Por três anos, acreditei que meu noivo, Dante, era meu salvador. Ele me resgatou depois de um ataque brutal - secretamente orquestrado pela minha própria irmã, Larissa - que estilhaçou minhas mãos e meus sonhos de ser uma pianista de concerto. Ele me deu uma vida perfeita e protegida.
Então, descobri a verdade em seu notebook. Eu não era sua amada; eu era o "Ativo: FB-01". Uma coleção ambulante de órgãos de primeira qualidade, sendo preparada até que minha irmã precisasse de um novo coração. O meu coração.
O homem que eu amava se tornou um monstro. Ele me forçou a fazer cinco testes de gravidez, rosnando que ele mesmo "tiraria aquela coisa" de mim se eu comprometesse seu investimento. Ele me trancou no porta-malas de seu carro e depois me abandonou em uma ponte de cordas prestes a desabar.
Para me quebrar de vez, ele afogou o gatinho de rua que eu havia resgatado na máquina de lavar. "Você machucou a minha Larissa", ele berrou. "Agora você vai saber como é perder algo com que se importa."
Minha vida inteira com ele tinha sido uma mentira. Eu era apenas gado sendo engordado para o abate, e minhas mãos - aquelas que ele um dia chamou de mágicas - eram apenas um "componente não essencial".
Depois que ele drenou meu sangue para a irmã que me queria morta, voltei para casa e enterrei meu gato. Então, fiz uma única mala, comprei uma passagem para Lisboa e desapareci. Eles haviam criado um monstro. Agora, estavam prestes a conhecê-la.
Capítulo 1
Ponto de Vista de Fernanda Bastos:
Descobri que meu noivo planejava me matar em uma terça-feira, enquanto usava seu notebook para procurar uma receita de coq au vin.
A aba do navegador estava escondida, quase invisível entre uma planilha de opções de ações e um link para um artigo da Exame em que ele era destaque. O título era discreto: "Aquisições Privadas S. Judas". A curiosidade, uma falha fatal minha, me fez clicar.
Não era uma instituição de caridade. Era um mercado, elegante e estéril, como um site de leilões de luxo para coisas que o dinheiro não deveria ser capaz de comprar. Meu sangue gelou antes mesmo de eu entender o que estava vendo. Os anúncios eram codificados - sequências alfanuméricas seguidas por descrições breves e clínicas.
Então eu vi. "Ativo: FB-01".
Minhas iniciais.
Cliquei. Meu próprio rosto me encarou da tela. Era uma foto que Dante havia tirado algumas semanas atrás, enquanto eu dormia no sofá, um raio de sol aquecendo meu rosto. Eu tinha achado fofo na época. Agora, parecia uma violação.
Abaixo da foto, o texto foi um soco no estômago.
"Ativo: Fernanda Bastos (FB-01). Idade: 25. Tipo Sanguíneo: O-negativo. Condição: Excelente. O sujeito foi mantido em um ambiente controlado e de baixo estresse nos últimos três anos para garantir a viabilidade ótima dos órgãos. Ativo principal de interesse: Coração. Ativos secundários: Rins, Fígado. Nota: O ativo é uma pianista talentosa; as mãos devem ser consideradas um componente não essencial."
Minhas mãos. Aquelas que ele segurava e chamava de mágicas. Não essencial.
Uma pequena janela de chat piscava no canto da tela. Era uma conversa entre Dante e um usuário chamado "L". Meu estômago revirou. Eu sabia quem era L. Só podia ser uma pessoa.
Dante: A transferência final está sendo arranjada. Só mais um pouco, meu amor.
L: Não suporto ver você com ela, D. Ela tem alguma ideia de que é apenas uma incubadora ambulante para o meu futuro?
Dante: Ela não sabe de nada. Acha que sou seu salvador. É quase poético. O coração que ela usa para me amar em breve será o coração que manterá você viva.
O ar saiu dos meus pulmões em um grito silencioso. Minha visão se afunilou, as bordas escurecendo. L. Larissa. Minha irmã. Minha irmã cronicamente doente, perpetuamente frágil, que o mundo adorava. Dante, o homem que me tirou dos destroços da minha vida, não era meu salvador. Ele era meu carrasco. E minha própria irmã estava segurando o machado.
