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A Ladra de Coração

A Ladra de Coração

Autor:: Laura Mahrins
Gênero: Romance
Owen Pergatti está no auge do sucesso. Como CEO de uma promissora empresa de tecnologia e possuidor de um charme irresistível, ele conquista corações por onde passa. Sua regra de vida é simples: aproveitar todas as mulheres que puder, sem nunca se apaixonar por nenhuma. Imerso em festas glamourosas e encontros privados, Owen vive unicamente para a diversão, desprezando o amor e relacionamentos sérios como meras ilusões criadas para preencher vazios existenciais. Tudo muda numa noite chuvosa, quando Owen encontra uma mulher estranha e maltrapilha que desafia suas convicções. Estela é uma órfã lutadora, sobrevivendo nas ruas e sem confiar em ninguém. A última coisa que ela espera é que o homem mais bonito que já viu em sua vida possa mudar sua visão do mundo.

Capítulo 1 Um

Owen Pergatti

Bocejo, girando a caneta entre os dedos, ansioso para estar longe.

Amo minha empresa e meu trabalho, mas não suporto reuniões, quando preciso ser simpático o tempo todo, entendo que essa é a parte chata de ser o CEO da System Tecnology, participar de tudo e me empenhar é o que a faz ser uma das maiores empresas de tecnologia do país.

E saber que a fiz crescer sozinho, sem precisar apelar para o meu sobrenome, isso faz com que eu me sinta ainda mais foda.

Minha vida é incrível.

Difícil acreditar que o garotinho tímido, que sofria bullying no colégio e vivia à sombra do irmão mais velho, voaria tão alto. Tenho trinta anos, uma empresa de renome e tudo o que desejo em um estalar de dedos ou um apertar de botão.

Olho para a mesa, me esforçando para prestar atenção enquanto o homem asiático e baixinho, com bochechas de buldogue, tenta me convencer de que lucraríamos se fechássemos com eles a distribuição de placas de rede para os nossos produtos.

O assunto não era de todo ruim e precisávamos de matéria prima para o lançamento do aparelho de assistência virtual que competiria com os maiores do mercado. Olho em direção a Evelyn e Silvya e as noto cochichar olhando para o IPad, até mesmo elas estão entediadas.

Silvya é minha assistente pessoal/secretária, ela é um gênio e nunca conheci alguém com a memória fotográfica como ela. Preciso ser grato por minha mãe ter me obrigado a contratá-la, mas o motivo não foi a eficiência profissional da mulher de quase quarenta anos, com vasta experiência no meio empresarial, Silvya é muito bem-casada e tem uma filha pré-adolescente, além de estar grávida de seis meses agora. O que fez e faz que eu olhe para ela com o mais profundo respeito.

Acho que minha mãe pensou que ela seria sua aliada e me espionaria, mas Silvya é muito profissional para tal coisa.

Já Evelyn é minha melhor amiga, a única mulher, além da minha mãe, que posso dizer que amo. Vi a pirralha crescer, por ela ser a irmã do meu melhor amigo, e isso fez com que nos aproximássemos, e hoje ela confia mais em mim do que no irmão para contar suas merdas.

Chris, que está ao lado de Evelyn, olha para mim com uma expressão curiosa, aperta os olhos puxados e balança a cabeça em negativa.

- Você está ferrado. - Passa o indicador pelo pescoço, fazendo uma careta.

Torço o lábio sem entender, ele só pende a cabeça para trás e dá uma risadinha silenciosa, então Evelyn ergue os olhos do IPad e faz uma careta.

Algo me diz que eles estão sabendo de algo do qual eu não faço a mínima ideia, odeio esse tipo de situação. Reviro os olhos e me levanto, estalando a língua.

O homem para de falar automaticamente, percebendo o olhar de todos em mim.

- Senhor... Como é mesmo seu nome? - Me esforço para lembrar.

- Huang - Silvya fala, me salvando.

- Isso, senhor Huang, analisaremos sua proposta e entraremos em contato, tenho outra reunião importante em... - Olho o relógio, para dar mais veracidade à minha desculpa - dez minutos.

O homem endurece o semblante e encara os dois que o acompanham, em uma espécie de diálogo silencioso e bizarro.

- Minha assistente irá acompanhá-los. - Olho para Silvya, que assente.

- Por aqui, senhores - pede com delicadeza.

- Foi um prazer conhecê-los. - Forço um sorriso.

- Aguardarei o senhor entrar em contato - o homem diz de forma ríspida, me fazendo desistir de qualquer possibilidade de fechar negócio com ele.

- Pode esperar... - falo, vendo-o sair, seguido pelos dois esquisitos - sentado.

Não espero a porta ser fechada para me voltar para Chris e Evelyn.

- O que está acontecendo? Que história é essa de eu estar ferrado? - Evelyn começa a rir, mas para quando vê minha expressão carrancuda. Ela se abaixa e pega o IPad na mesa, vem até mim e vira a tela.

- Por isso, Owen. Não consegue ser discreto? - questiona, segurando o aparelho e me dando o vislumbre de suas unhas pintadas de preto.

Aperto os olhos e vejo uma foto minha ao lado de duas garotas, de quem não sei nem os nomes, em uma página de fofocas do Instagram.

"Owen Pergatti é visto saindo de boate

acompanhado de duas mulheres...

... e nenhuma delas é Lindsey Stormi, cantora com

quem ele assumiu estar envolvido.

Será que a mais nova queridinha da América

sabe das aventuras de seu affair?"

- Caralho! Essa foto está péssima - afirmo.

- Você está preocupado com a foto? - Chris pergunta, rindo em seguida.

- Eu devia me preocupar com o quê? - Evelyn bufa, revirando os olhos. - Olha, eu deixei claro para Lindsey que não teríamos nada sério, ela postou aquela foto no instagram sem sequer falar comigo - dou de ombros.

