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A Maldição do CEO

A Maldição do CEO

Autor:: Chloe Reymond
Gênero: Romance
Alejandro Sanches carrega uma sombra no coração. Viúvo e tendo que cuidar sozinho de uma filha adolescente, ele vê seu mundo bagunçado ao conhecer a nova funcionária da sua empresa. Por ser muito mais velho, ele tenta fugir da atração, mas acaba cedendo a paixão. O problemas são as coincidências da garota com a donzela do conto que sua mãe publicou alegando ser sobre a maldição da sua família. Chloe Hickmann é uma moça simples que se apaixonou pelo CEO rabugento da empresa onde trabalha como corretora de imóveis. Por em três meses não ter conseguido finalizar nenhuma venda, sua única chance é vender a mansão "amaldiçoada" dos Sanches. O problema é que para isso precisa viver nela por sete dias, com o CEO.

Capítulo 1 PRÓLOGO - Maldição em forma de livro

Poucos dias após o casamento, o duque de Sanches estava extremamente irritado. Andava de um lado para o outro no quarto.

Cleo, sua jovem esposa, o seguia com o olhar, fascinada pela beleza máscula do marido. Desceu o olhar do seu rosto, onde se destacava olhos azuis límpidos, lábios finos e algumas marcas deixadas pelo tempo, detalhes moldados por uma estrutura máscula e cabelos castanhos parcialmente grisalhos. Seguiu pelo peito musculoso desprovido de pelos, e de roupas, após uma manhã bem agitada na cama. Desceu um pouco mais até o volume em suas roupas intimas. Mordeu os lábios com as cenas que vieram a sua mente.

Sentindo-se observado, Alejandro parou perto da cama e passou a fazer o mesmo.

Demorou-se no rosto da esposa, onde os fios longos e dourados se espalhavam no travesseiro. A boca pequena o fazia endurecer só de lembrar o que estavam fazendo minutos atrás, os olhos castanhos que sorriam junto com os lábios ao se ver analisada e desejada. Quando seu olhar se perdeu no corpo delicado, coberto por uma fina camisola, ele balançou a cabeça negando.

- Estou extremamente tentado a não fazer essa viagem. Ficar dois meses longe de você parece um pesadelo.

Sua esposa apenas segurou seu braço o puxando de volta para a cama.

- Esperarei ansiosa pelo seu retorno - o fez se sentar e puxou sua cabeça para o seu colo. - Não pense que está indo para longe de mim, pense que logo estará voltando e...

- E iremos viajar em uma lua de mel de verdade - ele prometeu, a interrompendo.

- Sim. Podemos ir para um lugar com praias paradisíacas? - Cleo pediu sorrindo, cheia de esperança. Ela tinha um sorriso que desarmava o marido. Era assim desde o momento em que se viram pela primeira vez.

- Iremos onde desejar, minha borboleta. - Acariciou o rosto da esposa.

Ela sorriu e beijou sua mão. Amava o apelido pelo qual ele a chamava desde que se conheceram, quando ela corria na floresta atrás de várias borboletas coloridas.

O duque se apaixonou de imediato. E não perdeu tempo em buscar o matrimônio.

Ele era viúvo e tinha uma filha poucos anos mais jovem que sua bela esposa.

Cleo também se apaixonou de imediato por aquele homem de expressão fechada, que quando sorria iluminava tudo ao seu redor. Ela ficou encantada com o belo homem que a observava. Seus pais até tentaram convencê-la a não se precipitar por causa da diferença de idade, mas o amor falou mais alto e em poucos meses estavam casados.

***

Apesar de Cleo fazer de tudo para se tornar amiga de Mariah, filha do seu marido, a garota não tinha nenhum interesse nessa amizade, mas fingia muito bem.

Quando o duque saiu na viagem de negócios que tanto desejou evitar, foi tranquilo com a visão das duas mulheres de sua vida na porta principal acenando para ele.

Ele nunca viajaria se sequer imaginasse que Mariah tinha um plano em mente para tirar Cleo do lugar que era só da sua falecida mãe.

Nos primeiros dias ela agiu normalmente. Já estava chegando a data do retorno do seu pai quando ela reuniu alguns dos empregados na cozinha e fez algumas exigências de como deveriam agir quando o duque chegasse.

Para deixar claro que não estava brincando, ameaçou:

- Lembrem-se do que devem falar quando meu pai chegar se quiserem manter seus trabalhos e suas vidas, pois se eu não conseguir me livrar dela me livrarei de cada um aqui.

- Sim, senhorita - eles responderam quase que em coro.

Fariam tudo que ela ordenasse, pois já presenciaram um empregado ser condenado a prisão por causa de mentiras e caprichos dela; temiam por suas vidas e de seus entes queridos.

Mariah saiu da pequena reunião com um sorriso no rosto, mas seu sorriso sumiu assim que ela entrou na casa principal e ouviu a novidade.

- Parabéns, senhorita! Em breve conhecerá seu irmão ou irmã. - O médico, que veio por causa dos recentes enjoos de Cleo, declarou ao vê-la.

- Ela está grávida? - a surpresa impediu que Mariah disfarçasse a raiva. Seu rosto ficou vermelho, mas ela logo se recuperou, sorrindo dissimulada. - Que maravilha! Meu pai vai ficar muito feliz.

Alheio ao perigo que sua cliente corria, o médico recomendou:

- Pedi que sua mãe descansasse um pouco, mas pode subir para partilharem essa alegria.

Mariah teve vontade de gritar que ela não era e nunca seria sua mãe, porém simplesmente sorriu para o médico e se despediu fingindo que subiria logo mais para saber sobre as novidades.

