Meu marido, Arthur, era a âncora bonita e estável na minha vida como influenciadora de moda. Seu único defeito? Ele era hilariamente péssimo com uma câmera. Ou era o que eu pensava, até que uma foto viral o expôs como Chiaroscuro, um fotógrafo lendário que desapareceu anos atrás por sua musa, Isadora.
No nosso aniversário, enquanto eu estava secretamente grávida, ele me abandonou para salvar o desfile de retorno dela.
Ele não ligou para saber como eu estava, mas para exigir que eu enviasse minha câmera de 75 mil reais - um presente dele - para ela usar.
"É um desperdício para seus videozinhos de influencer de qualquer maneira", ele disse, com a voz vazia.
Suas palavras me destruíram enquanto eu estava sentada sozinha em uma clínica, tendo acabado de perder nosso bebê.
Ele desligou. O som da linha ocupada zumbia na sala silenciosa. Eu não era apenas um tapa-buraco; eu era uma ferramenta.
Olhei para o meu celular, onde o número da minha advogada já estava salvo, e disquei.
Capítulo 1
Ponto de Vista de Helena Wallace:
Minha vida como influenciadora de moda, com quase um milhão de seguidores, parecia um sonho perfeitamente curado. Eu a construí do zero, cada costura, cada pose, cada edição de madrugada. Meu marido, Arthur, era a âncora estável e bonita nesse sonho, mesmo que ele fosse hilariamente, espetacularmente péssimo com uma câmera. Ou era o que eu pensava.
"Amor, meu rosto está literalmente se misturando com o fundo", suspirei, ajustando o lenço de seda pela décima vez.
Arthur olhou pelo visor, a testa franzida em uma caricatura de concentração. "É... artístico? Tipo, um clima de foco suave."
Deixei o lenço cair, deixando-o se acumular em volta dos meus ombros. "Está borrado, Arthur. Parece que tirei essa foto com os pés."
Ele abaixou a câmera, um sorriso sem graça se espalhando por seu rosto. "Ok, talvez um pouco borrado. Mas seus pés são muito talentosos, meu bem."
Eu o amava. De verdade. Seu trabalho corporativo, sua presença constante, sua aparente incapacidade de capturar qualquer coisa além de borrões abstratos quando eu precisava de uma foto nítida para uma parceria de marca. Era cativante, parte de seu charme. Meu lado pragmático sempre apreciou sua vida estável e sem glamour. Isso me mantinha com os pés no chão.
"Só fica parado por um segundo, por favor", implorei, tentando angular meu celular e capturar a luz eu mesma. "Estamos perdendo a golden hour."
Ele deu de ombros, vindo para se apoiar em mim, seu braço envolvendo minha cintura. "Meu trabalho é parecer bonito ao seu lado, não operar a câmera."
Uma onda de afeto, misturada com uma frustração familiar, me invadiu. Eu aprendi a confiar na minha própria equipe, nas minhas próprias habilidades. Suas tentativas desajeitadas se tornaram uma piada interna, um testemunho de como nossos mundos eram diferentes.
Mais tarde naquela noite, depois de outro longo dia de fotos com meu fotógrafo de verdade, eu rolava meu feed. Uma foto espontânea de Arthur e eu, tirada por um fã em uma gala de caridade, tinha viralizado. Era, na verdade, uma foto decente, capturando um momento raro e desprotegido de nós rindo.
Meu dedo pairou sobre os comentários. Normalmente, eles eram fofos ou, ocasionalmente, um pouco sarcásticos sobre minha roupa. Mas hoje à noite, algo parecia diferente.
"Helena Wallace e o maridão são fofos, mas sério, esse cara tem um olhar intenso."
"Esses olhos! Ele parece que poderia olhar dentro da sua alma e capturá-la em filme."
"Espera um minuto... mais alguém acha que ele parece familiar? Tipo, muito familiar?"
Meu estômago se revirou. Familiar? Arthur era uma pessoa reservada. Ele odiava estar no centro das atenções.
Então, um comentário que me atingiu como um soco: "Puta merda, esse é o CHIAROSCURO! O lendário fotógrafo indie que desapareceu há cinco anos! Ele se aposentou no auge da carreira."
Chiaroscuro. O nome enviou um arrepio pela minha espinha. Eu conhecia aquele nome. Todos no mundo da moda conheciam. Um fantasma, um gênio, um artista cujos retratos em preto e branco definiram uma era, capturando emoção crua com uma intensidade assombrosa. Ele era conhecido por sua natureza elusiva, sua arte apaixonada e sua musa, Isadora Roth.
