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A Nerd e o Mafioso

A Nerd e o Mafioso

Autor:: Brenda_Winter
Gênero: Romance
Mia Harris, é uma jornalista que está enfrentando crises em sua carreira profissional. Prestes a perder seu emprego dos sonhos, ela aceita o desafio de criar uma matéria sobre a Tríade e seu envolvimento na sociedade. Mesmo ciente dos perigos, ela vai até um bar onde alguns dos homens da máfia frequentam e acaba conhecendo Jun Zhao. Ele, por sua vez, após o término complicado de seu antigo relacionamento com Mei Ling, está no que seu irmão Lee se refere como "fundo do poço". Jun acaba ficando intrigado com Mia, o que acaba por despertar um certo interesse por ela. Por fim acaba decidindo ajuda-la em sua matéria e o que deveria ser apenas uma distração, acaba por se tornar sua obsessão.

Capítulo 1 Mia - Capítulo 1

O zumbido estridente do despertador trespassou o véu do meu sono às seis e quinze da manhã, como um arauto implacável do dever. Em dias normais eu me levantaria com a precisão de um relógio suíço, pronta para enfrentar a jornada até a redação da News Cooperative. Petúnia, meu velho e fiel carro, me aguardaria no estacionamento às seis e quarenta, garantindo minha chegada pontual às sete em ponto. Mas hoje não era um dia normal.

Acordei às seis e cinquenta, arrancada do torpor por um sobressalto que fez meu coração disparar. Desorientada, pisquei contra a luz pálida que se infiltrava pelas cortinas finas do meu apartamento em Manhattan. Onde estava o maldito despertador? Por que não o ouvi? A resposta veio com uma pontada de culpa: mais uma vez, eu me rendera à obsessão de trabalhar até tarde, estava virando costume nesse último mês: sacrificar o sono por uma matéria que prometia ser meu passaporte para a redenção profissional. Maldita mania de querer provar meu valor.

Eu estava esparramada sobre a cadeira da escrivaninha, o rosto afundado na blusa de lã que servira de travesseiro improvisado. A textura áspera deixara marcas em minha bochecha, e meu braço direito, dobrado sob o peso do meu corpo, estava dormente, como se protestasse contra a negligência. Tentei me levantar, mas a pressa e a dormência conspiraram contra mim. Vestir-me tornou-se uma batalha cômica e frustrante: com um braço praticamente inútil, puxei a primeira calça preta que encontrei no armário abarrotado, uma peça justa que parecia zombar da minha urgência. A blusa listrada preta e branca veio em seguida, amassada, mas aceitável, e joguei um blazer preto por cima para dar um ar de profissionalismo que eu certamente não sentia. Nos pés, enfiei um par de tênis gastos, os cadarços soltos balançando como um lembrete da minha desordem. Prendi o cabelo num coque improvisado com uma caneta – meu truque de sempre quando o tempo era inimigo – e agarrei a bolsa que descansava sobre a mesinha de canto, quase derrubando uma pilha de livros no processo. Papéis amassados, rabiscados com anotações frenéticas da noite anterior, foram enfiados na bolsa, minha oferta desesperada para aplacar John, meu chefe. Não havia tempo para me olhar no espelho, para verificar se as olheiras denunciavam minha exaustão ou se o coque estava mais caótico do que charmoso. Peguei as chaves, a bolsa escorregando do ombro para o antebraço, e corri para a porta. No corredor, o letreiro "Em manutenção" pendurado no elevador me arrancou um gemido de frustração. O prédio, um edifício antigo com paredes de concreto cinza e carpetes gastos, parecia conspirar contra mim. Desci as escadas em espiral, quase tropeçando nos degraus estreitos, o som dos meus tênis ecoando no silêncio claustrofóbico. No estacionamento, a luz fraca das lâmpadas fluorescentes tremeluzia, lançando sombras sobre Petúnia, minha velha companheira de quatro rodas, um AMC Pacer 1975 numa cor meio vinho que já vira dias melhores.

Joguei a bolsa e os papéis no banco do carona, sentei-me ao volante e girei a chave na ignição. O motor tossiu, hesitou, e então... nada. Precisou de mais alguns vinte minutos para que ela decidisse acordar e, finalmente, funcionar. Porém, Petúnia avançou alguns metros pela Madison Avenue, apenas para morrer no meio da avenida, cercada por um coro de buzinas impacientes. Bati a cabeça no encosto do assento, um gesto impulsivo que logo se revelou estúpido quando uma dor aguda pulsou na nuca. "Droga!" murmurei, alisando a parte dolorida enquanto tentava ignorar os xingamentos dos motoristas ao redor. Tentei novamente, e novamente, até que, na sétima tentativa, Petúnia ronronou relutante e consegui manobrá-la para o acostamento. Saí do carro, o ar frio de Manhattan mordendo minha pele enquanto um motorista passava gritando algo que preferi não ouvir. "Desculpe-me," murmurei, mais por reflexo do que convicção. A culpa era minha – ou melhor, de Petúnia, que eu insistia em manter comigo, como se minha lealdade a ela pudesse compensar suas falhas constantes. Peguei o celular, os dedos trêmulos procurando o número de Max na agenda de contatos. Ele atendeu no terceiro toque, sua voz um bálsamo inesperado.

- Bom dia, Mia! Minha cliente preferida! _ O tom animado de Max, com aquele toque de ironia gentil, trouxe um sorriso tímido aos meus lábios. Max era meu porto seguro em Manhattan, um amigo de longa data que conheci logo após me mudar, há dois anos, para perseguir meu sonho de trabalhar na News Cooperative.

- Bom dia, Max, - respondi, minha voz carregada de cansaço e um pedido implícito de perdão.

