Paris (1824)
O
grande salão do solar Marchand estava iluminado por dezenas de candelabros dourados, lançando um brilho amarelado sobre as paredes de estuque detalhadamente pintadas. O cheiro de madeira polida e lareiras acesas preenchia o ar, mas para Fanny, tudo parecia opressor.
Ela estava ali, vestida com seu melhor vestido de seda azul, rendas brancas adornando as mangas e o decote alto. As pérolas herdadas de sua mãe enfeitavam seu pescoço como grilhões, e suas mãos estavam frias como mármore, apertadas sobre o colo.
- Minha querida filha, quero que conheça Sua Graça, o Duque de Montreuil - disse seu pai, com uma satisfação evidente.
Fanny engoliu em seco, sentindo o estômago revirar antes mesmo de se virar para encarar o homem.
E então, ali estava ele.
Baixo, de ombros largos e caídos, a barriga pronunciada se destacava sob o casaco negro. Seu rosto era enrugado como couro envelhecido, a pele avermelhada pelas décadas de vinho barato. O bigode amarelado escondia parte de seus dentes apodrecidos, e o cheiro de tabaco misturado a perfume barato invadiu as narinas de Fanny, causando-lhe náuseas imediatas.
- Uma flor tão jovem e doce - o duque murmurou, estendendo sua mão seca e manchada para tocar a dela.
Fanny estremeceu ao sentir o toque asqueroso.
- Mal posso esperar para tomá-la como esposa, Marchand. Garanto que cuidarei bem dela.
O ar fugiu dos pulmões de Fanny. Seu coração martelava no peito, e o pavor subiu por sua espinha como um arrepio de morte. Seu pai sorria satisfeito.
Não.
Ela não podia se casar com aquele homem.
A conversa seguiu entre os homens, os detalhes do contrato nupcial sendo discutidos enquanto Fanny se sentia sufocada. O salão girava ao seu redor. Precisava sair dali.
Com passos rápidos, quase tropeçando nas camadas do vestido, ela correu para seu quarto, trancando a porta atrás de si. Suas mãos tremiam ao se apoiar na penteadeira de mogno.
Seus olhos se ergueram, encontrando o espelho dourado à sua frente.
O espelho de sua tia Cloudeth.
Aquele espelho sempre estivera ali. Fora de sua tia, que desaparecera misteriosamente anos antes. Agora, refletia apenas seu próprio olhar aterrorizado, o rosto pálido e as lágrimas ameaçando cair.
- O que eu faço? - sussurrou para si mesma, encarando seu reflexo.
Foi quando aconteceu.
O espelho brilhou.
Não um reflexo da vela ao lado, não um truque de sua mente perturbada. O ouro reluziu, como se dentro dele houvesse algo além da moldura.
Fanny se afastou de um salto, apertando o próprio peito.
E então, no meio do reflexo, um homem apareceu.
Alto, vestindo roupas estranhas. Cabelos escuros bem cortados, um rosto anguloso e forte. Os olhos azuis penetrantes pareciam fitá-la como se realmente pudesse vê-la.
Ela sufocou um grito.
O homem franziu a testa, se aproximando no reflexo.
- Mon Dieu... você é real? - sua voz grave atravessou o espelhoz
Fanny arregalou os olhos.
Seu coração disparou.
Aquilo era bruxaria?
Ela estendeu os dedos, tremendo, para tocar a superfície reluzente...
E naquele instante, tudo mudou.
Paris, XXI
As luzes da cidade refletiam-se nas amplas janelas do meu apartamento, lançando sombras douradas sobre o chão de mármore. Mas eu não via nada disso.
Meu olhar estava fixo na cena diante de mim.
Minha esposa.
Meu melhor amigo.
Nos braços um do outro.
O tempo pareceu desacelerar.
Élodie não esboçou nenhuma reação. Nenhum pingo de culpa, nenhum sinal de arrependimento. Apenas um olhar entediado, como se minha presença fosse um incômodo menor, uma inconveniência.
