༺ Maribel Varrozzinni ༻
Minhas mãos ainda tremiam enquanto segurava o teste de gravidez positivo que comprei na farmácia. Eu não queria acreditar que isso estava acontecendo comigo. Como explicaria isso ao meu pai? Assim que soubesse, ele me colocaria na rua e me chamaria de irresponsável. O que eu faria agora?
Estava grávida de um homem por quem me apaixonei por algumas semanas. Depois que dormimos juntos, ele simplesmente sumiu no dia seguinte. Um típico cafajeste. Como pude acreditar que ele fosse diferente dos outros? Deixei-me enganar pelo caráter de Bryan e agora estou carregando um filho dele, sem saber onde ele mora ou como contatá-lo.
Minha amiga Pérola percebeu meu desespero e nervosismo e pegou o teste da minha mão, comentando perplexa:
- Meu Deus, Maribel, deu positivo. E agora, o que você fará?
- Eu não sei, Pérola! Meu pai vai me matar quando souber disso. E o pior é que não tenho ideia de onde o Bryan mora ou como encontrá-lo. - confessei de maneira triste e chorosa.
Pérola respondeu, sendo solidária:
- Não se culpe, Maribel. Quem nunca se iludiu com um príncipe encantado que, no final, se revelou um sapo? Você sabe que eu mesma sou prova disso! Esqueceu que cheguei da mesma maneira? Porém, eu tive mais sorte, não engravidei. O problema é que seu Júlio ficará possesso quando descobrir sobre sua gravidez.
- E você pensa que eu não sei, Pérola? Ele ficará completamente decepcionado, pois sempre teve muito orgulho de mim por estar lutando para vencer na vida e me tornar médica. E agora, cai uma bomba dessas. Realmente, não faço ideia do que fazer. - sentei-me na cama e comecei a chorar, enquanto Pérola tentava me consolar.
Como odiava Bryan por fazer isso comigo. Que desgraçado.
- Amiga, a única coisa que lhe resta agora é contar a verdade e se preparar para as consequências, porque elas virão. - disse Pérola, tentando me dar uma orientação.
- Nem me fale nisso, Pérola. O problema é que estou pensando se devo levar essa gravidez adiante. Não seria melhor que a interrompesse?
Pérola me olhou de maneira triste, mas entendeu meu ponto de vista e apenas respondeu:
- Amiga, isso é uma escolha só sua e depende apenas de você. Mas lembre-se de que, se fizer isso agora, no futuro, mais adiante, pode se arrepender dessa decisão.
Mais uma vez, não pude evitar derramar lágrimas diante do destino cruel que estou enfrentando. Não sei o que será de mim, muito menos o que esperar para o futuro dessa criança. Depois do ocorrido, decidi jogar fora o teste de gravidez. Minha irmã, Micaela, não pode desconfiar da minha gravidez, pois seria a primeira a me envenenar para o nosso pai. Sempre foi invejosa e não se importava em me derrubar para obter o que queria, mesmo sendo minha irmã.
Uma semana depois.
Alguns dias haviam se passado e os sintomas da gravidez estavam cada vez mais fortes. A fraqueza que me dominava pela manhã e a sonolência o dia todo eram horríveis. Minha mãe estava desconfiando do meu comportamento estranho. Quando ela colocou a comida na minha frente, o enjoo bateu e tive que correr rapidamente para o banheiro. Após jogar tudo para fora e lavar a boca, minha mãe estava na porta me encarando e me questionou séria:
- Estou há dias notando esse seu comportamento estranho! Agora me diga, quem é o pai da criança? E não tente me enrolar, Maribel. Porque eu já passei por isso e sei muito bem sobre o que estou lhe perguntando.
- Mãe, penso que a senhora está enganada! Estou passando mal porque devo ter comido algo no restaurante que me fez mal! - respondi, mas minha mãe me lançou um sorriso sarcástico como se ela fosse alguma idiota para ser enganada daquela maneira.
- Maribel, você acredita mesmo que pode me enganar? Filha, é melhor você me contar o que está acontecendo. Pois se seu pai, e Deus me livre, sua irmã desconfiarem, ela fará sua caveira para ele.
Dona Vera me encarava seriamente enquanto eu engolia em seco. Como iria revelar que o pai do meu filho era um homem desconhecido para mim? Como lhe dizer que acabei me envolvendo com um turista que me fez juras de amor por alguns dias e, após me levar para cama, simplesmente sumiu no dia seguinte? E acordei sozinha no quarto de hotel.
