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A Melodia de Ária

A Melodia de Ária

Autor:: autoracmarins
Gênero: Romance
Ária Garcia é uma mulher que sabe exatamente o que quer da vida e um relacionamento, definitivamente, não está em seus planos. Divorciada e determinada a construir sua independência, ela tem uma única regra: nunca mais se permitir ser vulnerável por causa de um homem. Fred Almeida é charmoso, inteligente, bem-sucedido e completamente avesso a compromissos. Para ele, relacionamentos são complicações desnecessárias em uma vida perfeitamente organizada. Sem vida amorosa, ele faz questão de deixar as coisas simples: não fica com a mesma mulher por muito tempo. Sempre honesto, nunca faz promessas nem cria expectativas. Suas relações não envolvem sentimentos. Quando Ária se vê encurralada pelo ex-marido, uma ideia desesperada lhe vem à mente. Sem pensar muito, ela se aproxima do arrogante Fred, que acabara de conhecer e o beija, usando-o como escudo contra seu ex. O que ela não esperava era que Fred entrasse no jogo com tanta intensidade. O beijo que deveria ser apenas uma encenação se transforma em algo muito mais profundo e perturbador. A química entre eles é instantânea, impossível de ignorar. Entre jogos de sedução, conversas ácidas, encontros que se tornam íntimos demais e uma paixão que cresce a cada olhar trocado, eles descobrirão que algumas batalhas são impossíveis de vencer, especialmente aquelas que travamos contra nós mesmos. Uma história sobre duas pessoas que acreditavam ter o controle total sobre seus sentimentos, até descobrirem que o amor não pede licença para chegar.

Capítulo 1 Ária - Tempestades sempre começam com um só raio

A luz do entardecer, filtrada pelas cortinas de veludo carmesim do recém reformado

Bar Apolo desenhava sombras douradas no salão. Eu estava sentada em um dos

banquetes do bar, o laptop aberto diante de mim, meus dedos dançando sobre o teclado

enquanto traduzia um romance francês para o português. A música suave do piano do meu

avô, o Sr. Gaspar, ecoava como um fio condutor entre as palavras que surgiam na tela. "La

nuit était froide, mais froide encore que son regard..." - traduzi, pausando para observar o

homem de cabelos prateados que, como todas as tardes, vestia seu terno marrom e

dedilhava as teclas do piano como se conversasse com fantasmas. O cheiro de uísque

single malt que ele insistia em beber aos goles lentos misturava-se ao aroma de madeira

envernizada e café fresco.

O bar ainda estava fechado. Garçons ajustavam toalhas impecáveis sobre mesas de

mogno e o som de copos sendo organizados na prateleira acompanhava a melodia do

piano. Foi nesse cenário que a porta de carvalho rangel, violando a rotina vespertina.

Um homem entrou como uma tempestade contida. Alto, magro, com ombros largos

que tencionava o tecido impecável de seu paletó azul-marinho, ele parecia ter saído de um

catálogo de revista, e, no entanto, havia algo que quebrava sua postura. Seus cabelos

castanhos escuros, levemente ondulados, caiam de forma desordenada sobre a testa como

se ele não se importasse o suficiente para domá-los. Seus olhos, porém, eram o que me

prendiam, um cinza metálico quase prateado que escaneavam o ambiente com a frieza de

um algoritmo. Não sorriu. Não cumprimentou. Apenas parou no centro do salão, com as

mãos enfiadas nos bolsos, enquanto seu olhar percorria cada um dos cantos como se

calculasse riscos invisíveis.

"O bar abre às 18 horas." Falei, fechando o laptop com um clique seco. Minha voz

era suave, mas carregada de autoridade, o que fez com que os garçons ignorassem suas

tarefas para observar.

O homem virou-se lentamente em minha direção. Seu rosto era uma escultura de

mármore, queixo angular, nariz afilado, uma cicatriz quase imperceptível cortando a

sobrancelha esquerda. Bonito, sim, mas de uma beleza que doía. Ele me fitou por alguns

segundos, os olhos pousados em mim como se decifrasse um código antes de responder.