Lindsey é uma cantora muito popular no público adolescente e está no auge do sucesso. Ela é legal e gostosa para caralho, mas é obcecada por holofotes, além de querer ter um relacionamento modelo, e eu odeio as duas coisas, holofotes e relacionamentos.

Estávamos saindo há pouco mais de um mês, o sexo é de fato uma maravilha, mas eu não trocaria minha liberdade por uma transa bacana, não fenomenal.

- Os fãs dela vão te trucidar no x - Chris fala rindo, o filho da puta gosta de um caos.

- Eu falei que se envolver com popstar ia dar merda, mas quando foi que você me ouviu mesmo, Owen? - Evelyn coloca a mão atrás de orelha. - Ah, é mesmo! Nunca.

Ela está certa, me envolver com mulheres da mídia sempre dá merda, e eu sempre saio com o rótulo de cafajeste. Não que eu não seja.

- Bom, eu vou com a Madeleine ver umas coisas do casamento - Chris abotoa o paletó - e, Owen, pelo amor de Deus, aquele cara - Se refere ao chinês com quem estávamos em reunião -, fora de cogitação.

Chris se casaria no próximo mês com Maddie, que é uma mulher incrível e muito sortuda por ter conquistado o último dos românticos.

- Puta que pariu de cara chato, maldita a hora que vim para essa reunião, nem tem a ver com marketing - bufa, olhando para cima.

- Apoio moral. - Estalo a língua.

- Bom, eu vou nessa e, Owen, se prepare, quando sua mãe vir a notícia, vai comer seu fígado. - Ri, correndo em direção à porta.

- Seu filho da mãe - rosno e Evelyn gargalha.

- Não sei como ainda sou amigo de vocês, são tão irritantes - comento revirando os olhos e me jogando na cadeira.

- Idiota! - Evelyn dá um tapa na minha nuca e eu reclamo, então puxa a cadeira e se senta perto. - Será que algum dia você vai sossegar? - pergunta.

Dou uma risada.

- Eu sou um cara sossegado. - Abro um sorriso amarelo.

- Aff! Será que algum dia vai conseguir ficar com uma única mulher? - diz, parecendo pensativa.

- Por que ter uma, se eu posso ter várias? Essa conta não fecha... - Faço um floreio com as mãos.

- Todo mundo se apaixona, Owen, ninguém está imune - fala.

- Você nunca se apaixonou - afirmo e ela dá uma risada.

- Você sabe muito bem que sim - responde.

- Então, por que não está com ele? - me arrependo da pergunta instantaneamente.

- Ele me traiu e servi de piada para toda a faculdade - Estala a língua -, e não estamos falando de mim, seu idiota. - Chuta minha perna.

Evelyn namorava um cara na faculdade, parecia ser completamente apaixonado por ela, só faltava dar a pata e abanar o rabo. Fiquei surpreso quando ela me ligou de madrugada, me contando que tinha sido traída.

- Evelyn, por que vou me contentar com uma única boceta se posso ter várias? - digo, tentando quebrar o clima tenso.

- Meu Deus, que nojo! Não precisa falar assim, ideologia horrorosa. - Faz cara de nojo.

- Por que horrorosa? Não estou machucando ninguém - afirmo.

- Não tenha tanta certeza disso.

- Vou repetir, eu deixei claro para Lindsey que era só sexo, não tenho culpa se ela decidiu ignorar. - Pego a caneta, girando entre os dedos.

- Daria tudo para ver você se apaixonando e levando um belo fora da gata. - Faz bico.

- Esse feitiço não me pega, aliás, vou na Fallout hoje, preciso aliviar o estresse que a reunião e a merda da fofoca me causaram. Quer ir? - brinco, mas eu jamais a levaria em um lugar como aquele.

Fallout é um clube de sexo, com uma lista extensa de associados, aonde acontece de tudo, um lugar que você pode usar para extravasar todas as suas perversões, sem preocupação alguma, e é extremamente discreto. Não é ilegal e todos que frequentam são maiores de idade e estão de acordo com tudo o que pode rolar ali.

Ela faz uma careta.

- Aquele lugar é bizarro, prefiro as coisas de modo tradicional - diz, se levantando. - Vou para minha sala.

Uma leve batida na porta faz eu olhar na direção dela.

- Com licença, senhor Pergatti, sua mãe está esperando na sua sala - diz com um certo pesar na voz.

Evelyn dá uma risadinha, cobrindo a boca com a mão em seguida para disfarçar.

- Obrigado, Silvya - digo, assentindo.

- Ela veio rápido, né? - Ri.

- É incrível esse dom que ela tem - bufo.

- Se cuide e não faça merda, não adianta me ligar ou bater na minha porta, vou assistir filmes esse final de semana até meu cérebro doer.

- Eu não acredito nisso! - minha mãe exclama, se levantando assim que entro no escritório. Vou até ela e beijo sua bochecha. - Owen, quando vai ter juízo? - suspira, passando a mão pelos cabelos castanhos, em um corte chanel impecável.

- Não sei do que a senhora está falando - digo irônico, tentando sair pela tangente.

- Sabe o quanto os fãs dessa garota são problemáticos? - ela questiona e dou de ombros, me sentando atrás da minha mesa.

- Eu não prometi nada a Callie, nunca prometi nada a mulher nenhuma. - Sou metódico quando o assunto é promessas, e jamais faço uma que não posso cumprir.

- Owen, você tem trinta anos, não pode agir como se ainda estivesse na faculdade - fala, se sentando e batendo com as mãos na bolsa.

- Por que diz isso? Não estou agindo como se estivesse na faculdade, olha só para mim. - Estalo os dedos e ela balança a cabeça em negativa.

- Todas essas mulheres...- Torna a suspirar. - Está feliz vivendo dessa maneira?

- Claro que estou feliz, mãe, estaria infeliz se usasse uma coleira - respondo.

Como alguém pode ser infeliz tendo uma vida como a minha?

