Elowen
Minha pele grita devido aos últimas instantes que vivi. Ser serva significa que qualquer erro, por mínimo que possa ser, ele é descontado em meu corpo: dias sem comer; escassez de água e o mais comum, as chicotadas. Ontem derramei água por estar fraca demais e minha recompensa foram vinte delas.
Minhas costas estão queimando, as marcas recentes ainda se fechando e nada pode encostar na pele dolorida, por isso estou deitada de bruços no catre simples sem nada na parte de cima do corpo.
O quarto é escuro e se parece mais com uma cela, e fede a mofo, a luz do sol não chega aqui, pois estamos no subsolo.
Sobre minha pele machucada, minha mãe coloca ervas para ajudar na cura e evitar a infecção. O toque delicado de suas mãos, a sensação refrescante das ervas me fazem suspirar por uma alívio temporário.
- Precisa se curar, minha filha, em três dias é a visita do rei. Ele não gosta de ver nenhum de seus servos deitados, doentes... tudo ele julga como fraqueza e será pior. - Minha mãe diz preocupada.
- Aquele rei infeliz, eu queria muito descontar minha raiva na face dele com as unhas.
- Fala baixo, filha, se alguém te ouvir podem levar suas palavras ao rei e então estará perdida.
Gemo baixinho quando minha mãe torna a aplicar as ervas e seus sumos em minha pele machucada.
***
No dia da visita do rei à nossa aldeia de servos, meus ferimentos já estão bons o suficiente para vestir uma blusa larga, mas se alguém encostar eu ainda vou uivar, pois está dolorido.
Estamos todos enfileirados, mulheres de um lado e homens de outro, debaixo do sol quente. Parecemos animais que o dono decide o que vai fazer com ele.
- Atenção, servos, o rei Tharion está se aproximando e um de vocês terá a honra de servi-lo pessoalmente - fala um dos homens do palácio do rei.
Todos ficam em silêncio e a expectativa só cresce. Ninguém quer ser um servo pessoal de um rei cruel e louco. Ele se alegra com o sofrimento dos outros, e ser o "brinquedinho" dele está fora de questão para qualquer um.
O rei se aproxima, imponente. Bonito o homem é, não há como negar. Seus olhos verdes são atrativos, qualquer mulher se derreteria por ele se não soubesse quanta maldade há em seu coração.
Ele analisa a fileira de homens, mas em seguida dá a ordem:
- Todos os homens estão dispensados.
Alívio era visível na face dos homens ali presente. Porém, meu coração se aperta. Ele quer uma mulher.
Quando o rei vem em busca de mulheres, sabemos o que ele quer. Não apenas uma serva qualquer, uma empregada que receberá ordens do rei o dia inteiro, mas ele está à procura de uma escrava pessoal. Ele quer um brinquedo novo e isso significa que o anterior está quebrado.
Todas as mulheres presentes sabem disso e o desespero transborda de seus olhos, mas todas se mantêm em silêncio.
Ele se aproxima e analisa uma a uma. Se ele for escolher por beleza com certeza não será eu a escolhida. Meus cabelos castanhos são indomáveis, minha pele muito pálida e meus olhos estranhamente escuros. Mas algo dentro de mim se parte quando ele dá a próxima ordem:
- Somente mulheres virgens, as outras estão dispensadas.
Mais da metade das mulheres se afastam e eu cogito me afastar também. Como vão saber se é verdade ou não? O alívio é crescente na face das mulheres que se dizem não virgens, enquanto o desespero só aumenta na face das outras.
- Todas que dizem não ser virgem, passarão por inspeção para averiguar a verdade. Caso esteja mentindo, o castigo será a morte. - O soldado declara e eu impeço meu passo.
Já estava pronta para me enfiar entre as outras e me livrar do olhar do rei, mas ele não é idiota.
Quando todas as mulheres que não cumprem a exigência do rei se afastam, ele volta seu olhar para as servas restantes. Havia lágrimas no olhar de quase todas.
Não é possível dizer o que exatamente ele está a procura. Seus olhos passeiam por todas nós e, uma a uma, seguindo sabe-se lá que critério, ele começa a dispensar.
Quando chegou perto de mim, pude ver de perto toda a sua imponência. O homem deveria ter quase dois metros de altura e um corpo muito forte. Mesmo debaixo dos tecidos de sua camisa e calça, era possível notar os músculos do rei Tharion.