"Não vim beber. Vim inspecionar." A voz dele era grave, rouca, como se não fosse

usada com frequência. Cruzei os braços, como que em um movimento de defesa, sentindo

um arrepio na nuca.

"Inspecionar?" Repeti arqueando a sobrancelha.

"O noivado de Gabriel e Sofia... ela é minha irmã. Preciso garantir que o local esteja

seguro. Câmeras, saídas de emergência, rotas de evacuação." Ele puxou o celular do bolso

interno do paletó, os dedos deslizando rapidamente sobre a tela. Nem sequer olhou pra

mim para falar.

Ri, um som curto e desprovido de humor. "Esse bar tem mais de trinta anos e nunca

precisou de rotas de evacuação."

Finalmente ele ergueu os olhos. Havia uma centelha ali, algo que poderia ser

irritação ou interesse.

"Se tem mais de trinta anos, pode estar cheio de falhas." respondeu secamente. "E

você é...?"

"Ária Garcia. A dona."

Ele inclinou a cabeça como se aquela informação fosse algo a ser registrado, não

uma apresentação.

"Fred Almeida. Preciso de acesso aos sistemas elétricos e ao mapa estrutural."

Senti o sangue latejar nas têmporas. Não sou uma mulher muito paciente.

"Você poderia começar com um boa tarde." Disse, descendo do banco com

movimentos lentos. Me aproximei dele, os saltos das minhas botas ecoando no assoalho.

Fred não recuou, mas seus dedos se contraíram levemente em torno do celular. Eu o

observava, impassível, enquanto inalava seu perfume, uma fragrância com uma aura de

poder inabalável, confiança que beira arrogância e o luxo de quem não pede licença. Uma

explosão fria e cortante, densa quase palpável com uma projeção que ocupa espaço como

um manto invisível de autoridade. Um cheiro daqueles que deixa um rastro que persiste

mesmo após a saída do portador, como um aviso silencioso de que ele está sempre dois

passos à frente. Ou talvez eu só esteja lendo livros demais de romance.

"Boa tarde." Concedeu após uma pausa intencional. "Agora posso ver os sistemas?"

Quase rosnei. Quase. Em vez disso, apontei para o corredor estreito atrás do

balcão. Gabriel era meu melhor amigo e era por ele que ela deixaria a irritação de lado.

"A sala técnica é lá. Mas me avise antes de mexer em qualquer coisa. Vamos abrir

em breve e não quero ter que lidar com nenhum problema."

Fred acenou com a cabeça, já se movendo em direção ao corredor. Parou um

instante ao passar pelo piano onde meu avô agora dedilhava As Time Goes By. O velho

homem inclinou o copo de uísque em sua direção, um sorriso enigmático nos lábios. Fred

hesitou. Um micro gesto que eu quase perdi, então seguiu em frente, desaparecendo na

penumbra.

Enquanto isso, do lado de fora, a chuva começava a cair, batendo nas janelas como

dedos impacientes. Voltei ao banco, abri o laptop e tentei focar na tradução. "Seu coração

era um inverno interminável..." escrevi, mas as palavras pareciam vazias. Olhei para o

corredor escuro, onde a silhueta de Fred se movia como uma sombra disciplinada.

Arrogante. Calculista. Insuportável. Mas por que minhas mãos tremiam levemente

ao digitar?

Meu avô terminou a música e levantou-se, arrastando a cadeira com um ruído

áspero, passou por mim e pousou uma mão em meu ombro.

"Cuidado, minha netinha!" Sussurrou o cheiro de uísque, envolvendo-me como um

abraço familiar. "Tempestades sempre começam com um só raio."

E antes que eu pudesse responder, ele saiu deixando para trás o eco de suas

palavras e o silêncio pesado que precede a queda de um trovão. No corredor, Fred

examinava os fios elétricos com dedos ágeis, e olhos atentos a cada detalhe.

