Durante dezesseis anos, meu meio-irmão, Heitor Lobo, foi meu mundo inteiro. Cada desenho que eu rabiscava, cada sonho que eu alimentava, era uma carta de amor secreta para ele.
Então, ele ficou noivo de uma influenciadora digital perfeita. Quando finalmente mostrei a ele meu coração em um portfólio com o trabalho da minha vida, ele o rasgou em mil pedaços em um acesso de fúria.
"Isso é doentio, Clara! Eu sou seu irmão!"
A humilhação não parou por aí. Bêbado, ele se forçou para cima de mim enquanto sussurrava o nome da noiva dele, apenas para me culpar na manhã seguinte. "O que você estava fazendo na minha cama? Seu comportamento é inapropriado."
Minha própria mãe ligou, não para me consolar, mas para me acusar de tentar seduzi-lo e arruinar sua vida perfeita.
Depois de uma vida inteira de devoção, eu era apenas um problema a ser resolvido, um corpo para ser confundido no escuro. O amor dele não era proteção; era uma jaula.
Então, pintei meu cabelo de loiro platinado, aceitei a oferta do meu tio distante para estudar design em São Paulo e desapareci sem dizer uma palavra. Desta vez, eu estava me salvando.
Capítulo 1
Ponto de Vista de Clara Matos:
Dezoito dias.
Foi o tempo que levou para a última centelha da minha esperança murchar e morrer. Dezoito dias depois de finalmente desistir de Heitor Lobo, meu meio-irmão, eu encarei meu reflexo no espelho do salão. Meu cabelo castanho natural, aquele que ele sempre elogiava, parecia pesado, como um manto de arrependimento. Pesado com cada palavra não dita, cada olhar roubado, cada sonho tolo que eu nutri por ele.
"Loiro platinado", eu disse à cabeleireira, minha voz surpreendentemente firme. "Aquele bem ousado, bem claro."
O cheiro de química encheu minhas narinas, uma pontada metálica e afiada que espelhava o gosto na minha boca. Era um corte físico, cada fio perdendo sua cor, tornando-se algo novo, algo que nunca tinha orbitado o mundo dele. Ele não me reconheceria. Ótimo.
Meus dedos, manchados de tinta de cabelo, procuraram desajeitadamente meu celular. Havia apenas um número que eu considerei. Meu tio distante, Geraldo. O bilionário da tecnologia em Florianópolis. O homem cujas ligações eu sempre desviava, cujos convites para deixar minha casa de infância e Heitor eu sempre recusei educada e firmemente.
Agora, minha recusa parecia ter acontecido em outra vida. Uma Clara diferente, uma Clara ingênua, fez aquelas escolhas. Esta nova Clara, desafiadora, tinha uma resposta diferente.
"Tio Geraldo", eu disse, as palavras um pouco roucas, "estou pronta. Vou aceitar sua oferta para a FAAP."
Houve uma batida de silêncio chocado do outro lado. Geraldo, geralmente tão composto, tão inabalável, pigarreou. "Clara? Você tem certeza? Você sempre foi tão... enraizada. Tão hesitante em deixar sua casa, sua vida aí. E o Heitor."
Uma risada oca escapou de mim. Soou frágil, como vidro quebrando. "Heitor? Ah, ele vai ficar noivo, tio. Com a Kaila Guedes. A influencer. Sabe, aquela que parece que saiu de uma revista e aperfeiçoou a arte da doçura passivo-agressiva."
Minha voz falhou um pouco no nome de Kaila. Eu rapidamente me recompus. "Está em todas as redes sociais. Planejamento extravagante da festa de noivado. Transmissões ao vivo, 'A Jornada de Kaila para Sra. Lobo'. É... um belo espetáculo."
Engoli em seco, o gosto amargo retornando. "Eu não posso mais orbitar a vida dele, tio. Não quando ele está construindo uma nova com outra pessoa."
