Kyara Smirnov
"Pode abrir os olhos, meu amor. Você já
está em casa."
As palavras pareciam gentis, contudo, foi a
voz que imediatamente reconheci que me fez abrir
os meus olhos, em pânico.
- Boris?
Tentei me levantar, mas eu me sentia
aturdida, então, apenas me rastejei pela cama
tentando colocar o máximo de distância possível
entre nós dois. A minha cabeça pesava e eu sentia
como se meu corpo tivesse sido sacudido e girado
em várias direções.
- Onde eu estou? - indaguei fracamente
- O que estou fazendo aqui, Boris?
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Aos pouquinhos, parte do que eu
conseguia recordar vinha como flashes em minha
mente. A visita de Sonya, o presente de casamento
que ela disse que iria me dar.
Meu casamento.
- Dmitri!
Ao chamar por ele, os olhos cheios de
rancor de Boris caíram sobre mim, ele avançou em
minha direção, agarrando forte meus braços.
- Nunca mais suje sua boca com o nome
dele - ordenou ele, fixando os olhos carregados de
ódio nos meus.
Sempre temi a Boris, conhecia seu lado
cruel e como ele se transformava em uma pessoa
emocionalmente instável, mas nunca senti tanto
pavor como agora. Ele tinha ultrapassado todos os
limites e seria capaz de qualquer coisa.
- Você me sequestrou - acusei-o e
tentei me soltar sem sucesso - Um dia antes do
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meu casamento.
Um dos meus braços foi liberado quando
ele passou a mão em meu rosto. Isso me lembrou
Dmitri e de seu toque suave em mim.
- Nunca permitiria que se casasse com
ele - avisou Boris - Eu já disse, Kyara, você é
minha. Sempre foi e sempre será.
Boris era louco, não havia outra forma de
poder descrevê-lo. Amar alguém não era forçá-la a
ficar com você, mas sim, deixar que ela decidisse
se queria ficar, como Dmitri havia feito na Suíça.
- Você tem que me libertar, Boris -
disse angustiada - Se Dmitri...
Ele segurou firme o meu queixo, apertando
forte meus lábios, impedindo que eu continuasse a
falar. Lágrimas se formaram em meus olhos, de dor
e de desespero.
- Já disse para não falar dele. Não me
obrigue a ser violento com você para que entenda,
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Kyara.
Ao som de sua ameaça, entendi uma coisa,
não havia nada que eu pudesse dizer para conseguir
fazê-lo mudar de ideia, pelo menos não agora. Eu
tinha era que me manter viva, até encontrar uma
forma segura de sair daqui, porque eu sairia daqui
ou morreria tentando.
Isso me fez lembrar de algo que Irina me
disse uma vez sobre Dmitri. Excluindo os dias que
estive trancada no quarto e passei fome, nunca tive
realmente o desejo de fugir dele, não como sentia
com Boris. Porque por mais que eu tenha sido
mantida contra a minha vontade por algum tempo e
sido privada de minha liberdade, eu nunca consegui
ver nos olhos de Dmitri o mesmo tipo de escuridão
e maldade.
- Eu sei que você pode estar confusa
agora - disse ele ao me soltar - Estava prestes a
realizar o sonho de toda garota na Bratva, ser a
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escolhida do Pakhan.
Nunca almejei esse sonho, pelo contrário,
sempre desejei ir para bem longe desse mundo. Eu
me apaixonei por Dmitri e não pelo o que ele
representava. Aceitava e entedia o Pakhan porque
era parte de quem ele era, mas eu sempre iria
preferir sermos apenas Kyara e Dmitri, o casal que
teve dias incrivelmente lindos nas montanhas.
- Você ainda irá conseguir isso, minha
pequena - Boris se afastou da cama e eu me
encolhi mais contra a cabeceira - Vou acabar com
o Milanovic e serei o novo Pakhan.
Sem que eu pudesse controlar, um ganido
angustiado escapou de minha garganta. Pensar que
Boris pudesse ao menos tentar ferir Dmitri me
aniquilava por dentro.
- Vou dar um tempo para que assimile
tudo - disse ele antes de caminhar em direção à
porta - Descanse e depois voltamos a conversar.
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Vou esperar que esteja mais acolhedora.
Saltei da cama quando a porta do quarto
fechou logo após Boris sair. Uma vertigem me fez
tatear o ar até encontrar a parede onde consegui me
equilibrar. Poderia ser algum sintoma da gravidez,
mas eu tinha certeza que ainda era efeito do
clorofórmio que Sonya usou para me manter
desacordada e, assim, poder me sequestrar.
Será que teria algum efeito colateral para o
meu bebê? Apoiei as costas contra a parede e levei
a mão ao meu ventre.
Lágrimas pesadas deslizaram pelo meu
rosto. Eu nem havia contado a Dmitri sobre o nosso
filho, e me arrependia tanto por isso. Agora, eu
estava longe, nas mãos de um louco que poderia
fazer qualquer coisa comigo e com nosso filho
porque odiava o pai dele.
Não, eu precisava manter isso em segredo.
Precisava manter a calma e tentar agir com
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racionalidade. Eu não deixaria que Boris ou
qualquer outro colocasse em risco a vida de um
inocente que nem tivera a oportunidade de vir ao
mundo, cruel, mas que teria pessoas que o
amariam.
Rastejei-me até a porta, estava trancada,
isso não foi surpresa alguma para mim, mas eu
precisava tentar. Fiz o mesmo caminho de volta,
sustentando-me na parede, já que ainda não tinha
total controle do meu corpo, no entanto, fui em
direção à janela em vez da cama.
Esta não era a mansão Kamanev, percebi
isso assim que abri os olhos. Este quarto não era
igual a nenhum dos que tinha em minha antiga
casa. Quando puxei a cortina, o pânico começou a
me fazer suar frio.
Existiam grades com espaço apenas para
uma mão. O material da janela antiga e os ferros
novos soldados nele indicavam que foram
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colocados há pouco tempo. O pouco que conseguia
ver ao redor da casa também não animava muito.
Muitas árvores revelando um floresta densa e
muros altos.
Isso queria dizer que Boris estivera o
tempo todo arquitetando seu plano monstruoso de
me arrancar de Dmitri, e Sonya, a quem sempre
amei e protegi, havia agido ao lado dele, traindo a
minha confiança. Tudo o que eu vivia agora era
culpa dela, pois, eu teria fugido de Moscou naquela
mesma semana em que ela pediu minha ajuda para
enganar Boris e o médico dele.
Eu não conseguia me arrepender
totalmente por ter saído em socorro de Sonya –
embora ela nunca tivesse merecido a minha ajuda –
porque com isso, mesmo com a confusão inicial,
duas coisas maravilhosas tinham acontecido em
minha vida: Dmitri e nosso bebê.
Também havia todas as outras pessoas que
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entraram em minha vida para ficar e que jamais me
fariam sofrer como Sonya fazia. Vladic e seu jeito
irônico, sempre arrancando um sorriso de mim;
Irina com sua inteligência, fazendo-me olhar com
coragem meus sentimentos, e me tratava com mais
consideração e respeito do que minha irmã de
criação a vida toda; Amarillo, Darya, Kalina e seus
avós. Tantas pessoas boas que eu queria muito
rever, pessoas que eu desejava compartilhar minha
felicidade.