A movimentação no de arrumação continuava, faltava menos de quarenta minutos

para abrirmos e resolvi encerrar meu trabalho de tradução . Pedi que um dos garçons

guardasse meu laptop no meu escritório e continuei observando os movimentos do

arrogante visitante perdido em seu trabalho investigativo. Assim que ele sair vou ligar pra

Gabriel para saber o motivo de tanta preocupação.

A porta rangeu mais uma vez, permitindo que outra figura irritante entrasse no local.

"Ária, você não fez o depósito que eu pedi. Eu te falei que era urgente." Tiago se

aproximou falando com indignação. Fechei meus olhos e respirei fundo.

"Não me lembro de ter concordado em fazer depósito algum na sua conta. Até onde

eu sei, Tiago, eu não te devo absolutamente nada."

"Tá de brincadeira, Ária? Eu vou te pagar. Já te falei que vou te pagar. Eu preciso

muito desse dinheiro. Posso perder meu negócio se você não fizer esse depósito pra mim."

"Tiago, acabou. Essa fonte secou. Não. Entenda isso." Ele se aproximou mais e

colocou a mão sobre meu ombro.

"Deixa eu te explicar uma coisa..." Ele foi interrompido pela chegada de Fred, que o

encarava com uma expressão séria. De repente o bar estava silencioso e não havia mais

movimento algum, todos os olhos estavam concentrados em nós. Percebi que mais dois

homens que eu desconhecia, vestidos de terno e gravata, também se aproximaram em

silêncio.

"Senhor, preciso que retire sua mão dela e se afaste devagar." Fred disse em tom

baixo, porém autoritário. Tiago retirou sua mão do meu ombro, mas não se afastou.

"Posso saber quem é você?" Tiago perguntou com um sorriso cínico na cara. Fred

deu mais dois passos em nossa direção, e seu movimento foi repetido pelos dois homens

desconhecidos.

"Eu sou a pessoa que vai te tirar à força daqui se o senhor não se afastar e sair por

conta própria." Tiago riu novamente e passou a mão pelo rosto.

"Eu sou marido dela."

"Ex. Ex-marido. Acho melhor você ir embora em paz, Tiago. Se você retornar, vou

fazer uma queixa pra polícia e pedir uma ordem de restrição." Ele ficou em silêncio por um

tempo. Seus olhos corriam de mim para Fred.

"Tá trepando com ele, Ária? É isso? Ele é seu novo brinquedinho?"

"Como disse antes, Tiago, não te devo nada, muito menos satisfação sobre com

quem eu trepo. Mas eu não vou mentir pra você." Levantei do banco e cheguei mais

pertinho de Fred, envolvi seu rosto em minhas mãos e o beijei nos lábios. Senti o corpo dele

endurecer, talvez pela surpresa, mas logo ele correspondeu o beijo e enlaçou minha cintura

me puxando mais pra perto. Eu havia pensado, se é que eu pensei em alguma coisa, em

um beijo rápido, um roçar de lábios, um golpe de cena. Mas quando a língua dele roçou na

minha, involuntária e suave, algo dentro de mim estremeceu como um cristal antigo atingido

por uma nota aguda. Aquele perfume dele me invadindo, seus braços apertando o abraço

como uma necessidade de proximidade... Meu cérebro gritava que aquilo era um erro, que

ele era um estranho, mas meu corpo traidor, registrava cada detalhe: o calor da palma dele

nas minhas costas, o gemido rouco que escapou de sua garganta, o gosto de hortelã e

perigo. O corpo dele me mostrando seu nítido desejo... Finalmente consigo me afastar.

Sinto meus lábios inchados e percebo que meu batom havia se transferido para os lábios

dele como uma tatuagem mal feita. Não percebi mais a presença de Tiago, ele havia ido

embora. Fred me encarava, seus olhos escurecidos como nuvens antes da tempestade. Ele

passou o polegar sobre a própria boca, apagando os vestígios do beijo, um pouco ofegante

e totalmente silencioso. Eu sabia que precisava dizer alguma coisa, mas não sabia

exatamente o que.

