Às vezes me pego a pensar em como as coisas poderiam ser diferentes! Bastava que minha mãe ainda estivesse comigo e talvez esse fardo fosse mais fácil de suportar.
Éramos três e as coisas sempre pareciam bem. Mesmo minhas lembranças levando-me à uma época em que eu tinha somente 11 anos de idade, as coisas pareciam perfeitas ao meu ver.
Casa humilde, conforto mínimo, mas vivíamos felizes, isso é algo certo em minhas lembranças, mesmo que há tempos não saiba o que isso signifique.
Depois desta época lembro de consultas, médicos, de minha mãe sempre deitada, fraca, a cabeça não abrigando sequer um fio de cabelo.
Mais tarde descobri que o que a fazia tão debilitada era um câncer. Descobri que minha mãe teve uma forma agressiva de tumor na mama e que, mesmo lutando bravamente por dois longos anos, ela perdeu a luta e sucumbiu a esta maldita doença.
E depois que minha mãe partiu, as coisas nunca mais foram as mesmas.
Tive que aprender a fazer muita coisa sozinha. Tive que aprender a conviver com a ausência de dona Elenice e indiretamente de meu pai.
Sim, no momento que mais precisei, ele se atolou no trabalho, afastou-se fisicamente de mim para curar sua própria dor e com o tempo a distância emocional passou a ser insuperável.
Continuei estudando na mesma escola que frequentava, onde minha mãe era professora. Acho que por pena ou por algum pedido feito por ela, frequentava a escola em tempo integral, o que facilitou para que meu pai dedicasse ainda mais tempo ao trabalho, que de repente passou a ser a
coisa mais importante para ele, mesmo que tivesse uma adolescente para amar, mas de repente parecia que Fernando dos Santos tinha esquecido o que era isso.
E seu esforço no trabalho começou a ser reconhecido, mesmo que neste momento ele quase nem lembrasse de minha existência. Mesmo que os momentos de carinho já não existissem e seu cansaço físico fosse tal, que ele sequer questionasse como tinha sido o meu dia. De repente o alto escalão da Solar Madeireira Paulista percebeu que o contador que trabalhava na filial seria mais proveitoso se fosse trabalhar no escritório central. Que seria mais útil como chefe da equipe, visto que a pessoa que coordenava o serviço anteriormente havia acabado de se aposentar.
E foi aí que iniciou o meu suplício.
Como se perder a mãe e o amor do pai não fosse suficiente. Como se meus dias não fossem difíceis o bastante.
Percebi com o passar dos anos que as coisas poderiam piorar e certamente iriam. Só que naquele momento não imaginava o quanto.
Aos 15 anos já morávamos no apartamento da empresa, localizado próximo ao edifício central, onde os executivos coordenavam o desempenho das filiais e avaliavam os números da empresa que aparentemente só aumentavam.
Digo isso por continuar estudando em tempo integral, na capital paulista, agora não sendo mais um favor e sim pago por papai, que desconfio gastar este dinheiro para não ter que se preocupar com uma adolescente melancólica que foi o que me tornei.
E não foi só a escola em tempo integral que mostrava que as coisas iam bem no trabalho. O carro foi trocado por um modelo atual, suas roupas agora eram basicamente terno e gravata e a imagem que tinha do meu pai desaparecia ainda mais com suas novas vestimentas.
Mais e mais sentia-me distante dele.
Numa das raras vezes que me participou algo do seu trabalho, papai relatou-me que tinha sido promovido a diretor e garantiu-me que era um cargo bem alto e que ele sonhava em alcançar um lugar ainda mais elevado dentro do grupo.
A partir de então começou a participar de jantares de negócios, ter uma vida noturna movimentada e nosso tempo juntos passou a ser inexistente.
Jamais se incomodou em deixar uma adolescente sozinha. Jamais preocupou-se com o meu bem-estar.
Imaginava talvez que bastava deixar a geladeira cheia de comida congelada de supermercado e um cartão de crédito para que eu pedisse comida em um aplicativo desses qualquer.
Talvez o sonho de muita adolescente: cobrança zero e liberdade total.
Mas para mim isso era considerado descaso. Magoava-me sobremaneira essa falta de cuidado.
Sem uma mãe para me aconselhar e um pai ausente, tornei-me uma jovem retraída, que sequer sabia manter um diálogo, sequer tinha vontade.
Sem amigos, nem sequer confidentes para desabafar toda a tristeza que preenchia-me a alma.