A voz de Geraldo suavizou, perdendo a surpresa inicial. "Ah, Clara. Minha querida. Agora eu entendo. E você sabe que minha oferta está de pé, sempre. São Paulo vai te fazer bem. Um novo começo. Os melhores designers do mundo estão esperando por você na FAAP."
Suas palavras foram um bálsamo, um abraço caloroso através da linha telefônica. "Obrigada, tio. De verdade."
"Não precisa agradecer, querida. Apenas me prometa que vai ligar quando pousar. E eu vou arranjar tudo. Um lugar para ficar, um dinheiro para começar. Foque puramente nos seus estudos, entendido?"
"Entendido", sussurrei, o alívio me invadindo, uma esperança frágil se desdobrando em meu peito. A ligação terminou. Olhei para o meu reflexo novamente, os fios prateados captando as luzes do salão. Ainda era eu, mas diferente. Mais dura. Mais afiada.
Naquela noite, meu cabelo recém-descolorido parecia uma coroa de espinhos contra meu travesseiro. Eu não conseguia dormir. A decisão estava tomada, a passagem comprada. Mas uma parte de mim, a parte antiga e tola, ainda ansiava por algum tipo de encerramento. Algum reconhecimento.
Encontrei Heitor na sala de estar, esparramado no sofá, o celular apoiado enquanto Kaila, toda sorrisos deslumbrantes e cachos perfeitos, transmitia ao vivo suas decisões de decoração para a festa de noivado. Luzinhas de fada contra lustres de cristal. Rosa blush contra marfim. Cada detalhe um testamento à sua perfeição fabricada.
"Heitor", eu disse, minha voz mal um tremor. Ele não olhou para cima. "Heitor, preciso te dizer uma coisa."
Ele levantou uma mão, os olhos grudados na tela. "Só um segundo, Clara. A Kaila está tentando decidir sobre os arranjos de flores. Isso é crucial."
Kaila, na tela, deu uma risadinha. "Ah, Hê. Você realmente se importa com as peônias, ou está apenas fingindo para os meus adoráveis espectadores?"
"Claro que me importo, querida", Heitor arrulhou para o celular, um sorriso que eu não via direcionado a mim há anos enfeitando seus lábios. "Só o melhor para minha futura esposa."
Meu coração, que eu pensei ter murchado e morrido, deu um solavanco agudo e doloroso. Ele costumava me olhar daquele jeito. Ele costumava se importar com as minhas decisões.
Um fantasma de uma memória piscou: Heitor, anos atrás, quando eu era uma adolescente desengonçada, me entregando um caderno de desenho profissional. "Seu talento é desperdiçado em papel de fichário, Clara. Você precisa das ferramentas certas." Ele sorriu, um sorriso genuíno e encorajador que iluminou meu mundo. Ele se tornou minha musa, meu primeiro, meu único.
Cada design, cada esboço, cada peça de roupa que eu sonhava em criar, era inspirado por ele, para ele. No meu aniversário de dezoito anos, eu o presenteei com um portfólio, o ápice de anos de devoção secreta. Designs feitos para vesti-lo, para celebrá-lo.
A reação dele tinha sido como um soco no estômago. Uma explosão de raiva. "Isso é doentio, Clara! Eu sou seu irmão!" Ele rasgou as páginas, meus sonhos cuidadosamente renderizados, meu coração vulnerável, em confete.
Eu passei horas, dias, meticulosamente colando aqueles designs rasgados de volta, pedaço por pedaço irregular. Como um vaso quebrado, colado de forma imperfeita, mas ainda inteiro. Meu amor não morreu então. Nem mesmo quando ele trouxe Kaila para casa, um ano depois, e me disse: "Acostume-se a ter uma irmã, Clara."
Agora, observando-o completamente absorto no mundo digital de Kaila, seu aceno displicente com a mão, eu entendi. O vaso havia se estilhaçado além do reparo.
Minha aceitação na FAAP, a nova vida se estendendo diante de mim, parecia trivial, insignificante para ele. Assim como eu me tornei.
"Heitor", tentei novamente, minha voz mais forte agora, um fio de aço em meio à dor.
