Eu era a Tecelã, a única loba capaz de criar as barreiras espirituais que protegiam nosso império bilionário. Mas para o meu marido, o Alfa, eu era apenas uma peça de tecnologia com defeito.
Dez anos atrás, esmaguei minha coluna e destruí meu útero para tirá-lo de um carro em chamas. Agora, por não poder lhe dar um herdeiro, ele me tratava como um fantasma em sua própria casa.
O ponto final não foi a traição. Foi ver Breno, o homem que um dia me disse que "Alfas não se ajoelham", cair de joelhos em uma calçada pública para amarrar o cadarço do tênis de sua amante grávida.
Ele tocou a barriga dela com uma reverência que nunca havia demonstrado por mim.
Naquela noite, a amante dele me enviou um vídeo dos dois juntos, com a legenda: *Ele está pintando o céu para o nosso filho. O que ele pintou para você? Nada. Porque você é estéril.*
Percebi então que um divórcio não me libertaria. Ele nunca abriria mão de seu bem mais valioso. O Laço de Companheirismo era uma corrente, e enquanto minha loba vivesse, eu seria sua prisioneira.
Eu não queria o dinheiro dele. Não queria um pedido de desculpas. Eu queria um apagamento total.
Então, comprei uma poção proibida chamada Tabula Rasa. Ela não apenas apaga sua memória; dissolve o espírito de lobo com ácido e corta o vínculo da alma.
Programei as barreiras de defesa da propriedade para se autodestruírem, derreti meu anel de Luna até virar um pedaço de metal disforme e bebi o veneno.
Quando Breno finalmente correu para casa, aterrorizado pelo colapso das barreiras, ele me encontrou de pé, ao lado do frasco quebrado.
Ele gritou meu nome, tentando usar o Comando do Alfa para me fazer submeter.
Mas eu apenas olhei para aquele estranho aos prantos com olhos calmos e humanos e perguntei: "Quem é você?"
Capítulo 1
POV Elara:
O bife de ancho estava completamente frio, a gordura se solidificando em uma camada branca e cerosa.
Eu estava sentada sozinha à mesa de jantar de mogno - uma placa de madeira grande o suficiente para um avião pousar - encarando a carne. O silêncio na mansão do Alfa não era pacífico; era pesado, opressivo como a cabine de um submarino antes de o casco rachar.
*Ele está atrasado*, minha loba choramingou. Ela era uma criatura quebrada, tremendo no fundo da minha mente.
*Ele é o Alfa*, respondi, minha voz interna sem emoção. *Alfas têm impérios para administrar.*
Mas não era trabalho.
Eu não precisava dos sentidos de loba para saber disso. Eu era a Tecelã. Eu podia sentir as barreiras de defesa da Alcatéia Obsidiana como uma segunda pele. Eu sabia quando um coelho acionava um sensor no norte. Eu sabia que as fronteiras estavam mais seguras do que nunca.
Então, onde diabos estava Breno?
A porta da frente se abriu com um gemido.
O vento entrou, trazendo a cidade: fumaça, chuva e o cheiro metálico e distinto de ozônio.
E algo mais.
Baunilha. Uma baunilha barata, de quiosque de shopping. Cobrindo o cheiro de cobre do sexo.
Meu estômago revirou. Empurrei o prato para longe.
Breno entrou na sala de jantar. Ele era uma obra-prima da genética - um metro e noventa e quatro, ombros feitos para carregar o mundo, olhos como aço polido. O Alfa quintessencial. Poderoso. Arrogante. E atualmente cheirando a outra mulher.
"Elara", ele cumprimentou, afrouxando a gravata. Ele não olhou para mim. Olhou para o bife. "Estou faminto. A patrulha da fronteira foi um pesadelo."
Mentiroso.
"Problemas?", perguntei. Minha voz era o tom perfeito e praticado de uma esposa decorativa.
"Renegados testando o sul", disse ele, sentando-se na cadeira da cabeceira. Ele cortou a carne fria com uma eficiência predatória. "Suas barreiras aguentaram, obviamente. Mas tive que fazer as patrulhas físicas pessoalmente."
A mentira deslizou de sua boca tão facilmente quanto o sangue do bife malpassado.
Eu conhecia o perímetro sul. Havia reforçado a estrutura rúnica ontem. Se um Renegado tivesse sequer respirado na linha da propriedade, eu teria sentido a vibração nos meus dentes.
"Entendo", eu disse.
Minha mão foi para o bolso do meu roupão de seda. Dentro havia um celular pré-pago que encontrei escondido em um grimório na biblioteca.
Ele tinha vibrado uma hora atrás. Uma foto. Um teste de gravidez com duas linhas rosas.
Legenda: *O herdeiro dele é forte. Pode dizer o mesmo do seu útero vazio?*
Remetente: Kiara. Filha do Ancião Tomás. Aquela com os quadris, o cabelo e o cheiro fértil que fazia os machos não acasalados babarem.
Observei Breno mastigar. "Você sentiu algum cheiro... incomum lá fora?"