E cada vez afastava-me mais, cada vez habitava um mundo em que somente lembranças boas existiam. Lembranças de uma família feliz e esses devaneios impediam-me de ceder a dor que me maltratava.
E o tempo foi passando e meu pai aparentemente saía-se cada vez melhor e galgava cada vez mais rápido ao topo e mais distante ainda do pai que outrora foi.
E um infortúnio do destino somente tornou impossível o que já era péssimo.
O grande presidente do grupo Solar Madeireira Paulista faleceu em um acidente de trânsito. Uma fatalidade.
Um bêbado invadiu a contramão, colidindo de frente com o veículo do presidente da empresa.
Leandro Rodrigues faleceu ainda no local, sendo noticiado em todos os meios de comunicação.
No momento em que tudo isso aconteceu, meu pai era o braço direito dele, por administrar as finanças da empresa.
Percebi que meu pai já não habitava o corpo daquele homem que morava comigo quando o vi vibrar com a chance de ser promovido a presidente interino, visto que o herdeiro tinha somente 21 anos e sequer tinha experiência, pois preocupava-se mais com festas do que com qualquer outra coisa.
- Esta é a grande chance que eu estava esperando!
O homem que conheci jamais estaria tão feliz com esta possibilidade de promoção. Não quando para usufruí-la uma pessoa tenha perdido a vida, uma pessoa que sabidamente reconheceu seu trabalho.
E a distância entre nós tornou-se um abismo intransponível.
De repente completei 18 anos e meu pai sequer se lembrou de me parabenizar.
Ele estava mais preocupado em se manter no cargo. Estava mais preocupado em consolar a viúva.
Sim, meu pai aparentemente comoveu-se com a situação dela, aparentemente condoeu-se com sua dor.
E qualquer tempo livre que restava era destinado a ela e a família. Aos órfãos do pai morto, sem sequer preocupar-se com a órfã de um pai vivo.
Era assim que me sentia. Órfã. Desamparada.
E isso tornou-me ainda mais reservada, talvez até antissocial.
E todo cuidado e amparo talvez tenham surtido o efeito desejado. De repente meu pai estava sendo apresentado como namorado da socialite e herdeira Virgínia Rodrigues.
Talvez o homem que um dia chamei de pai não fosse capaz disso, mas a pessoa que dividia o apartamento comigo era capaz disso e muito mais.
Acho sim que tudo foi planejado, que o cuidado dispensado tinha esse intento, agora atingido.
Ele passou de presidente interino a presidente efetivo e visto com bons olhos por toda a diretoria e pelos familiares.
Finalmente ele está onde sempre quis estar.
Finalmente ele está a anos-luz de distância de sua única filha, mais próximo de todo poder e dinheiro que parece tanto lhe agradar, que parece ser tão importante para o homem que um dia conheci.
E claro que se mudou para a mansão nos Jardins, claro que ele queria usufruir de todo o conforto e glamour.
E infelizmente levou-me com ele.
- Até os 21 anos você fica comigo, Clara.
E era um ultimato. Era já um aviso que nosso tempo juntos tinha prazo para acabar.
E jamais achei que esperar três anos me pareceria um tempo longo demais. Que vinte e um anos talvez fosse uma idade longe demais para ser atingida.
E confirmei isso segundos após pisar meus pés naquela casa.
Ostensiva de todo o luxo que o dinheiro podia comprar, mas que não transmitia a mim outro sentimento que não fosse vazio, que não fosse solidão.
E infelizmente isso era o mínimo que me esperava, isso era talvez a parte boa do pesadelo que se iniciava.
Percebi que meu pai talvez tenha ganhado uma nova esposa, mesmo que ela se recusasse a oficializar a situação deles e isso por si só já dizia muita coisa sobre este relacionamento, que para mim mais parecia com um contrato comercial, onde ele ocupava o cargo que sempre almejou, mas estava mais do que vigiado pelos herdeiros, mais precisamente a vigilância era feita até quando ele dormia.
Como não sou boba, sei que ela se sujeitou a estar com um homem da classe social de meu pai, tão distante da de si própria, para ter alguém competente à frente da empresa. Sei também que se ele não tivesse essa serventia, sequer pisaria na calçada da sua casa, quiçá deitaria em sua cama.
E como sei disso?
Pelo olhar que dirige a mim.
Como não tenho importância para a manutenção da empresa no patamar que alcançou, sou vista como um ser indesejado, inferior.
