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A Magia do Natal

A Magia do Natal

Autor:: Nayara Barbosa
Gênero: Romance
*ESPECIAL DE NATAL 2025* SINOPSE: Isadora vive em uma pequena cidade no interior, onde o Natal é o evento mais esperado do ano. Entre lareiras acesas, biscoitos de gengibre e luzes piscando, ela ajuda os pais a cuidar do simples - mas encantador - hotel da família. Do outro lado da fama, Leon Nogueira, um cantor e compositor renomado, vive o oposto do espírito natalino: o fracasso de seu último show e a perda da inspiração o levam a fugir de tudo. Sem destino certo, ele acaba hospedado no hotel dos pais de Isadora - um lugar onde, por acaso, ninguém o reconhece. Enquanto tenta redescobrir sua paixão pela música, Leon se surpreende com a voz doce e o coração sincero de Isa. Entre conversas, ensaios e noites iluminadas por pisca-piscas, nasce algo inesperado. Mas um vídeo gravado às escondidas muda tudo. A confiança é quebrada, e o amor parece se perder no meio do barulho das redes sociais. Agora, só o verdadeiro espírito do Natal - e uma canção feita a duas vozes - poderá mostrar que o amor é o mais mágico dos milagres.

Capítulo 1 Prólogo

Isadora Monteiro

Naquela manhã eu acordei mais cedo do que o comum. O sol ainda mal havia aparecido por trás das montanhas e a cidade dormia em silêncio, envolta por uma névoa fina e pelas luzes piscantes que resistiam à madrugada.

Era dezembro - e em dezembro, tudo por aqui ganha uma espécie de brilho próprio. Até o ar parece mais doce.

Calcei meus tênis gastos, prendi o cabelo em um coque apressado e saí pelas ruas estreitas. Correr pela cidade logo cedo se tornou meu pequeno ritual, uma forma de agradecer pela vida simples que levo, e de lembrar o quanto amo esse lugar.

As casinhas coloridas, o cheiro de pão fresco vindo da padaria da Dona Zuleica, as guirlandas nas portas... cada detalhe parecia me abraçar.

O som do meu passo ecoava no calçamento molhado de orvalho, e eu respirava fundo, sentindo o aroma da terra úmida misturado ao perfume das flores que o Seu Ernesto insistia em cuidar, mesmo no frio. Ele sempre dizia que flores no inverno eram um sinal de esperança - e eu acreditava.

Passei pela pracinha central, onde a prefeitura já montava o grande pinheiro de Natal. Clara, minha melhor amiga, estava ali, enrolada num cachecol vermelho, dando ordens para dois rapazes que penduravam luzes douradas. Ela me viu e acenou, sorrindo como quem carrega energia de sobra mesmo antes das sete da manhã.

- Isaaaaa! - ela gritou, com aquela voz animada que parecia ecoar por toda a cidade. - Depois passa no coreto, precisamos de ajuda com os enfeites!

- Eu passo, prometo! - respondi, rindo.

Continuei a correr, mas dei uma última olhada pra ela. Clara Vasconcellos era assim mesmo: intensidade pura. Se o Natal fosse uma pessoa, seria ela.

Dobrei a esquina que levava ao rio e vi o reflexo das luzes nas águas calmas. Ali era meu ponto preferido. Eu parava, fechava os olhos e pensava em como minha vida, embora simples, era exatamente o que eu queria.

Às vezes me perguntava como seria morar em uma cidade grande, ou seguir carreira em algum lugar distante. Eu canto desde pequena, mas nunca imaginei que o mundo precisasse ouvir minha voz. Aqui, entre montanhas e sorrisos conhecidos, eu já me sentia suficiente.

Quando o sol finalmente rompeu o véu de neblina, voltei para casa. O Hotel Monteiro, onde moro e trabalho com meus pais, ficava no alto da colina, cercado por pinheiros e com vista para toda a cidade. O prédio é antigo, de madeira clara e varandas floridas. Um lugar que mais parece ter saído de um cartão-postal.

Assim que entrei, o cheiro de canela me envolveu.

Mamãe estava na cozinha, preparando os biscoitos natalinos que os hóspedes tanto amavam. Helena Monteiro tem mãos de fada e o dom de fazer qualquer um se sentir em casa.

- Bom dia, meu amor - ela disse, sem olhar pra mim, ocupada demais decorando as forminhas. - Dormiu bem?

