Seria triste, se não fosse cômico escutar a mesma pergunta o tempo
- Seus pais são fãs de Jane Austen? Você tem apenas vinte e dois anos,
é o único motivo para...
- Ter nome de gente velha? - cortei o garoto abusado e arrogante. Não gostava dele e podia sentir de longe a energia pesada que emanava, mas pelo bom convívio, eu o suportava e fingia que aquilo não me abalava. - Não, Elizabeth era o nome da minha avó e tenho muito orgulho de ter o mesmo nome que ela.
Minha avó havia se fodido muito na vida, e eu parecia não ter só herdado o nome, como também o gênio da mulher. Ela criou meu pai e meus tios batendo de porta em porta, trocando faxina por um lugar para dormir e algo para eles comerem. Assim que meu avô, um italiano que gostava de uma boa cachaça, morreu atropelado enquanto ia para o trabalho, minha avó perdeu tudo o que tinha, sendo expulsa da casa alugada logo em seguida.
Ela tinha sido um exemplo, e a saudade que deixou quando morreu ainda era um rombo enorme no meu coração. Talvez, se não fosse sua partida, eu não estaria aqui, sentada na cadeira da faculdade, estudando para ser uma escritora decente e fazendo meu inglês melhorar para poder tentar um intercâmbio.
Mesmo com três meses de faculdade atrasados, eu precisava dar um jeito na minha vida, que vinha sendo uma montanha de emoções desde que meu pai ficou doente e eu perdi o emprego. A última entrevista na qual compareci acabou comigo; eu tinha quase morrido de felicidade por ter passado em todas as etapas, e iria finalmente começar a trabalhar. Só que um dia antes de tudo começar, recebi um e-mail dizendo que infelizmente a minha vaga deixaria de existir por um reajuste da empresa.
Todos os meus sonhos pareciam estar indo pelo ralo.
O intercâmbio, a chance de quitar minhas dívidas todas, o namoro que eu havia investido tanto tempo... Até mesmo minha imaginação extremamente fértil
andava me deixando na mão, e eu ainda estava ali, sentada, para fazer uma prova substitutiva em uma matéria que tinha me dado mal.
Eu rezei para não pegar uma bela pendência naquela merda.
- Ignora... - Isabella, minha parceira nos últimos quatro meses, me deu algumas batidinhas no ombro.
Tínhamos uma conexão bizarra, tipo aquela sensação de "já te vi em algum lugar". Procuramos em tudo quanto é canto, mas a única coisa em comum era que tínhamos casas de praia no mesmo lugar - o único bem restante dos meus pais. De qualquer jeito, ela havia armado a loucura daquela noite, insistindo que eu precisava de uma comemoração urgente por me livrar de um relacionamento ruim depois de tantos anos.
- Espero que seja a primeira balada hétero que preste, juro! Pelo menos dizem que eles recebem muitos estrangeiros, vai que eu encontro uma francesa ou uma americana querendo experimentar algo novo? - Isa piscou para mim e me fez rir. - Boa prova! - ela me desejou antes de eu perceber que a professora baixinha estava dentro da sala de aula.
* * *
- Escrevi uma bíblia inteira nos últimos setenta minutos, minha mão está doendo pra caralho! - reclamei. Eu era um pouco boca suja, confesso, mas palavrão era advérbio de intensidade, na minha concepção.
- Exagerada... - Isa cantou para mim, sorrindo com seus um metro e setenta de bronzeado, pernas longas e corpo magro. Seus cabelos cacheados iam até pouco abaixo dos ombros, e seus olhos eram enormes e quase pretos, eu invejava isso nela. - Vamos logo para a casa das minhas amigas, vamos nos trocar lá e esquecer essa merda de faculdade até semana que vem! - Ela me puxou pelas rampas da PUC como se a vida dependesse daquilo.
Sendo bem sincera, eu adoraria que aquela noite trouxesse minha libertação.
* * *
O apartamento das amigas de Isa não ficava longe, era uma república feminina. Eu conhecia de vista uma ou duas meninas, mas nenhuma era realmente minha amiga. Em sua grande maioria, eram meninas do interior, com pais multimilionários, mimadas a ponto de eu não conseguir conversar meia hora com qualquer uma delas sem revirar os olhos ou falar algo que faria Isabella receber olhares tortos por ter me convidado.