"Me desculpe. Eu só queria que ele se afastasse." Ele continuava a me encarar em

silêncio. Seus olhos se desgrudaram dos meus por um momento para dispensar os homens

que o acompanhavam, o que o fez sem dizer nada.

"Você não tem segurança aqui?" Ele voltou ao trabalho como se nada tivesse

acontecido.

"Eles já deveriam ter chegado. Sempre ficam dois seguranças aqui e dois na

entrada. Devem estar atrasados por causa da chuva. Não se preocupe." Ele olhou em volta

mais uma vez como se precisasse de tempo para se acalmar.

"Olha, Fred. Obrigada pela ajuda. Eu vou ficar bem."

"Não espere a próxima vez. Peça uma ordem de restrição. Se precisar de ajuda com

isso, me ligue." Ele tirou um cartão de visitas do bolso e me entregou. "Vou deixar meu

pessoal aqui até os seus seguranças chegarem."

Eu ia dizer que não precisava e mais alguma coisa que se perdeu na minha mente

antes mesmo de chegar a minha boca, mas ele simplesmente foi embora me deixando com

cara de boba e com as palavras que eu nem sabia que queria dizer engasgadas

Capítulo 2 Fred - Queda Livre

Era impossível esquecer aquele beijo. A lembrança ficava voltando a minha memória o

tempo inteiro. Eu podia sentir o cheiro dela que era como um convite. Um veneno dourado

que mistura doçura com ferocidade, deixando quem a prova preso entre o desejo de

conquistá-la e o medo de ser devorado. O gosto do beijo misturado ao perfume era como

cerejas negras embebidas em conhaque - doce, amargo, intoxicante. Mesmo depois que

cheguei em casa aquele cheiro não se dissipou. Estava nas minhas roupas, nas minhas

mãos, na minha memória. Selvagem. Perigoso. Impossível de esquecer.

Tudo que eu não preciso é de complicação na minha vida. Não quero um

relacionamento. Nem tenho tempo pra isso. Mesmo assim, tenho ido ao bar todos os dias.

Ária é sinônimo de confusão, disso eu tenho certeza. Mesmo assim, fiquei preocupado com

o comportamento daquele ex-marido dela.

Mais uma vez, estou aqui, sentado no bar esperando para vê-la. A gente não se

falou mais desde aquele dia. Ela me vê, me cumprimenta do balcão. Eu sempre sento em

uma mesa nos fundos, bem afastado do balcão onde ela fica. É mais seguro assim.

Hoje é sexta-feira e o bar está lotado. Tem uma banda de rock tocando e percebo

que o número de seguranças é o mesmo de um dia em que o movimento é normal. Isso não

é nada prudente. Ela está ocupada servindo bebidas junto com o bartender, mesmo assim,

de vez em quando nossos olhares se cruzam. A festa de noivado de Gabriele Sofia é

amanhã. Decidimos que seria melhor fechar o bar só para a festa e estou me convencendo

de que depois disso, vou sossegar minha cabeça e seguir com a minha vida.

A banda faz um intervalo e eu agradeço por isso. Não que eu não goste de rock,

eles até que não são ruins, eu só não gosto de tanto barulho. Eu deveria ir embora, mas por

algum motivo, permaneço. O uísque do meu copo termina e eu faço sinal para que o

garçom traga outro, geralmente eu fico o tempo de uma dose apenas, mas hoje é diferente.

Ária era uma contradição ambulante, cabelos negros como asas de corvo, cortados

em camadas desalinhadas que caíam pelos ombros e emolduravam um rosto de traços

afiados, olhos amendoados de um verde quase dourado como folhas de outono sob o sol e

lábios carnudos que raramente se curvavam em sorrisos fáceis. Usava um vestido solto no

corpo, verde-esmeralda, simples, mas elegante, que contrastava com botas de couro. Seu

colar de prata de uma lira pendurada no pescoço, era a única joia que se permitia a si

mesma. E essa contradição tentadora estava vindo em minha direção trazendo outra dose

de uísque. Parece que ela gosta de botas, no dia que nos conhecemos ela também usava

botas. A minha imaginação logo começa a trabalhar imaginando- a só com seu acessório

preferido e nada mais, caminhando em minha direção em um ambiente mais íntimo do que

esse.