Laurent, por outro lado, moveu-se desconfortável.
Mas não me importava.
O estrago estava feito há muito tempo.
- François... ce n'est pas ce que tu crois. (François... isso não é o que parece.)
Meu riso seco ecoou pelo cômodo.
- Vraiment? Alors dis-moi, Élodie... à quoi cela ressemble-t-il pour toi? (É mesmo? Então me diga, Élodie... o que isso parece para você?)
Ela suspirou, sentando-se na cama e cobrindo o corpo com o lençol de linho. Nossa cama.
- Ne dramatise pas. Ce n'était qu'une erreur. (Não dramatize. Foi apenas um erro.)
Erro?
A frieza em sua voz me fez apertar os punhos.
Laurent finalmente abriu a boca, a voz hesitante.
- François, écoute... (François, escute...)
Levantei a mão, cortando sua fala no mesmo instante.
- Ne me parle pas. (Não me dirija a palavra.)
Meu olhar gelado fez seu rosto empalidecer.
Respirei fundo, sentindo uma calma perigosa tomar conta de mim.
- Tu es viré. (Você está demitido.)
Laurent arregalou os olhos.
- Quoi?! *(O quê?!)
Minha voz permaneceu firme, implacável.
- Tu es viré. Je ne veux plus jamais te voir. Ni ici, ni dans mon entreprise. Tu n'existes plus pour moi. (Você está demitido. Nunca mais quero vê-lo. Nem aqui, nem na minha empresa. Você não existe mais para mim.)
A boca dele se abriu e fechou algumas vezes, sem conseguir argumentar.
Eu me virei para Élodie.
Ela ainda me olhava com indiferença.
- François, tu es ridicule. Tout ça pour un moment d'égarement? (François, você está sendo ridículo. Tudo isso por um momento de deslize?)
Meu maxilar travou.
- Nous divorçons. (Estamos nos divorciando.)
Dessa vez, sua expressão mudou.
Seus olhos se estreitaram, como se finalmente percebesse que eu não estava brincando.
- Tu ne peux pas être sérieux. (Você não pode estar falando sério.)
Cruzei os braços, friamente.
- Tu n'as jamais voulu être mon épouse. Alors ne fais pas semblant d'être blessée. (Você nunca quis ser minha esposa. Então não finja estar magoada.)
Ela abriu a boca para responder, mas eu ergui a mão novamente.
- Quand je reviendrai, je ne veux plus te voir ici. (Quando eu voltar, não quero mais te ver aqui.)
Seus lábios se apertaram.
- Et si je refuse de partir? (E se eu recusar a sair?)
Soltei um riso sem humor.
- Tu n'as pas le choix. (Você não tem escolha.)
Peguei meu casaco e andei até a porta, sem olhar para trás.
- Profitez bien de votre compagnie. (Aproveitem bem a companhia um do outro.)
E então, saí.
Horas Depois...
Caminhei pelas ruas de Paris sem destino.
O ar noturno era frio, mas eu não sentia nada. Nenhuma brisa, nenhum cheiro, nenhum som além do eco dos meus próprios passos.
Eu não sabia para onde ia.
E, ainda assim, meus pés me levaram até ali.
O Louvre.
As grandes portas do museu estavam abertas para a última visitação do dia, e eu entrei sem pensar.
Meus olhos vagaram pelo salão escuro e silencioso, pelas pinturas, esculturas e relíquias de séculos passados.
Mas foi então que eu o vi.
Um espelho.
Antigo.
Dourado.
Alto, ornamentado, reluzente sob as luzes do salão.
Algo nele parecia... errado.
Me aproximei.
Minha respiração ficou pesada.
Havia algo na forma como o ouro de sua moldura reluzia... como se pulsasse, como se vivesse.
Então...
A superfície brilhou.
E, no reflexo...
Vi uma mulher.
Uma mulher que chorava desesperada.
Uma mulher que não pertencia a este século.