- Não consigo entender essa sua aversão por relacionamentos - fala, me olhando fixamente.

- Eu me relaciono, mãe, não do modo tradicional, mas pode ter certeza de que me relaciono - rio.

- Você é adulto, eu não deveria me preocupar, mas não consigo fechar os olhos para essas situações - fala firmemente.

- Não tem com o que se preocupar, eu estou ótimo - digo, me levantando, mas ela só revira os olhos.

- Queria que encontrasse alguém, que tivesse uma família e me desse mais netos - fala pesarosa.

- Melanie já dá o trabalho de cinco netos - rio, ao lembrar do furacão que é minha sobrinha.

- Não fale assim - pede.

- Eu amo a minha sobrinha, ela foi a melhor coisa que veio do meu irmão, e a senhora deveria ter o fracasso do casamento de Nolan e o da senhora com o p... - me calo, percebendo que estou entrando em um assunto delicado.

A minha infância foi regada a gritos e troca de ofensas, meu pai era um homem egoísta, que vivia para o trabalho, nunca o vi sendo carinhoso com minha mãe, nem ao menos o ouvi dizer que a amava. Quando na frente das pessoas, ele se mostrava um marido e pai exemplar.

Talvez soe cruel, mas minha mãe parece mais leve e feliz depois de sua morte, carregar um casamento fracassado nas costas não deve ser nada fácil.

- O que acha de eu levar a senhora para jantar? - pergunto, me apressando em matar o assunto, então me aproximo, segurando seus ombros.

- Não vai me acalmar com um jantar, todas as mulheres no clube devem estar rindo da minha cara por sua causa. - Dá um tapinha em meu braço e eu olho para cima, respirando fundo.

Ela se preocupa demais com o que os outros pensam, de uma maneira exagerada.

- Estou cansada desse tipo de situação, Owen, se continuar dessa maneira, poderá afetar nos negócios da sua empresa. As pessoas não vão querer estar linkadas a você enquanto tem essas atitudes libertinas - diz séria. Saber que ela pode estar certa em parte faz com que eu me mantenha em silêncio. - Não vou falar o que quero, pois você já sabe...- ela pretende continuar com o sermão.

- Vou dar um tempo da farra - a interrompo, mentindo e dando uma risadinha.

Vou ser o mais discreto possível, tentando não me envolver com popstars ou modelos que vivem na mídia.

Agora, ser celibatário? Jamais.

- Onde gostaria de jantar? Que tal o restaurante da Dona? - Enlaço seu ombro.

Dona é uma transa esporádica, posso dizer que é uma grande amiga, temos a mesma idade e, assim como eu, ela tem aversão a relacionamentos, também é uma frequentadora assídua da Fallout

- Aquela moça é muito irritante - diz, erguendo o rosto.

- Ela quer ser sua amiga, mamãe - rio.

- Ela força a barra - bufa.

- Mas é uma excelente Chef - afirmo.

- Isso não posso negar - concorda.

- Pode ne emprestar um dos motoristas hoje? - pergunto, abrindo a porta e fazendo um floreio para ela passar.

- Por que precisa de motorista? Você odeia que dirijam para você. - Ergue a sobrancelha.

- Vou sair para beber com o Chris e você sabe do meu problema com taxi e carros de aplicativo - minto.

Ela não podia sonhar que eu iria até a Fallout para ter uma noite regada a muita bebida e sexo, ainda mais depois da sua lição de moral.

Estela

Depois de alguns meses em São Francisco, eu já deveria ter me acostumado com a cidade, com os becos frios e úmidos e com os prédios abandonados, quase desabando sobre minha cabeça.

Andei por vários bairros, mas acabei voltando para o lugar onde encontrei Ares - esse foi o nome que escolhi para o cachorrinho que virou meu melhor amigo. - Eu amava ler sobre mitologia grega e, desde então, me encantei pelo nome do deus da guerra, e o nome combina perfeitamente com meu garoto que, desde que o encontrei, ele é guerreiro e me proteje.

O bairro aonde o encontrei é menos movimentando e, como já estou familiarizada, posso me esconder em algum beco caso seja necessário.

Tentei, por algumas semanas, conseguir um emprego, mas eu devia saber que ninguém estaria muito a fim de contratar alguém em uma situação como a minha. Ir nos lugares com roupas maltrapilhas, sujas e com um Ares a tiracolo não contribuiu a meu favor.

Até que desisti e aceitei meu destino, pelo menos eu tinha Ares comigo, ele era minha maior alegria em meio a uma vida tão ferrada, minha família inteira, eu cuidava dele e ele cuidava de mim, ele já tinha me protegido algumas vezes, quando alguns idiotas tentaram se aproximar ao perceberem que sou uma mulher.

E por ele eu faria qualquer coisa, até mesmo algo que eu achava que não seria capaz de fazer nunca.

Comer restos do lixo poderia me deixar doente e quem cuidaria dele se isso acontecesse? A minha pequena bola de pelos também precisava comer.

Por isso, comecei a praticar pequenos roubos, nada que poderia afetar alguém, na maioria das vezes, supermercados, mas acabei sendo descuidada e quase fui pega, o idiota do segurança ainda ameaçou chamar a carrocinha para pegar meu bebê.

- Idiota! - resmungo, olhando para Ares andando ao meu lado, em sua coleira improvisada feita de cadarços.

Agora preciso me arriscar mais, tendo que bater carteiras, sou péssima nisso e, na maioria das vezes, acabo me atrapalhando e dá tudo errado, também me sinto culpada, tento ao máximo escolher pessoas que sinto que o dinheiro não fará falta, também sou cuidadosa o suficiente para não tentar usar cartões de crédito.

Tenho tido sorte, esbarrando em alguns riquinhos bêbados quando saem de uma casa noturna luxuosa e de fachada modesta, quando o manobrista ou o segurança se distraí.