Mais comentários surgiram, uma torrente de revelações.
"Chiaroscuro?! Impossível! Eu lembro do trabalho dele. Tão intenso. Tanta profundidade."
"Ele era obcecado pela Isadora Roth, aquela supermodelo. Cada foto era uma carta de amor para ela."
"Ele simplesmente sumiu depois que ela estourou. Disse que não conseguia fotografar mais ninguém depois dela. Que dedicação."
Agarrei meu celular, meus nós dos dedos brancos. Meu marido. O homem que não conseguia focar uma lente para salvar a própria vida. Chiaroscuro. Não podia ser. As duas imagens simplesmente não batiam.
Mas os comentários continuavam chegando, pintando o retrato de um homem que eu não conhecia. Um homem consumido pela paixão, pela arte, por outra mulher.
"Ouvi dizer que ele desistiu da fotografia completamente por causa dela. Disse que sua 'luz' se foi quando ela partiu."
"Ele sacrificou tudo pela carreira dela. Ajudou-a a chegar ao topo e depois foi embora."
Minha cabeça girava. Isso não era apenas sobre seu talento secreto. Era sobre uma vida secreta, um coração secreto. Todas as piadas sobre sua incompetência, todas as vezes que ele se recusou a fotografar meus projetos cruciais, dizendo que "simplesmente não tinha o olho para isso". Era tudo mentira. Uma mentira calculada e deliberada.
Uma memória brilhou: a capa de uma revista de luxo de anos atrás. Isadora Roth, seu rosto uma obra-prima de sombras e luz, seus olhos queimando com um fervor quase religioso. O crédito da foto era "Chiaroscuro". Eu admirei a arte, nunca imaginando que o homem por trás da lente um dia estaria dormindo ao meu lado.
Rolei mais para baixo, meus dedos tremendo. Havia links agora, artigos antigos. Entrevistas com Isadora, falando sobre sua "alma gêmea", seu "artista". Posts antigos em fóruns dissecando as últimas exposições de Chiaroscuro, cada peça um testemunho de sua adoração por Isadora. Uma foto em particular, um retrato em preto e branco de Isadora, sua mão estendida, banhada por um brilho suave e etéreo. Chamava-se "Minha Estrela Guia".
Lembrei-me de ter visto aquela impressão uma vez, uma pequena cópia emoldurada guardada em uma caixa empoeirada no antigo escritório de Arthur. Ele a descartou como "algum trabalho antigo da faculdade", uma relíquia que ele não conseguia se desfazer. Ele até chorou uma vez, tarde da noite, segurando aquela mesma foto, murmurando sobre "chances perdidas". Eu, tolamente, pensei que ele estava de luto por sua própria carreira artística, um caminho que ele abandonou com pesar. Eu o confortei, disse que ele era talentoso, que poderia recomeçar.
Mas ele não estava de luto por sua carreira. Ele estava de luto por ela.
Os comentários eram implacáveis, e agora estavam se voltando contra mim.
"Coitada da Helena. Ela não faz ideia."
"Imagina ser casada com uma lenda e ele nem sequer tira uma foto decente de você."
"Será que ela é só um tapa-buraco? Um rebote?"
Minha visão embaçou. Tapa-buraco. A palavra ecoou no meu crânio. Senti uma profunda sensação de estranheza, olhando para o homem na foto viral, seu olhar intenso, suas mãos de artista. Era mesmo meu marido? O homem que fazia meu jantar todas as noites, que falava sobre fusões corporativas, que fingia desinteresse no meu mundo?
Então eu vi. Uma foto de Isadora, tirada por Chiaroscuro. Ela usava um vestido branco solto e esvoaçante, o cabelo preso para trás, um único brinco de pérola brilhando. Era assustadoramente semelhante à roupa que eu usei na semana passada para uma sessão de teste, uma roupa que Arthur escolheu para mim, dizendo que "combinava com minha elegância natural". Minha elegância natural, ou a de Isadora, refratada através de sua memória?
Assim que senti as primeiras lágrimas quentes arderem em meus olhos, Arthur entrou na sala de estar. "Ei, amor, o que foi? Parece que você viu um fantasma." Ele estendeu a mão para mim, a preocupação gravada em seu rosto.
