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A Mulher Que Virou o Jogo

A Mulher Que Virou o Jogo

Autor:: Maura Dylan
Gênero: Romance
Por dez anos, vivi o cheiro de maresia e peixe, orgulhosa da nossa vida simples de pescadores, tudo por amor ao meu marido, Pedro Henrique. Mas, em uma viagem para comprar o remédio de tosse do nosso filho, vi o Pedro. Não o meu pescador humilde, mas um homem em terno caro, saindo de uma BMW com Ana Paula, minha melhor amiga, deslumbrante em seda e joias, e beijando-a na boca sem pudor. Fiquei paralisada, o pacote de remédio pesando uma tonelada. A mentira desmoronou: dez anos de sacrifício, amor e vida simples eram uma farsa, e aquele beijo me feriu profundamente. Como pude ser tão cega? Como ele pôde me enganar por tanto tempo, e com minha melhor amiga? A dor inicial de choque se transformou em uma raiva fria e cortante, um desejo imenso de vingança. Maria Antônia, a bióloga marinha que abriu mão de uma carreira brilhante, estava de volta. Peguei meu celular velho, digitei o número do Professor Silva e liguei, pronta para retomar minha vida e destruir as muralhas de mentiras que ele construiu.

Introdução

Por dez anos, vivi o cheiro de maresia e peixe, orgulhosa da nossa vida simples de pescadores, tudo por amor ao meu marido, Pedro Henrique.

Mas, em uma viagem para comprar o remédio de tosse do nosso filho, vi o Pedro. Não o meu pescador humilde, mas um homem em terno caro, saindo de uma BMW com Ana Paula, minha melhor amiga, deslumbrante em seda e joias, e beijando-a na boca sem pudor.

Fiquei paralisada, o pacote de remédio pesando uma tonelada. A mentira desmoronou: dez anos de sacrifício, amor e vida simples eram uma farsa, e aquele beijo me feriu profundamente.

Como pude ser tão cega? Como ele pôde me enganar por tanto tempo, e com minha melhor amiga? A dor inicial de choque se transformou em uma raiva fria e cortante, um desejo imenso de vingança.

Maria Antônia, a bióloga marinha que abriu mão de uma carreira brilhante, estava de volta. Peguei meu celular velho, digitei o número do Professor Silva e liguei, pronta para retomar minha vida e destruir as muralhas de mentiras que ele construiu.

Capítulo 1

O cheiro de maresia e peixe estava impregnado em minhas roupas, um perfume constante na minha vida nos últimos dez anos, a vida que escolhi por amor a Pedro Henrique, meu marido. Eu acreditava que éramos uma família de pescadores simples, lutando para sobreviver, e me sentia orgulhosa da nossa humildade.

Naquele dia, viajei por duas horas em um ônibus lotado até a cidade grande, apenas para comprar um remédio importado para a tosse do nosso filho, João Pedro. Pedro Henrique disse que não tínhamos dinheiro para essas extravagâncias, mas o som da tosse do meu filho durante a noite me partia o coração, então usei minhas pequenas economias, o dinheiro que guardava de alguns bordados que vendia.

Enquanto esperava na poeirenta estação rodoviária pelo ônibus de volta para nossa vila de pescadores, uma BMW preta e reluzente parou do outro lado da rua. O carro era tão deslocado naquele ambiente cinzento que chamou a atenção de todos. A porta do motorista se abriu e meu coração parou.

Era Pedro Henrique.

Mas não o meu Pedro Henrique, o pescador de pele curtida pelo sol e mãos calejadas, ele vestia um terno caro, sapatos de couro que brilhavam mesmo sob a luz fraca do fim de tarde, e seu cabelo estava perfeitamente penteado. Ele parecia um estranho, um homem que eu nunca tinha visto.

Ele contornou o carro e abriu a porta do passageiro, e de lá saiu Ana Paula, minha melhor amiga, a mulher que me consolava quando eu reclamava da falta de dinheiro, ela estava deslumbrante em um vestido de seda e joias que valiam mais do que nossa casa.

Pedro Henrique a segurou pela cintura e a beijou, um beijo longo e íntimo que não deixou dúvidas sobre a natureza da relação deles.

Eu fiquei paralisada, o pacote de remédio na minha mão pareceu pesar uma tonelada, o mundo ao meu redor desapareceu, e só existia aquela cena, a prova viva de uma mentira que destruiu tudo o que eu acreditava ser verdade. Meus dez anos de sacrifício, de amor, de vida simples, tudo era uma farsa.

O ônibus para casa chegou, e eu entrei em transe, sentando-me na janela, o vidro frio contra minha testa, a cidade luxuosa que eles habitavam ficou para trás enquanto eu voltava para a minha prisão de mentiras. A dor inicial de choque começou a se transformar em uma raiva fria e cortante.

Cada solavanco do ônibus parecia uma batida na minha alma, me despertando de um longo sono, eu não era apenas a esposa de um pescador, eu era Maria Antônia, uma bióloga marinha, uma das alunas mais promissoras da minha turma. Abri mão de uma bolsa de estudos no exterior, de uma carreira brilhante, para viver a vida simples que ele me prometeu.