- Dormi. Só acordei cedo pra correr. A cidade está linda, mãe. Clara está terminando os preparativos da praça.

Ela sorriu, e eu percebi o cansaço em seus olhos. A época do Natal era a mais movimentada do ano no hotel, e ela se desdobrava entre a cozinha, as reservas e as decorações.

- Seu pai já foi buscar lenha - avisou. - Disse que vai consertar a lareira antes da noite.

Papai. Francisco Monteiro - ou Chico, como todo mundo chama. O homem mais gentil que eu conheço. Brinca com as crianças, conversa com os hóspedes como se fossem velhos amigos e sempre tem uma história nova pra contar.

Enquanto colocava a mesa para o café, ouvi o barulho do carro dele chegando. Ele entrou pela porta dos fundos, batendo as botas na soleira e trazendo o cheiro da manhã junto com ele.

- Bom dia, minhas meninas! - disse, tirando o gorro e me dando um beijo na testa. - Trouxe lenha boa e seca. Hoje à noite o fogo vai cantar bonito.

- Cantar bonito? - brinquei. - Quem canta bonito aqui sou eu, pai.

Ele riu, e mamãe balançou a cabeça, fingindo reprovação.

- Isadora, você devia cantar mais. - disse ele, sério por um instante. - A cidade toda se encanta quando ouve sua voz.

- Eu canto só pra mim - respondi, desviando o olhar. - E pro Natal, talvez.

Cantar em público ainda me deixava nervosa, mesmo depois de tantos anos ajudando no coral da igreja. Mas papai sempre insistia que a música era um dom, e que dom guardado perdia o brilho.

Depois do café, fui para a recepção do hotel. Gosto de observar as reservas, organizar as chaves, sentir o cheiro do pinheiro enfeitado no saguão. Ali, cada detalhe tem história: o carpete gasto pelas malas de viajantes, o sino dourado que papai trouxe de uma feira antiga, e as fotos nas paredes, com registros de famílias que passaram o Natal conosco ao longo dos anos.

O telefone tocou.

- Hotel Monteiro, bom dia! - atendi, animada.

Era Dona Zuleica, da padaria.

- Isadora, querida! Manda o Chico passar aqui, tenho pão de mel fresquinho e preciso devolver a travessa da sua mãe!

Sorri.

- Pode deixar, Dona Zuleica. E guarde uns pra mim, tá?

Ela riu do outro lado da linha.

- Se sobrar, guardo!

Desliguei e, por um instante, fiquei olhando a neve começar a cair lá fora - os primeiros flocos da temporada. A cidade parecia coberta por um véu de magia. As crianças corriam na praça, o padre Antônio acenava da igreja, e o sino do relógio do Seu Ernesto marcava as oito horas.

Peguei meu casaco e fui até a varanda, onde papai ajeitava uma estrela dourada no topo do pinheiro do hotel. Ele sempre fazia isso com um orgulho quase infantil.

- Fica bonita, né, filha? - perguntou.

- Fica perfeita, pai. - respondi. - Como todos os Natais daqui.

E realmente era.

Nosso Natal sempre foi simples, mas cheio de alma. Havia música, comida boa e amor. Havia também pequenas tradições: Clara vinha cantar comigo na igreja, mamãe fazia chocolate quente pra todo mundo, e o hotel se enchia de gente de lugares diferentes, cada um com uma história para contar.

Olhei para a estrada que cortava a montanha e pensei em como o mundo lá fora devia estar tão diferente, tão rápido, tão barulhento. Aqui, o tempo parecia andar devagar, respeitando o ritmo do coração.

Não sabia que, naquela mesma estrada, o destino estava prestes a mudar o rumo dos meus dias.

Mas naquela manhã, tudo ainda era paz.

---

Mais tarde, fui até a praça ajudar Clara com os preparativos. Ela estava empolgada como sempre.

- Isa! Você precisa ver como está ficando o coreto! - disse, puxando minha mão. - Vai ser o ponto principal da celebração!

O coreto estava adornado com fitas vermelhas, pinhas douradas e luzes brancas. Parecia saído de um sonho. A prefeita Marlene supervisionava tudo com seu bloquinho em mãos, resmungando sobre prazos, mas com um brilho no olhar que denunciava o quanto amava aquilo.

- Bom dia, Isadora - disse ela, anotando algo. - Sua mãe vai preparar o buffet da festa, certo?

