Acordei com o familiar zumbido do ar-condicionado do dormitório, uma dor fantasma me consumindo.
A data no celular era uma semana antes da apresentação do projeto; uma semana antes de tudo desmoronar.
Lucas, meu namorado, e Patrícia, minha melhor amiga, vieram com café, sorrindo e transbordando um carinho que, agora, só me causava repulsa.
Eles roubaram meu futuro. Roubaram meu projeto de purificação de água, me acusando de plágio e me jogando na humilhação pública.
Fui expulsa da universidade, meu nome virou lama. Meus pais perderam tudo por causa da família poderosa de Patrícia.
Eu caí em desespero, sem ver saída, até aquela noite chuvosa na ponte.
Dei um passo para o vazio, e então... recobrei a consciência.
De volta ao dormitório, a uma semana antes do inferno.
O café em suas mãos parecia veneno, o sorriso de Lucas, a máscara de um demônio.
Eu era a mesma garota ingênua e confiante. Mas eles estavam errados.
A garota que eles conheciam morreu naquela ponte.
A mulher que renasceu em seu lugar não tinha nada a perder.
E ela usaria cada grama de sua inteligência para que Lucas e Patrícia pagassem pelo que fizeram.
"Obrigada pelo café, pessoal" , eu disse, com uma calma assustadora.
O jogo havia acabado de começar.
E, desta vez, as regras eram minhas.
Acordei com o zumbido familiar do ar-condicionado do dormitório, um som que eu não ouvia há anos. Meu corpo todo doía, uma dor fantasma de ferimentos que eu não tinha mais. Sentei-me na cama, confusa, olhando ao redor. As paredes estavam cobertas com pôsteres de bandas antigas e fórmulas de engenharia, exatamente como eu me lembrava. Minha mesa estava ali, com meu laptop e pilhas de livros.
Peguei meu celular. A data na tela me fez prender a respiração.
Era uma semana antes da apresentação do projeto. Uma semana antes de tudo desmoronar.
A porta do quarto se abriu de repente, e Lucas entrou, sorrindo. Ele era meu namorado desde a infância, o garoto cujo sorriso costumava iluminar meu mundo.
"Júlia, você finalmente acordou! Estava parecendo que ia dormir o dia todo."
Logo atrás dele, Patrícia, minha melhor amiga, apareceu com duas xícaras de café na mão.
"Nós trouxemos café. Você passou a noite inteira trabalhando no projeto, achamos que precisaria de um estímulo."
Seus rostos eram a personificação da preocupação e do carinho, mas tudo que eu sentia era um frio que subia pela minha espinha. Eram os mesmos rostos que sorriram para mim enquanto roubavam meu futuro. A dor da traição, tão fresca em minha mente, era quase física.
Na minha vida anterior, este exato momento tinha sido um de conforto. Hoje, era o começo do meu inferno.
Uma semana depois daquele café, eu estava em um auditório lotado. Era o dia da apresentação final do projeto de startup, a minha chance de ouro para conseguir a bolsa de estudos na universidade de prestígio no exterior. Eu estava nervosa, mas confiante. Meu projeto, um sistema de purificação de água autônomo e de baixo custo, era inovador. Eu tinha passado meses desenvolvendo cada detalhe.
O Professor Carvalho, meu mentor e uma lenda no departamento de engenharia, chamou o próximo grupo.
"Agora, com um projeto muito promissor, Lucas e Patrícia."
Meu coração parou. Lucas e Patrícia? Eles estavam em grupos diferentes. Eles subiram ao palco, e na tela atrás deles, o título do meu projeto apareceu. Meu nome não estava em lugar nenhum.
As palavras deles eram as minhas. Os diagramas eram os meus. A tecnologia era minha. Eles apresentaram meu trabalho com uma confiança que me deixou doente. Lucas, com seu carisma natural, encantou o painel de jurados. Patrícia, com sua precisão fria, respondeu às perguntas técnicas, usando as respostas que eu tinha preparado com ela na noite anterior.
Quando eles terminaram, o auditório explodiu em aplausos. Eu estava paralisada na minha cadeira. Minha mente gritava, mas nenhum som saía.