Recuei, puxando minha mão como se estivesse queimada. "Arthur", minha voz era um sussurro trêmulo. "Você vai me fotografar para a campanha 'Mulheres Empoderadas'? É uma oportunidade enorme."
Ele riu, esfregando a nuca. "Helena, você sabe que não consigo. Minhas fotos são sempre terríveis. Você precisa de um profissional para isso." Seu olhar era suave, apologético. O mesmo olhar que ele me deu cem vezes antes.
O celular na minha mão vibrou. Isadora Roth. O nome dela brilhou intensamente na tela.
Os olhos de Arthur se arregalaram, depois se estreitaram quase imperceptivelmente. Ele pegou o celular da mesa de centro. "Com licença por um segundo, amor. Ligação do trabalho." Ele se afastou, para o silêncio do corredor.
Eu escutei, meu coração batendo forte no peito. "Isadora? Está tudo bem?" Sua voz era baixa, carregada de uma preocupação que eu não ouvia dirigida a mim há semanas. "O quê? São Paulo? Um desfile? Seu fotógrafo te deixou na mão?" Ele fez uma pausa, ouvindo atentamente. "Claro. Estarei aí."
Ele desligou, virando-se para mim, o rosto pálido, mas resoluto. "Helena, eu... eu tenho que ir. Isadora precisa de mim. O desfile dela é amanhã, e o fotógrafo dela desistiu."
Meu mundo girou. Amanhã. Nosso aniversário. E ele estava partindo por ela.
"Mas... é nosso aniversário, Arthur", consegui dizer, minha voz quase inaudível.
Ele nem sequer vacilou. Apenas olhou para mim, uma expressão estranha e distante em seus olhos. "Isso é importante, Helena. Ela está em apuros. Você entende, não é?" Ele não esperou por uma resposta. Apenas começou a fazer as malas.
Na manhã seguinte, enquanto eu estava sentada sozinha à mesa da cozinha, o café da manhã de aniversário que eu preparei meticulosamente esfriando, meu celular tocou. Era Arthur. Um choque de esperança, rapidamente extinto por seu tom.
"Helena, escuta", disse ele, a voz seca e impaciente. "Preciso que você me faça um favor. Minha câmera antiga quebrou, e Isadora... ela precisa de uma lente específica. Você tem aquela câmera profissional, a que você usa para suas campanhas, certo? Aquela com as configurações personalizadas?"
Minha mente deu um nó. A câmera que ele me comprou há três anos, um generoso presente de aniversário. "Arthur, é um equipamento de 75 mil reais. E está configurado para as minhas necessidades."
"Apenas me envie. Mande por Sedex 10. O desfile da Isadora é de alto perfil, e ela realmente precisa dela." Sua voz era vazia, desprovida de qualquer calor. "E, honestamente, você nem a está usando em todo o seu potencial. É um desperdício para seus videozinhos de influencer."
As palavras me cortaram. Desperdício para seus videozinhos de influencer. Meu estômago se revirou, um tipo diferente de enjoo agora. Não era apenas sobre uma câmera. Era sobre tudo. Sobre como ele me via. Como ele me valorizava. Como ele nunca me viu de verdade.
Segurei o telefone com tanta força que meus dedos doeram. "Arthur", eu disse, minha voz perigosamente calma. "Você ao menos sabe que dia é hoje?"
Houve uma pausa, uma batida de silêncio que se estendeu por uma eternidade. Então, um suspiro. "Helena, não comece. Estou ocupado. Apenas envie a câmera."
Ele desligou antes que eu pudesse responder. O som da linha ocupada zumbia, um som áspero e zombeteiro na cozinha silenciosa. Minha mão caiu, o celular batendo contra o mármore frio. Minha visão embaçou, não de lágrimas, mas da clareza súbita e nua. Eu não era apenas um tapa-buraco. Eu era uma ferramenta.
Levantei-me, minha mão instintivamente indo para minha barriga. Minha menstruação estava atrasada. Duas semanas atrasada. Eu tinha uma consulta médica esta tarde, uma pela qual eu estava tão animada. Uma surpresa para Arthur. Um futuro.
Agora, meu futuro parecia um deserto árido. Olhei para o café da manhã de aniversário frio, depois para o meu celular, onde o nome de Isadora ainda brilhava no registro de chamadas perdidas.
Minha mão encontrou o pequeno vaso decorativo no balcão, cheio com a única rosa branca que Arthur me deu esta manhã, um gesto de última hora antes de sair correndo. Peguei-o, sentindo os espinhos afiados.