Ela coloca o copo na minha frente, me entrega um guardanapo e se acomoda na

cadeira à minha frente, cruzando as pernas e fazendo meu coração acelerar.

"Você tem vindo aqui todos os dias. Ainda é pelo trabalho de inspeção?" Ela me

pergunta provocativa.

"Aqui é um bar. Eu venho beber." Respondo sem querer parecer afetado com a

presença dela. "Por quê? Minha presença te incomoda?"

"Não. Só fiquei pensando... Fred, aquele beijo... não foi nada de mais. Foi só pra

irritar o meu ex."

"Claro. Foi pura atuação. Uma atuação perfeita, eu diria, cheia de sensações...

Eu entendi. Não se preocupe, Ária. Não estou procurando um relacionamento."

"Então, me diz o que você está procurando, Fred." Ela cruzou os braços.

"Como disse antes, eu só venho beber." Ergui meu copo na direção dela e bebi um

gole. "Você deveria pensar em colocar mais seguranças aqui no dia de eventos como esse."

Ela riu do meu comentário.

"Você por acaso contou pro Gabriel sobre o que aconteceu aqui?"

"Não. Eu deveria?"

"Não. Ele vai ficar preocupado à toa. Se isso pudesse ficar só entre nós, eu

agradeceria." Fiquei imaginando o real motivo dela querer fazer disso um segredo. O

Gabriel deve saber de toda a situação que eu não nem deveria estar pensando em me

envolver.

"Como acabou casada com um cara daqueles?" Perguntei. Ela pareceu incomodada

com o assunto.

"Erro de juventude. Talvez, rebeldia. Me casei cedo demais. Estava cega,

apaixonada. Talvez carente. Esse é o resumo.

"Você pediu a ordem de restrição?" Só do jeito que ela me olhou eu pude adivinhar

que não. Respirei fundo e bebi todo o resto do conteúdo do meu copo. "Você ainda sente

alguma coisa por esse homem?" Ela levantou uma sobrancelha sem responder minha

pergunta. Puxei meu cartão pra pagar minha conta. Precisava me afastar daquela situação.

"É por conta da casa." Ela disse quase em um sussurro.

"Obrigado. Eu já vou. Boa noite, Ária!" Guardei meu cartão e me levantei, assim que

passei por ela, que continuava sentada no mesmo lugar, ela segurou meu pulso. Me

surpreendi com o toque. Olhei na direção dela e encontrei seus olhos verdes, que pareciam

estar escurecidos.

"Não sinto mais nada. Pelo menos nada de positivo. Também não sinto ódio. Mas

ele se tornou uma figura indigesta pra mim. O divórcio foi difícil. Ele fez ser bem difícil e

desgastante. Por isso..." Ela soltou meu pulso e se levantou sem tirar seus olhos dos meus.

"Entendi." Peguei meu celular no bolso, desbloqueei e entreguei pra ela. Seus olhos

baixaram até o aparelho. "Coloque seu número aqui." Ela pegou o celular, salvou seu

número e me devolveu. Escrevi uma mensagem e enviei para que ela pudesse identificar o

meu número. "Se ele aparecer novamente, me ligue." Nós estávamos tão próximos que eu

podia facilmente alcançar seus lábios. Por um momento, isso não saía da minha cabeça

enquanto eu encarava aqueles lábios vermelhos. Mas ela não era qualquer mulher. Ela não

era uma mulher para uma noite só e eu não queria um relacionamento. Nem sei se sou

capaz de ter um relacionamento novamente. Com grande esforço consegui escapar de seu

campo gravitacional e me retirei sem olhar para trás. Enquanto caminhava para fora do bar,

eu tinha certeza de que ela continuava me olhando. Podia sentir sua força me atraindo de

volta pra ela.