- Me fale onde está, já estou indo para o carro.

- Petúnia... Madison Avenue. Desculpe-me.

- Ei, ei, nada disso, - ele interrompeu, firme, mas caloroso. - Combinamos que você ia parar de se desculpar, não foi? - Assenti, esquecendo que ele não podia me ver, e ele riu, o som familiar ecoando pelo telefone. - Você assentiu, não foi?

- Er... - Tentei responder, mas ele riu novamente, e ouvi o tilintar de pratos ao fundo, provavelmente da lanchonete onde ele tomava café da manhã. - Chego aí em cinco minutos. - disse, desligando antes que eu pudesse protestar.

Uma pontada de culpa me atravessou. Max, com sua generosidade incansável, provavelmente largara o café para me resgatar – de novo. Ele era a única constante em minha vida desde que deixei minha cidade natal para me aventurar nas ruas implacáveis de Manhattan. Aqui, onde os arranha-céus de vidro e aço se erguiam como sentinelas indiferentes, Max era meu lembrete de que nem tudo na cidade era frio.

Enquanto esperava, olhei o relógio do celular: sete e quinze. Eu estava oficialmente atrasada, e John não era conhecido por sua paciência. A redação, um labirinto de divisórias brancas e máquinas de escrever obsoletas, era um campo de batalha onde eu lutava para provar meu valor. Minha matéria – ou melhor, a falta dela – era minha única chance de evitar a guilhotina profissional.

Max chegou em sua caminhonete preta, o guincho traseiro reluzindo sob a luz da manhã. Ele desceu, a regata branca destacando seu porte atlético, as calças jeans rasgadas e as botas gastas dando-lhe o ar de um cavaleiro moderno, com cabelos escuros desgrenhados e olhos verdes que brilhavam com um misto de diversão e preocupação.

- Oi... - cumprimentei, tentando soar menos derrotada do que me sentia. Ele me puxou para um abraço forte, o cheiro de óleo e café impregnado em sua roupa.

- De novo essa lata velha dando defeito? - disse, soltando-me e apontando para Petúnia.

Franzi o cenho, dando-lhe um beliscão brincalhão no braço.

- Não fale assim dela! - retruquei, apontando o dedo em riste. Detestava quando ele zombava de Petúnia, minha companheira leal, mesmo que ela me traísse com frequência. Max ergueu as mãos em rendição, murmurando um "de novo" quase inaudível enquanto se dirigia ao carro.

- Vou dar um jeito nela. - prometeu. - Pode passar na oficina mais tarde. - Hesitei, olhando o relógio novamente. Sete e vinte. John ia me crucificar.

- Estou atrasada... - lamentei, a bolsa escorregando novamente do ombro. - John vai me matar.

- Quer uma carona até lá? - Max ofereceu, já conectando o guincho a Petúnia. - Economiza tempo.

- Sério? Tem certeza? - perguntei, surpresa com sua gentileza infinita. Ele riu, balançando a cabeça.

- Depois de anos salvando sua pele, você ainda se surpreende? - Fez um gesto para que eu entrasse na caminhonete, e corri para o lado do carona, jogando a bolsa no banco.

A viagem até a News Cooperative foi rápida, mas o trânsito de Manhattan, com seus táxis amarelos e pedestres apressados, parecia conspirar contra mim. Max estacionou em frente ao prédio, um monstro de vidro e aço que reluzia sob o sol matinal, cercado por carros de luxo que faziam a caminhonete de Max parecer deslocada.

- Você é meu herói! - disse, dando-lhe um beijo rápido na bochecha antes de pegar minha bolsa e os papéis. Ele negou com a cabeça, um sorriso de canto iluminando seu rosto.

- Boa sorte lá dentro! - gritou enquanto eu corria para a entrada. As portas giratórias de vidro quase me engoliram, e precisei de um esforço para não tropeçar. No elevador, apertei o botão do décimo segundo andar, onde ficava o setor de jornalismo investigativo. O relógio marcava quase oito horas. Uma hora atrasada. Meu estômago se revirou.

Ao chegar à redação, o caos me envolveu. Mesas abarrotadas de papéis, telefones tocando incessantemente, e o burburinho de vozes criavam uma sinfonia de pressão. Iris, minha melhor amiga e secretária de John, estava na recepção, sua mesa impecável contrastando com o resto do ambiente. Seus cabelos castanhos estavam presos em um coque perfeito, e seus olhos verdes me fitaram com uma mistura de alívio e preocupação quando me viu.

- Bom dia! - cumprimentei, ofegante, ajustando a bolsa no ombro.

- Bom dia! - ela respondeu, baixando a voz e olhando ao redor. - Eu não iria lá se fosse você. John está uma fera. - Ela apontou discretamente para a sala dele, onde as persianas brancas revelavam sua figura imponente, sentado à mesa com uma expressão que eu conhecia bem – um misto de impaciência e desdém.

- Droga! - murmurei, espiando por cima do ombro dela. John, com seu terno impecável e óculos de armação fina, parecia um predador à espreita. - Ele me procurou?

- Assim que chegou.

- Então não tenho opção... - Iris confirmou, a voz carregada de empatia.

- Boa sorte, Mia. Você vai precisar.

Suspirei, endireitando os ombros.

- Obrigada! - respondi, com um sorriso fraco. Ajeitei os papéis na mão, sentindo o peso do que estava por vir. Minha carreira, meus sonhos, meu futuro – tudo dependia do que eu faria a seguir...

Capítulo 2 Mia - Capítulo 2

Precisei juntar toda a coragem que me restava quando me deparei com a porta de John. O escritório dele ficava no canto da redação, separado por paredes de vidro que permitiam uma visão do caos exterior, mas mantinham uma barreira de privacidade quando abaixava as persianas.