"Não", sussurrei para a sala vazia, minha voz quebrando. "Não, eu não entendo." Peguei meu celular, desbloqueei e digitei um número que havia salvo semanas atrás, um número para uma clínica que pesquisei discretamente. Meus dedos tremiam, mas minha resolução era fria e dura, como gelo. "Preciso de uma consulta", disse ao receptor. "O mais rápido possível."
Ponto de Vista de Helena Wallace:
Minha voz, quando saiu, era um som cru e engasgado. "Arthur, você mentiu para mim. Por três anos. Tudo foi uma mentira."
Ele ficou paralisado no corredor, o celular ainda na mão, o nome de Isadora uma marca em brasa na tela. Seus olhos, geralmente tão quentes e cheios de luz, agora estavam nublados com algo que eu não conseguia decifrar - pânico, talvez, ou um tipo desesperado de arrependimento.
"Helena, por favor", ele começou, a voz baixa, mas eu o cortei.
"Por favor, o quê? Por favor, finja que não está acontecendo? Por favor, finja que não vi um milhão de comentários expondo toda a sua vida secreta?" Minha garganta se apertou, as palavras arranhando minhas cordas vocais. "Você é Chiaroscuro. Você é um fotógrafo famoso. E você me deixou acreditar que não conseguia nem tirar uma foto nítida do meu rosto."
Ele engoliu em seco, o olhar caindo para o chão. O silêncio se estendeu, denso e sufocante, entre nós. Cada segundo parecia um peso físico pressionando meu peito.
Finalmente, ele falou, a voz mal acima de um sussurro. "Sim, eu era Chiaroscuro. E sim, Isadora... ela era minha musa. Meu mundo, por muito tempo." Ele fez uma pausa, uma respiração profunda e trêmula escapando de seus lábios. "Não vou mentir e dizer que nunca penso no passado. Às vezes, uma música, um cheiro... traz de volta memórias."
Meu coração se apertou, uma contração dolorosa e visceral. Meu mundo, por muito tempo. Ele estava admitindo. Admitindo que ainda sentia algo por ela.
"Mas Helena", ele continuou, levantando os olhos para encontrar os meus, um apelo desesperado em sua profundidade. "Isso foi antes. Agora é agora. Temos uma vida juntos. Uma vida boa."
Uma vida boa construída sobre uma base de mentiras. A ironia era um gosto amargo na minha boca. Ele realmente achava que isso era suficiente? Que algumas palavras doces poderiam apagar anos de engano?
"Então", insisti, minha voz trêmula, mas firme, "se Isadora, seu 'mundo', de repente precisasse de você, realmente precisasse de você... o que você faria? Você largaria tudo por ela?"
Ele vacilou, os olhos se desviando. "Helena, isso é injusto. Ela é apenas uma amiga agora. Um capítulo passado." Ele deu um passo hesitante em minha direção, estendendo a mão. "Vem aqui, vamos conversar sobre isso direito. Você está chateada, e eu entendo. Mas podemos superar qualquer coisa."
Eu me afastei, balançando a cabeça. "Não. Não, não vamos apenas conversar. Eu te fiz uma pergunta direta. Você iria até ela?" Minha voz estava subindo agora, traindo o medo cru que se enrolava em meu estômago. "Porque ela claramente não é apenas um 'capítulo passado' para você, Arthur. Não quando você chora por fotos dela. Não quando você abandonou sua paixão por ela."
Ele suspirou, passando a mão pelo cabelo. "Você está cansada, Helena. Vamos descansar um pouco. Conversamos de manhã." Ele tentou me contornar, indo em direção ao quarto.
"Não!" Eu gritei, o som ecoando no apartamento silencioso. "Não, não vamos descansar! Não vamos conversar de manhã! Eu quero uma resposta, Arthur. Agora mesmo."
Minha mente disparou, conectando pontos que eu nem percebia que existiam. Sussurros na indústria, rumores da recente queda na carreira de Isadora, uma campanha fracassada, uma necessidade desesperada de um retorno. Um fotógrafo lendário seria seu bilhete de ouro. E Arthur, meu marido, era essa lenda.
O pensamento, nu e arrepiante, me atingiu: ele iria. Ele me deixaria. Ele ainda a amava.
"Diga-me, Arthur", sussurrei, minha voz quebrando. "Você vai voltar para ela? É isso? Você vai me deixar por Isadora?"