O quarto começou a girar. De repente, eu não estava mais em nosso apartamento impecável e minimalista. Eu estava de volta a um beco frio e escuro atrás do conservatório da faculdade. O cheiro de cerveja velha e concreto molhado pela chuva encheu meu nariz. Bruno Soares, meu namorado do colégio com quem eu tolamente tentei me reconectar, estava sobre mim. Seus amigos estavam rindo.
"A Larissa disse que você precisava aprender uma lição", ele arrastou as palavras, seu rosto uma máscara de satisfação cruel. "Disse que você se acha melhor que todo mundo."
Então veio o estalo agudo e doentio. O som do meu futuro se quebrando junto com os ossos da minha mão direita. A dor era cegante, mas a imagem gravada em minha memória era a de Larissa, observando do fim do beco, um pequeno sorriso triunfante no rosto.
Eu tentei me matar naquela noite. A perda da minha carreira, a traição, foi demais. Acordei no hospital com o rosto calmo e reconfortante de Dante Queiroz. Ele era um magnata da tecnologia visitante, um palestrante convidado na universidade. Ele disse que me encontrou, que me salvou. Pagou minhas contas médicas, me protegeu da imprensa e me ajudou a juntar os pedaços da minha vida estilhaçada.
Por três anos, acreditei que ele era meu anjo. Agora eu sabia a verdade. Ele não estava me salvando. Estava me preservando. Como um valioso animal de criação sendo engordado para o abate.
O quarto voltou a focar. Eu estava no chão, minhas mãos tremendo tanto que mal conseguia controlá-las. Rastejei de volta para o notebook, minha respiração em arquejos irregulares. Eu tinha que sair. Não depois. Agora.
Meus dedos desajeitados abriram uma nova aba, minha mente a mil. Lisboa. Minha tia, a irmã distante da minha mãe, morava lá. O filho dela, Tiago Mendonça, era meu primo. Não éramos próximos há anos, mas ele era minha única esperança. Encontrei seu e-mail comercial - ele era algum tipo de figurão na cena musical internacional.
Meus dedos voaram pelo teclado.
Assunto: Assunto Urgente de Família - Proposta de Casamento
Tiago,
É a Fernanda. Sei que não nos falamos há um tempo, mas preciso da sua ajuda. Minha família está tentando arranjar um casamento para mim. Preciso sair do país. Eu estava esperando... talvez você e eu pudéssemos entrar em um acordo? Um noivado temporário? Só para me levar para Lisboa. Por favor. Estou desesperada.
Era uma mentira, uma desculpa frágil, mas foi a única coisa que consegui pensar que soava urgente e vagamente plausível. Apertei enviar, meu coração martelando contra minhas costelas.
Uma resposta veio quase instantaneamente.
Tiago: Fernanda? Está tudo bem? Isso é repentino. Claro que te ajudo. Mas um acordo de casamento? Você tem certeza?
Respirei fundo, trêmula, forçando uma aparência de calma na minha digitação.
Fernanda: Tenho certeza. É complicado. Eu só preciso ir embora. Por favor, Tiago.
Tiago: Ok. Não se preocupe. Eu cuido de tudo. Minha assistente vai reservar um voo para você. Estará em seu nome, partindo amanhã à noite, às 22h. Você consegue?
Amanhã. Meu aniversário. A ironia era um gosto amargo na boca.
Fernanda: Sim. Obrigada. Devo minha vida a você.
Fechei o notebook com força bem no momento em que a porta da frente se abriu. Dante entrou, um sorriso perfeito em seu rosto bonito. Ele largou a pasta e afrouxou a gravata, seus olhos percorrendo o cômodo.
"Oi, anjo. Tudo bem? Você parece pálida."
Forcei um sorriso. "Só estou cansada."
Ele se aproximou, seu olhar se suavizando com aquela preocupação ensaiada e falsa. "A Larissa vem jantar. Ela tem andado meio para baixo. Eu esperava que você pudesse fazer para ela seu risoto de cogumelos especial. Você sabe o quanto ela adora."
Ele falava dela com uma reverência que nunca usava para mim. Era uma dor familiar, uma pontada surda que eu aprendi a ignorar. Ele a amava. Era tão óbvio agora. Seu cuidado por mim, sua proteção, nunca foi sobre mim. Era uma extensão de seu amor por ela. Eu era apenas o recipiente.
"Não estou com vontade de cozinhar hoje à noite", eu disse, minha voz surpreendentemente firme.
Seu sorriso se contraiu nos cantos. "Não seja assim, Fernanda." Ele me alcançou, sua mão se fechando em meu braço. Não foi gentil. "Ela não está bem. É o mínimo que você pode fazer."