A placa com o nome "Johnathan Hale, Chefe de Redação" reluzia sob a luz artificial, como um aviso de que eu estava prestes a entrar em território perigoso. Sabia que ficar parada ali, com os pés cravados no carpete cinza e desgastado, não adiantaria de nada. Meu coração batia acelerado, ecoando o zumbido constante dos telefones e das conversas murmuradas ao redor. Respirei fundo, ergui a mão e dei dois toques leves na madeira polida. "Entre," veio a resposta dele, grave e impaciente, como um juiz convocando um réu. Abri uma fresta na porta, enfiando apenas a cabeça para dentro, como se pudesse adiar o inevitável. O ar dentro do escritório era mais fresco, impregnado com o cheiro sutil de café forte e papel velho, um contraste com o odor de tinta fresca e estresse da redação lá fora.

John estava sentado à sua mesa de mogno, rodeado por pilhas organizadas de pastas e um computador que parecia uma extensão de seu corpo. Ele ergueu os olhos por cima dos óculos de armação fina, e sua expressão, já severa, pareceu piorar ao me ver – se é que isso era possível. Aquela ruga entre as sobrancelhas se aprofundou, e senti um frio na espinha.

Meu chefe de redação tem uma aparência imponente e marcante, mesmo aos cinquenta anos. Sua sabedoria transparece em cada ruga que marca seu rosto, linhas finas que contam histórias de noites insones perseguindo verdades ocultas. Os óculos que repousam sobre o nariz aquilino realçam sua postura altiva, acompanhados por um olhar penetrante e sério que parece capaz de desvendar mentiras com um simples piscar. Sua pele negra mal denuncia a passagem do tempo, fazendo-o parecer mais jovem do que sua idade sugere, como se o jornalismo o tivesse preservado em uma cápsula de determinação. Tudo nele carrega a história de sua carreira notável – das reportagens de guerra nos anos 90 às investigações que derrubaram corruptos em Wall Street. Ele é alto e magro, com uma postura ereta que denota a confiança de alguém que conquistou seu espaço no jornalismo, passo a passo, contra todas as probabilidades. Seus cabelos grisalhos se destacam contra a pele escura, testemunhando sua experiência e maturidade, como fios de prata tecidos em uma tapeçaria de conquistas. John é um homem respeitável, cujo olhar crítico e expressão severa podem intimidar até os mais corajosos. Eu definitivamente não me considerava corajosa naquele momento; sentia-me como uma estagiária novamente, prestes a ser julgada.

- Bom dia, Srta. Harris! - disse ele, ainda escrevendo em seu caderno de anotações com traços rápidos e precisos, enquanto verificava algo na tela do notebook. Sua voz era baixa, mas carregada de uma autoridade que não admitia bobagens e o fato de usar meu sobrenome deixava claro o quanto estava irritado comigo.

- Bom dia, John... - respondi, fechando a porta atrás de mim com um clique suave que ecoou no silêncio relativo do escritório. Encostei-me à porta por um segundo, segurando os papéis amassados contra o peito, como se fossem um escudo. - Eu gostaria de me desculpar. Tive um problema com o...

- Carro? - completou ele, sem levantar os olhos imediatamente. Percebi que as pessoas na redação já estavam acostumadas com minhas crises de relacionamento com Petúnia – aquela lata-velha que teimava em me deixar na mão nos piores momentos.

Engoli em seco, incapaz de responder de imediato, e meu silêncio foi suficiente para que ele entendesse. A sensação desconfortável de estar sempre dando desculpas ultimamente me atingiu como uma onda, fazendo-me sentir irresponsável e pequena. Meus olhos baixaram para o chão, onde o tapete oriental sob a mesa de John exibia padrões intrincados em tons de vermelho e dourado, um luxo raro em um ambiente tão prático quanto a News Cooperative. Não poderia dar nenhuma explicação diferente para John; não podia contar o quanto havia trabalhado duro até tarde da noite, vasculhando fontes e redigindo rascunhos, porque isso era meu trabalho. Eu tinha a obrigação de equilibrar as coisas como uma mulher adulta, de gerenciar meu tempo e minhas responsabilidades. Nada disso era culpa de John ou de qualquer outra pessoa – ou coisa, no caso de Petúnia. Embora ela não estivesse facilitando nada a minha vida ultimamente, com seus caprichos mecânicos que pareciam conspirar contra minha pontualidade.

John respirou fundo, alheio à confusão de pensamentos que rodopiavam em minha mente como um redemoinho. Ele largou a caneta sobre a mesa com um som seco, encostou-se na cadeira de couro preta – que rangia levemente sob seu peso – e passou a mão pelos olhos, abaixo dos óculos quadrados, como se buscasse paciência em algum reservatório interno esgotado.

O escritório dele era um santuário de ordem em meio ao caos da redação: prateleiras alinhadas com livros encadernados em couro, prêmios jornalísticos emoldurados nas paredes creme, e uma janela ampla que oferecia uma vista parcial dos arranha-céus de Manhattan, agora velada pelas persianas semicerradas, mas eu duvidava que sua mente estava tão organizada ou calma quanto seu local de trabalho aparentava nesse momento.

- Eu lhe trouxe a matéria sobre o caso da Bonjour La Vie que me pediu na semana passada... - comecei, estendendo os papéis com uma mão trêmula, tentando mudar o foco para algo produtivo. Mas John ergueu uma das mãos para me interromper, um gesto simples e definitivo, e eu abaixei os papéis devagar, sentindo o peso da decepção se instalar no meu estômago.