Quando terminamos de nos arrumar, aproveitei que estava sozinha e me encarei no enorme espelho da sala. Eu era a mais baixa dali, com pouco mais de um metro e meio. Também era a gorda do grupo, considerando que até a garota mais magra dentro daquele apartamento queria fazer lipo porque a barriga tinha dobrinhas quando ela se sentava.
Me sentia bem com meu corpo, e isso bastava. Havia herdado os grandes seios da parte italiana da família e a bunda grande da parte brasileira. Entretanto, por mais acinturada que eu fosse, sempre seria gorda, e por mim tudo bem. A única coisa que me incomodava era usarem a palavra "gordo" como ofensa quando aquilo não passava de um adjetivo como qualquer outro.
Estava vestida com uma combinação esquisita, mas que funcionava. Uma mistura de botas overknee, meia-calça, shorts e uma camisa xadrez larga por cima de uma regata branca. Meu cabelo liso e comprido estava na altura da bunda, e tudo o que fiz foi um coque no alto da cabeça.
A maquiagem de olhos esfumados que Isa insistiu em fazer no meu rosto só deixou meus olhos menores, mas eu não me importei, porque minha marca registrada era o batom vermelho. Eu tinha uma boca bonita, bem desenhada e cheia, com lábios inferiores mais carnudos do que os superiores.
Estava realmente gostando de me ver em frente ao espelho, até que todas as garotas chegaram perto e eu pude perceber o quanto todas elas eram mais atraentes do que eu. A insegurança foi sorrateira, e, por um minuto, o pensamento de ter sido burra por terminar meu namoro me consumiu. Respirei fundo e me olhei novamente no espelho antes de sair para chamar o elevador, afirmando para o fantasma da baixa autoestima que ele não me dominaria mais.
A liberdade de uma noite insana era tudo o que eu precisava, e nada estragaria isso.
* * *
O letreiro ultra luminoso era bem maior do que eu imaginava, e as pessoas me encaravam mais do que eu gostaria de ser olhada.
- Por aqui, os VIPs não precisam esperar - a garota loira encarou a fila com desprezo e mais uma vez eu revirei os olhos. Se continuasse nesse ritmo, até o final da noite, eu estaria enxergando meu próprio cérebro.
O segurança pediu o RG de todas, para confirmar a idade, e me encarou de um jeito sujo quando percebeu que eu era a mais velha do grupo.
- Que foi? Perdeu alguma coisa? - perguntei, erguendo a sobrancelha e tirando o sorrisinho atrevido da cara do homem, que colocava a pulseira no meu braço. - Obrigada!
Puxei o braço com mais violência do que precisava e segui atrás de Isa.
* * *
Primeiro tudo estava escuro, e então comecei a sentir o grave do som bater forte dentro de mim, no meu estômago ou no meu útero, eu não sabia direito.
Meus olhos demoraram a se adaptarem a tanta luz neon. Tinha muito mais gente do que eu esperava lá dentro e - obrigada, Deus - a música era boa!
Eu amava dançar, amava demais me libertar daquele jeito, e fazia um bom tempo que isso não acontecia. Na verdade, mal conseguia me lembrar de qual tinha sido a última vez em que tinha feito aquilo.
- VEM! - eu li os lábios de Isa, e ela me puxou pela mão até o camarote.
Ser VIP era realmente algo naquele lugar. Os convites foram oferecidos pelo tio de uma menina chamada Camilla, eu não tinha certeza se esse era o nome dela. Isa havia me contado que ele era o mais novo sócio do lugar. Aos meus olhos, pela quantidade de gente ali dentro e pelas que estavam esperando para entrar, o homem tinha feito um ótimo negócio.
Os camarotes eram na altura dos palcos e distribuídos pelo salão, o chão de um carpete vermelho escuro quase se misturava com o estofado dos sofás, que circulavam o que eu achei ser uma mesinha, mas logo percebi que eram pequenos palcos de pole dance. A área tinha um parapeito transparente, que nos permitia ver a pista. A minha vontade de dançar cresceu enquanto ouvia as meninas conversando.
- Ei! Vamos esquentar! - Isabella me estendeu um shot com alguma bebida, brindamos e colocamos para dentro. Não tinha ideia do que era aquilo, mas desceu queimando pela garganta.
- Opa! - balancei a cabeça. - É bom que isso seja bem caro, porque eu vou dar um prejuízo da porra! - E foi o que fiz, tomei mais uma dose daquilo e peguei uma garrafa que deixaram em cima da nossa mesa.