Fiquei olhando para o céu escuro. Eu
gostava de observar a lua e descobri que Dmitri
também apreciava. Pensar nele me causava um
novo tipo de dor, uma dor literalmente física que
começava em meu coração e irradiava por todo o
meu corpo. Enquanto novas lágrimas deslizavam
por meu rosto, eu pensava em tudo o que poderia
estar acontecendo em casa.
Quando ele havia percebido que eu já não
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estava mais lá? Ele acharia que fugi ou perceberia
logo de início que eu havia sido levada à força?
Quanto tempo Dmitri e Vladic levariam para me
encontrar? Eles conseguiriam me encontrar? Como
ele estava se sentindo ao saber que horas antes de
fazermos nossos votos um ao outro, eu tinha sido
arrancada dos seus braços? Ele saberia que foi o
Boris ou imaginaria que foi algo da Tambovskaya
em retaliação?
Eram tantas perguntas rondando minha
cabeça que cheguei a me sentir fraca. Olhei para a
lua uma última vez e voltei para a cama. Escorei
contra os ferros da cabeceira e ergui minhas pernas
abraçando os joelhos, enquanto o choro
inconsolável que eu tentava com muito custo
controlar, vencia a batalha sobre mim.
Como eu sentia falta dele. Do seu abraço,
do seu carinho, de me sentir protegida do mundo
com ele.
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- Dmitri - solucei enquanto me afogava
nas lágrimas banhando meu rosto - Venha nos
encontrar, meu amor.
Eu repetia isso como se fosse uma oração.
Por minutos, por horas, não sei dizer, mas nunca
pareceu o suficiente.
Só percebi que havia cochilado quando a
porta foi novamente aberta e Boris entrou ao lado
de um homem alto e musculoso. Aquele era Feliks,
o Boyevik que sempre andava com ele e que agora
deveria ter se tornado o segundo em comando,
depois que Boris se tornou o Kapitan Kamanev.
- Você está horrível, mílaya - disse
Boris ao avançar pelo quarto em direção a mim.
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- Não me chame assim! - as palavras
escaparam da minha boca antes que eu pudesse
controlar minha raiva.
Apenas Dmitri usava essa forma carinhosa
comigo, Boris não tinha o direito de manchar isso.
- Por que não? - seu olhar duro caiu
sobre mim.
Precisava pensar rápido, eu não podia
dizer meus reais motivos a Boris, não tinha a menor
ideia de como ele iria reagir à resposta sincera.
- Era como Roman me trava - disse,
sabendo que a desculpa era fraca demais, mas no
momento era tudo que eu tinha - Me traz
lembranças desagradáveis.
A arrogância de Boris era tão grande
quanto sua tolice. Porque somente um tolo teria
coragem de enfrentar Dmitri como ele fazia.
- Eu dei um jeito nele, não foi? - ele
acariciou as maçãs do meu rosto com o polegar e o
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gesto fez meu estômago revirar - Farei com que
esqueça completamente Roman e o desgraçado do
Milanovic.
Roman foi só um encantamento juvenil
por quem eu sentia mais ter sido a razão dele ter
perdido a vida do que amargava lembranças
românticas interrompidas.
Mas com Dmitri? Ele era e sempre seria o
homem da minha vida. Nunca poderia amar alguém
como eu o amava. Ele estava dentro do meu
coração como em meu ventre.
- Mas olha para você - disse Boris,
movendo meu rosto de um lado a outro para me
assustar - Milanovic não a tratava bem, não é?
Eu havia perdido um pouco de peso com o
início da gestação, mas o Dr. Kushin disse que era
normal e que após o primeiro trimestre isso
mudaria, mas eu não podia dizer isso ao Boris,
então, me mantive em silêncio enquanto ele me
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analisava com seu olhar asqueroso.
- Eu vi que não queria ficar com ele no
dia que fui trocar a Sonya por você - confessou
ele - É claro que tive que dar um castigo nela
quando aquilo não foi possível.
Eu não queria ter qualquer sentimento de
empatia pela Sonya, por tudo que me fez, mas
nesse caso, não conseguia evitar. Parte da razão de
ela ser assim foi a criação que teve e por crescer
vendo Boris conquistando tudo o que queria pela
força. Fjodor Kamanev foi bom comigo, mas fez
um péssimo trabalho na construção do caráter do
filho.
- Tome um banho, há roupas que
comprei para você no guarda-roupa, depois, aprecie
o seu jantar. Eu te faria companhia, mas preciso
cuidar de alguns detalhes. Você entende, não é?
Queria Boris o mais distante possível de
mim. Queria nunca mais ter que colocar meus olhos
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nele. E pensar que minha última preocupação em
relação a Kamanev foi que não comparecesse ao
meu casamento.
- Depois, descanse um pouco, nos
veremos amanhã - disse ele - Teremos muito
tempo para ficar juntos, Kya. A vida toda.
Não se dependesse de mim. Observei
Boris sair novamente, dessa vez, com alívio. Pelo
menos ele ainda não havia forçado a barra, o que
poderia acontecer a qualquer momento.
A porta fechou-se atrás dele mais uma vez,
aguardei um pouco até ir à bandeja de comida. Eu
não agiria aqui como agi nos primeiros dias com
Dmitri, ficando dias sem comer. Além de precisar
de força para aproveitar o melhor momento para
escapar, tinha que pensar em meu filho.
Enchi minha boca até que as minhas
bochechas virassem duas bolas enormes e usei um
pouco de chá para engolir tudo.
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Então era isso. Eu precisava armazenar o
máximo de energia que conseguisse, manter a
frieza e estudar todas as possibilidades que me
ajudariam a escapar deste lugar.
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Dmitri Milanovic
Finalizei minha reunião com Ivan e decidi
ir embora. Agora, os detalhes do que fazer com os
Kapitany e Boris ficariam com ele. Além de ser o
chefe de segurança, Ivan, o terceiro homem de
confiança, na ausência de Vladic, seria o escolhido
para ser o Avtorieyt, devido a seu bom treinamento
e habilidades.
Mas eu não conseguia ver qualquer outra
pessoa trabalhando diretamente ao meu lado além
de Vladic. Se eu havia sido bem preparado para me
tornar Pakhan, Guriev foi moldado para ser o
Avtorieyt. E agora, com meu casamento no dia
seguinte, ele exerceria sua função ainda mais. Se
havia alguém no mundo em que eu confiava, além
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da mulher que escolhi para dividir a vida comigo,
era Vladic.
- Não se preocupe, irmão - senti seu
aperto forte em meu ombro e desviei o olhar da
janela do carro e o encarei - Tudo está sob
controle.
- Espero que tenha razão, Vladic.
- O que está incomodando, Dmi? É por
causa da arena? Teme o que Kyara irá dizer?
- Não. Isso não é algo que ela irá
apreciar, mas quando a pedi em casamento, deixei
claro o que somos e o que fazemos.
Eu não sabia como explicar o que me
incomodava. Ivan tinha repassado os planos de
segurança durante a cerimônia, os três dias de festa,
a noite na arena, até minha viagem de lua de mel.