A voz de Kaila, doce e enjoativa, cortou o ar. "Ah, a Clara ainda está aí, Hê? Diga a ela para vir dar um oi para os meus seguidores! Eles adorariam ver sua irmãzinha!"
Heitor finalmente olhou para mim, um brilho de irritação em seus olhos. "O que foi, Clara? Não vê que estou ocupado?"
Suas palavras foram um tapa frio e duro. A finalidade de tudo aquilo desceu, pesada e sufocante. Dezesseis anos. Dezesseis anos amando-o, esperando por ele, orbitando cada movimento seu.
Tinha acabado.
A esperança precisava ser extinta. E só eu poderia fazer isso. Eu tinha que arrancar Heitor do meu coração. Não apenas sair fisicamente, mas mentalmente, emocionalmente. Ele costumava ser meu sol, minha lua, meu universo inteiro. Agora, ele era apenas uma estrela distante, desvanecendo. Mal uma mancha.
Meu amor por ele, aquele que sussurrava seu nome em meus sonhos, que alimentava minha arte, que o via como meu protetor, meu mentor, meu tudo – esse amor era um segredo que eu mantive trancado. Um segredo que apodreceu, tornando-se tóxico.
"Clara?" A voz de Heitor, impaciente, rompeu meus pensamentos. "Você vai dizer alguma coisa ou vai ficar aí parada?"
Ele ofereceu a Kaila um sorriso tenso, depois se virou de volta para o celular. "Desculpe, querida. Minha irmã pode ser um pouco... exagerada às vezes."
Uma irmã. Apenas uma irmã.
Lembrei-me da música que ele me apresentou, das conversas tarde da noite sobre meus sonhos, de sua mão guiando suavemente a minha enquanto eu desenhava. Foi ele quem me comprou minha primeira máquina de costura, me incentivou a me inscrever na FAAP, me disse que meus designs eram inovadores. Ele me construiu, apenas para me derrubar.
"Tudo o que eu já desenhei", eu queria gritar, "cada fio, cada paleta de cores, cada silhueta... foi para você."
Mas as palavras ficaram presas na minha garganta, engolidas por uma onda de náusea. Kaila ainda estava tagarelando sobre arranjos de mesa. Heitor ainda estava balançando a cabeça, distraído, fingindo se importar.
Ele nunca soube. Ele nunca saberia.
Meu coração parecia uma uva passa murcha, deixando uma dor que irradiava por todo o meu peito. Mas sob a dor, uma pequena brasa de outra coisa se acendeu. Raiva. Uma fúria fria e justa que solidificou minha resolução.
Eu me virei e fui embora, o assoalho rangendo sob meus pés, um eco silencioso do mundo em ruínas que eu estava deixando para trás. Eu não contaria a ele sobre a FAAP. Eu não contaria nada a ele. Ele não merecia conhecer a nova Clara.
Ele não me merecia mais. Nem a antiga eu, e certamente não a pessoa que eu estava me tornando.
Ponto de Vista de Clara Matos:
As palavras que eu não disse pairavam no ar, pesadas e não ditas, como um sudário cobrindo o fantasma do nosso relacionamento. Passei pela sala de estar novamente, uma dor fantasma no peito. Heitor ainda estava grudado na transmissão ao vivo de Kaila, alheio. Sua risada, leve e despreocupada, flutuou atrás de mim, um contraponto cruel à turbulência que se agitava dentro de mim.
Ele nem notaria que eu tinha ido embora. Não de verdade. Não até que minha ausência deixasse uma lacuna grande demais para ele ignorar, e mesmo assim, eu duvidava que ele a conectasse a algo além de inconveniência. Eu era um acessório, uma sombra na periferia de sua vida. Nunca o evento principal. Nunca a protagonista.
O pensamento se solidificou em mim, frio e duro: ele não saberia quando eu saísse. Ele não saberia para onde eu fui. E ele não saberia por quê.
Meu voo era em três dias. Três dias para desmontar uma vida inteira.