- Sim, prefeita. Já está tudo encaminhado.

- Ótimo. - Ela sorriu. - E você, minha querida, vai cantar de novo este ano, não vai?

Senti o coração acelerar.

- Ainda não sei...

Clara revirou os olhos.

- Claro que vai! Ela só está fazendo charme.

A prefeita riu, satisfeita, e seguiu para outro grupo. Fiquei olhando Clara, que cruzou os braços e me encarou com aquele olhar de quem não aceita desculpas.

- Isa, você nasceu pra isso. O coral sem você não é o mesmo.

Suspirei, olhando as luzes piscarem.

- Eu só... não sei se tenho coragem.

Ela colocou a mão no meu ombro.

- Você tem mais do que coragem. Tem coração. E é isso que a cidade ama.

Clara sempre soube o que dizer.

Voltamos a trabalhar nos enfeites, e o dia passou rápido. O sol se pôs tingindo o céu de dourado, e a cidade inteira parecia respirar o mesmo ar de expectativa. Faltavam apenas duas semanas para o Natal.

Quando voltei ao hotel, os primeiros hóspedes começavam a chegar. Um casal de idosos, uma família com crianças... rostos conhecidos, histórias antigas.

Cumprimentei cada um com um sorriso, sentindo a alegria familiar daquela época.

Mas, antes de fechar a porta, avistei algo diferente.

Um carro escuro subindo a colina, lentamente, como se o motorista não soubesse exatamente pra onde estava indo.

O farol cortou o véu da neve, e por um instante, um arrepio me percorreu.

Não sei explicar, mas senti que havia algo diferente naquela chegada.

Talvez fosse apenas a sensação de que algo estava prestes a mudar.

Talvez fosse o próprio destino, soprando entre as luzes do Natal.

Naquela noite, enquanto fechava as janelas e o vento sussurrava lá fora, eu ainda não sabia que o hóspede que estava prestes a entrar no Hotel Monteiro traria mais do que bagagem.

Trazia silêncio, segredos...

E uma melodia que, sem saber, estava prestes a mudar a minha vida para sempre.

{...}

Capítulo 2 C.01

Isadora Monteiro

Eu queria poder saber mais sobre aquele hóspede misterioso, mas Clara já estava na porta do saguão me chamando, ansiosa como sempre. Ela fazia gestos exagerados, balançando a cabeça e os braços, como se eu não a tivesse visto ainda.

- Anda logo, Isa! A prefeita quer começar a decorar a praça antes do meio-dia! - gritou ela, com aquele sorriso de quem já estava cheia de ideias mirabolantes.

Suspirei, olhando de relance para o balcão. Mamãe conversava com o homem que havia acabado de chegar. Ele estava de cabeça baixa, com um boné escuro e um sobretudo grosso, como quem queria se esconder do mundo. Não consegui ver o rosto dele, só a maneira calma - quase cansada - como ele falava. Parecia... quebrado por dentro.

Clara puxou meu braço. - Terra chamando Isadora! - brincou, e me arrastou para fora antes que eu pudesse observar mais.

A manhã estava fria, mas a cidade parecia aquecida por dentro. O ar cheirava a pinho e pão de canela, e as ruas estreitas de Monte Belo já exibiam suas guirlandas simples, feitas à mão pelas senhoras da igreja. Era o tipo de lugar em que todo mundo se conhecia pelo nome, onde o carteiro parava para tomar café e a prefeita distribuía abraços como se fosse tia de todos.

No caminho, cumprimentamos os moradores. Dona Zuleica varria a calçada da padaria e levantou a mão:

- Isadora, diga à sua mãe que o bolo de frutas já está pronto pra festa da praça, viu?

- Pode deixar, dona Zuleica! - respondi sorrindo.

Mais adiante, o senhor Afonso ajeitava as luzes em frente à barbearia. - Essas lâmpadas piscam mais que o olho do Tonho pra Rosinha, murmurou, e Clara caiu na risada.

Eu amava aquilo. O som das conversas, o cheiro das casas, a sensação de que tudo estava exatamente onde deveria estar. Monte Belo podia não ter shoppings, avenidas largas nem vida noturna, mas tinha alma. E, especialmente no Natal, parecia que o mundo inteiro cabia ali.