"Não", eu disse, puxando meu braço. O pequeno ato de desafio pareceu monumental.
Seus olhos brilharam com algo frio e duro. Ele me agarrou de novo, seus dedos cravando na minha pele. "Não seja tão egoísta. É só uma droga de refeição."
Eu queria gritar. Queria levantar o notebook e esfregar a prova de sua traição monstruosa em seu rosto perfeito. Você sabe o que eles chamam de egoísta, Dante? Preparar sua noiva para ser uma doadora de órgãos involuntária para sua amante secreta.
Mas engoli as palavras, a verdade queimando um buraco na minha garganta. Eu não podia deixá-lo saber. Ainda não.
Ele viu a centelha de luta em meus olhos e sua expressão mudou, suavizando-se de volta para uma máscara de persuasão gentil. "Olha, meu bem, me desculpe. Só estou preocupado com ela. Você sabe como ela é. Ela é diferente. Ela precisa de nós."
Ele sempre dizia isso. Larissa é diferente. Eu costumava pensar que ele queria dizer que ela era frágil. Agora eu entendia. Ela era diferente porque era a quem ele amava. Ela era a que importava. Eu era apenas as peças de reposição. Eu, meu coração, minhas mãos não essenciais.
Eu era a única em sua pequena história de amor perfeita que iria morrer.
Ponto de Vista de Fernanda Bastos:
Uma onda de náusea me atingiu, tão forte que tive que me apoiar no balcão da cozinha. Minha cabeça girava com o gosto acre do medo.
O aperto de Dante em meu braço se intensificou, sua testa franzida com uma preocupação súbita e aguda. Mas não era por mim. Eu podia ver o cálculo em seus olhos.
"Fernanda? Você está se sentindo mal?", ele perguntou, sua voz baixa e urgente. "Você não está... grávida, está?"
A pergunta pairou no ar, densa e venenosa. Grávida. A única coisa que ele sempre fora meticulosamente, quase patologicamente, cuidadoso para evitar. Estávamos juntos há três anos, noivos há um, mas toda vez que a conversa sobre filhos surgia, ele a encerrava com uma finalidade arrepiante. "Meu legado é minha empresa, Fernanda", ele disse uma vez, sua voz desprovida de calor. "Não tenho interesse em complicações familiares."
Agora eu entendia. Um "ativo" não servia se estivesse comprometido. Uma gravidez teria tornado meu corpo, meu coração, inútil para seu grande plano. O nojo que senti era algo físico, subindo pela minha garganta como bile. Apenas balancei a cabeça, incapaz de falar além do nó de repulsa.
Ele pareceu acreditar em mim, mas seu rosto permaneceu uma máscara de ansiedade tensa. Ele desapareceu no quarto e voltou um momento depois com uma pequena caixa. Ele a enfiou na minha mão. Era um teste de gravidez. Não, não um. Um pacote família com cinco.
"Faça", ele ordenou, sua voz não deixando espaço para discussão. "Todos eles. Agora."
"Dante, isso é loucura. Eu te disse que não estou..."
"Preciso ter certeza", ele me cortou, seus olhos como lascas de gelo. "Não há espaço para erros em nossa vida, Fernanda. Você sabe disso."
Nossa vida. As palavras eram uma zombaria.
"Se der positivo", sussurrei, testando as águas desta nova e aterrorizante realidade, "eu poderia apenas... resolver isso. Ninguém precisaria saber."
Seu rosto se contorceu em um rosnado tão vicioso que me fez recuar. "Não se atreva! Não se atreva a tentar me prender com isso. É isso que você está fazendo? Uma tentativa patética de garantir sua posição?" Ele agarrou meus ombros, seus dedos cravando dolorosamente. "Se você estiver grávida, eu pessoalmente te levarei à clínica. E se você se recusar, juro por Deus, encontrarei uma maneira de arrancar essa coisa de você eu mesmo."
O ódio cru e violento em sua voz roubou meu fôlego. Não se tratava de evitar uma "complicação". Tratava-se de manter seu precioso ativo puro. Todas aquelas vezes que ele insistiu em "proteção", não era para o meu bem-estar ou nosso futuro. Era controle de qualidade.
"Não", eu disse, minha voz trêmula, mas firme. "Não vou fazer isso."
"Sim", ele sibilou, "você vai."