Nos últimos dias, descobri, ouvindo algumas conversas por ali, que o lugar não é só uma casa noturna, também se trata de um clube de sexo, não posso negar que é um excelente disfarce, porque isso jamais passaria pela minha cabeça, existir algo assim em tal lugar.

O lugar fica perto do galpão onde tenho passado as últimas noites.

Sei que o dinheiro não fará falta e, na maioria das vezes, eles estão bêbados demais para perceberem que foram roubados, então consigo correr sem ser pega.

Meu último centavo usei para comprar comida para Ares e acabei ficando sem comer nada, agora parece que tem um buraco cheio de brasas em meu estômago, por ficar quase dois sem engolir nada além da minha saliva.

A noite está mais fria devido à chuva torrencial que caiu durante o dia, as ruas ainda estão molhadas, meus pés estão doloridos por causa do tênis enxarcado e, pelo tanto que estou espirrando e sentindo dor na minha cabeça, provavelmente ficarei resfriada.

Olho para os lados e atravesso a rua. Não há muitos carros estacionados na frente do tal clube, me escondo em um beco apertado, que separa o lugar do prédio ao lado.

- Logo vamos comer, está bem? - digo.

Seus olhinhos brilham e ele late em resposta. Ajeito o cabelo preso no boné e coloco o capuz do moletom.

Noto um carro grande e preto parar em frente à entrada e, em seguida, um homem trajando um terno preto desce e vai em direção à porta traseira, abrindo-a.

Um outro homem, bem alto, desce dobrando a manga da camisa branca, ele olha para os lados, parecendo desconfiado e, mesmo longe, consigo ter um vislumbre de suas feições quando passa pela luz de um poste.

É o homem mais bonito que já vi.

Capítulo 2 Dois

Owen

Aperto as têmporas, olhando para os prédios iluminados dentro do carro em movimento, minha cabeça está começando a doer já que minha mãe tagarelou durante todo o jantar e ainda me obrigou a deixá-la em casa antes de seguir com o motorista, não ousei argumentar, já que não estou em uma posição favorável com ela.

Dei uma passada rápida no meu apartamento, tempo suficiente para tomar um banho e fugir de alguns urubus da imprensa, procurando alguma coisa para ferrar ainda mais com minha imagem.

Recebi vários directs no meu instagram, perfis de fofoca querendo apurar os fatos com relação à famigerada foto e alguns xingamentos vindos de adolescentes, o que me fez rir. Eu estava decidido a não lidar com isso, deixaria com Silvya e Evelyn a contratação de uma empresa de Relações Públicas, uma que pudesse gerenciar toda essa crise e abafar o caso.

Não me importava com o que falavam a meu respeito, lido bem com o rótulo de cafajeste e até gosto disso, mas também sei que isso pode me prejudicar nos negócios, então a melhor solução é empurrar toda essa sujeira para debaixo do tapete.

Nolan deve estar se vangloriando e rindo agora, só por eu estar enfiado nessa merda.

Maldita hora que fui me envolver com essa mulher.

Meus músculos estão tensionados a ponto de doerem, nem as mudanças de treino na academia os deixam assim., talvez eu precise usar essa merda de exposição para aprender a ser mais discreto e diminuir um pouco da bebida ao sair para me divertir.

O ponto positivo da Fallout é ela ser uma casa discreta, nada de bairro de luxo e muito menos uma fachada chamativa, pelo contrário, o lugar fica em um bairro industrial, cheio de becos e longe do centro da cidade, qualquer um que passe em frente ao clube jamais imaginaria o tipo de orgia que rola ali.

Eu gosto de lugares onde ninguém pertence a ninguém, e os fetiches mais absurdos podem ser realizados sem nenhum julgamento. No começo, eu tinha um certo receio, mas depois de conhecer bem esse mundo, passei a gostar mais do que deveria.

E tudo o que eu preciso para hoje é foder o máximo de bocetas que eu conseguir, só para tirar toda a tensão desse dia bosta.

Passo os dedos pelos fios de cabelo enquanto observo meu reflexo no vidro traseiro do carro. Talvez eu seja um pouco exagerado em relação à minha aparência, até um pouco narcisista, mas qualquer um que visse uma foto minha na infância entenderia meus motivos.

Eu era um garoto gordinho, bochechas muito grandes, óculos de grau bem grossos por causa da miopia, eu andava sempre de cabeça baixa e tinha pavor de me olhar no espelho. Não tinha amigos na escola e, na maioria das vezes, era chamado por apelidos cruéis, como: chupeta de baleia, elefante quatro-olhos, hipopótamo nerd, e outros que nem me lembro.

Sem falar das vezes em que me batiam gratuitamente, me trancavam nos armários e não perdiam a oportunidade de estragar minhas coisas.

Depois de um certo tempo, passei a ficar todo o recreio trancado em um dos banheiros, chorando e torcendo para que eu não fosse encontrando. Não tinha ninguém ali para me defender e quando meu pai descobriu tudo, depois de eu levar uma surra e ter meus óculos quebrados, ele somente disse "Você não passa de um moleque gordo e covarde!".

Ouço sua voz na minha mente como se ele estivesse dizendo nesse exato momento. Nenhum soco ou xingamento dos garotos do colégio doeu tanto quanto ouvir isso do meu pai.

Mudar de escola e conhecer Chris, Petter e Wesley foi a melhor coisa que me aconteceu, pela primeira vez eu tive amigos, amigos de verdade, que não se importavam de ter um menino gordo e que mal sabia praticar algum esporte por perto, eles foram peça-chave para o meu despertar.

Sinto falta de nós quatro juntos...

Petter foi laçado e hoje mora no Sul do Brasil com sua amada, Wes está viajando pela Europa, em um ano sabático, mas por sorte tenho Chris grudado a mim, ele e eu sempre fomos mais próximos, mas agora ele é quase um homem casado e estou sem companhias confiáveis para me divertir.

