmo que mamãe dissesse que é uma coisa especial, só consigo pensar que está sangrando entre as minhas pernas, mesmo não incomodando sei que tem um absorvente ali, e ainda tem essa cólica dos infernos que parece ser blindada contra remédios.
O motorista abriu a porta e fui logo entrando. Ele não parecia o senhor Ferraz, o que dirigia para o meu pai desde que me entendo por gente. Devia ser novo.
- Pode faltar aula hoje se quiser. - Mamãe disse e entrou no carro sem nem olhar para o motorista. Apenas desejou bom dia. Estava procurando seu passaporte na bolsa. Em breve viajaríamos de férias e ela não conseguia lembrar onde deixou. Se eu soubesse o quanto minha vida mudaria por esse simples detalhe.
Não respondi. Eu iria para a escola sim e não seria uma porcaria de menstruação que me impediria de ver o meu namorado lindo.
- Não está aqui. Tenho que achar. Não quero ter que tirar uma nova via - mamãe resmungou fechando a bolsa.
- O senhor é novo? - perguntei ao motorista enquanto ele dirigia saindo da casa.
Ele olhou pelo retrovisor e sorriu.
- Sim. Comecei hoje.
- Onde está o Ferraz? - mamãe perguntou com um tom assustado que nunca vi. Ela olhava do lugar do motorista para a porta ao seu lado alternadamente. Parecia desesperada.
- Não pode trabalhar hoje. Houve um acidente. Pelo que soube, ele foi atropelado. Por sorte não...
- Pare o carro! - mamãe gritou. Olhei para ela assustada. Ela gritou novamente. - Pare o carro! - E começou a gritar sem para e a tentar abrir a porta.
Eu soube o motivo dos gritos dela quando o homem apenas riu e continuou dirigindo, dessa vez em alta velocidade, como se acreditasse que ela teria coragem de saltar do carro comigo.
- O que está acontecendo? - agarrei o braço da minha mãe. Cólica era um assunto esquecido.
- Calma, minha filha. Vai ficar tudo bem.
- Como vai ficar tudo bem? A senhora está apavorada. - Me virei para o motorista. - Senhor, pare o carro, por favor. A minha mãe não está bem.
Ele riu. Como se eu fosse ingênua demais. Talvez eu fosse. Fui educada para ser boa. Não tinha ideia do que estava acontecendo.
Estávamos em uma parte sem residências, e ele realmente parou o carro.
Suspirei aliviada.
- Obrigada! - disse vendo-o destravar as portas e sair do carro. Ele abriu a porta do lado da minha mãe. - Vai ficar tudo be...
Eu estava falando quando aquele homem agarrou minha mãe pelos cabelos, puxando-a para fora do carro.
Minha mãe gritava e tentava bater nele. Parecia um animal furioso.
Sai do carro, só consegui fazer isso. Eu era uma inútil paralisada enquanto via minha mãe ser agredida.
- Não machuque a minha filha. - A ouvi implorar.
Foi nessa hora em que eu descobri o quanto o ser humano pode ser cruel com o outro. Aquele homem virou a minha mãe na minha direção.
- É o que vai acontecer com você se contar para alguém.
"Mãeeeee!" o grito ficou preso na minha garganta, enquanto na garganta da minha rainha entrava um punhal que acompanhei em cada movimento.
Vi o momento em que minha mãe parou de debater. Vi quando ela desabou no chão sem vida. Vi os passos do homem se aproximando de mim.
Ele segurou o meu rosto com força. Sua mão grande apertando minhas bochechas. Pude ver de perto a cicatriz pequena em seu queixo.
- Seus olhos têm o mesmo tom de medo da sua mãe. Que decepção. - Me soltou tão violentamente que cai no chão. - Quando menos esperar, estarei de volta. Temos grandes planos.
Enquanto ele caminhava e entrava em um carro de luxo que apareceu do nada, finalmente tive forças para me arrastar até o corpo da minha mãe. A abracei com força, meu corpo balançando com os soluços do choro incontrolável.
Como era possível? Como podia acontecer tamanha maldade com alguém que sempre foi um anjo? Onde estava a justiça? Onde estava o deus que amava sua criação?
Perdi a noção do tempo. Não vi nem ouvi as pessoas que se aproximavam. Até que fui arrancada de sobre a minha mãe.
Como se estivesse presa em um pesadelo, me vi sendo levada para o hospital. Meu pai estava ao meu lado, mas não me consolava, parecia perdido. Era como se alguém o tivesse jogado no meio do deserto sem saber qual direção tomar.
***
No dia seguinte acordei com meu pai sentado ao lado da minha cama no hospital.