Ele parou, de costas para mim, os ombros caídos. "Não", disse ele, a voz rouca. "Claro que não."
Como se fosse um sinal, seu celular, ainda em sua mão, vibrou novamente. A tela se acendeu, um farol no corredor escuro. Isadora Roth.
Minha respiração falhou. Ele tentou se virar, para atender discretamente. Mas eu fui mais rápida. Eu me lancei, agarrando a manga de sua camisa, meus dedos cravando. "Atenda", exigi, minha voz baixa e feroz. "Atenda. No viva-voz."
Ele congelou, o corpo rígido, os olhos arregalados com uma mistura de medo e algo parecido com desespero encurralado. Ele olhou para o celular, depois para mim, e de volta para o celular. O zumbido continuou, implacável.
Finalmente, com um suspiro derrotado, ele colocou no viva-voz.
"Arthur, querido?" A voz de Isadora, suave e ofegante, encheu a sala. "Meu amor. Que bom que você atendeu."
Meu amor. As palavras foram uma faca no meu peito. O corpo de Arthur enrijeceu ainda mais. Ele não disse nada, apenas encarou o celular como se fosse uma cobra venenosa.
"Eu preciso de você, Arthur", continuou Isadora, sua voz carregada do que parecia ser uma angústia genuína. "Meu desfile... é um desastre. Meu fotógrafo acabou de ir embora, alegando que não consegue mais 'capturar minha essência'. Está uma bagunça. Minha carreira inteira está em jogo." Sua voz falhou, um soluço frágil. "Só você entende de verdade minha luz, minhas sombras. Só você pode fazer isso. Por favor, por favor, volte para mim."
Os olhos de Arthur, arregalados e desfocados, pareceram vidrados. Ele ficou ali, como uma marionete cujas cordas foram tomadas por uma mão invisível. Eu ainda estava agarrada à sua manga, mas ele nem parecia mais notar minha presença. Seu olhar estava fixo em algum ponto distante, perdido em uma memória, uma fantasia, um passado que de repente estava muito, muito presente. Toda a sua atenção, todo o seu foco, se voltou para ela, como a agulha de uma bússola encontrando o norte verdadeiro.
"Por favor", sussurrou Isadora novamente, a voz embargada por lágrimas não derramadas. "Estou tão perdida sem você."
Ponto de Vista de Helena Wallace:
A cabeça de Arthur se ergueu. "Isadora, você está bem? O que aconteceu? Me conte tudo." Sua voz era um sussurro frenético, um contraste gritante com o tom seco e impaciente que ele usou comigo horas atrás. Ele parecia totalmente consumido, como se o mundo tivesse encolhido para abranger apenas a crise dela.
Eu olhei para ele, depois para o celular, e de volta para ele. Meu próprio choque espelhava o silêncio momentâneo de Isadora do outro lado. Até ela parecia surpresa com a pura intensidade de sua resposta.
"Você está falando sério, Arthur?" As palavras rasgaram minha garganta, cruas e ásperas. "Você vai mesmo? Por ela?" Todas as esperanças que eu secretamente nutria, a pequena centelha de excitação sobre nosso aniversário, sobre a notícia que eu carregava, piscaram e morreram. "E o nosso aniversário? E o... nosso jantar de família amanhã à noite? A surpresa que eu estava planejando?"
Ele sempre falava em querer filhos, um pequeno Arthur ou uma pequena Helena. Ele até escolheu nomes. Eu imaginei contar a ele, ver a alegria iluminar seu rosto. Agora, essa visão se desfez em pó.
"Arthur? Quem é essa?" A voz de Isadora, embora suave, cortou meu desespero. Seu tom era inocente, quase infantil, mas eu podia ouvir a sutil ponta de cálculo por baixo.
Eu não esperei Arthur responder. Meu aperto em sua manga se intensificou. "É a esposa dele, Isadora. Helena. A esposa legal dele."
Um instante de silêncio. Então Isadora soltou um pequeno e delicado suspiro. "Ah, eu... eu não sabia. Arthur, me desculpe. Eu não deveria ter ligado. Eu só estou... tão desesperada." Sua voz era uma sinfonia de fragilidade.
Arthur olhou para mim, um lampejo de algo - irritação? raiva? - cruzando seu rosto. "Helena, é só um desfile de moda. É só um trabalho. Estamos apenas conversando." Ele tentou puxar o braço.
