O ar nos bastidores do concurso "Futuro da Moda" era pesado, uma mistura de laquê, suor e ansiedade, mas para mim, Sofia, da favela, era a única chance de provar que talento não tem CEP.
De repente, meu irmão João e meu amigo Lucas, meus pilares e patrocinadores, surgem com um colar de "sorte" e um suco para "energia", prometendo apoio.
Mas meu celular vibra com uma mensagem anônima chocante: "CUIDADO. O COLAR E O SUCO. É UMA ARMADILHA."
A verdade me atinge como um soco: eles queriam me destruir, me ver humilhada na passarela, e o irmão que eu amava e o amigo que eu confiava dançavam sobre a minha ferida.
Com a raiva queimando mais forte que a dor da traição, eu decidi. Se eles queriam guerra, teriam. O jogo acabara para eles, e o meu império estava apenas começando.
O ar nos bastidores do concurso "Futuro da Moda" era pesado, uma mistura de laquê, suor e ansiedade. Modelos corriam de um lado para o outro, estilistas davam os últimos retoques em suas criações e o barulho era ensurdecedor.
No meio do caos, eu, Sofia, tentava encontrar um canto de paz. Sentada em um caixote de madeira, eu repassava mentalmente cada detalhe da minha coleção. Cada costura, cada tecido, cada botão. Era o trabalho da minha vida.
Vinda da favela, eu sabia que esta era minha única chance. Uma chance de provar que talento não tem CEP.
De repente, duas figuras familiares bloquearam a pouca luz que chegava até mim.
"Sofia, maninha!"
Era João, meu irmão adotivo, com seu sorriso largo que nunca alcançava os olhos. Ao seu lado, Lucas, meu amigo de infância, segurava um copo de suco e uma pequena caixa de veludo.
João era um artista de rua famoso, seus grafites estampavam muros pela cidade inteira. Lucas era um promotor de eventos em ascensão. Eles eram meu patrocínio, meu apoio, minha família. Pelo menos, era o que eu pensava.
"Trouxemos um presente para te dar sorte," disse Lucas, me entregando a caixa. Sua voz parecia um pouco tensa.
Eu abri. Dentro, um colar de prata com uma única pedra verde-escura brilhava de forma estranha. Era bonito, mas algo nele me causava um arrepio.
"E um suco especial para te dar energia," completou João, me oferecendo o copo. "Você mal comeu hoje, precisa de força."
O cheiro do suco era doce demais, quase enjoativo.
Meu celular vibrou no bolso. Uma mensagem de um número desconhecido, provavelmente de algum fã anônimo que acompanhava os bastidores por lives piratas.
"CUIDADO. O COLAR E O SUCO. É UMA ARMADILHA."
Meu coração gelou. Olhei para a tela, depois para os rostos sorridentes de João e Lucas. Uma armadilha? Por quê?
Outra mensagem chegou.
"Eles não querem seu sucesso. Querem te usar e depois te descartar. O colar te deixa confusa, o suco te apaga. Eles querem te ver humilhada na passarela."
A verdade me atingiu como um soco no estômago. A inveja velada no olhar de João, a ambição sem limites de Lucas. Tudo fez sentido. Eles nunca acreditaram em mim, apenas viram em mim um degrau para a própria ascensão social. A "garota da favela talentosa" era uma boa história para a imprensa, uma forma de eles parecerem generosos e descolados.
Minhas mãos tremeram, mas não de medo. De raiva.
"Obrigada," eu disse, com a voz mais firme que consegui. "Mas eu não posso aceitar."
Peguei o colar e o coloquei de volta na caixa, fechando-a com um clique. Empurrei o suco de volta para João.
"Eu tenho minha própria rotina antes de um desfile. Agradeço a preocupação."
A surpresa no rosto deles foi evidente. O sorriso de João vacilou por um segundo.
"Sofia, não seja boba," ele insistiu, tentando forçar o copo na minha mão. "É só um suco. E o colar... foi caro. É para te proteger."
"Proteger do quê, João?" eu perguntei, meus olhos fixos nos dele. "De vocês?"
O ar ficou pesado. Lucas deu um passo para trás, visivelmente nervoso.
"Do que você está falando?" gaguejou Lucas.
"Eu sei de tudo," minha voz era um sussurro perigoso. "Eu sei o que vocês planejaram. Acharam que eu era ingênua? Acharam que podiam me destruir e sair ilesos?"
João largou o copo em uma mesa com força, o líquido espirrando. Seu rosto se contorceu em uma máscara de ódio.
"Sua ingrata!" ele cuspiu as palavras. "Nós te demos tudo! Te tiramos daquele buraco, pagamos por seus tecidos, te colocamos neste concurso! E é assim que você nos agradece?"
"Me deram tudo?" eu ri, um som amargo. "Vocês estavam investindo. Investindo em uma marionete que vocês poderiam controlar. Mas a marionete aprendeu a cortar as próprias cordas."
Eu me levantei, ficando cara a cara com ele. A diferença de altura era grande, mas naquele momento, eu me sentia uma gigante.
"O show de vocês acabou, João."
Virei as costas para ele e fui em direção a Lucas, que estava pálido, encostado na parede.
"E você, Lucas," eu disse, parando na sua frente. "Nos conhecemos desde crianças. Brincamos nas mesmas ruas. Eu confiei em você."
Ele não conseguia me encarar. Seus olhos focavam em um ponto qualquer no chão.
"Sofia, eu... eu não tive escolha," ele murmurou.
"Sempre existe uma escolha," eu respondi, a decepção transformando minha raiva em um gelo cortante. "E você escolheu a ganância. Escolheu a traição. Espero que tenha valido a pena."