Meus olhos se arregalaram.
- Mon Dieu... (Meu Deus...)
Ela ergueu a cabeça.
Nossos olhares se encontraram.
E, naquele momento, tudo mudou.
Paris, 1824
O
vento frio serpenteava pelas frestas das janelas, fazendo as velas trêmulas dançarem na penumbra do quarto. A madeira rangia sob a força da brisa cortante, como se murmurava os segredos do tempo.
Meu destino estava selado. Meu pai tomou sua decisão sem sequer me consultar, e agora restava-me apenas aguardar o dia em que seria entregue como um bem de família.
O nó na garganta apertava mais a cada minuto.
Sentada diante do espelho dourado, passei os dedos trêmulos pela moldura ornamentada. O ouro desbotado testemunhava os anos, mas eu sabia que aquele objeto guardava mais do que a passagem do tempo.
Minha tia desaparecera há quase uma década, misteriosamente, sem deixar rastros. Ela tinha apenas quatorze anos quando sumiu. E este espelho... foi a única coisa dela que consegui manter comigo.
O que se esconde atrás desse vidro? Sempre tive essa sensação inquietante de que este espelho guardava segredos. Poderia ele ser... mágico?
Balancei a cabeça, espantando os pensamentos absurdos.
- Ah, não seja tola, Fanny - murmurei para mim mesma. - Não há magia no mundo que possa mudar o que está por vir.
Edith se mexeu na cama ao lado, e prendi a respiração, controlando as lágrimas. Eu não podia chorar. Se ela acordasse, faria perguntas.
Mas então...
O espelho brilhou.
Meus olhos se arregalaram.
A superfície do vidro tremeu, como água perturbada pelo toque invisível de uma pedra. Meu coração disparou, e recuei, levando a mão ao peito.
- O que está acontecendo? - sussurrei, incapaz de desviar o olhar.
E foi então que o vi.
Um homem.
Alto, de cabelos escuros e olhos de um azul hipnotizante. Vestia-se de forma estranha, sem colete, sem cartola... Seu traje era ajustado ao corpo de um jeito indecoroso para os padrões do meu tempo. E atrás dele...
O ambiente era diferente de tudo o que eu conhecia. Não havia velas ou lampiões. A luz... era pura, brilhante... artificial?
Ele me via também?
A surpresa em seus olhos me deu a resposta.
Ele deu um passo à frente, tocando o vidro. Meu corpo travou.
O espelho não deveria fazer isso!
E, ainda assim, ali estávamos.
Duas pessoas separadas por algo que não fazia sentido.
Deveria gritar. Deveria correr.
Mas, em vez disso...
Apenas sussurrei:
- Vous... êtes un sorcier? (Você... é um bruxo?)
O homem me encarou por um longo instante. E então...
Ele riu.
Meus olhos se estreitaram.
- Pourquoi riez-vous? (Por que ri?)
Ele sorriu mais, como se estivesse se divertindo às minhas custas.
- Parce que vous me parlez à travers un miroir et vous pensez que je suis un sorcier? (Porque você está falando comigo através de um espelho e acha que eu sou um bruxo?)
A audácia!
Minhas bochechas queimaram de indignação.
- O que mais você poderia ser? Este espelho jamais fez isso antes!
O sorriso dele diminuiu um pouco.
- Nem comigo.
Ficamos em silêncio.
Eu não sabia quem ele era.
Ele não sabia quem eu era.
Mas uma coisa era certa...
Esse encontro mudaria tudo.
Paris, XXI
Nunca acreditei no destino.
Até que ele me traiu da pior forma possível.
Dez anos de casamento jogados no lixo.
Voltei para casa mais cedo, esperando surpreender minha esposa. E a surpresa foi toda minha.
Ela e meu melhor amigo de infância, juntos. Na nossa cama.
O choque me atingiu como um soco no estômago, mas minha voz saiu fria, cortante:
- Há quanto tempo isso acontece?
