Rose
Escuto a porta bater e sei que papai chegou bravo, certamente irá descontar em mim sua raiva, ele sempre faz isso, não sei por que me odeia tanto. Papai sempre reclamou por não ter filhos homens, mas aparentemente o fato de Daisy também ser menina não o incomoda, ele faz tudo por ela, diz que um dia ela será uma grande dama e se casará com um nobre muito importante, talvez até mesmo um príncipe.
Quem vê nós duas juntas, não diz que somos irmãs, não apenas pelo fato de que com dez anos eu seja mais alta que Daisy, que tem só oito anos, mas fisicamente também, dado que, enquanto Daisy tem a pele clara como porcelana, os cabelos loiros e olhos verdes, assim como nosso pai, eu tenho a pele oliva, os olhos e cabelos negros, como o céu em uma noite sem estrelas. Não sei a quem puxei para ser assim, já que mamãe tem a pele clara, os olhos azuis e cabelos cor de mel.
Papai entra em nosso quarto e vai até a cama de Daisy, ela passou o dia todo deitada, vejo que ele trouxe um pacote de presente. Ele sempre dá presentes para ela quando fica doente, mas para mim, nem em meu aniversário, ele dá algum presente.
- Como vai minha princesinha?
- Estou melhor, papai.
Ele lhe entrega o presente, fico olhando ela abri-lo, é um arranjo de cabelo com detalhes em pérolas, muito lindo, e depois de dar um beijo em sua testa, papai sai do quarto, sem nem ao menos olhar para mim.
Pouco depois desço para ajudar Grace com o jantar, ficar com ela na cozinha é a melhor parte de meu dia, pois gosto de cozinhar, e ela sempre me ensina com carinho. Chegando aos pés da escada, ouço vozes vindas do escritório, e mesmo sabendo que devo ir logo para a cozinha, paro para ouvir o que está acontecendo.
- Arrependo-me da maldita hora que lhe aceitei em vez de mostrar a todos a vagabunda que realmente é. E a recompensa por minha bondade é ter que criar àquela menina.
É a voz do papai, sinto que ele está falando de mim, mas não tenho a chance de ter certeza, pois papai me vê ali e fica furioso por eu ter ouvido a conversa deles. Pegando-me pelo cabelo, papai me arrasta até o pequeno armário embaixo das escadas e me prende ali.
Já faz muito tempo que estou aqui, sei porque minha barriga dói de tanta fome que estou, para evitar que os ratos subam em minhas pernas, me encolho o máximo possível no pequeno espaço. Há tempos que não tenho mais medo dos ratos ou aranhas, mas não falo isso em voz alta, pois, é por pensar que tenho medo que papai me prende aqui, se souber, ele pode pensar em um novo castigo para me punir quando fizer algo que o desagrade. Em alguns momentos penso que só a minha existência já é para ele um grande motivo.
Ouço barulhos na sala e fico o mais quieta possível, parece estar vindo da direção à porta, deve ser papai para me bater e então me liberar do castigo, prendo a respiração ao ouvir o trinco de madeira sendo girado; essa é uma parte que nunca vou me acostumar, me encolho ainda mais quando a porta se abre, me preparando para o primeiro golpe, mas ele não vem.
- Rose, saia, somos nós. - Essa não é a voz de papai, é uma voz que sempre me acalma, a voz da esperança, é Nathally.
Relaxo um pouco e abro os olhos, mas a claridade é tão forte que preciso cobri-los.
- Nathally, é você?
- Sim, viemos lhe resgatar.
Tento me levantar para sair, mas minhas pernas doem e não consigo, estou muito fraca, sinto alguém me segurar e assim consigo levantar e sair. Olho para minhas salvadoras, Nathally e Alice, duas das pessoas mais importantes para mim, e minhas únicas amigas.
Nathally é filha de tia Sophie, irmã de mamãe, ela é apenas alguns meses mais nova que eu, e assim como nossas mães, tem a pele clara, os olhos azuis e cabelo cor de mel. Ela é extrovertida e muito divertida, seu pai é o tio Oscar, que é guarda real e protege o Príncipe Anthony, e por conta disso, raramente está em casa. Já Alice é filha de tia Julie, irmã de papai, ela já tem 11 anos e é praticamente idêntica à Daisy, porém, seus cabelos são cacheados, ela é muito afável, seu pai é o Duque Plymouth, e o único homem gentil que existe.
- Como souberam que eu estava aqui?
- Quando não apareceu na missa, nós logo suspeitamos. - Nathally explica.
Então hoje é domingo, isso significa que fiquei mais de dois dias presa nesse armário, não é por menos que me sinto tão fraca e não consegui me levantar, nunca fiquei tanto tempo presa.
- Rose, vamos para minha casa, meu pai vai lhe proteger.
A oferta de Alice é tentadora, poder ir para sua casa e ser bem cuidada será bom demais, mas se eu for papai ficará furioso com minha fuga e o castigo será ainda pior. Porém, pensar em voltar para o armário é mais assustador do que pensar em papai bravo, e por isso com a ajuda das meninas, saio de casa.
Alice veio com um cavalo de seu pai, e após estarmos às três montadas, saímos a galope pela cidade, é muito bom sentir o ar fresco em minha pele e meu cabelo balançando com ao vento.