Contudo, eu tinha uma incômoda sensação de que
algo estava fora do lugar.
- Não sei dizer, Vladic. Talvez sejam só
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coisas da minha cabeça.
Ou estivesse preocupado demasiadamente
com Kyara. Ela andava tensa com o casamento e
fazendo muitas perguntas sobre os Kamanev, em
busca de repostas que eu não poderia dar ainda. A
preparação do casamento já vinha sendo exaustiva
demais para ela. Embora ela tivesse tentado
disfarçar, notei sua perda de peso e ar fadigado. No
entanto, o que realmente me deixou preocupado foi
tê-la encontrado desmaiada no banheiro.
Eu amava Kyara, mas só tive noção da
grandiosidade de meus sentimentos por ela quando
a vi caída. Não conseguia entender como meu pai
suportou a partida de seu grande amor. Em uma das
poucas conversas que tive com Vladic, inclusive
naquele mesmo dia, a única explicação que ele
sugeriu era que tinha sido por mim e pela Bratva.
Já eu acreditava que foi pela Bratva, não
porque ele não me amasse, mas o trabalho passou a
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ser sua mulher, e quando não estava mergulhado
nele, ficava na estufa, pensando e lembrando de seu
amor perdido. Meu otets podia achar que eu não
soubesse, mas na estufa ele costumava conversar
com mat' em voz alta, como se ela ainda estivesse
viva.
- Você só tem que se preocupar em
colocar o terno e se divertir - disse ele abrindo um
sorriso - O resto deixe com a gente.
Assenti e tornei a olhar pela janela.
Provavelmente a maior parte de minha tensão era a
grandiosidade do evento. Toda a Bratva estaria
presente, além de que eu deixaria claro a todos que
não era um homem a quem se devia ameaçar.
Quando finalmente chegamos em casa,
Vladic foi para escritório e eu subi a escada em
direção ao quarto. Enviei duas mensagens a Kyara,
uma, quando saí da sala de Ivan e outra, na metade
do caminho, avisando que estava chegando. Em
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ambas não obtive resposta, por isso acreditava que
ela estivesse no quarto tirando um cochilo.
Um sorriso veio ao meu rosto ao pensar na
forma que iria acordá-la. O sexo entre a gente
estava cada vez mais quente, mas nessa última
semana andei pegando um pouco mais leve,
poupando suas energias. A partir de hoje isso
mudaria.
- Kyara? - chamei no quarto vazio,
pois, a porta do banheiro estava fechada e não
entreaberta como ela costumava esquecer.
Fiquei bastante incomodado em ver que
ela também não estava ali e que seu telefone se
encontrava em cima da cama. Dei uma olhada
rapidamente e vi que minhas mensagens não
tinham sido visualizadas por ela. Franzi a testa, não
havia mais nada que precisasse ser verificado em
relação a cerimônia e comemoração, e mesmo que
tivesse, dei ordem expressas a Savin e Ertel que
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Kyara não deveria mais ser incomodada com isso,
então, duvidada que estivesse presa no escritório
dando andamento em alguma complicação de
última hora, mas ela poderia estar passando tempo
no computador. Porém, o único na sala era Vladic.
- Precisa de algo?
- Achei que Kyara pudesse estar aqui.
Não está no quarto e nem com o telefone dela.
Vladic se ergueu da mesa, vindo até mim.
- Já verificou na biblioteca?
Não o respondi, fui em direção à
biblioteca, tendo Vladic a me acompanhar. Assim
como nos lugares que verifiquei, Kyara não estava
lá.
- Talvez tenha ido na estufa? - sondou
Vladic mais uma vez.
Andei apressadamente até a estufa e de lá,
para a piscina, Kyara não se encontrava em
nenhuma das duas. Então, chamei o primeiro
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Boyevik que esbarrei pelo caminho, e ordenei
imediatamente que reunisse mais homens e
fizessem uma busca detalhada por toda a
propriedade.
Meu maior terror era que Kyara tivesse
passado mal mais uma vez e não tivesse tido a sorte
que teve no banheiro, e bateu com a cabeça em
algum móvel. E se...
- Nós vamos encontrá-la - disse Vladic
ao voltarmos para o escritório, depois de ter ido aos
outros cômodos verificar se em algum momento
nossos caminhos haviam se desencontrado - A
casa é enorme. Ela pode ter parado em algum lugar
para descansar e ter pegado no sono.
Vladic estava sendo otimista, eu pensava
em coisas bem mais preocupantes, mas não era do
tipo de fazer alarde, embora a inquietação que tive
por todo o dia parecesse finalmente ter encontrado
uma explicação.
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Uma hora depois, o chefe de segurança da
casa surgiu com dois de seus homens.
- Procuramos em cada canto, senhor -
ele baixou os olhos diante do meu olhar frio e
implacável sobre ele - Aqui, a Srtª. Smirnov não
está.
Avancei até ele, agarrando sua camisa pela
lapela, e apesar de ser um homem
consideravelmente robusto, ergui-o tanto ao ponto
de fazê-lo ficar nas pontas dos pés.
- Onde está minha mulher?
Eu já a considerava assim por direito. Os
papéis que iríamos assinar e a bênção religiosa
passavam apenas de meras formalidades diante de
meu povo.
- Calma aí, Dmitri - disse Vladic ao me
puxar para longe do homem - Matá-lo não terá
muita serventia, pelo menos, não agora.
Vladic tinha razão, eu puniria esse
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imprestável outra hora, minha missão agora era
encontrar Kyara.
- Talvez ela tenha ido embora - sugeriu
o Boyevik - Minha irmã desistiu do casamento na
porta da igreja.
A calma que decidi manter saiu voando
como um pássaro pela janela. Meu punho foi
certeiro em direção à face do Boyevik que tinha
ousado sugerir isso.
- Se vocês não têm nada inteligente para
dizer - disse Vladic quando veio me conter pela
segunda vez - Fiquem calados, porra!
- Ela não fugiu - disse aos homens, mas
encarava Vladic - Pode me soltar.
Levei a mão ao queixo e comecei a andar
lentamente de um lado ao outro enquanto tentava
manter minha serenidade e refletir com clareza.
- Reúnam todos os empregados - disse
ao chefe de segurança - Alguém deve ter visto ou
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ouvido alguma coisa.
Assim que os três homens saíram, Vladic
se colocou à minha frente, dando voz a um dos
meus pensamentos obscuros.
- Você acha que a Tambovskaya teria
tanta ousadia?
Eu tinha levado um deles diante de seus
olhos, então, a vingança poderia ser esperada. Mas
havia também uma segunda opção e essa eu não
queria sequer imaginar.
- Eu sei que Kyara não fugiu, Vladic -
o aperto em meu peito foi forte o suficiente para me
fazer respirar fundo - Vou descobrir onde ela está
e seja lá quem for que a levou de mim, irá lamentar
ter nascido.
E eu sempre cumpria cada promessa
minha.
Não foi preciso interrogar todos os
empregados. Assim que Darya, assustada e em
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prantos, foi colocada diante de mim, meu mundo
desmoronou à minha volta.