Mal o médico saiu da casa, ela não conseguiu mais disfarçar. Subiu correndo ao seu quarto, deixando Cleo confusa na sala, e abafou um grito de ódio no travesseiro; depois de rasgar vários vestidos em uma crise de raiva.

Cleo deixou para lá a reação da garota. Imaginou que fosse ciúmes por não ser mais filha única, e tinha certeza que isso mudaria quando conhecesse seu novo irmão ou nova irmã.

***

O duque voltou da viagem louco de saudades da sua filha e da sua esposa.

Mal desceu da carruagem e andou rapidamente em direção a casa, mas foi interceptado pela cozinheira que foi babá de Mariah durante a sua infância.

- Ainda bem que o senhor chegou. Por favor, salve a senhorita. - A mulher implorou cheia de aflição. Por mais que fosse uma encenação, ela realmente se sentia aflita, pois doía em sua consciência machucar alguém para não se machucar.

- Como assim? O que houve com a minha filha? - perguntou. Sua ansiedade começava a se transformar em preocupação.

- A senhora se transformou completamente após sua partida. Fez muitas maldades com a senhorita, mas nada tão cruel como fez há quase dois dias.

O duque a olhava sem acreditar no que ouvia.

Ela continuava falando e olhando os pés:

- A senhorita está presa no celeiro, nua e sem direito a comer. - No fundo temia perder a coragem de mentir para o patrão se visse a expressão no rosto dele. Todos que conheciam o duque de Sanches sabia do profundo amor que ele sentia pela filha e pela esposa.

- O que? - o duque começou a acreditar que estava em um pesadelo. Para ele era impossível crer em tal coisa.

- Por favor, salve-a!

Ainda sem acreditar, o duque foi em direção ao celeiro.

Sentiu como se morresse um pouco ao ver a filha encolhida em um canto.

Ela estava nua e com os olhos vermelhos de chorar. Mais cedo, ela mesmo havia ordenado a um empregado que a trancasse ali e, caso sua madrasta aparecesse e questionasse sua ausência, devia dizer que estava em seu quarto e não queria ser incomodada.

- Filha? Meu Deus! - o duque se aproximou rapidamente.

Enquanto a cobria com seu casaco, ele perguntou a empregada:

- Onde está a senhora?

- Deve estar chegando. Foi passar o dia com os pais.

- Prepare um banho e alimentos para a senhorita.

- Sim, senhor.

A mulher seguiu na frente enquanto o duque a seguia com a filha, que ainda chorava, nos seus braços.

Mariah não falava nada. Só chorava. Ele queria questionar o que exatamente aconteceu, porém temia a resposta.

Depois de se vestir e comer, ela finalmente falou:

- Posso morar com a vovó? - sua voz era apenas um fio depois de tanto choro. Não tinha dificuldade nenhuma em chorar sem motivo; era um dos artifícios que usava desde criança para conseguir tudo que queria.

- Precisa me contar o que aconteceu. Somente assim irei decidir o que fazer.

Mariah contou uma história que inventou. No seu relato disse que a madrasta se transformou em uma megera na ausência dele e que em um ataque de fúria a obrigou a tirar as roupas e ficar no celeiro.

- Ela disse que nada mais me pertencia. Que eu teria direito a roupas, comida ou dignidade somente quando permitisse. - Limpou uma lágrima invisível.

- Não posso acreditar. - O duque fechou os olhos, se sentia indignado e magoado.

Como Cleo foi capaz de algo assim? Dei tudo que ela queria, a amei com toda minha alma. Como ela pode machucar a minha filha? - pensava desolado.

- A maioria dos empregados presenciou, mas entenderei se o senhor escolher acreditar nela. Só peço que me permita morar com meus avós ou até mesmo em um convento. Tenho medo dela, papai. Eu te imploro. - Agarrou a mão dele.

Sanches acariciou a mão da filha por alguns instantes.

- Por enquanto, descanse. Preciso pensar.

Meio tonto, ele saiu do quarto da filha. Sentia-se desnorteado. Não acreditava que ela tinha motivos para mentir, mas ainda assim procurou alguns dos funcionários. Eles confirmaram. Disseram que a senhora ficou irreconhecível durante sua ausência.

Com ódio por ter o coração pisoteado, ele pegou uma garrafa de rum e sentou na varanda esperando a chegada da esposa. Todos sabiam que ele estaria de volta hoje, a ausência dela era mais um sinal de que realmente seu pesadelo era real.

Nem mesmo ao marido ela respeita mais? O que houve com a esposa carinhosa e companheira? Seus pensamentos vagavam em tais questionamentos enquanto bebia sem parar.

***

Cleo chegou quando o sol estava se pondo.

Ao ver o marido na varanda correu até ele, mas quando percebeu que ele estava embriagado ficou sem saber como agir. Era a primeira vez que o via naquele estado.

- A dona de tudo finalmente chegou - ele rosnou enquanto se levantava.

Antes que Cleo pudesse questionar o motivo do tom de deboche, ele a segurou com força pelo braço e a arrastou até o celeiro.

Quando chegaram em frente ao celeiro, a soltou fazendo com que ela caísse sentada no chão.

- Eu te dei meu amor. Por que isso não foi suficiente? Por que teve que machucar a minha filha? - gritava loucamente.

Ela o olhava apavorada. Esperou tanto por um retorno apaixonado e em troca recebeu violência.

- Meu marido, fiz algo ...

- Cale-se! - a interrompeu. - Não vai agir como santa agora que cheguei. Não vai me fazer de tolo.