Deixei os dois para trás, paralisados. O choque da descoberta, a dor da traição. Tudo queimava dentro de mim. Mas em meio às cinzas da nossa relação, uma nova chama se acendia. A chama da vingança.
Eles não me destruiriam. Eu os destruiria primeiro.
Enquanto caminhava pelo corredor, senti um par de olhos frios me observando de longe. Virei a cabeça e vi um homem de terno escuro, parado na sombra. Ele não era parte da equipe do evento. Ele me olhava com uma intensidade que me deu um novo tipo de calafrio. Quem era ele? A noite estava longe de acabar, e eu sentia que novos perigos, ou talvez novos aliados, ainda estavam por vir.
Eu precisava me livrar do suco e do colar. Deixá-los para trás seria suspeito. Foi então que vi minha rival, Camila, se exibindo para um grupo de outros competidores.
Camila era a personificação da arrogância. Rica, mimada e com um desprezo profundo por qualquer um que ela considerasse inferior, especialmente eu.
"Olhem só o que o gato trouxe," disse ela em voz alta quando me aproximei, garantindo que todos ouvissem. "A princesinha da favela. Suas roupas são feitas de lixo reciclado, Sofia?"
O grupo riu. Senti o sangue subir ao meu rosto, mas mantive a calma. Era a oportunidade perfeita.
Camila deu um passo à frente e, "acidentalmente", esbarrou em mim com força, fazendo-me tropeçar.
"Ops, desculpe," ela disse, com um sorriso maldoso. "Não te vi aí embaixo."
A humilhação era pública. Todos os olhares estavam em mim. Normalmente, eu teria baixado a cabeça e ido embora. Mas não hoje.
Eu me recompus e olhei diretamente para ela.
"Camila, você está certa," eu disse, para sua surpresa. "Eu estou um pouco nervosa. Talvez você possa me ajudar."
Peguei a caixa de veludo da minha bolsa.
"Meu irmão me deu este colar para dar sorte, mas... não combina com a minha coleção. Acho que ficaria perfeito em você. Considere um presente de paz."
A desconfiança brilhou em seus olhos, mas sua ganância foi mais forte. Ela abriu a caixa e seus olhos se arregalaram ao ver a pedra verde.
"É... interessante," ela disse, tentando parecer indiferente, mas eu vi o desejo em seu rosto.
"E este suco," continuei, pegando o copo que João havia deixado na mesa. "É uma bebida energética especial. Eu não gosto do sabor, mas ouvi dizer que faz milagres. Você parece um pouco pálida. Talvez precise de mais energia do que eu."
Eu estendi o suco para ela. A isca estava lançada. Ela me olhou, depois para o suco, depois para o colar. A ideia de receber algo de mim, algo que ela via como um símbolo da minha submissão, era irresistível.
"Bem," ela disse, pegando o colar e o colocando no pescoço. "Já que você insiste. Não quero que digam que não sou generosa com os... necessitados."
Ela pegou o suco e o virou de uma vez só.
"Delicioso," mentiu ela, fazendo uma careta discreta com o sabor excessivamente doce. "Agora, se me dá licença, tenho um concurso para ganhar."
Ela se virou e saiu desfilando, o colar amaldiçoado brilhando em seu pescoço, o suco adulterado correndo em suas veias. Suas amigas a seguiram, rindo e me lançando olhares de desprezo.
Eu fiquei ali, parada, enquanto o caos dos bastidores continuava ao meu redor. Um sorriso frio se formou em meus lábios. Eu não era uma santa. Eles queriam me jogar na lama, me ver rastejar. Mas eu aprendi a lutar no mesmo lugar que eles tanto desprezavam. E na favela, a gente aprende que, às vezes, para sobreviver, você precisa ser mais esperto e mais cruel que o seu inimigo.
Camila queria me humilhar. João e Lucas queriam me destruir. Eles me deram a arma. Eu apenas apontei para um novo alvo.
A primeira etapa do concurso estava prestes a começar. O tema era "Reinterpretação do Clássico". Todos os competidores estavam nervosos, reclamando da dificuldade e do pouco tempo.
Ouvi a voz de Camila, mais alta que todas as outras.
"Dificuldade? Por favor. Isso aqui é brincadeira de criança para mim. Meu pai conhece um dos juízes. A vitória já é minha."
Ela se vangloriava, exibindo seu design, que era uma cópia mal disfarçada de um famoso vestido de alta-costura. Mas o que mais me chamou a atenção foi o broche de ouro que ela usava em sua jaqueta.
Era o broche da minha mãe. O único objeto de valor que eu tinha dela, que havia sumido do meu pequeno apartamento há duas semanas. Eu o procurei por toda parte, desesperada. E agora, lá estava ele, enfeitando a roupa da minha maior inimiga.
A raiva me consumiu de uma forma que nunca senti antes. João e Lucas não apenas me traíram, eles me roubaram. Eles pegaram a única memória física que eu tinha da minha mãe e deram para aquela mulher como um troféu.
Camila percebeu meu olhar. Ela tocou o broche com um sorriso vitorioso.
"Gostou? Foi um presente. De alguém que sabe reconhecer o verdadeiro talento."
A mensagem era clara.
Ela se aproximou de mim, sua voz um veneno.
"Quando eu ganhar este concurso, vou comprar o seu morro inteiro e transformar em um estacionamento. E você vai assistir a tudo, do lixo de onde você veio."
Naquele momento, toda a minha dor, toda a minha tristeza, se transformaram em uma determinação de aço. Eles não iam apenas perder. Eu ia tirar tudo deles. Tudo.