Sonya tinha vindo visitar Kyara e foi após
a visita dela que Kyara não tinha sido mais vista
pela casa.
- Ela disse que veio falar com a irmã -
pranteou ela, torcendo o avental em seu uniforme
- A Srtª Kyara disse que iria recebê-la na sala. Eu
não sabia que...
Ela caiu sobre meus pés manchando os
sapatos pretos com suas lágrimas.
- Por favor, Papa - implorou ela - Eu
não sabia.
No momento, pouparia Darya por dois
motivos. O primeiro, o erro tinha surgido dos
Boyevik responsáveis pela segurança que haviam
permitido que Sonya Kamanev, com seu sorriso
falso e palavras adocicadas, entrasse. Segundo,
Kyara tinha um grande carinho por Darya, e ficaria
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furiosa comigo se eu fizesse algo drástico com ela.
Porque eu iria recuperar Kyara de volta, era só uma
questão de tempo.
- Contate o Ivan - disse a Vladic
enquanto ia até uma das gavetas de minha mesa
onde tirei um revólver - Reúna os Boyevik, vamos
até a casa Kamanev.
Enquanto eu meditava durante o caminho
se arrancava todos os dedos de Boris por ter ousado
tocar em Kyara, ou cada um de seus olhos pelo
atrevimento de sequer olhá-la, isso só para
começar, Vladic cuidava dos detalhes em relação a
invasão à mansão Kamanev.
Sonya também não ficaria de fora. Ela
lamentaria amargamente ter abusado da confiança
de Kyara e, principalmente, por ter invadido minha
casa, tirando dela o que eu tinha de mais precioso.
- Ivan já está lá - disse Vladic ao me
encarar com certo alarme - Olha, Dmitri, eu sei
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que você está puto, e tem toda a razão de estar, mas
vamos manter a cabeça fria, ok. Não queremos que
a Kyara se machuque e isso inclui ela se magoar se
você sair ferido.
- Estou calmo, Vladic - o tranquilizei.
O que era realmente verdade. O ódio
explodindo em mim por Boris Kamanev servia
como um analgésico que me fazia ficar calmo o
suficiente para confrontá-lo.
- É isso que me preocupa - disse
Vladic.
Eu precisava recuperar Kyara e levá-la de
volta para casa. Depois, eu brincaria com o que
seriam meus novos ratinhos preferidos, Boris e
Sonya Kamanev.
- Vamos acabar logo com isso - disse a
Vladic e mal esperei o carro ser estacionado em
frente à casa cercada de carros pretos.
Ivan veio imediatamente ao meu encontro
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quando saí.
- É tudo muito estranho - disse ele -
Tem uns dez minutos que chegamos e nenhum
Boyevik de Kamanev veio verificar tanta
movimentação.
Direcionei meu olhar para o grande portão.
Não havia sinais de segurança ali, como também
não parecia existir em volta da casa.
- Vamos entrar e passem por cima de
quem tentar resistir.
Embora eu quisesse ser o primeiro a entrar
na casa, o protocolo de segurança exigia que a vida
do Pakhan fosse protegida. Em momentos como
esse eu desejava ser um homem comum,
enfrentando um verme.
Após se prepararem e gestos de comando
dado por Ivan, um grupo de Boyevik de ação frontal
invadiu a propriedade. Outros passaram pelo
portão e escalaram muros até que eu tivesse sinal
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positivo para entrar. Contudo, nossa ação ofensiva
se mostrou desnecessária. Nem Boris, Sonya e
Kyara se encontravam ali. Só havia serviçais
assustados na casa, a quem começamos a
interrogar.
- Chega! - disse ao Boyevik com alicate
na mãos, após ele arrancar o sexto dente de um
empregado que estava quase desmaiando diante
dele - Estamos perdendo tempo.
Eu não teria problema algum se
arrancassem todos os membros do homem, se
suspeitasse que ele realmente sabia de alguma
coisa. Estava claro que Boris deixara aquelas
pessoas ali apenas com intuito de nos confundir e
perder tempo, enquanto levava Kyara sabe-se lá
para onde.
- Vejam os aeroportos, portos, estradas e
cace cada Kapitan envolvido com Boris - disse a
Ivan e virei em direção a Vladic - Nós vamos
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retornar para a minha casa e fazer uma base de
investigação lá. Vou encontrar Boris Kamanev nem
que eu tenha que ir até o inferno.
- Nós atravessaremos esse portão juntos
- disse Vladic se colocando ao meu lado - Eles
não sabem com quem mexeram.
Principalmente Kamanev, com esse eu
queria lidar pessoalmente.
Levaria algum tempo, infinitamente longo
para mim, para que uma base de investigação e
segurança fosse instalada num dos cômodos
inativos na casa. No momento, não havia nada o
que fazer além de esperar, e se eu queria recuperar
Kyara das mãos do desgraçado do Boris, tinha que
pensar e agir friamente. As minhas emoções
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precisavam ser desligadas e isso estava acabando
comigo por dentro.
Na primeira formação da Bratva, os
primeiros bárbaros, também conhecidos como
ladrares, criaram um código de conduta: Os
Ladrões Dentro da Lei, com 18 leis. A primeira
delas era abandonar seus parentes. A segunda era
não ter família própria. Sem esposa, sem filhos. Os
antigos Vor acreditavam que esse elo deixaria os
guerreiros fracos. Os cargos eram disputados na
arena, através de lutas sangrentas e mortais.
Isso em nossa irmandade foi mudando
quando o terceiro Pakhan, Vasiliy Bondarenko,
atreveu-se a se apaixonar pela filha bastarda de um
guerreiro. A Bratva foi dividida no que é hoje, e da
outra metade surgiu a Tambovskaya, que ainda
segue essas práticas em relação a ascensão dos seus
líderes. Por isso que na Bratva, um filho matar o
pai, irmão contra irmão, não era considerado crime
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desde que o assunto fosse resolvido em família. E
era nas práticas da Tambovskaya que Boris
acreditava e queria que a irmandade voltasse a
seguir.
Só que a Tambovskaya é um grupo de
selvagens parados no tempo, mais preocupados em
guerrear entre si do que evoluir e combater os
inimigos de verdade. A Bratva não perdeu sua
essência como os antigos Vor suspeitaram, ela
ficou organizada e mais forte. Temos em nossas
mãos governos, países, outras organizações, e eu
iria provar a Boris e a qualquer membro da
Tambovskaya que ficamos cada vez mais fortes.
- Vamos lutar, Vladic - disse ao
entramos em casa.
- É claro que vamos.
Quando cheguei à escada, virei para ele
que claramente não tinha compreendido o que eu
realmente havia falado.
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- Vamos lutar agora... - continuei a
subir a escada - no pátio.
- Você quer treinar agora?
Vladic foi um dos primeiros a enxergar
meus sentimentos por Kyara, se não o primeiro.
Acho que ele percebeu antes de mim. Ele sabia que
internamente eu estava destruído. Mas um Pakhan,
mesmo na Bratva, tinha que se mostrar sempre
firme. Meu pai, embora tenha morrido por dentro
junto com minha mãe, não deixou cair uma lágrima
até o sepultamento dela. Nós tínhamos que provar
que estar apaixonados não nos deixava fracos.