Nesse instante, Mariah se aproximou e ficou atrás do pai, como se tivesse medo da mulher no chão. O duque não podia ver o sorriso vitorioso no rosto da filha.

Alguns empregados olhavam a cena sem disfarçar.

Levado por uma ira sem tamanho, o duque ordenou:

- Levante-se e tire as roupas.

Cleo se levantou, mas, ao invés de tirar as roupas, questionou:

- Não entendo. Por que está sendo tão cruel?

- Tire tudo. Nada pertence a você. - Ele ignorou sua pergunta. O álcool o impedia de pensar com clareza. Tudo que passava pela cabeça foi a forma como encontrou a filha e seus empregados dizendo que sua menina foi humilhada sem piedade.

- Por que está fazendo isso comigo? Eu não mereço. - Lágrimas de vergonha e decepção desciam pelos olhos de Cleo. - Acreditei que você me amava.

- Tão cínica! Depois do que fez com minha filha, devia se dar por satisfeita por eu não matá-la. - O ódio, a tristeza e o álcool serviam de combustível para ele agir cada vez mais impulsivamente.

- Não fiz nada. - Cleo desviou o olhar para a garota. - Mariah, diga ao seu pai. Eu não fiz nada.

Mariah teatralmente se escondeu atrás do duque.

- Não fale com a minha filha. Sequer olhe para ela.

Cleo percebeu que poderia dizer qualquer coisa que não conseguiria fazer o marido escutá-la.

Ele não acredita em mim. Não me ama. Não importa o que tenham dito a ele, o seu amor foi fraco o bastante para não confiar em mim. - Seus pensamentos eram dolorosos. Estava tão magoada que não conseguia pensar com clareza. Nem mesmo ouvia a voz lá no fundo que insistia que ela não precisava fazer o que ele mandava. Destruída e decepcionada, ela se desfez de cada peça de roupa rapidamente até se ver completamente nua diante das pessoas que olhavam.

Seu coração já estava morto. Não ligava mais para a vergonha.

Pela primeira vez o corpo do duque não reagiu a vê-la nua. Dessa vez só conseguiu sentir tristeza. Seu coração se escureceu.

Percebendo que começava a chorar na frente de todos, ele a puxou pelo braço e a empurrou para dentro do celeiro.

- Fique nesse lugar até que eu decida o que fazer com você - ordenou, trancou a porta e saiu em direção a casa onde pegou outra garrafa de rum.

Ninguém ousou segui-lo, nem mesmo sua filha.

***

Nua no celeiro úmido e frio, Cleo chorava e tentava entender o que estava acontecendo.

Não conseguia acreditar que a felicidade de descobrir que teria um filho podia ser ofuscada por alguma mentira ou mal-entendido. Era difícil aceitar que a amizade que Mariah demonstrava, desde que se conheceram, era mentira, mas diante de tudo que viveu nos últimos minutos não havia outra explicação. Por algum motivo ela havia mentido para o pai, uma mentira tão grave que o fez se transformar naquele monstro.

Seria por causa da gravidez? - se questionava.

A tristeza era tamanha que doía fisicamente em seu peito.

Com medo de que algo acontecesse com seu bebê, Cleo rezava e chorava.

Mas a dor cada vez mais forte a fez perder a consciência.

***

O dia seguinte chegou e, por causa da bebida da noite anterior e da dor de ter se enganado com a mulher que não conseguia deixar de amar, o duque não saiu do quarto em nenhum momento.

No fundo desejava morrer. A única coisa que o mantinha vivo era saber que sua filha precisava dele.

A noite já estava quase começando quando ele se decidiu. Mesmo revoltado com seus sentimentos, resolveu apenas manter Cleo longe. Daria a ela a escolha de voltar para a casa dos pais ou morar em outro país. Sabia que jamais conseguiria machucá-la. A imagem dela chorando já o perseguia como um pesadelo constante.

Deixou o quarto usando a mesma roupa com a qual passou a noite e seguiu para o celeiro.

Mariah também seguia para o celeiro para ver seus espólios.

Ela estava sorridente, mas seu sorriso sumiu ao ver a lavadeira levando comida e agasalho para a sua madrasta.

- O que está fazendo? - perguntou irritada.

- Vou levar um cobertor e alimento para a senhora. - A empregada respondeu sem se amedrontar. - Era uma das poucas que não participou da reunião, e quando soube do que acontecia se revoltou com seus colegas.

- Você é burra ou surda? - Mariah não conseguiu controlar o tom de voz.

Nessa hora o duque, que se aproximava, parou surpreso com a atitude da filha.

A empregada enfrentou a garota.

- Não, senhorita. Sei muito bem o que a senhorita ordenou e as mentiras que inventou. Só que não vou deixar a senhora ser maltratada só porque fomos ameaçados de perder o sustento dos nossos filhos. Prefiro morrer a ser cumplice de tal crueldade.

- É muita ousadia. - A garota riu debochada.

- E vou contar a verdade para o duque. Pode fazer o que quiser comigo, mas vou contar que a senhorita inventou toda aquela história e ameaçou os empregados para confirmarem.

- Atreva-se e... - o sorriso sumiu deixando uma expressão que transbordava ameaça.

- Qual é a história inventada? - o duque decidiu anunciar sua presença.

Apavorada, Mariah olhou para o pai. Sabia que a reação dele seria devastadora se descobrisse tudo o que fez.

- Não se atreva a mentir para o meu pai! - ameaçou a criada antes que ela começasse a falar.