- Vocês vão pra pista? - perguntei para as meninas, que já tinham sentado no sofá vermelho como se estivessem em uma casa de chá.
- Não mesmo, a vista está muito boa daqui... - Carol me respondeu e logo em seguida mordeu o canudo de seu drinque, encarando algo atrás de mim. Quando me virei para ver, por sorte, meus cabelos se soltaram e desceram pelas minhas costas, escondendo parte do meu rosto.
Os homens eram bonitos, do tipo que nunca iriam olhar para mim. Então
depois de apreciar a vista e me recuperar, dei de ombros e chamei a única pessoa ali que eu sabia que não estaria interessada naqueles caras, a não ser que eles tivessem uma boceta. Peguei Isabella pela mão e fomos para a pista, ficando na frente da área VIP, para que ninguém se perdesse ou encontrasse alguma confusão.
Parecia que o DJ havia recebido de alguma forma celestial a informação de que estava dançando e colocou para tocar uma sequência de músicas que eu adorava. Dançava de olhos fechados, às vezes sentia mãos em minha cintura, mas tudo o que fiz foi empurrar seja lá quem fosse.
Ainda não estava pronta para beijar outra boca que não fosse a do meu ex-namorado. Era triste saber que aquela coisa de "não namoramos, mas estamos juntos" começava a desmoronar. Não adiantava terminar o namoro e continuar a tratar Pedro como se tudo fosse como antes, sem saber como evitar quando ele me abraçava ou beijava enquanto contava os dias até eu tomar a decisão final de evitá-lo. Então, o momento de perder meu ex-namorado-melhor-amigo iria chegar. Assim, mesmo estando em uma briga particular com Deus a uns belos dois meses, eu orei.
Orei no meio de uma balada, quase bêbada por não ter comido nada e cheia de mágoa dentro do meu coração. "Deus, se você ainda ouve quando eu te chamo, por favor, faça meu coração parar de doer tanto". E foi nessa hora que resolvi abrir os olhos, enquanto o refrão de Enjoy the Silence tocava alto, e vi uma quantidade absurda de seguranças em volta de um único homem passando em direção ao camarote.
Quem será que tinha tanto dinheiro para precisar levar os seguranças na balada? Revirei os olhos e voltei a dançar, com raiva por saber que em casa meus pais estavam desesperados, esperando a resposta de um processo sair. Estava com risco de não conseguir continuar a faculdade por conta dos atrasos, com o nome fodido no banco, sem meu pai saber, e então um riquinho metido à besta esbanjava o dinheiro em baladas daquele tipo e precisava ter quinhentos seguranças gorilões. Será que ele limpava a bunda com dinheiro também?
- Preciso beber alguma coisa mais forte, já volto - disse no ouvido de Isa antes de sair de perto dela e voltar ao camarote.
Fiquei surpresa ao ver que as meninas tinham conseguido atenção de um dos homens da outra mesa, eles pareciam mais velhos, e confesso que bem intimidadores.
Sem falar nada, ajoelhei-me na frente da mesa e me servi de uma, duas, três doses de tequila. Aquilo ia dar merda, mas não precisava ir para casa naquela noite. Tudo o que fiz foi dar de ombros e ter certeza de que não vacilaria ao me levantar, mas não deu muito certo.
- Você está bem? - o cara que estava sentado entre as meninas perguntou, e eu entendi que aquele grupo todo era gringo.
Dei risada, deixando-o sem entender.
Peguei seu copo cheio de uísque de modo atrevido, levantei no ar e brindei antes de dar um gole na bebida. Devolvi o copo, pisquei para o cara e saí em direção à pista com uma garrafa de uma dessas cervejas novas que tem gosto de tudo, menos de cerveja.
* * *
Não percebi a hora, mas logo a garrafa em minha mão já havia se esvaziado e eu via o mundo de um jeito muito mais legal. Enquanto dançava com Isa, tentando me equilibrar em cima do salto toda vez que me sentia vacilar, tomei consciência da mulher que dançava em uma plataforma no meio da pista. A garota estava quase sem roupa e se mexia de um jeito muito sensual junto de outro dançarino.
Eu nunca liguei muito para gênero, desde que gostasse da pessoa, e graças a coragem desenfreada que o álcool causava, estendi minha mão para que o homem me puxasse lá para cima.