Percebo que estamos nos aproximando do clube, então tiro o cinto de segurança e confiro as mangas dobradas da minha camisa enquanto Hugo estaciona o carro e sai antes que eu abra a boca para dizer que não preciso que ele abra a porta para mim.

- Não precisava - digo ao descer e ele dá um sorrisinho fechado.

Olho ao redor, conferindo se não tem ninguém por perto, a quantidade de repórteres em frente ao meu prédio me deixou apreensivo. Tenho a sensação estranha de estar sendo observado, então olho para os lados novamente, não há ninguém na rua além do único segurança com cara de poucos amigos na entrada da Fallout

- Não precisa estacionar lá dentro, não que tenha problemas com Linda, mesmo sem ela imaginar o lugar para onde teve que me trazer - Dou um tapinha em seu ombro e ele dá uma risadinha.

- Melhor não correr o risco, sabe como minha mulher é. - Volta a rir.

Hugo e a esposa trabalham para minha família há um bom tempo, Linda é governanta e Hugo é o chefe de segurança da mansão, vez ou outra me ajuda sendo meu motorista, e conhecendo minha mãe, ele fez questão de me trazer hoje só para me espionar.

Hugo é discreto, mas em compensação, Linda é uma bela de uma fofoqueira.

- Obrigado, Hugo, não posso prometer que não irei demorar.

- Fique tranquilo, senhor Owen, divirta-se - diz com um sorriso amistoso nos lábios.

Assinto, indo em direção à entrada do lugar e dando boa noite para o segurança, pronto para algumas horas do que o clube tem melhor, sexo sem pudor.

Depois de foder uma loira gostosa enquanto o marido dela olhava, senti boa parte da tensão se esvair, mas depois fui incomodado por uma sensação estranha, algo inexplicável, um sentimento de vazio.

Disposto a ignorar isso, diminui o intervalo entre as doses de whisky, mas tive a impressão de que o álcool fez essa coisa estranha dentro de mim se intensificar. O que me preocupa é que não é a primeira vez que esse sentimento me invade e eu não gosto disso, odeio me sentir assim.

Olho para o redor e percebo que sou o único que não está aproveitando como deveria.

- Acho que já deu por hoje - digo, virando a bebida de uma vez.

Pego meu cartão, me aproximando da saída, dormir seria o melhor que eu poderia fazer por mim, então passo pela porta que entrei, sentindo alguns pingos de chuva me acertarem. Paro por alguns segundos, olhando para o céu coberto e vejo apenas escuridão.

Ouço um latido e olho para o lado, vendo um homem - não um homem, está mais para um garoto. Mesmo de longe, consigo ver de relance seu rosto, seu corpo é magro e franzino - segurando um cachorro de porte médio, no que parece ser uma coleira.

A ausência do segurança faz com que eu acelere meu passo até o carro, então vejo a porta da frente ser aberta e Hugo se apressa em vir abrir a porta traseira para que eu entre. Balanço a cabeça, rindo de sua teimosia.

Antes que eu chegue até o carro, sinto o corpo magro do garoto chocar contra o meu e o cheiro forte que vem dele me incomoda. Ele não pede desculpas e o vira-lata, que segue o seu dono fielmente, me mostra os dentes, dando um rosnado.

- Owen, é melhor verificar seus bolsos, isso pareceu algo proposital - Hugo diz, se aproximando. Pisco rapidamente, passando as mãos pelos bolsos.

- O filho da puta roubou minha carteira...- falo, arregalando os olhos e vendo o garoto correr, entrando em um beco e sendo seguido pelo cachorro.

Não me preocupo com o dinheiro que tem na carteira ou com os cartões de crédito, o cartão magnético de acesso do meu prédio e apartamento é o que me preocupa, só quero ir para casa e dormir, e não resolver problemas com a segurança do prédio ou ter que ir até a polícia.

Quando faço menção de correr atrás do trombadinha, Hugo me impede.

- Pode ser perigoso, deixe que eu vou - fala, correndo na direção em que o garoto foi, mas sem pensar duas vezes, o sigo, indo um pouco mais devagar.

Antes que eu dobre a esquina e entre no beco, Hugo surge, agarrado ao garoto.

- Me solta, me solta, eu não fiz nada - a voz é fina demais, mas seu rosto está parcialmente coberto pelo capuz do moletom.

Um rosnado me faz olhar para baixo, vendo o cachorro agarrado ao tecido da calça de Hugo.

- Não vou soltá-lo, devolva a carteira que posso pensar em não chamar a polícia - Hugo fala, sacudindo a perna onde o animalzinho segue irredutível.

- Seu desgraçado, filho da puta - grita, balançando o corpo para se soltar.

Em um movimento abrupto, na intenção de mostrar que está no controle, Hugo arranca o capuz e, junto com ele, uma toca de lã, revelando cabelos castanhos longos, que caem sobre os ombros...

Então ele ergue o rosto e dou um passo para trás, surpreso.

Não é ele, é ela. Uma mulher...

Seu rosto, mesmo sujo, tem traços delicados e talvez eu possa dizer que ela é bonita.

- É... é uma mulher - digo embasbacado e Hugo arregala os olhos, então vejo o rosto dela empalidecer, seus olhos fecharem e seu corpo desfalecer.

Hugo percebe e a segura, impedindo-a de cair no chão.

Ouço um rosnado mais alto e olho para baixo, vendo o cachorro marrom grudado na barra minha calça.

Capítulo 3 Três

Owen

A mulher permanece inconsciente, na verdade, está mais para uma garota.

Ela é pequena demais.

Hugo me olha assustado, como se procurasse uma solução.

- Ei, garota, acorda! - Hugo fala, sacudindo-a e a pegando no colo em seguida.

Vejo minha carteira cair no chão e me apresso em pegá-la, mas a garota não se move.

- Ela desmaiou, não está fingindo - confirma, olhando para a ela, então me aproximo, fitando seu rosto sujo com algo que parece fuligem.

Como ela chegou nessa situação?

