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A Maldição da Imortalidade

A Maldição da Imortalidade

Autor:: Meng Fan Hua
Gênero: Xuanhuan
Esta foi a minha nonagésima nona morte. Meu noivo, Pedro, me empurrou para a frente de um carro em alta velocidade, tudo para proteger Luana, minha melhor amiga. O carro me atingiu com um baque surdo, e eu senti a dor aguda antes da escuridão. Ao 'retornar' , Pedro me jogou sem cerimônia no porta-malas, enquanto seus amigos apostavam e riam sobre quanto tempo eu levaria para ressurgir. Eles me viam como um espetáculo, esquecendo que minhas ressurreições apagavam partes da minha memória e sentimentos. Quando Luana fingiu uma leve dor no tornozelo, Pedro a acolheu com uma ternura assustadora, a mesma que ele um dia dedicou a mim, antes que minha capacidade de renascer o transformasse em indiferença, e me fizesse um escudo descartável para agradá-la. Por que eu sou o brinquedo deles, a vítima de suas vaidades, sem que ninguém questione minha dor, minha humanidade? Desta vez, uma lembrança perdida me atingiu com a força de um soco: a gravidez, o Doberman de Pedro, o aborto forçado para que Luana "não se sentisse mal" . Eu entendi. Meu dom não era uma bênção, mas uma maldição. E eles, sem saber, estavam me ajudando a alcançar a centésima morte, a única que me libertaria de tudo.

Introdução

Esta foi a minha nonagésima nona morte.

Meu noivo, Pedro, me empurrou para a frente de um carro em alta velocidade, tudo para proteger Luana, minha melhor amiga.

O carro me atingiu com um baque surdo, e eu senti a dor aguda antes da escuridão. Ao 'retornar' , Pedro me jogou sem cerimônia no porta-malas, enquanto seus amigos apostavam e riam sobre quanto tempo eu levaria para ressurgir. Eles me viam como um espetáculo, esquecendo que minhas ressurreições apagavam partes da minha memória e sentimentos.

Quando Luana fingiu uma leve dor no tornozelo, Pedro a acolheu com uma ternura assustadora, a mesma que ele um dia dedicou a mim, antes que minha capacidade de renascer o transformasse em indiferença, e me fizesse um escudo descartável para agradá-la.

Por que eu sou o brinquedo deles, a vítima de suas vaidades, sem que ninguém questione minha dor, minha humanidade?

Desta vez, uma lembrança perdida me atingiu com a força de um soco: a gravidez, o Doberman de Pedro, o aborto forçado para que Luana "não se sentisse mal" . Eu entendi. Meu dom não era uma bênção, mas uma maldição. E eles, sem saber, estavam me ajudando a alcançar a centésima morte, a única que me libertaria de tudo.

Capítulo 1

Esta foi a minha nonagésima nona morte.

Meu noivo, Pedro, me empurrou para a frente de um carro em alta velocidade.

Tudo para proteger a mulher em seus braços, Luana, minha melhor amiga.

O carro me atingiu com um baque surdo, e meu corpo voou pelo ar antes de cair pesadamente no asfalto. A dor aguda foi a última coisa que senti antes que a escuridão tomasse conta de tudo.

Pedro nem sequer olhou para o meu corpo quebrado no chão, seus olhos estavam fixos em Luana, que tremia em seus braços.

"Você está bem? Se machucou?"

A voz dele, normalmente fria e distante para mim, estava cheia de uma ternura que cortava mais fundo do que qualquer ferida física.

Luana, com o rosto pálido, balançou a cabeça, agarrando-se a ele como se fosse sua única salvação.

"Estou bem, Pedro. Mas a Camila..."

Pedro finalmente olhou na minha direção, mas não havia preocupação em seu rosto, apenas uma frieza calculada. Ele caminhou até mim, verificou minha respiração e, confirmando que eu estava morta, pegou meu corpo flácido e me jogou sem cerimônia no porta-malas do carro.

"Ela vai ficar bem", ele disse para Luana, com uma naturalidade assustadora. "Você sabe que ela sempre volta."