Ele pegou a face da garota ao meu lado e ergueu, girou para um lado e para outro, analisando não sei o quê. Mas ele se dá por insatisfeito e dispensa a jovem. Ela quase cai no chão de alívio e sai correndo. Agora ele vem na minha direção.
Seus olhos verdes fitam os meus olhos escuros e dentro de mim há um desejo voraz de não ser dispensada, algo como um orgulho. Pode ser loucura, mas ser selecionada como alguém que não serve é algo que não almejo. Um orgulho insano toma conta de mim e encaro o rei de volta. Não abaixo a cabeça; lágrimas não rolam de meus olhos; minhas mãos não tremem e minhas pernas se mantêm firmes.
Ele passa por mim em silêncio, não me dispensa e vai para a próxima. Então é isso que ele quer. Quer uma mulher corajosa e que o enfrente. O que há na mente deste rei louco?
Tharion passa para a próxima e depois outra, e outra, até chegar ao fim da fila de mulheres. Quando ele termina me dou conta de que há apenas cinco mulheres, todas as outras foram tidas como inadequadas ao rei.
Agora sua seleção muda de caminho, realmente é indecifrável o tipo de serva que ele quer.
- Qual o seu poder? - Ele questiona à mulher que está na ponta da fila.
Todos nós usamos uma coleira que inibe nossos poderes. Será que ele deseja usar nossos poderes? É isso que deseja de nós? Uma serva pessoal que lhe sirva com seu poder?
- Água, majestade - A garota responde.
Ele segue para a próxima que lhe responde ar, a seguinte lhe responde água novamente e então chega a minha vez. Encaro-o.
- Qual o seu poder, mulher? - Seu olhar frio parece penetrar a alma.
- Elowen - falo corrigindo-o. Ele me chamou de mulher e este não é meu nome.
- O quê? Está me desafiando? - Seus olhos injetados de um ódio sem motivos aproximam de mim.
- Não senhor, apenas respondendo que meu nome é Elowen e não mulher. Meu poder é fogo, majestade - respondo e ele me analisa.
Não preciso explicar que tipo de fogo. Meu fogo não é flamejante, vermelho, laranja e amarelo, meu fogo é negro com uma base azul. Mas ele não perguntou que tipo de fogo e passou para a próxima que lhe respondeu cura.
Ele se afasta e nos analisa, deve estar pensando o que mais lhe agrada ou o que é mais útil para ele.
Não sei qual critério usa. Gostaria de dizer a ele que não servirei para nada por algum tempo, pois estou ferida e nossos poderes não funcionam quando estamos feridos. É uma forma de defesa do nosso corpo, para concentrar a magia totalmente na recuperação.
Seus olhos percorrem nossos corpos enquanto ele passeia na nossa frente, nos analisando. O rei vai até o fim da fila e volta, parando bem na minha frente.
- Você - Ele aponta para mim e acho que vai me dispensar. - Escolho você.
Um arrepio feroz percorre meu corpo dos pés ao último fio de cabelo, mas não abaixo a cabeça. Não fui rejeitada. Meu orgulho está intacto, porém, nada mais que isso estará em algumas horas. Esse homem me fará em pedaços, eu sei disso.
Dou um paço a frente com o queixo erguido. O rei se aproxima mais, analisando-me, andando ao meu redor e eu me mantenho séria e de queixo erguido. Seja lá o que for que passarei nas mãos deste louco será desta forma, até o dia em que ele me descartar.
- Demonstre seu poder. - Ordena o rei.
Encaro-o. Ele deve estar maluco.
- Não posso. - respondo friamente.
- Retire o colar dela. - Ele ordena ao soldado, acreditando que é por este motivo. Nem se estivesse sem o colar de contenção, eu não poderia usar meu poder devido a minha condição física.
- Mesmo que retire o colar, não poderei usar meu poder - falo ainda com meu orgulho intacto.
Ele me olha furioso.
- Mentiu para mim? - Aproxima-se, deixando seu nariz encostar no meu.
- Não senhor, se não sabe, uma bruxa ferida não é mais que uma humana, e estou ferida.
Seus olhos percorrerem meu corpo novamente, provavelmente procurando as feridas e não as encontrando.
- Mostre-me - ele ordena.
Viro-me de costas e afasto a manga da camisa, mostrando o lado superior das minhas costas onde já é possível ver a marca em minha pele.
Ele se aproxima e rasga o tecido, arrancando um som de espanto das pessoas que observam e me fazendo arregalar os olhos em espanto e vergonha, mas me mantive inabalável.