Ouvi os gritos de excitação que as pessoas em volta deram quando viram uma terceira pessoa no palco. Vi Isabella rindo e li seus lábios: "sua louca". Encarei o grupinho de meninas mimadas, que me olhavam irritadas por perderem momentaneamente a atenção do gringo, e então parei meus olhos no homem que havia chegado com os seguranças.
Minha dança foi inteiramente para ele, passei minhas mãos pelo corpo da mulher enquanto rebolava no homem e permiti que ela colocasse as mãos em mim também. O cara me segurava pela cintura, e eu podia sentir o membro duro dele roçando bem no meio da minha bunda. Eu ri, sentindo cada parte do meu corpo latejar. Senti também culpa por estar sem transar há pelo menos um mês, culpa por estar querendo algo que ninguém entendia e podia dar. Querendo realmente ser, uma vez na vida, Elizabeth de Jane Austen e ter um Sr. Darcy para entender quando eu fosse uma filha da puta, ogra, no ápice no meu mau humor e que me amasse, me cultuasse e me quisesse para sempre.
A música acabou, minha vontade de estar ali em cima também, mas o show precisava terminar do modo certo. Sabia que os olhos do homem que provoquei estavam sobre mim, então puxei o rosto dos dançarinos e pisquei para o desconhecido antes de darmos um belo beijo triplo, que levou o público da casa à loucura.
Quando desci do palco, esgueirei-me até Isabella, e ela me abraçou.
- Sua maluca! Foi a coisa mais sensual que eu já te vi fazer! - ela ria.
- Não me faça querer te dar uns beijos também!
Então foi minha vez de rir, eu sabia que não fazia o tipo dela, nem ela o meu. Nós éramos mais parceiras de alma do que de corpo.
Estávamos dançando, aproveitando o restante da noite, quando senti duas mãos na minha cintura, quase entrando pelo meu short. Tentei dar uma cotovelada para trás, mas a pessoa não se moveu, continuou com as mãos em mim.
- QUE CARALHO DE PARTE VOCÊ NÃO ENTENDEU QUE É PRA
TIRAR SUAS MÃOS DE MIM? - gritei por causa do som alto e também pela raiva.
Eu era forte e dei um jeito de conseguir afastar o cara o suficiente para poder me virar e encarar o armário em forma de gente vestido de azul.
- Qual é? Você estava se divertindo ali em cima e provocando tanto... Eu sei o que você quer - o cara se aproximou de novo e me travou contra o peito dele, o cheiro de cigarro em sua camisa me fez querer vomitar.
- Me solta, agora! - Sabia me defender, agradeci mentalmente a minha maluquice de querer emagrecer fazendo lutas.
Não emagreci, mas aprendi a dar alguns golpes.
Antes que eu pudesse fazer qualquer coisa, dois seguranças surgiram do nada, segurando o homem e o fazendo tirar as mãos de mim. Agradeci por estar livre, mas não antes de levar meu joelho com toda força que tinha bem no meio das pernas daquele merda.
- Nunca mais encoste em nenhuma mulher sem que ela queira, entendido? - falei bem próximo ao ouvido do cara, que havia se encolhido pela dor.
Achei que naquela hora os seguranças iam me levar embora, afinal, em São Paulo ou em qualquer lugar do mundo, a regra é clara, não? Arranjou confusão, vai para rua. Mas os homens olharam em direção ao camarote e tudo o que eu vi foi o branquelo de cabelos castanhos indicando com a cabeça a porta dos fundos. Os seguranças pareciam não me ver e saíram arrastando o cara pelo caminho indicado.
Naquele momento, eu saí empurrando as pessoas e ainda que estivesse cambaleando, fui para a área vip. Precisava falar umas coisas para aquele cara.
Quando me aproximei dele, falei no meu melhor inglês bêbado.
- Eu não preciso da sua ajuda!
Nem esperei resposta, apenas me virei e saí puxando Isabella, que me olhava chocada, em direção ao bar.
- Senta aí! - ela mandou, e eu me larguei em um dos bancos. - Você
está bem?
- Estou, preciso beber mais algumas doses e vou ficar ótima!
- Então vamos lá! - Isa não era o melhor exemplo quando se tratava de sobriedade, nem de maturidade, mas aquela noite nós podíamos tudo.