A mulher não se intimidou. Encarando o duque, sem medo das consequências, respondeu:

- A senhorita nunca foi humilhada pela senhora. Ela inventou tudo porque estava com raiva do senhor ter casado. Enquanto fingia ser amiga da senhora, ela ameaçou os empregados para que confirmassem sua mentira, mas a senhora está grávida e não pode ser maltratada assim.

Grávida? - o peito do duque se apertou recordando o que fez com a esposa na noite anterior.

- Que história é essa de gravidez?

- O doutor confirmou recentemente. Ontem a senhora ficou fora porque foi contar a novidade aos pais.

- Você sabia? - ele se aproximou ameaçadoramente da filha.

- Aquela mulher tomou o lugar da minha mãe e queria me afastar do senhor. Ela é um monstro! - encurralada, ela gritou expressando toda sua raiva.

O duque a olhou como se não a reconhecesse.

Mariah simplesmente bateu o pé em um gesto de birra e correu para a casa onde se trancou no quarto.

Ele não a seguiu. Queria saber a história toda, queria dizer o quanto a filha foi burra por se sentir ameaçada ou por achar que ele esqueceria sua primeira esposa. Ele queria dizer tanta coisa, mas sentia que precisava cuidar de Cleo primeiro.

Correu em direção a entrada do celeiro. Cuidaria de sua esposa e só depois resolveria a situação.

Entrou sem conseguir controlar o desespero.

Suas pernas até fraquejaram quando viu a esposa encolhida e imóvel em um canto. A nudez dela ao invés de excitá-lo o fez chorar de arrependimento.

Se aproximou devagar e perguntou:

- Cleo, podemos conversar?

Não houve resposta.

Ele se abaixou e acariciou as costas dela.

- Por favor, vamos ... - começou a falar, mas parou ao notar o quanto ela estava fria.

Com o coração aos saltos, ele a virou e percebeu que nunca mais teria chance de conversar com ela.

Cleo estava morta.

Tudo que restava ao duque era o desespero e o arrependimento.

Agarrado ao corpo frio da esposa morta, ele chorou e gritou por horas até perder a lucidez.

Ninguém se atreveu a se aproximar.

Exatamente a meia noite, ele carregou o corpo de sua amada e o colocou na cama deles.

Depois de beijar sua barriga fria, a cobriu com um cobertor e beijou sua testa.

Encarando-a, disse:

- Volto em instantes e ficaremos juntos para sempre.

Saiu do quarto, ainda possuído pela loucura, e pegou um machado. Enquanto andava, as recordações de seus momentos com Cleo e a vontade de voltar no tempo e nunca a ter magoado e abandonado no celeiro eram as únicas coisas que o acompanhavam.

Pelo caminho ele atingia a qualquer pessoa com o machado. Queria matar a todos que permitiram que fosse enganado.

Ao perceberem o que estava acontecendo, alguns empregados tentaram segurá-lo, mas parecia que a adrenalina, a decepção e a raiva de si mesmo o deixava com uma força sobre-humana; então eles começaram a tentar fugir.

Talvez fosse o destino, mas só conseguiram fugir os que não participaram da farsa.

Mariah, que estava dormindo depois de chorar de raiva por não ter conseguido se livrar da madrasta, saiu do quarto ao despertar com os gritos dos empregados que corriam pela casa tentando se esconder nos quartos, ou em qualquer outro lugar.

Como nenhum empregado parava para lhe dar explicações, ela desceu as escadas correndo para saber o que acontecia.

Quando viu o pai banhado de sangue e desferindo golpes frenéticos em um homem no chão da sala, ela entrou em pânico.

Vendo que ele ia em sua direção, ela soltou um grito esganiçado:

- Papai?

Com olhos vidrados, ele a alcançou e a segurou pelos cabelos arrastando-a até perto da mesa.

- Vamos morrer como uma família - rosnava diante dos gritos dela.

- Papai, o senhor enlouqueceu - Mariah estava apavorada.

- Você, que eu criei com tanto amor, destruiu tudo ao meu redor sem pestanejar. Você me fez perder a mulher que amo e o filho que ela esperava. Como pode ser tão monstruosa e me transformar nisso?

- E eu? E a minha mãe? Nos amou em algum momento? - sabendo que ninguém a salvaria, ela decidiu enfrentá-lo.

- As amei e ainda amo. Mesmo te odiando agora, ainda a amo. Por isso vamos morrer juntos.

- Seria capaz de me machucar? - Dessa vez não havia resquício de arrogância, era só uma filha implorando para o seu pai voltar a si.

O duque a soltou.

- Saia daqui. Deixe-me queimar com os meus pecados. Pagará pelos seus de acordo com o desejo dos céus. - Uma breve lucidez surgiu no duque, que via os corpos sem vida por sua causa.

Confusa e com medo, Mariah correu para o lugar onde se sentia mais segura; seu quarto. Ela tentou correr escada acima, mas caiu, rolando escada abaixo. E não se levantou.

O duque caminhou até ela lentamente. A dor em seu coração ter se multiplicado era o sinal de que também havia perdido sua filha. Ela também estava morta.

Ele a pegou no colo e seguiu em direção ao quarto dela.

- Eu causei tudo isso ao não ser hábil em demonstrar o quanto te amo. Se soubesse o quanto é importante para mim jamais se sentiria ameaçada por ninguém em minha vida. Sinto muito, minha filha.

Ele a colocou na cama, beijou sua testa como se desejasse boa noite e saiu da casa em busca do necessário para incendiar tudo.

Foi de cômodo em cômodo colocando fogo. Os últimos foram o quarto da filha e o seu.

Despejou querosene na filha e a viu queimar. Lágrimas desciam de seus olhos.