Retirei-me para o meu quarto, o santuário que também fora minha prisão. As paredes estavam cobertas de esboços, amostras de tecido, painéis de inspiração - todas relíquias de um sonho que um dia se entrelaçou com ele. Comecei com as roupas. Cada item que eu embalava era uma escolha deliberada, trocando a pele da antiga Clara. Os vestidos que ele elogiou, os suéteres que cheiravam vagamente ao seu perfume por causa de um abraço acidental - esses foram para uma pilha de doação. Apenas as peças que pareciam comigo, ou com a nova eu, entraram na mala.
Depois veio a parte mais difícil. As lembranças. O canhoto do ingresso do primeiro show que ele me levou. A rosa seca da minha formatura do ensino médio, que ele colocou atrás da minha orelha com um toque raro e gentil. A foto desbotada de nós na praia, ambos rindo, jovens e totalmente inconscientes da dor que estava por vir.
Cada item era um pequeno caco, cutucando a casca do meu coração mal cicatrizado. Segurei a foto, meu polegar traçando seu rosto sorridente. Uma lágrima, quente e indesejada, escapou e borrou sua imagem. Por um momento, o vazio dentro de mim pareceu cavernoso, um vácuo ecoante onde antes sua presença preenchia todos os cantos.
Então, no fundo de uma velha caixa empoeirada, eu o encontrei. Meu diário de infância. Um livrinho gasto com uma fechadura frágil que havia quebrado anos atrás. Eu não o via desde os quinze anos.
Folheando as páginas amareladas, minha respiração falhou. Cada entrada, cada rabisco infantil, cada desejo fervoroso, era sobre Heitor.
"Heitor me ensinou a tocar violão hoje. Seus dedos são tão fortes. Eu queria que ele segurasse minha mão daquele jeito."
"Ele me disse que meus desenhos eram incríveis. Ele disse que eu poderia ser uma designer famosa. Ele acredita em mim. Ele é meu herói."
"Kaila é tão bonita. Heitor passou o dia todo conversando com ela. Meu coração parece que está se partindo em um milhão de pedaços."
As palavras eram um eco brutal e não filtrado da minha devoção ingênua. Um testamento a um amor tão consumidor, tão unilateral, que era quase embaraçoso de ler. Lembrei-me de como ele me protegeu dos valentões, como ele pacientemente me deu aulas de matemática, como ele foi a única presença constante e gentil em uma casa fraturada pelo novo casamento da minha mãe. Ele era minha âncora.
Lágrimas escorriam pelo meu rosto, quentes e ardentes. Não apenas pelo amor perdido, mas pela garota perdida que havia derramado todo o seu ser nele. A garota que não sabia que merecia mais.
Chega, uma voz dentro de mim sussurrou, afiada e clara.
Minhas mãos tremiam, mas minha resolução era firme. Arranquei as páginas, rasgando-as em pedaços cada vez menores. O ingresso do show, a rosa seca, a foto - todos tiveram o mesmo destino. Cada rasgo era uma liberação física, um rompimento de um laço. O som do papel rasgando era ensurdecedor no quarto silencioso. Quando terminei, a pilha de memórias trituradas parecia neve caída, cobrindo o chão.
Varri tudo para um grande saco de lixo, amarrei-o e o empurrei para o fundo do meu armário. Longe da vista, longe da mente. Uma lousa em branco.
Uma porta de carro bateu lá embaixo. Depois outra. Passos no cascalho.
Meu coração martelava contra minhas costelas. Heitor. E Kaila.
Ouvi a voz brilhante e arejada de Kaila flutuar pela janela aberta. "Hê, querido, você contou à sua irmãzinha sobre nossos lindos centros de mesa? Ouvi dizer que ela tem um ótimo gosto para flores."
Eu estremeci. Irmãzinha. As palavras pousaram como pequenos dardos envenenados.
Então, a voz de Kaila, mais perto desta vez, do lado de fora da minha porta. Uma batida leve. "Clara? Você está em casa? Hê e eu acabamos de voltar da floricultura. Escolhemos as orquídeas mais requintadas para a festa de noivado. Heitor disse que você adora orquídeas, então pensei em pedir sua opinião de especialista!"