- Quanto tempo levará para Ivan chegar e
ajeitar tudo?
- Conhecendo Ivan, não mais do que uma
hora.
- Então, teremos uma hora de treino -
disse a ele e fui em direção ao meu quarto -
Encontro você no pátio em cinco minutos.
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Fechei a porta deixando-o no corredor com
o olhar confuso. Escorei-me contra a porta olhando
em volta. Silencioso e muito vazio sem Kyara aqui.
Meus olhos caíram em um cabide com uma enorme
capa protetora.
Segui desnorteado até ela. O vestido de
noiva de Kyara. Passei a mão no plástico escuro,
recordando que ela tinha avisado que queria fazer
mais um ajuste essa manhã e que eu nem deveria
chegar perto do quarto sem avisá-la primeiro.
- Onde você estiver - sussurrei
encostando minha testa contra o embrulho - Fique
bem. Eu vou te encontrar, eu juro.
Permaneci ali parado por mais dois ou três
minutos até abrir o closet e buscar uma de minhas
roupas de treino. Vladic já fazia o aquecimento
quando cheguei ao pátio. Sempre preferi treinar
com ele porque além de ser um dos homens mais
fortes que já conheci, era um lutador espetacular e
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não pegava leve comigo por ser o filho do Pakhan.
- Pronto? - indagou ele flexionando os
braços.
Apenas assenti, me coloquei em posição
de ataque e avancei sobre ele, acertando o primeiro
golpe. Eu precisava disso, extravasar minha fúria e
frustração em algo. Vladic sabia que meu ataque
não era contra ele. Minha raiva não era com ele e o
ódio que parecia querer me cegar não era para ele.
Contudo, era seu corpo sofrendo as consequências.
Nariz escorrendo sangue e lábio cortado.
Eu também não estava apenas batendo,
levei uns precisos e merecidos socos que cortaram
o supercílio direito e outro que fazia meu queixo
arder feito o inferno. Nesse momento, estávamos
apenas vestidos com as calças. Com peito e braços
nus, suávamos do cabelo às juntas dos dedos dos
pés. Em certo momento da luta, Vladic preparou a
montada sobre mim e fez um golpe de queda me
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arremessando contra o chão, dando em mim uma
gravata que me manteve imobilizado contra o solo.
- Já chega, Dmitri! - rugiu ele forçando
meu rosto contra o chão enquanto eu tentava me
soltar.
Fui capaz me virar, mas tudo que consegui
foi que Vladic aplicasse um novo golpe, desta vez,
de estrangulamento.
- Não está lutando - disse Vladic
lentamente diminuindo a pressão em meu pescoço
- Está agindo como um garoto de rua brigando.
Ele tinha razão. Depois da primeira gota
de sangue que tirei dele ao dar o primeiro golpe
com o pé, senti necessidade de mais e mais. Eu
queria ver muito sangue.
- A gente vai procurar e recuperar a
Kyara. Enquanto fazemos isso, você pode dar
quantos socos em mim quiser, meu irmão - disse
ele ao tirar o braço do meu pescoço - Mas
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enquanto isso, não vou deixar você enlouquecer.
Você é Dmitri Milanovic, o Pakhan.
Vladic, por toda a vida, e agora Kyara, a
mulher que meu coração escolheu amar, eram os
únicos que conheciam o Dmitri, as outras pessoas
conheciam o filho e, agora, atual Pakhan. Esses
dois eram as pessoas mais importantes da minha
vida, por significados diferentes. Eu não conseguia
ver minha vida sem eles. Acabaria como o meu pai,
somente com o Pakhan sob minha pele seca.
- Vladic - murmurei em um tom
abalado, ele continuou me mantendo preso ao chão,
mas sabia que não precisava mais me conter.
Não precisava dizer mais nada, Vladic
entendia tudo através do meu olhar. Saindo de cima
de mim, ele esticou a mão para me ajudar a ficar
em pé. As pessoas que haviam parado seus afazeres
para nos ver lutar, rapidamente voltaram às suas
atividades.
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Vladic me fez voltar para casa e eu fui
direto para o chuveiro. O corte no supercílio estava
feio, provavelmente iria precisar de alguns pontos,
mas não tão ruim como pretendia deixar Boris
quando colocasse minhas mãos nele. Fiz os
cuidados que pude em frente ao espelho, depois,
peguei um conjunto de terno no closet, preto, que
era assim como me sentia por dentro, sombrio. A
minha vida toda fui preto e cinza, as cores vieram
com Kyara e seu sorriso de querubim.
Quando desci para a sala de investigação,
Ivan e sua equipe já estavam na ativa. Os
equipamentos que ele iria precisar estavam
terminando de ser montados.
- Papa, ordenei que trouxessem o
Dembinsky imediatamente - disse Ivan assim que
entrei – Os outros Kapitany estão sendo caçados.
Além do terno escuro que ele costumava
usar, desta vez tinha um tipo diferente de headset
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na cabeça, assim como os demais homens em seu
comando.
- Eu quero interrogar o Dembinsky, no
meu escritório - disse a ele e fui em direção à
mesa onde aparelhos de escuta e computadores
estavam sendo instalados e testados.
Isso me fez pensar em Kyara. A tela de
bloqueio do meu computador era uma imagem
abstrata se formando, mas quando dava o enter, o
plano de fundo surgia com uma foto nossa, a
mesma que havia em meu celular e que ela
praticamente tinha me obrigado a colocar ali. Na
verdade, eu troquei o gesto, que disse a ela ser
piegas, por uma boa foda em cima da mesa. Mas eu
gostava de olhar para a imagem, vez ou outra,
quando as coisas no trabalho ficavam mais calmas.
Menos de uma hora depois, um Boyevik
surgiu, avisando que Dembinsky já estava em meu
escritório. Caminhei cegamento até lá e quando
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avistei o Kapitan, fui direto em seu pescoço,
fazendo-o se erguer da cadeira.
- Onde ela está, seu desgraçado?
Dembinsky agarrou meus pulsos e seu
rosto foi ficando vermelho conforme eu o
pressionava. Por mim, estava tudo ótimo, poderia
apertar seu pescoço até ver a vida esvaindo de seus
olhos assustados, sentindo um enorme prazer.
Dmitri Milanovic estava adormecido, esse era
apenas de Kyara, sob a minha pele estava apenas o
Pakhan. Ele mataria cada Kapitan com suas
próprias mãos e usaria seus ossos para palitar os
dentes.
Mas eu não podia matar Dembinsky, antes,
precisava das informações que ele tinha.
- Eu não.... - ele tentou falar enquanto
puxava o ar profunda e desesperadamente,
massageando a garganta dolorida, quando o soltei
- não sei do que está falando.
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- Ah, mas você sabe - me agigantei
diante dele o intimidando ainda mais com o olhar.
Suas mãos seguravam firme o braço da
cadeira, puxei o dedo mindinho com força e
Dembinsky urrou de for quando o quebrei.
- E vai me contar tudo o que sabe
enquanto quebro cada um dos seus dedos,
considerando se vou ou não arrancar cada um deles.
Dembinsky era um homem velho e assim
como as crianças, eram menos resistentes à tortura.