O Professor Carvalho, com os olhos brilhando de orgulho, parabenizou-os. Foi então que eu finalmente consegui me levantar.
"Esse projeto é meu", minha voz saiu fraca, trêmula.
Todos os olhares se viraram para mim. O silêncio caiu sobre o auditório.
Lucas me olhou com uma expressão de pura pena. "Júlia, eu sei que é difícil ver o sucesso dos outros, mas isso é baixo, até mesmo para você."
Patrícia balançou a cabeça, com lágrimas falsas nos olhos. "Júlia, somos suas amigas. Por que você está fazendo isso? Nós te ajudamos com suas ideias, mas você nunca conseguiu desenvolver nada. Pegamos o conceito básico e o transformamos em algo real."
A humilhação foi pública e brutal. O Professor Carvalho, o homem que eu mais admirava, me olhou com profunda decepção. Ele acreditou neles. Todos acreditaram. Fui acusada de inveja, de calúnia. Minha reputação foi destruída em questão de minutos.
Nos dias seguintes, o pesadelo só piorou. A universidade abriu uma investigação formal. Lucas e Patrícia apresentaram e-mails forjados e testemunhas falsas que confirmavam sua versão. Fui expulsa por "conduta antiética e plágio reverso", uma acusação bizarra que manchou meu nome para sempre. Fui proibida de me matricular em qualquer outra instituição de prestígio.
A família de Patrícia era rica e poderosa. Eles não se contentaram com a minha ruína acadêmica. Meu pai, um engenheiro respeitado em sua empresa, foi demitido sob a alegação de "reestruturação". Minha mãe, gerente em uma loja de varejo, foi forçada a pedir demissão após uma campanha de assédio orquestrada pelos contatos da família de Patrícia.
Perdemos tudo. Nossa casa, nossas economias, nossa dignidade. Meus pais, pessoas honestas e trabalhadoras, envelheceram uma década em poucos meses. Eles nunca me culparam, mas eu via a dor em seus olhos todos os dias. A culpa me consumia.
Caí em uma depressão profunda. O mundo que eu conhecia, cheio de promessas e sonhos, tinha se tornado uma prisão de desespero. Eu não via saída.
Numa noite chuvosa, enquanto a cidade era castigada por uma tempestade, eu caminhei sem rumo até uma ponte. A dor era insuportável. Eu só queria que parasse. Fechei os olhos e dei um passo. O som de uma buzina de caminhão foi a última coisa que ouvi.
E então, acordei. De volta ao meu dormitório. De volta a uma semana antes do inferno.
O cheiro do café que Patrícia oferecia me trouxe de volta à realidade. A xícara em sua mão parecia um veneno. O sorriso de Lucas era a máscara de um demônio.
"Júlia? Você está bem? Parece que viu um fantasma", disse Patrícia, sua voz falsamente doce.
Eu pisquei, forçando meu rosto a relaxar. Um sorriso fraco se formou em meus lábios. "Só... um pesadelo. Foi muito real."
Lucas passou o braço pelos meus ombros. Seu toque me causou repulsa, mas eu me forcei a não recuar. "Foi só um sonho ruim. Estamos aqui agora. Vamos, tome seu café. Temos um grande dia pela frente."
Eu peguei a xícara, meus dedos tremendo ligeiramente. Desta vez, eu conhecia o futuro. Eu sabia de cada movimento deles, de cada mentira. Eles roubaram minha vida uma vez. Não haveria uma segunda.
Enquanto eles falavam sobre planos para o fim de semana, meus olhos se fixaram no meu laptop. Lá dentro estava meu projeto, minha alma. Eles o queriam. Eles o teriam. Mas desta vez, seria nos meus termos.
Eu bebi um gole do café, o líquido quente descendo pela minha garganta. O gosto era amargo, mas não tanto quanto o da traição. A dor da minha vida passada se transformou em uma chama fria dentro de mim. Uma chama de vingança.
Eles achavam que eu era a mesma garota ingênua e confiante. Estavam errados. A garota que eles conheciam morreu naquela ponte. A mulher que renasceu em seu lugar não tinha nada a perder e tudo a reconquistar. E ela usaria cada grama de sua inteligência para garantir que Lucas e Patrícia pagassem pelo que fizeram.