Seria menor de idade?

Por um momento, esqueço que a pilantra me roubou e sinto algo que se assemelha a pena, algo que não consigo explicar.

- Devemos chamar a polícia? A ambulância? - me pergunta.

Au au...

O animalzinho rosna e late, sem soltar o tecido da minha calça, enquanto isso os pingos caem mais espessos, nos molhando.

- Não vou envolver a polícia, ela é só uma garota. - Me volta a mente seu olhar assustado.

Encaro novamente seu corpo desfalecido, suas roupas maltrapilhas estão imundas e o tênis que usa está remendado com fita adesiva, olho para suas mãos pequenas, notando que estão pele e osso, então sou invadido por uma sensação estranha, uma que se assemelha a um soco no estômago.

Não quero acreditar que ela vive nas ruas.

Não quero imaginar o motivo para essa garota chegar nessa situação.

- Não podemos ficar aqui - Hugo afirma, negando com a cabeça.

Fazia muito tempo que eu não me sentia assim, sem ter a mínima ideia do que fazer de imediato, mas a chuva não me permitia pensar, ficando ainda mais forte.

- Leve ela para o carro antes que fiquemos ensopados - ordeno.

Todo whisky que bebi parece estar batendo com força agora, é como se eu não conseguisse raciocinar de maneira correta.

- Mas ela acabou de roubá-lo, não seria melhor... - Franzo as sobrancelhas, olhando para ele. - E se ela tiver alguns comparsas?

- Não acho que ela possa ter alguém a ajudando, ninguém além do vira-lata. - Aponto para o cachorro. - Vamos, leva-a para o carro e pensarei no que fazer.

O cachorro solta a minha calça e começa a latir desesperado enquanto pula, tentando alcançar o corpo desfalecido da garota, impedindo Hugo de se mover. Seu latido se mescla com um som que lembra muito um choro de lamento.

Não tinha dúvida alguma de que a garota era dona no bichinho e que ele estava consternado, tentando defendê-la.

- Ei, garoto...Vem aqui! - Tento me aproximar dele, me abaixando. É nítido que ele não vai deixá-la para trás. Ele rosna, me mostrando os caninos em posição de ataque. - Ela é sua dona? - sou idiota o suficiente para perguntar, achando que ele me daria alguma resposta.

Au au!

Ele late e volta a rosnar.

Posso ver em seus olhos escuros, como também em seu pelo arrepiado, o quanto ele está assustado. Eu não sou um canalha a ponto de deixá-lo aqui e, do jeito que ele é valente, me arrancaria um órgão se eu o fizesse.

- Sua dona não está bem, então vou levá-la para cuidar dela, então vai ficar tudo bem. Você pode acompanhá-la, mas preciso que mantenha seus dentes longe de mim. - Rio.

Eu estou agachado no chão, debaixo de chuva, falando com um cachorro que quer arrancar meu braço.

Ele late, como se tivesse entendido cada palavra dita por mim.

- Eu posso segurar isso? - pergunto, apontando para a guia improvisada com cadarços que está presa em sua coleira.

- Não estou acreditando no que estou vendo - Hugo fala, vendo o cachorro dar passagem.

Seguro a guia do animal, que segue Hugo quase correndo, enquanto eu tento acompanhá-lo.

Não vou tentar entender que merda acabou de acontecer, ou o que ainda vai acontecer, por hora eu quero entrar no carro e parar de me molhar. Olho para trás, vendo a garota ainda apagada no banco de trás, o cachorro está grudado a ela, às vezes ele lambe sua bochecha, como se quisesse acordá-la.

Um odor forte invade o interior do carro e não sei se vem do cachorro ou da garota, ou dos dois, mas o que me incomoda é pensar há quanto tempo essa menina está nas ruas sem tomar um banho digno.

E o soco no estômago vem forte.

Estive, por tanto tempo, preocupado em ganhar dinheiro e fazer um nome, que em momento algum parei para olhar o quanto todo esse mundo do glamour e dinheiro é uma merda, enquanto os menos afortunados são ignorados.

São Francisco é umas das cidades mais ricas do país?

Como eu pude me cegar de tal forma?

Viro meu rosto, olhando o limpador passar de um lado para o outro no para-brisas. Ainda chove e, conhecendo bem essa cidade, a temperatura deve ter despencado e nas ruas deve estar congelando.

Se ela não estivesse apagada no banco traseiro, onde ela dormiria?

Engulo em seco.

- Tem certeza de que quer fazer isso? - Hugo pergunta, olhando para frente.

- Se a levarmos para o hospital, quem garante que não irão envolver a polícia? - Ele não responde. - Você, melhor do que ninguém, sabe disso - completo.

Se eu aparecesse com a garota no hospital, é claro que alguém daria com a língua nos dentes, e dada a minha atual situação, logo toda a mídia estaria envolvida e, pelas circunstâncias em que a garota se encontra, não demoraria para a polícia aparecer, não posso arriscar.

Quero me socar por ter me envolvido com aquela cantora.

Avisto meu prédio e, em poucos minutos, Hugo estaciona em uma das minhas vagas. Não entendo por que me sinto responsável por uma garota que nem sei o nome e que, ainda por cima, me roubou.

Desço do carro, abrindo a porta traseira e vendo Hugo fazer o mesmo. Ele faz menção de pegá-la no colo e o cachorro rosna.

- Eu a levo - digo, vendo a expressão de surpresa. Entro com cuidado, a pegando no colo e prendendo a respiração para não sentir o cheiro que vem dela e do cachorro. - Leve o Totó.

O animalzinho late, como se tivesse odiado ser chamado de Totó.

- Confira se o elevador está vazio e leve as coisas dela. - Aponto para a mochila suja e remendada que Hugo tirou de suas costas antes de deitá-la sobre o banco do carro.