Meu apartamento era como uma cápsula de silêncio na madrugada. E podia ouvir o

leve zumbido do ar condicionado em minha solidão profunda. Aquele silêncio não ajudava

em nada a acalmar o turbilhão na minha mente que me mantinha acordado. Eu caminhava

de um canto a outro do quarto, as mãos enterradas nos cabelos desgrenhados, na tentativa

de arrancar a imagem dela dali. Ela havia se tornado um constante incômodo em meus

pensamentos. Da mesma forma que havia se tornado a personagem principal do meu mais

novo esporte favorito praticado debaixo do chuveiro, que certamente me causaria calos na

mão.

A lua cheia derramava uma luz prateada pela janela, desenhando sombras

alongadas no chão. Parei diante da vidraça, com os olhos fixos no céu estrelado. "Ela é

como um pulsar", murmurei pra mim mesmo, minha voz rouca de insônia. "Um daqueles

corpos celestes que emitem uma radiação letal, mas você não consegue deixar de olhar."

Ária não é só uma mulher bonita, é um fenômeno cósmico. Toda vez que a gente se

encontra eu sinto essa atração como uma força física. Uma gravidade que distorce o ar ao

redor, fazendo o tempo desacelerar enquanto meus músculos tensionam, como se meu

corpo pudesse prever, antes da razão, que está diante de algo perigoso. "Pulsares giram

rápido demais." Me ouvi dizer, lembrando de um documentário que assisti recentemente.

"Eles são restos de estrelas mortas. Densos. Imprevisíveis. Destroem qualquer coisa que se

aproxime." Eu já estava enlouquecendo a ponto de falar sozinho.

Me joguei na cama e fechei os olhos, me forçando a dormir, mesmo sabendo que

isso nunca funcionava. O sorriso dela me veio à mente. Irônico, sempre meio torto , como

se guardasse um segredo que eu nunca decifraria. "Não é uma boa ideia, Frederico!" Disse

em voz alta para me ancorar à realidade. Eu sei como isso termina. Ela vai me consumir e

não sobrará nada além de poeira estelar. Mas meu corpo não me ouve, minha mente

desdenha de mim, me trazendo as lembranças e todas as sensações daquele beijo.

"Porra! Essa mulher me enfeitiçou? Por que diabos não consigo parar de pensar

nela?"

O celular se iluminou na cabeceira da cama. Era uma mensagem dela. Talvez, só

agora ela tenha lido a minha mensagem.

Naquele momento, sem pensar racionalmente, como sempre acontece quando ela

está por perto, escrevi que ela poderia me chamar a qualquer momento por qualquer motivo

ou motivo algum. Meu dedo hesitou sobre o ícone do aplicativo.

"Só queria testar. Escrevo sem motivo algum, mesmo sabendo que, provavelmente,

você está dormindo." Aquilo parecia mais um feitiço do que uma mensagem inocente. Havia

uma intenção.

Não responda! Eu gritava mentalmente pra mim mesmo. Ela acha que estou

dormindo, não espera nenhuma resposta. Mas é um teste. "Puta merda!" Xinguei baixinho.

Meus dedos se moveram sozinhos, traidores.

"Estou aqui." Escrevi. Duas palavras apenas. Bastaram para confirmar o quanto eu

estava fodido. "Fred, seu idiota!" Resmunguei imaginando Ária em seu quarto, deitada em

sua cama, tão acordada quanto eu. Um pulsar em repouso, inconsciente do caos que

gerava.

No instante que o sono finalmente me tomava, admiti pra mim mesmo em um

sussurro quase inaudível: "Já estou em queda livre

Capítulo 3 Ária - Última Dança

O bar respirava magia naquela noite. As luzes douradas dos lustres de cristal

dançavam sobre as paredes de tijolo aparente, enquanto velas em castiçais prateados

cintilavam no centro das mesas de madeira, envoltas em toalhas de linho cor de vinho.

