Elisie Charpentier
A corda aperta os meus pulsos, trazendo uma ardência horrenda e sei que está cortando a minha pele, mas o que me sufoca de verdade é esse silêncio e a escuridão.
Nenhuma sirene. Nenhum passo. Nenhum sinal de que Lucien virá.
Eu estou sozinha aqui!
A sala é fria, mal iluminada e tem um cheiro de algo abafado e morfado. O cheiro de ferrugem e gasolina também está envolto do ar. É um galpão industrial abandonado, talvez? Não dá para saber.
A única coisa viva aqui é o medo que pulsa dentro de mim e, vejo agora, os olhos de quem me observa na sombra. Não estou mais sozinha aqui.
- Você não esperava me ver, não é? - A voz masculina é suave, educada até demais para a ocasião.
Quase familiar.
A figura sai da penumbra. Vestido um sobretudo caro, as mãos cobertas por luvas de couro na cor preta, os cabelos bem penteados e... os olhos? Vazios.
É como um soco que traz um choque imenso.
Eu o conheço.
Ou melhor, já o tinha visto. Sempre simpático, sorridente e de disponibilidade para tudo. Ele sempre se comportou como amigo e um homem confiável para todos.
- Você? Não acredito nisso... - A minha voz sai quase falhada.
Ele inclina a cabeça e sorrir da forma mais diabólica possível.
- É uma pena, Elise. Você é bonita... e..., inteligente. Mas se tornou um problema. E problemas, bem... - Ele gesticula e torce um pouco os lábios. - Precisam ser eliminados antes que cresçam demais. Espero que entenda... é bem pessoal, mesmo.
Dois homens entraram atrás dele. Estão armados. Me olham com um olhar de quem vai me atacar a qualquer segundo e já sei que não vou sair daqui intacta. Hoje é meu fim!
- Vamos registrar tudo para o Conselho. - Ele diz, numa tranquilidade absurda. Como algo normal.
- Lucien vai te matar... - Eu rosno o encarando. - Você ficou maluco?
Sinceramente, depois de tudo de forma geral, não sei se o meu marido vem a esse ponto por mim. Mas, eu preciso ganhar algum tempo.
Ele sorrir, mas é um sorriso frio. Satisfeito. E que diz que sou a maior das tolas.
- Lucien não pode me tocar. Ele esqueceu que está cercado por lobos e você... foi o erro que o fez sangrar. - Ele sorrir mais e se inclina mais perto de mim. - Ele vai ver isso em breve e sabe o que vai acontecer? Você será substituída... vai ter outra no seu lugar de esposa da máfia e garanto que será uma bem controlada do jeito que queremos.
Então ele se vira, gargalha alto enquanto dá um passo de costas para mim e no fim, me olha por cima do ombro.
- E quando ele encontrar seu corpo... será tarde demais. - Uma fumaça sai de sua boca e sinto a pele arrepiar. - E eu vou ver de perto.
E agora, os dois ali se aproximam de mim e um deles, começa a se preparar.
É..., hoje é meu fim.
Antes...
Elisie Charpentier
Muitos dizem que a máfia francesa não é das maiores e nem chega perto de uma das mais poderosas do mundo. Exemplo, não dá para se comparar com a máfia italiana. Mas, dentro do nosso território e partes da Europa, as coisas ainda são pesadas e marcantes.
A máfia em si já tem um peso obscuro, negro e sufocante em diversos sentidos. Então, eu nunca vi uma forma de amenizar nada. Posso falar por mim! No último período de conflitos, eu perdi tudo. Os meus pais morreram, eu fui obrigada a me casar e entrei na outra etapa de inferno na minha vida.
Posso dividir em duas partes: antes do casamento e depois. Não sei qual a pior.
Antes, eu sofria nas mãos da minha mãe que sofria muito de bipolaridade. Em certos momentos, ela era tolerável e agia como um doce suave. Tomávamos chá no fim da tarde, ela acompanhava as minhas aulas de etiqueta e os meus estudos gerais. Me fez virar uma dama! Sempre me calar, nunca contestar, sempre manter a postura, classe e sempre ter a voz de veludo. Aprendi a falar outros idiomas, fiz balé e danças sofisticadas, aprendi sempre a andar arrumada, elegante e saber o meu lugar.
E qual é? Uma sombra.
Ela era rígida nisso. Acompanhava e me fazia companhia. Até me levava às compras.
Em outros momentos, quando o meu pai agia como um monstro com ela, tudo se tornava uma escada. Ele a atacava, e depois ela vinha até mim. Eu era surrada sem motivos algum e no dia seguinte, tinha de sorrir e mostrar classe. O corpo dolorido e cortado, mas eu tinha que me manter. Tinha de suportar a dor e fingir que não existia.