"Obrigada pelo café, pessoal", eu disse, minha voz soando surpreendentemente calma. "Eu realmente precisava disso."
Eles sorriram, satisfeitos por minha aparente normalidade. Mal sabiam eles que o jogo havia acabado de começar. E desta vez, eu era quem ditava as regras.
Na minha vida anterior, a tragédia não terminou com a expulsão e a ruína da minha família. Ela me seguiu como uma sombra. Sem um diploma e com uma mancha indelével no meu histórico, eu não conseguia emprego em nenhuma empresa de engenharia. Acabei trabalhando em empregos de baixa remuneração, apenas para ajudar meus pais a pagar as contas. A depressão era uma companheira constante. E tudo culminou naquela noite chuvosa na ponte. Eu tinha dezoito anos. Uma vida inteira pela frente, roubada.
Agora, eu estava de volta. Com a memória nítida de cada detalhe daquele sofrimento. O cheiro do café que Patrícia me deu ainda estava no ar, um lembrete de sua falsidade.
"Júlia, eu estava pensando", disse Patrícia, sentando-se na beirada da minha cama com uma expressão séria. "Seu projeto é bom, mas talvez um pouco... ambicioso demais. O tempo está curto. Eu tive uma ideia para um projeto mais simples, mas que com certeza vai impressionar os jurados. Talvez você devesse considerar."
Meu sangue gelou. Era exatamente a mesma conversa. A mesma armadilha.
Na vida passada, eu recusei a princípio. Mas ela e Lucas insistiram tanto, dizendo que estavam preocupados comigo, que eu estava trabalhando demais em um projeto que poderia não ser aprovado. Eles me apresentaram um conceito "brilhante" que Patrícia supostamente "ouviu" de um dos assistentes do Professor Carvalho. Era uma isca perfeita. Um projeto que parecia complexo, mas era falho em sua essência. Eles me convenceram a mudar meu foco, a adotar a ideia "deles". E, claro, no dia da apresentação, eles me acusaram de roubar a ideia que eles mesmos me deram.
Desta vez, eu olhei para Patrícia e forcei uma expressão de curiosidade. "Oh, é? Que tipo de ideia?"
Patrícia sorriu, satisfeita por eu ter mordido a isca. "É um aplicativo de gerenciamento de energia para residências inteligentes. Usa IA para otimizar o consumo. Super moderno, super na moda. O Professor Carvalho adora esse tipo de coisa."
Lucas concordou com a cabeça. "É uma ótima ideia, Pati. E você, Júlia, é a única com a habilidade de programação para fazer isso funcionar em uma semana. Nós podemos te ajudar a montar a apresentação. Seria um sucesso garantido."
Eles eram tão convincentes. A preocupação em seus olhos, o tom de urgência em suas vozes. Se eu não soubesse a verdade, eu acreditaria neles novamente. Lembrei-me de como eles eram bons. Lucas, o namorado atencioso que sempre me incentivou. Patrícia, a amiga leal que passava noites em claro estudando comigo. Por que eles fariam isso? A inveja era um motivo tão pequeno para uma destruição tão completa. Havia algo mais, eu sentia, mas ainda não sabia o quê.
"Sabe, é uma ideia interessante", eu disse, mantendo a voz neutra. "Vou pensar sobre isso. Obrigada por se preocuparem comigo."
Eles trocaram um olhar rápido, um brilho de triunfo que durou apenas uma fração de segundo. Eles achavam que eu estava caindo no plano deles.
"Claro, qualquer coisa por nossa amiga", disse Lucas, me dando um beijo na testa. O gesto me fez sentir vontade de vomitar.
Quando eles finalmente saíram, a fachada de calma que eu mantinha desmoronou. Eu corri para o banheiro e apoiei as mãos na pia, respirando fundo. Meu reflexo no espelho era o de uma garota de dezoito anos, mas meus olhos carregavam o peso de uma vida de dor.
A raiva me deu clareza. Eles não apenas me traíram, eles planejaram cada passo meticulosamente. A "ideia" que eles me ofereceram era o coração da armadilha.
