Kyara Smirnov
"Pode abrir os olhos, meu amor. Você já
está em casa."
As palavras pareciam gentis, contudo, foi a
voz que imediatamente reconheci que me fez abrir
os meus olhos, em pânico.
- Boris?
Tentei me levantar, mas eu me sentia
aturdida, então, apenas me rastejei pela cama
tentando colocar o máximo de distância possível
entre nós dois. A minha cabeça pesava e eu sentia
como se meu corpo tivesse sido sacudido e girado
em várias direções.
- Onde eu estou? - indaguei fracamente
- O que estou fazendo aqui, Boris?
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Aos pouquinhos, parte do que eu
conseguia recordar vinha como flashes em minha
mente. A visita de Sonya, o presente de casamento
que ela disse que iria me dar.
Meu casamento.
- Dmitri!
Ao chamar por ele, os olhos cheios de
rancor de Boris caíram sobre mim, ele avançou em
minha direção, agarrando forte meus braços.
- Nunca mais suje sua boca com o nome
dele - ordenou ele, fixando os olhos carregados de
ódio nos meus.
Sempre temi a Boris, conhecia seu lado
cruel e como ele se transformava em uma pessoa
emocionalmente instável, mas nunca senti tanto
pavor como agora. Ele tinha ultrapassado todos os
limites e seria capaz de qualquer coisa.
- Você me sequestrou - acusei-o e
tentei me soltar sem sucesso - Um dia antes do
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meu casamento.
Um dos meus braços foi liberado quando
ele passou a mão em meu rosto. Isso me lembrou
Dmitri e de seu toque suave em mim.
- Nunca permitiria que se casasse com
ele - avisou Boris - Eu já disse, Kyara, você é
minha. Sempre foi e sempre será.
Boris era louco, não havia outra forma de
poder descrevê-lo. Amar alguém não era forçá-la a
ficar com você, mas sim, deixar que ela decidisse
se queria ficar, como Dmitri havia feito na Suíça.
- Você tem que me libertar, Boris -
disse angustiada - Se Dmitri...
Ele segurou firme o meu queixo, apertando
forte meus lábios, impedindo que eu continuasse a
falar. Lágrimas se formaram em meus olhos, de dor
e de desespero.
- Já disse para não falar dele. Não me
obrigue a ser violento com você para que entenda,
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Kyara.
Ao som de sua ameaça, entendi uma coisa,
não havia nada que eu pudesse dizer para conseguir
fazê-lo mudar de ideia, pelo menos não agora. Eu
tinha era que me manter viva, até encontrar uma
forma segura de sair daqui, porque eu sairia daqui
ou morreria tentando.
Isso me fez lembrar de algo que Irina me
disse uma vez sobre Dmitri. Excluindo os dias que
estive trancada no quarto e passei fome, nunca tive
realmente o desejo de fugir dele, não como sentia
com Boris. Porque por mais que eu tenha sido
mantida contra a minha vontade por algum tempo e
sido privada de minha liberdade, eu nunca consegui
ver nos olhos de Dmitri o mesmo tipo de escuridão
e maldade.
- Eu sei que você pode estar confusa
agora - disse ele ao me soltar - Estava prestes a
realizar o sonho de toda garota na Bratva, ser a
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escolhida do Pakhan.
Nunca almejei esse sonho, pelo contrário,
sempre desejei ir para bem longe desse mundo. Eu
me apaixonei por Dmitri e não pelo o que ele
representava. Aceitava e entedia o Pakhan porque
era parte de quem ele era, mas eu sempre iria
preferir sermos apenas Kyara e Dmitri, o casal que
teve dias incrivelmente lindos nas montanhas.
- Você ainda irá conseguir isso, minha
pequena - Boris se afastou da cama e eu me
encolhi mais contra a cabeceira - Vou acabar com
o Milanovic e serei o novo Pakhan.
Sem que eu pudesse controlar, um ganido
angustiado escapou de minha garganta. Pensar que
Boris pudesse ao menos tentar ferir Dmitri me
aniquilava por dentro.
- Vou dar um tempo para que assimile
tudo - disse ele antes de caminhar em direção à
porta - Descanse e depois voltamos a conversar.
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Vou esperar que esteja mais acolhedora.
Saltei da cama quando a porta do quarto
fechou logo após Boris sair. Uma vertigem me fez
tatear o ar até encontrar a parede onde consegui me
equilibrar. Poderia ser algum sintoma da gravidez,
mas eu tinha certeza que ainda era efeito do
clorofórmio que Sonya usou para me manter
desacordada e, assim, poder me sequestrar.
Será que teria algum efeito colateral para o
meu bebê? Apoiei as costas contra a parede e levei
a mão ao meu ventre.
Lágrimas pesadas deslizaram pelo meu
rosto. Eu nem havia contado a Dmitri sobre o nosso
filho, e me arrependia tanto por isso. Agora, eu
estava longe, nas mãos de um louco que poderia
fazer qualquer coisa comigo e com nosso filho
porque odiava o pai dele.
Não, eu precisava manter isso em segredo.
Precisava manter a calma e tentar agir com
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racionalidade. Eu não deixaria que Boris ou
qualquer outro colocasse em risco a vida de um
inocente que nem tivera a oportunidade de vir ao
mundo, cruel, mas que teria pessoas que o
amariam.
Rastejei-me até a porta, estava trancada,
isso não foi surpresa alguma para mim, mas eu
precisava tentar. Fiz o mesmo caminho de volta,
sustentando-me na parede, já que ainda não tinha
total controle do meu corpo, no entanto, fui em
direção à janela em vez da cama.
Esta não era a mansão Kamanev, percebi
isso assim que abri os olhos. Este quarto não era
igual a nenhum dos que tinha em minha antiga
casa. Quando puxei a cortina, o pânico começou a
me fazer suar frio.
Existiam grades com espaço apenas para
uma mão. O material da janela antiga e os ferros
novos soldados nele indicavam que foram
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colocados há pouco tempo. O pouco que conseguia
ver ao redor da casa também não animava muito.
Muitas árvores revelando um floresta densa e
muros altos.
Isso queria dizer que Boris estivera o
tempo todo arquitetando seu plano monstruoso de
me arrancar de Dmitri, e Sonya, a quem sempre
amei e protegi, havia agido ao lado dele, traindo a
minha confiança. Tudo o que eu vivia agora era
culpa dela, pois, eu teria fugido de Moscou naquela
mesma semana em que ela pediu minha ajuda para
enganar Boris e o médico dele.
Eu não conseguia me arrepender
totalmente por ter saído em socorro de Sonya –
embora ela nunca tivesse merecido a minha ajuda –
porque com isso, mesmo com a confusão inicial,
duas coisas maravilhosas tinham acontecido em
minha vida: Dmitri e nosso bebê.
Também havia todas as outras pessoas que
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entraram em minha vida para ficar e que jamais me
fariam sofrer como Sonya fazia. Vladic e seu jeito
irônico, sempre arrancando um sorriso de mim;
Irina com sua inteligência, fazendo-me olhar com
coragem meus sentimentos, e me tratava com mais
consideração e respeito do que minha irmã de
criação a vida toda; Amarillo, Darya, Kalina e seus
avós. Tantas pessoas boas que eu queria muito
rever, pessoas que eu desejava compartilhar minha
felicidade.
Fiquei olhando para o céu escuro. Eu
gostava de observar a lua e descobri que Dmitri
também apreciava. Pensar nele me causava um
novo tipo de dor, uma dor literalmente física que
começava em meu coração e irradiava por todo o
meu corpo. Enquanto novas lágrimas deslizavam
por meu rosto, eu pensava em tudo o que poderia
estar acontecendo em casa.
Quando ele havia percebido que eu já não
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estava mais lá? Ele acharia que fugi ou perceberia
logo de início que eu havia sido levada à força?
Quanto tempo Dmitri e Vladic levariam para me
encontrar? Eles conseguiriam me encontrar? Como
ele estava se sentindo ao saber que horas antes de
fazermos nossos votos um ao outro, eu tinha sido
arrancada dos seus braços? Ele saberia que foi o
Boris ou imaginaria que foi algo da Tambovskaya
em retaliação?
Eram tantas perguntas rondando minha
cabeça que cheguei a me sentir fraca. Olhei para a
lua uma última vez e voltei para a cama. Escorei
contra os ferros da cabeceira e ergui minhas pernas
abraçando os joelhos, enquanto o choro
inconsolável que eu tentava com muito custo
controlar, vencia a batalha sobre mim.
Como eu sentia falta dele. Do seu abraço,
do seu carinho, de me sentir protegida do mundo
com ele.
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- Dmitri - solucei enquanto me afogava
nas lágrimas banhando meu rosto - Venha nos
encontrar, meu amor.
Eu repetia isso como se fosse uma oração.
Por minutos, por horas, não sei dizer, mas nunca
pareceu o suficiente.
Só percebi que havia cochilado quando a
porta foi novamente aberta e Boris entrou ao lado
de um homem alto e musculoso. Aquele era Feliks,
o Boyevik que sempre andava com ele e que agora
deveria ter se tornado o segundo em comando,
depois que Boris se tornou o Kapitan Kamanev.
- Você está horrível, mílaya - disse
Boris ao avançar pelo quarto em direção a mim.
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- Não me chame assim! - as palavras
escaparam da minha boca antes que eu pudesse
controlar minha raiva.
Apenas Dmitri usava essa forma carinhosa
comigo, Boris não tinha o direito de manchar isso.
- Por que não? - seu olhar duro caiu
sobre mim.
Precisava pensar rápido, eu não podia
dizer meus reais motivos a Boris, não tinha a menor
ideia de como ele iria reagir à resposta sincera.
- Era como Roman me trava - disse,
sabendo que a desculpa era fraca demais, mas no
momento era tudo que eu tinha - Me traz
lembranças desagradáveis.
A arrogância de Boris era tão grande
quanto sua tolice. Porque somente um tolo teria
coragem de enfrentar Dmitri como ele fazia.
- Eu dei um jeito nele, não foi? - ele
acariciou as maçãs do meu rosto com o polegar e o
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gesto fez meu estômago revirar - Farei com que
esqueça completamente Roman e o desgraçado do
Milanovic.
Roman foi só um encantamento juvenil
por quem eu sentia mais ter sido a razão dele ter
perdido a vida do que amargava lembranças
românticas interrompidas.
Mas com Dmitri? Ele era e sempre seria o
homem da minha vida. Nunca poderia amar alguém
como eu o amava. Ele estava dentro do meu
coração como em meu ventre.
- Mas olha para você - disse Boris,
movendo meu rosto de um lado a outro para me
assustar - Milanovic não a tratava bem, não é?
Eu havia perdido um pouco de peso com o
início da gestação, mas o Dr. Kushin disse que era
normal e que após o primeiro trimestre isso
mudaria, mas eu não podia dizer isso ao Boris,
então, me mantive em silêncio enquanto ele me
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analisava com seu olhar asqueroso.
- Eu vi que não queria ficar com ele no
dia que fui trocar a Sonya por você - confessou
ele - É claro que tive que dar um castigo nela
quando aquilo não foi possível.
Eu não queria ter qualquer sentimento de
empatia pela Sonya, por tudo que me fez, mas
nesse caso, não conseguia evitar. Parte da razão de
ela ser assim foi a criação que teve e por crescer
vendo Boris conquistando tudo o que queria pela
força. Fjodor Kamanev foi bom comigo, mas fez
um péssimo trabalho na construção do caráter do
filho.
- Tome um banho, há roupas que
comprei para você no guarda-roupa, depois, aprecie
o seu jantar. Eu te faria companhia, mas preciso
cuidar de alguns detalhes. Você entende, não é?
Queria Boris o mais distante possível de
mim. Queria nunca mais ter que colocar meus olhos
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nele. E pensar que minha última preocupação em
relação a Kamanev foi que não comparecesse ao
meu casamento.
- Depois, descanse um pouco, nos
veremos amanhã - disse ele - Teremos muito
tempo para ficar juntos, Kya. A vida toda.
Não se dependesse de mim. Observei
Boris sair novamente, dessa vez, com alívio. Pelo
menos ele ainda não havia forçado a barra, o que
poderia acontecer a qualquer momento.
A porta fechou-se atrás dele mais uma vez,
aguardei um pouco até ir à bandeja de comida. Eu
não agiria aqui como agi nos primeiros dias com
Dmitri, ficando dias sem comer. Além de precisar
de força para aproveitar o melhor momento para
escapar, tinha que pensar em meu filho.
Enchi minha boca até que as minhas
bochechas virassem duas bolas enormes e usei um
pouco de chá para engolir tudo.
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Então era isso. Eu precisava armazenar o
máximo de energia que conseguisse, manter a
frieza e estudar todas as possibilidades que me
ajudariam a escapar deste lugar.
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Capítulo 37
Dmitri Milanovic
Finalizei minha reunião com Ivan e decidi
ir embora. Agora, os detalhes do que fazer com os
Kapitany e Boris ficariam com ele. Além de ser o
chefe de segurança, Ivan, o terceiro homem de
confiança, na ausência de Vladic, seria o escolhido
para ser o Avtorieyt, devido a seu bom treinamento
e habilidades.
Mas eu não conseguia ver qualquer outra
pessoa trabalhando diretamente ao meu lado além
de Vladic. Se eu havia sido bem preparado para me
tornar Pakhan, Guriev foi moldado para ser o
Avtorieyt. E agora, com meu casamento no dia
seguinte, ele exerceria sua função ainda mais. Se
havia alguém no mundo em que eu confiava, além
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da mulher que escolhi para dividir a vida comigo,
era Vladic.
- Não se preocupe, irmão - senti seu
aperto forte em meu ombro e desviei o olhar da
janela do carro e o encarei - Tudo está sob
controle.
- Espero que tenha razão, Vladic.
- O que está incomodando, Dmi? É por
causa da arena? Teme o que Kyara irá dizer?
- Não. Isso não é algo que ela irá
apreciar, mas quando a pedi em casamento, deixei
claro o que somos e o que fazemos.
Eu não sabia como explicar o que me
incomodava. Ivan tinha repassado os planos de
segurança durante a cerimônia, os três dias de festa,
a noite na arena, até minha viagem de lua de mel.
Contudo, eu tinha uma incômoda sensação de que
algo estava fora do lugar.
- Não sei dizer, Vladic. Talvez sejam só
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coisas da minha cabeça.
Ou estivesse preocupado demasiadamente
com Kyara. Ela andava tensa com o casamento e
fazendo muitas perguntas sobre os Kamanev, em
busca de repostas que eu não poderia dar ainda. A
preparação do casamento já vinha sendo exaustiva
demais para ela. Embora ela tivesse tentado
disfarçar, notei sua perda de peso e ar fadigado. No
entanto, o que realmente me deixou preocupado foi
tê-la encontrado desmaiada no banheiro.