Ela soava doce, mas havia uma corrente subterrânea de outra coisa. Um triunfo sutil. Um sorriso de escárnio em sua voz.
Abri a porta, uma expressão neutra estampada no rosto. Kaila estava lá, uma pequena caixa elegantemente embrulhada na mão. Seu sorriso perfeito não alcançava seus olhos. Heitor estava logo atrás dela, rolando o feed no celular, mal olhando para mim.
"Kaila", eu disse, minha voz plana. "O que foi?"
"Ah, só uma coisinha para minha futura cunhada!", ela chilreou, estendendo a caixa. "Um pequeno agradecimento por ser tão solidária com nosso noivado."
Peguei a caixa. Era leve. Dentro, aninhada em uma cama de papel de seda, havia uma delicada pulseira de prata. Um pequeno e intrincado pingente pendia dela - uma orquídea perfeitamente esculpida.
Minha respiração falhou. Orquídeas. Minha flor favorita. A que Heitor me dava todo Dia das Mães, dizendo que elas o lembravam da minha força. A que ele sabia que eu amava.
Uma onda de náusea me atingiu. O gosto metálico na minha boca se intensificou. Senti um suor frio brotar na minha testa.
Heitor ergueu os olhos do celular, uma carranca vincando sua testa. "Clara, o que há de errado? Você está pálida."
O sorriso de Kaila se apertou. "Oh, ela é alérgica a prata, Hê? Achei tão bonita."
Meu estômago se revirou. Não era a prata. Era a orquídea. A lembrança constante de seu suposto afeto, agora usada como arma por sua noiva. O descaso casual que ele tinha por meus verdadeiros sentimentos, compartilhando algo tão pessoal com Kaila.
"Estou bem", engasguei, uma sensação vertiginosa me invadindo. "Só um pouco... sobrecarregada."
Heitor revirou os olhos. "Sinceramente, Clara. Você é sempre tão dramática. Apenas diga obrigada."
Kaila deu um tapinha no braço dele. "Está tudo bem, Hê. Ela é apenas sensível. Algumas pessoas não estão acostumadas a presentes tão atenciosos." Seu olhar piscou para mim, um brilho de malícia em seus olhos castanhos. "Será que é porque você não recebe muitos presentes, querida?"
Minha cabeça girou. O mundo inclinou. Heitor nem percebeu. Ele já estava de volta ao celular, rolando o feed.
"Kaila, já chega", ele murmurou, mas seu tom carecia de convicção. Ele nem mesmo ergueu os olhos para encontrar os meus.
O nojo era uma bile subindo em minha garganta. Ele a estava defendendo. De novo. Ele sempre a defendia. Mesmo quando ela era abertamente cruel.
Agarrei a pulseira de orquídea, sua beleza delicada parecendo uma cobra venenosa em minha mão. Isso não era um presente. Era uma declaração de guerra. Um sinal final e inegável de que não havia lugar para mim em sua vida, nem mesmo como uma "irmãzinha".
O vazio tinha sido doloroso. Mas isso. Essa crueldade total e desdenhosa. Isso era raiva. Fria, clara e totalmente libertadora.
Minha decisão de partir não era apenas certa. Era uma questão de sobrevivência.
Ponto de Vista de Clara Matos:
Naquela noite, a pulseira de orquídea parecia um ferro em brasa contra minha pele, mesmo depois de eu a ter arrancado e jogado na minha cômoda. As palavras doces e venenosas de Kaila ecoavam na minha cabeça. *Algumas pessoas não estão acostumadas a presentes tão atenciosos.* A acusação não dita pairava pesada: *Você não é digna de amor, nem mesmo do meu.*
A risada de Heitor, abafada mas distinta, vinha de seu quarto. Kaila ia passar a noite lá. De novo. Os sons da vida deles, tão vibrantes e cheios, se infiltravam pelas paredes, um lembrete constante de tudo do que eu não fazia parte. Minha cama parecia fria, grande demais só para mim. O sono era uma miragem distante.