- Esse é o problema, mãe! Eu não sei onde está o pai do meu filho!
- Como assim? Você não sabe onde está o pai do seu filho, Maribel? Isso não existe. Alguém colocou esse bebê aí dentro, por que você está protegendo tanto ele? - minha mãe me encarava de maneira séria.
Se havia algo de que ela não gostava, era que a fizessem de idiota. Desviei o olhar e respondi:
- A única coisa que sei sobre ele é que se chama Bryan, é um homem muito bonito e era hóspede em um hotel aqui da cidade. Sempre frequentava o restaurante...
- Maribel, você está me dizendo que se envolveu com um cliente do seu trabalho? Como você é tão irresponsável dessa maneira, menina? Não percebe que um homem desses, da forma que me descreveu, só está de passagem pela cidade? Não acredito nisso... - eu podia ver a decepção nos olhos da minha mãe.
Mas tudo não poderia ficar pior quando ouvi aquela voz grave se pronunciar atrás de nós duas.
- Não... você não fez essa vergonha para nossa família, Maribel? Logo você, em quem eu depositava toda a minha fé, que seria o orgulho dessa família.
O olhar do meu pai era de raiva e desgosto ao descobrir que a filha mais caprichosa e inteligente que ele possuía havia engravidado! Ele se aproximou furioso e perguntou, segurando-me entre seus braços e me chacoalhando:
- Como você ousa me fazer uma coisa dessas, Maribel? Logo você, em quem coloquei todas as minhas fichas. Sua irmã já é uma perdida, mas você, por que fez isso comigo?
- Pai, me perdoa? Essas coisas acontecem! Eu jamais quis que fosse dessa maneira! Ele disse que me amava... - confessei aquelas palavras com lágrimas nos olhos.
Meu pai simplesmente me acertou um tapa, me jogando no chão, e respondeu com muito desgosto, levando as mãos aos cabelos:
- E aí, a idiota caiu? O velho truque que esses homens com dinheiro usam! Você sabe muito bem que, depois que conseguem o que querem, descartam mulheres como você feito lixo. Bastou ele lhe dizer, então, Maribel, que te amava, e você foi logo abrir as pernas para ele?
- Pai, por favor! Perdoa-me? Eu não queria fazer essa vergonha para a nossa família. Sei que deveria ter pensado nas consequências, mas ele disse que viria falar com você e pedir minha mão em casamento. No entanto, ele me enganou. Fui uma tola! - podia perceber o quanto meu pai estava machucado com aquela revelação.
Como se não bastasse, minha irmã Micaela entra pela porta e comenta sorrindo:
- Ah, então a santinha engravidou? Olha, posso ser o que for, mas ainda não trouxe nenhum neto para o senhor criar, meu pai. Eu sabia que você só tinha essa carinha de santinha, Maribel. No fundo, é muito pior que eu e ainda por cima uma burra. Quem engravidaria de um cara que mal conhece?
- Cala essa sua boca! Não se meta nessa conversa, Micaela! Pai, prometo que não desistirei dos meus sonhos... Eu ainda vou te dar muito orgulho, mesmo tendo essa criança. Juro isso para o senhor! - ele deu uma risada nervosa, passando a mão nos cabelos e respondeu ríspido.
- Você pensa mesmo que terá esse bastardo para eu cuidar? Escuta uma coisa, Maribel, eu quero que pegue todas as suas coisas e saia amanhã mesmo da minha casa. Só não vou te colocar para fora agora porque já está bem tarde! Mas amanhã, assim que o sol nascer, não quero mais ter a sua presença dentro da minha casa...
- Mas pai, para onde é que eu vou? Não faça isso comigo! Por favor, eu te imploro. - ele simplesmente virou as costas e respondeu se afastando.
- Isso não é um problema meu! Deveria ter pensado antes de abrir as pernas para um desconhecido que disse que te amava. Tenho vergonha de ser o seu pai!
Ele então sumiu no corredor, e minha mãe me olhou com lágrimas nos olhos, abraçando-me, enquanto minha irmã apenas ria com desdém da minha desgraça. Eu não sei o que farei da minha vida agora, muito menos como criarei essa criança. Mas amaldiçoo o dia em que Bryan entrou na minha vida.