- Pai. - Chamei sua atenção.
- Como se sente, Sol?
Sol? Ele só me chamava assim quando estava zangado.
- É minha culpa o que aconteceu com mamãe? - perguntei entendendo que seu jeito de me chamar se devia a isso.
- Claro que não, minha filha.
Ele parecia estar mentindo, mas eu não sei se teria forças para ouvir a verdade.
Um médico entrou no quarto, fez algumas perguntas e exames. Logo em seguida entraram dois homens uniformizados que se apresentaram como policiais e começaram a fazer algumas perguntas.
- Não consigo. - Senti as lágrimas descendo enquanto me esforçava para recordar o rosto do agressor. Eu recordava do uniforme de motorista, das luvas pretas, mas quando chegava no rosto era como se houvesse apagado todos os traços, só havia uma estrutura lisa. - Por que não consigo?
- Calma! É comum depois de um trauma. Você vai lembrar com o tempo. - O médico me tranquilizou. E não passou despercebido a apatia do meu pai. Só o corpo dele parecia estar ali, não a alma, não o coração.
Aos poucos todos foram saindo do quarto, inclusive meu pai que alegou precisar tratar de assuntos da minha alta. Voltei para casa naquele mesmo dia. Mas não via mais aquela mansão como o castelo de uma princesa, aquele lugar agora me parecia sombrio.
A rainha estava morta, o rei apático, e a princesa mergulhada em tristeza.
Sol Ávila
O médico me afastou da escola por uma semana. Também orientou ao meu pai a procurarmos orientações de um terapeuta.
Estava marcado para a minha primeira consulta depois do retorno as aulas. Esses foram os assuntos que conversei com meu pai. Ele me avisava sobre as coisas e eu assentia. Não havia conversas sobre banalidades, nem novelas que assistíamos juntos, nem mesmo o beijo de boa noite de todas as noites. Não havia como negar, ele me culpava. Se não pela morte de mamãe, me culpa por eu não conseguir lembrar o rosto do assassino.
Coloquei o uniforme, peguei minhas coisas e desci para o café da manhã. Ele não estava mais lá. Havia ido trabalhar.
Tomei meu café em silêncio e fui tentar voltar a rotina. Mas algo estava errado. O carro com motorista não estava ali. No lugar dele havia um segurança gigantesco, um dos que andavam com meu pai em eventos especiais.
- Com licença. - O chamei. - Você viu o motorista e o carro que me levam para a escola.
- Vi com os outros na garagem, senhorita - respondeu com seu tom profissional.
- Garagem? - sussurrei.
Será que esqueceram que volto as aulas?
Como se lesse os pensamentos, o homem comentou:
- Seu pai colocou todos lá até segunda ordem. Avisou que a senhorita não tinha permissão para sair da residência.
- Como?
- Sou apenas um funcionário. Não questiono ordens.
Olhei para aquele homem gigante. Não adiantaria nada gritar com ele, brigar. O jeito era esperar meu pai. Teremos uma conversa séria.
Fiquei até tarde esperando meu pai voltar.
Acabei dormindo no sofá. Era quase meia noite quando despertei com um barulho.
Abri os olhos apavorada. Toda a cena do assassinato da minha mãe veio com tudo. Sentia como se o assassino sem rosto estivesse ali, pronto para me tirar a última família que me restou.
Dessa vez meu corpo não ficou paralisado. Corri até o meu pai caído no meio da sala.
O que encontrei me fez perder o chão. Ele estava embriagado, mal conseguia ficar de pé.
- Pai, o que aconteceu? - tentei levantá-lo. O cheiro de bebida exalava forte. - O senhor está bêbado?
- Você... A culpa é toda sua. Se não existisse... Por que tinha que nascer?
O soltei e olhei para ele apavorada.
- Não fui eu quem matou a mamãe.
- Foi. Ela está morta porque não teve coragem de te impedir de nascer. - Seu tom embriagado era cheio de raiva.
- Do que está falando?
- Suma daqui!
- Não. Precisa me dizer porque me odeia - insisti sentindo lágrimas quentes descerem por minhas bochechas.
- Suma daqui! Sumaaa! - gritava.
Ele veio em minha direção gritando e fazendo gestos. Parecia prestes a me agredir fisicamente.
Me vi correndo para o quarto, me trancando e me escondendo sob os cobertores. Magoada e confusa.
"Por que?" "O que está acontecendo?"
***
No dia seguinte, coloquei o uniforme novamente. Iria para a escola nem que precisasse pular o muro e pedir carona a um de meus amigos.
Ao contrário do dia anterior, meu pai estava sentado tomando o seu café. Ele mal olhava para mim.