Eu me revirava, os lençóis macios se enrolando em minhas pernas como correntes. O ar no meu quarto parecia denso, sufocante. Eu precisava respirar. Precisava escapar.
Me vi na sala de estar, atraída pelo piano de cauda, uma relíquia do primeiro casamento do meu padrasto. Ele brilhava ao luar, um monumento silencioso a uma vida que eu estava prestes a deixar para trás. Eu não tocava há anos. Heitor foi quem me ensinou, suas mãos grandes guiando as minhas sobre as teclas. Ele adorava me ouvir tocar.
Meus dedos, rígidos e trêmulos, tocaram hesitantemente as teclas de marfim. Uma nota suave e dissonante quebrou o silêncio. Recuei como se estivesse queimada. Não. Não esta noite. Não com o fantasma dele pairando sobre cada melodia.
Em vez disso, decidi fazer algo produtivo. Meu voo era amanhã. Minha mente acelerou, listando as tarefas finais: pegar meu novo RG, fechar minha conta bancária antiga, doar o resto dos meus pertences indesejados. Eu tinha que ser forte. Por mim mesma.
Na manhã seguinte, o cansaço se agarrou a mim como uma segunda pele. Minha cabeça latejava, uma dor surda e insistente atrás dos meus olhos. Eu me sentia esvaziada, drenada. Mas havia também uma estranha e frágil sensação de paz. Como a calmaria depois de uma tempestade. O pior já havia passado.
Desci as escadas cambaleando, o aroma de café e pães recém-assados agredindo meus sentidos. Kaila, de olhos brilhantes e irritantemente alegre, estava pondo a mesa. Heitor já estava sentado, rolando o feed no celular, um leve sorriso brincando em seus lábios.
"Bom dia, dorminhoca!", Kaila chilreou, sua voz um pouco alta demais para minha cabeça latejante. "Dormiu bem? Você parecia um pouco abatida ontem à noite. Talvez esteja pegando um resfriado."
Ela me serviu uma xícara de café, seus movimentos graciosos. "Heitor estava me contando sobre seu lugar favorito para o café da manhã. Sabe, aquele com as incríveis panquecas de ricota com limão? Ele disse que vocês dois costumavam ir lá o tempo todo." Seu tom era leve, mas seus olhos, quando encontraram os meus, eram afiados e avaliadores.
Agarrei a caneca de café, o calor se infiltrando em minhas mãos frias. "Íamos", eu disse, minha voz plana. "Ele amava as panquecas, e eu sempre pedia os crepes de mirtilo."
Heitor ergueu os olhos, um brilho de algo indecifrável em seus olhos. Ele não disse nada.
Kaila deu uma risadinha. "Ah, Hê, você nunca me contou isso! Eu sou mais do tipo salgado. Mas sabe, eu estava pensando, para nosso primeiro brunch como casal, nós definitivamente deveríamos ir lá. Parece tão romântico." Ela se virou para mim, seu sorriso inabalável. "O que você acha, Clara? Não seria adorável?"
Meu estômago se contraiu. Lembrei-me daqueles brunches. As conversas tranquilas, seu interesse genuíno em meus designs, a maneira como ele ouvia atentamente, seu olhar caloroso e reconfortante. Nós até falamos sobre abrir uma pequena boutique juntos, anos atrás. Um sonho distante e tolo.
"Eu acho", eu disse, minha voz mal um sussurro, "que parece... apropriado." Forcei um sorriso pequeno e tenso. "Vocês dois merecem todo o romance do mundo."
Heitor finalmente largou o celular, seu olhar se estreitando em mim. "Você está bem, Clara? Você parece... estranha."
"Estou perfeitamente bem", eu disse, projetando uma confiança que não sentia. "Apenas um dia agitado pela frente. Preciso resolver algumas coisas."
Levantei-me, a cadeira raspando ruidosamente no chão. Eu precisava escapar dessa domesticidade sufocante.