As pulseiras da área VIP nos davam acesso a todas as bebidas, e nós duas ficamos experimentando drinques de nomes bizarros até a hora que percebi que precisava urgentemente usar o banheiro.
Quando me levantei, precisei sentar de novo.
A bebida tinha feito seu efeito. Eu estava tão bêbada, que mal conseguia
andar.
- Eiiiiiii, Isa! Vou mi-jar, me espere be-em aqui! - disse em tom
pastoso e me virei, deixando Isa dando risada sozinha no bar.
Quando cheguei à porta do banheiro feminino, vi que a fila estava enorme e senti o cheiro nojento que vinha do lugar. Bêbada daquele jeito, eu não tinha condições de me segurar para não me encostar ao vaso, e ainda usando aqueles saltos... Então olhei para os lados, meio atrapalhada, e empurrei a porta do banheiro masculino.
CAPÍTULO 2
O banheiro não estava tão cheio, um cara que usava o mictório reclamou, e eu mostrei o dedo do meio para ele enquanto procurava uma cabine livre. Era estranho como o banheiro dos homens não estava podre como o das mulheres.
Depois de quase virar o pé três vezes na tentativa de fazer xixi sem me encostar ao vaso, sentei-me e dei risada, que merda eu estava fazendo ali? Eu me limpei e dei descarga, depois subi as calças me apoiando nas paredes e saí, numa tentativa falha de andar em linha reta até a pia. Encarei meu reflexo e dei risada novamente - Deus sabia o quão bêbada eu estava.
Bebi um pouco de água da torneira, na esperança de que dois goles d'água fossem capazes de me livrar de uma ressaca das bravas, e ajeitei a maquiagem dos olhos, que parecia borrada. Tirando aquilo, até que eu não estava nada mal.
Lembrei-me da minha insanidade na pista de dança e gargalhei sozinha, pensando na provocação gratuita, mas logo parei de rir, pois fui interrompida pelo barulho alto da porta batendo e anunciando que eu não estava mais sozinha. Havia um segurança dentro do banheiro, isso normalmente não me deixaria nervosa, mas o homem para quem eu havia dito que não precisava de ajuda estava lá também, me encarando com um sorriso de canto nos lábios finos
e mãos nos bolsos de sua calça jeans, que deveria ser muito cara.
- E-e-está perdido? - trancei a língua, mas ainda soava compreensível em inglês; meu coração batia nos ouvidos graças ao medo de algo acontecer contra a minha vontade. Obrigada, fogo no cu, pela bebida!
- Eu não falo sua língua, mas você parece falar muito bem a minha - o homem falou em inglês. Malditos gringos.
Tomada de uma ousadia embriagada, comecei a mostrar minha indignação para o estranho, gastando o inglês que eu tinha suado para aprender.
- Vocês são folgados demais, quando pisamos na terra do Tio Sam, somos todos obrigados a saber a língua de vocês, mas quando vocês vêm para a nossa terra, tanto faz né? E não, nós não falamos espanhol. Chama-se português,
conhece? - Eu nem sei o porquê comecei a falar aquelas coisas para o cara, e nem sabia se era sensato fazer isso. Ele só ficou me encarando de maneira fria, como se tivesse o poder de controlar o mundo e bem... talvez ele tivesse.
Eu o observei ser o centro da mesa com seus companheiros, então ele certamente não era protegido daquele modo à toa.
- Eu sei que vocês falam português, o que eu não entendo é essa sua postura... Já havia escutado que brasileiras eram quentes... - ele disse, aproximando-se lentamente. - Mas o que você é ainda não tem nome - ele sorriu e não chegou aos olhos.
Não gostei.
- Onde aprendeu a dar uma joelhada daquele jeito? - o homem colocou a mão no meu queixo e olhou profundamente nos meus olhos, aproximando nossos rostos.
Eu sei que estava mais bêbada que bicha menor de idade em parada gay, mas aquele homem conseguia ser mais bonito de perto do que de longe, e de longe ele já era maravilhoso. Pude ver os olhos castanhos me encarando sob um belo par de sobrancelhas grossas e vivas, uma delas estava erguida como se esperasse logo a resposta.
A boca fina estava aberta em um sorriso de dentes brancos e retos. Notei os caninos proeminentes e sorri, achando aquilo sexy pra caralho. O rosto tinha as mandíbulas marcadas e a barba por fazer, me lembrei de anotar esse fato mentalmente porque isso significava testosterona, e eu já esperava um belo pau grande. Comecei a rir loucamente do meu pensamento sujo, o homem pareceu não entender nada, o sorriso em seu rosto sumiu e ele tirou a mão de mim, mas continuou me encarando.