Arranjos de flores brancas e rosas bordô pendiam discretamente sobre o balcão de

mármore, onde garrafas de champanhe reluziam como tesouros. No canto, o velho piano do

meu avô aguardava silencioso, como um guardião das memórias que aquelas paredes

guardavam. Ele preferiu não vir à festa. Quase não sai mais de casa, exceto pela rotina

diária de vir ao bar por pelo menos uma hora antes de abrirmos para tocar seu velho piano.

Temos um piano elétrico super moderno em casa, que ele se recusa a tocar.

A música suave do violoncelo ecoava pelo ambiente, misturando-se ao burburinho

dos convidados. Familiares próximos e amigos sorriam, abraçando Gabriel e Sofia,

felicitando-os pelo noivado, cujos rostos brilhavam mais que as estrelas do verão. Eu

observava toda a movimentação, de longe, apoiada na coluna de madeira próxima ao

piano. Meus dedos tamborilavam contra a madeira, num ritmo nervoso e sem motivo. A

festa era um sucesso. Tudo corria muito bem e meu melhor amigo era só sorrisos.

"Ele está aqui." Sussurrei pra mim mesma, olhos fixos em Fred, que conversava com

um tio de Sofia perto da estante de vinhos. Eu estive tão ocupada com os afazeres da festa

que ainda não havia me dado conta de sua presença. De terno cinza chumbo, ajustado ao

corpo, tinha uma lapela de cetim, camisa branca, colete combinando com o paletó e uma

gravata cinza texturizada, os cabelos levemente despenteados como sempre, parecia ter

saído de um sonho antigo. Cada gesto seu parecia calculado, porém natural, como se a

elegância fosse parte de seu DNA. Quando riu de algo que o tio disse, o som rouco e

quente me fez segurar a respiração.

"Aí está nossa anfitriã!" Gabriel surgiu ao meu lado, o sorriso largo como de uma

criança. "Muito obrigado, minha querida amiga, por esta linda noite! Não precisava de tudo

isso e nem ter fechado o bar por causa do nosso noivado. Sei que isso deve ter tido o dedo

de Fred e peço desculpas por isso. Ele é muito cuidadoso com a segurança de Sofia e

agora, com a minha também." Ele olhou em volta. "Caramba, Ária! Está tudo... perfeito!"

Seus olhos estavam brilhantes de emoção. Eu o abracei com força, sentindo o cheiro do

seu perfume cítrico, tão familiar.

"Você merece mais que isso. O vovô está orgulhoso de você. Ele não veio porque...

você sabe." Ele segurou minhas mãos e apertou de leve. "Fico feliz que você esteja feliz. Te

amo muito, meu amigo!"

Gabriel segurou meu rosto, seus dedos acariciando minhas bochechas.

"Foi aqui que eu aprendi que família não é só sangue. Você e seu avô salvaram

minha vida. Você é e sempre será minha família. Eu também te amo." Os olhos dele

piscaram para o piano, onde adolescentes, nós dois desafinávamos enquanto o vovô ria e

corrigia nosso dedilhado.

Sofia aproximou-se, o vestido champanhe fluindo como seda.

"Está tudo perfeito, Ária! Obrigada. Por tudo." Sua voz suave, mas os olhos

perspicazes pousaram em Fred, depois em mim novamente. "Fred está mais animado hoje.

Quase humano." Sorriu, deixando a frase pairar como um convite para uma confissão

qualquer. Engoli seco tentando disfarçar meu encantamento por ele.

"Ele... parece estar se divertindo." Comentei com meus olhos pousados nele.

"Sim. Ele parece diferente. Não é muito comum ver meu irmão tão sorridente. Ele

está sempre tenso e ocupado com seu trabalho e conosco." Sofia tirou os olhos de seu

irmão e olhou para mim por alguns segundos em silêncio, como que se dando tempo para

arrumar seus pensamentos. "Mas parece que você o faz sorrir mais que o normal." Ela

sorriu e apertou os olhos. "Cuidado ou vou ficar com ciúmes." Ela me deu uma piscadinha

que fez meu coração dar um salto. Antes que eu pudesse responder, Sofia e Gabriel foram

puxados por uma pessoa para fotos. Senti meu coração acelerado. Por que Sofia disse

aquilo? Será que eu estou dando muita bandeira? Ou será que ele comentou alguma coisa

com ela? Por que estou reagindo assim? Não quero me envolver com ninguém e ele já

deixou bem claro que também não quer. Fingi tirar uma mancha inexistente da madeira do

piano tentando me acalmar. Quando levantei os olhos, Fred estava diante de mim,

segurando duas taças de vinho tinto.