- Tyler já me entregou essa matéria esta manhã. Antes de você chegar! - ele disse, olhando-me seriamente, com ênfase na última parte da frase. Seus olhos pareciam sondar minha alma, e eu me senti exposta, como se ele pudesse ver através das minhas desculpas recorrentes.

- Mas essa matéria era minha... Como ele... - Minha voz saiu calma, porém eu estava confusa, em um misto de frustração e incredulidade.

Tyler, sempre o Tyler – o colega ambicioso que parecia farejar oportunidades como um cão de caça, roubando ideias e créditos com uma habilidade que me irritava profundamente.

- Mia, eu realmente precisava conversar com você... - interrompeu John, fechando o notebook com um clique firme. Ele se levantou, contornando a mesa com passos deliberados, parando em frente a ela e cruzando os braços sobre o peito. Sua altura o tornava ainda mais intimidante, projetando uma sombra sobre mim. - Quero saber o que está acontecendo? Porque, sinceramente, você não parece mais a mesma garota que conheci há dois anos.

Mais uma vez, me vi sem resposta, as palavras morrendo na garganta. Aquilo me atingiu como um soco no estômago, porque eu sabia que era verdade. Eu não estava alcançando o que pensei que alcançaria quando comecei a trabalhar aqui, naquela redação vibrante e impiedosa de Manhattan, onde sonhos e carreiras se faziam e se desfaziam diariamente.

- Olha, eu nem deveria falar isso, mas houve uma reunião e falaram sobre cortes, e seu nome foi mencionado...

Meus olhos se arregalaram, o desespero imediatamente tomando conta de mim como uma maré gelada. Se isso acontecesse, eu seria obrigada a voltar a morar com meus pais, em uma cidadezinha suburbana onde as oportunidades de jornalismo se resumiam a cobrir feiras locais e casamentos. Não teria condições de manter meu apartamento aqui, com suas paredes finas e vista parcial para o Central Park, pagando um aluguel que já consumia boa parte do meu salário. Tudo iria por água abaixo – os sacrifícios, as noites em claro, as rejeições que me trouxeram até esta mesa na News Cooperative. Tudo pelo que lutei para chegar aqui, para escapar do comum e mergulhar no mundo real do jornalismo investigativo.

- Tudo bem... - John continuou, caminhando até as janelas e fechando as persianas com um movimento suave, bloqueando a visão da redação e sinalizando que não queria ser interrompido. O cômodo escureceu ligeiramente, criando uma atmosfera mais íntima, como se estivéssemos em uma confissão privada. - Não estou falando como seu chefe agora, mas como um amigo, Mia. Você é uma jornalista incrível, e sou suspeito para falar, já que particularmente sou fã da matéria que você fez quando se inscreveu para o programa de estágio. Aquela garota, mesmo tão jovem, impactou o mercado ao expor empresas conhecidas envolvidas em desvio de dinheiro. Foi essa garota que me fez aceitar sua admissão nesta empresa e lhe dar uma mesa. Não quero menosprezar o trabalho de ninguém aqui, mas eu não a aceitei em minha equipe para escrever matérias sobre produtos de skincare da Bonjour La Vie que causaram bolhas na pele de uma influenciadora qualquer. Isso, Mia, não é notícia. Isso não é jornalismo!

Não consegui sustentar seu olhar, tamanha era minha vergonha. Baixei os olhos para as minhas mãos, onde os papéis sobre a Bonjour La Vie pareciam zombeteiros, símbolos da minha estagnação. De fato, eu havia feito aquela matéria para o processo de admissão na News Cooperative, onde cada candidato precisava apresentar algo impactante. Geralmente, essas matérias não eram publicadas; serviam apenas para avaliar o perfil jornalístico do aspirante. No entanto, acabei usando uma investigação sobre uma empresa fake que estava sendo investigada por desvio de dinheiro – uma história que desenterrei com noites de pesquisa e contatos arriscados. Tive a brilhante ideia de usá-la no meu teste de admissão, e, para minha surpresa, a matéria foi publicada no mesmo dia em que fui aprovada. O impacto foi imediato: chamadas de elogios, menções em blogs de jornalismo, um sopro de esperança de que eu estava destinada a algo grande. Mas agora, aqui estava eu, presa em matérias superficiais, escrevendo sobre escândalos de beleza que mal arranhavam a superfície do que o jornalismo verdadeiro representava. Eu não entendia como havia chegado a esse ponto, como minha paixão havia se diluído em rotinas medíocres quando essa não era minha verdadeira vocação. Era como se uma parte de mim tivesse se perdido no labirinto de prazos e expectativas corporativas.

- Preciso daquela garota de volta, Mia. Ou sinto muito, não poderei mais manter uma mesa para você neste jornal. - disse John, sua voz baixa e carregada de uma compaixão que eu raramente via nele. Finalmente consegui encará-lo, e vi nos seus olhos não apenas a severidade de um chefe, mas a genuína preocupação de alguém que acreditava em mim.

- Me dê uma última matéria!- pedi, minha voz saindo mais firme do que pretendia, mas mantive a postura, endireitando os ombros como se isso pudesse me dar força. - Uma última chance de garantir meu lugar nesta mesa, John. E eu prometo que farei por merecer! - Joguei os papéis em meu colo na poltrona ao meu lado, o som do papel amassado ecoando como um ponto final naquela fase da minha vida. - Mas não algo assim... Quero algo grande... Algo... - Procurei pelas palavras, fechei os olhos por um instante e respirei fundo, sentindo o ar fresco do ar-condicionado acalmar minha mente agitada. - Apenas me dê algo em que eu possa realmente trabalhar! E fazer jornalismo de verdade!