Ela dispensa a mim toda a repugnância que sente por pessoas de classe social diferente da sua, enquanto tolera meu pai por ser alguém necessário
E sequer tenho pena dele, pois sei que isso não passa de um jogo de interesses de ambas as partes. Onde todos saem ganhando. E onde somente eu saio perdendo.
E toda essa percepção me faz tomar instantâneo conhecimento que os meus 21 anos demorarão a chegar.
Que meus dias por aqui não serão fáceis.
E que talvez todo esse luxo e riqueza nada mais seja do que uma imensa e gigantesca gaiola dourada.
Sempre sonhei com conto de fadas. Castelos. Príncipes encantados. Sempre com finais felizes.
Mas nunca imaginei que fosse viver um. Que fosse viver um na forma mais minuciosa, mais detalhada.
Que fosse protagonizar a princesa mais sofrida, que fosse viver de forma tão pontual o conto da Cinderela.
Tem madrasta má, "irmã" malvada, acomodações a desejar.
A única coisa que difere é que tenho um pai vivo, até mesmo conivente com os perrengues que passo.
- Clara, sua imprestável, onde você está?
Até a voz estridente me aborrece. O tom, o timbre, tudo nela me desagrada.
Na Virgínia, mas também em sua filha Bianca.
Concordo plenamente com o ditado que diz: quem sai aos seus não degenera.
Neste caso é a verdade mais pura: tal maligna mãe, tal maligna filha! Faço-me de desentendida, como se a achasse ao menos suportável.
- Estou na biblioteca, Virgínia.
Sei que ela não gosta que eu frequente o lugar, mas deixei de me incomodar. Sei que de qualquer forma ouvirei gritos e críticas, então que seja por um bom motivo.
- Ah, mas é mesmo uma ratinha de biblioteca!
Diz para agredir, maltratar. Felizmente não tem este poder, simplesmente não me afeta.
Deixei de me importar, de me machucar, a partir do momento que perdi meu pai.
Perder minha mãe doeu, saber que jamais a terei comigo causa uma dor imensurável, incomparável, mas conviver com um pai que deixou de se importar, desistiu de amar, dói ainda mais. Porque ele está aqui, mesmo que não seja para mim, mesmo que jamais seja.
- Deveria trancar essa biblioteca! Deveria impedir que você colocasse seus pés aqui. Vê se pode, uma zinha qualquer, sem eira e nem beira, lendo, refletindo, quem sabe filosofando? É por isso que o mundo está essa bagunça, os subalternos não sabem mais o seu lugar!
Esse preconceito, essa mania de sentir-se sempre superior, tudo isso apenas reafirma que o relacionamento dela com papai resume-se exclusivamente a interesse.
Ela é incapaz de amar e ele, também tenho lá as minhas dúvidas se é capaz.
Permaneço em silêncio, não vou cansar a minha beleza.
Ela jamais vai mudar essa forma distorcida de enxergar a vida e eu certamente evitarei castigos e punições se mantiver minha boca calada e minha opinião guardada apenas para mim mesma.
- Mesmo você não merecendo o cuidado, tive uma conversa com seu pai sobre o seu futuro.
Chego a ter comichão com esse comentário.
- Chegamos à conclusão que cursará a mesma faculdade da minha filha. Mesmo a mensalidade estando além de suas posses, arcarei com essa despesa. Realmente minha caridade não tem limites!
Hipócrita! Arg!
Este seu comentário infeliz faz eu sair um pouco de órbita e não atentar para o teor do que ela realmente quis dizer.
- Não entendi.
- Além de pobre e feia, ainda é burra!
Sei que eu não revidar não ajuda em nada a situação, assim também como sei que ao retrucar estarei me condenando a todo tipo de punição e maus tratos, sem ninguém a quem recorrer. Obrigo-me então a me manter impassível, mesmo que minha vontade seja tirar esse sorriso nojento de sua face desagradável.
- Mas como não quero desgastar a minha beleza em uma conversa infrutífera com alguém como você, vou ser curta e grossa: você ficará onde possa ser observada. Ficará onde sei que não encontrará delinquentes da sua laia que possa armar algo, juntamente com você, para tentar roubar o que é meu.
É uma doente. Além de uma pessoa maldosa, é uma pessoa capaz dos piores julgamentos com relação ao próximo.
Chego a sentir-me enjoada, tamanha é a repugnância que esse ser me causa.
Quando lembro das risadas e das conversas que tem com papai, percebo que alguém para ter uma convivência tão boa com esta criatura, somente pode ser alguém parecido com ela.