Comecei a tomar meu café em silêncio, mas acabei explodindo.
- Eu queria lembrar - gritei. - Queria lembrar, pois talvez assim acabassem os pesadelos. O senhor não foi o único a perder a mamãe.
Ele me olhou. Parecia não ter nenhum sentimento nesse olhar.
Levantando, disse:
- Você não vai mais a escola. Não vai sair dessa casa.
- Não pode fazer isso. Temos seguranças que podem me proteger.
- Nada disso importa. Está decidido.
- Pai! - corri atrás dele, pois já saia da sala de jantar. Ele continuou andando como se eu nem existisse, saiu da casa, entrou no carro e se foi.
Até tentei me rebelar e fugir, mas o poder dele é grande o bastante para bloquear os sinais dentro e fora da casa. E as câmeras me impediam de ir muito longe. Sempre aparecia um segurança. Ele encheu a nossa casa de seguranças. Eu estava literalmente vivendo um pesadelo. Sonhava todas as noites com o assassino levando a vida da minha amada mãe e quando acordava encontrava a frieza do meu pai e suas proibições.
Só quero que isso acabe. Quero acordar.
***
Com o passar dos dias descobri que sou mais que uma prisioneira. Não posso mais sair, nem meus amigos podem entrar.
Faz dois meses que não vou a escola. Nem sei como estão meus amigos ou meu namorado. Como me comunicar com eles sem internet ou sinal de celular? Até o telefone fixo ele cancelou. Queria saber se Fábio tentou me procurar, se desistiu de mim.
Eu também queria saber se meu pai me deixaria crescer sem estudos. Ter milhares de livros na biblioteca e tempo de sobra para ler não me tornaria médica como minha mãe ou CEO como ele. Ainda assim eu não desistia. Ser ignorante é o pior dos males, ainda mais quando se tem condições de tentar evitar.
Estava lendo uma enciclopédia sobre a flora brasileira quando uma voz me assustou:
- Precisamos conversar.
Olhei para ele e meu coração começou a desacelerar ao perceber que não estava bêbado.
- Sim senhor. - Em seu olhar percebi uma leve mudança, acho que ele entendeu que nunca mais seria chamado de pai, muito menos de papai.
- Você não pode ficar presa aqui. Precisa estudar.
Meu peito se encheu de alegria com a possibilidade de finalmente voltar a escola. Mas tudo desmoronou quando ele disse:
- Amanhã você começa em um colégio interno.
- Colégio interno?
- É mais seguro. Só para meninas e comandado exclusivamente por freiras.
- E os meus amigos? Meu namorado? - minha voz saia baixa, fraca, enquanto as lágrimas desciam com força. Ultimamente tenho chorado tanto que mal percebia quando começava.
- Não tem idade para namorar. Nunca aprovei isso. E fará novos amigos.
Levantei e o encarei.
- Pois não vou para lugar nenhum que o senhor mandar. Se não aguenta olhar para mim, me leva para meus avós maternos. Eles me amam.
- Até alcançar a maior idade, você é minha responsabilidade. E vai fazer o que eu mandar. Amanhã te levarei ao colégio. Está avisada.
Ele virou as costas e saiu. Tenho certeza que foi beber. Só trabalha e bebe nas últimas semanas.
Responsabilidade? Não sou mais sua filha, sou sua responsabilidade.
- Não vou para colégio interno algum - resmunguei limpando o rosto.
O livro ficou no chão enquanto eu corria para o quarto e juntava algumas coisas para fugir. Tinha total certeza que meus avós me aceitariam.
Quando tentei abrir a porta do quarto, descobri que estava trancada. Alguém trancou enquanto eu estava ocupada com a mala da minha fuga.
Voltei para a cama e me encolhi em posição fetal. Não tinha como fugir. Se ele estava disposto a me mandar para longe, não seria gritos para abrir a porta que mudaria sua opinião.
- Mamãe! - chorei até adormecer chamando pela minha rainha.
Na manhã seguinte, ele estava pronto para me levar para longe de sua vida.
- Não precisa levar nada. Suas roupas, material, tudo que precisar será fornecido pelo colégio.
- Eles poderiam me fornecer um pai novo também - resmunguei entrando no carro e batendo a porta.
Ele foi na frente com o motorista.
Depois de uma noite de choro, continuei chorando até dormir no carro. Só despertei quando a porta do meu lado foi aberta.
- Chegamos. - Ele avisou assim que abri os olhos.
Encarei aquele portão de madeira imenso e o muro de pedras alto.
Bem-vinda ao lar, Moranguinho!
Segurei as lágrimas e entrei.