Protegemos os mais fracos, desde que nunca
infrinjam a lei, ou traiam seu Pakhan como ele
havia feito.
Nove dedos quebrados depois e muito
sangue jorrando do nariz e boca estourada,
Dembinsky implorava por misericórdia. Ele só
deixou mais claro, contando em detalhes, os planos
de Boris que já conhecíamos, as conversas que
rolavam em todos os encontros e deu nomes e
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confirmou todos os Kapitany que se uniram a Boris
contra mim. Era um número significativo, mas não
me inspirava preocupação. Oito Kapitany de
segunda elite, Dembinsky e Kamanev.
- Eu não sei onde ele está - balbuciou
ele cuspindo sangue - Kamanev nunca
compartilhou com a gente essa parte do plano. A
ideia era aproveitar que todos teriam acesso no seu
casamento e destruí-lo.
Eu sabia quando um verme como ele
estava mentindo ou dizendo a verdade. E assim
como o empregado de Boris, Kapitan Dembinsky
havia confessado tudo o que sabia e eu não perderia
mais tempo com ele. Neste caso, tempo era tudo.
Kamanev não queria apenas a minha morte para
ocupar meu lugar. Ele tinha obsessão doentia por
Kyara. Só de pensar que o maldito poderia estar
tocando-a contra sua vontade me deixava maluco.
- Leve-o daqui, Vladic - ordenei ao me
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afastar de Dembinsky, me controlando para não pôr
fim à sua vida de merda com minhas próprias mãos
- Deixe-o nu e leve-o para os corvos famintos se
alimentarem.
Dembinsky merecia uma morte mais cruel,
ser devorado lentamente pela bicadas da criação de
corvos que mantínhamos em uma das instalações
ao redor da arena para onde os Kapitany estavam
sendo levados, um a um.
- Não! - ele gritava ao ser arrastado
pela porta, mas com as mãos nas costas mantive
meu olhar fixo na janela - Eu sei de outra coisa
muito importante. Por favor, eu juro lealdade.
- Tarde demais, Dembinsky - sussurrei
quando a porta foi fechada atrás de mim - Para
você e todos os que ajudaram Boris até aqui.
Antes de tudo isso acontecer, eu tinha
ideia de fazer uma briga justa. Meus melhores
soldados contra os Kapitany que fizeram aliança
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com Kamanev. Se Kapitan ganhasse pouparia sua
vida e os manteria como escravos. Se meu Boyevik
ganhasse, herdaria o título de Kapitan.
As ações de Boris e o sequestro de Kyara
mudaram tudo isso. Não haveria piedade de
ninguém. Um Kapitan lutaria contra o outro por sua
vida nas jaulas até que só restasse um. Seria um
banho de sangue cruel, no qual meus olhos iriam se
deliciar. Depois disso, duvidava que qualquer
pessoa na Bratva ousaria ameaçar o Pakhan outra
vez.
Estava prestes a voltar para a sala onde
Ivan estava quando meu celular tocou em minha
mesa.
- Milanovic?
Fechei os meus dedos até que os nós
começassem a ficar brancos e minha pele, esticar.
- Kamanev?
Eu sabia que era ele. O risinho provocativo
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não deixava dúvidas disso.
- Peguei você - foi tudo o que ele disse
ao desligar.
Apertei o telefone com a mesma força e
gana que tinha feito no pescoço de Dembinsky.
Eu vou acabar com o desgraçado do
Boris, nem que seja a última coisa que faça em
minha vida!
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Kyara Smirnov
Amar alguém é sentir a presença dela,
mesmo quando não se está olhando. Eu conhecia o
cheiro de Dmitri, o toque dele, o magnetismo que
ele emitia, por isso, a pessoa que se encontrava ao
meu lado na cama, deslizando a mão por minha
coxa, não era Dmitri.
Abri meus olhos assustada e rastejei pela
cama ficando o máximo que eu podia das mãos
asquerosas que me acariciavam.
- O que você faz aqui?
O quarto estava na penumbra, mas eu via
perfeitamente a figura de Boris. Odiar alguém
como eu o odiava, também nos fazia reconhecer a
pessoa em qualquer circunstância, o medo nos
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alertava.
- Vim ver como você está - ele se
ergueu e foi até o interruptor de luz, fazendo o
quarto clarear.
Eu não sabia se ficava aliviada por ele ter
se afastado ou se me sentia amedrontada por ter
agora seus olhos lascivos em cima de mim.
- Há quanto tempo está aqui?
Que ele me tocava, não deveria ser muito
tempo, acordei rapidamente ao sentir um toque
estranho. Mas há quanto tempo Boris estava no
quarto?
Lembrei dos primeiros dias na casa de
Dmitri quando ele também me manteve presa. Em
uma das noites, senti a presença dele, que admitiu
ter visitado meu quarto, em uma de nossas
conversas na casa da Suíça, mas ele nunca ousou
me tocar quando estive dormindo.
- Com medo de mim, Kya? - ele tornou
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a se aproximar, a cada passo que dava, eu me
encolhia na cama um pouco mais - Eu nunca te
faria mal, a menos que merecesse.
A revolta despertando dentro de mim
confirmava que neste caso ele me machucaria
muito. Minha maior vontade era avançar contra a
garganta de Boris.
- Seja uma boa menina sempre - ele
continuou a dizer, eu dei uma olhada no quarto à
procura de algo como defesa.
A única coisa por perto era o abajur em
uma mesa próximo à cama. Contudo, Boris
acompanhou meu olhar e fechou a cara em claro
sinal de raiva.
- Não sei que tipo de lavagem cerebral o
Milanovic fez com você - disse ele estreitando os
olhos -, mas eu vou reverter. Voltará a ser a
mesma Kyara por quem me apaixonei.
Eu não acreditava em um amor como o
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dele, e mesmo que acreditasse, a Kyara que ele diz
estar apaixonado não existia mais. Aquela era
medrosa e obediente por medo de represálias. Sou
mais forte hoje e meu amor por Dmitri, estar ao
lado dele, me ajudava a crescer. O problema é que
Boris era um surtado. Ele queria ser meu Joker mas
eu não tinha pretensão alguma de ser a Harley
Quinn.
- Ainda sou a mesma, Boris - disse em
uma voz mansa - Sua irmãzinha.
Para lidar com um louco às vezes era
preciso agir como tal. Contudo, minhas palavras
finais foram como gatilho na ira de Boris que veio
até mim como um búfalo desnorteado e agarrou o
meu queixo com força.
- Você nunca foi minha irmã, nunca -
seu aperto agressivo criou lágrimas em meus olhos
- Será a minha mulher e mãe dos meus filhos. E
eles serão incríveis, meu amor. Guerreiros fortes e
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inteligentes. Uma mistura perfeita de nós dois.
Pensei no bebê em meu ventre e levei o
braço em volta dele como se assim pudesse o
manter protegido de Boris. Graças aos céus ele não
notou o meu gesto e se notou, não soube ler.
Pensar em qualquer contato íntimo com
Boris que rendesse frutos me fazia ficar enjoada a
ponto de querer vomitar.