Élodie puxou o lençol para cobrir o corpo, a expressão pálida.
- François... Não é o que você está pensando.
Soltei uma risada seca.
- Ah, não? Então me explique, Élodie. Porque, pelo que vejo, meu melhor amigo está nu na minha cama com a minha esposa.
Laurent ficou de pé, apressando-se em vestir a calça.
- Mon ami...
Levantei a mão, cortando qualquer tentativa de explicação.
- Não ouse me chamar assim.
Élodie agarrou o lençol com força, os olhos úmidos como se tivesse o direito de chorar.
- Foi um erro, François! Apenas um momento de fraqueza! Não significa nada!
Eu ri, um som baixo e sem humor.
- Não significa nada? Então você jogou dez anos de casamento fora por algo que não significa nada?
Ela avançou alguns passos, o olhar suplicante.
- Podemos conversar! Você não pode jogar tudo fora por um deslize!
Meus dentes rangeram, e dei um passo para trás, como se não quisesse que sequer sua sombra me tocasse.
- Ouça bem, Élodie. Eu não estou jogando nada fora. Você jogou. No momento em que abriu as pernas para ele.
Ela arfou, como se minhas palavras fossem cruéis demais.
Ótimo. Porque eu não sentia absolutamente nada além de desprezo.
- Quero o divórcio.
Ela arregalou os olhos.
- Não! François, não diga isso...
- Já disse. - Minha voz era um gelo cortante. - E não volto atrás.
Laurent tentou intervir:
- François, você está no calor do momento. Não faça nada precipitado...
Lancei um olhar letal para ele.
- Você traiu a única amizade que valia algo na sua vida. E agora quer me dar conselhos?
Apertei os punhos, sentindo meu sangue ferver.
- Você está demitido. A partir de agora, nunca mais quero ouvir seu nome, ver seu rosto ou sequer lembrar que um dia confiava em você.
Ele empalideceu.
- O quê?!
- Não está ouvindo bem? Está fora da minha empresa. Vou garantir que ninguém mais o contrate no setor.
A expressão dele passou de surpresa para puro pânico.
- François, não faça isso!
- Você fez isso. - Cruzei os braços, frio. - Agora aguente as consequências.
Laurent olhou para Élodie, como se esperasse alguma salvação dela. Mas ela mesma estava ocupada demais tentando me convencer.
- François, não podemos acabar assim! Você me ama, eu sei que ama!
Inclinei a cabeça, analisando-a como se estivesse vendo um completo estranho.
- Não. Eu amava a mulher que pensei que você fosse. Mas essa mulher... nunca existiu.
Ela balançou a cabeça, em negação.
- Você está agindo por impulso.
- Impulso? - Soltei uma risada vazia. - Não. Eu estou tendo a clareza que me faltou por dez anos.
Respirei fundo, sem desviar o olhar.
- Quando eu voltar, quero você fora deste apartamento.
Ela cruzou os braços, desafiadora.
- Você não pode me expulsar!
Sorri de lado, mas não havia humor em meu rosto.
- Você vai descobrir o que eu posso fazer.
Me virei, dando um último olhar para os dois.
- Aproveitem um ao outro. Afinal, agora só têm um ao outro.
E saí.
Caminhei sem rumo por horas, tentando processar a traição. O peso era sufocante, mas eu me recusava a me deixar afundar.
Meus pés me levaram ao Louvre.
O Louvre estava quase vazio àquela hora. Caminhei sem rumo pelos corredores silenciosos, ignorando as obras que normalmente prendiam minha atenção. Meu peito ainda estava pesado com o gosto amargo da traição, mas eu me recusava a permitir que aquilo me consumisse.
Eu estava destruído. Mas não derrotado.
Passei por esculturas, pinturas e tapeçarias até que meus olhos foram atraídos por algo... diferente.
Um espelho.
Grande, dourado, imponente.
Meu olhar se prendeu à moldura ornamentada, e um arrepio subiu por minha espinha. Havia algo errado ali.