E isto realmente me abala. Mais do que o preconceito, mais do que este discurso ofensivo, mais do que a incapacidade de fazer a faculdade que meu conhecimento permite, após ter estudado tanto, dedicado-me tanto.
Isto é fichinha em comparação a descoberta que acabei de fazer. Sou sozinha no mundo.
Somente conto comigo e com Deus.
Não tenho família e meu pai é alguém que não me quer em sua vida e acabo de descobrir que talvez não o queira também ao meu redor.
Não quando puder evitar.
Não quando completar meus 21 anos.
Não quando puder me afastar de tudo isto. Quando puder afastar-me de todos eles.
Mesmo que isso talvez me impeça de jamais colocar os olhos novamente em Marcelo Martins.
- Finalmente você aprendeu que comigo não se bate de frente. Que nessa casa mandamos e você obedece, como a escória que é e sempre vai ser.
Sim, ela já deu o recado, mas continua com as ofensas, porque lhe faz bem ser como é. Virgínia se sente bem em ofender-me e felizmente isso não mais me machuca.
- Então era isso que queria determinar. Agora dependerá de você passar na prova, coisa que duvido. Mas se não passar, jamais poderá alegar que não teve a chance de fazer uma faculdade. Coisa que no futuro pode lhe ser útil, pois fala-se muito nas vantagens que os presidiários de nível superior tem em detrimento dos demais detentos.
E rir. Com prazer. Como o ser maléfico e asqueroso que é.
Seu comentário anterior sequer me abala. O fato de não poder escolher a faculdade, de não poder prestar o ENEM, isso sim mexe comigo.
Infelizmente está além de minhas forças fazer diferente.
Não quando não tenho um parente a quem recorrer. Não quando ainda não tenho a chance de me manter.
Claro que poderia tentar um emprego e tentar passar em uma universidade gratuita.
Claro que poderia sim optar por esse caminho, mas no fundo sei o que me prende aqui.
Tenho esperança que algo traga meu pai de volta.
Que ele descubra a real pessoa que sua namorada é. Mesmo que talvez ele já tenha ciência de suas maldades.
Mas que ela direcione a ele suas perversidades, e assim o faça sair deste encantamento glamoroso que tanto buscou.
Apenas essa possibilidade me faz persistir. Resistir. Faz-me aguentar tudo isso.
Talvez minha mente de 18 anos ainda me faça acreditar em milagres. Talvez a adolescente abandonada que fui ainda sonhe com amor filial, ainda acredite em finais felizes.
Não sei realmente precisar o que me faz submeter a tudo isso, só sei que permaneço por aqui.
Mesmo que saiba que talvez, pelo bem ou pelo mal, tenha prazo para encerrar.
Mesmo sabendo que nos meus 21 anos, tendo ou não meu pai comigo, tudo isso terminará.
Que tudo que suporto tem prazo para findar, para acabar.
E tentarei passar por isso, absorvendo o máximo de conhecimento possível.
Tentarei fazer do meu curso o sentido da minha vida.
Tentarei obter as melhores notas, obter talvez estágios que abram possibilidades de um futuro.
Um futuro onde eu seja capaz de me manter quando chegar a hora.
Onde consiga me sustentar, caso não possa contar com meu pai.
E no fundo, bem no fundo, sinto que isso realmente é o que acontecerá.
- Olha se não é a minha querida irmãzinha!
Bianca diz com ironia e solta uma risada debochada.
Letícia Martins a acompanha no riso. Certamente tem os mesmos valores, pois apresenta um comportamento igual ao da amiga.
Mal se passou uma semana e percebi que meu tempo por aqui não será fácil.
- E estas roupas? Não sabia que esta faculdade tinha cotas pra
mendigos!
Elas representam o que há de pior na humanidade. De mais podre.
Um riso de escárnio toma conta do pátio. Parece que os filhinhos de papai não tem outra diversão que não seja menosprezar o próximo.
Assim que me afasto um pouco, sinto um toque discreto me meu braço.
Se não soubesse que Letícia tinha uma irmã gêmea, esperaria mais ataque. Mas esta semana fez-me saber que a amiga víbora de Bianca, tem uma irmã idêntica, mas que nunca vi socializar com a turma que estava me diminuindo.
- Não entendo por que você aguenta tudo calada!
Precisaria de um dia para dizer meus argumentos. Precisaria de paciência para discorrer sobre como tudo isso me colocaria em maus lençóis quando chegasse na gaiola em que moro.
- Não vale a pena!
Frase pequena, mas que resume muita coisa. Que fala tudo que não verbalizei.