Não havia retorno. Estava louco e sozinho.

Devagar, ele seguiu novamente ao quarto que dividia com a esposa. O fogo já tomava conta de grande parte da casa.

No quarto, ele despejou querosene ao redor e se ajoelhou na beira da cama segurando a mão de sua amada. O sentimento que teve pela sua primeira esposa foi belo, mas não chegava perto do que sentia por Cleo. Perdê-la o fez perder a razão de viver. Talvez porque sua primeira esposa deixou a filha para que ele pudesse amar, e Cleo se foi carregando o filho que nem tiveram a chance de conhecer.

Enquanto esperava o fogo alcançá-lo, o duque acariciava a mão dela e sussurrava:

- Amor, mesmo que eu volte em uma outra vida como seu escravo, não poderei sofrer o bastante para pagar o que fiz com você. - Sentindo o fogo próximo, ele sentou na cama e acariciou os cabelos dela. - Também espero que minha filha se arrependa e seja feliz onde quer que sua alma esteja.

- Eu te amo! - declarou se deitando ao lado dela e segurando a sua mão sem vida.

Logo o fogo alcançou a cama transformando o casal em corpos em chamas.

A vida do duque e o corpo da sua esposa se extinguiram nas labaredas, restando apenas corpos carbonizados de mãos dadas.

Capítulo 2 Diante do CEO

- Fim! - Luma declarou fechando o livro e colocando sobre a mesinha de centro.

- Credo! Que história triste! - Chloe levantou segurando a almofada e resmungando. - Me fez ficar acordada até agora para ouvir uma história com esse final trágico? Nem fala o que aconteceu depois da morte deles?

Ela questionou o final apenas por perceber que a amiga tinha algo em mente quando pediu para que escutasse a história do Duque de Sanches. Na verdade, achou bem justo o duque morrer e a filha também, por causarem a morte de uma mulher inocente e de um feto inocente.

Luma sorriu de orelha a orelha, como sempre fazia quando alcançava um objetivo.

- Fala sim, mas deixei para que você lesse quando a curiosidade te corroesse.

- Ótima estratégia! - Chloe não estava nem um pouco empolgada.

- Tem mais. O conto é baseado em fatos reais. Dizem que a tragédia aconteceu aqui em Miami há uns 400 anos.

Até parece! Miami é lá cidade com esse tipo de história? Aqui só tem plástica, balada e curtição - pensou com um sorriso de deboche.

- Você disse que escolheu essa história por um motivo especial. Qual é? - perguntou ao recordar que foi praticamente obrigada a ficar acordada até alta madrugada.

- O duque da história era o dono daquela casa que ninguém da sua empresa consegue vender.

Surpresa, Chloe se deixou cair no sofá e comentou:

- Então é por isso que não vendem. Esse autor a transformou em uma casa mal-assombrada.

- Dizem que durante a reforma, por causa do incêndio, as pessoas ouviam os lamentos do duque chorando pelo filho que nunca conheceu e pela esposa e filha que matou. - Luma falava cheia de empolgação.

- Credo! Desse jeito vou ter que procurar compradores sinistros. - Chloe riu. Não acreditava na história, mas tinha certeza que a culpa de todo mistério sobre ela vinha daquele livro.

- Isso foi antes do seu chefe nascer. Sabe que a casa é dele, né?

- Já me deixaram a par da situação dos Sanches. Se não for mais uma história fantasiosa, soube que ele colocou a casa a venda depois de ficar viúvo. Quis que a filha crescesse com os avós para não se sentir sozinha na ilha - contou superficialmente o que sabia sobre a família Sanches. E tentou ignorar a leve alteração na pulsação ao falar sobre o chefe que sempre a deixava de pernas bambas na sua presença. O homem era lindo, cheiroso e mal-humorado. Uma combinação de fogo e água gelada que mexia com a imaginação de muitas mulheres, entre elas, contra a sua vontade, estava Chloe.

- Não acha muita coincidência que Alejandro Sanches seja um viúvo que tem uma filha quase da sua idade? - Luma chegou mais perto da amiga. - Raciocina comigo, a mulher do conto se chama Cleo e você Chloe, acho que a história encontrou um jeito de dar um final feliz ao casal.

- Meu Deus! Não acredito que você está criando um romance imaginário entre eu e meu chefe rabugento. - Ela encarava a amiga sem acreditar.

- A culpa é sua. Quando me falou que o conheceu quando estava brincando com as borboletas no jardim da corretora, já achei que era um sinal de romance e, quando li esse livro, minhas suspeitas ficaram ainda mais forte.

Luma era facilmente influenciável. Acreditava em almas gêmeas, destino, cartomante e tudo mais que aparecesse em seu caminho. Aquele conto era um prato cheio para que sua imaginação criasse uma linda e dramática história de amor entre Chloe e seu chefe.

- Luma, querida, devia se lembrar que aquela também foi a primeira vez que ele foi grosso e me disse para desistir da profissão. E por falar nisso, é melhor eu ir dormir porque a primeira coisa programada na minha agenda é enfrentar o CEO descendente do duque - brincou enquanto se levantava.

- Vai rindo! Depois me conta como fui a primeira a torcer por vocês dois. Só não esquece que serei madrinha de todos os seus filhos.

- Vai dormir, professora!

Rindo, Chloe voltou para o quarto e se entregou a um sono tranquilo.

Era só uma história feita para vender livros, pensava.

***

No dia seguinte, ao chegar ao trabalho, Chloe foi orientada a ir direto para a sala de Alejandro Sanches, seu chefe e dono da corretora de imóveis.