༺ Maribel Varrozzini ༻
Coloquei todas as minhas coisas no carro da minha amiga Pérola, que resolveu me ajudar dando moradia em sua casa até eu me estabelecer financeiramente. Minha mãe me deu um abraço chorando, enquanto minha irmã observava vitoriosa da porta. Não sei por que Micaela me odeia tanto, nunca fiz mal a ela. Dona Vera me entregou uma quentinha em uma sacola e comentou:
- Fiz essa refeição para você se alimentar! A receita da comida de que mais gosta está aí dentro, por favor, minha filha, cuide do meu neto. Assim que ele nascer, prometo que farei uma visita a você.
- Obrigada, mãe! Mesmo que nem você, nem meu pai acreditem, eu vencerei na vida, serei importante e com um futuro promissor. Não será essa criança que vai me fazer desistir dos meus sonhos, eu juro! - acariciei o rosto de minha mãe e percebi o quanto ela estava triste pela minha partida.
- Acredito que você vai longe, minha filha! Tem força de vontade e nunca desiste dos seus sonhos. Mostrará para aquele velho teimoso que um filho não é impedimento para nada. É uma pena que seu irmão Matthew não esteja aqui para se despedir, ele com certeza não concordaria com isso.
- Ele também não poderia fazer muita coisa. A casa é do meu pai, mãe. Bom, vou indo porque preciso trabalhar daqui a pouco. Nos comunicaremos por mensagem e ligação, está bem?
Ela concordou enquanto Pérola colocava minhas malas no carro. Olhei para a janela e percebi que meu pai me observava. Assim que nossos olhos se encontraram, ele fechou a cortina na minha cara e sumiu para dentro da casa. Limpei minhas lágrimas mais uma vez e entrei no carro, pensando enquanto Pérola dirigia:
"Mesmo que o senhor não acredite, meu pai, vencerei na vida e encontrarei aquele canalha de Bryan, que destruiu minha vida!"
Após me instalar em um dos quartos da casa de Pérola, dei-lhe uma quantia em dinheiro para ajudar nas despesas da alimentação. Ela negou, afirmando que não precisava, mas eu sabia dos apertos que ela passava e insisti, colocando o dinheiro em suas mãos e dizendo que não aceitava um não como resposta. Ela suspirou pesadamente e colocou o dinheiro em seu bolso.
Fui para o restaurante e, como sempre, estava lotado. O dono do lugar, o Sr. Scott, estava enfurecido com meu atraso. Eu mal podia esperar para conseguir outro emprego, esse homem às vezes era insuportável! Ele encontrava defeitos em tudo, até em minha amiga Scarlett, que trabalhava perto dele. Ela simplesmente ignorava suas reclamações, e, no fundo, eu achava que o Sr. Scott tinha uma queda por ela, mas nunca admitiria isso.
- Você está atrasada! De novo, Maribel. Tenho tolerado isso, mas há alguns dias você vem matando o serviço. Se continuar assim, serei obrigado a te mandar embora...
- Prometo que será a última vez! Sr. Scott, tive alguns imprevistos e estava cuidando de uma mudança, mas agora chegarei na hora certa! - ele revirou os olhos e me jogou a flanela e o borrifador.
- Entendi! Agora vá cuidar de limpar aquelas mesas, pois elas não vão se limpar sozinhas, e não se esqueça de lavar os banheiros.
Apenas concordei e segui para a área dos funcionários para colocar meu uniforme. Executei meu trabalho e, após terminar de limpar as mesas, segui para o banheiro e me ocupei com o restante das tarefas. Parei um pouco para descansar e foi então que meu celular tocou. Atendi e ouvi a voz de uma moça.
- Olá! Gostaria de falar com Maribel Varozzini? É a respeito da vaga de emprego no hotel Luxuosa Diamantina.
- Sou eu mesma! Em que posso ajudá-la?
- Queremos marcar uma entrevista de emprego com você! Ficamos interessados em seu currículo, pois você fala inglês e francês muito bem!
- Bom, estou em meu outro emprego! Saio daqui às 16h, se não for muito tarde para vocês! Posso passar aí ou então você pode marcar outro dia!
- Ah, não, moça, podemos marcar hoje mesmo, às 16h30min. Precisamos fazer uma avaliação com você, estamos procurando pessoas que falem esses idiomas fluentemente!
- Está certo! Me passe o número do andar e o local e assim estarei na hora combinada.