John semicerrou os olhos em minha direção, considerando minha proposta. Pareceu uma eternidade até que ele finalmente disse algo, o silêncio preenchido apenas pelo tique-taque distante de um relógio na parede.

- Muito bem. Tenho uma matéria em potencial que talvez possa ser adequada para você.

- Mas...? - perguntei, sentindo aquele "porém" pairando no ar como uma ameaça velada. Ele me olhou sugestivamente, e eu soube que agora não havia mais como voltar atrás.

- Mas é perigosa demais, especialmente para uma mulher. Não sei se é uma boa ideia. Eu estava pensando em entregá-la ao Tyler.

- Isso é machista! - acusei, provocando-o em tom de brincadeira, tentando aliviar a tensão. Ele apenas negou com a cabeça enquanto ria baixinho e voltava para perto de sua cadeira, sentando-se com um suspiro. - Qual é? Posso fazer um trabalho muito melhor do que o Tyler, seja perigoso ou não. - Ele me encarou desafiadoramente, como se testasse minha resolução.

- Faz parte do trabalho...? - tentei mais uma vez, inclinando-me para frente na cadeira.

- Tudo bem. - ele soltou uma risada pelo nariz, um som raro que aliviou um pouco o peso no meu peito. - Essa é uma matéria sobre um incidente que aconteceu há um ano e meio. Alguns decks pegaram fogo e alguns outros lugares da mesma companhia também foram incendiados no mesmo dia. - Ele pegou uma pasta marrom da gaveta lateral da mesa e a colocou sobre a superfície polida, sentando-se em sua cadeira e girando-a para me encarar diretamente. Com um gesto de mão, ofereceu-a para mim.

Ajeitei-me em minha cadeira que estava em frente a ele, o couro macio rangendo sob meu peso, e peguei a pasta, abrindo-a diante de mim para verificar seu conteúdo. Havia várias fotos em preto e branco dos locais incendiados – estruturas carbonizadas contra o céu noturno, fumaça ainda subindo em espirais – e folhas datilografadas explicando o ocorrido, com datas, testemunhas e relatórios preliminares.

- Isso foi investigado por alguns dias, mas misteriosamente pararam de investigar. O problema é que muitas informações vazaram para a mídia, e agora todos estão comentando sobre o envolvimento de alguma máfia nesse caso.

Fiquei incrédula enquanto folheava o conteúdo, as imagens de destruição contrastando com as descrições de uma organização que, segundo os relatórios, agia nas sombras.

- Houve outras situações que parecem ter o envolvimento de pessoas que trabalham para a Tríade ou a Yakuza, mas nesse caso, parece que algum dos dois está agindo como uma organização apoiadora da sociedade, ajudando regiões desfavorecidas e diminuindo a ocorrência de crimes hediondos. Não sabem qual das duas ou porquê, pela minha experiência diria que podemos estar tratando com algum caso de briga de gangues. - ele me encarou sério e eu apenas assenti, digerindo toda a informação. - Algumas pessoas os defendem, outras os odeiam. Quero que pesquise essas opiniões, ouça as pessoas que moram nessas áreas e tire suas próprias conclusões. - assenti em confirmação, folheando o conteúdo. - E Mia, todos os bons jornalistas que conheço estão com medo de falar sobre isso, não querem ser alvo de represálias ou de chamar atenção de pessoas erradas. É muito perigoso! Como seu chefe tenho o dever de informá-la. - Seu tom de voz ficou sério e preocupado, os olhos fixos nos meus como se tentasse me dissuadir.

- Somos uma empresa de jornalismo, John, é isso que fazemos, não é? "Ir onde ninguém mais vai e dizer ao mundo o que ninguém tem coragem de dizer", foi isso que você me disse quando me aceitou na equipe. - Dei de ombros, guardando o material com cuidado e fechando a pasta, ciente de que não podia deixar aquela sala sem ela. O peso da mesma em minhas mãos parecia simbólico, um fardo que eu estava disposta a carregar. - Eu sei que posso voltar a ser a jornalista que você conheceu, mas preciso da sua ajuda mais uma vez. - Meu olhar suplicante pareceu surtir o efeito desejado, pois John fez aquela expressão que sempre fazia quando eu conseguia convencê-lo a algo – uma mistura de resignação e orgulho paternal.

- A matéria é sua! - disse ele, e precisei me segurar para não pular de alegria, contendo um sorriso que ameaçava se espalhar pelo meu rosto. - Mas prometa que terá cuidado e me mantenha informado sobre o andamento disso. - Ele cutucou a mesa com o dedo indicador, enfatizando cada palavra.

- Sim, sim. Eu prometo! - Agarrei a pasta e a abracei contra o peito, sentindo o objeto grosso contra minha blusa listrada. - Não vou decepcionar, eu garanto.

- Eu espero que não. Leve o tempo que precisar. Dispensada. - Agradeci mais uma vez antes de me levantar e ir em direção à porta, mas parei ao segurar a maçaneta fria de metal, uma dúvida final me detendo.

- John? - Ele respondeu com um murmúrio distraído, enquanto abria novamente seu notebook e segurava a agenda, ajustando os óculos e folheando as páginas amareladas. - Você poderia, por favor, não comentar nada disso com o Tyler? - Ele me olhou desconfiado e analítico por cima das lentes novamente, como se avaliasse minha paranoia. - Tenho boas razões para acreditar que ele anda sabotando minhas matérias. Pode manter isso entre nós?