Peguei meu celular velho e gasto, a bateria quase no fim, procurei na minha lista de contatos um número que não discava há anos, o número do Professor Silva, meu antigo mentor na universidade. Meu dedo tremia sobre a tela.

Respirei fundo e liguei.

"Alô?" A voz dele era a mesma, calma e sábia.

"Professor Silva? É a Maria Antônia."

Houve um silêncio do outro lado, e então ele disse com um calor que aqueceu meu coração gelado.

"Maria Antônia! Que surpresa boa! Como você está, minha querida?"

Lágrimas silenciosas começaram a rolar pelo meu rosto.

"Professor, eu preciso de ajuda," minha voz saiu embargada, "Eu quero voltar, eu quero voltar a estudar, ainda existe alguma chance para mim?"

Ele não hesitou.

"Para você, minha aluna brilhante? Sempre, as portas da universidade estarão sempre abertas para você, venha me ver, vamos dar um jeito."

Desliguei o telefone, uma chama de esperança se acendeu dentro de mim, uma determinação que eu não sentia há uma década, eu ia sair daquela mentira, eu ia recuperar minha vida.

Enquanto o ônibus se aproximava da vila, as memórias me invadiram, lembrei-me do dia em que Pedro Henrique me pediu em casamento, na praia, com o pôr do sol pintando o céu, ele me disse que a vida acadêmica era vazia e solitária, que a verdadeira felicidade estava na simplicidade, no mar, em uma família. Eu acreditei nele, acreditei em cada palavra.

Lembrei-me dos primeiros anos, das dificuldades, de remendar suas redes de pesca, de limpar o peixe para vender na feira, de economizar cada centavo, eu fazia tudo com amor, pensando que estávamos construindo nosso futuro juntos. Agora, a lembrança de cada sacrifício tinha um gosto amargo de humilhação.

Cheguei em casa e o cheiro familiar de peixe frito e limão me atingiu, mas pela primeira vez, me causou náuseas. Pedro Henrique estava na cozinha, já vestindo suas roupas velhas de pescador, um ator perfeito em seu palco.

"Meu amor, você demorou," ele disse, sorrindo, o mesmo sorriso charmoso que me conquistou. "Fiz seu prato preferido."

Ele colocou uma travessa de peixe na mesa simples de madeira, a comida que por anos eu considerei o sustento da nossa família, agora parecia veneno.

"Não estou com fome," eu disse, minha voz fria como gelo.

Ele me olhou, surpreso com meu tom.

"O que foi, Maria? Aconteceu alguma coisa?"

Eu o encarei, procurando qualquer vestígio de culpa em seus olhos, mas não havia nada, apenas a falsa preocupação de um mestre manipulador.

"Estou cansada, só isso."

Naquela noite, eu não consegui dormir, deitada na cama ao lado dele, sentindo o calor de um corpo que agora me causava repulsa, a porta do nosso quarto estava entreaberta, e eu pude ouvir o toque do celular dele na sala.

Ele se levantou devagar, pensando que eu estava dormindo, e foi atender, sua voz era um sussurro, mas as paredes finas da nossa casa modesta não guardavam segredos.

"Oi, meu amor... Sim, já estou em casa... Foi cansativo, mas fechei o contrato de exportação com os japoneses... Não, ela não desconfia de nada, continua acreditando que sou um coitado... Só mais um pouco de paciência, logo vamos poder viver nossa vida no nosso apartamento, sem precisar mais dessa farsa."

Cada palavra dele era uma confirmação da traição, ele não estava apenas me traindo com Ana Paula, ele era o dono de uma rica empresa de exportação de peixes, e eu, a bióloga marinha que poderia ter ajudado a comunidade, fui usada como fachada para sua vida dupla, para que ele parecesse um homem do povo, um pescador humilde.

A dor no meu peito era sufocante, mas em meio à agonia, uma clareza cristalina tomou conta de mim, o amor por Pedro Henrique morreu ali, naquele instante, assassinado pela verdade.

Levantei-me da cama, caminhei até a janela e olhei para o mar escuro, o mesmo mar que ele dizia ser nossa fonte de vida, mas que para mim, agora, representava a profundidade de suas mentiras.

Eu não iria mais chorar, eu não iria mais ser a vítima. Eu ia lutar, eu ia me reerguer e tomar de volta cada sonho que ele me roubou. A guerra tinha acabado de começar.

Capítulo 2

Na manhã seguinte, o sol nasceu como em qualquer outro dia, mas para mim, tudo havia mudado. Eu me movia pela casa como uma autômata, o cheiro do café que Pedro Henrique preparou me enjoava. Foi quando João Pedro, nosso filho de nove anos, entrou na cozinha com a cara amarrada.

"Mãe, meu tênis novo ainda não chegou? O pai do meu amigo comprou um pra ele que pisca quando anda, eu quero um igual!"

Sua voz era exigente, mimada, o tom de uma criança que nunca ouviu um "não".