- Você está me ouvindo, Isa? - Clara interrompeu meus devaneios. - A prefeita quer que a gente coordene o coral das crianças. E ela também quer ver se conseguimos alguém pra cantar a canção de abertura da festa.

- Eu? - perguntei, já sabendo a resposta.

- Claro que você! Quem mais? - Ela revirou os olhos. - A cidade inteira ama sua voz, Isa. E se você não cantar, quem vai? O Tonho desafina até pra falar "bom dia".

Revirei os olhos, mas sorri. Clara sempre acreditava mais em mim do que eu mesma.

Quando chegamos à praça, a prefeita Marlene já estava lá, enrolada num cachecol vermelho, supervisionando os enfeites. O coreto era o centro de tudo: as luzes piscavam, os sinos dourados pendiam das grades e o pinheiro enorme, ainda sem a estrela no topo, dominava a paisagem.

- Meninas! - ela nos chamou com aquele tom animado. - Precisamos que vocês ajudem com o coral e revisem a lista dos presentes da campanha solidária. A cidade toda vai comparecer à véspera de Natal. Quero que Monte Belo brilhe.

Clara assentiu entusiasmada, mas eu ainda pensava no hóspede misterioso. A imagem dele não saía da minha cabeça - o olhar cansado, o modo como segurava a mala como se fosse o único pedaço de casa que ainda lhe restava.

- Isa? - Helena tocou meu braço. - Você está bem?

- Estou, prefeita. Só pensando... - hesitei, tentando afastar o pensamento. - Nas músicas. Vou preparar algo especial.

Ela sorriu. - Sabia que podia contar com você.

Durante as horas seguintes, ajudamos a organizar os enfeites, penduramos fitas vermelhas e douradas, e Clara quase caiu da escada duas vezes tentando colocar as bolas no topo da árvore.

- Se você cair, eu não vou te carregar até o hospital, - avisei, segurando a escada.

- Ah, vai sim. Você me ama demais pra me deixar aqui estatelada.

- Talvez eu só tire uma foto primeiro.

Rimos juntas. Era isso que eu mais amava na Clara - a leveza dela, a capacidade de transformar qualquer preocupação em riso.

Quando o sol começou a descer por trás das montanhas, a praça já estava pronta. As luzes começaram a brilhar, e Monte Belo parecia um sonho saído de um cartão de Natal.

- Tá lindo, - murmurei, cruzando os braços.

- Falta só você cantar pra completar, - respondeu Clara.

Sorri, mas meu pensamento voltou, involuntariamente, ao hotel.

---

De volta à recepção, o saguão estava tranquilo. Mamãe lia alguns papéis no balcão, e o cheiro do chá de ervas se misturava ao de lenha queimando na lareira.

- E o hóspede novo? - perguntei, tentando soar casual.

Ela levantou os olhos. - Está no quarto 6. Disse que vai ficar uns dias, talvez até o fim do mês. Quer descanso e anonimato.

- Anonimato?

- Foi o que ele disse. - Mamãe deu de ombros. - Um homem reservado, educado... mas com aquele olhar distante de quem carrega o mundo nas costas.

Olhei pela janela. Lá fora, a neblina começava a descer sobre as montanhas.

- Talvez só precise de um pouco de paz, murmurei.

Subi as escadas para levar algumas toalhas extras. Quando cheguei ao corredor, a porta do quarto 6 estava entreaberta. Toquei levemente.

- Senhor? Posso deixar as toalhas aqui?

A porta se abriu um pouco mais, revelando o homem. Era alto, com o rosto parcialmente coberto pelo capuz do casaco. Mas, agora, àquela distância, pude ver os olhos - verdes, profundos e cansados. Um silêncio estranho se formou entre nós.

- Pode deixar na cadeira, por favor, - disse ele, com voz baixa, rouca, mas gentil.

Fiz o que pediu, tentando não parecer curiosa demais.

- Se precisar de algo, é só avisar. A cozinha fecha às nove, mas mamãe sempre deixa algo pronto na geladeira.

Ele assentiu. - Obrigado. E... desculpe se causei algum incômodo. Só... precisava de um lugar longe de tudo.

- Monte Belo é ótimo pra isso, - respondi, sorrindo de leve. - Aqui o tempo passa devagar.

Ele ergueu os olhos pra mim, e naquele instante, algo me fez prender a respiração. Havia uma tristeza bonita nele, uma melodia silenciosa que eu não sabia decifrar.