- Eu estava me perguntando quando você iria perceber... - respondeu ele, com um aceno sutil de cabeça. - Tem minha palavra! Manteremos essa matéria em sigilo de todos, por enquanto. -

E com isso, ele voltou a se concentrar em seu trabalho, mergulhando nas anotações como se a conversa nunca tivesse acontecido. Assenti, sorrindo para mim mesma, e saí da sala muito mais feliz do que jamais imaginaria estar. Tinha uma nova matéria, e das grandes. Tinha tudo para ser um sucesso, e eu daria o meu melhor. Isso não só salvaria meu emprego, mas também minha carreira como jornalista investigativa. E eu sabia que John havia me dado essa oportunidade porque sabia que eu poderia ir além do que qualquer um teria coragem de ir – mergulhar nas sombras da Máfia, desvendar seus segredos, e emergir com a verdade.

De volta à redação, o burburinho voltou a me envolver: telefones tocando, colegas digitando furiosamente, o cheiro de café requentado pairando no ar. Iris ainda estava em sua mesa na recepção, organizando pilhas de correspondências com eficiência habitual.

- Você está com aquela expressão sinistra que não vejo há muito tempo. - comentou ela, quando depositei a pasta em sua mesa por um momento e respirei fundo, tentando processar o que acabara de acontecer. - Ele te deu uma nova matéria? - sussurrou, inclinando-se para frente, os olhos castanhos brilhando com cumplicidade.

Nós duas não gostávamos muito de Tyler, e eu já havia comentado com ela sobre ele sempre tentar pegar os trabalhos que eram destinados a mim, como um predador farejando fraquezas. Assenti, incapaz de não sorrir, o alívio se misturando à empolgação. Mas antes que eu pudesse dizer qualquer outra coisa, Tyler apareceu como uma assombração sendo invocada, surgindo de trás de uma divisória com seu sorriso falso e passos calculados.

- Bom dia, meninas! - disse ele, com aquela voz untuosa que me dava naúseas. Disfarcei minha expressão de imediato, pegando a pasta de volta e mantendo-a perto do peito, como se protegesse um tesouro. Iris o cumprimentou a contragosto, também disfarçando seu desdém, e voltou ao trabalho, fingindo organizar papéis.

- Bom dia, Tyler. - respondi, forçando um tom neutro. Seus olhos me analisavam desconfiados, fixando-se no material que eu segurava, como se tentasse ler através da capa.

- Matéria nova, Harris - Seu sorriso debochado surgiu, provavelmente pensando que era a matéria que ele já havia entregado a John no meu lugar hoje, roubando meu crédito mais uma vez.

- Ah... Isso? Era sobre a Bonjour La Vie, mas John disse que não precisava mais. - Seu sorriso presunçoso cresceu ainda mais, satisfeito com sua pequena vitória, mas eu o deixaria acreditar naquilo. Seria um prazer ver a expressão em seu rosto quando ele descobrisse que lancei uma matéria à qual ele não teve acesso – algo profundo, perigoso, que exigiria coragem que ele nunca demonstrou. - Bem, eu preciso ir. Até mais, Iris! - Dei as costas a Tyler para evitar qualquer provocação adicional e fui direto para a minha mesa, no canto da redação, onde a luz da janela incidia sobre o monitor empoeirado.

Abri o notebook com mãos ansiosas, o cursor piscando como um convite à ação. No entanto, antes de mergulhar nas pesquisas sobre a Tríade e Yakuza – aqueles incêndios misteriosos, as vazadas informações, as opiniões divididas da sociedade –, havia uma ligação que eu precisava fazer. Esperava que ele pudesse me ajudar mais uma vez, talvez com contatos ou insights que eu não tinha. Isso seria um divisor de águas para o meu sucesso ou fracasso, o momento em que eu provaria que ainda era a jornalista que expusera corrupção no passado.

Capítulo 3 Mia - Capítulo 3

No dia seguinte, depois de desligar o telefone com Cameron, meu coração ainda batia acelerado, como se cada palavra trocada tivesse acendido uma faísca de adrenalina. Ele confirmara o endereço de um pub em Chinatown, um lugar conhecido por ser frequentado por membros da Tríade – um mundo que, até aquele momento, existia apenas nos rumores e nas páginas da pasta que John me entregara.

Sentei-me na beirada do sofá desgastado do meu apartamento, o celular ainda quente na mão, enquanto traçava mentalmente o plano que se formava em minha cabeça. Sabia que John não me dera a matéria para abordar diretamente um membro da Tríade; ele queria que eu investigasse opiniões públicas, que entrevistasse moradores das áreas afetadas pela organização. Mas meu emprego – minha vida em Manhattan, minha independência – dependia de algo maior. Uma entrevista com alguém de dentro, alguém com o sobrenome Zhao, seria um golpe de mestre, um furo jornalístico que nem mesmo Tyler poderia roubar. As opiniões das ruas seriam apenas um complemento, um pano de fundo para a verdadeira história que eu precisava contar.

Chegar em casa mais cedo naquele dia foi um alívio, mas também um lembrete da urgência. O apartamento, com suas paredes brancas manchadas e móveis de segunda mão, parecia pequeno diante da magnitude do que eu estava prestes a fazer. Corri para o banheiro, o azulejo frio sob meus pés descalços enviando um arrepio pela espinha. No chuveiro, a água quente caiu sobre mim como uma bênção, e lavei os cabelos com meu shampoo de morango, um hábito da adolescência que ainda me ancorava em dias de caos. O aroma doce e familiar encheu o banheiro, misturando-se ao vapor que embaçava o espelho. Saí apressada, envolta em uma toalha felpuda, os cabelos pingando enquanto corria para o quarto. O guarda-roupa era um campo de batalha, roupas espalhadas pelo chão como vítimas de minha pressa. Vasculhei gavetas e cabides, jogando camisetas e calças de qualquer jeito, enquanto repetia mentalmente o conselho de Iris, compartilhado antes de eu deixar a redação mais cedo. Ela não aprovava minha ida ao pub, muito menos minha intenção de me aproximar de homens da máfia.