- Levem-na aos meus aposentos, coloquem uma roupa digna de minha companhia. - Ele ordena ao soldado que vem ao meu encontro e cobre minhas costas com um manto.
O rei caminha na frente sem nem mesmo olhar para mim mais uma vez, após ver o estrago que seus soldados fazem conosco. Sou acompanhada até o castelo do rei alfa, onde algumas mulheres me aguardavam e me vestiram com uma roupa branca.
- Você servirá ao rei e dará a ele um filho - a serva explica, me fazendo estremecer.
Tharion
A escolhi por dois motivos: seus olhos negros e desafiadores e seu poder de fogo. Preciso de um herdeiro, mas não quero uma companheira. Também não quero uma mulher maculada, por isso escolhi uma virgem. Resolvi unir a utilidade de uma serva pessoal e possível genitora do meu filho com uma habilidade que pudesse ser útil em um futuro próximo.
Uma guerra se aproxima, meu reino estará exposto, meu império de lobos será abalado se eu morrer e não houver um herdeiro para herdar o que conquistei.
O som na porta me desperta.
- Entre.
- A serva, senhor - A empregada avisa e, ao se afastar, o meu lobo desperta ao ver a mulher linda na minha frente. O corpo imaculado vestindo apenas o tecido banco fino. Transformo-me em lobo imediatamente.
Elowen se assusta ao ver o lobo negro gigantesco que me tornei, e me aproximo dela. Mas logo se recupera da surpresa e se mantém inabalável em seu lugar. Gostei disso nela, silenciosa e sabe controlar o medo como poucos conseguem. Perfeita.
Cheiro a beldade na minha frente. Seus cabelos foram domados pelas mulheres que a prepararam e seu corpo está limpo e cheiroso. Meu focinho toca seu ventre e ela permanece imóvel, quero sentir seu cheiro. O cheiro da sua intimidade. Abaixo o focinho apreciando o aroma. Pura, posso sentir pelo seu cheiro que nenhum outro homem a tocou antes.
Volto a minha forma humana, e ela evita olhar meu corpo.
- Não desvie o olhar - rosno, segurando em sua face e virando-a para mim. Ela me encara e vejo determinação em seus olhos.
- Sente-se - digo, apontando a poltrona do quarto. Me sento na beirada da minha cama.
Ela se acomoda na poltrona, nervosa, porém calada. - Te escolhi porque servirá a um propósito, se aceitar.
Seus olhos arregalam-se, mas ela permanece em silêncio.
- Em uma semana a lua alcançará o seu auge em poder e brilho, e nesta noite preciso conceber um filho.
- Lamento, majestade - finalmente ela fala alguma coisa. - Mas se tivesse me dito suas intenções eu teria lhe avisado.
- O que quer dizer, serva? - Irrito-me.
- Meu ventre é seco - Seus olhos estão focados em um único ponto e tento farejar a mentira, mas só encontro o perfume da verdade. Tenho o dom de sentir se o que as pessoas dizem é verdade ou mentira, e ela diz a verdade.
- Como sabe que seu ventre é seco se é uma virgem? - Encaro com os olhos estreitos de tanta irritação.
- Uma maldição, majestade. Fui amaldiçoada por uma bruxa em seu leito de morte e eu senti sua maldição se instalar quando seus olhos se fecharam e seu fôlego a deixou.
Mais uma vez percebo que ela fala a verdade.
- A deusa mãe me guiou até você - afirmo. - Ela queimará e destruirá a maldição, e abençoará seu ventre com um herdeiro.
Ela abaixa a cabeça, encara os dedos e não diz mais nada.
Levanto-me e vou até ela, seguro em seu queixo e a faço me encarar mais uma vez.
- Terá uma semana para pensar na minha proposta - Seus olhos escuros me encaram como se pudesse ver a minha alma. - Será tratada como realeza, terá comida e roupas e tudo o que precisar. Se decidir não aceitar, voltará para o lugar de onde veio.
Ela pisca os olhos. Talvez não esperasse que teria escolha.
- Não será tomada a força, serva. Se é isso que esperava de mim. - Solto o seu queixo e me afasto.
Bato na porta para que a empregada que a estava aguardando possa levá-la para seus aposentos.
Viro as costas quando a porta se abre e vou até a janela, enquanto ela é levada de meu quarto. Sinto uma brisa suave envolver minha pele exposta. Se a serva não aceitar a proposta, terei que esperar mais um mês, e eu tenho pressa. Porém, minha oferta é tentadora.