- Então acho que vim pro lugar certo, - murmurou.

Sorri sem saber o que dizer, e saí antes que o silêncio nos engolisse.

---

À noite, Clara apareceu no hotel com duas xícaras de chocolate quente.

- Você está diferente, Isa. Que foi?

- Nada.

- Nada, é? - Ela estreitou os olhos. - Tem a ver com o hóspede novo, não tem?

- Claro que não.

- Aham. E eu sou a fada do pinheiro.

Joguei uma almofada nela, e rimos.

Mas quando ela se foi, e o hotel silenciou, me peguei olhando pela janela, em direção ao quarto 6, onde a luz ainda estava acesa.

Não sabia o nome dele, nem o que o trazia até ali. Mas, de alguma forma, eu sabia que aquele homem - o hóspede sem destino - iria mudar o meu Natal.

{...}

Capítulo 3 C.02

Isadora Monteiro

Naquela manhã, como de costume, acordei mais cedo que todos.

A cidade ainda dormia, e o silêncio era quebrado apenas pelo som distante de um galo cantando e do vento balançando as fitas vermelhas que Clara e eu havíamos amarrado nos postes no dia anterior. O ar estava frio, cheirando a pinho e pão recém-assado - um aroma que sempre me lembrava que o Natal estava próximo.

Minha rotina matinal era quase um ritual: calçar o tênis, prender o cabelo num coque desajeitado, colocar o moletom velho e correr pelas ruas de paralelepípedo. Era meu momento de paz antes do hotel despertar e antes que as responsabilidades tomassem conta do dia.

Mas, naquela manhã, algo fugiu da rotina.

Quando passei pela varanda lateral do hotel, meus olhos captaram uma cena que me fez diminuir o ritmo.

O novo hóspede - o tal senhor misterioso que chegara na noite anterior - estava ali, sentado em uma das cadeiras de madeira, com um violão apoiado no colo. A cabeça baixa, os dedos brincando distraidamente nas cordas, e a expressão distante, como quem carrega o peso de um mundo inteiro dentro de si.

A luz suave do amanhecer tocava seus cabelos escuros e bagunçados, revelando alguns fios castanhos mais claros. O moletom cinza que ele usava parecia ter sido escolhido às pressas, e mesmo assim havia algo... elegante nele.

Não sei explicar. Talvez fosse o modo como ele segurava o violão - com intimidade, como se aquele instrumento fosse uma extensão dele mesmo.

Achei o máximo ele saber tocar.

Mas, antes que minha curiosidade me dominasse completamente, balancei a cabeça tentando afastar aquele pensamento.

Não, Isadora. Ele é só um hóspede. Um homem bonito, misterioso e... com um violão. E, pelo visto, olhos tristes demais para serem ignorados.

Apertei o passo e segui meu caminho, focando na trilha que cortava o centro e levava até o campo de flores silvestres atrás da capela.

Corri, respirei fundo e deixei o vento gelado me despertar de vez. Essa cidade sempre teve o poder de acalmar o que, às vezes, dentro de mim, parecia querer explodir.

Quando voltei, o sol já aquecia as pedras da rua principal, e pude ouvir ao longe o burburinho de vozes animadas.

Todo mundo estava na praça, como sempre.

Aqui, até os turistas ajudavam nos preparativos de Natal - era quase uma tradição. Cada visitante era "adotado" por um morador e logo se via pintando guirlandas, pendurando estrelas ou organizando os enfeites do coreto.

Entrei no hotel, que já estava cheio de vida. O cheiro de café fresco, bolo de milho e canela vinha da cozinha. Mamãe - Helena Monteiro - andava de um lado para o outro, supervisionando tudo com a habilidade de quem administrava o lugar havia décadas.

- Bom dia, meu amor! - ela disse sem nem me olhar, enquanto equilibrava uma bandeja cheia de xícaras. - Dormiu bem?

- Dormi, mãe. - Sorri. - Só saí pra correr um pouco.

- Ainda bem, porque hoje temos muito o que fazer. A prefeita Marlene quer que a gente monte o presépio até amanhã. Ela disse que vai trazer o pessoal da imprensa da cidade vizinha pra filmar o evento de abertura.

Revirei os olhos, divertida.

Marlene era um amor de pessoa, mas levava o Natal mais a sério do que o próprio Papai Noel.