"Isso é loucura, Mia," dissera ela, os olhos castanhos arregalados de preocupação. Mas, ao perceber que eu não mudaria de ideia, suspirou e cedeu, oferecendo um conselho prático: "Use seu charme, Mia. Toda mulher carrega uma chama feminina dentro de si que atrai os homens. Se fizer direito, no mínimo só precisará dormir com um deles e terá tudo que precisar para essa bendita matéria." Ela riu, mas a piada me deixou horrorizada.

Eu? Me prostituir por uma matéria? Jamais! Iris me conhecia bem o suficiente para saber que eu nunca cruzaria essa linha, mas seu comentário ficou ecoando, uma provocação que misturava humor e advertência.

"Algo bonito e decotado," murmurei, repetindo suas palavras enquanto fazia uma careta para o espelho. Peguei uma blusa fina de mangas compridas, na cor cinza, que abraçava o corpo sem ser vulgar e continha um decote mínimo. Combinei-a com uma calça preta social, justa o suficiente para valorizar a silhueta, e joguei um blazer preto por cima, conferindo um ar profissional que me dava confiança.

Olhei-me no espelho do quarto, a luz fraca da luminária destacando os contornos do meu rosto cansado. Não estava perfeita, mas era o melhor que eu podia fazer com o tempo e o guarda-roupa que tinha. Prendi os cabelos castanhos-claros em um rabo de cavalo alto, deixando algumas mechas soltas para suavizar o visual. Maquiagem nunca foi meu forte, mas passei um batom levemente avermelhado nos lábios, um toque de cor que me fazia sentir mais viva. Era o suficiente para enfrentar o que estava por vir – ou assim esperava. Caminhei pelo apartamento, murmurando os itens que precisava como um mantra: "Bolsa, bloco de notas, celular, chaves..." Peguei cada um com cuidado, enfiando-os na bolsa de ombro que já carregava as marcas de anos de uso. O apartamento parecia ainda menor sob a tensão do momento, com suas cortinas desbotadas e o tapete puído que cobria o chão de madeira rangente. Desci as escadas correndo, o eco dos meus passos reverberando no corredor estreito do prédio, até chegar ao estacionamento.

Lá estava Petúnia, reluzindo sob a luz fraca das lâmpadas fluorescentes. Max havia feito milagres na oficina, e ela parecia renovada, quase debochada, como se me desafiasse a reconhecer sua importância depois de suas birras recentes.

- Vamos lá, teve seu dia de beleza. É hora de trabalhar! - falei, entrando no carro e girando a chave na ignição. Petúnia rangeu, resmungou como uma criança teimosa, mas finalmente ronronou, viva. Sorri, aliviada, e dirigi para fora, seguindo as instruções do GPS no celular. As ruas de Manhattan passavam em um borrão de luzes neon e táxis amarelos, os arranha-céus erguendo-se como sentinelas de concreto e vidro. Quando cheguei a Chinatown, o cenário mudou: as ruas estreitas eram adornadas com lanternas vermelhas penduradas, placas em caracteres chineses brilhando sob a luz do crepúsculo. Estacionei a alguns metros do pub, o coração batendo tão alto que parecia rivalizar com o barulho do tráfego. Peguei minha bolsa, o bloco de notas e o celular, respirando fundo antes de descer.

O pub, chamado Dragon's Den, era uma fortaleza disfarçada de bar. A fachada de tijolos aparentes exibia uma placa discreta com o nome em letras douradas, quase invisível contra o fundo escuro. Ao abrir a porta, fui imediatamente envolvida por uma onda de aromas: cigarros, charutos, bebida forte e algo mais acre, talvez drogas, misturando-se ao cheiro quente de madeira envernizada e cerveja fresca. O interior era um contraste entre modernidade e tradição, projetado com uma masculinidade crua. Mesas de madeira robusta, polidas até brilharem, estavam dispostas estrategicamente, cercadas por cadeiras de couro preto que pareciam recém-saídas de uma loja de luxo. As paredes, pintadas em tons de carvão e vermelho-sangue, eram adornadas com uma coleção eclética: dragões esculpidos em relevo, espadas antigas emolduradas, cartazes vintage de marcas de cerveja e uma bandeira chinesa desbotada, pendurada com orgulho. Quadros com caligrafia em caracteres dourados proclamavam palavras como "honra", "lealdade", "família" e "poder", cada uma carregada de um peso que eu podia sentir na pele e que soube identificar por conta de minhas pesquisas.

A iluminação era suave, quase conspiratória, com luminárias de ferro penduradas sobre o balcão lançando uma luz âmbar que criava sombras dançantes nos rostos dos frequentadores. Homens ocupavam quase todas as mesas, bebendo, jogando cartas ou conversando em tons baixos. Tatuagens eram visíveis em braços, pescoços e mãos – dragões, carpas, símbolos que eu não entendia, mas que gritavam perigo. Alguns me avaliaram de cima a baixo ao entrar, seus olhos frios e analíticos me fazendo sentir como uma intrusa.

Fora as garçonetes, que deslizavam entre as mesas com bandejas de bebidas, eu era a única mulher no local, plantada na entrada, olhando de um lado para o outro, completamente perdida. Meu plano, tão meticulosamente traçado até aquele momento, parecia desmoronar. Eu sabia apenas o sobrenome do homem que Cameron mencionara: Zhao.