Ela abre um sorriso gigante. Como se tivesse realmente gostado do que falei.
- Meu nome é Cibely, prazer!
Nada de gritar seu sobrenome. Nada de demonstrar que pensa como sua irmã.
- Acho que com uma semana de aula já deu para saber seu nome. Sim, cursamos o mesmo curso. Cursamos Administração.
Diferente da dupla de bruxas. Graças a Deus que sua irmã e Bianca estudam Design de Moda.
- Claro que deu. Assim como sei que o seu é Clara. Afirmo com a cabeça.
Faço cara de quem não está entendendo onde essa conversa está nos levando.
- Mas não é saber o seu nome, dito na frequência, que nos tornará amigas. Uma apresentação formal sim. Um conhecimento de que sou diferente da minha irmã, talvez faça você ver com bons olhos minha aproximação.
Não imagino o que podemos ter em comum. Não imagino como possamos ser amigas.
Mas se tem uma coisa que não me tornei foi uma pessoa amarga. Posso ser retraída, posso não ser sociável, mas felizmente a vida e seus dissabores ainda não afetaram a fé que tenho na humanidade.
- Prazer, Clara!
Digo como se não tivesse questionado seu gesto. Como se a conversa anterior jamais tivesse ocorrido. Como se estivesse pronta para ser sua amiga.
Como se sua amizade fosse realmente o que estivesse precisando.
Como se talvez as coisas pudessem ser mais fáceis a partir de então.
De repente as coisas parecem que ficaram mais leves. Mais toleráveis.
E Cibely é a grande responsável por este meu novo modo de perceber a minha realidade, de perceber a minha vida.
- Amo o fato de você ser tão inteligente!
Estamos no intervalo, revisando o conteúdo da prova que teremos na próxima aula.
Minha mais nova amiga relatou pequenas dúvidas e eu, de bom grado, ajudei a esclarecê-las.
- Se não tivesse sido amor à primeira vista, diria que minha inteligência, acima da média, era a real intenção por trás de sua aproximação - gracejo.
Sim, nossa interação me deu confiança para fazer este tipo de comentário, este tipo de brincadeira.
Seu modo extrovertido de levar a vida, está pouco a pouco me tirando do casulo em que estava.
- Mesmo o amor tendo sido imediato, certamente essa sua inteligência ajudou e muito a fortalecer nossos laços.
Ela usa o mesmo tom.
Talvez antes de conhecê-la julgasse que poderia sim haver algum interesse escuso, mas este mês que passamos grudadas, mostrou-me que o que de fato nos une é a pura repugnância ao comportamento da grande maioria dos ricaços que aqui estudam.
Cibely não tolera o preconceito e a superioridade que muitos da sua classe social demonstram com alguém que se veste com roupas que não possuem etiquetas famosas ou que não frequente shoppings e salões de beleza.
Ela os considera vazios e me confidenciou que pessoas assim jamais seriam capazes de agregar nada em sua vida.
- E aí, já decidiu se vai na minha casa depois da aula? Você prometeu que me ajudaria com a prova de amanhã!
Meu pai jamais se importaria com o meu horário. Talvez até ficasse satisfeito em saber que estou na casa dos Martins.
Sim, pois se a família postiça que ele adquiriu para nós tem dinheiro, os donos da Láctea do Brasil têm talvez mil vezes mais.
É a maior empresa de leite e derivados do país e tudo na roupa das gêmeas fala sobre isso.
Assim como tudo em mim grita sobre a nossa diferença social, e eu não poderia estar menos preocupada com isso.
- Não entendo por que não podemos estudar na biblioteca, como sempre estudamos!
Sempre que ela me convida consigo convencê-la a ficarmos na biblioteca da faculdade, mas hoje minha amiga está irredutível.
- Você sabe que lá não consigo concentração suficiente e que estou com dificuldade real nesta disciplina.
Aceno com a cabeça, pois é algo que já havíamos conversado a respeito.
- Sei também que não se sente à vontade para levar-me aos domínios da madrasta má, então resta-nos, como opção, o meu singelo quarto, regado a toda variedade de guloseimas que possa imaginar.
Sim, ela está jogando baixo. Sabe o quanto sou louca por doces. Sabe o quanto os chocolates que sua família produz tem efeito sobre mim.
- Pelo que me lembro de nossas conversas, sua mãe não pensa diferente de Virgínia!
Uso o real motivo que reluto em frequentar a sua casa, pelo menos o motivo mais plausível.