Apenas conversando. Apenas um trabalho. Minha garganta queimava com palavras não ditas. Quando ele correu para o meu lado, frenético de preocupação, quando meus "trabalhos" estavam em jogo? Quando ele se ofereceu para largar tudo, só porque eu estava "desesperada"? Sua "incompetência" com uma câmera sempre o protegeu convenientemente de ter que se envolver de verdade com meu mundo profissional, muito menos salvá-lo.
O ar no corredor parecia pesado, denso com acusações não ditas e o clamor de um passado que se recusava a permanecer enterrado.
"Não, Arthur, tudo bem", a voz de Isadora voltou, agora tingida de uma nobreza trágica. "Helena está certa. Não é justo com ela. Eu... eu vou dar um jeito. Vou encontrar outra pessoa. Fique com sua esposa." A linha clicou, um som suave e final.
"Não!" Arthur gritou, sua voz aguda de desespero. Ele pressionou freneticamente o celular contra o ouvido, esperando que ela não tivesse desligado. "Isadora, espere! Não desligue!"
Ele se virou para mim então, seus olhos em chamas, uma fúria que eu nunca tinha visto dirigida a mim. Ele puxou bruscamente o braço do meu aperto, seus dedos cravando no meu braço enquanto ele afastava minha mão. A força me surpreendeu, enviando uma pontada de dor pelo meu braço. Ele nem pareceu notar.
"O que você está fazendo, Helena?" ele sibilou, a voz baixa e perigosa. "Você está tentando arruinar a carreira dela? Ela precisa de mim! Isso é importante!"
Importante? Minha própria carreira, aquela que eu construí com minhas próprias mãos, a que nos mantinha neste lindo apartamento, a que ele abertamente depreciava como "videozinhos de influencer" - isso nunca foi importante o suficiente para ele sequer fingir pegar uma câmera. Mas a carreira de Isadora, seu desfile de moda, sua "essência", isso valia a pena abandonar sua esposa, sua casa, seu aniversário.
Um vazio frio e doloroso se instalou em meu estômago. O bebê. Meu bebê. Esta pequena vida crescendo dentro de mim deveria ser o ápice do nosso amor, o começo da nossa família. Eu suportei semanas de náusea, a fadiga que roubava minha energia, a preocupação constante com minhas parcerias de marca, sabendo que meu corpo estava mudando, sabendo que eu poderia ter que me afastar da própria carreira que ele agora zombava. Eu não reclamei. Nenhuma vez. Porque era por nós. Por ele.
E agora, aqui estava ele, furioso comigo, por ela.
Lágrimas, quentes e imparáveis, escorriam pelo meu rosto. Meu peito doía, uma dor profunda e oca. Isso não era apenas sobre um segredo, ou uma câmera. Era sobre onde eu me encaixava na vida dele. Em lugar nenhum.
Ele nem olhou para as minhas lágrimas. Já estava puxando uma mala de viagem do armário, jogando roupas com uma eficiência furiosa. "Eu tenho que ir. Ela precisa de mim. Te ligo quando pousar." Ele não olhou para mim, não me tocou. Apenas fechou o zíper da mala.
Ele parou na porta, a mão na maçaneta. "Você deveria descansar um pouco, Helena. Você está exagerando." Ele abriu a porta.
"Arthur", implorei, minha voz mal um sussurro, quebrada e desesperada. "Não vá. Por favor. Se você sair por essa porta agora... você vai se arrepender."
Ele fez uma pausa, de costas para mim. Por uma fração de segundo, pensei que ele poderia se virar. Ele poderia me ver, realmente me ver, parada aqui, quebrada e suplicante.
Então, ele suspirou, um som de resignação cansada. "Adeus, Helena."
A porta se fechou com um clique, o som ecoando pelo vazio súbito e vasto do nosso apartamento. Fiquei ali, enraizada no lugar, ouvindo seus passos se afastarem, depois o zumbido distante do elevador, levando-o para longe. Para ela.
Minha mão instintivamente foi para minha barriga, um toque pequeno e hesitante. Meu bebê, pensei, uma nova onda de lágrimas me lavando. Estamos sozinhos.
Olhei para o meu celular novamente. O número da clínica ainda estava na tela. Meus dedos, ainda tremendo de seu toque áspero, não hesitaram desta vez. Disquei.
"Sim", sussurrei no receptor, minha voz embargada por lágrimas não derramadas. "Gostaria de confirmar minha consulta para hoje. E... acho que não vou precisar de um ultrassom, afinal. Apenas... o outro procedimento."