Ela bateu na porta e entrou.

Alejandro estava analisando alguns papéis. Sequer olhou em sua direção ao dizer friamente:

- Feche as persianas e sente-se a minha frente, senhorita Hickmann.

Chloe obedeceu e aguardou que ele dissesse o motivo da reunião.

Depois de longos minutos, Alejandro afastou os papéis, tirou os óculos e a encarou com seus límpidos e intensos olhos azuis. Chloe engoliu em seco. Aqueles olhos eram um pecado que só fazia pensar em luxúria.

- Imagino que a senhorita já sabe o motivo pelo qual a chamei.

Fogo aceso, fogo apagado - pensou encarando-o.

- Sim. Creio que seja porque estou na empresa há quase três meses e não realizei nenhuma venda.

Não era exatamente o tópico da reunião, mas Alejandro estava curioso para ouvir o que ela tinha a dizer. Bateu com a ponta da caneta que segurava no queixo por alguns segundos, analisando-a.

- Como podemos resolver isso? - questionou.

- Se o senhor aceitar, gostaria que me desse mais uma chance. Me dê alguns dias e se eu não vender nenhum imóvel entregarei minha carta de demissão. - Chloe já havia pensado bastante sobre a sua situação na corretora, sabia que nenhum chefe manteria um funcionário "fantasma". Mas estava disposta a dar o seu sangue antes de desistir de algo que gostava tanto.

- Acho justo. - Alejandro gostou da atitude dela. Tanto que deixou para contar qual era a sua opinião sobre o trabalho dela em um outro dia. Queria observar a tentativa dela em se superar.

Como Chloe não disse mais nada, ele concluiu:

- Procure seu supervisor e escolha qualquer imóvel. Você tem exatos dez dias para concluir uma venda.

- Sim, senhor. Agradeço.

- Pode se retirar e, lembre-se, senhorita Hickmann, essa é a sua última chance.

Chloe agradeceu novamente e saiu.

Suspirou aliviada ao sentar a sua mesa.

Não foi tão ruim. Ele podia simplesmente me demitir - pensou.

Em poucos instantes Josef, seu supervisor, chegou e ela expôs a situação.

Talvez porque estivesse influenciada pela história que Luma leu ou só quisesse um desafio, mas ela se viu escolhendo a casa dos Sanches para vender, entre as apresentadas por Josef. Poderia ir direto aos seus clientes mais excêntricos e sinistros, certamente era uma jogada arriscada a que pretendia, mas não via outra opção, uma vez que em todo esse tempo na empresa não vendeu nenhuma casa "normal".

Seu supervisor nem tentou fazê-la mudar de ideia. Não tinham uma relação amigável, no máximo se tratavam cordialmente. Muitas vezes se ignoravam. O motivo: ela se negou a sair com ele quando começou a trabalhar na empresa. E ele não aceitou nada bem. Se tornou obcecado em tê-la em sua cama. Um sentimento que se tornava cada vez mais forte.

***

Os primeiros clientes que visitaram a casa ficaram completamente apaixonados pela estrutura e localização. O problema é que eles leram o livro de contos onde tinha a história sobre a mansão e eram supersticiosos.

Tratava-se de um casal que largou tudo em Manhattan para construir uma vida nova, longe dos trabalhos que quase acabaram com o casamento dos dois. Eram conhecidos por serem excêntricos, porém estavam de planos de ter filhos e uma casa com tal história poderia não ser bom para a criança.

A mulher se pronunciou quando estavam saindo:

- Vamos ser sinceros com você; viemos mais por curiosidade, por causa do livro, mas ver o imóvel e ouvir suas explicações nos fizeram ter um interesse real em adquirir a casa.

Droga de livro! Por que o senhor Sanches não proibiu a distribuição dessa porcaria de história? Deve estar interessado no marketing. Imbecil! - pensava já sentindo a derrota.

- Você parece conhecer muito sobre arquitetura. - O homem completou, tirando-a de seus pensamentos raivosos.

- Sou apaixonada pela área. Esse deve ser o motivo. - Chloe sorriu agradecida pelo elogio.

O casal se entreolhou e a mulher se virou para Chloe:

- Só tem um jeito de você nos convencer a comprar essa casa.

- E qual seria? - A esperança fez seu coração começar a bater mais rápido. Finalmente teria uma chance.

- Assinamos o contrato imediatamente se você morar aqui por um mês. Assim vai nos garantir que as histórias são apenas fantasias. Que não existem fantasmas residindo nesse imóvel. Não queremos fazer planos e nos mudar para depois termos problemas.

A proposta surpreendeu.

- Tenho que ver com o meu supervisor. Se não for contra as regras da corretora, não vejo motivo para não aceitar os termos, mas podem mudar esse prazo para uma semana? É que daqui a uma semana vou precisar me afastar da corretora por algum tempo. - Lembrou que se não vendesse a casa no prazo estipulado podia dar adeus ao emprego.

- A casa é considerada mal-assombrada então uma semana é suficiente. O que acha, querida? - O homem se virou para a mulher.

- Que seja uma semana. - Ela concordou. - Vamos ficar de olho para garantir que esteja mesmo morando aqui durante esses sete dias.

- Vai ser divertido! - Chloe sorriu com sinceridade.

Deram mais uma volta pela propriedade e se separaram. O casal seguiu para o hotel onde estavam hospedados e Chloe foi em busca do seu supervisor para informar sobre a condição dos compradores.