Enquanto a seguro, consigo ver melhor seus traços, os olhos fechados possuem cílios longos e negros, as sobrancelhas são naturalmente bem desenhadas e a boca, mesmo sem cor alguma, se destaca pelo formato de coração. Mesmo com o rosto manchado de sujeira, seus traços delicados ficam em evidência.

Mas que merda eu estou fazendo?

- Está limpo - Hugo, segurando a guia improvisada do animalzinho, mantém uma expressão apreensiva no rosto.

Entramos no elevador e permanecemos em silêncio até pararmos no andar correto, então entro no meu apartamento e coloco a garota deitada no sofá. A primeira coisa que o vira-lata faz ao entrar na minha sala, é mijar em todos os lugares possíveis, depois se deita ao lado da sua dona no sofá.

- Pode ir, Hugo! - falo, vendo-o apoiar a mochila em uma das poltronas.

- Tem certeza? Vai conseguir resolver isso? - pergunta, se referindo à garota e ao cachorro.

- Vou ligar para Evelyn, ela vai saber o que fazer. Mulheres se entendem, não é? - Dou de ombros e ele me encara, fazendo menção de dizer algo, mas desiste.

- Como desejar. Tenha uma boa noite, Owen.

- Boa noite, Hugo, desculpe pela bagunça que te enfiei, e se você não contar...

- O que aconteceu para sua mãe? - me interrompe. - Fique tranquilo, ela não vai saber de nada, se depender de mim. Só resolva essa questão da melhor maneira e o mais rápido possível. Não deixe o problema duplicar de tamanho. - Olha para a garota apagada no sofá e o cachorro se levanta e rosna.

- Pode deixar, Hugo, muito obrigado e boa noite - digo, abrindo a porta para que ele saia rápido. - Tchau e não dê com a língua nos dentes, vou fazer uma transferência em agradecimento. - Praticamente empurro o homem para fora.

Mal fecho a porta e já alcanço meu celular, discando o número de Evelyn. Não vou nem pensar em sua reação, só preciso que me ajude com a garota, e é melhor que ela veja um rosto feminino quando acordar.

E ela precisa acordar logo, o fato de estar há tanto tempo apagada começa a me preocupar. Nunca fiquei tão feliz por ter Evelyn morando no mesmo prédio que eu como agora.

Chama duas vezes e a filha da mãe desliga na minha cara. Tento mais uma vez, e ela desliga novamente, mas na terceira tentativa, ela atende.

- SEU FILHO DE UMA PUTA, VOCÊ VIU QUE HORAS SÃO? - grita com tanta raiva que afasto o aparelho da orelha.

- Não faço a mínima ideia - respondo.

- Eu vou te matar, Owen, eu vou te matar...-repete entredentes.

- Pode me matar depois, mas agora preciso que venha até o meu apartamento - peço, me virando para o sofá e vendo o cachorro me olhar de uma forma estranha.

Parece que esse bicho está querendo enxergar minha alma.

- Eu estou dormindo, Owen, não vou até seu apartamento - reconheço sua voz debochada.

- Eu estou com problemas, pode vir, por favor? - peço.

- Claro que está com problemas, você me acordou, seu filho da mãe - diz irônica.

Respiro fundo, apertando a têmpora.

- Eu te compro aquela pulseira que tanto quer, e mexo uns pauzinhos para você ir ao camarim da Lady Gaga no próximo show dela, só venha logo, Evelyn - digo firme.

Ela desliga o telefone e não me preocupo, pois sei que atingi seu ponto fraco.

Três minuto depois, escuto minha campainha, abro a porta e ela surge em minha frente, usando um pijama com estampa do Pikachu, e algo que parece uma touca na cabeça, mas visivelmente irritada.

- Que cheiro é esse? Tem algum bicho morto aqui? - Passa por mim como um raio. Escuto o cachorro latir e, em seguida, um grito vindo de Evelyn. - Que merda você fez, Owen? - ouço-a dizer assim que entro na sala, a vejo se abaixar para se aproximar do cachorro.

O cachorro não rosna ou mostra qualquer resistência, na verdade, ele se aproxima de Evelyn e lambe sua mão.

Mas é um safado!

- Você é um bom garoto! - Afaga a cabeça do animalzinho e ergue o corpo, se voltando para mim. Ela respira fundo, buscando manter a compostura e não me esganar. - Por que tem uma garota apagada no seu sofá? Não, não responda, eu não sei se tenho saúde mental o suficiente para saber o tamanho da merda onde se enfiou. - Apoia a testa sobre a mão.

- Seja lá o que estiver passando na sua cabeça, não é nada disso.

O barulho do cachorro brincando com umas das almofadas chama nossa atenção, fazendo-nos olhar em sua direção.

- De onde veio o cachorro? - pergunta. - Que cheiro horrível!

Coço a cabeça, me questionando se ligar para Evelyn foi a melhor escolha. Ela se aproxima do sofá, olhando a garota de perto.

- Meu Deus, ela está drogada! - Tira a própria touca, a que prendia seus cabelos pretos, e se vira para mim.

- Não... Que merda Evelyn! - Arregalo os olhos - Acha que eu drogaria alguém? - pergunto, me sentindo ofendido.

Que tipo de pessoa ela pensa que eu sou?

- Desculpa, Owen, não foi isso o que quis dizer, mas porra... Tem uma garota apagada no seu sofá. - Volta a se aproximar da garota visualmente nervosa.

- Olha, Evelyn, se acalme, ela só está desmaiada.

Ela ergue o corpo, fungando.

- Esse cheiro está vindo dela? - Faz uma careta - Ela está fedendo - sua afirmação, apesar de verdadeira, me incomoda.

- Ela vive nas ruas, pelo menos é o que parece. Acho que não tem acesso fácil a um chuveiro - digo com ironia. Evelyn arregala os olhos, cobrindo a boca com as mãos. - Você pode me deixar explicar? - peço.

- Claro... - Ela assente, balançando a cabeça e olhando para a garota com um certo pesar.