Eu amava Kyara, mas só tive noção da
grandiosidade de meus sentimentos por ela quando
a vi caída. Não conseguia entender como meu pai
suportou a partida de seu grande amor. Em uma das
poucas conversas que tive com Vladic, inclusive
naquele mesmo dia, a única explicação que ele
sugeriu era que tinha sido por mim e pela Bratva.
Já eu acreditava que foi pela Bratva, não
porque ele não me amasse, mas o trabalho passou a
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ser sua mulher, e quando não estava mergulhado
nele, ficava na estufa, pensando e lembrando de seu
amor perdido. Meu otets podia achar que eu não
soubesse, mas na estufa ele costumava conversar
com mat' em voz alta, como se ela ainda estivesse
viva.
- Você só tem que se preocupar em
colocar o terno e se divertir - disse ele abrindo um
sorriso - O resto deixe com a gente.
Assenti e tornei a olhar pela janela.
Provavelmente a maior parte de minha tensão era a
grandiosidade do evento. Toda a Bratva estaria
presente, além de que eu deixaria claro a todos que
não era um homem a quem se devia ameaçar.
Quando finalmente chegamos em casa,
Vladic foi para escritório e eu subi a escada em
direção ao quarto. Enviei duas mensagens a Kyara,
uma, quando saí da sala de Ivan e outra, na metade
do caminho, avisando que estava chegando. Em
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ambas não obtive resposta, por isso acreditava que
ela estivesse no quarto tirando um cochilo.
Um sorriso veio ao meu rosto ao pensar na
forma que iria acordá-la. O sexo entre a gente
estava cada vez mais quente, mas nessa última
semana andei pegando um pouco mais leve,
poupando suas energias. A partir de hoje isso
mudaria.
- Kyara? - chamei no quarto vazio,
pois, a porta do banheiro estava fechada e não
entreaberta como ela costumava esquecer.
Fiquei bastante incomodado em ver que
ela também não estava ali e que seu telefone se
encontrava em cima da cama. Dei uma olhada
rapidamente e vi que minhas mensagens não
tinham sido visualizadas por ela. Franzi a testa, não
havia mais nada que precisasse ser verificado em
relação a cerimônia e comemoração, e mesmo que
tivesse, dei ordem expressas a Savin e Ertel que
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Kyara não deveria mais ser incomodada com isso,
então, duvidada que estivesse presa no escritório
dando andamento em alguma complicação de
última hora, mas ela poderia estar passando tempo
no computador. Porém, o único na sala era Vladic.
- Precisa de algo?
- Achei que Kyara pudesse estar aqui.
Não está no quarto e nem com o telefone dela.
Vladic se ergueu da mesa, vindo até mim.
- Já verificou na biblioteca?
Não o respondi, fui em direção à
biblioteca, tendo Vladic a me acompanhar. Assim
como nos lugares que verifiquei, Kyara não estava
lá.
- Talvez tenha ido na estufa? - sondou
Vladic mais uma vez.
Andei apressadamente até a estufa e de lá,
para a piscina, Kyara não se encontrava em
nenhuma das duas. Então, chamei o primeiro
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Boyevik que esbarrei pelo caminho, e ordenei
imediatamente que reunisse mais homens e
fizessem uma busca detalhada por toda a
propriedade.
Meu maior terror era que Kyara tivesse
passado mal mais uma vez e não tivesse tido a sorte
que teve no banheiro, e bateu com a cabeça em
algum móvel. E se...
- Nós vamos encontrá-la - disse Vladic
ao voltarmos para o escritório, depois de ter ido aos
outros cômodos verificar se em algum momento
nossos caminhos haviam se desencontrado - A
casa é enorme. Ela pode ter parado em algum lugar
para descansar e ter pegado no sono.
Vladic estava sendo otimista, eu pensava
em coisas bem mais preocupantes, mas não era do
tipo de fazer alarde, embora a inquietação que tive
por todo o dia parecesse finalmente ter encontrado
uma explicação.
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Uma hora depois, o chefe de segurança da
casa surgiu com dois de seus homens.
- Procuramos em cada canto, senhor -
ele baixou os olhos diante do meu olhar frio e
implacável sobre ele - Aqui, a Srtª. Smirnov não
está.
Avancei até ele, agarrando sua camisa pela
lapela, e apesar de ser um homem
consideravelmente robusto, ergui-o tanto ao ponto
de fazê-lo ficar nas pontas dos pés.
- Onde está minha mulher?
Eu já a considerava assim por direito. Os
papéis que iríamos assinar e a bênção religiosa
passavam apenas de meras formalidades diante de
meu povo.
- Calma aí, Dmitri - disse Vladic ao me
puxar para longe do homem - Matá-lo não terá
muita serventia, pelo menos, não agora.
Vladic tinha razão, eu puniria esse
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imprestável outra hora, minha missão agora era
encontrar Kyara.
- Talvez ela tenha ido embora - sugeriu
o Boyevik - Minha irmã desistiu do casamento na
porta da igreja.
A calma que decidi manter saiu voando
como um pássaro pela janela. Meu punho foi
certeiro em direção à face do Boyevik que tinha
ousado sugerir isso.
- Se vocês não têm nada inteligente para
dizer - disse Vladic quando veio me conter pela
segunda vez - Fiquem calados, porra!
- Ela não fugiu - disse aos homens, mas
encarava Vladic - Pode me soltar.
Levei a mão ao queixo e comecei a andar
lentamente de um lado ao outro enquanto tentava
manter minha serenidade e refletir com clareza.
- Reúnam todos os empregados - disse
ao chefe de segurança - Alguém deve ter visto ou
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ouvido alguma coisa.
Assim que os três homens saíram, Vladic
se colocou à minha frente, dando voz a um dos
meus pensamentos obscuros.
- Você acha que a Tambovskaya teria
tanta ousadia?
Eu tinha levado um deles diante de seus
olhos, então, a vingança poderia ser esperada. Mas
havia também uma segunda opção e essa eu não
queria sequer imaginar.
- Eu sei que Kyara não fugiu, Vladic -
o aperto em meu peito foi forte o suficiente para me
fazer respirar fundo - Vou descobrir onde ela está
e seja lá quem for que a levou de mim, irá lamentar
ter nascido.
E eu sempre cumpria cada promessa
minha.
Não foi preciso interrogar todos os
empregados. Assim que Darya, assustada e em
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prantos, foi colocada diante de mim, meu mundo
desmoronou à minha volta.
Sonya tinha vindo visitar Kyara e foi após
a visita dela que Kyara não tinha sido mais vista
pela casa.
- Ela disse que veio falar com a irmã -
pranteou ela, torcendo o avental em seu uniforme
- A Srtª Kyara disse que iria recebê-la na sala. Eu
não sabia que...
Ela caiu sobre meus pés manchando os
sapatos pretos com suas lágrimas.
- Por favor, Papa - implorou ela - Eu
não sabia.
No momento, pouparia Darya por dois
motivos. O primeiro, o erro tinha surgido dos
Boyevik responsáveis pela segurança que haviam
permitido que Sonya Kamanev, com seu sorriso
falso e palavras adocicadas, entrasse. Segundo,
Kyara tinha um grande carinho por Darya, e ficaria
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furiosa comigo se eu fizesse algo drástico com ela.
Porque eu iria recuperar Kyara de volta, era só uma
questão de tempo.
- Contate o Ivan - disse a Vladic
enquanto ia até uma das gavetas de minha mesa
onde tirei um revólver - Reúna os Boyevik, vamos
até a casa Kamanev.
Enquanto eu meditava durante o caminho
se arrancava todos os dedos de Boris por ter ousado
tocar em Kyara, ou cada um de seus olhos pelo
atrevimento de sequer olhá-la, isso só para
começar, Vladic cuidava dos detalhes em relação a
invasão à mansão Kamanev.
Sonya também não ficaria de fora. Ela
lamentaria amargamente ter abusado da confiança
de Kyara e, principalmente, por ter invadido minha
casa, tirando dela o que eu tinha de mais precioso.
- Ivan já está lá - disse Vladic ao me
encarar com certo alarme - Olha, Dmitri, eu sei
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que você está puto, e tem toda a razão de estar, mas
vamos manter a cabeça fria, ok. Não queremos que
a Kyara se machuque e isso inclui ela se magoar se
você sair ferido.
- Estou calmo, Vladic - o tranquilizei.
O que era realmente verdade. O ódio
explodindo em mim por Boris Kamanev servia
como um analgésico que me fazia ficar calmo o
suficiente para confrontá-lo.
- É isso que me preocupa - disse
Vladic.
Eu precisava recuperar Kyara e levá-la de
volta para casa. Depois, eu brincaria com o que
seriam meus novos ratinhos preferidos, Boris e
Sonya Kamanev.
- Vamos acabar logo com isso - disse a
Vladic e mal esperei o carro ser estacionado em
frente à casa cercada de carros pretos.
Ivan veio imediatamente ao meu encontro
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quando saí.
- É tudo muito estranho - disse ele -
Tem uns dez minutos que chegamos e nenhum
Boyevik de Kamanev veio verificar tanta
movimentação.
Direcionei meu olhar para o grande portão.
Não havia sinais de segurança ali, como também
não parecia existir em volta da casa.
- Vamos entrar e passem por cima de
quem tentar resistir.
Embora eu quisesse ser o primeiro a entrar
na casa, o protocolo de segurança exigia que a vida
do Pakhan fosse protegida. Em momentos como
esse eu desejava ser um homem comum,
enfrentando um verme.
Após se prepararem e gestos de comando
dado por Ivan, um grupo de Boyevik de ação frontal
invadiu a propriedade. Outros passaram pelo
portão e escalaram muros até que eu tivesse sinal
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positivo para entrar. Contudo, nossa ação ofensiva
se mostrou desnecessária. Nem Boris, Sonya e
Kyara se encontravam ali. Só havia serviçais
assustados na casa, a quem começamos a
interrogar.
- Chega! - disse ao Boyevik com alicate
na mãos, após ele arrancar o sexto dente de um
empregado que estava quase desmaiando diante
dele - Estamos perdendo tempo.
Eu não teria problema algum se
arrancassem todos os membros do homem, se
suspeitasse que ele realmente sabia de alguma
coisa. Estava claro que Boris deixara aquelas
pessoas ali apenas com intuito de nos confundir e
perder tempo, enquanto levava Kyara sabe-se lá
para onde.
- Vejam os aeroportos, portos, estradas e
cace cada Kapitan envolvido com Boris - disse a
Ivan e virei em direção a Vladic - Nós vamos
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retornar para a minha casa e fazer uma base de
investigação lá. Vou encontrar Boris Kamanev nem
que eu tenha que ir até o inferno.
- Nós atravessaremos esse portão juntos
- disse Vladic se colocando ao meu lado - Eles
não sabem com quem mexeram.
Principalmente Kamanev, com esse eu
queria lidar pessoalmente.
Levaria algum tempo, infinitamente longo
para mim, para que uma base de investigação e
segurança fosse instalada num dos cômodos
inativos na casa. No momento, não havia nada o
que fazer além de esperar, e se eu queria recuperar
Kyara das mãos do desgraçado do Boris, tinha que
pensar e agir friamente. As minhas emoções
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precisavam ser desligadas e isso estava acabando
comigo por dentro.
Na primeira formação da Bratva, os
primeiros bárbaros, também conhecidos como
ladrares, criaram um código de conduta: Os
Ladrões Dentro da Lei, com 18 leis. A primeira
delas era abandonar seus parentes. A segunda era
não ter família própria. Sem esposa, sem filhos. Os
antigos Vor acreditavam que esse elo deixaria os
guerreiros fracos. Os cargos eram disputados na
arena, através de lutas sangrentas e mortais.
Isso em nossa irmandade foi mudando
quando o terceiro Pakhan, Vasiliy Bondarenko,
atreveu-se a se apaixonar pela filha bastarda de um
guerreiro. A Bratva foi dividida no que é hoje, e da
outra metade surgiu a Tambovskaya, que ainda
segue essas práticas em relação a ascensão dos seus
líderes. Por isso que na Bratva, um filho matar o
pai, irmão contra irmão, não era considerado crime
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desde que o assunto fosse resolvido em família. E
era nas práticas da Tambovskaya que Boris
acreditava e queria que a irmandade voltasse a
seguir.
Só que a Tambovskaya é um grupo de
selvagens parados no tempo, mais preocupados em
guerrear entre si do que evoluir e combater os
inimigos de verdade. A Bratva não perdeu sua
essência como os antigos Vor suspeitaram, ela
ficou organizada e mais forte. Temos em nossas
mãos governos, países, outras organizações, e eu
iria provar a Boris e a qualquer membro da
Tambovskaya que ficamos cada vez mais fortes.
- Vamos lutar, Vladic - disse ao
entramos em casa.
- É claro que vamos.
Quando cheguei à escada, virei para ele
que claramente não tinha compreendido o que eu
realmente havia falado.
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- Vamos lutar agora... - continuei a
subir a escada - no pátio.
- Você quer treinar agora?
Vladic foi um dos primeiros a enxergar
meus sentimentos por Kyara, se não o primeiro.
Acho que ele percebeu antes de mim. Ele sabia que
internamente eu estava destruído. Mas um Pakhan,
mesmo na Bratva, tinha que se mostrar sempre
firme. Meu pai, embora tenha morrido por dentro
junto com minha mãe, não deixou cair uma lágrima
até o sepultamento dela. Nós tínhamos que provar
que estar apaixonados não nos deixava fracos.
- Quanto tempo levará para Ivan chegar e
ajeitar tudo?
- Conhecendo Ivan, não mais do que uma
hora.
- Então, teremos uma hora de treino -
disse a ele e fui em direção ao meu quarto -
Encontro você no pátio em cinco minutos.
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Fechei a porta deixando-o no corredor com
o olhar confuso. Escorei-me contra a porta olhando
em volta. Silencioso e muito vazio sem Kyara aqui.
Meus olhos caíram em um cabide com uma enorme
capa protetora.
Segui desnorteado até ela. O vestido de
noiva de Kyara. Passei a mão no plástico escuro,
recordando que ela tinha avisado que queria fazer
mais um ajuste essa manhã e que eu nem deveria
chegar perto do quarto sem avisá-la primeiro.
- Onde você estiver - sussurrei
encostando minha testa contra o embrulho - Fique
bem. Eu vou te encontrar, eu juro.
Permaneci ali parado por mais dois ou três
minutos até abrir o closet e buscar uma de minhas
roupas de treino. Vladic já fazia o aquecimento
quando cheguei ao pátio. Sempre preferi treinar
com ele porque além de ser um dos homens mais
fortes que já conheci, era um lutador espetacular e
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não pegava leve comigo por ser o filho do Pakhan.
- Pronto? - indagou ele flexionando os
braços.
Apenas assenti, me coloquei em posição
de ataque e avancei sobre ele, acertando o primeiro
golpe. Eu precisava disso, extravasar minha fúria e
frustração em algo. Vladic sabia que meu ataque
não era contra ele. Minha raiva não era com ele e o
ódio que parecia querer me cegar não era para ele.
Contudo, era seu corpo sofrendo as consequências.