Vários de seus amigos, que haviam testemunhado tudo, não mostraram nenhum pânico. Em vez disso, formaram um círculo casual, e um deles tirou uma nota da carteira.

"Aposto cinquenta que ela volta em menos de dez minutos."

Outro riu.

"Você é muito otimista. Com o impacto que foi, eu diria pelo menos quinze. Aposto cem."

Eles riam e faziam suas apostas sobre o meu corpo ainda quente, como se eu fosse um espetáculo de circo, uma diversão para passar o tempo.

Para eles, minhas mortes eram apenas um jogo.

Mas para mim, era o fim de um ciclo.

Ninguém sabia do segredo ancestral da minha família. Eu possuía o dom da ressurreição, mas ele estava ligado a um ciclo de noventa e nove mortes. A cada vez que eu voltava, uma parte das minhas memórias e dos meus sentimentos se apagava, me tornando cada vez mais vazia, mais indiferente.

Esta era a nonagésima nona vez.

Só mais uma.

Só mais uma morte e eu estaria livre. Livre de Pedro, de Luana, dessa dor sem fim. Minha provação estaria completa, e eu ascenderia a um plano superior, deixando para trás toda essa sujeira terrena.

Eles achavam que me controlavam, que meu poder era um recurso inesgotável para seu benefício. Mal sabiam eles que estavam apenas me ajudando a cumprir meu destino.

A sensação de vida voltou lentamente, formigando em meus membros. Abri os olhos para a escuridão abafada do porta-malas. O cheiro de sangue e metal enchia minhas narinas. O carro parou, e logo em seguida, a tampa do porta-malas se abriu, inundando o espaço com a luz fria de uma garagem.

Pedro olhou para mim, seu rosto uma máscara de impaciência.

"Já que acordou, saia. Você está sujando o meu carro todo."

Não havia uma única pergunta sobre como eu estava, se sentia dor. Apenas a reclamação sobre a mancha de sangue que meu corpo havia deixado no carpete.

Levantei-me com dificuldade, meu corpo todo doía. Saí do porta-malas e fiquei de pé, o sangue escorrendo pela minha perna e formando uma pequena poça no chão de cimento polido.

Pedro me entregou um pano.

"Limpe isso."

Obedeci em silêncio. Ajoelhei-me e comecei a limpar meu próprio sangue do porta-malas e do chão. A humilhação era um gosto amargo e familiar na minha boca.

Isso não era nada.

Uma vez, no auge do inverno, Luana reclamou que não queria sujar seus sapatos de grife na neve lamacenta. Pedro, sem hesitar, me fez tirar o casaco, depois o vestido, até que eu estivesse completamente nua, e me mandou deitar na neve para que Luana pudesse usar meu corpo como um tapete para chegar até o carro.

O frio cortante daquela noite ainda arrepiava minha pele só de lembrar.

Naquela época, eu chorei. Eu implorei.

Agora, eu apenas limpava o sangue, meu coração um deserto vazio. Só mais uma vez, eu repetia para mim mesma. Só mais uma.

Capítulo 2

Enquanto eu terminava de limpar, Pedro se aproximou. Por um instante, sua voz suavizou um pouco, um eco fantasmagórico do homem que ele já foi.

"Camila, eu..."

Ele não terminou a frase. Luana, que estava observando tudo da porta da casa, soltou um pequeno gemido.

"Pedro, meu tornozelo dói um pouco."

Imediatamente, toda a atenção de Pedro se voltou para ela. Ele correu para o seu lado, agachando-se para examinar seu tornozelo com uma preocupação que ele nunca mais demonstrou por mim.

"Onde dói? Deixe-me ver. Deveríamos ir ao hospital?"

Ele a pegou no colo com cuidado, como se ela fosse feita de vidro, e a levou para dentro de casa, me deixando sozinha na garagem fria com o cheiro do meu próprio sangue.

Houve um tempo em que essa preocupação era toda para mim.