Dei um passo à frente.
A superfície do vidro... tremulou.
Franzi o cenho.
Isso... isso não era normal.
Então eu vi.
Uma mulher.
Seu reflexo não era o meu.
Seus olhos arregalados, cheios de surpresa e desespero, me encaravam do outro lado do espelho.
Ela era linda. Vestia-se de maneira antiquada, como se tivesse saído de um romance de época. O tecido do vestido escuro contrastava com sua pele clara, e seus cabelos estavam presos em um coque impecável, mas alguns fios escapavam, dando a impressão de que ela havia corrido.
Mas o que mais me chamou atenção... foram seus olhos.
Havia medo neles.
E algo mais.
Algo que eu não conseguia decifrar.
Ela piscou, parecendo tão atordoada quanto eu.
E então, sua boca se abriu, e sua voz chegou até mim, através do impossível.
- Vous... êtes un sorcier? (Você... é um bruxo?)
Eu pisquei, confuso.
Um bruxo?
Foi isso que ela perguntou?
Foi isso que ela pensou ao me ver?
E, contra qualquer lógica, contra toda a seriedade da situação, uma risada escapou dos meus lábios.
Ela franziu o cenho, claramente ofendida.
- Pourquoi riez-vous? (Por que ri?)
Esfreguei o rosto, tentando conter o sorriso, mas falhando miseravelmente.
- Parce que vous me parlez à travers un miroir et vous pensez que je suis un sorcier? (Porque você está falando comigo através de um espelho e acha que eu sou um bruxo?)
A fúria em seu olhar foi quase adorável.
Ela ergueu o queixo, a postura rígida e nobre, como se minha resposta fosse a coisa mais absurda que já ouvira.
- O que mais poderia ser? Este espelho nunca fez isso antes!
Meu sorriso diminuiu.
- Nem comigo.
Silêncio.
Ela me olhava com desconfiança, como se tentasse decifrar se eu era real ou apenas fruto de sua imaginação.
E eu fazia o mesmo.
Como aquilo era possível?
Dei um passo mais perto, analisando-a.
Ela não parecia um holograma, uma ilusão...
Ela parecia real.
- Qual é o seu nome? - perguntei, a voz mais baixa, cautelosa.
Ela hesitou.
- Fanny
O nome dançou na minha mente, e, por algum motivo inexplicável, encaixou-se perfeitamente nela.
- E você? - ela perguntou.
- François.
Ela franziu a testa.
- François?
Assenti.
- Sim.
Seus olhos deslizaram pelo meu rosto, como se buscassem algo.
- Você é francês. Mas sua roupa... - Ela corou levemente, desviando o olhar. - Não é nada apropriada.
Demorei um segundo para entender.
Olhei para baixo.
Terno sem gravata. Camisa social levemente aberta no colarinho.
Ah.
- Você esperava uma cartola e um colete?
Ela ainda não me encarava.
- Homens decentes não andam assim, tão... - Ela pigarreou. - Expostos.
Ri.
- Bem, mademoiselle, no meu tempo, isso é completamente aceitável.
Ela finalmente ergueu o olhar, e sua confusão só aumentou.
- Votre temps? (Seu tempo?)
Minha boca abriu, mas nenhuma resposta saiu.
Porque, de repente, tudo fez sentido.
Suas roupas. Sua linguagem formal. A forma como falava do espelho como se aquilo nunca tivesse acontecido antes.
Ela não estava apenas do outro lado do espelho.
Ela estava em outro tempo.
Engoli em seco, sentindo um frio subir pela espinha.
- Fanny... en quelle année sommes-nous? (Fanny... em que ano estamos?)
Ela piscou, como se fosse óbvio.
- 1824.
Um silêncio ensurdecedor caiu entre nós.
Minha mente trabalhou rápido.
Não.
Não podia ser.
- Et vous? (E você?) - ela perguntou, hesitante.
Passei a língua pelos lábios secos antes de responder:
- 2024.