Josef não se opôs. Sabia que já houve várias quebras de contrato de clientes que tentaram morar lá. Eles sempre saíram assustados com os barulhos estranhos que não os deixavam dormir. Até os corretores a consideravam mal-assombrada e tinham medo de entrar lá. Na verdade, não acreditava que ela fosse conseguir.

Ele a orientou a redigir o acordo para que os clientes assinassem e a passar os dias estipulados na casa usando câmeras para comprovar caso houvesse questionamentos futuros por parte dos clientes. Também se ofereceu para acompanhá-la, mas a oferta foi recusada. O que o deixou irritado pelo resto do dia. Claramente suas intenções não eram nada nobres. Tudo que queria era a chance de ficar sozinho com ela para convencê-la a aceitar seus avanços.

Ele torceu para que um fantasma a assombrasse.

Capítulo 3 A mansão na ilha

No dia seguinte, Chloe já estava a caminho da mansão onde passaria os próximos sete dias.

Enquanto isso, Alejandro estava enlouquecido no escritório.

- Por que permitiu que uma funcionária morasse em uma das casas?

Havia chamado Josef para uma reunião assim que descobriu o que estava acontecendo.

- Foi uma exigência de um cliente. O mesmo assinou um acordo garantindo a compra do imóvel após confirmar que a funcionária passou o período de sete dias no local - explicou.

- Isso é um absurdo! Agora estamos sujeitos a exigências malucas? - não esperou o funcionário responder. - Quem foi com a senhorita Hickmann?

- Ela foi sozinha.

Alejandro não acreditou no que ouviu. Sua funcionária estava sozinha em uma casa imensa em uma ilha.

Quando ela vai parar de mexer com a minha estrutura? - se perguntava enquanto olhava para o funcionário com ódio.

- Saia! Irei resolver isso. - Não via sentido em discutir com o funcionário quando sabia que se a situação não envolvesse a senhorita Hickmann nunca se daria ao trabalho de questionar. Talvez até elogiasse a atitude. Mas tinha que ser ela. A mulher que ele sentia que se agarrasse não soltaria mais. E que por esse motivo fugia do desejo desesperadamente. Não queria outra mulher assim na sua vida. Uma perda já foi o bastante para o seu coração. Tudo que queria depois da morte de sua esposa era prazer sem compromisso. E bastava olhar para Chloe Hickmann para entender que ela não se encaixava nesse perfil.

Josef saiu desconfiado de que estava em apuros. Decidiu ficar bem quietinho até a poeira baixar. Chloe que se entendesse com o todo poderoso Sanches.

***

Sozinho na sala, Alejandro começou a andar de um lado para o outro.

- O que você está fazendo? - esfregou a cabeça.

Sentia que suas emoções estavam a flor da pele desde que viu Chloe pela primeira vez. Achou que estivesse delirando ao ver uma bela jovem brincando com borboletas no jardim da corretora.

Na hora não acreditou que pudesse ser real. Era impossível existir tamanha beleza. Aqueles cabelos dourados escapando do coque por causa do vento, os grandes olhos castanhos, o corpo deliciosamente delicado oculto por um vestido estilo secretária, a boca vermelha que parecia incapaz de parar de sorrir.

E ele percebeu cada detalhe nos poucos segundos antes dela virar em sua direção e ficar sem jeito, por ser pega em tal atitude em seu primeiro dia de trabalho.

Foi naquele momento que ele entendeu que precisava ficar longe dela ou poderia perder o controle e agarrá-la só para saber qual era o gosto dos seus lábios; qual era a textura da sua pele; qual era o tom da sua voz ao gemer de prazer.

Ele riu e parou de andar ao ver a reação do seu corpo diante das lembranças.

Esquece! Não vou me masturbar pensando nela. E não vou me envolver com uma garota com quase a mesma idade da minha filha. Dariam ainda mais crédito àquele maldito livro - resmungou em pensamento.

- Mas também não posso deixá-la passar uma semana sozinha em uma casa da corretora.

Depois de respirar fundo para controlar o corpo, pegou as chaves do carro e seguiu para sua casa onde se trocou e ordenou ao piloto do seu helicóptero que o levasse até a praia, onde pegaria o barco até a ilha. Estava disposto a tirar Chloe da casa e esclarecer de uma vez a situação dela na empresa.

Não seria uma má ideia transferir a garota para uma das filiais. Ficar longe dela será ótimo para minha sanidade. Tenho que colocar um fim nisso - pensou durante o caminho. Começava a ter sonhos eróticos com a funcionária, e mais de uma vez chamou pelo nome dela durante o sexo com outras.

***

Alejandro chegou na ilha quando a tarde já estava pela metade. O clima deixava claro que logo a ilha estaria sob chuva.

Depois de alugar um buggy, ele seguiu para a casa.

Estava tudo escuro. Nem parecia ter alguém.

Estranhando isso, ele tocou a campainha. Apesar de ter a chave não quis entrar para não assustar sua funcionária.

Só no segundo toque, ela perguntou:

- Quem é?

- Alejandro Sanches. Abra!

Chloe abriu a porta e o deixou entrar.

Por alguns instantes ele ficou mudo. A olhava de cima a baixo, fascinado pela sua beleza. Em um vestido azul curto e com os cabelos dourados soltos, ela esbanjava sensualidade.

- Aconteceu alguma coisa, senhor Sanches? - disse esfregando os olhos.

- O que você estava fazendo com as luzes apagadas?

- Acabei dormindo enquanto desfazia a mala.

- Coloque suas coisas de volta na mala e vamos. O barco sai em poucos minutos. Vou levá-la a sua casa.

- Por que? Aconteceu algo? - Chloe ainda estava um pouco sonolenta. Tinha dormido menos de três horas na noite anterior, ansiosa pela possibilidade de ser demitida.