- Seremos invencíveis - continuou
Boris - Não essa merda patética que são
Milanovic e Vladic Guriev. Falando em Dmitri,
acabei de falar com ele.
Sua revelação me deixou estática.
- O que disse a ele?
- Que estava comigo. Que veio por livre
espontânea vontade e que não pretende voltar.
Pior que ser sequestrada por Boris, eram as
mentiras que ele poderia inventar. Mas Dmitri
jamais acreditaria nele. Ele sabia que eu o amava.
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Tinha que saber. Mas também, o que poderia
pensar um homem que a noiva desaparece um dia
antes do casamento?
- É mentira! - levantei avançando sobre
Boris - É tudo mentira.
Ele agarrou meu pulso, apertando-o forte
até me fazer contorcer.
- Sim, é tudo mentira, não disse nada a
ele, apenas queria ouvir o desespero dele por você.
E queria ver como você iria reagir a isso - disse
ele em um tom de desprezo - Pelo visto, terei um
longo trabalho. Mas posso ser paciente, Kyara.
Esperei por você todos esses anos. Depois, todos
esses meses longe e, agora, posso esperar mais
algumas semanas. Sei como te amansar e logo
estará pedindo que eu a foda, e terá esquecido
completamente Dmitri Milanovic. Até porque não
terá outra coisa para fazer, ele estará morto.
No fundo, eu sabia que não seria assim,
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com raiva e de forma agressiva, que eu conseguiria
lidar com Boris. Dmitri dizia que nas situações
mais tensas precisava-se ter calma e paciência, mas
era muito difícil conseguir suportar calada a tortura
psicológica que Boris fazia.
- A guerra vai começar, Kya. É melhor
escolher logo de que lado prefere ficar - disse
Boris - Ou fará companhia na mesma vala suja
que Dmitri.
Eu preferia um milhões de vezes morrer e
ser jogada em uma vala imunda ao lado de Dmitri
do que pensar em passar um dia que fosse ao lado
de Boris como sua mulher.
- Pense muito sobre isso - reafirmou ele
abrindo a porta - Tempo é o que não lhe falta.
Pelo contrário, pensei ao vê-lo sair, meu
tempo corria rapidamente como areia pelos vãos
entre meus dedos. Eu precisava continuar a me
fortalecer física e psicologicamente para escapar
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daqui, ou, pelo menos, achar uma forma para que
Dimitri me encontrasse e salvasse a mim e o nosso
bebê.
Não sabia quantas horas tinham se passado
desde que Boris saiu do meu quarto e os breves
cochilos que me permiti ter encolhida na cama, mas
o dia já havia clareado quando abri meus olhos
outra vez.
Era o dia do meu casamento com Dmitri.
Evento para o qual passei semanas me preparando e
ansiando. Um sonho que hoje não iria se realizar.
Abracei meu corpo chorando baixinho. Foram dias
preocupada pelo vestido não estar na medida certa.
Agora, me casaria até com essas roupas que usava
se tivesse o homem que eu amava ao meu lado.
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Ainda estava entregue a essa dor física que
a ausência de Dmitri causava em mim quando a
porta foi aberta. Agradeci silenciosamente e
aliviada por não ser Boris, não tinha forças para
lidar com ele.
Feliks trazia uma bandeja com o café da
manhã. Sem olhar para mim ou dizer qualquer
coisa, colocou a comida sobre o criado-mudo e
saiu.
Comi pelo menos um pouco. Embora
soubesse que deveria me alimentar mais, eu não
conseguia.
Mexia distraidamente algo em meu prato
quando, para minha surpresa, Sonya entrou no
lugar do Boyevik.
Fiquei sem reação por alguns segundos
enquanto ela avançava pelo quarto. Diversos
sentimentos passaram por mim.
Raiva. Mágoa. Tristeza. Dor por ter sido
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enganada e traída.
- Sonya.
Ela corria a mão pelo guarda-roupa e
continuou a fazer isso ignorando meu chamado.
- Sonya! - finalmente consegui reagir
indo até ela - Por que você fez isso?
Inconscientemente eu já tinha essa
resposta. Ela nunca foi para mim, por esses anos
todos, a irmã que eu fui para ela. Fui seu bibelô, a
garota que ela se divertia e culpava pelas
traquinagens que aprontava; a garota que mentia e
cubria seus rastros quando era adolescente e a
mulher que colocou os sonhos de ir embora de lado
para ajudar a evitar que Boris a tornasse uma
mulher infeliz se descobrisse a vida leviana que
levava.
- Eu sempre amei você, Sonya - disse a
ela. Dizer essas palavras me feriam por dentro -,
mas você nunca me amou, não é mesmo? Fui
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apenas alguém que você manipulou e usou quando
bem quis.
Só depois de ser amada profundamente por
Dmitri, ter o carinho de Vladic, o respeito e afeto
de Irina e todas as outras pessoas novas em minha
vida, e perder tudo isso, que dei-me conta que os
Kamanev, excluindo os que já morreram, nunca
sentiram nada sincero por mim.
Ela parou de passar a mão sobre a madeira
do guarda-roupa e olhou para mim. Eu não
conseguia ver qualquer expressão em seu rosto.
Braveza, mágoa, arrependimento então, nem sinal.
Seu rosto era uma máscara fria e sem expressão.
- Não vai me dizer nada, Sonya?
Ela começou a caminhar e acreditei que
viria até mim quando seguiu até a porta. E tão
surpresa como me deixou ao entrar, ela saiu. Fiquei
parada no lugar com os punhos cerrados, as unhas
machucando as palmas das minhas mãos.
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Não conseguia acreditar nesses breves
minutos. Frustração e raiva começaram a fazer meu
sangue ferver. Eu tinha desperdiçado meu tempo
desejando respostas quando deveria ter feito Sonya
entender que ela precisava me libertar. Que todo
esse plano de Boris era absurdo e que ajudando-o,
sua vida estava em perigo. Não porque como das
outras vezes estivesse preocupada com ela, mas
porque Sonya podia representar minha única
possibilidade de fuga.
Mexi a maçaneta só para constatar que
estava fechada. Bati o punho contra a porta
chamando Sonya na esperança que estivesse no
corredor ou talvez em algum quarto ao lado do
meu. Gritei até minha garganta arder e minha voz
começar a ficar rouca. Alguns minutos após eu ter
desistido e retornado à cama, Feliks entrou, pegou a
bandeja com os restos do café da manhã e saiu.
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Uma coisa era não sair de casa sem Dmitri
e os Boyevik para manter garantida minha
segurança, outra, era me ver trancada em um quarto
mais uma vez. Dessa vez com a certeza de que o
homem que mantinha as chaves iria me fazer mal,
não apenas fisicamente.
Eu tinha que tentar fugir, mas não
conseguia pensar em nada, então, caminhei até a
janela mais uma vez. Grudei minhas mãos e rosto
contra as grades de ferro. Boyevik armados e
cachorros ferozes faziam o patrulhamento lá em
baixo. Havia muitos homens nos muros, espalhados
pelo campo aberto e de onde eu conseguia ver no
enorme portão. Mesmo que eu conseguisse fugir do
quarto, escapar daqui não seria fácil. Havia muita
gente e cães para me perseguir.