A mulher me passou as informações por meio de uma mensagem de texto e decidi voltar ao trabalho. Antes que Scott resolvesse me torrar a paciência novamente, no final do meu expediente, simplesmente me arrumei e fui embora daquele inferno de serviço. Ao chegar ao hotel luxuoso, olhei tudo de cima a baixo e pensei:
"Quem sabe se esse miserável desgraçado do Bryan não se hospedou neste lugar? Porque dinheiro aquele filho da puta tinha!"
Ao chegar na recepção, falei com um atendente que, apesar de arrogante, me recebeu e afirmou que eu teria que pegar o elevador, ir até o quarto andar e virar à esquerda. Eu simplesmente fiz pouco caso do mesmo e cheguei no escritório onde a mulher com quem conversei mais cedo me atendeu. Começamos a conversar após trocar algumas informações e, em seguida, a mulher comentou com um sorriso:
- Você se encaixa perfeitamente no tipo de pessoa que estamos procurando! A vaga é sua, se puder começar amanhã mesmo, agradeço!
- Nossa, eu nem sei o que dizer! Então, me explique como tudo funciona aqui? Para que eu possa chegar no horário certo.
Continuei acertando os últimos detalhes do trabalho e saí com um sorriso no rosto, pois esse emprego com toda certeza ia ajudar muito, principalmente nos primeiros meses em que estou grávida. Tentarei segurar o serviço o máximo que puder e só então revelaria para a minha chefe que estou grávida. O melhor de tudo é que não precisarei mais aturar o chato do Scott na minha cola.
Liguei para o Scott afirmando que não trabalharia mais no dia seguinte. Ele simplesmente me deu uma advertência, mas respondi que passaria apenas para pegar minhas contas e ele estranhou o meu comportamento. Então, desliguei na sua cara e me arrumei para ir ao novo trabalho no dia seguinte.
Logo encontrei Maia, a mulher que havia me entrevistado, e ela me afirmou que precisa de um tradutor para fechar um negócio. A seguir, rapidamente ajudei em uma das negociações que o dono do hotel precisava fazer.
Acreditava que trabalhar no hotel não seria tão difícil, pois com toda a certeza era melhor do que ficar limpando banheiros imundos e mesas de clientes porcos que não tinham um pingo de educação e muito menos escrúpulos. Estava no final do meu expediente quando acabei escorregando no piso escorregadio.
Alguém me segurou e, ao levantar o rosto, vi um homem por volta dos seus 46 anos me observando. Ele me deu um sorriso e eu me levantei, me recompondo e comentando:
- Me desculpe, senhor! O chão está escorregadio e acabei perdendo o equilíbrio!
- Imagina! Essas coisas acontecem, mas por favor, não me chame de senhor. Não sou tão velho assim! - o homem me deu uma piscadela e eu me recomponho rapidamente, um pouco sem graça, respondi desviando o contato visual.
- Não foi a minha intenção! É apenas respeito pelos hóspedes do hotel.
- Entendo perfeitamente, moça! Mas você é nova aqui, né? Sou acostumado a frequentar este hotel e conheço quando um rosto é novo. - aquele homem me passava uma tranquilidade inexplicável, mas ao olhar para ele era como se o conhecesse de algum lugar, então respondi calmamente.
- Sim, é o meu primeiro dia! Mas infelizmente preciso ir, ainda tenho faculdade. Com a sua licença...
O homem me deu um olhar penetrante e observou meu crachá, então respondeu com um sorriso nos lábios. Tinha quase certeza de que já havia visto aquele sorriso em algum lugar, parecia tão familiar.
- E claro, Maribel! Entendo perfeitamente. Bom que você tenha uma ótima aula. Boa noite!
O homem passou por mim, exalando um sorriso e autoconfiança. Não podia negar que ele era muito charmoso, porém balancei a cabeça negativamente, afastando esses pensamentos pecaminosos. Julgo que, pelo que havia passado devido a um homem como aquele, já tinha sido o suficiente.
༺ Maribel Varrozzini ༻
Hoje acabei acordando um pouco atrasada. Coloquei meu uniforme e fiz um coque no cabelo. Passei apenas um batom e blush no rosto, pois não posso perder o emprego que acabei de conseguir. Preciso começar a juntar dinheiro para quando o bebê nascer. Tentarei esconder minha barriga ao máximo da minha chefe. Hoje o dia está um pouco nublado. Só espero que não chova. Sigo até a parada de ônibus e fico um pouco impaciente, por parecer que o ônibus não passa!