Nariz escorrendo sangue e lábio cortado.
Eu também não estava apenas batendo,
levei uns precisos e merecidos socos que cortaram
o supercílio direito e outro que fazia meu queixo
arder feito o inferno. Nesse momento, estávamos
apenas vestidos com as calças. Com peito e braços
nus, suávamos do cabelo às juntas dos dedos dos
pés. Em certo momento da luta, Vladic preparou a
montada sobre mim e fez um golpe de queda me
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arremessando contra o chão, dando em mim uma
gravata que me manteve imobilizado contra o solo.
- Já chega, Dmitri! - rugiu ele forçando
meu rosto contra o chão enquanto eu tentava me
soltar.
Fui capaz me virar, mas tudo que consegui
foi que Vladic aplicasse um novo golpe, desta vez,
de estrangulamento.
- Não está lutando - disse Vladic
lentamente diminuindo a pressão em meu pescoço
- Está agindo como um garoto de rua brigando.
Ele tinha razão. Depois da primeira gota
de sangue que tirei dele ao dar o primeiro golpe
com o pé, senti necessidade de mais e mais. Eu
queria ver muito sangue.
- A gente vai procurar e recuperar a
Kyara. Enquanto fazemos isso, você pode dar
quantos socos em mim quiser, meu irmão - disse
ele ao tirar o braço do meu pescoço - Mas
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enquanto isso, não vou deixar você enlouquecer.
Você é Dmitri Milanovic, o Pakhan.
Vladic, por toda a vida, e agora Kyara, a
mulher que meu coração escolheu amar, eram os
únicos que conheciam o Dmitri, as outras pessoas
conheciam o filho e, agora, atual Pakhan. Esses
dois eram as pessoas mais importantes da minha
vida, por significados diferentes. Eu não conseguia
ver minha vida sem eles. Acabaria como o meu pai,
somente com o Pakhan sob minha pele seca.
- Vladic - murmurei em um tom
abalado, ele continuou me mantendo preso ao chão,
mas sabia que não precisava mais me conter.
Não precisava dizer mais nada, Vladic
entendia tudo através do meu olhar. Saindo de cima
de mim, ele esticou a mão para me ajudar a ficar
em pé. As pessoas que haviam parado seus afazeres
para nos ver lutar, rapidamente voltaram às suas
atividades.
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Vladic me fez voltar para casa e eu fui
direto para o chuveiro. O corte no supercílio estava
feio, provavelmente iria precisar de alguns pontos,
mas não tão ruim como pretendia deixar Boris
quando colocasse minhas mãos nele. Fiz os
cuidados que pude em frente ao espelho, depois,
peguei um conjunto de terno no closet, preto, que
era assim como me sentia por dentro, sombrio. A
minha vida toda fui preto e cinza, as cores vieram
com Kyara e seu sorriso de querubim.
Quando desci para a sala de investigação,
Ivan e sua equipe já estavam na ativa. Os
equipamentos que ele iria precisar estavam
terminando de ser montados.
- Papa, ordenei que trouxessem o
Dembinsky imediatamente - disse Ivan assim que
entrei – Os outros Kapitany estão sendo caçados.
Além do terno escuro que ele costumava
usar, desta vez tinha um tipo diferente de headset
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na cabeça, assim como os demais homens em seu
comando.
- Eu quero interrogar o Dembinsky, no
meu escritório - disse a ele e fui em direção à
mesa onde aparelhos de escuta e computadores
estavam sendo instalados e testados.
Isso me fez pensar em Kyara. A tela de
bloqueio do meu computador era uma imagem
abstrata se formando, mas quando dava o enter, o
plano de fundo surgia com uma foto nossa, a
mesma que havia em meu celular e que ela
praticamente tinha me obrigado a colocar ali. Na
verdade, eu troquei o gesto, que disse a ela ser
piegas, por uma boa foda em cima da mesa. Mas eu
gostava de olhar para a imagem, vez ou outra,
quando as coisas no trabalho ficavam mais calmas.
Menos de uma hora depois, um Boyevik
surgiu, avisando que Dembinsky já estava em meu
escritório. Caminhei cegamento até lá e quando
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avistei o Kapitan, fui direto em seu pescoço,
fazendo-o se erguer da cadeira.
- Onde ela está, seu desgraçado?
Dembinsky agarrou meus pulsos e seu
rosto foi ficando vermelho conforme eu o
pressionava. Por mim, estava tudo ótimo, poderia
apertar seu pescoço até ver a vida esvaindo de seus
olhos assustados, sentindo um enorme prazer.
Dmitri Milanovic estava adormecido, esse era
apenas de Kyara, sob a minha pele estava apenas o
Pakhan. Ele mataria cada Kapitan com suas
próprias mãos e usaria seus ossos para palitar os
dentes.
Mas eu não podia matar Dembinsky, antes,
precisava das informações que ele tinha.
- Eu não.... - ele tentou falar enquanto
puxava o ar profunda e desesperadamente,
massageando a garganta dolorida, quando o soltei
- não sei do que está falando.
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- Ah, mas você sabe - me agigantei
diante dele o intimidando ainda mais com o olhar.
Suas mãos seguravam firme o braço da
cadeira, puxei o dedo mindinho com força e
Dembinsky urrou de for quando o quebrei.
- E vai me contar tudo o que sabe
enquanto quebro cada um dos seus dedos,
considerando se vou ou não arrancar cada um deles.
Dembinsky era um homem velho e assim
como as crianças, eram menos resistentes à tortura.
Protegemos os mais fracos, desde que nunca
infrinjam a lei, ou traiam seu Pakhan como ele
havia feito.
Nove dedos quebrados depois e muito
sangue jorrando do nariz e boca estourada,
Dembinsky implorava por misericórdia. Ele só
deixou mais claro, contando em detalhes, os planos
de Boris que já conhecíamos, as conversas que
rolavam em todos os encontros e deu nomes e
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confirmou todos os Kapitany que se uniram a Boris
contra mim. Era um número significativo, mas não
me inspirava preocupação. Oito Kapitany de
segunda elite, Dembinsky e Kamanev.
- Eu não sei onde ele está - balbuciou
ele cuspindo sangue - Kamanev nunca
compartilhou com a gente essa parte do plano. A
ideia era aproveitar que todos teriam acesso no seu
casamento e destruí-lo.
Eu sabia quando um verme como ele
estava mentindo ou dizendo a verdade. E assim
como o empregado de Boris, Kapitan Dembinsky
havia confessado tudo o que sabia e eu não perderia
mais tempo com ele. Neste caso, tempo era tudo.
Kamanev não queria apenas a minha morte para
ocupar meu lugar. Ele tinha obsessão doentia por
Kyara. Só de pensar que o maldito poderia estar
tocando-a contra sua vontade me deixava maluco.
- Leve-o daqui, Vladic - ordenei ao me
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afastar de Dembinsky, me controlando para não pôr
fim à sua vida de merda com minhas próprias mãos
- Deixe-o nu e leve-o para os corvos famintos se
alimentarem.
Dembinsky merecia uma morte mais cruel,
ser devorado lentamente pela bicadas da criação de
corvos que mantínhamos em uma das instalações
ao redor da arena para onde os Kapitany estavam
sendo levados, um a um.
- Não! - ele gritava ao ser arrastado
pela porta, mas com as mãos nas costas mantive
meu olhar fixo na janela - Eu sei de outra coisa
muito importante. Por favor, eu juro lealdade.
- Tarde demais, Dembinsky - sussurrei
quando a porta foi fechada atrás de mim - Para
você e todos os que ajudaram Boris até aqui.
Antes de tudo isso acontecer, eu tinha
ideia de fazer uma briga justa. Meus melhores
soldados contra os Kapitany que fizeram aliança
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com Kamanev. Se Kapitan ganhasse pouparia sua
vida e os manteria como escravos. Se meu Boyevik
ganhasse, herdaria o título de Kapitan.
As ações de Boris e o sequestro de Kyara
mudaram tudo isso. Não haveria piedade de
ninguém. Um Kapitan lutaria contra o outro por sua
vida nas jaulas até que só restasse um. Seria um
banho de sangue cruel, no qual meus olhos iriam se
deliciar. Depois disso, duvidava que qualquer
pessoa na Bratva ousaria ameaçar o Pakhan outra
vez.
Estava prestes a voltar para a sala onde
Ivan estava quando meu celular tocou em minha
mesa.
- Milanovic?
Fechei os meus dedos até que os nós
começassem a ficar brancos e minha pele, esticar.
- Kamanev?
Eu sabia que era ele. O risinho provocativo
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não deixava dúvidas disso.
- Peguei você - foi tudo o que ele disse
ao desligar.
Apertei o telefone com a mesma força e
gana que tinha feito no pescoço de Dembinsky.
Eu vou acabar com o desgraçado do
Boris, nem que seja a última coisa que faça em
minha vida!
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Capítulo 38
Kyara Smirnov
Amar alguém é sentir a presença dela,
mesmo quando não se está olhando. Eu conhecia o
cheiro de Dmitri, o toque dele, o magnetismo que
ele emitia, por isso, a pessoa que se encontrava ao
meu lado na cama, deslizando a mão por minha
coxa, não era Dmitri.
Abri meus olhos assustada e rastejei pela
cama ficando o máximo que eu podia das mãos
asquerosas que me acariciavam.
- O que você faz aqui?
O quarto estava na penumbra, mas eu via
perfeitamente a figura de Boris. Odiar alguém
como eu o odiava, também nos fazia reconhecer a
pessoa em qualquer circunstância, o medo nos
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alertava.
- Vim ver como você está - ele se
ergueu e foi até o interruptor de luz, fazendo o
quarto clarear.
Eu não sabia se ficava aliviada por ele ter
se afastado ou se me sentia amedrontada por ter
agora seus olhos lascivos em cima de mim.
- Há quanto tempo está aqui?
Que ele me tocava, não deveria ser muito
tempo, acordei rapidamente ao sentir um toque
estranho. Mas há quanto tempo Boris estava no
quarto?
Lembrei dos primeiros dias na casa de
Dmitri quando ele também me manteve presa. Em
uma das noites, senti a presença dele, que admitiu
ter visitado meu quarto, em uma de nossas
conversas na casa da Suíça, mas ele nunca ousou
me tocar quando estive dormindo.
- Com medo de mim, Kya? - ele tornou
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a se aproximar, a cada passo que dava, eu me
encolhia na cama um pouco mais - Eu nunca te
faria mal, a menos que merecesse.
A revolta despertando dentro de mim
confirmava que neste caso ele me machucaria
muito. Minha maior vontade era avançar contra a
garganta de Boris.
- Seja uma boa menina sempre - ele
continuou a dizer, eu dei uma olhada no quarto à
procura de algo como defesa.
A única coisa por perto era o abajur em
uma mesa próximo à cama. Contudo, Boris
acompanhou meu olhar e fechou a cara em claro
sinal de raiva.
- Não sei que tipo de lavagem cerebral o
Milanovic fez com você - disse ele estreitando os
olhos -, mas eu vou reverter. Voltará a ser a
mesma Kyara por quem me apaixonei.
Eu não acreditava em um amor como o
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dele, e mesmo que acreditasse, a Kyara que ele diz
estar apaixonado não existia mais. Aquela era
medrosa e obediente por medo de represálias. Sou
mais forte hoje e meu amor por Dmitri, estar ao
lado dele, me ajudava a crescer. O problema é que
Boris era um surtado. Ele queria ser meu Joker mas
eu não tinha pretensão alguma de ser a Harley
Quinn.
- Ainda sou a mesma, Boris - disse em
uma voz mansa - Sua irmãzinha.
Para lidar com um louco às vezes era
preciso agir como tal. Contudo, minhas palavras
finais foram como gatilho na ira de Boris que veio
até mim como um búfalo desnorteado e agarrou o
meu queixo com força.
- Você nunca foi minha irmã, nunca -
seu aperto agressivo criou lágrimas em meus olhos
- Será a minha mulher e mãe dos meus filhos. E
eles serão incríveis, meu amor. Guerreiros fortes e
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inteligentes. Uma mistura perfeita de nós dois.
Pensei no bebê em meu ventre e levei o
braço em volta dele como se assim pudesse o
manter protegido de Boris. Graças aos céus ele não
notou o meu gesto e se notou, não soube ler.
Pensar em qualquer contato íntimo com
Boris que rendesse frutos me fazia ficar enjoada a
ponto de querer vomitar.
- Seremos invencíveis - continuou
Boris - Não essa merda patética que são
Milanovic e Vladic Guriev. Falando em Dmitri,
acabei de falar com ele.
Sua revelação me deixou estática.
- O que disse a ele?
- Que estava comigo. Que veio por livre
espontânea vontade e que não pretende voltar.
Pior que ser sequestrada por Boris, eram as
mentiras que ele poderia inventar. Mas Dmitri
jamais acreditaria nele. Ele sabia que eu o amava.
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Tinha que saber. Mas também, o que poderia
pensar um homem que a noiva desaparece um dia
antes do casamento?
- É mentira! - levantei avançando sobre
Boris - É tudo mentira.
Ele agarrou meu pulso, apertando-o forte
até me fazer contorcer.
- Sim, é tudo mentira, não disse nada a
ele, apenas queria ouvir o desespero dele por você.
E queria ver como você iria reagir a isso - disse
ele em um tom de desprezo - Pelo visto, terei um
longo trabalho. Mas posso ser paciente, Kyara.
Esperei por você todos esses anos. Depois, todos
esses meses longe e, agora, posso esperar mais
algumas semanas. Sei como te amansar e logo
estará pedindo que eu a foda, e terá esquecido
completamente Dmitri Milanovic. Até porque não
terá outra coisa para fazer, ele estará morto.
No fundo, eu sabia que não seria assim,
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com raiva e de forma agressiva, que eu conseguiria
lidar com Boris. Dmitri dizia que nas situações
mais tensas precisava-se ter calma e paciência, mas
era muito difícil conseguir suportar calada a tortura
psicológica que Boris fazia.
- A guerra vai começar, Kya. É melhor
escolher logo de que lado prefere ficar - disse
Boris - Ou fará companhia na mesma vala suja
que Dmitri.
Eu preferia um milhões de vezes morrer e
ser jogada em uma vala imunda ao lado de Dmitri
do que pensar em passar um dia que fosse ao lado
de Boris como sua mulher.
- Pense muito sobre isso - reafirmou ele
abrindo a porta - Tempo é o que não lhe falta.
Pelo contrário, pensei ao vê-lo sair, meu
tempo corria rapidamente como areia pelos vãos
entre meus dedos. Eu precisava continuar a me
fortalecer física e psicologicamente para escapar
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daqui, ou, pelo menos, achar uma forma para que
Dimitri me encontrasse e salvasse a mim e o nosso
bebê.
Não sabia quantas horas tinham se passado
desde que Boris saiu do meu quarto e os breves
cochilos que me permiti ter encolhida na cama, mas
o dia já havia clareado quando abri meus olhos
outra vez.