"Nós já conversamos sobre isso, João Pedro," eu disse, tentando manter a calma. "Seu tênis atual ainda está bom."

"Mas eu não quero esse! É de pobre! Todo mundo na escola tem um novo!" ele gritou, batendo o pé no chão.

Olhei para o meu filho, o menino que eu amava mais que tudo, e pela primeira--eira vez, senti uma distância fria entre nós, ele era o reflexo do pai, valorizando o que era caro, desprezando o que era simples. A manipulação de Pedro Henrique não se limitava a mim, ele estava moldando nosso filho à sua imagem egoísta.

"Não fale assim, João Pedro," minha voz saiu mais dura do que eu pretendia.

"Você é chata! O papai disse que você não entende nada de coisas boas! Ele disse que ia me dar um videogame novo, e você não vai me impedir!"

Pedro Henrique entrou na cozinha nesse momento, com seu sorriso falso no rosto. Ele bagunçou o cabelo de João Pedro.

"O que está acontecendo aqui? Brigando com a sua mãe logo de manhã, campeão?"

"Ela não quer que eu ganhe o videogame novo! E não comprou meu tênis!" João Pedro correu para o lado do pai, como se buscasse refúgio.

Pedro Henrique me lançou um olhar de reprovação.

"Maria, é só um tênis, um videogame, qual o problema? Deixa o menino ser feliz."

"O problema, Pedro, é que estamos criando nosso filho para ser um materialista," eu respondi, a raiva crescendo dentro de mim. "Ele precisa aprender o valor das coisas."

"Ah, lá vem você com esse seu discurso de humildade," ele disse com desdém. "Deixa que da educação do meu filho cuido eu."

Ele se virou para João Pedro e piscou.

"Não se preocupe, filho, o papai vai resolver isso."

Eu me senti uma estranha dentro da minha própria casa, uma inimiga para meu marido e meu filho, eles eram uma unidade, e eu estava do lado de fora. A dor da traição se misturou com a dor de perder meu filho para a influência do pai.

Mais tarde, enquanto eu limpava a cozinha, escorreguei no chão molhado que João Pedro deixou e caí, batendo o braço com força na quina da mesa, uma dor aguda subiu pelo meu braço, e eu gritei.

Pedro Henrique e João Pedro estavam na sala, rindo de algo na televisão, eles ouviram meu grito, mas ninguém veio ver o que tinha acontecido, continuei no chão por um momento, a dor física era real, mas a dor da indiferença deles era muito pior.

Levantei-me devagar, segurando meu braço que já começava a inchar e ficar roxo, olhei para a sala, eles continuavam ali, vidrados na TV, como se nada tivesse acontecido. Eu era invisível para eles, minha dor não importava.

Naquela noite, Ana Paula ligou, como sempre fazia, fingindo ser minha amiga.

"Amiga, como você está? O Pedro me contou que o João Pedro está querendo umas coisas, e vocês estão com o orçamento apertado..."

A voz dela era melosa, cheia de uma falsa compaixão que me revirava o estômago.

"...então, eu pensei, eu tenho um primo que tem uma loja de brinquedos e eletrônicos, eu poderia conseguir um desconto ótimo para vocês no videogame, o que acha?"

Ela estava me oferecendo migalhas da riqueza que ela desfrutava com meu marido, me humilhando com sua falsa generosidade.

"Não, obrigada, Ana Paula," eu disse secamente. "Nós não precisamos da sua caridade."

Antes que ela pudesse responder, Pedro Henrique pegou o telefone da minha mão.

"Ana, não liga pra ela, você sabe como a Maria é," ele disse, rindo. "Claro que aceitamos sua ajuda, você é um anjo, obrigado por cuidar tão bem de nós."

Ele me devolveu o telefone e saiu, me deixando sozinha com a humilhação. Ele a chamou de anjo, a mulher que estava destruindo minha família.

Mais tarde, ele veio até mim com um pedido.

"Maria, a Ana Paula vai dar uma festa de aniversário no sábado, na casa de praia dela, ela quer que você faça aquela sua moqueca especial, ela disse que ninguém faz igual a você."

Meu sangue gelou. Ele queria que eu cozinhasse para a festa da amante dele, que eu a servisse como uma empregada.

"Eu não vou," eu disse, firme.

O sorriso dele desapareceu.

"Você vai sim, Ana Paula é nossa amiga, e ela fez um pedido, não seja ingrata, Maria, é o mínimo que você pode fazer depois de toda a ajuda que ela nos dá."

A palavra "ingrata" ecoou na minha cabeça. Eu, que sacrifiquei minha vida por ele, era a ingrata? A raiva me deu uma força que eu não sabia que tinha.

"Eu disse que não vou, Pedro Henrique, se ela quer moqueca, que aprenda a fazer."

Ele se aproximou, seu rosto perigosamente perto do meu.

"Você está muito estranha ultimamente, Maria Antônia, é melhor você baixar a bola e fazer o que eu estou mandando, ou as coisas vão ficar muito piores para você."

A ameaça era clara, mas eu não recuei, a mulher dócil e submissa que ele conhecia estava morta.

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