***
Elowen
Uma semana se passou desde que fui trazida para o castelo do rei alfa. Uma semana que não sei o que é sentir fome, exaustão e sede. Uma semana que durmo em uma cama macia, tomo banho de banheira com água na temperatura que desejo e o melhor de tudo: não sou agredida.
Não o vi novamente, mas sei que hoje é o dia. Ou melhor, a noite.
Com a fama do rei que circula entre os servos, achei que me maltrataria e me tomasse a força quantas vezes quisesse, mas não foi assim. Fiquei surpresa.
Estou usando a costumeira roupa branca dos servos do castelo, parada diante a janela do meu quarto que é amplo, limpo e arejado. O ar fresco da manhã atinge meu rosto, o cheiro dos pinheiros da floresta de pinhais acerta minha narinas e respiro fundo.
É dificil pensar em voltar para a vida que tinha antes, quando experimento algo assim. Aqui ainda sou uma serva, mas nenhum dos empregados do castelo tem a aparência dos servos da área de trabalho. Não são esqueléticos, feridos e andando curvados pelos corredores, pelo contrário.
Talvez meus antepassados possam sentir vergonha de mim, por me vender, mas ser a mãe do filho do rei alfa não me parece algo tão ruim, diante da opção.
Quando estou refletindo, ouço a porta se abrir. As servas que cuidam de mim sempre batem na porta, só pode ser ele. Viro-me e o vejo parado diante da porta já fechada.
Ele é um homem imponente, alto e forte. A pele bronzeada, os olhos verdes intensos naquele rosto severo, os cabelos pretos na altura dos ombros, levemente úmidos, demonstrando um banho recente.
O perfume do homem me acerta em cheio, amadeirado e algo mais forte.
- Pensou na minha proposta? - sua voz sua firme, grossa e me faz estremecer.
- Sim, majestade - respondo em tom baixo, submisso.
Ele se aproxima a passos lentos e segura em meu queixo. Percebo que ele gosta que o olhe no olho. Quando não faço isso espontaneamente ele me força a encará-lo.
- Então diga, aceita ser a mãe do meu herdeiro? Aceita ser possuída por mim nesta noite de lua cheia?
As palavras dele ditas deste jeito, com a voz baixa, contida e rouca, faz meu ventre se aquecer.
- Sim, majestade, aceito.
Ele ergue as narinas e fecha os olhos, um sorriso fino toma sua face. Ele volta a me encarar, e se curva, aproximando-se de mim. Não recuo, afinal, aceitei ser a mãe de seu filho. Seus lábios tocam os meus, quentes e macios, não sei o que esperava do rei, mas com certeza não era isso.
Seus braços em envolvem e sua língua invade a minha boca, fico estagnada sem saber o que fazer. Ele se afasta e abro meus olhos, encarando-o.
- Já foi beijada? - inquire rouco.
- Não senhor - respondo com o rosto se aquecendo devido a vergonha.
Ele volta a sorrir, parece que isso o agrada. A minha inocência, a pureza.
- Acompanhe o movimento da minha língua, verá que é prazeroso.
Ele volta a me beijar, fecho os olhos e faço como me instruiu. Sigo os movimentos de sua língua. Suas mãos invadem o tecido da roupa branca e acaricia a minha pele. Um som que parece um rosnado deixa a sua garganta e sinto uma sensação estranha entre minhas coxas, mas prazerosa, e a sinto úmida como nunca havia sentido antes.
Ele se afasta bruscamente e fico sem entender. Ele está ofegante assim como eu. Não sei o que fazer, por isso fico parada o encarando.
- O seu cheiro está tentador, se não me afastar, a tomarei antes do tempo - diz e então entendo o que fez. - As servas irão prepará-la para esta noite.
Ele sai, batendo a porta, sem olhar para trás.
Logo as empregadas invadem o quarto e o processo da preparação para a noite com o rei começa.
Tharion Kall Fury
A hora do ritual chega e me lembro do seu sabor e do seu cheio, do beijo que compartilhamos e de como ela se rendeu aos meus braços..
As servas abrem a porta do meu quarto e Elowen adentra meus aposentos parecendo uma divindade. Seu corpo está coberto apenas com um tecido branco e fino que não esconde muito, seus cabelos estão trançados com flores brancas e pequenas aplicadas entre as tranças finas que percorrem o topo da sua cabeça.
A porta é fechada e ela caminha lentamente até mim. Meus olhos percorrem o seu corpo por baixo do tecido fino, os olhos dela percorrem meu corpo, livre de qualquer tecido ou vestimenta. E estou pronto para ela, para realizar o ritual com minha serva escolhida.
