A escuridão tomou conta, não a da noite, mas a do total esquecimento, um vazio onde minha voz, antes ovacionada pelas multidões, silenciou para sempre.
Minha carreira como cantora gospel virou pó, tudo por causa da minha irmã mais nova, Joana.
Ela sabotou minha música-título, inserindo mensagens subliminares que me associaram a rituais obscuros, e o escândalo foi devastador.
A mídia e os fãs que me chamavam de anjo, agora me chamavam de demônio.
Perdi tudo: minha carreira, minha fé. Refugiei-me em um convento isolado, onde morri de coração partido, ouvindo no rádio Joana ganhando o prêmio de revelação do ano com uma canção que eu havia escrito.
Esse fim trágico, essa humilhação final, me manteve presa em um limbo de desespero e incompreensão.
Eu não entendia como a inveja de alguém podia ser tão destrutiva, nem como o universo poderia permitir tamanha injustiça.
Mas então, abri os olhos novamente.
A luz forte dos refletores me cegou, o cheiro de perfume caro e canapés invadiu minhas narinas. Eu estava de pé, usando o vestido de seda branco do meu lançamento.
Não estava morta, nem no convento. Eu voltei.
Voltei para o exato momento em que minha vida desmoronou, pronta para reescrever meu destino.
Desta vez, não haveria desespero, apenas uma fúria fria e clara como gelo.
"Parem a música!", minha voz retumbou, não como uma cantora, mas como um trovão, enquanto eu marchava em direção a Joana, que me olhava com um sorriso dissimulado.
A caça virou o caçador.
A escuridão foi a última coisa que senti. Não a escuridão de uma sala, mas a do esquecimento total, um vazio frio onde minha voz, antes aclamada por multidões, não passava de um eco silencioso. Minha carreira como cantora gospel, construída com anos de fé e dedicação, virou pó. Tudo por causa da minha irmã mais nova, Joana. A inveja dela era um veneno que agia lentamente, até o dia do lançamento do meu novo álbum, quando ela aplicou a dose fatal.
Ela sabotou a faixa principal, inserindo mensagens subliminares que me associavam a rituais obscuros. O escândalo foi imediato e devastador. A gravadora rasgou meu contrato. Os fãs que antes me chamavam de anjo, agora me chamavam de demônio. A mídia evangélica me crucificou. Perdi tudo. Minha carreira, minha reputação, minha fé. Em desespero, me refugiei em um convento isolado, buscando silêncio, mas encontrei apenas o eco da minha própria ruína. Foi lá que morri, de coração partido, ouvindo pelo rádio a notícia de que Joana, a nova estrela gospel, ganhava o prêmio de revelação do ano com uma canção que eu havia escrito.
E então, eu abri os olhos.
A luz forte dos refletores me cegou por um instante. O som era uma onda de vozes animadas e música ambiente. O cheiro era uma mistura de perfume caro e canapés. Eu estava de pé, usando um vestido de seda branco que eu lembrava muito bem. Era o vestido do meu lançamento.
Meu coração disparou, não de ansiedade, mas de um choque profundo e impossível. Olhei para minhas mãos. Elas não eram as mãos magras e pálidas da mulher desolada que se rendeu no convento. Eram minhas mãos de antes, fortes, saudáveis.
Virei a cabeça e olhei para o grande banner no palco. "Maria - Lançamento do Álbum 'A Voz da Redenção' " . A data estava lá. Hoje. O dia em que tudo desmoronou.
Eu não estava morta. Eu não estava no convento. Eu voltei.
Voltei para o exato momento em que minha vida foi destruída.
A memória da dor, da humilhação, do abandono, era tão real, tão presente, que precisei me segurar no encosto de uma cadeira para não cair. As lágrimas de Joana, suas falsas declarações de inocência, o olhar de desprezo do meu noivo, a fúria do meu tio, o julgamento de todos... tudo voltou em uma avalanche.
Mas desta vez, não havia desespero. Havia uma fúria fria e clara como gelo. Eu tive uma segunda chance. E eu não a desperdiçaria.
"E agora, vamos ouvir a faixa-título, a canção que promete tocar o coração de todo o Brasil, 'A Voz da Redenção' !" , anunciou o apresentador no palco.
Meu sangue gelou. Era agora. Era a música adulterada.
Meu corpo se moveu antes que minha mente pudesse processar. Eu ignorei os olhares confusos enquanto marchava em direção ao palco, meu vestido branco esvoaçando atrás de mim.
No canto do palco, vi Joana. Ela me olhava com um sorriso dissimulado, um brilho de triunfo cruel em seus olhos. Ela achava que já tinha vencido.
Ela não sabia com quem estava lidando. Não mais.
"Parem a música!" , minha voz soou, não como a de uma cantora, mas como um trovão. O técnico de som, surpreso, congelou com a mão sobre o console. O salão inteiro ficou em silêncio, todos os olhos em mim.
Subi os degraus do palco e caminhei diretamente até Joana. Seu sorriso vacilou, substituído por uma máscara de falsa preocupação.
"Irmã, o que foi? Você está bem?" , ela perguntou com sua voz doce e ensaiada.
Eu parei a centímetros dela, olhando-a de cima. O barulho da minha respiração era a única coisa que eu ouvia.
"Joana" , eu disse, minha voz baixa e cortante, para que apenas ela e as pessoas mais próximas ouvissem. "Quem te deu permissão para se portar como a estrela desta noite? Este palco é meu. Este lançamento é meu."
A surpresa no rosto dela foi genuína. Ela esperava que eu fosse a Maria de sempre, a irmã mais velha, ingênua e passiva. Ela não esperava a mulher que voltou do inferno.