- Eu nunca aceitaria que morasse em uma das casas mesmo que fosse exigência de um cliente em potencial. - Alejandro declarou, tentando muito não encarar cada pedacinho de pele que o vestido deixava a vista.

- O senhor Josef permitiu. E essa é a única chance que tenho de manter meu emprego. - Ela tentou argumentar, mas se arrependeu de falar no nome de Josef. Temia que ele ficasse me apuros.

- Poupe-me! Do jeito que trabalha posso te garantir que mesmo vendendo essa casa será demitida em breve. Só inventei isso para não dizer que não te dei uma chance. - Se ouviu mentindo. Não entedia porque não podia ser somente educado. Tinha que ser afetado por um desejo tão absurdo.

- Uau! - Chloe estava sem palavras. Nem sono mais sentia.

- Vá lá buscar suas coisas que meu tempo é precioso. - Deixou para se explicar quando estivessem em um ambiente mais profissional. Sempre que ficava sozinho com ela se sentia incomodado.

As palavras duras dele a despertou completamente.

Por causa da diferença de altura, ela levantou o queixo para encará-lo.

- Não vou sair daqui. Existe um contrato que exige que eu fique aqui.

Alejandro levantou a sobrancelha, supresso com a ousadia que presenciava.

- Está querendo invadir a minha casa? - ele riu cinicamente.

- Não senhor. - Chloe também tentou rir, só que apenas conseguiu fazer uma careta de desagrado. - Só estou cumprindo o meu trabalho.

- Pois isso é desnecessário. Pode pegar o primeiro transporte amanhã direto para a empresa. Sua demissão estará te esperando.

Chloe se viu sem chão. Quando pensava que estava próximo de realizar a primeira venda e provar que era capaz, ouvia que não tinha a chance nem de tentar.

Tentando manter as lágrimas nos olhos, ela perguntou:

- Por que o senhor me detesta tanto? Sei que não consegui vender nada desde que entrei na imobiliária há poucos meses, mas às vezes parece que, que...

Alejandro demorou um pouco para reagir. Estava paralisado diante do olhar triste dela. Nunca se sentiu assim. Era como se seu coração estivesse sendo esmagado cruelmente em seu peito. Quis pegá-la no colo e aninhar em seu peito dizendo que tudo ficaria bem, porém naquele momento estava incapaz de mexer um músculo. A encarava sem expressão.

Sem saber bem o que achava da atitude dele, Chloe virou as costas e subiu as escadas correndo.

Assim que a porta do quarto bateu atrás dela, Alejandro recebeu uma ligação do responsável pelo barco que os buscaria. Ele se recuperou do "transe" e atendeu o homem que avisou que não haveria possibilidade de fazer a viagem devido ao mau tempo.

Ele ficou em dúvida se seria melhor ficar em um hotel e deixar Chloe se resolver sozinha, mas pensou bem e decidiu que não podia deixar a funcionária sozinha na casa durante uma tempestade.

Eu sou um homem, porra! Posso muito bem passar a noite debaixo do mesmo teto com ela sem agir como um tarado - pensou indo em direção as escadas.

Como não sabia o que dizer a Chloe, resolveu usar seu antigo quarto e deixar para conversar depois de um banho e de uma prece onde pediria força e sabedoria para agir com ela.

Uma hora depois, de banho tomado e com uma roupa confortável, ele lia um livro sentado no sofá. Ler sempre o deixava mais tranquilo. Precisava disso para enfrentar sua funcionária.

Ouviu um barulho vindo da escada e se surpreendeu ao ver Chloe descendo com uma mala.

Ela nem falou com ele. Foi direto para a porta.

- Espere ai! Você não pode ir. - Alejandro fechou o livro já prevendo a tempestade que enfrentaria dentro de casa.

Ignorando-o, Chloe abriu a porta e saiu.

Alejandro a alcançou na varanda.

- Eu disse que você não pode ir. - Segurou seu braço com mais força que o necessário.

- Qual é o seu problema? - ela olhou o braço e puxou. - Está me machucando.

Ele a soltou como se sua pele o queimasse. A última coisa que queria era machucar aquela pele que assombra suas noites.

- Não tem barcos disponíveis. Uma tempestade se aproxima. - Se justificou.

- Esperarei em um hotel até a tempestade passar. - Ela evitava o olhar nos olhos na inútil tentativa de esconder que seus olhos estavam vermelhos de chorar.

Mas Alejandro percebeu. E se odiou por ter causado aquilo. Afinal ela não tinha culpa de atrai-lo ao ponto de deixá-lo confuso.

- Não precisa. Pode ficar aqui até amanhã. - Controlou o tom de voz deixando-o mais calmo.

Só que isso não foi o suficiente para aplacar a magoa de Chloe.

- Depois de ser praticamente expulsa seria ridículo ficar aqui. Eu sou sua funcionária não um brinquedo.

- Não estou te tratando como brinquedo. Talvez eu tenha sido grosseiro e me expressei mal. Só me preocupa que fique aqui sozinha. E andar até um hotel arrastando essa mala seria tão ridículo quanto ficar aqui depois de ser ofendida.

- Olha, não somos amigos nem parentes. Guarde sua preocupação. - Chloe estava tão magoada e com raiva que nem ouviu o tom de suplica nas palavras do chefe.

Irritado por ela não aceitar suas desculpas implícitas, Alejandro voltou para dentro de casa.

- Teimosa. Se quer enfrentar chuva, vá! Eu tentei ser gentil - resmungou enquanto entrava.

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