Toda surra tinha um foco: as costas e às vezes as pernas. Era uma forma de esconder as marcas que passavam semanas.
Os vestidos cobriam e eu ainda tinha de usar corpete. Às vezes a surra era com cordas, outras vezes eram um tipo de chicote e até humilhações perante qualquer um pela frente. Cansei de ser arrastada pelos cabelos da sala de jantar até o meu quarto e todos os funcionários já estavam acostumados. E eu tinha que me manter calada.
O meu pai incentivava. Ele me odiava com todas as forças, mas não tocava em mim.
O motivo? Eu ter nascido mulher.
Ele vivia jogando na minha cara que eu era uma praga, que por minha causa, ele nunca prepararia um homem para administrar tudo e muito menos iria ensinar o que ele sabe. Como se eu tivesse culpa! Então, quando ele bebia muito, eu ouvia diversos desabafos humilhantes e todos os tipos de xingamentos. E eu tinha de ficar calada, olhando para ele! E toda vez que ele descarregava tudo, dizia a mesma coisa para finalizar.
"Mostre a ela para o que ela serve!"
E as surras começavam. E durou anos!
Eu tenho as marcas até hoje. Cortes, cicatrizes, vestígios... essa parte do meu corpo tem as marcas de um campo de batalha.
Quando eu fiz os meus dezoito anos, o meu noivado foi acertado e o acordo confirmado. Eu tinha que me casar com Henri Dumas. O filho mais velho de uma grande família do nosso ciclo social e como sempre, eu não pude contestar e nem perguntar. Na verdade, dava para contar nos dedos as vezes que eu falava num dia.
Só que, os meus pais não puderam ver o casamento. Morreram antes!
Com isso, eu fiquei nas mãos dele. De Henri. Estamos casados há cinco anos e ele é a segunda fase do inferno da minha vida. No começo, até que dava para tolerar, afinal, eu já tinha marcas de uma sobrevivente ao viver com dois loucos. Mas, tudo foi piorando. Nos primeiros meses foi algo até agradável. Nós tínhamos algum tempo juntos, o sexo era bom e ele me levava para jantar. Algo que eu jamais imaginei que teria ao me casar.
Depois do primeiro ano, ele foi mostrando bem quem ele era: um homem ambicioso, manipulador, traidor e um viciado.
É, um viciado!
Eu perdi as contas de quantas vezes o vi bebendo pela casa, sem nem andar sozinho. Sempre se apoiando na parede. Álcool e drogas. Ele sempre falava e ainda fala de dinheiro sem parar. Ele sempre diz não tem mais dinheiro por minha causa, sendo que eu praticamente nem peço nada a ele. Nada mesmo!
E claro, ele me trai. E muito.
Por sorte não temos mais nada de relações há um bom tempo. E nem sinto falta disso. E uma forma que eu tenho para fugir dele é sempre usar vestidos longos e cheios de tecidos. Quando menos ele ver o meu corpo, menos vai pensar em mim.
A conta é básica!
E claro, eu tenho outros truques. Faço de tudo para não ser tocada por ele.
- Bom dia, senhora Dumas. - Uma das empregadas se aproxima. - Eu fiz o seu chá!
- Muito obrigada!
Aqui, sozinha na varanda de frente ao jardim, eu tenho os meus minutos de paz. Não faço ideia de onde Henri está e nem quero saber. Mas, logo isso vai acabar e eu estarei longe dele.
Eu vou literalmente acabar com ele.
Terá sorte se sair vivo!
Por grande esperteza, nunca engravidei desse maluco. É um perigo pra mim? Sim, mas ter um filho com ele seria pior. Eu sinto que estaria no clico que cresci. Ele não será um pai, não irá me ajudar e um filho só complicaria tudo. Eu estaria acabada e não quero viver isso.
Jamais!
Eu tomo o meu chá, bem relaxada. Respiro fundo, como uns biscoitos amanteigados e vejo o sol e sinto o vento fresco.
- Aí está você... - A voz me faz arrepiar. - Fugindo de mim, Elisie?
Ele chegou!
- Você não parece bem... - Comento ao vê-lo. - Precisa de alguma coisa, meu marido?
- Preciso que você suba...
Ah! Isso jamais.
Eu engulo em seco. Ele bebeu e sinto o cheiro forte de álcool. Jamais vou para a cama com esse homem.
Não depois de anos já.
- Eu mandei subir, porrä! - Eu fecho os olhos por um minuto e me levanto.