Cutuquei o canto da unha do polegar com o indicador, uma mania irritante que deixava marcas vermelhas na pele, um hábito de infância que nunca consegui abandonar. Dei dois passos hesitantes à frente, aproximando-me do balcão negro do bar, tão polido que refletia as luzes como um espelho. Apoiei meu bloco de notas e o celular sobre a superfície, examinando o ambiente com cautela. O barman, uma figura robusta com um avental de couro limpo, estava ocupado servindo cerveja para um cliente. Seu rosto, marcado por cicatrizes sutis, não exibia simpatia; seu sorriso, quando finalmente me notou, era mais uma careta de curiosidade.

- Posso ajudar? - perguntou, colocando uma jarra no balcão com um baque. Seus olhos me mediram de cima a baixo, as sobrancelhas franzidas, como se eu fosse uma peça fora do tabuleiro.

- Um Plum Wine, por favor. - pedi, tentando soar confiante. Ele hesitou, claramente surpreso pela escolha, e eu me perguntei se havia cometido um erro. - Algum problema? - perguntei, inclinando a cabeça.

Ele negou com um gesto, um sorriso de canto surgindo em seus lábios, o que não consegui decifrar.

- Nenhum. - respondeu, virando-se para pegar a garrafa. Era tão evidente assim que eu estava deslocada? O vinho de ameixa chegou em uma taça elegante, o líquido vermelho-escuro brilhando sob a luz âmbar. Dei alguns goles, o sabor doce e ácido acalmando meus nervos enquanto observava o ambiente, procurando por qualquer pista de quem poderia ser Zhao.

- Procurando por alguém? - perguntou o barman, limpando o balcão com um pano, seus olhos ainda me estudando. Pensei em negar, mas ele completou antes que eu pudesse falar: - Se quiser continuar viva, é bom deixar claro o que veio procurar aqui. - Ele me encarou incisivamente, como se fosse um aviso.

Minha confusão deve ter transparecido, porque ele fez um gesto com a cabeça, como se tivesse compreendido algo.

- Esse não é um bom lugar para mulheres virem beber sozinhas. Me diga logo, do que precisa? - rapidamente abri meu bloco de notas, atrapalhando-me com as páginas, e disse:

- Certo, estou procurando por alguém, na verdade... conhecido por Sr. Zhao. - O barman endireitou a postura imediatamente, seus olhos passando do meu caderno para o celular e a bolsa, analisando-me pela milésima vez.

- É jornalista? - perguntou, o tom agora mais sério, quase acusatório. Assenti, sentindo um nó no estômago ao ver a expressão de desagrado que cruzou seu rosto. - Terceira cadeira à sua esquerda; - indicou, apontando com o queixo.

Encarei o homem a quem ele se referia. Era asiático, como a maioria dos presentes, sentado sozinho, encarando o copo de uísque à sua frente com um ar de desinteresse.

- Obrigada! - murmurei, e o barman assentiu, sério, antes de se afastar. Senti seus olhos nas minhas costas enquanto caminhava até a mesa, cada passo aumentando a tensão que apertava meu peito.

- Com licença... Hmm... O senhor deve ser o Sr...? - Comecei, ajustando os óculos com um dedo trêmulo, mas antes que pudesse terminar, meu celular escorregou da mão. - Oh! - Tentei segurá-lo, mas a bolsa caiu do ombro, o bloco de notas voou para o chão junto com a caneta, e eu me vi murmurando "droga", "desastrada" e "que vergonha" em uma sucessão de pensamentos externalizados. Céus, que desastre! Como alguém me levaria a sério assim?

Minhas bochechas queimavam de constrangimento enquanto me abaixava para recolher os itens.

Para minha surpresa, o homem se levantou e se abaixou ao meu lado, pegando o bloco e a caneta com uma calma que contrastava com meu caos. Ele os ofereceu de volta, e ergui os olhos, encontrando um par de olhos negros e repuxados que me fitavam com um misto de curiosidade e diversão. Seu sorriso, encantador e perigoso, fez meu coração parar por um segundo. Perdi-me por um instante observando seu rosto – terrivelmente bonito, com uma barba por fazer que dava um ar de rebeldia controlada, cabelos negros e lisos caindo sobre a testa. Uma aura de sedução e imponência o envolvia, e quando ele falou, sua voz grave e rouca me tirou o fôlego.

-Meu nome é Jun Zhao. Em que posso ajudá-la? - Forcei um sorriso, tentando sair do transe que sua presença parecia impor, rezando para que ele não tivesse notado o quanto eu o encarara. - Que modos os meus! Sente-se comigo! - Ele puxou a cadeira à sua frente com um gesto galante, esperando que eu me acomodasse.

Agradeci, sentindo o calor nas bochechas, e apoiei a bolsa na mesa com cuidado, determinada a não deixar mais nada cair. Enquanto ele se sentava, não pude evitar notar os detalhes: a camisa branca com mangas dobradas até os cotovelos, revelando músculos definidos e uma tatuagem parcial de um dragão em seu antebraço; o suspensório preto de couro que acentuava sua silhueta; o coldre de arma visível na cintura, um lembrete frio de quem ele era. Suas coxas, grossas e impossíveis de ignorar na calça preta, completavam o quadro, junto com os sapatos sociais polidos que refletiam a luz âmbar. Quando ele estendeu a mão para pegar o copo de uísque, as veias em seu antebraço se destacaram, e eu desviei os olhos, sentindo que o gesto era mais difícil do que deveria ser.

Por Deus, jamais me sentira atraída assim por um homem. O calor subiu ao meu rosto, e minhas mãos tremiam levemente enquanto segurava o bloco de notas.

- E então... Em que lhe posso ser útil? - perguntou ele, a voz como um convite e uma ameaça ao mesmo tempo. Respirei fundo, me perguntando se ainda tinha tempo de fugir – e o quanto me arrependeria de ter vindo até aqui.

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