"Eu... eu só estava aqui para te apoiar, irmã" , ela gaguejou.
"Apoiar?" , repeti, um sorriso sem humor tocando meus lábios. "Ou para pegar o que é meu? Eu vi seu olhar, Joana. O mesmo olhar que você tinha quando roubava meus brinquedos quando éramos crianças. A mesma ganância."
Agarrei o microfone do pedestal com força. Olhei para a multidão chocada, para os executivos da gravadora na primeira fila, para o meu noivo, Lucas, que me olhava com reprovação.
"Peço desculpas pela interrupção" , anunciei, minha voz ressoando pelo sistema de som. "Houve uma pequena tentativa de sabotagem. Mas não se preocupem. O show vai continuar. Apenas com algumas mudanças no elenco."
E com isso, olhei diretamente para Joana, meus olhos prometendo a ela a justiça que me foi negada na minha primeira vida. O pânico começou a se espalhar pelo rosto dela. Ela finalmente entendeu. A caça havia virado o caçador.
O rosto de Joana perdeu a cor. A máscara de inocência caiu, revelando o pânico puro. Ela rapidamente se recompôs, e as lágrimas começaram a brotar em seus olhos, uma tática que ela dominava desde a infância.
"Maria, como você pode dizer uma coisa dessas?" , sua voz tremeu, carregada de uma dor fabricada. "Eu te amo mais que tudo. Eu nunca faria nada para te machucar. Você está nervosa com o lançamento, é isso. Eu entendo."
Ela se virou para a plateia, buscando a simpatia que sempre conseguia com tanta facilidade.
"Por favor, perdoem minha irmã. A pressão sobre ela é imensa. Ela não quis dizer isso."
A multidão começou a murmurar, alguns com pena, outros com confusão. Era a mesma cena da minha vida passada. Joana, a vítima. Maria, a descontrolada.
Mas eu não era mais aquela Maria.
"Chega de teatro, Joana" , minha voz era firme, cortando o seu lamento. "Você acha que essas lágrimas funcionam comigo? Eu te conheço desde o dia em que você nasceu. Eu sei cada mentira antes mesmo que ela saia da sua boca."
Eu dei um passo à frente, diminuindo o espaço entre nós. O cheiro do perfume dela, um presente meu, me enojou.
"Você não me ama. Você ama o que eu tenho. Você cobiça minha voz, minha carreira, a atenção que eu recebo. Você sempre quis ser eu. E hoje, você achou que finalmente conseguiria."
A expressão de Joana endureceu. As lágrimas secaram.
"Você está louca" , ela sibilou.
"Estou?" , eu ri, um som amargo. "Vamos ver. Diga a todos, Joana. Diga a todos o que você fez com o arquivo de áudio da minha música. O arquivo que você insistiu em 'revisar' para mim ontem à noite, como um 'favor' ."
O pânico voltou aos olhos dela, mais forte desta vez. Ela sabia que eu sabia. Como, ela não entendia, mas isso não importava.
"Eu não sei do que você está falando!"
"Sabe sim."
Agarrei o braço dela com força. Sua pele era macia, mas meu aperto era de ferro. Ela tentou se soltar, mas eu não cedi.
"Você vai sair deste palco. Agora" , ordenei em um tom baixo e perigoso.
"Me solta! Você está me machucando!" , ela gritou, voltando ao seu papel de vítima.
Foi nesse momento que ele interveio. Lucas, meu noivo. O homem que deveria estar ao meu lado, me defendendo. Em vez disso, ele subiu no palco, seu rosto uma máscara de fúria e vergonha.
"Maria, já chega! O que diabos você pensa que está fazendo?" , ele disse, tentando puxar minha mão do braço de Joana.
Eu o encarei. O mesmo olhar de decepção que ele me deu na outra vida, antes de me virar as costas e ficar ao lado de Joana. A memória era uma ferida aberta.
"Estou colocando a sua protegida no lugar dela" , respondi, fria.
"Protegida? Ela é sua irmã! E você está a humilhando na frente de toda a indústria da música!" , ele esbravejou. "Você está destruindo sua própria festa de lançamento! Você está nos envergonhando!"
" 'Nós' ?" , repeti a palavra com desprezo. "Não existe mais 'nós' , Lucas. Não depois disso."
A expressão dele mudou de raiva para incredulidade.
"O que você está dizendo? Você está terminando nosso noivado? Aqui? Agora? Por causa de um ataque de ciúmes?"
"Não é ciúmes quando a ameaça é real" , eu disse, soltando finalmente o braço de Joana, que correu para se esconder atrás de Lucas, soluçando.
Lucas me olhou com um desprezo gelado.
"Pense bem no que está fazendo, Maria. Sua reputação já está em jogo com essa cena ridícula. Se você continuar, se insistir em me afastar, eu vou garantir que todos saibam o quão instável e difícil você é. Nenhuma gravadora vai querer uma diva problemática."
Era uma ameaça clara. Ele estava usando nosso relacionamento, meu futuro, para me chantagear. Para proteger Joana.
Eu olhei para ele, para o homem com quem planejei um futuro, e vi apenas um traidor. Na minha outra vida, suas palavras me aterrorizaram. Nesta, elas apenas acenderam o fogo da minha vingança.
"Ameaças, Lucas?" , eu sorri, um sorriso que não alcançou meus olhos. "Você realmente não entendeu nada, não é? Vocês dois não entenderam."
Meu olhar passou dele para a minha irmã trêmula.
"A festa de hoje pode ter acabado. Mas o meu show... está apenas começando."