Após alguns minutos, finalmente o meu ônibus chega. Então, rapidamente, entro e espero chegar ao local onde descerei. Notando que gotas de água surgem no vidro do veículo, desço do transporte e começo a caminhar para chegar ao hotel mais rápido. Começa a cair mais pingos de chuva e ando apressadamente.
Estou com tanta pressa que acabo não percebendo um rapaz parado na faixa de pedestre e caio dentro de uma carroça. Quando olho para trás para ver se não tinha nenhum carro, sinto que caí em algo fedido e pegajoso. Quando levanto o rosto, percebo que se trata de merda de vaca. Ah, meu Deus! Só pode ser um pesadelo. O homem me ajuda a levantar e, furiosa, comento tentando tirar o excesso de estrume do meu corpo.
- Você é louco? Como anda com uma coisa dessas pela cidade? Principalmente no sinal, meu Deus! E agora perderei o meu emprego por sua culpa!
- Moça, a culpa não é minha! Foi você que andou rápido demais ao olhar para trás e não percebeu que a carroça estava na sua frente. Eu ainda penso que foi até bom, pois amorteceu a sua queda no asfalto! - Solto uma risada sarcástica e respondo, tentando tirar aquela quantidade de bosta do meu uniforme.
- Só posso estar pagando algum pecado grave, meu Deus! Pois, fique sabendo que eu preferia me machucar no asfalto, porque meu uniforme estaria limpo. Ah, mas eu não ficarei perdendo mais meu tempo com você... Estou atrasada! Saia da frente com essa carroça cheia de imundice.
Não continuo discutindo com aquele caipira. Simplesmente ando apressadamente até chegar ao hotel. As pessoas na rua me olham chocadas. Devo estar totalmente atolada de estrume de vaca. Nem sei como entrarei no hotel desse jeito, e muito menos se vão me deixar passar. Como se não bastasse tudo que está me acontecendo, meu salto alto acaba quebrando de um lado ao me assustar com a buzina de um carro. Ele continua atrás de mim, buzinando e furiosa, comento, me afastando para o lado.
- Ai! Meu Deus? Já não basta ter caído na bosta de vaca, agora também serei atropelada? Porque você não passa por cima, seu idiota! Não está me vendo? É cego?
Hoje realmente não está sendo um bom dia e nem me importo de comentar isso, porque já estou ferrada de qualquer maneira. Nada mais pode acontecer e, se piorar, eu até não ficarei surpresa. Então ouço a porta do carro abrindo, enquanto retiro o meu sapato, e escuto a pessoa que estava no carro se pronunciando.
- Por acaso, a culpa é minha? Sua delinquente... Você se mete na frente do meu carro e ainda não quer ser atropelada?
- Escuta aqui! Eu não ficarei ouvindo desaforo de um ricaço, seja lá o que você é. Vai se foder... Já estou tendo um péssimo dia para ter que ficar escutando mais reclamações de um playboy metido!
Viro-me para olhar para o remetente da voz que me encara silenciosamente. Percebo ser o hóspede do hotel de ontem que me segurou para não cair no chão. Ótimo! Agora realmente estou no olho da rua, pois acabei de discutir com um cliente do hotel. Meu Deus! Será que esse dia pode piorar mais? Ele parece me analisar de cima a baixo e então responde se aproximando.
- Espera aí! Você não é a moça de ontem? Meu Deus! O que foi que aconteceu com você? Por acaso, atravessou uma guerra para chegar até aqui? - ele começa a rir do meu estado e não consigo evitar chorar. Meu senhor, é muita humilhação. Por que tudo isso tem que estar acontecendo comigo, justo no meu segundo dia de trabalho?
- Calma, moça! Eu não rio por mal, mas acontece que não tem como evitar. Você está toda suja, pelo que percebo isso é merda, não é? Como se meteu numa situação dessas?
- Sabe? Nem eu realmente sei como acabei me metendo em tudo isso! Só estava vindo com muita pressa, olhando para trás, que não olhei para frente e tropecei e caí em uma carroça cheia de bosta de vaca! - novamente ele não se conteve e começou a rir.
Revirei os olhos, aborrecida, porque além de não estar me ajudando, ainda ficava rindo da minha cara. Me afastei, começando a andar, e ele respondeu passando a mão no rosto.