Liguei meu laptop. A primeira coisa que fiz não foi trabalhar no meu projeto. Foi abrir o navegador e digitar o nome de Patrícia nas redes sociais. Na minha vida anterior, eu estava tão destruída que nunca pensei em investigar. Eu simplesmente aceitei meu destino.
Não mais.
O perfil de Patrícia era público, uma vitrine de sua vida "perfeita". Fotos de viagens caras, festas exclusivas, roupas de grife. Rolei o feed, procurando por qualquer coisa fora do comum na semana que antecedeu a apresentação. E então, eu encontrei.
Uma série de posts vagos. "Grande projeto a caminho! Mal posso esperar para compartilhar com o mundo." "Trabalhando duro para realizar um sonho." "Às vezes, os fins justificam os meios."
Eram posts que, na época, eu interpretei como apoio a mim. Agora, eu via a verdade. Ela estava construindo uma narrativa. Uma narrativa em que ela e Lucas eram os gênios por trás do projeto.
Continuei rolando, passando por fotos e mais fotos. E então, parei. Uma foto tirada duas semanas antes. Patrícia e Lucas em um café. A legenda era "Celebrando o futuro com meu parceiro no crime. 😉"
Na época, eu achei que era uma piada inocente. Agora, a frase soava como uma confissão. Mas não era a foto que me chocou. Era um comentário abaixo, de uma conta que eu não reconhecia. O nome do usuário era "EngenheiroMestre".
O comentário dizia: "O plano está em andamento. O protótipo dela está quase pronto. Preparem-se para a fase dois."
Meu coração batia forte contra as costelas. Fase dois. Parceiro no crime. Quem era "EngenheiroMestre"? Cliquei no perfil, mas era privado. Nenhuma informação, nenhuma foto.
Isso era maior do que eu pensava. Não era apenas inveja. Era uma conspiração.
Fechei o laptop, minha mente a mil por hora. Eu precisava de provas concretas. Provas que ninguém pudesse refutar.
Eu sabia o que tinha que fazer. Eu precisava que eles acreditassem que eu estava seguindo o plano deles. Eu precisava fingir que estava trabalhando na ideia falha que eles me deram.
De repente, senti uma tontura. A falta de sono e o choque emocional estavam me atingindo. Eu me deitei na cama.
"Preciso descansar um pouco", murmurei para mim mesma.
Eu estava prestes a fechar os olhos quando meu telefone tocou. Era Lucas.
"Oi, amor. Só ligando pra saber se você está bem. Parecia um pouco pálida hoje de manhã."
"Estou bem", menti. "Só cansada."
"Que bom. Escuta, Patrícia e eu vamos para a biblioteca estudar um pouco. Quer vir com a gente? Podemos te ajudar a esboçar as primeiras ideias para o novo projeto."
A voz dele era suave e convidativa. Ele estava me monitorando. Eles queriam garantir que eu abandonasse meu projeto real.
"Ah, eu não sei, Lucas. Acho que prefiro ficar por aqui e descansar. Minha cabeça está doendo um pouco."
Houve uma pausa do outro lado da linha. Então, ouvi um suspiro de impaciência, rapidamente disfarçado.
"Tudo bem, meu bem. Descanse então. Mas não pense demais, ok? A ideia que a Pati deu é realmente boa. Confie em nós."
"Vou confiar", eu disse, e a mentira saiu com uma facilidade que me assustou.
"Ótimo. Te vejo mais tarde. Te amo."
"Também te amo", respondi, e desliguei.
A frase final deixou um gosto amargo na minha boca. Amor. Eles não sabiam o significado da palavra.
Levantei-me e fui até minha mesa. Peguei meu caderno de anotações, onde todos os meus cálculos e diagramas para o purificador de água estavam. Eu o abracei contra o peito. Isso era meu. Minha criação. Minha alma. Eles não iriam tirá-lo de mim.
Eu ia expô-los. Ia desmascarar cada mentira. E ia fazer isso usando a inteligência que eles tanto invejavam. O jogo de xadrez tinha começado, e eu já estava três movimentos à frente.