Dou um passo longo, encurtando o espaço entre nós dois e ela me encara com seus olhos grandes e escuros. Ajoelho-me perante a mulher que será a mãe do meu filho e somente para ela me ajoelharei. Seguro em sua mão delicadamente.
- Preparada para ser tomada por mim? Preparada par servir ao seu rei e gerar um herdeiro?
- Sim majestade - responde firme, e sinto seu perfume inebriar meus pensamentos.
A lua brilha alta no céu, um frescor invade o quarto como se fosse uma pedido da deusa mãe que eu consumasse o ritual.
Me ergo do chão, pego minha serva nos braços e a deposito sobre a cama. Cubro seu corpo com o meu delicadamente, reverentemente.
Ataco sua boca com um beijo profundo, quente, e ela se contorce sob mim. Enquanto a beijo, meus dedos passeiam por seu corpo e fico maravilhado com a maciez de sua pele, a delicadeza de suas curvas. Me perco nelas e torno Elowen minha. Minha mulher, a mãe do meu filho.
***
Elowen foi perfeita. Depois de uma noite intensa, na qual nós dois encontramos o prazer, ela foi levada de volta para seus aposentos e devidamente cuidada.
Agora segue as próximas etapas do ritual em que ela deve tomar um chá por sete noites até se confirmar se houve a benção da deusa Mãe.
Deito-me em minha cama com lençóis bagunçados e manchados pela pureza dela.
Meu sono sempre foi pesado, sem sonhos, sem perturbação, mas essa noite foi diferente. Rolei na cama e acordei diversas vezes na noite, mas a pior parte foi o pesadelo.
"Meus pés estavam descalços e eu corria por uma escada infinita, degrau após degrau, fugindo de algo ou procurando a saída, não consigo definir. Há algo atrás de mim, mas sempre que olho para trás vejo somente escuridão.
Volto a olhar meus pés e então me surpreendo em ver que não são mais meus pés humanos e sim minha forma de lobo, um lobo negro com uma mancha branca no peito em formato de cruz. Não estou mais em uma escada, agora é uma longa estrada, não consigo ver seu fim, mas é noite e muito distante há algo brilhante. Continuo me aproximando e concluo que é uma chama, algo está sendo consumido pelas chamas.
"Tharion"
Escuto me chamar. É um sussurro, e ele se repete várias vezes. Continuo a correr. A lua se torna cada vez maior, as chamas se aproximam e há uma pessoa no meio delas. Cada vez mais próximo... escuto gritos. Os gritos estão altos, cada vez mais altos. É ela.
De frente para as chamas observo que a pessoa que grita a plenos pulmões é Elowen, seu corpo está envolto em chamas, chamas negras."
Desperto. Estou suado e ainda ouço os gritos de Elowen. Na verdade, eles parecem reais demais.
Pulo da cama e visto uma calça. Puxo meus cabelos bagunçados para trás e os prendo. Abro as portas do meu quarto, sendo guiado pelos gritos que se tornam cada vez mais alto conforme me aproximo dele. Vejo uma movimentação estranha na entrada do quarto que selecionei para a minha serva e futura mãe do meu filho.
- O que está acontecendo? - exijo saber, a irritação ameaça tomar o controle.
As servas me encaram preocupadas.
- Não sabemos, majestade. Ela está gritando há quase vinte minutos e não para, não acorda, já tentamos de tudo - fala a mulher idosa desesperada.
Invado o quarto de Elowen e me deparo com seu corpo quase despido, já que a camisola que usa se embolou acima da barriga com sua movimentação constante. Minha serva se contorce e grita. Seus olhos estão fechados, sua expressão é sofredora e sua pele está banhada de suor.
- Elowen, acorde! - Ordeno, mas de nada adianta. Ela continua a se contorcer e a gritar.
- Não adianta, senhor, já tentamos de tudo - fala outra empregada mais jovem.
Me lembro do sonho. Nele ela estava queimando e gritava desesperadamente.
- Água, traga água, agora.
As servas me olham confusas, mas saem imediatamente em busca do que pedi. Aguardo o retorno delas, enquanto assisto Elowen gritar. Por algum motivo que não identifico, sinto uma grande angústia enquanto a assisto sem poder fazer nada.