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Meu maior medo era levar um tiro, não por
mim, mas colocasse em risco a vida meu filho.
Voltei para a cama e sentei abraçando meus
joelhos. Para fugir, eu precisava conhecer a casa.
Então, meu plano era praticamente igual ao que tive
quando cheguei à casa de Dmitri, conhecer o
terreno e decidir o melhor momento para a fuga.
Só que diferente de Boris, a intenção de
Dmitri nunca foi me manter trancada no quarto, ele
só usou isso nos primeiros dias para me forçar a dar
informações que acreditava que eu soubesse.
Boris queria me dobrar como um bambu
envergando com o vento. Se eu quisesse que me
tirasse do quarto para conhecer a casa e saber onde
estava, precisava jogar como ele e Sonya, de forma
fria e dissimulada.
Se era a Kyara cordial de antes que Boris
queria de volta, seria a camuflagem dela que eu
usaria para escapar. E comecei a agir quando Feliks
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veio ao quarto trazer o almoço. Pedi educadamente
e com um sorriso doce que ele dissesse a Boris que
queria uma audiência com ele.
- Soube que exigiu me ver - disse ele ao
entrar, parando ao lado da porta aberta, mas que
tinha Feliks à sua guarda.
Boris até era um rapaz bonito, mas
monstruoso por dentro, o que o tornava desprezível
no final.
- Eu solicitei - o sorriso que tentei
emitir soava tão falso que meus lábios tremeram,
me fazendo baixar a cabeça para o prato - Almoça
comigo?
Não obtive nenhuma resposta por um
tempo considerável, até que ergui novamente o
olhar. Boris me encarava com incredulidade,
depois, com suspeita. Eu precisava ser mais
convincente. Ele era louco, mas não burro.
- Não envenenei a comida, Boris - disse
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soltando um risinho e levei uma colherada a boca
- A menos que tenham descoberto que as tintas
nas paredes possam ser usadas como veneno, você
não tem que se preocupar.
Seriam tóxicas ao ponto de causar mesmo
que um desconforto temporário? Irina certamente
saberia se algo como isso era possível.
- É uma pena, mas já fiz minha refeição
- apesar disso, ocupou a segunda cadeira na mesa
de dois lugares - Talvez possamos jantar juntos.
Assenti, mas por dentro tremia com a
possibilidade. Um jantar daria ideias românticas a
Boris e isso era tudo o que eu queria evitar.
- Estava pensando, como você disse, eu
tinha muito para pensar - em diversas formas
muitos cruéis de como Dmitri iria acabar com ele
quando o encontrasse foi uma delas - Você
planejou isso há muito tempo, não é?
Precisava mantê-lo falando para que seu
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foco nunca ficasse em mim, ou melhor, no meu
corpo, como seus olhos estavam.
- Pegar você de volta ou destruir o
Pakhan?
- Vamos começar pelo Pakhan - disse
voltando a comer.
Boris sempre gostou de falar de si mesmo
e das coisas horríveis que fazia como se fossem
dignas de admiração. Massagear o seu ego era a
melhor forma de aproximação. Ela adorava
bajuladores.
- Desde que procurei Milanovic, o filho,
a primeira vez e ele me tratou como se fosse nada.
Eu quase sorri. Esse era o Dmitri que eu
conhecia e amava. Desejei tê-lo conhecido muito
antes. Sem dúvida alguma teria me apaixonado da
mesma forma.
- Eu disse sobre as mudanças que
precisavam acontecer na Bratva, mas ele não me
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ouviu - o ódio em sua voz era tão claro como a
água que eu bebia - Os Milanovic são fracos. O
velho era um decadente que só precisou de um
empurrãozinho para ir dessa para uma pior.
Cuspi a água sobre o prato e procurei
rapidamente o guardanapo enquanto tentava
controlar uma crise de tosse.
- O que... o que você quer dizer?
- Implantei uma espiã na casa dos
Milanovic e entreguei o veneno que causou o
ataque cardíaco dele.
Olhei para ele sem conseguir acreditar.
Boris era ainda mais maquiavélico do que eu
pensei.
- Acha que um plano como o meu foi
pensado da noite para o dia? Acha mesmo que sou
só um cara com raiva ou ciúme de Dmitri? -
indagou se exaltando - Não, minha querida.
Dembinsky, Plotnikov, Matvee, Kovalyov e
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Vakhstein, viemos pensando sobre isso há algum
tempo.
Prendi com força o talher em minha mão,
tentando focar a maior parte da minha atenção
nisso. Boris matou o pai de Dmitri, homem que ele
amava e admirava. Já era a terceira pessoa que eu
sabia que Boris havia executado. Roman, por na
adolescência ter se apaixonado por mim. Fjodor
Kamanev e, agora, Mikhail Milanovic. Quantas
pessoas mais que não mereceram morrer, estavam
na lista de Boris que só parecia crescer?
- Otets Fjodor...
- Meu pai? - ele indagou mostrando seu
desprezo - Não sabia de nada ou teria corrido ao
Milanovic dizendo que seu filho havia ficado
louco.
E ele não estaria errado.
- Nós primeiro tivemos que manter
Dmitri e Vladic bem ocupados para não conseguir
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prestar atenção no que acontecia debaixo de seu
nariz - ele riu se achando um grande gênio -
Quem poderia imaginar que envenenariam o
Pakhan dentro de sua própria casa? Um dos seus.
Se antes eu desprezava Boris, agora, eu o
odiava com todas as forças. Só vi Mikhail
Milanovic uma vez, de longe, na época seu olhar
frio me assustou, mas depois de conhecê-lo através
de seu filho, que usava no trabalho a mesma
armadura, compreendia os dois. Era um escudo
necessário para intimidar e manter o controle.
Ainda assim, malucos como Boris tendiam a surgir
das trevas.
- Meu pai era um fraco que não merecia
estar em meus planos - continuou Boris - E
enquanto avançamos, precisávamos de mais
dinheiro e mais recursos. Eu tive que eliminar o
velho e tomar o controle da família. Mas essa é
uma história muito longa, Kya. Infelizmente, não
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tenho como ficar e passar a tarde contando tudo a
você.
E eu sentia que já tinha escutado o
suficiente. Boris era terrivelmente diabólico.
- É sobre isso que queria falar -
apressei-me em dizer antes que ele saísse - Não
suporto mais ficar trancada no quarto. Posso andar
pela casa e conhecer o jardim?
Ele me estudou por um tempo e abri um
enorme sorriso para ele, fingindo ver Vladic ou
alguém que eu sentia carinho à minha frente.
Precisava ser convincente por mais que isso me
enojasse.
- Hoje não. Mas amanhã eu mesmo a
levo para dar uma volta - disse ele em um tom
brando como se eu fosse uma doente precisando de
cuidados - Descanse, você ainda está muito
abalada.
Sustentei o sorriso até que Boris,
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acompanhado de Feliks, saíssem do quarto. Depois,
joguei o guardanapo em direção à porta, o tecido
não chegou à metade do caminho.
Um dia, Boris Kamanev, esse assassino
odioso, iria pagar por tudo que estava fazendo.
Eu tinha fé nisso porque eu tinha fé em
Dmitri.
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