Era o dia do meu casamento com Dmitri.
Evento para o qual passei semanas me preparando e
ansiando. Um sonho que hoje não iria se realizar.
Abracei meu corpo chorando baixinho. Foram dias
preocupada pelo vestido não estar na medida certa.
Agora, me casaria até com essas roupas que usava
se tivesse o homem que eu amava ao meu lado.
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Ainda estava entregue a essa dor física que
a ausência de Dmitri causava em mim quando a
porta foi aberta. Agradeci silenciosamente e
aliviada por não ser Boris, não tinha forças para
lidar com ele.
Feliks trazia uma bandeja com o café da
manhã. Sem olhar para mim ou dizer qualquer
coisa, colocou a comida sobre o criado-mudo e
saiu.
Comi pelo menos um pouco. Embora
soubesse que deveria me alimentar mais, eu não
conseguia.
Mexia distraidamente algo em meu prato
quando, para minha surpresa, Sonya entrou no
lugar do Boyevik.
Fiquei sem reação por alguns segundos
enquanto ela avançava pelo quarto. Diversos
sentimentos passaram por mim.
Raiva. Mágoa. Tristeza. Dor por ter sido
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enganada e traída.
- Sonya.
Ela corria a mão pelo guarda-roupa e
continuou a fazer isso ignorando meu chamado.
- Sonya! - finalmente consegui reagir
indo até ela - Por que você fez isso?
Inconscientemente eu já tinha essa
resposta. Ela nunca foi para mim, por esses anos
todos, a irmã que eu fui para ela. Fui seu bibelô, a
garota que ela se divertia e culpava pelas
traquinagens que aprontava; a garota que mentia e
cubria seus rastros quando era adolescente e a
mulher que colocou os sonhos de ir embora de lado
para ajudar a evitar que Boris a tornasse uma
mulher infeliz se descobrisse a vida leviana que
levava.
- Eu sempre amei você, Sonya - disse a
ela. Dizer essas palavras me feriam por dentro -,
mas você nunca me amou, não é mesmo? Fui
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apenas alguém que você manipulou e usou quando
bem quis.
Só depois de ser amada profundamente por
Dmitri, ter o carinho de Vladic, o respeito e afeto
de Irina e todas as outras pessoas novas em minha
vida, e perder tudo isso, que dei-me conta que os
Kamanev, excluindo os que já morreram, nunca
sentiram nada sincero por mim.
Ela parou de passar a mão sobre a madeira
do guarda-roupa e olhou para mim. Eu não
conseguia ver qualquer expressão em seu rosto.
Braveza, mágoa, arrependimento então, nem sinal.
Seu rosto era uma máscara fria e sem expressão.
- Não vai me dizer nada, Sonya?
Ela começou a caminhar e acreditei que
viria até mim quando seguiu até a porta. E tão
surpresa como me deixou ao entrar, ela saiu. Fiquei
parada no lugar com os punhos cerrados, as unhas
machucando as palmas das minhas mãos.
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Não conseguia acreditar nesses breves
minutos. Frustração e raiva começaram a fazer meu
sangue ferver. Eu tinha desperdiçado meu tempo
desejando respostas quando deveria ter feito Sonya
entender que ela precisava me libertar. Que todo
esse plano de Boris era absurdo e que ajudando-o,
sua vida estava em perigo. Não porque como das
outras vezes estivesse preocupada com ela, mas
porque Sonya podia representar minha única
possibilidade de fuga.
Mexi a maçaneta só para constatar que
estava fechada. Bati o punho contra a porta
chamando Sonya na esperança que estivesse no
corredor ou talvez em algum quarto ao lado do
meu. Gritei até minha garganta arder e minha voz
começar a ficar rouca. Alguns minutos após eu ter
desistido e retornado à cama, Feliks entrou, pegou a
bandeja com os restos do café da manhã e saiu.
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Uma coisa era não sair de casa sem Dmitri
e os Boyevik para manter garantida minha
segurança, outra, era me ver trancada em um quarto
mais uma vez. Dessa vez com a certeza de que o
homem que mantinha as chaves iria me fazer mal,
não apenas fisicamente.
Eu tinha que tentar fugir, mas não
conseguia pensar em nada, então, caminhei até a
janela mais uma vez. Grudei minhas mãos e rosto
contra as grades de ferro. Boyevik armados e
cachorros ferozes faziam o patrulhamento lá em
baixo. Havia muitos homens nos muros, espalhados
pelo campo aberto e de onde eu conseguia ver no
enorme portão. Mesmo que eu conseguisse fugir do
quarto, escapar daqui não seria fácil. Havia muita
gente e cães para me perseguir.
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Meu maior medo era levar um tiro, não por
mim, mas colocasse em risco a vida meu filho.
Voltei para a cama e sentei abraçando meus
joelhos. Para fugir, eu precisava conhecer a casa.
Então, meu plano era praticamente igual ao que tive
quando cheguei à casa de Dmitri, conhecer o
terreno e decidir o melhor momento para a fuga.
Só que diferente de Boris, a intenção de
Dmitri nunca foi me manter trancada no quarto, ele
só usou isso nos primeiros dias para me forçar a dar
informações que acreditava que eu soubesse.
Boris queria me dobrar como um bambu
envergando com o vento. Se eu quisesse que me
tirasse do quarto para conhecer a casa e saber onde
estava, precisava jogar como ele e Sonya, de forma
fria e dissimulada.
Se era a Kyara cordial de antes que Boris
queria de volta, seria a camuflagem dela que eu
usaria para escapar. E comecei a agir quando Feliks
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veio ao quarto trazer o almoço. Pedi educadamente
e com um sorriso doce que ele dissesse a Boris que
queria uma audiência com ele.
- Soube que exigiu me ver - disse ele ao
entrar, parando ao lado da porta aberta, mas que
tinha Feliks à sua guarda.
Boris até era um rapaz bonito, mas
monstruoso por dentro, o que o tornava desprezível
no final.
- Eu solicitei - o sorriso que tentei
emitir soava tão falso que meus lábios tremeram,
me fazendo baixar a cabeça para o prato - Almoça
comigo?
Não obtive nenhuma resposta por um
tempo considerável, até que ergui novamente o
olhar. Boris me encarava com incredulidade,
depois, com suspeita. Eu precisava ser mais
convincente. Ele era louco, mas não burro.
- Não envenenei a comida, Boris - disse
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soltando um risinho e levei uma colherada a boca
- A menos que tenham descoberto que as tintas
nas paredes possam ser usadas como veneno, você
não tem que se preocupar.
Seriam tóxicas ao ponto de causar mesmo
que um desconforto temporário? Irina certamente
saberia se algo como isso era possível.
- É uma pena, mas já fiz minha refeição
- apesar disso, ocupou a segunda cadeira na mesa
de dois lugares - Talvez possamos jantar juntos.
Assenti, mas por dentro tremia com a
possibilidade. Um jantar daria ideias românticas a
Boris e isso era tudo o que eu queria evitar.
- Estava pensando, como você disse, eu
tinha muito para pensar - em diversas formas
muitos cruéis de como Dmitri iria acabar com ele
quando o encontrasse foi uma delas - Você
planejou isso há muito tempo, não é?
Precisava mantê-lo falando para que seu
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foco nunca ficasse em mim, ou melhor, no meu
corpo, como seus olhos estavam.
- Pegar você de volta ou destruir o
Pakhan?
- Vamos começar pelo Pakhan - disse
voltando a comer.
Boris sempre gostou de falar de si mesmo
e das coisas horríveis que fazia como se fossem
dignas de admiração. Massagear o seu ego era a
melhor forma de aproximação. Ela adorava
bajuladores.
- Desde que procurei Milanovic, o filho,
a primeira vez e ele me tratou como se fosse nada.
Eu quase sorri. Esse era o Dmitri que eu
conhecia e amava. Desejei tê-lo conhecido muito
antes. Sem dúvida alguma teria me apaixonado da
mesma forma.
- Eu disse sobre as mudanças que
precisavam acontecer na Bratva, mas ele não me
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ouviu - o ódio em sua voz era tão claro como a
água que eu bebia - Os Milanovic são fracos. O
velho era um decadente que só precisou de um
empurrãozinho para ir dessa para uma pior.
Cuspi a água sobre o prato e procurei
rapidamente o guardanapo enquanto tentava
controlar uma crise de tosse.
- O que... o que você quer dizer?
- Implantei uma espiã na casa dos
Milanovic e entreguei o veneno que causou o
ataque cardíaco dele.
Olhei para ele sem conseguir acreditar.
Boris era ainda mais maquiavélico do que eu
pensei.
- Acha que um plano como o meu foi
pensado da noite para o dia? Acha mesmo que sou
só um cara com raiva ou ciúme de Dmitri? -
indagou se exaltando - Não, minha querida.
Dembinsky, Plotnikov, Matvee, Kovalyov e
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Vakhstein, viemos pensando sobre isso há algum
tempo.
Prendi com força o talher em minha mão,
tentando focar a maior parte da minha atenção
nisso. Boris matou o pai de Dmitri, homem que ele
amava e admirava. Já era a terceira pessoa que eu
sabia que Boris havia executado. Roman, por na
adolescência ter se apaixonado por mim. Fjodor
Kamanev e, agora, Mikhail Milanovic. Quantas
pessoas mais que não mereceram morrer, estavam
na lista de Boris que só parecia crescer?
- Otets Fjodor...
- Meu pai? - ele indagou mostrando seu
desprezo - Não sabia de nada ou teria corrido ao
Milanovic dizendo que seu filho havia ficado
louco.
E ele não estaria errado.
- Nós primeiro tivemos que manter
Dmitri e Vladic bem ocupados para não conseguir
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prestar atenção no que acontecia debaixo de seu
nariz - ele riu se achando um grande gênio -
Quem poderia imaginar que envenenariam o
Pakhan dentro de sua própria casa? Um dos seus.
Se antes eu desprezava Boris, agora, eu o
odiava com todas as forças. Só vi Mikhail
Milanovic uma vez, de longe, na época seu olhar
frio me assustou, mas depois de conhecê-lo através
de seu filho, que usava no trabalho a mesma
armadura, compreendia os dois. Era um escudo
necessário para intimidar e manter o controle.
Ainda assim, malucos como Boris tendiam a surgir
das trevas.
- Meu pai era um fraco que não merecia
estar em meus planos - continuou Boris - E
enquanto avançamos, precisávamos de mais
dinheiro e mais recursos. Eu tive que eliminar o
velho e tomar o controle da família. Mas essa é
uma história muito longa, Kya. Infelizmente, não
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tenho como ficar e passar a tarde contando tudo a
você.
E eu sentia que já tinha escutado o
suficiente. Boris era terrivelmente diabólico.
- É sobre isso que queria falar -
apressei-me em dizer antes que ele saísse - Não
suporto mais ficar trancada no quarto. Posso andar
pela casa e conhecer o jardim?
Ele me estudou por um tempo e abri um
enorme sorriso para ele, fingindo ver Vladic ou
alguém que eu sentia carinho à minha frente.
Precisava ser convincente por mais que isso me
enojasse.
- Hoje não. Mas amanhã eu mesmo a
levo para dar uma volta - disse ele em um tom
brando como se eu fosse uma doente precisando de
cuidados - Descanse, você ainda está muito
abalada.
Sustentei o sorriso até que Boris,
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acompanhado de Feliks, saíssem do quarto. Depois,
joguei o guardanapo em direção à porta, o tecido
não chegou à metade do caminho.
Um dia, Boris Kamanev, esse assassino
odioso, iria pagar por tudo que estava fazendo.
Eu tinha fé nisso porque eu tinha fé em
Dmitri.
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Capítulo 39
Dmitri Milanovic
Com toda a tensão, o corte que fiz em meu
supercílio voltou a sangrar. Estava no quarto
refazendo o curativo quando Vladic surgiu.
- Deu um fim a Dembinsky?
Eu precisava pensar em qualquer coisa que
não fosse Kyara para não começar a perder a razão,
e só tentar fazer isso estava sendo difícil pra cacete.
- Sim, e descobri algumas coisas que...
Se eu não estivesse em meu estado
anormal teria descoberto, foi o que faltou ele dizer.
Apenas fechei a cara, não pela insubordinação, mas
porque ele estava correto. Eu estava deixando meus
sentimentos me dominarem, isso não podia
acontecer nunca.
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- O que você descobriu, Vladic?
- Você quer se sentar?
- Não sou a porra de uma mulherzinha -
olhei zangado para ele.
Isso. Eu tinha que me concentrar na raiva,
lutadores em competição faziam isso, ficavam na
raiva para buscar energia, por isso não era
incomum lutadores passarem semanas antes da luta
provocando um a outro, inflamavam as torcidas e
faziam com que eles mantivessem o foco de quem e
por que deveriam vencer.
- O que você descobriu? - perguntei,
agora com calma. Uma gota de sangue deslizou
pelo meu rosto e Vladic me analisou antes de
responder.
- Precisa ver esse corte. O Dr. Kushin
está lá embaixo, pode dar alguns pontos.
- Não precisava chamar o médico. Eu
mesmo poderia dar os pontos mais tarde.
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Será que como Boris, Vladic me achava
um fraco também?
- Não fiz só por você. Sei que é casca
grossa - explicou ele cruzando os braços - Fiz
por Kyara. Ela pode...
Mais uma vez ele não concluiu. Não
sabíamos como iríamos encontrar Kyara e ela
poderia realmente precisar de ajuda médica.
- Obrigado, Vladic - dessa vez me
sentei na cama esfregando meu rosto - Não pensei
nisso. Acho que não tenho pensado em muitas
coisas, além de encontrá-la logo. Você viu naquele
dia como o Boris olhava para ela. Não é só para me
atingir, ele a quer. Nesse momento, ele pode...
- Dmi, a Kyara sabe se cuidar - disse
Vladic colocando a mão em meu ombro - Lembra
como foi com a gente? Ela tem garras. Só precisa
se manter segura até a gente chegar.
Ele tinha razão, Kyara tinha unhas afiadas
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quando precisava ter, mas Boris era um louco,
somente uma mente insana tentaria algo como ele
fez, enfrentar e desafiar o Pakhan.
- Ele me ligou há pouco - informei a ele
- O Boris. O desgraçado riu na minha cara.
- Contou a Ivan?
- Entreguei o telefone para que tentasse
rastrear a ligação. O número era restrito.
Louco ou não, burro o Boris não era.
- Mas o que você descobriu com
Dembinsky? - voltei ao assunto principal da sua
vinda ao meu quarto - Ele disso algo ao sair que
não me interessei.
- Tem a ver com seu pai e Kamanev.
Ergui da cama em uma postura rígida.
- Você vai me dizer que...
- Isso mesmo - Vladic me interrompeu
- Foi o Boris que manipulou a Yasha para
envenenar o seu pai. Lembra que muitas coisas
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estranhas aconteceram naquele tempo? - houve
incêndios, furtos e mortes, até achamos que a
Tambovskaya estava agindo, mas o líder deles
alegou que não tinham nada a ver com os ataques
que estávamos recebendo - Foi apenas para o
manter distraído do seu pai. E o veneno fez parecer
infarto.