Eu vou andando sem pressa e com um amargo na boca. Ele vem logo atrás, tropeçando um pouco, mas se mantendo de pé. Ele sobe os degraus com dificuldade e eu ganho tempo. Quando chego ao quarto antes dele, eu corro para a estante ao lado. Eu pego o copo dele e um frasco que eu tenho reservado. Despejo o conteúdo no copo e quando ele entra, eu já estou servindo uma dose de uísque.
Ele sorrir satisfeito com isso.
- Muito bem... gosto assim! - Eu finjo tomar um pouco e até faço uma careta. - Me sirva.
- Aqui! Eu aprendi bem... - Eu me aproximo e entrego a ele. - Pode me dizer onde esteve? Fiquei preocupada.
- Por aí... - Ele toma um gole longo. - Com outras pessoas... fazendo coisas... - Eu sei bem.
Ah! Como eu sei.
Henri bebe o restante, tudo num gole só e joga o copo para o lado que se despedaça no chão. Ele me puxa pela cintura e eu prendo o ar. Céus! Que cheiro horrível. Mas, eu o empurro para a cama e ele cai com tudo. Eu abro os botões da sua camisa num puxão só e abro o cinto da sua calça. Ele fica maluco com isso.
Mas, ele logo começa a piscar demais, a se mexer menos e eu só continuo retirando a sua roupa. Os sapatos, a calça e o deixo deitado. Logo ele apaga de vez e respiro aliviada.
- Mais uma vez deu certo... - Saio da cama. - Desgraçad0!
De brinde, eu uso bem as unhas. Arranho o pescoço dele, o peito e o deixo todo livre na cama. Pronto!
Consegui fugir dele mais uma vez!
Elisie Charpentier
Aqui no meu quarto, eu estou trancada e deitada na minha cama.
Sim, eu tenho um quarto separado e foi a melhor decisão da vida. Enquanto eu trabalho nos assuntos aqui, eu fico pensando em até quando eu vou viver assim. Eu tenho o que preciso, mas não sei ainda por onde começar.
Não é fácil, nunca foi. Na verdade, eu não lembro de nada que tenha sido fácil na minha vida.
Eu nunca fiz algo simples como pessoas normais.
Eu nunca tive a experiência de ir ao cinema. Nunca fui de sair para encontrar amigas, afinal, eu nunca tive isso. Amigas! Como deve ser, hein? Eu nunca fiz festas, comemorei alguma coisa boa de verdade e sorrir com o sentimento de felicidade já nem sei se tive. Chorei mais do que sorri.
A diferença de antes para hoje é que não sou surrada. Apenas isso!
- Caramba... isso está ótimo! - Falo olhando umas fotos. - Vai servir muito bem.
Sinto que dias de mudanças virão!
- Ele vai me pagar por tudo...
Preciso de mudanças e das boas.
Eu passo horas do meu dia aqui dentro. Eu sei que Henri vai dormir por longas horas e nem vai lembrar de nada. Ele nunca lembra. Eu não conheço mais nada daquele homem. Mas, infelizmente, estou presa com ele.
Às vezes, eu nem acredito que já são cinco anos.
Se passa um filme na minha mente e eu não vejo um motivo sequer para sorrir. Depois de ver tudo, eu guardo bem escondido e penso numas coisas. Tenho algo a decidir e rápido. O que me ajuda a pensar é nadar. Por isso, eu pego uma tolha e coloco um maiô com um short em baixo. Isso é para evitar qualquer problema.
Eu vou descendo enquanto uso protetor solar e chego à piscina. A tarde está bem fresca hoje.
- Precisa de alguma coisa, senhora?
- Faz uma limonada para mim, por favor. - Ela acena. - Daquele jeitinho.
- Oui, madame...
Eu continuo o meu caminho e lavo os pés no espaço reservado. Ao chegar perto da piscina, eu toco a água e está perfeita. O primeiro mergulho vem e eu suspiro com a água fresca. Quero aproveitar essa pequena paz que é tanto frágil como perigosa. Eu não faço ideia de como Henri vai acordar. Sempre tenho medo de ele perceber.
E se isso ocorrer, ele será capaz de tudo. Não gosto nem de imaginar.
O dia vai passando e eu passo um tempo aqui. Depois, eu saio mais leve e com umas decisões em mente. Nadar sempre esclarece tudo. No quarto, eu volto para a parte dois do ritual de fingimento. Eu tomo um banho caprichado, esfrego bem a minha pele com a esponja ao ponto de deixar marcas.
Sensibilidade visível.
Depois, é a vez da maquiagem. Eu uso batom vermelho e sombra sem brilho para fazer certas manchas falsas nos lábios e nos pulsos. E até uma leve no pescoço. A pomada para assadura está visível aqui, tem remédio para dor e eu coloco um vestido branco e longo para não disfarçar nada.