"Resolver coisas?", Heitor perguntou, uma nota de suspeita em sua voz. "Onde você vai? Você geralmente me conta seus planos."
O velho Heitor. O Heitor controlador. Aquele que tinha que saber cada movimento meu, disfarçado de cuidado fraterno. Meu maxilar se apertou.
"Só ao banco. E depois para doar algumas roupas velhas", menti suavemente. "Nada emocionante."
"Ao banco? Para quê?" Seus olhos estavam afiados agora, perscrutadores.
Kaila, que observava nossa troca com grande interesse, interveio. "Ah, Hê, não seja tão curioso! Clara é uma moça crescida. Ela não precisa te reportar cada movimento." Ela me deu um olhar simpático, mas sutilmente condescendente. "A menos, é claro, que ela esteja planejando algo... escandaloso."
Um rubor subiu pelo meu pescoço. A implicação era clara: eu estava tentando agir às escondidas, para causar problemas.
"Estou apenas organizando minhas finanças", eu disse, minha voz perigosamente uniforme. "E não, Kaila, nada escandaloso. Apenas tentando ser uma 'moça crescida', como você diz."
Heitor se levantou, sua alta estatura projetando uma sombra sobre mim. "Clara, estou falando sério. Não vá fazer nenhuma besteira. Você sabe como se mete em confusão facilmente. Especialmente com dinheiro." Seu tom era paternalista, desdenhoso. "Eu ainda sou seu guardião, tecnicamente. Preciso saber que você não vai torrar todas as suas economias em alguma bobagem frívola."
Suas palavras me atingiram como um golpe físico. Ele não era meu guardião. Não mais. Eu tinha dezoito anos. Uma adulta. E ele ainda me tratava como uma criança, um fardo.
Kaila deu uma risadinha, cobrindo a boca com uma mão perfeitamente manicure. "Ah, Hê, você é tão protetor! É fofo, de verdade. Mas a Clara não faria nada para comprometer seu futuro, faria, querida? Especialmente não com suas novas... aspirações." Seus olhos brilharam com um brilho de conhecimento. Ela sabia sobre a FAAP. Ela sabia que eu tinha sido aceita. Ela provavelmente me ouviu no telefone com o tio Geraldo.
A amarga ironia arranhou minha garganta. Minhas aspirações. As mesmas que ele incentivou, depois ridicularizou, depois descartou.
Respirei fundo, forçando-me a permanecer calma. Era isso. O empurrão final.
"Estou de saída", eu disse, minha voz firme, desprovida de emoção. "Tenho coisas para fazer."
Virei nos calcanhares e saí, deixando o café, os pães e a domesticidade enjoativa deles para trás.
A chuva começou quando saí, uma garoa fria e implacável que combinava com a dor em meu coração. Apertei meu casaco, encolhendo os ombros contra o frio. Meu celular vibrou no bolso. Uma notificação do Instagram. Kaila Guedes.
A curiosidade, ou talvez um fascínio mórbido, me fez abrir. Um novo post. Uma foto dela e de Heitor, seus rostos pressionados, sorrindo radiantemente. A legenda: "Tão animada para o nosso futuro, meu amor! Planejando a festa de noivado dos nossos sonhos! #FuturaSraLobo #VidaDeNoiva #AmorDaMinhaVida."
Os comentários estavam chovendo. "Tão fofos!" "Metas de relacionamento!" "Mal posso esperar pelo casamento!"
Meus dedos tremeram enquanto eu rolava. Minha visão embaçou. Um futuro. O futuro deles. Um futuro que não tinha espaço para mim.
Meu coração não se partiu. Ele havia se estilhaçado tantas vezes que não havia mais nada para quebrar. Em vez disso, um desespero profundo e arrepiante se instalou sobre mim. Era um poço sem fundo, sugando todo o calor e a luz do meu mundo.
"Parabéns", sussurrei para o pavimento molhado de chuva. As palavras pareciam cinzas na minha boca. "Parabéns por extinguir a última centelha de esperança que eu já tive."