- Eliminar meu pai foi o primeiro passo
para que Boris chegasse onde ele queria - concluí
por fim - Agora, ele quer a Bratva e a Kyara
também. Tudo o que ele sempre mais quis estava
comigo. Mas ele não terá nenhum dos dois. E vou
fazer com que ele pague por ter dado uma morte
tão desonrosa ao meu pai.
- Pode ter certeza que estarei ao seu lado
quando isso acontecer - jurou Vladic.
Meus olhos estavam úmidos, mas não me
permiti liberar as emoções. Estava feito, otets
Milanovic estava morto ao lado de minha mat'; que
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os dois tivessem o descanso merecido.
Cheguei ao escritório e o Dr. Kushin me
encarou com seus olhos de texugo assustado. A
briga com Vladic deixaria Kyara chateada quando
me visse, mas com os devidos cuidados logo os
hematomas desapareceriam.
- Acho que vou precisar de pontos,
doutor.
- Não será o primeiro - ele fez uma
tentativa de gracejar, mas ao notar que nenhuma
expressão surgiu em meu rosto, ficou sério e
indicou a cadeira para que eu me sentasse enquanto
ele colocava sua maleta na mesa - Sei que pode se
remendar sozinho, sempre pôde.
Era parte de ser um guerreiro, e embora
não exercesse a função de um, precisava saber
como lutar, mas também como cuidar dos
ferimentos que recebia.
- Mas o Sr. Guriev também explicou que
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estou aqui de plantão para atender a futura Sra.
Milanovic. Esperamos que nada aconteça. Ela
estava tão feliz com o casamento. Espero que ela
esteja bem, principalmente no estado dela.
- Estado dela? - ele tinha acabado de
colocar a luva e estava com a seringa na mão
quando me virei bruscamente para ele - Que
estado?
Ele mesmo tinha garantido que Kyara
estava bem quando a consultou no dia que a
encontrei desmaiada no banheiro.
O Dr. Kushin ficou pálido e deu alguns
passos para trás. Vladic, que estava atrás, impediu
que se asfaltasse mais com o corpo servindo como
barreira.
- Fale logo, homem! - urrei ao ficar em
pé - O que a Kyara tem?
- Ela disse que iria contar na lua de mel
- disse ele nervoso, tremendo a agulha na sua mão
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- Mas eu pensei que iria contar logo. As mulheres
quase nunca conseguem guardar um segredo, ainda
mais um assim. Pensei que contaria no mesmo dia.
Ele estava enrolando para conseguir minha
piedade, mas só estava me deixando mãos irritado.
- Kushin?
- Ela vai ser a esposa do Pakhan, eu
também tenho que ter a confiança dela. Eu juro que
ela disse que ia contar.
Avancei até Kushin, disposto a arrancar a
confissão nem que fosse com meu punho enfiado
na garganta dele.
- Fale de uma vez - disse Vladic.
- Ela está grávida.
Foi como se eu tivesse levado um soco no
estômago, e pareceu tão real que cambaleei alguns
passos para trás.
- O que disse? - indaguei desnorteado.
- A Srtª Smirnov está grávida. Apenas
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algumas semanas, mas sim. Isso explica o desmaio
daquele dia e outros sintomas.
Kyara estava grávida de um filho meu!
A mulher que eu amava, com quem iria me
casar nas próximas horas, carregava um bebê no
ventre enquanto era mantida prisioneira nas mãos
de um lunático que me odiava.
- Você não me contou nada! - avancei
na direção dele, mas Vladic rapidamente levou o
homem para trás, segurando agora a mim - Sua
obrigação era me contar independente do que ela
dissesse.
Eu a teria protegido melhor. Se eu
soubesse que Kyara estava grávida acho que nem
teria saído de perto dela.
- Dmitri, a gente precisa dele. E foi um
pedido dela, a futura koroleva. Provavelmente ela
queria te fazer uma surpresa. Você, matar o Kushin,
vai deixar Kyara triste - ele olhou por sobre o
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ombro o médico que praticamente chorava - E o
mesmo aconteceria com a sua mat' [1]se estivesse
viva.
Acontece que eu já não estava
raciocinando bem apenas por saber que Kyara
havia sido sequestrada, agora, saber que meu filho
no ventre dela também corria perigo no mesmo dia
que descobri o assassino do meu pai, me tirava todo
o raciocínio lógico.
Se Boris soubesse disso, que o fruto do
nosso amor estava crescendo dentro dela... Não
conseguia nem imaginar o que ele seria capaz de
fazer, apenas para me desestabilizar. Encontrá-la
agora não era questão apenas de precisa tê-la
comigo, mas de sobrevivência para Kyara e o bebê.
- Tire-o daqui - disse a Vladic ao me
curvar e agarrar firme a borda da mesa - Agora!
Assim que senti a porta fechar às minhas
costas, passei o braço sobre a mesa jogando tudo no
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chão, inclusive a maleta do médico, espalhando boa
parte dos utensílios dentro dela sobre o carpete.
Vidros se quebraram, outros materiais rolaram pelo
chão.
Não satisfeito com isso, fui encolerizado
em direção à estante de livros e a derrubei também.
Tudo o que havia no escritório que pudesse ser
derrubado ou danificado sofreu as consequências
da minha ira.
- Maldito! - urrei erguendo a grande e
pesada mesa, virando-a contra o chão - Maldito!
Maldito!
Como já não havia mais nada a ser
atacado, comecei a socar a parede com força.
Cada murro que eu dava, imaginava ser
Boris Kamanev e isso me fazia socar a parede cada
vez mais.
- Pare com isso! - Vladic me conteve e
me afastou da parede manchada de sangue -
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Quebrar a sua mão não vai te ajudar.
- Meu filho - desabei contra o chão e
Vladic se ajoelhou ao meu lado.
Algo tão bonito e que eu não soube pelos
lábios dela; não pude comemorar enquanto via seus
olhos brilharem de felicidade. O desgraçado
Kamanev também tinha roubado isso de mim.
- Cara, alguns meses atrás você nem
pensava em se casar - disse Vladic me amparando
pelos ombros - Agora, terá uma esposa e um
garoto gritando por você pelos cantos.
- Ou uma menina - consegui dizer -
Como a Kyara. Vai ser bonita pra caralho.
- Vamos fazer um acordo - disse ele se
afastando de mim e rastejando pela confusão na
sala até achar a única garrafa no bar que eu não
tinha desperdiçado em minha fúria - Prometo que
encontraremos Kyara e seu filho, porque só eu
estando morto para não ver esse menino nascer.
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Sequei o meu rosto e aceitei a mão que ele
me dava. Só Vladic para conseguir um pálido
sorriso de mim.
- Você afoga suas mágoas - me
estendeu a garrafa - Pelo menos por essas horas,
Dmitri, você está precisando. E quando descer pela
manhã, preciso que esteja forte.
Eu não queria anestesiar minha dor na
bebida. E muito menos, esperar todo esse tempo
para que Kyara fosse encontrada.
- Ivan...
- Está fazendo o possível, cara - disse
ele insistindo para que eu pegasse a garrafa de
vodka - Todos nós estamos. Mas isso pode durar
algumas horas, como pode durar dias.
No fundo, eu sabia que ele tinha razão.
Um dos motivos que mais me deixava puto com
tudo isso é que eu sabia que Boris estava agindo às
minhas costas. Sabia os motivos das reuniões e iria
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pegá-lo no que eu acreditei ser o momento certo,
mas Boris moveu uma peça que eu não sabia estar
na jogada.
Kyara!
- Você me avisou, Vladic - murmurei
pegando a garrafa - É culpa minha. É tudo culpa
minha.
- O único culpado é o Kamanev - disse
ele - Você fez o que achava certo. Eu achei certo.
Você é meu irmão - disse colocando a mão em
meu ombro - Deixe-me carregar um pouco esse
fardo para você.
Nós éramos irmãos de coração, mas se
fôssemos de sangue, não sei se eu o amaria tanto,
talvez houvesse entre a gente inveja e competição.
Eu preferia um irmão que eu escolhia para ser. Não
eram assim os amigos de verdade, quem
escolhíamos para estar do nosso lado e chamar de
irmão?
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- Está bem - disse passando pelo
amontado de lixo que havia espalhado - Confio
em você, Vladic.
Saí em direção ao meu quarto, já tomando
alguns goles pelo caminho.
Eu havia me tornado o que Boris me
alegava ser: um fraco, porque nesse momento, eu
não tinha condições alguma de lidar com a
frustração e raiva que toda essa merda me causava.
Ao chegar ao quarto, um detalhe novo me
chamou atenção, a folha dobrada em cima da
mesinha de cabeceira do lado onde Kyara
costumava dormir. Caminhei até ela, sentei no
chão, as costas apoiadas contra a cama e comecei a
ler.
Eram os votos de casamento. Votos que
prometemos não ler, mas eu não tinha como não
quebrar essa promessa. Estava faminto por um
pouco de Kyara perto de mim.
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"Eu não sou muito boa com as palavras,
acho que poucas pessoas têm esse dom, mas aqui
expresso com toda sinceridade o que há em meu
coração.
Dimitri.
Meu amor... meu cavaleiro de armadura
negra. Não o que me levou para o seu lindo
castelo, mas o que me libertou das muralhas que eu
mesma havia erguido em volta de mim. Você não
tem apenas duas cores, Dmitri, você é todo o meu
arco-íris.
É seu amor que me liberta todos os dias.
Nunca me senti tão livre, tão protegida e tão
amada. Quero ficar sempre presa em teus braços,
eu te escolhi e te escolheria mil vezes..."
O discurso continuava inflamado, mas já
não conseguia ler. A dor em meu peito era forte
demais. Coloquei a garrafa ao meu lado junto com
a carta enquanto a madrugada escura lá fora surgia.
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Até isso me fazia lembrar Kyara e de quantas vezes
ela passou admirando o céu.
Será que olhava para ele agora?
- Querubim, onde você estiver, estou
pensando em você.
Dmitri Milanovic sofria terrivelmente por
Kyara, mas estava na hora de eu deixar o meu lado
negro falar por mim.
Ele era implacável e traria os dois de volta.
Irina Novitsky
Não haverá mais casamento e o Pakhan
não quer ser incomodado.
Essa foi a única informação que tive
quando o boyevik bateu à minha porta uma hora
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antes de eu começar a me preparar para a
cerimônia. Para mim, a informação e a ordem não
foram suficientes.
Por que Kyara não me ligou avisando?
Afinal, eu era uma das damas de honra. Por que
Dmitri, e até mesmo o insuportável do Guriev, não
entraram em contato comigo se tinham meu
telefone? Por que nenhum deles respondia
nenhuma das minhas dezenas de ligações o dia
todo?
Caramba! Eu tinha me tornado mais do
que a cientista maluca que Dmitri supervisionava.
Eu era a amiga da sua futura esposa, amiga de
todos eles, menos de Guriev. Minha relação com
Vladic era estranha de se explicar. Eu o detestava,
mas ele mexia comigo como nenhum outro homem
foi capaz até hoje. Até Dmitri, a quem sempre
considerei um homem lindo, e o cientista novato e
atraente que eu tinha solicitado que trouxessem dos
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Estados Unidos, não exerciam a mesma fascinação
sobre mim.
Vladic era um grosso, ignorante e burro.
Bom, não realmente burro. Dentro do que ele fazia,
no que ele foi treinado para fazer, não havia pessoa
mais eficiente e preparada que ele. Talvez quem
chegasse mais perto fosse Ivan Trotsky, o chefe dos
Obshchak[2]. Que também tinha muitos músculos,
tatuagens e fazia mais a linha galã de cinema do
que Vladic.
Ele não tinha o rosto perfeitinho. O nariz
era quebrado devido as porradas que deve ter
levado guerreando, treinando o porquê agia como
um cretino mesmo. As orelhas típicas de um
lutador, queixo quadrado e duro. Uma muralha de
músculos, músculos por toda a parte para ser mais
exata e eu sempre admirei mais a massa encefálica
do que a muscular, sorri ao pensar nisso, podia usar
isso contra Vladic quando o encontrasse de novo.
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Os olhos nem eram azuis, mas de um
castanho comum, contudo, traziam algo que o
suavizava; sempre tinha um ar divertido ou de
deboche, principalmente comigo, o que me irritava
mais ainda. Ah, ele também tinha um traseiro de
dar inveja, mesmo que na maioria das vezes
estivesse de terno. Sim, eu havia reparado na bunda
de Vladic. Era quase impossível não reparar, já que
todas as vezes que ele ia embora, meus olhos
fulminantes estavam sobre suas costas, bom,
deveria estar nas suas costas.
A boca também me agradava, bem
desenhada e generosa o suficiente para me fazer
querer mordê-la. E as mãos dele eram firmes e
grandes, já me apertaram firme algumas vezes,
fossem para impedir uma queda ou para me
atormentar.
Isso era uma coisa que ele também sabia
fazer muito bem, foder com a minha mente por
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simplesmente estar no mesmo ambiente que eu. O
problema com Vladic é que ele tinha jeito de
homem, aquele tipo das cavernas que eu deveria
odiar (e eu odiava), mas que também me atraía.
Mas por que eu estava pensando em
Guriev quando minha preocupação deveria ser
Kyara e o casamento que não aconteceria?
Alguma coisa estava muito errada e após
horas tentando entrar em contato com um dos três,
decidi ir até a casa Milanovic e eu mesma encontrar
as respostas.
- Onde você vai? - estava perto de tocar
a maçaneta quando ouvi a voz de meu otets atrás de
mim.
- Vou ver a Kyara - virei para ele e o
encontrei com seu cigarro na mão e copo de vodka
na outra - Pai, o que o Dr. Ian Kovsky disse sobre
não fumar e não beber?
Ele teve um princípio de infarto há alguns
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meses quando seu médico o tinha proibido de
fumar, beber e aconselhado a ter uma vida mais
saudável. Eu ficava de olho e pagava muito bem
Oleg Bezrukov, seu secretário, para ficar de olhos
bem abertos em relação ao meu pai. Depois da
morte do Pakhan, o pai de Dmitri, por infarto,
fiquei ainda mais paranoica em vigiá-lo.
- Aquele merda não sabe de nada -
resmungou ele, mas deixou que eu tirasse o copo e
o cigarro de suas mãos.
Foram direto para o lixo.
- Ele só quer me controlar e que eu viva
mais para arrancar mais do meu dinheiro.
- Eu quero que você viva mais, papai -
olhei feio para ele, embora isso não fosse afetá-lo
nem um pouco - E não é por causa do seu
dinheiro.
- Daragáya[3], não venha com essa
vozinha de garota meiga que ama o papai - voltou
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a resmungar - Para onde estava indo?