Claro que não quero dizer sobre como seu irmão altera meus batimentos cardíacos.
Como o CEO da Láctea do Brasil causa uma verdadeira revoada de borboletas em meu estômago.
Não poderia dizer como Marcelo Martins altera minhas emoções, mesmo que ela seja minha melhor amiga. Na verdade minha única amiga.
- Pensei que estivesse blindada disto tudo. Blindada deste modo distorcido com que estas pretensas pessoas superiores enxergam a vida. Baixo a cabeça porque mesmo nossa amizade me tornando ainda mais forte e mais capaz de suportar o convívio com este tipo de gente, as
coisas não são tão fáceis como gostaria que fossem.
- Por mais que tente demonstrar que sou forte e que os comentários não me atingem, no fundo eles doem. Não por esperar coisa diferente deste tipo de gente, mas por receber sempre este tipo de abordagem, por sequer receber uma chance, e tudo isso apenas porque não possuo dinheiro ou linhagem de rico. Parece até que nada tenho a oferecer.
Deixo-a entrever na minha armadura tão bem construída para me proteger de tudo isso. Deixo minha amiga perceber que essas coisas machucam, mesmo que eu não me permita deixar transparecer.
- Infelizmente essa é a realidade. Infelizmente em nosso meio tudo isso conta muito, embora existam pessoas que não valorizam este tipo de atributo.
Controlo-me para não perguntar se seu irmão é este tipo de pessoa. Para não perguntar se o comportamento de Marcelo parece como o seu
próprio ou com o da sua insuportável irmã.
- Sendo assim, Clara, não posso evitar que este tipo de situação aconteça. Não posso garantir que não passará por isso. A única coisa que posso prometer é que farei qualquer coisa para protegê-la deste tipo de situação. É que farei tudo que estiver ao meu alcance para que você seja tratada sempre com a dignidade que merece.
E eu sei disso. Nossa convivência tem me mostrado isso. Fico emocionada por seu carinho, por sua amizade.
E então tomo uma decisão.
Pode nem ser a certa. Pode ser algo que me traga ainda mais sofrimento.
Mas enfrentarei, por Cibely, mas principalmente por mim.
Mesmo que me seja desconhecido, mesmo que não me traga um bom presságio.
E infelizmente para mim, neste momento, eu não teria como saber tudo que essa atitude acarretaria na minha vida.
Como todo o sofrimento que passei até aqui se tornaria fichinha em comparação ao que estaria por vir.
Mesmo que não tenha nascido rica, muito longe disso, este tempo em que tenho vivido na casa de Virgínia fez-me reconhecer objetos caros, reconhecer coisas valiosas, que somente muito dinheiro pode comprar.
E percebe-se quão dinheiro alguém pode ter, para ter um ambiente tão luxuoso.
Quão dinheiro para se ter tantos objetos e utensílios em ouro e prata e algo me diz que jamais seria imitação.
Que seriam peças reais, utilizadas para ostentar, para mostrar que não há nada que o dinheiro desta família não possa comprar.
Este mero pensamento causa-me calafrios. Faz-me arrepender de ter concordado com a ideia da minha amiga.
Mesmo já estando estudando há um tempo e não tendo tido nenhum dissabor, somente quando estiver na segurança do meu quarto é que ficarei tranquila.
- Parece que você espera que uma tragédia aconteça a qualquer momento! Relaxa Clara, ninguém desta casa come mocinhas indefesas no jantar.
Sua voz tem um tom de deboche que não me passa despercebido.
- Ah Cibely, se você queria me tranquilizar com este seu comentário, garanto que a ação alcançada foi justamente o contrário!
Falo, deixando claro que não achei graça nenhuma em seu comentário inoportuno.
- Desculpe amiga, acho que todo o esforço para entender este conteúdo está afetando o meu humor.
Ela me dá um sorriso leve, um pedido singelo para que eu aceite suas desculpas.
Aceno afirmativamente com a cabeça, relevando tudo o que foi dito em nossa conversa anterior.
- Acho que uma pausa para o lanche nos faria muito bem!
E antes que eu consiga sequer opinar ela entra em contato com a cozinha, por um aparelho que fica no criado-mudo de sua cama, e solicita todo tipo de petisco para que seja providenciado por quem está conversando com ela.
E diga-se de passagem, muitas coisas que agradam meu paladar, coisas que não são sofisticadas e que satisfazem o meu gosto.
Quando ela termina dou-lhe um abraço carinhoso, que é prontamente retribuído.