Seus olhos se arregalaram, e ela tropeçou um passo para trás, segurando a borda da penteadeira como se sua vida dependesse disso.
- Impossible... (Impossível...)
Balancei a cabeça, sentindo um arrepio percorrer meu corpo.
- É o que eu deveria estar dizendo.
Fanny respirou fundo, parecendo tentar controlar o turbilhão dentro dela.
E eu?
Eu estava no meio de um divórcio.
Minha esposa me traiu com meu melhor amigo.
Minha vida estava de cabeça para baixo.
E, ainda assim...
A única coisa que importava agora era essa mulher do outro lado do espelho.
E descobrir como, diabos, aquilo era possível.
PROPOSTA
Paris, 1824
Eu não deveria estar conversando com um homem dentro de um espelho.
Damas não conversam com homens sem a devida companhia, sem a permissão de um tutor, sem um propósito claro. Mas, naquele momento, todas essas regras pareciam insignificantes.
Porque a única coisa que fazia sentido era ele.
O misterioso Lord do outro tempo.
E que homem!
Alto, forte, com olhos tão azuis que pareciam capazes de enxergar minha alma. Seus cabelos escuros estavam um pouco desalinhados, e o leve tom de cansaço em sua expressão sugeria que ele carregava um peso invisível.
Nunca vi um homem tão belo em toda a minha vida.
Meu rosto pegou fogo com o pensamento, e apertei as mãos contra as saias para tentar dissipar o embaraço.
Mas ele parecia tão real quanto qualquer coisa ao meu redor. Ainda assim, havia algo de muito errado. Suas roupas, seu corte de cabelo, a forma como falava... Ele não era deste tempo.
E se...?
Meu sangue gelou.
E se ele fosse um espírito?
Dei um passo hesitante para trás.
- Como está falando comigo? Quem é você?
Ele arqueou uma sobrancelha, parecendo tão intrigado quanto eu.
- Eu é que deveria perguntar isso - respondeu, cruzando os braços. - Você apareceu no espelho do Museu do Louvre, chorando como se sua vida estivesse acabando.
Travei.
Ele me viu... chorando?
A humilhação me atingiu em cheio, e desviei o olhar, envergonhada.
- Musée du Louvre? - repeti, confusa.
- Sim. Como já descobrimos, estou no século XXI.
Minha cabeça girou.
Século XXI?
Ele só podia estar brincando.
Ou... aquilo era algum tipo de feitiçaria?
Minha respiração acelerou, e levei a mão ao peito, tentando acalmar a tempestade dentro de mim.
Se ele estivesse dizendo a verdade...
Duzentos anos nos separavam.
Meus olhos voltaram ao espelho, e, pela primeira vez, percebi os detalhes ao redor dele. As luzes brilhantes que pareciam pedaços do sol, os objetos estranhos ao fundo, o brilho reluzente de um mundo que não era o meu.
Não era meu quarto.
E, naquele instante, percebi a verdade aterradora.
Eu realmente estava olhando para outro século.
Minha garganta secou.
- Você... você está falando a verdade... - minha voz saiu trêmula. - Mas... como isso é possível?
Ele passou a mão pelos cabelos escuros, pensativo.
- Não sei. Mas, se há uma resposta, o espelho parece ser a chave.
Eu tremia dos pés à cabeça.
- Isso... isso é loucura.
Ele soltou um meio sorriso.
- Et pourtant, nous sommes ici. (E, ainda assim, estamos aqui.)
Um silêncio pesado caiu entre nós.
Ele me estudava, atento, como se tentasse me decifrar. E então, sua voz soou mais baixa, mais suave... mas carregada de algo intenso.
- O que estava chorando antes de me ver?
Minha garganta apertou.
Meu peito doía.
E, sem saber por que, eu respondi.
- Meu pai vai me casar com um duque... - minha voz falhou, mas continuei. - Um homem velho, cruel. Viúvo três vezes. Dizem que ele maltratava as esposas que não lhe deram herdeiros.