Ele me arrastou para o banheiro, o azulejo frio um choque contra meus pés descalços. Ele rasgou as caixas, alinhando os cinco bastões de plástico no balcão como um pelotão de fuzilamento. Ele ficou sobre mim, uma sombra ameaçadora, até que eu obedeci. A humilhação era um nó de vergonha no meu estômago.
Depois, ele me forçou a sentar na beirada da banheira enquanto observava os resultados se desenvolverem, sua mandíbula cerrada. Um por um, deram negativo. O alívio que inundou seu rosto não foi por mim, não por nós. Foi o alívio de um homem cujo investimento premiado acabara de ser salvo de uma quebra no mercado.
Ele se ajoelhou na minha frente, sua postura mudando instantaneamente de volta para uma de preocupação amorosa. Foi uma performance aterrorizante e vertiginosa.
"Viu, meu bem? Nada com que se preocupar", ele arrulhou, acariciando meu cabelo. "Você só precisa me ouvir. Contanto que você seja uma boa menina, eu cuidarei de você. Sempre cuidarei de você."
Uma boa menina. Um ativo obediente. Fiquei sentada ali, entorpecida e silenciosa, uma única lágrima traçando um caminho frio pelo meu rosto. Meu coração, o próprio órgão que ele planejava roubar, parecia estar se partindo em mil pedaços.
O dia seguinte foi um borrão de normalidade forçada. Dante insistiu que fôssemos a um passeio pré-planejado com Larissa - uma viagem a um mirante panorâmico na montanha. Senti-me como um cordeiro sendo levado para algo muito pior que o matadouro.
Quando chegamos, Larissa já estava lá, sentada em um banco com vista para o vale. Ela usava um delicado vestido branco, seu rosto um retrato perfeito de beleza inocente. Ela acenou fracamente, um sorriso dolorido nos lábios.
"Fernanda, você veio!", ela chilreou, sua voz ofegante. "Dante, pode me ajudar? Quero sentar mais perto da beirada. A vista é melhor lá."
"Claro, meu amor", disse Dante, correndo para o lado dela. Ele me lançou um olhar furioso. "Fernanda, saia."
Ele não pediu. Ele ordenou. Ele gesticulou para o lugar menos desejável no banco, mais longe do parapeito. Movi-me sem uma palavra, observando enquanto ele acomodava Larissa em meu assento anterior, colocando um cobertor em volta de suas pernas com uma ternura que fez meu estômago revirar. Ele se preocupou com ela, de costas completamente para mim, como se eu tivesse deixado de existir.
Larissa olhou para mim, seus olhos brilhando com um triunfo malicioso. Ela pegou em sua bolsa e tirou um pequeno e ornamentado frasco de perfume.
"Oh, que desastrada!", ela gritou, sua mão "escorregando".
O frasco voou pelo ar, não em direção ao chão, mas diretamente para o meu rosto. Eu recuei, mas era tarde demais. Um líquido forte e ardente espirrou em meus olhos. E então veio o grito.
Não foi um grito de surpresa. Foi um grito agudo e lancinante de agonia. Porque o frasco não era perfume. Era spray de pimenta.
Ponto de Vista de Fernanda Bastos:
"Fernanda! Que diabos você fez?"
A voz de Dante era um rugido de fúria, instantaneamente ao lado de Larissa. Ele nem olhou para mim, todo o seu foco em minha irmã, que agora segurava o rosto teatralmente e soluçava.
"Eu... eu não fiz nada", gaguejei, meus próprios olhos ardendo, o mundo se dissolvendo em uma bagunça embaçada e dolorosa. "Ela jogou em mim."
"Mentirosa!", Dante cuspiu, seu rosto contorcido de raiva. "Eu vi você! Você derrubou da mão dela! Você está com ciúmes porque estou dando atenção a ela!"
Ele se lançou sobre mim, me agarrando pelos cabelos e me arrastando em direção ao nosso carro. A dor era aguda, mas a injustiça era mais aguda. Ele abriu o porta-malas, um espaço geralmente reservado para compras e meu teclado portátil, e me empurrou para dentro.
"Você vai ficar aqui e pensar no que fez", ele sibilou, sua voz um rosnado baixo. "Talvez um castigo te ensine algumas boas maneiras."
"Dante, por favor", implorei, tentando sair, mas ele já estava batendo a tampa, me mergulhando na escuridão. Ouvi o clique da fechadura, um som de finalidade absoluta. Eu era uma prisioneira.
