No funeral do meu pai, a dor da perda era palpável, mas o que dilacerava a minha alma era ver o meu noivo, Léo, a consolar a minha madrasta Sofia, ignorando-me completamente sob a chuva fria de Lisboa. Mal sabia eu que aquele era apenas o começo de uma traição que viria a mudar tudo.
Quando o advogado de meu pai revelou a leitura do testamento, o choque foi imenso: a casa em Cascais e todas as poupanças para a Sofia e a Camila. Para mim? Apenas uma construtora afundada em dívidas, um fardo que o meu pai, que eu pensei que me amava, me tinha deixado. Senti-me duplamente abandonada, castigada por uma fortuna podre.
Regressei a casa para confrontar o Léo, que, ao saber da empresa, não hesitou em revelar a sua verdadeira face. O sorriso ganancioso no seu rosto desmascarou o homem que eu achava amar. "Isto vale milhões em dívidas!", atirei, e a sua expressão de nojo e frustração não tardou. A sua preocupação não era comigo, mas com o dinheiro. Com "os nossos" planos que agora voavam pelos ares. Aquela que devia ser a minha rocha, tornou-se areia.
Como é que o pai que me ensinou a ser forte me pôde deixar num buraco tão profundo? E como é que o homem com quem ia casar, por quem sacrifiquei tanto, me virou as costas no momento de maior desamparo, revelando uma ganância tão fria? Senti-me esmagada, mas também uma raiva crescente: de onde veio tanta insensibilidade?
Foi então que encontrei uma fotografia antiga de mim e da minha mãe, com a caligrafia do meu pai no verso: "A minha verdadeira riqueza. Perdoa-me, Ana." Uma centelha acendeu-se. Será que esta "herança" não era um castigo, mas o seu último e mais difícil presente? Eu não ia deixar aquele fardo destruir-me. Eu ia salvar a empresa. Não por ele, não por mais ninguém... mas por mim.
O funeral do meu pai acabou.
A chuva miudinha de Lisboa molhava-me o casaco preto.
O meu noivo, o Léo, estava ao meu lado, a segurar um guarda-chuva sobre a cabeça da minha madrasta, a Sofia.
Eu não tinha guarda-chuva.
A água escorria-me pelo cabelo e pela cara, mas eu não sentia o frio.
O Léo nem sequer olhou para mim uma vez.
Ele estava demasiado ocupado a consolar a Sofia, que chorava nos seus braços.
"Sofia, por favor, não chores mais. O tio Miguel não ia querer ver-te assim."
A voz dele era suave e cheia de preocupação.
A Sofia fungou.
"Léo, eu sei. Mas eu não consigo evitar. Agora que o teu tio se foi, o que é que eu e a Camila vamos fazer?"
Camila é a filha dela, a minha meia-irmã.
Olhei para a fotografia do meu pai na lápide. Ele parecia estar a sorrir para mim.
Senti um aperto no peito.
O meu pai morreu num acidente de carro há três dias.
Eu estava a trabalhar no Porto quando recebi a notícia.
Conduzi toda a noite para voltar a Lisboa.
O Léo não me ligou uma única vez.
Quando cheguei, encontrei-o a cuidar da Sofia e da Camila.
Elas pareciam ser a sua família. Eu era a estranha.
Agora, no funeral, a cena repetia-se.
Ele segurava a Sofia, sussurrava-lhe palavras de conforto e limpava-lhe as lágrimas.
Eu fiquei ali, sozinha, encharcada pela chuva.
"Léo," chamei, a minha voz rouca.
Ele finalmente virou-se para mim, a sua expressão irritada.
"O que foi, Ana? Não vês que a Sofia não está bem?"
"Eu também não estou bem. O meu pai morreu."
"Eu sei disso! Achas que és a única a sofrer? A Sofia perdeu o marido! A Camila perdeu o pai! Podes parar de ser tão egoísta por um momento?"
As suas palavras foram duras.
Olhei para ele, para o homem com quem ia casar em dois meses.
Não o reconheci.
"Egoísta? O meu pai acabou de ser enterrado e tu estás a consolar a mulher dele em vez da filha dele. E eu é que sou a egoísta?"
A Sofia soluçou mais alto, agarrando-se ao braço do Léo.
"Léo, não discutam. É tudo culpa minha. Eu não devia estar a causar problemas."
O Léo olhou para mim com raiva.
"Vês o que fizeste? Deixa-nos em paz, Ana. Vai para casa. Precisas de te acalmar."
Ele virou-me as costas e voltou a focar-se na Sofia.
Fiquei a olhar para as costas dele, sentindo-me completamente vazia.
O meu pai tinha-se ido.
E o homem que eu amava tinha-se tornado um estranho.
A chuva ficou mais forte.
Dei meia volta e afastei-me do cemitério, sozinha.
Cheguei ao apartamento que partilhava com o Léo.
Estava vazio e silencioso.
A casa parecia fria, desprovida de qualquer calor.
Tirei a roupa molhada e tomei um banho quente, mas o frio dentro de mim não desaparecia.
Vesti um pijama e sentei-me no sofá, a olhar para a parede em branco.
O meu telemóvel vibrou na mesa de centro.
Era o Léo.
Ignorei.
Vibrou outra vez. E outra.
Finalmente, atendi.
"Estás mais calma agora?"
A voz dele soava distante, como se estivesse a falar com uma conhecida casual.
Não respondi.
"Olha, Ana, eu sei que estás triste. Todos nós estamos. Mas não podes atacar a Sofia daquela maneira. Ela já está a passar por muito."
"Atacar? Eu só fiz uma pergunta, Léo."
"O teu tom não era de quem faz uma pergunta. Estavas a acusar-me."
"Talvez estivesse. Onde é que tu estiveste nos últimos três dias, Léo? O meu pai morreu. Eu precisei de ti."
Ele suspirou, um som de pura exaustão.
"Eu estive a tratar das coisas! O funeral, os papéis, a consolar a Sofia e a Camila. Alguém tinha de ser o adulto responsável aqui, já que tu estavas a ter um colapso."
Senti uma raiva fria a espalhar-se pelo meu corpo.
"Eu não estava a ter um colapso. Eu estava de luto. Existe uma diferença."
"Para mim pareceu a mesma coisa. Ouve, eu não tenho tempo para isto agora. A Camila está com febre, vou levá-la ao hospital. A Sofia está muito preocupada."
"Claro. A Camila."
"O que é que isso quer dizer?"
"Nada. Vai. A tua verdadeira família precisa de ti."
Desliguei o telefone antes que ele pudesse responder.
Joguei o telemóvel para o outro lado do sofá.
Enterrei o rosto nas mãos.
O meu pai sempre me disse que o Léo era um bom homem.
"Ele cuida de ti, Ana. Isso é o que importa."
Será que cuidava?
Ou será que ele só cuidava da ideia de família que a minha madrasta e a minha meia-irmã representavam?
Eu era apenas um obstáculo. Um lembrete de uma vida anterior do meu pai que ele preferia esquecer.
Levantei-me e fui até ao nosso quarto.
Abri o guarda-roupa. As roupas dele estavam penduradas ao lado das minhas.
O vestido de noiva que eu tinha comprado estava numa capa protetora no fundo.
Puxei-o para fora.
Olhei para o tecido branco e imaculado.
Parecia uma piada de mau gosto.