- Desculpe, não tem como não rir! Como lhe disse, é engraçado. Além disso, você está fedendo muito! Acho que não vão deixar você entrar no hotel assim. Por que você não se lava no chuveiro da praia? E quem sabe, depois pega uma roupa reserva. Posso te ajudar. Ali tem um chuveiro. Vou até aquela mercearia aqui do lado comprar algum produto de higiene para você tirar todo esse estrume e esse cheiro. Realmente, se eu contasse isso para alguém, a pessoa também ia rir muito.
Acabei concordando com ele, então fui até um dos chuveiros públicos e comecei a me lavar. Meu Deus, tinha bosta para todo lado em poucos segundos! Ele surgiu com um vidro de shampoo e um sabonete líquido. Fui passando pelo meu corpo tentando tirar todo o resíduo de merda.
Quando pensei que as coisas não podiam piorar, aconteceu algo mais: após tirar o restante e quase acabar o vidro de shampoo, ele me entregou uma toalha. Enxuguei meu corpo e cabelo e agradeci a ele.
- Obrigado, foi muito gentil da sua parte! Mesmo que você tenha rido da minha cara, né? Mas suponho que há uma hora dessas, eu já perdi meu emprego!
- Não se preocupe com isso! Conheço seu Matarazzo, o dono do hotel. Avisarei a ele que houve um acidente e pedirei para ele reconsiderar! - Ele respondeu sorrindo. Esse homem tinha um olhar e um sorriso tão familiar, acredito que tinha uns 47 anos. Apesar de ser um pouco mais maduro, ainda era muito charmoso e bonito. Apenas agradeci.
- Obrigada! Preciso muito desse emprego. Não posso me dar ao luxo de perdê-lo agora. Realmente, as coisas não estão fáceis na minha vida, e hoje não era meu dia. Além de acordar atrasada e o ônibus demorar, ainda terminei o restante do trajeto caindo em uma carroça de bosta. Céus...
- Essas coisas acontecem! Geralmente, às vezes acordamos com o pé esquerdo e tudo que não presta surge para atrapalhar! - Ele lançou um sorriso sarcástico e eu respondi.
- Ah! Não acredito que isso aconteça com pessoas normais, pois não é todo mundo que cai dentro de uma carroça de bosta e acaba se atrasando no segundo dia de trabalho!
Ele soltou uma gargalhada, e eu lhe acompanhei. Realmente, era cômico como eu acabava me metendo em cada situação. Pelo menos, tive a ajuda de uma pessoa que talvez tivesse uma amizade, nem que fosse passageira de algumas semanas.
Depois do ocorrido, voltei ao hotel e fui direto para a área dos funcionários e contei exatamente para Cíntia o que havia acontecido. Ela também não evitou rir, porque era uma história tão engraçada. Enquanto apenas revirava os olhos para ela, Cíntia me deu uma segunda roupa e alguns produtos de higiene. Mesmo após ter tomado outro banho, sentia que ainda estava com aquele cheiro de estrume no meu corpo.
Aquele homem que me ajudou se chamava Vincenzo. Ele me afirmou estar na cidade para a inauguração de uma de suas empresas, que permaneceria no hotel durante umas três semanas. Então, penso que acabarei o encontrando provavelmente algumas vezes pelo hotel. Toda vez que o observava, sentia que o conhecia de algum lugar, tinha um olhar tão familiar.
Minha chefe mandou me chamar para perguntar sobre o meu atraso e expliquei a ela a situação toda. Ela me afirmou que o dono do hotel também já havia lhe advertido sobre isso e entendia perfeitamente. E me perdoou pelo atraso, pois acidentes acontecem. Fiquei aliviada, mas ela também não deixou de rir. Havia achado a cena e a história engraçada.
Decidi focar nas minhas tarefas, pois havia chegado um grupo de turistas que precisariam de um tradutor. Como eu falava espanhol e inglês bem, seria a encarregada de cuidar desse grupo de hóspedes. Tento esquecer esse episódio constrangedor de hoje! Amanhã, colocarei meu despertador no horário certo para evitar passar por isso novamente.
Fico perguntando-me: quando contar isso para Pérola, decerto será outra que irá rir da minha cara, conhecendo a amiga que tenho. Ela passará dias me lembrando do episódio. Eu me questiono como aquele cara apareceu do nada naquele sinal. Deveria ser proibido andar por ali com aquela quantidade de estrume, ainda mais em uma rua movimentada. É melhor procurar esquecer isso e cuidar dos meus afazeres. Só de lembrar da vergonha que passei, sinto uma raiva.