- E Clara? - perguntei, subindo as escadas.

- Na praça, claro. Disse que vai te esperar lá pra ajudar com as luzes do coreto. E, por favor, Isadora, sem sumir de novo pra conversar com os turistas. - Mamãe me lançou um olhar suspeito. - Já basta o último, aquele rapaz que você convenceu a ajudar na cozinha e quase incendiou o forno.

- Aquilo foi um acidente! - protestei, rindo.

Subi para o quarto, tomei um banho rápido e, enquanto secava o cabelo, ouvi uma melodia vindo do corredor.

Baixinha, suave, como um sussurro de notas que tentavam existir.

Era uma canção inacabada.

Saí do quarto de mansinho, descalça, e segui o som até o fim do corredor.

A melodia vinha da biblioteca, uma das minhas partes favoritas do hotel. Abri a porta devagar, sem querer interromper o momento - e então o vi.

O hóspede misterioso.

De novo.

Ele estava sentado na poltrona perto da janela, o violão no colo e os olhos fechados. Tocava como se buscasse algo que não sabia mais encontrar. As notas se perdiam no ar antes de virarem música.

Por Deus... havia uma tristeza ali que me atingiu em cheio.

- Sua voz é linda. - As palavras escaparam antes que eu pudesse me conter.

Ele se sobressaltou, virando o rosto na minha direção. Tinha olhos castanhos escuros, intensos, e um olhar meio confuso, como se não estivesse acostumado a ser pego de surpresa.

- Eu... - comecei, sem graça. - Me desculpe, estava voltando da minha corrida matinal e escutei a melodia. Meus pés seguiram meus ouvidos.

Por um segundo, achei que ele fosse sorrir, mas o que veio foi apenas um aceno leve de cabeça.

- Não tem problema. - Sua voz era rouca, bonita, com aquele tom de quem carrega cansaço e experiência demais. - Só... não costumo ter plateia.

- Eu prometo que não sou uma plateia exigente. - Ri baixinho, tentando aliviar o clima. - Mas, se quiser minha opinião, o que você estava tocando é lindo.

Ele pousou o violão de lado e suspirou, apoiando os cotovelos nos joelhos.

- Não era nada. Só... tentando lembrar de uma música.

- Tentando lembrar? - perguntei, curiosa.

- É. - Ele desviou o olhar. - Às vezes, as músicas escapam. E, quando voltam, já não são mais as mesmas.

Senti um nó se formar na garganta.

Aquela frase parecia esconder um peso muito maior do que a melodia interrompida.

- Sou Isadora. - estendi a mão.

Ele hesitou um instante antes de apertá-la. - Leon.

Leon.

Um nome simples, mas que soava diferente em sua voz.

Tinha um jeito contido, reservado, como se medisse cada palavra antes de deixá-la sair.

- Seja bem-vindo a nossa cidade, Leon. Espero que goste do clima natalino - disse, tentando soar casual.

- Já percebi que é impossível não gostar - respondeu, olhando para a janela. - Parece que cada canto daqui respira Natal.

- É porque a gente acredita que a magia começa nas pequenas coisas. - sorri. - E você? Veio procurar um pouco de paz?

Ele me olhou, surpreso.

- É tão óbvio assim?

- Nem tanto. - dei de ombros. - Mas, quando alguém chega sozinho, fora de temporada, e se hospeda no único hotel da cidade, geralmente está tentando fugir de alguma coisa.

Leon riu de leve, pela primeira vez.

O som foi breve, mas me deu vontade de ouvir de novo.

- Talvez esteja tentando fugir de mim mesmo. - murmurou.

Antes que eu pudesse responder, Helena apareceu na porta com uma bandeja de café e bolos.

- Ah, Isadora, aí está você! Estava te procurando. - Depois olhou para Leon. - Bom dia! Espero que esteja confortável, senhor...?

- Leon. Só Leon. - respondeu ele, educado, aceitando a xícara.

Mamãe assentiu, como quem respeita o silêncio alheio, e se despediu.

Eu, por outro lado, continuei ali, inquieta, observando o modo como ele olhava para o café como se nunca tivesse visto uma xícara antes.

- Sabe... - comecei. - Se quiser, à tarde teremos um ensaio no coreto. Eu e Clara vamos cantar algumas músicas natalinas. Nada profissional, só tradição. Você pode aparecer.