- Eu estava saindo da Fallout e ela esbarrou propositalmente em mim, roubou minha carteira, então Hugo e eu corremos atrás dela para pegar de volta, minha chave estava lá, mas assim que Hugo a alcançou, ela desmaiou. Eu não encostei nela. - Respiro fundo e aperto minhas têmporas. - Devido à sua situação, imagino que viva nas ruas e pratique alguns roubos. A propósito, o vira... - Evelyn me olha feio - o cachorro que está prestes a destruir a almofada, é dela.

Ela me encara com a boca aberta, aparentemente tentando absorver o que acabo de dizer.

- Meu Deus! Por isso ela está tão suja e parece tão magra. Pobrezinha...- Seus olhos ficam marejados. Evelyn tem um coração gigante e eu sabia que agiria assim.

- Antes que me pergunte, eu quis trazê-la para cá porque, se eu aparecesse com ela em um hospital, alguém falaria algo e, sabe se Deus o que a mídia iria dizer, até porque estou quase sendo o homem mais odiado da América por causa de Lindsey - bufo.

Evelyn toca o rosto da garota e em seguida confere seu pulso.

- Os batimentos dela parecem fracos. Droga, eu não entendo dessas coisas! - diz preocupada. Me aproximo das duas, ignorando a almofada sendo destruída pelo projeto de Taz-Mania[i] - Ela não acordou nenhuma vez? Não se mexeu? - pergunta, olhando para mim.

- Não.

- Pega um pedaço de pano e um pouco de álcool - pede e eu a encaro sem entender. - Para de me olhar com essa cara de paspalho e traz logo o que pedi - ordena, com o semblante duro.

Me apresso, indo até a cozinha e pegando um guardanapo e um vidro com álcool, entregando para ela assim que volto para a sala. Evelyn abre o vidro e encharca o guardanapo com álcool.

- O que vai fazer?

- Vi isso em uma série, tomara que funcione - diz, colocando o guardanapo encharcado próximo ao nariz da garota.

Tenho um insight vendo a cena e me sentindo um idiota por não ter pensado nisso. Me aproximo, mantendo os olhos fixos no rosto do meu novo problema.

Suas pálpebras tremem, me fazendo acreditar que a ideia de Evelyn está dando certo, então seus olhos se abrem, me dando o vislumbre de duas esferas azuis perfeitas.

Talvez sejam os olhos mais lindos que já vi na vida, talvez não, eles são os olhos mais lindos que já vi.

Meu coração dá um salto quando ela ergue o corpo rapidamente, quase atingindo meu rosto com a cabeça. Dou alguns passos atrapalhados para trás e ela abraça as pernas, olhando ao redor, visivelmente assustada.

- Onde estou? - sua voz é fraca e o cachorro pula no sofá, sentando-se de frente para ela enquanto a cheira. - ONDE ESTOU?! - seu grito inesperado assusta Evelyn, que se afasta.

O cachorro começa a latir, se virando para nós. Ela olha fixamente para mim, com o semblante assustado.

- Você...você... - Se esforça para se levantar, olhando ao redor.

Ela fica de pé, mas cai sentada em seguida, e o cachorro late mais alto. A garota passa as mãos pelos braços e pernas, como se procurasse algo, ou conferindo suas peças de roupa. Consigo notar suas mãos tremendo.

- Ei, calma...- Tento me aproximar e ela salta até estar do outro lado do sofá.

- Fique longe de mim. - Ergue a mão e o cachorro me mostra os dentes.

Ela volta a tocar suas roupas e passo a mão pelos cabelos, então olho para Evelyn, que parece estar exatamente igual, sem saber como agir.

- A gente vai embora daqui, Ares - diz, se levantando com dificuldade, mas agora conseguindo ficar de pé.

Ares, esse é o nome do cachorro.

Não posso deixar de notar o quanto sua voz é doce, mesmo com ela falando tão seriamente.

A garota olha ao redor e vê sua mochila, estica o braço, pegando-a e colocando nas costas com uma certa dificuldade, em seguida ergue o rosto, olhando fixamente para mim.

- Escuta, cara, eu não sei como vim parar aqui e não quero explicações, só quero ir embora... - suspira, olhando para o cachorro, que lambe sua mão. - Eu peguei sua carteira porque vi que você era cheio da grana e pensei que não ia fazer falta, eu não como nada há dias e só ia comprar comida. - Ouço um murmúrio vindo de Evelyn. - E você já a pegou de volta, não tem por que me prender aqui, me deixa ir embora, por favor, e você nunca mais vai me ver - sua voz é embargada.

A última frase dita por ela faz uma sensação estranha crescer dentro de mim.

Que porra está acontecendo?

- Por favor, cara, eu não quero problemas... Me deixe ir embora, por favor? Eu imploro, não me faça mal - pede e vejo uma lágrima descer em seu rosto sujo.

Ares dá um chorinho e late em seguida. É como se ele pedisse por ela.

Ouço os barulhos da chuva forte batendo nos vidros da janela. O que deixa claro que está fora de cogitação eu deixá-la sair daqui.

Jamais faria mal algum a ela, sinto uma necessidade estranha de vê-la bem, e para que isso aconteça, preciso dela aqui.

- Oi, eu sou Evelyn - Minha amiga se aproxima dela e a vejo dar um passo para trás. - Você desmaiou e Owen trouxe você para a casa dele, mas só porque ficou preocupado. Ninguém aqui vai te fazer mal.

- Sim...- Respiro aliviado por Evelyn estar tomando as rédeas da situação, se eu estivesse aqui sozinho, tenho certeza de que seria ainda pior.

- Nós só queremos ajudar você, não precisa se preocupar - a voz de Evelyn é calma e compassada.

A garota parece baixar um pouco a guarda, mas isso muda no instante que olha para mim.

Não é um simples olhar, ela tem medo nos olhos.

- Eu não preciso de ajuda - diz, se voltando para Evelyn.

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