Lembro-me de uma vez, anos atrás, quando eu cortei o dedo com uma folha de papel. Pedro entrou em pânico. Ele limpou o pequeno corte com um cuidado exagerado, colocou um curativo e ficou me observando por uma hora, com medo de que eu pegasse uma infecção. Seus olhos, naquela época, transbordavam de amor e medo de me perder.

Quando foi que tudo mudou?

Acho que foi na terceira vez que morri. Ou talvez na décima.

Ele passou do pânico à preocupação, da preocupação à irritação, e da irritação à completa e total indiferença. Minha capacidade de voltar da morte se tornou uma conveniência para ele, uma rede de segurança que lhe permitia ser imprudente, cruel.

E, eventualmente, se tornou uma ferramenta para agradar Luana.

Ele me usava como um escudo humano, um brinquedo para o entretenimento dela, um objeto descartável que sempre voltaria para mais abusos. As noventa e nove mortes que sofri foram, em sua maioria, por causa dela. Afogada porque Luana queria ver o pôr do sol de um barco e eu "atrapalhei a vista". Envenenada porque Luana não gostou da comida que eu preparei. Atropelada para que ela não se assustasse.

A lista era longa e sangrenta.

"Camila!" A voz de Pedro ecoou da casa. "Venha aqui."

Respirei fundo e entrei. Luana estava sentada no sofá, com o pé apoiado em uma almofada, enquanto Pedro a servia com um copo de água.

"Peça desculpas a Luana", ele ordenou, sem me olhar. "Você a assustou."

Essa era outra parte do ritual. Toda vez que eu ressuscitava, eu tinha que pedir desculpas. Desculpas por ter morrido. Desculpas por ter causado um incômodo.

Olhei para Luana, seu rosto uma máscara de falsa fragilidade.

"Desculpe, Luana. Eu não farei isso de novo."

Minha voz saiu monótona, sem emoção. Eu já tinha dito aquelas palavras tantas vezes que elas perderam todo o significado.

Minha resposta calma pareceu surpreender Pedro. Geralmente, eu chorava ou protestava, o que só o irritava mais. Desta vez, minha submissão o deixou sem saber como reagir.

"Bom", ele disse, com a voz um pouco instável. "Agora, volte e termine de limpar o carro. E lave-o. Está imundo."

Assenti e me virei para sair.

Mas antes que eu pudesse dar um passo, uma lembrança me atingiu com a força de um soco no estômago. Uma lembrança que eu havia perdido em alguma das minhas mortes anteriores, mas que agora voltava com uma clareza terrível.

Eu estava grávida. Uma vez.

Apenas algumas semanas, mas a alegria que senti foi a coisa mais real da minha vida. Eu ia contar a Pedro, mas Luana descobriu primeiro.

Ela ficou furiosa, com ciúmes. Disse a Pedro que não suportava a ideia de me ver com um filho dele.

Naquele dia, Pedro soltou seu cão de caça, um Doberman enorme e agressivo que ele mantinha para segurança, no jardim onde eu estava. Ele sabia que eu tinha pavor do animal.

O cão me atacou. Ele me mordeu, rasgou minha pele. Uma das mordidas foi no meu abdômen.

Eu gritei por Pedro, implorei para que ele chamasse o cachorro de volta. Ele apenas ficou parado na varanda, com Luana ao seu lado, observando.

"A Luana não está se sentindo bem por sua causa, Camila", ele disse, sua voz desprovida de qualquer emoção. "É melhor que isso acabe logo."

Perdi o bebê ali mesmo, no gramado ensanguentado.

Quando mais tarde, em um raro momento de lucidez, ele me viu chorando pela perda, ele simplesmente deu de ombros.

"Não se preocupe", ele disse. "Crianças, nós podemos ter outras. Você é a única que pode morrer e voltar."

Naquele momento, eu entendi. Meu dom não era uma bênção. Era minha maldição. E meu filho, meu bebê que nunca nasceu, foi sacrificado por causa disso.

A lembrança me encheu com uma onda de náusea. O vazio dentro de mim, que eu pensei que não poderia ficar maior, se aprofundou, tornando-se um abismo.

Só mais uma vez.

A promessa de liberdade era a única coisa que me mantinha de pé.

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