- Acho que passo. - disse ele, sem olhar pra mim. - Não sou muito bom com multidões.

- Então pode assistir de longe. - insisti. - É impossível não sorrir quando a gente canta "Noite Feliz".

Ele me olhou, e naquele instante percebi algo diferente.

Era como se uma lembrança passasse rápido demais pelos olhos dele.

Algo entre dor e saudade.

- "Noite Feliz" é uma das músicas mais difíceis de cantar... quando não se acredita mais em noites felizes. - sussurrou.

E, antes que eu pudesse reagir, levantou-se e saiu da biblioteca, deixando o som das cordas ainda vibrando no ar.

---

Mais tarde, encontrei Clara na praça, cercada por caixas de enfeites e fios de luzes.

- Até que enfim! - ela exclamou. - Achei que tinha sido sequestrada por duendes natalinos.

- Pior. - ri. - Por um hóspede misterioso.

- O quê? - Clara arqueou as sobrancelhas, interessada. - Me conta tudo agora.

Enquanto ajudávamos a pendurar as estrelas no coreto, contei sobre o encontro na biblioteca. Clara me olhava com aquele sorriso de quem já imaginava um romance saindo dali.

- Isadora Monteiro, você é a única pessoa que transforma um hóspede em protagonista de comédia romântica. - provocou. - Mas, confessa, ele é bonito?

- Demais. - admiti, sentindo as bochechas queimarem. - Só que tem algo nele... não sei. Uma tristeza que dá vontade de abraçar.

- Então cuidado pra não virar enfermeira de alma ferida. - brincou. - Às vezes, quem a gente quer curar só precisa aprender a se curar sozinho.

Clara sempre sabia o que dizer.

Olhei para o céu, agora completamente azul, e pensei no que Leon tinha dito sobre não acreditar em noites felizes.

O que teria acontecido com ele?

---

Mais tarde, perto do entardecer, quando o hotel já estava silencioso e as luzes da cidade começavam a piscar, ouvi novamente o som do violão.

Fui até o jardim dos fundos e o encontrei lá, sentado em um banco de madeira, o rosto iluminado pelas lâmpadas amarelas.

Dessa vez, ele parecia mais calmo.

As notas fluíam com mais leveza, mas ainda havia pausas longas demais entre um acorde e outro.

Como se procurasse por palavras que se recusavam a vir.

- Ainda tentando lembrar da música? - perguntei, aproximando-me.

Ele ergueu os olhos e deu um meio sorriso cansado.

- Tentando compor uma nova. - confessou. - Mas acho que... esqueci como se faz isso.

- Esquecer a música? Isso é possível?

- Quando ela vem do coração... e o coração para de ouvir, sim. - respondeu, olhando para o horizonte.

Sentei-me ao lado dele, em silêncio.

O som das cigarras preenchia o ar, e o vento frio trazia o cheiro das flores de jasmim do jardim.

Por um momento, ficamos ali, sem precisar dizer nada.

- Sabe... - falei, depois de um tempo. - Talvez a música não tenha te deixado. Só esteja esperando você se perdoar.

Leon me olhou, surpreso, e depois baixou os olhos para o violão.

- E quem disse que eu tenho por que me perdoar?

- Todo mundo tem. - respondi, sorrindo. - Mesmo que não admita.

Ele riu baixinho, um riso leve, como o primeiro som verdadeiro que consegui tirar dele.

E, naquela noite, pela primeira vez, Leon tocou até o fim uma canção.

Sem palavras, sem nome, mas com alma.

---

Mais tarde, quando fui fechar as janelas do saguão, mamãe me chamou.

- Filha, lembra o hóspede novo? O Leon?

- Lembro, por quê?

- O produtor dele ligou. Disse que estava procurando por ele há semanas, mas que Leon pediu pra não ser encontrado. - ela explicou, confusa. - Parece importante.

Senti o coração acelerar.

Produtor?

Leon era músico profissional?

Subi para o meu quarto com a mente girando.

Deitei na cama e fechei os olhos, mas tudo o que consegui ouvir foi a melodia que ele havia tocado mais cedo.

E uma certeza estranha cresceu em mim:

aquele homem misterioso não tinha vindo à minha cidade por acaso.

De algum modo, o destino - ou talvez a magia do Natal - o tinha trazido até aqui.

E, sem entender como, eu já sabia que a história dele estava prestes a mudar a minha também.

{...}

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