Minhas lágrimas voltaram com força.
- Eu serei a próxima.
Os olhos de François escureceram.
Eu vi a transformação nele.
Seus músculos enrijeceram. Sua mandíbula travou. Seus punhos cerraram levemente, mas ele manteve a compostura.
Continuei, minha voz tremendo de desgosto:
- Ele é repulsivo... velho, baixo, a barriga flácida, os poucos dentes amarelados... fede a suor e perfume barato. Ele tem idade para ser meu avô!
A repulsa transbordou de mim.
- Ele vai me tocar! - Minha voz falhou de nojo, e minhas mãos tremiam. - Meu pai disse que é minha obrigação! Que é para o bem da família!
Não percebi quando comecei a soluçar.
Mas percebi o momento exato em que o rosto de François mudou.
Era fúria.
Uma raiva crua, intensa, devastadora.
Ele respirou fundo antes de dizer, cada palavra carregada de um peso que me atingiu no peito.
- Et si je pouvais vous sortir de là? (E se eu pudesse tirá-la daí?)
Minha respiração parou.
Ele inclinou-se levemente para a frente, aproximando-se do espelho, e suas próximas palavras saíram baixas, porém afiadas como uma lâmina.
- Auriez-vous le courage de venir à mon siècle? (Você teria coragem de vir ao meu século?)
Um soluço escapou dos meus lábios.
A incredulidade me tomou.
Ele era um estranho.
Um homem de outro século.
Mas...
Ele me enxergava.
Como ser humano.
Como mulher.
E, pela primeira vez na minha vida...
Alguém queria me salvar.
Paris, XXI
Eu não sabia o que esperar.
Aquela era a coisa mais absurda, irracional e impossível que já havia acontecido comigo.
Mas, ao mesmo tempo, era a coisa mais real que já vivi.
Fanny Marchand, uma mulher do século XIX, estava prestes a atravessar um espelho para chegar ao meu mundo.
E eu a ajudaria.
Seja lá o que fosse esse espelho, seja lá como aquela conexão tinha sido criada... eu não ia deixá-la para trás.
Ela hesitou, os olhos cheios de algo que eu não soube decifrar.
- Attendez-moi. (Espere por mim.) - ela murmurou.
Assenti, observando enquanto ela pegava papel e tinta, escrevendo algo com pressa.
- O que está fazendo?
Ela não desviou o olhar do papel.
- Deixando uma carta para Edith. Ela precisa saber que voltarei.
Houve algo em sua voz...
Algo que apertou meu peito.
Ela não queria deixar a irmã para trás.
E aquilo me fez admirá-la ainda mais.
Fanny terminou de escrever, dobrou o papel e o deixou sobre a mesa de cabeceira.
Respirou fundo.
Voltou-se para mim.
E, naquele instante, vi sua decisão tomar forma.
Ela não estava mais hesitante.
Ela ia fazer isso.
Minha garganta secou.
- Vous êtes prête? (Está pronta?)
Ela engoliu em seco, mas seus olhos brilhavam com uma coragem que me surpreendeu.
- Oui. (Sim.)
Eu segurei o fôlego quando ela ergueu a mão.
Seus dedos tocaram a superfície do espelho.
E o impossível aconteceu.
O vidro cedeu como água.
Uma leve ondulação se espalhou pela moldura dourada, e Fanny deu um passo hesitante.
Seu corpo começou a atravessar...
E então, num último instante de incerteza, ela olhou para mim.
Seu olhar parecia pedir garantia.
Eu não hesitei.
- Je suis là. (Estou aqui.)
Fanny fechou os olhos.
E então...
Atravessou.
O ar ao meu redor pareceu vibrar.
O brilho ao redor do espelho piscou, como se lutasse contra o impossível.
E então...
Ela estava aqui.
No século XXI.
Na minha frente.
Na minha vida.
E eu sabia, naquele momento, que nunca mais seria o mesmo.