Ele havia fabricado uma realidade onde eu era a vilã, e ele era o juiz justo. Ele viu o que queria ver, o que confirmava sua narrativa: Larissa, o anjo puro e sofredor, e eu, a megera rancorosa e ciumenta.
A porta do porta-malas se abriu novamente um momento depois, e o rosto de Dante apareceu, silhuetado contra o céu claro. Ele não estava lá para me deixar sair. Ele jogou algo para dentro que bateu contra o chão de metal.
Era a lata de spray de pimenta.
"Para você não esquecer quem é a verdadeira vítima aqui", ele rosnou.
O porta-malas bateu novamente, o som ecoando o rompimento do último fio de esperança dentro de mim. O carro deu um solavanco e começou a se mover, e eu o ouvi arrulhar para Larissa através da fina barreira do banco de trás, sua voz pingando simpatia.
A estrada era um caminho de montanha sinuoso e não pavimentado. A cada solavanco e sacudida, meu corpo era jogado contra os confins de superfície dura do porta-malas. A lata de spray de pimenta se tornou uma arma, suas bordas afiadas cravando na minha pele, rasgando minhas roupas.
Então, em um solavanco particularmente violento, senti uma dor aguda e lancinante na minha coxa. Gritei, levando a mão para sentir uma umidade quente e pegajosa se espalhando pelo meu jeans. O bico da lata havia perfurado minha pele. A dor era excruciante, uma agonia branca e quente que me fez ofegar por ar.
A viagem pareceu uma eternidade. O cheiro de poeira e do meu próprio sangue encheu o pequeno espaço. Meu corpo era uma tela de hematomas e cortes. Quando o carro finalmente parou, eu era uma bagunça trêmula e sangrando, lutando para respirar.
O porta-malas se abriu. Dante olhou para mim, seu rosto impassível. Não havia choque, nem remorso ao ver meus ferimentos. Seus olhos continham um brilho de aborrecimento, como se meu sofrimento fosse um inconveniente.
"Levante-se", ele disse, sua voz monótona. Ele estendeu a mão, não para ajudar, mas para me arrastar para fora pelo braço, seus dedos cravando em um hematoma fresco. Ele me encharcou com uma garrafa de água gelada do cooler. "Pare de agir de forma tão patética. Você causou isso a si mesma. Agora entre e peça desculpas à Larissa."
Pedir desculpas. A palavra era tão absurda, tão grotescamente injusta, que uma risada quebrada e oca escapou dos meus lábios. Ele queria que eu pedisse desculpas por ser atacada, por ser aprisionada, por ser ferida. Minha dor era irrelevante. Apenas a de Larissa importava.
Tropecei para dentro da cabana remota na montanha que ele havia alugado, minha perna gritando em protesto. Encontrei um kit de primeiros socorros no banheiro e tentei desajeitadamente limpar e enfaixar o corte na minha coxa, minhas mãos tremendo demais para fazer um trabalho adequado.
Larissa apareceu na porta alguns minutos depois, um sorriso presunçoso e satisfeito brincando em seus lábios. Ela tinha um pequeno curativo decorativo na bochecha, um adereço teatral em sua peça distorcida.
"Sentindo-se melhor?", ela perguntou, sua voz pingando falsa preocupação. "Tenho uma ideia que vai te animar. Há uma velha ponte de cordas bamba sobre o cânion lá atrás. Vai ser divertido!"
Meu sangue gelou. Eu tinha pavor de altura. Ela sabia disso.
"Não acho que seja uma boa ideia, Larissa", eu disse, minha voz mal um sussurro.
"Ah, não seja um bebê." Ela agarrou meu pulso, suas unhas cravando na minha pele, e começou a me arrastar em direção à porta dos fundos. "A menos que você tenha algo a esconder? Dante me disse que te viu conversando com seu ex, Bruno Soares, outro dia. Voltando com o homem que arruinou suas mãos? Que comovente."
A acusação foi um tapa na cara. Era uma mentira, uma invenção completa, mas eu sabia que era para me encurralar.
Estávamos na beira do cânion. A ponte de cordas era exatamente como ela descreveu: uma construção aterrorizante e oscilante de tábuas gastas e cordas esfiapadas, esticada sobre uma queda vertiginosa.
"Eu não vou subir nisso", eu disse, fincando os pés no chão.
"Por que não?", a voz de Dante veio de trás de mim. Ele colocou o braço em volta de Larissa, puxando-a para perto. "Com medo de que sua consciência culpada te jogue para baixo?"