Se havia alguém que me conhecia bem era
o meu pai. Nós éramos tudo um para outro, após
minha mãe ter morrido no parto, algumas horas
depois de ter me dado à luz. Eu até achei que ele se
casaria de novo e desejei que isso acontecesse para
me dar irmãos, mas acho que seu carinho por
minha mãe foi mais forte do que ele ousava
admitir.
- Eu preciso ir ver a Kyara - decidi ser
honesta - Alguma coisa está acontecendo. Ela
estava radiante com o casamento. Por que foi
cancelado?
Meu pai respirou fundo e pegou minha
mão me conduzindo à sala de estar. Sempre que ele
queria que eu entendesse um assunto sério, agia
assim. Desde criança, olhava dentro dos meus olhos
e dizia com toda calma quando não poderia ter
alguma coisa, porque ele não podia faltar ao
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trabalho para ficar comigo ou porque a mamãe
tinha morrido e que não, eu não tinha matado ela.
Foi assim desde que criança.
- Sei que é muito amiga dela.
- Eu me tornei muito mais agora -
corrigi lembrando que no passado não era tanto
assim.
Kyara sempre foi uma garota legal comigo
no colégio. Não me chamava de esquisitona como a
maioria das garotas e nem se incomodada que
prestasse mais atenção aos meus livros do que no
que me falava. Mas ela sempre estava com Sonya e
essa sempre foi uma grande suka [4]comigo, a quem
eu preferia passar bem longe e ignorar.
Mas sem a presença da irmã má, era como
se Kyara se permitisse brilhar e ela não precisava
apagar a luminosidade das outras pessoas para se
sentir mais bonita e segura de quem era. Conversar
com ela era fácil, ficar em sua presença era calmo.
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- Ela me convidou para ser dama de
honra - relembrei a ele - Sabe o que isso
significa?
- Exatamente o que a palavras dizem,
uma honra. E não existe pessoa no mundo que
mereça ter todas as honras, além de você -
afirmou ele.
Papai não era de ficar tecendo elogios,
nem mesmo para mim, mas quando fazia era na
hora certa e com palavras perfeitas. Eu nunca fui de
ter muitos amigos, principalmente do sexo
feminino. O que elas conversavam nos vestiários e
nos intervalos das aulas não me interessava. Por ser
filha do dono do colégio ou se aproximava de mim
quando tinham algum interesse em relação à escola
ou me afastavam porque tinham interesses que nem
eu, e principalmente meu pai e professores,
deveriam saber.
Passei a vida toda com a cara enfiada nos
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livros, depois, nos computadores. Ambos eram
mais fáceis de entender do que os humanos. Então,
ele sabia que essa nova fase da minha amizade com
Kyara era importante para mim.
- Mas se o Pakhan ordenou que não
queria ser incomodado, nós vamos obedecer.
- Mas alguma coisa aconteceu, não
estamos falando de um convite para um jantar. É
um casamento, papai - insisti e o sondei com o
olhar - A menos que você saiba de algo que eu
não saiba.
Meu envolvimento com a Bratva ficava na
ciência e tecnologia. Eu sabia das coisas que
aconteciam nos bastidores, dos negócios que eram
fechados e nas relações boas e ruins que eram
mantidas. Mas Dmitri me deu algo que talvez eu
não tivesse em outro lugar, a oportunidade de
mostrar que era boa, ou podia ser, no meu trabalho.
Não importava para ele se eu usava saia ou um par
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de calças, salto alto ou tênis, que minha boca
tivesse mais creme para o café do que batom. O que
ele exigia era que eu fosse eficiente.
Em algumas culturas, mulheres andavam
atrás dos maridos, literalmente. Em outras, cobriam
o corpo para andar na rua, e em outras, eram
tratadas apenas como uma máquina procriadora. Na
Tambovskaya isso ainda era assim. Todo país tinha
suas leis, regras e sua cultura. A Bratva era como
um país dentro da Rússia. Eu não conhecia outra
coisa e me adaptava da melhor forma possível.
Eu nunca criaria uma arma nuclear ou um
vírus que se espalhasse matando rapidamente as
pessoas pelo mundo, mas eu faria algo para nos
defender dela.
- Você sabe de algo que eu não sei,
papai?
Ele desviou o olhar e quando fazia isso
significava três coisas: estava mentindo, iria mentir
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ou queria esconder algo. Eu era assim. Filha de
peixe...
- Pai?!
- Só ouvi boatos.
- Que tipo de boatos?
- Não muito coisa ou se é mesmo
verdade, mas algo sobre quererem derrubar o
Milanovic.
Levei minhas mãos à boca, assustada.
- É só isso que tenho a dizer por
enquanto, daragáya.
- Mas, pai...
Se Dmitri e Kyara corriam perigo, eu
precisava saber. Às vezes ser tão focada em meu
trabalho no laboratório me prejudicava. Eu não
tinha interesse nas questões políticas internas da
Bratva.
- Irina, sou um homem muito rico e
influente, dentro da Bratva e fora dela - disse ele e
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tocou minha face com as duas mãos - Mas se
perguntarem qual a minha maior riqueza, não vou
pestanejar em dizer que é você. Por isso, até que eu
ache seguro, você irá ficar em casa. Quando puder,
o Pakhan e sua amiga darão notícias.
- Mas e o meu trabalho no laboratório?
- Pode esperar alguns dias - disse ele
em um tom firme - Ou peça àquele americano que
traga tudo o que você precisa até aqui.
- Não pode esperar, não! - também falei
firme - E ele é metade russo. Você e Guriev
parecem esquecer isso.
- É que Vladic só dá importância ao que
é realmente importante - disse ele sorrindo -
Sabe, eu gosto dele.
- Do Tigran?
- Não! - ele olhou como se estivesse
louca - O Avtorieyt. E já que não posso mais
sonhar em vê-la casada com o Pakhan, o Guriev
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não é uma escolha tão ruim. Não é tão rico, mas
dinheiro nós temos mais que o suficiente para
dezenas de gerações, que aliás, eu espero que
continue a surgir antes de eu morrer.
- Eu não acredito que está querendo que
eu corteje o Guriev.
Pior do que meu pai ficar insistindo em me
ver casada e com filhos antes que ele morresse, era
ele querer me casar com alguém como Vladic.
- Na verdade - ele soltou meu rosto e
balançou o dedo em frente a ele -, Vladic quem
tem que cortejar você. Talvez eu o chame para um
drink e poderemos conversar melhor sobre isso. O
Pakhan vai se casar, ele deve seguir seu exemplo,
não existe pretendente em toda Bratva melhor que
você.
- Não se atreva, papai! - disse exaltada
- Não se atreva a me jogar nos braços do Vladic.
Você prometeu que posso terminar meus estudos.
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- O problema é que sempre me orgulhei
da sua inteligência e, por isso, dei asas demais a
você, Irina. Sua mãe também era inteligente. Uma
professora universitária fantástica. Mas como eu
fiz, está na hora de alguém com mais pulso te
dobrar.
Não deixaria que Vladic ou qualquer outro
homem tentasse me dominar, quando nem meu pai
havia conseguido.
- Não sou uma folha de papel para ser
dobrada - protestei recebendo um olhar duro, que
ignorei - Prefiro entrar para um convento do que
me casar com ele.
- Não vamos à igreja, minha filha - ele
riu - Você foi batizada?
Tanto quanto ele, não sabia ou não me
lembrava disso. Mas eu entraria para a Igreja nem
que tivesse que pular os muros.
- Vou ver sobre isso e sobre Guriev -
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ele se levantou - E nem tente sair de casa. Tem
um boyevik na porta. Obedeça ao Pakhan já que a
mim...
Ele saiu resmungando, mas meus
pensamentos estavam desconectados.
Ah! Eu queria odiar o meu pai, como eu
queria odiar Vladic Guriev.
Eu até tinha que admitir que sentia atração
por Vladic, mas não a ponto de me casar com ele e
sabotaria qualquer intenção em relação a isso que
meu pai tivesse.
Mas eu precisava ruminar isso depois.
Vladic só era mais uma pedra em meu sapato.
Minha prioridade agora era chegar até o Pakhan e
saber como minha amiga estava. Eu esperava que
ela estivesse bem.
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Capítulo 40
Dmitri Milanovic
Toda metade esquerda do meu corpo
pendia para fora da cama e a outra metade me
mantinha nela. Foi assim que despertei,
desengonçado e com a garrafa de vodka vazia em
minha mão. Era preciso mais do que isso para me
garantir uma boa ressaca, mesmo assim, meu
estado era deplorável.
Esfreguei o rosto amassado pelo
travesseiro de Kyara, que eu havia procurado à
noite, ainda continha o perfume dela. Afastei o
travesseiro assim como tentei com todas as forças
afastar a dor que isso me causava. Até ter Kyara de
volta, seria apenas o Pakhan. Era preciso que fosse
dessa forma.
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Antes de sair da cama, peguei o papel com
os votos de Kyara que havia deixado cair no chão e
depositei no mesmo lugar que ela havia deixado.
Levantei e segui para o banheiro onde joguei a
garrafa vazia no cesto de lixo. A água caindo sobre
minha cabeça podia relaxar os músculos tensos em
meu corpo, mas a minha mente seguia frenética.
Saí do box e encarei o espelho enquanto
me secava. Precisava dar um jeito no corte do
supercílio que sempre voltava a sangrar quando
tocado. Havia uma caixa de primeiros socorros no
gabinete. Eu mesmo daria um jeito nessa merda.
Depois dos pontos, segui para o closet e
retirei uma das dúzias de ternos que havia dentro
dele. Calcei os sapatos e olhei para o anel do
Pakhan em meu dedo. Eu tinha mandado que
ajustassem uma réplica, com detalhes mais suaves e
femininos para Kyara, o mesmo anel que meu pai
havia dado à minha mãe, e meu avô, para sua
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esposa.
Colocaria no dedo de Kyara logo após a
aliança na cerimônia de casamento. Ainda estava
guardado no mesmo lugar no bolso do terno que
constava meus votos a ela. Isso não era o nosso
fim, só era um adiamento não planejado.
Desci e fui à sala montada para a
investigação à procura de Ivan. Deveria estar
possesso por Vladic ter permitido que eu apagasse
por tanto tempo, mas ele tinha razão, meu corpo e
mente precisaram dessa pausa para enfrentar as
horas difíceis que teríamos pela frente.
Eu sabia que não havia nenhuma notícia
importante ou avanço no caso, Vladic teria me
acordado imediatamente se tivesse. Mas eu queria
saber em que pé as coisas andavam.
Encontrei Ivan com Vladic e, ao lado
deles, dois dos seus homens. Havia pelo menos uns
dez dentro da sala, avaliando equipamentos,
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concentrados em escutas e analisando mapas.
- Papa - Ivan foi o primeiro a me ver e
cumprimentar.
- Dmitri - Vladic veio até mim e me
deu uma boa estudada com os olhos.
Bati suavemente em seu braço.
- Está tudo bem, Vladic.
E podia dizer que realmente estava. Eu
precisava manter a cabeça calma e agir com frieza,
isso que traria Kyara e meu filho seguros de volta
para casa. E eu faria tudo para tê-los comigo de
novo, até sufocar meus sentimentos.
- O que você tem de importante, Ivan?
Conseguiu algo com o meu celular.
Até onde eu sabia, queriam investigar de
que lugar originou a ligação de Boris.
- Veio de Moscou e encontramos o
telefone em uma lixeira - disse Vladic - Mas
isso não ajuda muito. Ele pode ter ido de
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helicóptero e voltado para seja lá qual buraco
mantém-se escondido.
Olhei para Ivan e tive certeza que ele
pensava o mesmo.
- Se Boris queria fazer acreditar que
estava em Moscou... - dei voz aos meus
pensamentos.
- É porque ele realmente não está -
disse Vladic.
A procura por Kyara era como tentar
encontrar uma agulha em um palheiro.
- Mais alguma coisa? - perguntei a
Ivan.
- A Srtª Novitsky tem ligado
constantemente.
- Ela era uma das damas de honra. O que
disseram para os envolvidos no casamento e
convidados?
- Apenas que foi adiado e que o Pakhan
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não receberia visitas ou faria audiência até o
próximo comunicado - Disse Vladic.
- Mas Irina é insistente - disse Ivan e
olhou em volta da sala - Nós temos equipamentos
de alta tecnologia aqui, acha que Irina pode ser útil
em alguma outra coisa? Ela é boa com essa coisa
de tecnologia, pode ter alguma coisa nova. Devo
chamá-la?
- Acho melhor não a envolvermos nisso
- disse Vladic.
Acreditava nunca ter chamado a atenção
dele em qualquer circunstância. Vladic era
sarcástico e tinha um humor ácido, mas sempre
agia de acordo com cada ocasião e seu trabalho era
executado de forma exemplar. Mas sua birra, ou
seja lá como devesse denominar a sua relação com
Irina, não era bem-vinda agora.
- Não me interessa suas desavenças com
Irina - disse em tom extremamente seco - Eu
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quero Kyara de volta!
- Não é por isso - protestou ele - Irina
já se envolveu muito no caso Tambovskaya, não é
justo trazê-la para isso também. Com todo respeito,
Pakhan, ela é só uma cientista.
A questão com Irina era outra, eu podia
ver. Puxei Vladic para um canto, mantendo a
conversa entre a gente.
- Ela é importante para você - disse a
ele, estudando seu olhar consternado.
- Não, eu só acho que...
- Corta essa, Vladic, não tenho saco para
essas suas desculpas - cortei-o antes que viesse
com uma justificativa que nem ele mesmo
acreditava - Vou dar mais algum tempo a Ivan.
Eu conseguia entender Vladic querer
proteger Irina de qualquer respingo que essa guerra
pudesse causar, faria o mesmo por Kyara se
estivéssemos em papéis diferentes, mas minha
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família vinha em primeiro lugar. E por considerá-lo
como parte dela, daria esse tempo a Ivan para que
conseguisse mover céus e terra para encontrar
minha mulher e meu filho.
- Mas se ele repetir que Irina pode ser
uma peça importante - disse a ele -, vou mandar
buscá-la. Por agora vou pedir que ele veja se
alguém ligado ao laboratório de Irina pode ser tão
útil quanto ela.
Vladic assentiu e retornamos para o lado
de Ivan. Logo depois minha atenção estava
completamente focada em cada informação nova
que recebia. Uma delas veio de Nikolai algumas
horas mais tarde.
- A arena está pronta - disse ele -
Todos os traidores já se encontram lá e os Kapitany
de Primeira e Segunda Elites que não o traíram
estão sendo enviados para assistir o torneio e
realizar um novo juramento ao Pakhan.
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Não era apenas mais um ritual para
reafirmar minha supremacia. Os Kapitany
possuíam seu próprio exército de Boyevik e eu
precisava de cada soldado que pudesse se aliar aos
meus e partirmos juntos para enfrentar Boris
quando finalmente o encontrasse.
- Ivan, você fica aqui cuidando das
investigações - disse a ele - Mantenha uma linha
direta comigo. Quando tiver que ir para a arena,
quero que todas as informações sejam direcionadas
para lá. Quando der o sinal, partiremos com os
Boyevik.