"Pra você." Ele me entregou uma taça, seus dedos roçando levemente os meus. O

toque foi rápido, mas suficiente para fazer meu pulso formigar.

"Obrigada." Minha voz saiu mais áspera do que o normal. Ele inclinou a cabeça, me

observando. Ele não quer nenhum relacionamento, mas tudo que ele faz é extremamente

sedutor. Resta saber se esse flerte constante, esse ato contínuo de sedução é mesmo pra

mim ou ele é assim com todas as mulheres. Não o conheço tempo suficiente para

responder essa questão e não posso perguntar isso pra Sofia, que já parece desconfiar de

alguma coisa.

"Gabriel me contou que você reformou o bar sozinha. Mantendo a alma do lugar,

mas modernizando. Impressionante." Isso significa que ele e Gabriel conversam sobre mim.

O que mais ele conseguiu descobrir nessa conversa?

"Meu avô sempre diz que mudanças são importantes, mas que essências precisam

ser conservadas." Meus olhos fugiram para o piano. Fred seguiu meu olhar.

"Ele estava tocando aqui naquele dia... Gabriel me disse que você também toca.

Que vocês aprenderam juntos." Ri, envergonhada.

"Mal. Meus dedos são mais hábeis com copos do que com as teclas de piano. O

Gabriel toca melhor que eu."

"Duvido." Ele deu um gole no vinho, seus olhos fixos nos meus. "Tenho certeza que

você é boa em tudo que faz."

O violoncelo parou, e por um segundo, apenas o tilintar de taças e risos

preencheram o ar. Mas os olhos dele continuaram fixos em mim e o mundo pareceu

desacelerar. Um silêncio pairou sobre nós e todos desapareceram. Por um momento

éramos só ele e eu.

"Fred!" Uma voz nos trouxe de volta a realidade e ele piscou, recuando.

"Precisamos de você para o brinde! Ária, você também!" Gritou Miguel, o irmão de

Gabriel, acenando para nós. Fred assentiu para Miguel, em seguida virando-se para mim.

"Vamos!" Ele estendeu a mão pra mim, e por alguns segundos eu simplesmente não

podia me mover.

A festa seguiu em risos, brindes e histórias embaraçosas de Gabriel e Sofia. Quando

o último convidado partiu. Desabei na cadeira, os pés doloridos. Eu os libertei dos sapatos

cruéis de saltos altos e respirei fundo aliviada. A equipe recolhia copos, louças e enfeites. O

silêncio começava a se instalar.

Caminhei até o piano e comecei a dedilhar uma de minhas músicas preferidas, The

Way You Look Tonight, de Jerome Kern. Uma das músicas que meu avô me ensinou a

gostar. Me peguei cantarolando a letra baixinho enquanto executava a melodia no piano.

Quando terminei a música, alguns garçons aplaudiram. Já fazia algum tempo que não

tocava. Fechei o piano e já ia me levantar quando uma música começou a tocar, vinda do

celular de alguém. Nothing Else Matters.

"Última dança?" Era Fred, de mangas arregaçadas, sem o paletó, os três primeiros

botões da camisa desabotoados. Estendia a mão, vulnerável, como se estivesse com medo

de ser rejeitado. Olhei pra mão dele, depois para seus olhos.

"Eu não danço."

"É só me acompanhar." A mão continuava esticada, me aguardando. Ele sorriu sem

reservas e eu me derreti por dentro. Nossas mãos se encontraram e ele me puxou pra junto

do seu corpo.

"Finalmente." Uma voz ecoou na minha cabeça

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