Odeio isso. Mas faço por desespero. É o meu ritual.
Jamais quero voltar para a cama daquele homem. Por mim, não volto nunca mais.
Ao sair do quarto com os meus itens nas mãos, eu desço as escadas e me acomodo no sofá. Com os itens de tricô, eu vou planejando um cobertor sem pressa alguma e fico aqui um bom tempo. A casa enorme e silenciosa parece me deixar mais nervosa e tensa do que já estou.
Algumas vezes, eu encaro o relógio de parede ali, porque eu sei a hora que ele, provavelmente, irá acordar. A questão não é tanto a hora, é como.
- Com licença, senhora... - Uma das empregadas se aproxima. - O que deseja para o jantar hoje?
- Faça o prato preferido do meu marido...
- O ensopado de carne e vinho tinto. - Eu aceno. - Mais alguma coisa?
- Ele também gosta do frango com cogumelos. - Ela acena. - A torta de maçã está feita?
- Acabei de finalizar!
- Ótimo! Ele vai adorar tudo...
- Oui, madame... - Ela pede licença e sai.
Esses pratos parecem tirar qualquer estresse do Henri e demorei para aprender. Por sorte, a governanta da casa é bem conhecida dele e eu tive umas dicas de ajuda dela. Foi ela que me ajudou a estudar e a entender o Henri. Nunca confrontar, nunca cobrar, nunca impor, nunca mostrar a sua raiva e nunca, jamais grite com ele.
O resto se conecta.
O tempo passa aqui e começo a sentir um cheiro de comida. O aroma é bom, mas já comi tanto aquilo que não me dá vontade. De repente, ouço certos barulhos que vem de cima e eu já sei que ele acordou.
O frio na barriga vem forte!
Depois, vem passos na escada e eu continuo o meu tricô.
- Ah! Você está aí...
- Boa noite! Como se sente?
- Bem! - Ele chega mais perto.
Henri está banhado, perfumado e por sorte não cheira a álcool. O semblante parece mais suave e torço para que fique assim.
- Eu fiz um belo estrago em você pelo visto. - Ele comenta, me olhando toda.
- Como sempre..., mas me recupero! - Forço um sorriso.
Que vontade de fugir daqui. Não suporto mais isso. Não faço ideia de como vou aguentar mais tempo.
Ele se acomoda no outro sofá e como sempre, mexe no celular. Pouco depois, ele sente o cheiro da comida e puxa o ar com força, mostrando satisfação. Eu me mantenho calada, apenas pensando e observando.
Ele não diz nada por bastante tempo. Fica apenas no celular, mas de repente, ele se remexe.
- Elisie... - Eu o olho. - Amanhã temos um jantar importante. Se prepare!
- Posso saber os detalhes?
- Será na casa de Lucien Bellamy. - Isso me surpreende demais. - Se prepare... não fale nada, não olhe nada e vá bem-vestida.
- Tudo bem!
Ele solta um riso.
- Com certeza esse jantar é para uma promoção de cargo... - Ele suspira. - Finalmente! Demorou demais...
Eu não comento mais nada, mas por dentro, digo a mim mesma que esse jantar vai mudar tudo.
É isso que eu preciso.
Vai mudar a minha vida para sempre.
Quando o jantar fica pronto, somos avisados e ele vai à frente todo animado. Ele puxa a cadeira, pega os talheres e começa a comer. Ele não espera ninguém. Eu me acomodo à sua direita e não vejo o meu prato ainda.
- Aqui, senhora... - Vejo algo diferente. - Como pediu por causa do inchaço, fiz um frango ao molho com batatas e legumes cozidos.
- Nossa! Obrigada.
- Inchaço? - Henri questiona.
- As minhas regras estão vindo... eu sempre fico inchada!
E o susto vem.
- Eu ainda me pergunto como eu estou casado com você. - Ele bateu na mesa. - Cinco anos e nenhuma porrä de filho! - Eu paraliso aqui e ele joga os talheres no prato. - Com certeza é infértil, Elisie. Você só tem beleza... apenas isso! E nem é isso tudo. Não tem mais nada... nada! Não serve para porrä nenhuma...
Eu engulo em seco.
- Me desculpe... - Eu não o olho.
Eu sempre me tremo quando sou tomada por um susto.
- Essa porrä não resolve nada... pelo menos tenho outras formas de me ocupar! Ao menos isso... senão estava louco!
Torço para que ele não fale mais nada, mas ele continua enquanto encaro o meu prato.
Doente, infértil, imprestável, miserável e outros nomes são jogados em cima de mim. Não posso revidar, contestar e nem nada parecido.
Mas isso vai acabar. Creio que amanhã acabe de vez.
E ele vai pagar por isso!