As mulheres chegam com duas grandes jarras de água e eu despejo todo o conteúdo de um deles sobre seu corpo e ela cessa os movimentos e gritos, mas continua agitada. Pego a outra jarra e esvazio sobre o corpo dela, deixando-a totalmente molhada, assim como o colchão sobre si. Mas ela se cala, seu corpo se acalma.
- Como sabia que água resolveria? - A serva mais idosa perguntou.
- Não sabia, mas tive um palpite.
Observo Elowen e suas pálpebras se movem e de repente ela se senta na cama, olhando para seu corpo totalmente molhado e depois me encara.
Antes que ela diga algo, dou uma ordem:
- Saiam todas do quarto.
As servas se apressam em se afastarem e deixarem o cômodo. Ficamos sozinhos novamente.
- Teve um pesadelo - Eu falo com certeza das minhas palavras e ela balança a cabeça em confirmação.
- Sobre o que sonhou? - questiono, mas só obtenho silêncio em resposta. - Quando eu faço uma pergunta, espero receber uma resposta - exijo me aproximando mais dela.
- Não sei explicar - ela sussurra. - Foi um sonho confuso.
- Eu também tive um sonho - revelo e ela me observa em silêncio. - Nunca tive sonhos antes. Você costumava ter esses pesadelos?
Ela balançou a cabeça em negação.
- Levante-se dessa cama, vista-se e vá para o meu quarto.
- Sim senhor - responde submissa, da forma que gosto
- Só desejo descansar tranquilo, sabendo que a mãe do meu filho não ficará doente - afirmo e ela assente.
- Irei em breve, majestade - Ela permaneceu em pé, esperando que eu saia de seu quarto.
Não sei o que ela deseja, mas deixo o cômodo. Só espero que ela não comece a confundir as coisas. Apesar da noite agradável, de como fui cuidadoso e me preocupei com o seu prazer, Elowen continua sendo minha serva e cumpre ordens.
Volto para o meu quarto e a aguardo. Minutos depois ela atravessa a porta vestindo uma camisola seca. Aguarda em silêncio minhas ordens. Agora só quero deitar e dormir.
- Deite-se, Elowen.
Ela vem lentamente e se senta no outro lado da cama, se acomoda no colchão macio e se cobre, mas seus olhos permanecem abertos, encarando o teto.
Viro-me de lado, apoio o cotovelo no colchão e a cabeça em minha mão. Meus olhos vagam por seu corpo.
- Durma, Elowen - murmuro. - Sei que está dolorida, foi a sua primeira vez. Se permanecer acordada, posso desejar um pouco mais do que fizemos esta noite.
Ela fecha os olhos com minhas palavras, mas sei que ainda está acordada.
Não tiro a calça, me acomodo melhor da mesma forma e encaro o teto como ela fazia antes. Nunca compartilhei a cama com nenhuma mulher. Elas sempre iam para seu próprio quarto, por isso eu me viro para todo lado e não consigo dormir.
Me sento sobre a cama e encaro a lua cheia que já não está no centro do céu, ela me convida a correr. Me aproximo da janela e admiro a lua luminosa, peço a ela que me dê a bênção de um filho, que faça um milagre no ventre de Elowen. Olho a mulher na minha cama. Ela está com os olhos fechados, mas provavelmente não dorme ainda.
Meu desejo é correr, a lua me chama para isso. Deixo a forma de lobo tomar meu corpo e pulo a janela. Começo a correr em direção à floresta.
Tudo passa rápido demais, a lua muda de forma, se torna minguante, nova, crescente e cheia novamente.
Continuo a correr.
Vejo Elowen na minha frente, ela está envolta em uma chama negra azulada e está de costas para mim. A chama escura rodopia ao redor do corpo dela e se destaca em sua pele pálida, mas ela se vira e seus olhos estão brilhando em um azul reluzente e suas mãos pairam em seu ventre. A barriga dela está grande, ela está grávida.
A imagem de Elowen carregando meu primogênito no ventre me agrada, mas ela some. Em seu lugar surge a imagem de uma guerra, lobos negros e lobos cinzas, os dois clãs rivais há séculos. Vislumbro uma batalha, o castelo caindo, meus olhos se arregalam ao ver que é o meu castelo que está caindo e os lobos cinzas avançando. Mas há algo no meio do castelo destruído e é uma chama negra com estalos azuis reluzentes.
Me sento sobre a cama. Olho para o lado e vejo Elowen dormindo, deitada de lado, e pela janela vejo o sol entrar pelas cortinas. Me olho e estou vestindo a mesma calça preta na qual me deitei.
Tudo foi um sonho.