Boris seria esmagado antes de conseguir
entender o que acontecia à sua volta.
Acertei os últimos detalhes com Nikolai e
só percebi que Vladic tinha saído quando precisei
dizer algo a ele. Concluí que saiu para resolver algo
importante e tornei a me concentrar em Ivan. Isso
era o que me mantinha longe de enlouquecer.
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Vladic Guriev
Fazia dois dias que Kyara tinha sido
sequestrada e iríamos para o terceiro. Embora
Dmitri estivesse agindo com racionalidade, sabia
que por dentro ele estava acabado. Eu conhecia
esse garoto desde que era um bolinho enrolado no
cobertor.
Ainda me lembro de quando criança, me
pendurar em seu berço para poder olhá-lo de perto.
Eu cresci e fui criado não apenas para ser seu
homem de confiança. Fui treinado para dar a minha
vida por ele, e daria.
Estava fazendo o possível para ser a razão
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quando ele era a emoção. Segurando as pontas,
mantendo tudo e todos em ordem, obrigando
Dmitri a manter a calma, mas estava foda. Eu
também gostava de Kyara, gostei dela desde a
primeira vez que a vi e notei que com ela, mesmo
negando, Dmitri era diferente.
As pessoas queriam a glória de ser o
Pakhan, mas não tinham ideia do peso e
responsabilidade que isso trazia. Fiquei feliz que
ele tivesse encontrado alguém que pudesse ficar ao
seu lado e suavizar uma parte de sua vida.
Estava tudo errado. Hoje seria o casamento
deles. Era para estar iniciando mais duas semanas
de lua de mel onde teria que aguentar ouvir pelos
cantos os dois foderem na casa da Suíça.
Deveríamos estar comemorando a chegada do novo
Milanovic e futuro Pakhan.
Em vez disso, tinha aguentado Dmitri
tentando se manter em pé. Eu, muito próximo de
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explodir a bomba relógio dentro de mim enquanto
observava as horas avançarem e Kyara estava sabe-
se lá Deus onde, presa a um maluco.
Enquanto Nikolai falava, eu me
concentrava em manter esses pensamentos
turbulentos no lugar quando meu telefone tocou.
Era Irina. Eu tinha ignorado dezenas de
ligações dela. Primeiro, porque Dmitri estava
desnorteado demais para que eu prestasse atenção
em qualquer outra pessoa que não fosse ele. Já
enfrentamos situações difíceis, como a morte de
Mikhail Milanovic e antes dele, sua esposa. Nós
dois fizemos missões em campo e já colocamos
nossas vidas em risco, mas era diferente. Dmitri
estava apaixonado e ele deixava a porra do coração
falar por ele.
É por isso que não queria Irina metida
nessa merda. Eu não conseguiria me concentrar
sabendo que sua vida poderia estar em risco. O
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lance com a Tambovskaya ainda me deixava muito
puto. Não que eu estivesse perdidamente
apaixonado como Dmitri. Mas a gente tinha uma
ligação de amor e ódio. Mais ódio do que amor e
grande parte, devo admitir, por minha culpa. A
garota me tirava do sério não só pela inteligência,
mas também por não ter se mostrado nem um
pouco mexida por qualquer tentativa de sedução
que eu tivesse jogado sobre ela, então, passei
apenas a provocá-la, raiva era melhor que nenhum
sentimento. E já que estava sendo sincero comigo
mesmo, irritar Irina sempre me deixava de pau
duro.
Ela era uma chata, intelectual arrogante e
nem se vestia do jeito sexy que eu apreciava, acho
que era por isso que mantinha meu interesse nela.
Por baixo de toda frieza e roupa sem graça, deveria
existir uma tigresa selvagem querendo ser domada.
Por experiência sabia que as recatadas ou ignoradas
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por outros homens eram as mais quentes na cama.
O telefone voltou a tocar. Aproveitei que
Dmitri estava ocupado com Ivan e Nikolai e saí.
- O que você quer, Novitsky?
- Vladic? Até que enfim consegui falar
com você - disse ela - Quero saber o que está
acontecendo. O casamento foi cancelado, mas não
dizem nada. Ouço murmúrios aqui e ali. Como está
Kyara? Quero falar com ela.
Tentamos manter o máximo de informação
possível em relação ao sequestro de Kyara em
segredo. Não desejávamos que nenhuma
informação tática do que faríamos chegasse a
Boris, a não ser as que queríamos no momento
certo.
- Isso não é possível - disse a ela - O
mensageiro foi claro. O Pakhan não irá receber
ninguém.
- Não quero ver o Dmitri - ataca ela -
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Quero falar com Kyara!
O atrevimento de Irina me divertia mais do
que irritava. Esse não era o dia. Estava há horas
sem dormir e lidando com uma situação muito
tensa.
- Já disse que não é possível.
- É verdade, não é? - disse ela com
choro na voz - Alguma coisa aconteceu a Kyara.
Foi Kamanev ou a Tambovskaya?
- O Kamanev e é tudo o que eu posso te
contar. Falo com você quando puder.
Encerrei a ligação aos berros dela no
mesmo momento que vi Nikolai se aproximar.
- Ele está reagindo bem - disse ele,
acendendo um cigarro.
- Você acha? - declinei do cigarro que
oferecia e cruzei os braços.
Uma das coisas que Nathasha Milanovic
nos proibia era fumar e beber feito um gambá perto
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dela. Às vezes eu bebia feito um gambá, mas o
cigarro havia declinado. Um guerreiro não tinha
vícios ou se deixava dominar por eles.
- É o que parece.
- E você não o conhece - resmunguei.
- Não tanto quanto você, Vladic -
Nikolai afirmou - Acho que a única pessoa que
realmente o conhece.
- Agora ele tem a Kyara.
- Sim, e eles se amam, mas ela não viu e
viveu toda a história dele, você sim - ele sorriu -
Eu me lembro quando o trouxe para esta casa e
quando os Milanovic chegaram com o bebê. Vocês
passaram a ser inseparáveis sempre. Dmitri sempre
querendo ser igual a você. Imitando até o gesto de
cruzar os braços.
Nikolai tinha razão. Dmitri e eu tínhamos
uma longa história juntos. Muitas algazarras na
infância, aventuras na adolescência e aprendizagem
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durante o crescimento e treinamento para as nossas
funções.
- Mikhail ficaria orgulhoso de você -
disse ele - Tem feito bem seu trabalho cuidando
de Dmitri.
Senti um grande nó na garganta, que
engoli.
- Ele não precisa que ninguém cuide
dele.
- Mesmo assim, você cuida - disse ele
dando um tapa em meu ombro antes de sair.
Estávamos nos preparando para ir à arena
quando um Boyevik pediu um minuto em particular
comigo.
- Senhor, eu sei que a ordem é para não
ser incomodado - iniciou ele nervoso - Mas a
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jovem tentou entrar duas vezes e ela alega que é
algo importante e quando souberem o que tem para
falar, o Pakhan irá querer nossas cabeças por não
ter passado o recado adiante.
- Quando você diz ela - esfreguei
minha têmpora, irritado - Quer dizer a Srtª
Novitsky.
Ele assentiu e eu não estava surpreso por
isso.
- Está aqui?
- No portão - disse ele - Berrando!
Eu poderia rir se a situação não fosse
dramática.
- Leve-a para o escritório do Pakhan e
peça que alguém diga a ele que me aguarde por um
instante.
Daria as respostas que Irina tanto queria e
a despacharia de volta para a segurança de sua casa.
Aqui não era lugar para ela. Estávamos atrás de
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Boris, mas isso não queria dizer que ele não estava
arquitetando alguma forma de nos atacar.
- Você é um imbecil, Guriev! - foi a
primeira coisa que ela disse ao me ver.
Seu rosto vermelho pela raiva ou por ter
passado um bom tempo gritando no portão, como
disse o boyevik, se possível, a deixou mais graciosa,
pelo menos aos meus olhos.
- E você, intrometida - rebati cruzando
meus braços para evitar ir até ela e sacudi-la -
Que parte do 'não podemos lidar com suas
infantilidades agora' você não entendeu?
- Infantilidades?
- Porra, Irina! - fiz algo que não
costumava fazer, perdi a cabeça - Kyara está nas
mãos do Boris. O Dmitri está quase maluco e, para
piorar tudo isso, sabemos que ela está gravida. Isso
está bom para você? Pode voltar para casa e nos
deixar cuidar do assunto ou vai continuar a agir
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como uma suka mimada?
Vi seu corpo tremer e ela avançou
lentamente até mim, lançando-me seu olhar
raivoso.
- Essa cadela mimada - disse com a
calma que diferia da fúria em seu rosto - Pode
encontrar a Kyara.
- O que você quer dizer? - perguntei
perturbado - Sabe onde Kyara está?
- Não foi isso o que eu disse, Vladic.
- Acabou de me dizer isso, sim.
- Eu disso que sei um jeito de encontrá-
la.
Ela se afastou de mim cruzando os braços
exatamente como eu fazia.
- Eu implantei um chip rastreador nela -
disse ao me dar um sorriso presunçoso - Então,
Vladic, ainda quer que essa cadela mimada se
retire?
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Ye-bat![5]
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Capítulo 41
Kyara Smirnov
Seja forte.
Foi o que passei a dizer a mim, mas como
eu poderia ser forte se a cada hora, cada minuto e
cada dia que passava parecia uma tortura. O dia
anterior foi o pior de todos, pois, teria sido o dia do
meu casamento. O dia que leria meus votos para
Dmitri e, juntos, juraríamos ser um do outro até que
a morte se colocasse entre nós.
A única coisa boa, se é que poderia dizer
assim, foi que Boris não cumpriu a promessa de se
unir a mim no jantar, nem mesmo Feliks apareceu,
apenas um outro boyevik, que deixou a comida no
quarto e não retornou nem mesmo para recolher a
louça usada depois.
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Mesmo com o avanço das horas e uma
indicação de que Boris não viria mesmo até o
quarto onde me mantinha trancada, na hora do
banho, prendi uma cadeira contra a porta e arrastei
outra até o banheiro.
Eu me limpei o mais rápido que consegui,
mal me sequei com a toalha antes de vestir a roupa
rapidamente. Jeans e uma camiseta, sobre ela um
suéter confortável. Precisava ser prática e vestir
algo que não me atrapalhasse a fugir, caso alguma
oportunidade surgisse.
À noite, e para dormir, era sempre pior.
Despertei várias vezes durante a madrugada com a
sensação de que estava sendo vigiada, ou com
temor de ser tocada novamente. Era uma sensação
tão ruim e angustiante que pegar no sono outra vez
se transformava em uma grande batalha, aos
primeiros sinais de luz do dia desisti.
Quanto tempo mais?.
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Vinha tentando manter a fé de que esse
grande inferno que vivia iria chegar ao fim.
Procurando não enlouquecer ao vagar por cada
centímetro do quarto ou olhando os guardas lá fora,
observando o que dava de suas rotinas e troca de
plantão.
Às vezes, pensar em Dmitri, nos
momentos doces e felizes que tivemos, ajudava a
renovar minhas esperanças; às vezes, pensar em
nosso futuro juntos com nosso bebê fazia minhas
forças renascerem. Outras vezes, como agora, isso
machucava muito.
Apertava a barra de ferro na janela – que
era onde eu passava a maior parte do tempo fora da
cama, quando a porta foi aberta atrás de mim. Eu
virei rapidamente em direção a ela. Vi Sonya entrar
e o boyevik que fazia a guarda na porta fechá-la
atrás dela.
- Oi, Kya - disse ela.
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- Por quê, Sonya? - essa era a única
coisa que eu desejava que ela me dissesse - Por
que fez isso comigo?
Ela não me deu uma resposta, não de
imediato, e eu começava a me perguntar se era
mais um plano entre ela e Boris. Alguma forma
nova e cruel de tentar me enlouquecer e
desestabilizar.
- Não foi algo contra você - ela
suspirou e apoiou as costas contra a porta ao
levantar o queixo para mim - Acha que tive
muitas escolhas? Ou estava do lado de Boris ou
fora do caminho dele.
Por que eu deveria me surpreender ou
ainda ficar magoada com a justificativa de Sonya?
Ela é uma Kamanev e eles sempre colocaram os
desejos e necessidades deles acima de todos. Sonya
tinha agido assim a vida inteira.
- Você poderia ter me procurado. Poderia
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ter pedido ajuda e eu a teria socorrido como sempre
fiz - não queria deixar transparecer minha mágoa,
mas era impossível, eu não sabia ou conseguia ser
fria como Sonya - Em vez disso, traiu a minha
confiança. Me roubou do meu lar, dos braços do
homem que amo, do pa...
Calei-me rapidamente dando as costas a
ela. Não podia contar a Sonya sobre meu bebê,
concluí abraçando meu ventre. Ela contaria a Boris
se pudesse tirar alguma vantagem sobre isso.
- Ouça, Sonya. Eu sei o quanto o seu
irmão pode ser cruel e violento. Apesar de dizer
que não teve escolha, agora você tem - virei-me
para ela - Pode mudar isso. Ajude-me a sair
daqui.
Ela me deu um sorriso escarnecido.
- Facilitar sua fuga será um milhão de
vezes pior do que ter me recusado a trazê-la -
disse ela - Além disso, agora é tarde demais.
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Boris irá enfrentar Milanovic. Ele não está sozinho,
Kyara. Há outros Kapitany com ele. A guerra foi
declarada e nós estamos em lados opostos.
E eu nunca quis estar no meio dessa
guerra, eu sempre a temi. Mas se tinha que escolher
um lado, escolhia o lado de Milanovic. Sempre
seria Dmitri.
- Sonya, por favor - supliquei
esperando que ela ouvisse a voz da razão - Dmitri
nunca irá perdoar você. Ele pode...
Não consegui concluir a frase.
- Me matar? O Boris também pode. Isso
não é injusto, Kyara? Dois homens brigando pelo
seu amor - disse ela com rancor - Dois deles
desejando minha morte, não importe que decisão eu
tome.
Era típico de Sonya me fazer sentir
culpada quando eu não era. Fui parar na casa de
Dmitri por causa dela, para tirá-la de uma de suas
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confusões. Estar presa aqui era por culpa dela
também.
- De qualquer forma, estamos muito
longe. O Pakhan nunca irá encontrar onde você
está, mesmo que Boris perca.
O Pakhan nunca irá encontrar...
Sua afirmação ameaçou me desestabilizar,
então, algo que ainda não tinha refletido veio como
uma ferroada em minha cabeça, fazendo-me erguer
a mão até o canto da minha orelha.
O chip!
Com o chip que Irina havia implantado em
mim havia grandes chances de Dmitri conseguir me
localizar muito em breve.
- Dmitri vai me encontrar, Sonya, sei
disso.
Ela balançou a cabeça e deu as costas a
mim, batendo o punho contra a porta até esta ser
aberta.