Ele parou, o garfo a meio caminho da boca. "Apenas cachorro molhado e medo. Por quê?"
"Por nada."
Dez anos.
Dez anos atrás, ele me tirou de um acidente de carro em chamas. Minha coluna esmagada, meu útero destruído, meu espírito de loba fraturado. Eu não conseguia me transformar. Não conseguia lhe dar filhotes.
Mas ele me reivindicou. Ele me chamou de Companheira.
Eu pensei que era um conto de fadas.
Eu estava errada. Ele não salvou uma esposa. Ele resgatou uma peça de tecnologia.
Ele precisava da Tecelã. Ele precisava da única loba na América do Sul que podia tecer barreiras espirituais complexas o suficiente para proteger seus ativos bilionários. Eu era seu firewall.
E Kiara? Ela era a incubadora.
Meu bolso vibrou novamente. Outra mensagem.
Debaixo da mesa, olhei para a tela. Um vídeo. Breno, em um corredor que eu não conhecia, com as mãos na cintura de Kiara.
"Ela é apenas a fundação, Kiara", a voz de Breno soava metálica pelo alto-falante mudo. "Ela mantém a casa de pé. Você... você é o futuro."
Algo dentro de mim não apenas quebrou. Se desintegrou.
"Não estou com fome", sussurrei, levantando-me.
"Sente-se", disse Breno.
Ele não gritou. Ele usou o Comando do Alfa.
Meus joelhos travaram. Minha loba, condicionada como um cão espancado, forçou minha bunda de volta na cadeira.
"Você precisa de proteína, Elara", disse ele, sem levantar o olhar. "Você parece pálida. Se ficar doente, as barreiras oscilam. Não podemos permitir isso."
As barreiras. Sempre as barreiras.
"Estou bem", engasguei, lutando contra a constrição mágica em minha garganta.
"Ótimo." Ele limpou a boca. "Estarei no escritório. Não me espere."
Ele passou por mim. Sem beijo. Sem toque. Apenas uma onda de cheiro de baunilha que me deu vontade de vomitar.
Esperei até que seus passos desaparecessem.
Então, estendi minha mente. Encontrei a teia invisível de magia que cobria a propriedade. O trabalho da minha vida.
Encontrei o fio que conectava o portão principal à mansão.
Com um estalo mental, eu o desgastei. Apenas uma fratura microscópica.
Eu não ia me divorciar dele. Ele nunca deixaria sua ferramenta favorita ir embora. Ele me trancaria no porão e me conectaria à rede até eu expirar.
Não. Eu precisava de uma saída permanente.
O Laço de Companheirismo é absoluto. É uma corrente forjada pela Deusa da Lua. Só há uma maneira de quebrá-lo sem morrer.
Um de nós tinha que deixar de existir.
Elara tinha que morrer.
POV Elara:
O closet era maior que meu primeiro apartamento. Cheirava a ele - cedro, poder e o peso sufocante da posse.
Eu me encolhi no canto, atrás dos casacos de inverno, o celular descartável escorregadio na minha palma suada.
Disquei um número sussurrado nos cantos mais sombrios das redes de Renegados.
"Vargas", uma voz rouca soou. Parecia cascalho em um liquidificador.
"É a Tecelã", sussurrei.
"A Luna Obsidiana? Você está longe da sua torre de marfim."
"Preciso do pacote", eu disse. "O Tabula Rasa."
Silêncio. Até um bruxo das trevas respeitava esse nome.
"Você sabe o que está pedindo?", perguntou Vargas, seu tom mudando de zombaria para cautela. "Isso não te faz apenas esquecer. Ele queima os caminhos neurais. Para um lobo... é ácido. Dissolve o espírito. Ele caça sua loba interior e a derrete enquanto ela grita."
"Eu sei."
"Ele corta o Laço de Companheirismo queimando os pontos de conexão na alma. Você se tornará uma casca vazia. Uma humana. Indefesa."
"Eu já sou indefesa", eu disse, olhando para minhas mãos trêmulas.
"O preço é alto."
"Prata", eu disse. "De alta pureza. Moedas cunhadas do tesouro pré-guerra. O suficiente para comprar um país pequeno."
Ouvi sua inspiração aguda. "Fechado. Amanhã à noite. Meia-noite. Na clínica veterinária abandonada no Brás. Venha sozinha. Se eu sentir cheiro de Alfa, vou ferver seu sangue antes que você cruze a porta."
"Ele não estará lá", eu disse. "Ele está ocupado construindo seu futuro."
Desliguei.
Meu coração martelava contra minhas costelas como um pássaro preso. Eu tinha acabado de encomendar minha própria execução.
A porta do quarto se abriu.
Eu congelei.
Breno entrou cambaleando, cheirando a conhaque e exaustão. Ele se despiu no escuro, jogando o terno no chão como pele descartada.
Esperei até que sua respiração se aprofundasse no ritmo do sono. Dez minutos. Vinte.
Saí de fininho. A luz da lua o banhava. Ele parecia pacífico. Inocente.