De repente, graças a minha crise de riso, eu vacilei com aqueles saltos enormes, e ele me puxou pela cintura, sustentando meu corpo e me fazendo voltar ao equilíbrio. Ter aquele homem me segurando era irreal, eu não era o tipo dele, então tentei não me abalar.
- Me desculpe - falei, parando de rir e limpando as lágrimas que saíam dos olhos. - Preciso encontrar minhas amigas - tentei me soltar, mas ele não me largou.
- Eu poderia te levar em casa... Segura e inteira, eu juro - ele ergueu as mãos, finalmente me soltando, e eu o encarei como se fosse louco.
- Não sei como é no seu país, mas, aqui, essa situação em que estamos já é estranha, então faça o favor de sair da minha frente, ou farei um escândalo. O tio de uma das minhas amigas é dono disso aqui e seria assim - estalei os dedos - para eu te foder.
O cara ergueu as sobrancelhas e se afastou de mim como se tivesse
tocado em algo muito quente. Logo saiu da minha frente, e eu passei, tentando manter minha dignidade sem cair de cara no chão.
O segurança não liberou o caminho, e eu me virei, irritada, olhando para o gringo com as mãos na cintura.
- Você vai mandar ele me deixar sair, ou eu vou precisar lidar com ele do meu jeito? - ameacei, sabendo que não daria conta nem mesmo de dar um tapa na cara daquele armário em forma de gente.
- Antes de ir, me diga seu nome - ele provocou.
- Elizabeth - falei, entediada.
- Sobrenome?
Pra que diabos ele queria meu sobrenome? Ia me adicionar no Facebook? Minha vontade era mandar ele se foder, mas me controlei para terminar de vez com aquela situação.
- Fabbri.
Ele ergueu as sobrancelhas, parecendo interessado.
- Italiana?
- Porca miseria! - eu xinguei, e ele pareceu se divertir.
- Deixe a garota ir, Henry... - ele permitiu, ainda com aquele sorriso zombeteiro nos lábios.
- E seu nome? - tentei me fazer de idiota, mas estava curiosa.
- Louis Luppolo - ele respondeu mais sério do que eu esperava.
- Até nunca mais, senhor Luppolo... - eu disse seu sobrenome lentamente, olhando por cima do ombro, antes de sair batendo a porta atrás de mim.
* * *
"O que acabou de acontecer?", foi tudo o que pude pensar antes de encontrar Isa e avisar que estava indo embora.
A ressaca moral foi grande, mas a ressaca de álcool me deixou na cama, evitando luz e som alto por todo o final de semana.
Eu estava sem celular, havia deixado o coitado cair quatro vezes no mês, e meu dinheiro tinha acabado, não tinha como arrumar naquele momento. Isso não significava muita coisa quando as pessoas ainda tinham o chat do Facebook para falar comigo, mas eu fugi de todos naqueles dois dias. Precisava colocar minha cabeça no lugar, fazer uma promessa de que não colocaria álcool na boca tão cedo e que com toda a certeza eu nunca mais sairia com aquelas meninas.
* * *
Na segunda à noite, quando Isa me abraçou na sala de aula, eu tive certeza de que nem elas queriam sair comigo de novo. Pelo menos uma coisa boa.
Estava um frio do cacete. O começo de julho castigava, e Perdizes tinha a péssima mania de ser uma geladeira, mesmo no verão. A faculdade estava quase vazia; tirando os poucos vendedores ambulantes e as pessoas que bebiam mais do que estudavam, não tinha nenhuma alma viva nas ruas laterais da PUC.
- Vamos beber alguma coisa em comemoração! Passamos raspando! - Isa me obrigou a ir para o bar.
- Eu realmente não estou no clima, Isa. Vou te deixar no bar com alguém decente e depois vou subir para pegar meu ônibus.
- Não quer que eu chame um Uber? - Isa vivia querendo me ajudar, mas eu odiava que gastasse dinheiro comigo. Orgulho era um defeito grande dentro de mim.
- Não, só me empreste seu celular para eu ligar para minha mãe. Ela fica louca esperando na janela a cada ônibus que passa para saber se eu cheguei.
Isa deu de ombros e me entregou o celular.