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- Você sempre foi muito inocente, Kya, e
é isso que pode destruir você, não o Boris, ou eu.
Não sou sua inimiga, embora pareça. Sinto muito
por tudo. Espero que um dia possa me entender.
- Sonya, por favor - caminhei até ela,
mas a porta foi fechada rapidamente.
Apoiei minhas costas e fiz uma oração que
reafirmava minha confiança em Dmitri. Ele iria me
encontrar. Eu tinha certeza disso. Só precisava
continuar me mantendo segura e buscando
oportunidades de sair daqui.
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Capítulo 42
Boris Kamanev
Analisei as facas alinhadas sobre a mesa e
escolhi uma delas, a que tinha uma lâmina mais
alongada e o cabo de madeira mais curto. Encarei o
alvo com uma foto retalhada de Dmitri Milanovic e
atirei.
Bem no meio de sua testa.
Peguei outra e outra faca até a pilha em
cima da mesa desaparecer e o boyevik ir até elas e
voltar a empilhá-las uma a uma sobre a mesa onde
me encontrava. Eu tinha passado a última hora
praticando e retalhando todas as fotos que o
boyevik trocava, imaginando ser o desprezível
Milanovic. Só que agora me sentia cansado e
aborrecido. Queria entrar em ação, mas não poderia
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dar meu próximo passo até que Feliks aparecesse
trazendo as informações que pedi.
Estava estranhando o silêncio do Kapitan
Dembinsky desde que trouxe Kyara até aqui. Os
outros Kapitany também não entraram em contato
para darmos seguimento ao plano e esse era o
momento de atacar Dmitri, o momento que ele se
encontrava desestabilizado para encontrar a noiva
perdida e que não estaria com cabeça para pensar
em mais nada. Milanovic mostraria a todos o que
sempre pensei dele, que era um fraco.
- Senhor?
Olhei para a porta de onde vinha o
chamado e vi Feliks que finalmente havia retornado
de sua missão.
- Deixe-as aí - disse ao homem
organizando minhas facas e fiz um sinal para que
Feliks entrasse - As usarei mais tarde, pode ir.
Esperei o homem se retirar e após ele
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fechar a porta, ordenei que Feliks relatasse o que
descobriu sobre o que está acontecendo em
Moscou.
- Nenhum dos Kapitany pôde ser
localizado - disse ele - Não considera no
mínimo estranho?
Isso era estranho, mas não alarmante.
Além de Plotnikov, Matveev, Dembinsky,
Vakhstein e Kovalyov, mais quatro Kapitany, todos
de Segunda Elite, haviam se unido à minha causa
de derrubar o atual Pakhan. Os seus boyevik tinham
sido enviados a mim. Eram cerca de 120 homens
mantendo esse lugar seguro.
Eu só tinha que manter Dmitri
desestabilizado até finalizar o meu plano, talvez na
próxima ligação eu colocasse Kyara na linha, isso
certamente o deixaria alucinado.
Uma gargalhada incontrolável ecoou pela
sala e fez Feliks me olhar entre intrigado e receoso.
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Devia me achar louco. Já havia alertado que muitas
coisas que havia feito pareciam loucura, mas as
minhas loucuras tinham me trazido até aqui, prestes
a me tornar o novo Pakhan da Bratva.
- Devem estar reunidos em algum lugar.
Sabem que a casa do Pakhan não é segura agora -
dei de ombros.
Não estava nos planos sequestrar a noiva
de Milanovic no dia anterior ao seu casamento. O
plano original era atacar a casa do Pakhan durante
a festa de casamento, eliminando todos os que se
atrevessem a ficar em nosso caminho. Mas eu não
podia colocar em risco a vida de Kyara. Além
disso, eu dava as ordens, e não eles.
Agora, eu só precisava reuni-los mais uma
vez e explicar que o meu plano era melhor que o
deles e com menos baixas de nossos soldados.
- Vá até Moscou - nesse primeiro
momento, ele só havia verificado essas informações
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com seus contatos - Use o helicóptero, não levará
mais do que algumas horas para ir e voltar. Veja o
que está acontecendo. Não me ligue, as linhas
podem estar sendo rastreadas.
Embora estivesse usando dois telefones
descartáveis, já que o terceiro havia jogado fora
após minha ligação para Dmitri, precisava admitir
que os Obshchak comandados por Ivan Trotsky
eram competentes. E havia a filha de Novitsky,
Irina, outra coisa que me irritava nessa
administração fraca; mulheres deveriam ficar em
casa mantendo-se belas para seus maridos e dando
a eles herdeiros.
- Todo o cuidado é necessário - disse a
Feliks antes que ele saísse - Queremos pegar
Dmitri de surpresa e não o contrário.
- Farei como quer.
- Feliks? - o chamei antes que abrisse a
porta - Lembra do que te prometi? Sonya será sua
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e você será meu Avtoriyet.
Se Feliks estivesse pensando em vacilar, o
que tinha a ganhar com sua fidelidade atiçou sua
chama da ambição e o fez seguir firme ao meu
lado. Era um tolo que nem desconfiava que seu
destino já estava selado assim que eu me tornasse o
Pakhan. Sonya seria dada a um outro Kapitan de
minha confiança. Eu não mancharia o sangue de
minha família com um soldado ambicioso e burro.
- Volto em breve, senhor - disse ele ao
sair.
Por enquanto, e para o bem dos meus
planos, Feliks era essencial. Olhei para a mesa e
para a nova foto de Dmitri presa ao alvo, eu queria
fazer outra coisa.
Fui até o meu quarto e abri a porta do
closet. Passei a mão pelas fantasias até encontrar a
que mais me agradava. Sorri maliciosamente ao
imaginar como Kyara ficaria nela e esfreguei o meu
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pau, que já começava a enrijecer apenas com as
imagens se formando em minha cabeça. Depois
abri uma caixa onde guardava vários brinquedinhos
sexuais, tirei alguns acessórios de dentro dela.
- Stepanov, venha comigo - disse ao
boyevik em minha porta que me seguiu até o quarto
em que mantinha Kyara trancada.
O soldado na porta a abriu para que eu
entrasse. Avistei Kyara na cama, ela se encolheu ao
me vir entrar. Isso era algo que me incomodava,
continuar esperando de boa vontade que ela
enxergasse de uma vez por todas que eu era o
homem certo para ela, mas já que fazê-la entender
com impassibilidade não estava funcionando,
talvez fosse o momento de mostrar quem realmente
estava no comando e aqui ela não tinha escolha.
Eu dou as ordens e ela se curva a mim.
Dentro e fora do quarto.
- Vou atender seu pedido de sair do
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quarto por alguns minutos - meu olhar libidinoso
varreu o pouco que via de seu corpo encolhido -
Mas será nos meus termos e condições.
Aproximei-me da cama, deliciado com seu
olhar assustado e sua reação quase me fez rir.
- Coloque isso - joguei a roupa de
couro preta em cima da cama ao lado dela.
Vi a pequena chama de esperança nos
olhos dela mudar para um olhar nauseado ao
encarar a fantasia, depois, os elevou descrente até
mim.
- O que... que é isso?
Com certeza o bundão do Milanovic não
fazia a mínima ideia do que fazer para agradar uma
mulher na cama, mas eu iria ensinar Kyara muitas
coisas.
- Se vai agir como uma suka - disse a
ela abrindo um sorriso debochado -, vista-se
como tal. Agora vá se vestir ou eu mesmo faço isso
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agora.
Dei dois passos em direção a ela que
rapidamente se levantou e correu com a fantasia até
o banheiro. Uma gargalhada cruel, tenho que
confessar, ecoou pelo quarto. Eu me sentia
diabólico e isso me deixava excitado.
Quando o tempo que achei suficiente
passou, bati com força na porta do banheiro. Estava
sendo complacente demais com Kyara e não podia
cometer os mesmos erros que Milanovic me
mostrando fraco para ela.
- Saia daí, Kyara, ou juro que derrubo
essa maldita porta!
Bati mais uma vez e quando estava prestes
a me afastar e mandar que Stepanov cumprisse a
minha ameaça, a porta começou a ser aberta
lentamente. Kyara surgiu de cabeça baixa, os olhos
fixos no chão se recusando a me encarar.
- Boris... por favor - ela lamentava e,
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infelizmente, não dava para afirmar se o tom
choroso refletia em seus olhos.
Aproximei-me dela e segurei o seu queixo
com força, obrigando-a a me encarar: - Está linda,
Kya.
Puxei-a para meus braços, esfreguei meu
rosto em seu pescoço, o que a fez se retorcer. Mexi
com o rabo de cavalo acoplado à fantasia de cadela
que dei a ela e meu corpo começou a reagir a isso.
- Stepanov? - chamei o homem que
surgiu atrás de mim - Passe as correntes, pulseiras
e a coleira.
Foi delicioso me deparar com o ar
assustado de Kyara quando a soltei para pegar os
objetos que o boyevik me entregava. Dei-me conta
nesse momento que apreciava muito mais seu olhar
de medo do que o apaixonado que sempre desejei
ver espelhado neles.
- Me dê seus pulsos, Kya - ordenei
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vendo o horror estampado nela se intensificar.
- O que... o que você pretende fazer?
Estiquei a mão passando-a em seu rosto
angustiado. Era como provocar um bichinho
indefeso com um espeto. Isso era muito divertido.
- Não me pediu para sair um pouco deste
quarto? - disse apertando seu queixo com certa
brutalidade.
Sua aflição me impulsionava, sempre
gostei de lidar com dor nas mulheres que levava
para a minha cama, poder fazer isso com Kyara
elevava ainda mais minha libido.
- Precisa colocar a coleira primeiro.
- Eu não quero!
Ela tentou fugir, mas agarrei seus pulsos
com ainda mais agressividade e com a ajuda de
Stepanov, que passou a segurá-la no lugar, prendi
uma das pulseiras em seu pulso. O mesmo foi feito
na outra mão e a coleira em seu pescoço, todas
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unidas às correntes que se tornavam uma só em
minha mão.
- Eu sou seu senhor, Kyara - com um
puxão brusco nas correntes a fiz dar alguns passos
- Quanto antes entender isso, mas fácil a vida
ficará para você.
As lágrimas que há muito custo ela tentava
segurar, começaram a deslizar pelo seu rosto.
Submissão poderia ser considerada uma situação
humilhante se a parte submissa não estivesse
acostumada, mas eu estava aqui para doutrinar
Kyara. Seria minha cadelinha e se sujeitaria a tudo
que eu pedisse a ela.
- Hora de seu passeio, minha suka -
disse ao arrastá-la para fora do quarto.
O soldado na porta a olhou rapidamente,
mas vi o vislumbre de admiração nos olhos dele,
antes que rapidamente desviasse o olhar. Eu não me
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importava que outros admirassem o que me
pertencia, principalmente as mulheres. Que
invejassem o que eu tinha desde que não tocassem
como Milanovic se atreveu a fazer.
Sempre que lembrava que o desgraçado a
tocou, que a fez dele antes de mim, me colocava
insano.
Kyara sempre foi e sempre seria minha.
Andamos por um longo corredor e
passamos por algumas portas até chegarmos a uma
escada larga. Tratava-se de um castelo antigo feito
de pedras, com muitas entradas e saídas que
precisavam ser protegidas.
Quando chegamos a uma sala, observei
seis boyevik carregando fuzis andando entre si,
fazendo a guarda. Como o soldado parado na porta
de Kyara, esses também mostraram surpresa e
interesse em vê-la vestida assim.
Estava muito claro em seu rosto e na
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forma que abaixava a cabeça tentando cobrir o
rosto com os cabelos, que ela se sentia humilhada,
não apenas pela situação, mas pela forma com que
cada um dos homens por quem passávamos a
encarava.
Isso era bom, mostrava a Kyara quem
estava e sempre estaria no controle de sua vida, eu.
O lado de fora do castelo, cercado por
montanhas a perder de vista e muitas árvores em
volta, servia como uma opção de defesa. Também
havia um muro de pedra e, como dentro da casa,
muitos boyevik em movimento, armados. Eu havia
me preparado para uma guerra, mas esperava não
precisar chegar a tanto.
Notei Kyara vacilar quando a puxei pela
corrente mais uma vez.
- Está temerosa, Kya?
Eu conseguia identificar o pavor
emanando dela, um sorriso satisfeito se alargou em
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meu rosto.
- Eu tenho tudo sob controle - disse
puxando a corrente em seu pescoço, trazendo-a
para junto de mim - Inclusive você.
Sonya Kamanev
Kyara, de um jeito ou de outro, tinha
sempre o que queria. Foi assim desde criança. Com
aquela cara de idiota e olhar inocente fazia com que
os idiotas comessem na palma de sua mão sem
precisar se esforçar muito. Primeiro, minha mãe
que acolheu a menina chorona pela morte dos pais
como se fosse sua filha. Depois, meu pai que
mesmo quando eu o Boris aprontávamos e
colocávamos a culpa em Kyara, pegava leve nas
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reprimendas e castigos. Acho que ele sentia culpa
pelos pais dela terem morrido inocentemente e por
causa dele.
Boris também, apesar da implicância e
certa crueldade na infância, havia caído nos
encantos de Kyara. Agora Dmitri Milanovic, o
Pakhan, tinha olhos apaixonados por ela. Com seu
jeito sonso conseguia tudo. Por um tempo, foi útil
para mim. Ela nunca desmentia quando eu colocava
a culpa nela e sempre encobria o que eu fazia fora
de casa, e pudesse desagradar meus pais e irmãos.
Ela também era fácil de manipular, embora
depois de ter ido morar com o Pakhan tenha ficado
mais questionadora. E eu não podia dizer o que
realmente pensava sobre ela antes que isso tudo
terminasse.
Boris tinha garantido que tinha condições
de vencer essa guerra e eu estava ao lado dele
porque realmente não havia escolha. Mas eu não
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podia descartar a ideia de que o Pakhan vencesse
meu irmão. E se isso acontecesse, Kyara era a única
que poderia me manter viva. Apelar para seus
sentimentos de irmã era o caminho certo. Por isso
demorei a vê-la, e quando a vi, não disse nada mais
que o essencial. Ela precisava acreditar que Boris
me forçava e minha recusa em ajudá-la a fugir
devia-se apenas ao fato de temê-lo, o que não era
de todo mentira. Porém, antes, eu queria saber que
lado venceria para depois tomar qualquer decisão.
E a única parte realmente ruim nessa
espera era ter que ficar nesse mausoléu que Boris
chamava de fortaleza. Então, para aliviar um pouco
a monotonia, busquei minha bolsa jogada dobre a
cama e procurei uma das cápsulas dentro dela.
Abri a tampa e joguei o pó branco em cima
da mesa. Procurei o cartão de crédito dentro da
bolsa e ajeitei a droga até que se formasse um
filete, não deixando nada ser desperdiçado. Fiz um
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canudo com a nota, depois, me inclinei sobre a
mesa. Tapei a narina esquerda com o polegar e
aspirei o pó branco sobre a mesa até que não
restasse nenhum miligrama.