Fiquei ao lado da cama, observando-o.
Sua mão disparou, agarrando meu pulso como uma armadilha de urso.
Eu ofeguei.
Seus olhos ainda estavam fechados. Um reflexo do sono. Seus instintos de Alfa sentindo uma propriedade em movimento.
"Minha", ele rosnou, um som baixo que vibrou pelo colchão.
O Comando do Alfa me atingiu. Meus joelhos bateram no carpete. Minha cabeça se curvou, expondo meu pescoço. Não foi uma escolha; foi biologia.
Ele me puxou para mais perto, ainda dormindo. Sua mão era uma marca de ferro.
"Minha", ele murmurou, cheirando o ar onde meu pescoço deveria estar.
Não era amor. Era controle de inventário. Chaves? Ok. Carteira? Ok. Esposa? Ok.
Uma onda de repulsa me atingiu, quente e ácida.
Mordi minha língua. Com força.
O gosto de cobre do sangue quebrou o transe.
Puxei meu pulso de volta. Exigiu tudo de mim para lutar contra o Comando, como caminhar na lama até a cintura.
Rastejei para trás, em direção ao banheiro. Tranquei a porta e deslizei contra o azulejo frio.
Meu pulso latejava. Uma marca de mão vermelha já estava florescendo na minha pele.
*Não consigo fazer isso*, minha loba choramingou. *Ele é o Companheiro. Partir é a morte.*
*Ficar é ser apagada*, eu disse a ela.
Fechei os olhos e visualizei uma parede de tijolos. Peguei a memória dele me tirando do fogo e a empurrei para trás dos tijolos. Peguei a memória do nosso casamento e a emparedei também.
Eu estava construindo uma tumba para o meu passado. Porque quando eu bebesse aquele veneno, eu precisava que Breno Wiggins estivesse morto para mim antes que eu estivesse morta para mim mesma.
Três dias até a lua cheia.
Três dias para matar a loba.
POV Elara:
O Brás era uma sobrecarga sensorial de barulho e sujeira. A cobertura perfeita.
Puxei o capuz do meu moletom. Eu não estava usando seda hoje. Estava de jeans de brechó e botas dois números maiores. Para um humano, eu era invisível. Para um lobo, eu ainda cheirava a Alcatéia de alto status - flores da lua e ozônio.
É por isso que eu havia arranjado o mensageiro meses atrás.
Entrei em um beco. Um homem esperava perto de uma caçamba de lixo, tremendo em um casaco pesado apesar do calor de julho.
"Pagamento?", ele perguntou, sem levantar o olhar.
Entreguei-lhe o envelope. Cinquenta mil em dinheiro vivo, não rastreável, desviado do caixa pequeno de Breno ao longo de seis meses.
Ele me entregou uma pasta de papel pardo e um borrifador.
"Júlia Benevides", disse ele. "Certidão de nascimento de Minas Gerais. Histórico limpo. O spray é almíscar de gambá e enxofre. Vai esconder seu cheiro até de Deus por seis horas."
"Obrigada."
Borrifei-me com o spray fétido e fui para a clínica.
Parecia abandonada, janelas tapadas com tábuas. Entrei.
Vargas estava atrás de uma mesa de metal. Olhos leitosos, pele com cicatrizes.
Na mesa, estava o frasco. Azul elétrico, girando com uma luz que parecia radioativa.
"Fiz o pedido há seis meses", eu disse, dando um passo à frente. "Você demorou bastante."
"Ingredientes para veneno de alma não são fáceis de encontrar, Tecelã", Vargas resmungou. "Lembre-se: uma vez que você beber, não há antídoto. Você vai sangrar pelos olhos. Sua loba morrerá gritando. E o Vínculo se romperá como um galho seco."
"Ótimo."
Estendi a mão para o frasco. Meu celular vibrou. O toque especial para Breno.
"Atenda", Vargas avisou. "Se ele suspeitar, nós dois estamos mortos."
Atendi, afinando minha voz para soar suave.
"Onde diabos você está?", Breno latiu. "O rastreador diz Brás. Por que você está nesse fim de mundo?"
Toquei na gargantilha de platina - minha coleira.
"Desculpe, Breno. Eu... ouvi falar de uma loja de antiguidades aqui. Eles têm uma Pedra da Lua rara. Para o seu aniversário."
Silêncio.
Pedras da Lua. Sua fraqueza.
"Você está fazendo compras para mim?", sua voz suavizou, a arrogância retornando.
"Sim. Uma surpresa."
"Não demore muito. O evento de gala é amanhã. Você precisa estar apresentável. Não como uma vira-lata."
"Sim, Alfa."
*Clique.*
Olhei para Vargas. Ele sorriu, mostrando dentes amarelos. "Você mente bem."
"Mecanismo de sobrevivência", eu disse.
Coloquei o frasco na minha bolsa, ao lado da identidade de Júlia Benevides.
"Ainda não posso tomar", eu disse. "Tenho que preparar a casa. Se vou embora, vou garantir que a porta bata nele na saída."