Ao chegar à casa de Alice, tia Julie me pediu para sentar e contar o que aconteceu, apenas lhe falo que estava de castigo sem comer, sem entrar em muitos detalhes. Vamos para o quarto, e logo uma criada vem trazendo uma bandeja cheia de comida, Nathally pega o prato e vai intercalando entre nós duas, ela faz isso há muito tempo, sempre que papai está bravo demais, corro para casa de tia Sophie.
- Rose o que aconteceu, porque estava de castigo? - Nathally pergunta ao me abraçar.
- Na quinta, eu ouvi papai discutindo com a mamãe, disse que ela era uma vagabunda e que se arrependia de tê-la aceitado, e por de ter que me criar. - Só queria saber o porquê papai não gosta de mim.
- Eu não entendo por que tio Karl é assim, como ele pode ser tão rude? - Alice parece confusa.
- A única coisa que sei é que, com exceção do seu pai, todo homem é rude e só pensa em si mesmo. - Penso na mamãe chorando quase todas as noites. - Por isso, aqui com vocês, eu juro que jamais irei me casar.
- Você não pode fazer isso, sabe que mulheres solteiras não são bem-vistas pela sociedade. - Alice como sempre é sensata.
- Prefiro ser uma solteirona mal falada e ficar sozinha, do que viver sujeita a um homem que me fará sofrer e me verá apenas como um objeto dele.
- Rose, nem todo homem é assim, você pode casar com um homem gentil como meu pai.
- Alice, eu sei que seu pai é um bom homem, mas admita que ele é uma raridade, eu sei porque vejo como os amigos de papai são, homens não prestam. Estou decidida, jamais me casarei.
- Rose está certa, homens só irão nos prender em casa, também não irei me casar, seremos uma dupla de solteironas e vamos viver grandes aventuras pelo mundo. - Nathally parece muito animada com a ideia.
- Seremos um trio, juramos estar sempre juntas, e estou com vocês para tudo que vier.
Ver Alice concordando é animador, mas no fundo, sei que ela está nessa não apenas por nos apoiar, mas por sua paixão pelo Príncipe Anthony, desde que ela foi um dia no palácio com tio Justin e o viu, isso foi há mais de um ano, ela tem adoração por ele, mas todas sabemos que dificilmente ela ficará com ele, quando estiver na idade de casar.
E assim, depois de dias sem comer e dormir bem; deito-me entre as meninas, que ficam fazendo carinho em meus cabelos, até por fim adormecer. Tenho muitos pesadelos durante a noite, em grande parte com papai me batendo, e que sempre acaba com um homem grande aparecendo e me protegendo da surra.
Acordo pela manhã e fico pensando no pacto que fizemos, e em como nossos pais ficarão furiosos ao saber. Mesmo tio Justin sendo gentil, não gostará nada de saber que Alice não irá se casar, isso poderá causar problemas para ele, pois sendo membro do Parlamento, não ficará bem tendo uma filha solteirona, ainda mais, ela sendo sua única herdeira. Entretanto, ele a ama e quer – acima de tudo – que ela seja feliz, o mesmo vale para tio Oscar, apesar de nunca estar por perto, ele quer a felicidade de Nathally, mas, eu não tenho essa esperança, papai nunca me amará e nem mesmo quer me ver feliz, ainda sim prefiro ficar com ele ou fugir, do que casar e sofrer como mamãe.
Descemos para tomar café, sei que logo terei que voltar para casa e enfrentar a fúria de papai por minha fuga, mas não tenho outra opção. Quando entramos na sala, vejo a tia Julie sentada no sofá, com a mesma roupa que ontem, ela nos explica que tio Justin não voltou para casa, e vejo como está angustiada com isso, ela tem um bom marido e se preocupa com ele.
Estamos tomando café quando tio Justin chega, seu rosto muito abatido, aos poucos ele nos conta que o Rei Herbert e a Rainha Stephanie faleceram em um trágico acidente enquanto voltavam de uma viagem, por conta disso, todo Parlamento esteve reunido desde ontem para decidir o futuro do reino, pois como o Príncipe Anthony, com apenas 11 anos, é muito jovem reinar, alguém precisa assumir o trono até que ele chegue a idade para ser o Rei, que será aos 21 anos. Somente essa manhã, eles entraram em um consenso e ficou decidido que a Princesa Caitlyn assumirá como Princesa Regente, assim, pela primeira vez na história; teremos uma mulher no trono da Inglaterra.
Levou um tempo para que tio Justin notasse a minha presença, ele sabe o que acontece comigo em casa, afinal, não é nenhum segredo em nossa família como papai me despreza, sendo um homem inteligente, sabe o motivo pelo qual estou aqui, mas ainda assim, fica muito bravo quando Alice conta que passei mais de dois dias presa, sem comer. Encolho-me com medo, mas ao ver que me assustei, tio Justin se controla e pede que eu termine a refeição, para que possa me levar para casa.
Gostaria de dizer a ele que não precisa, porém, por mais gentil que tio Justin seja, ainda sim, é homem e não tenho coragem para contradizê-lo. Fico o caminho todo com medo de que sua presença, apenas deixe o papai mais irritado, e torne o castigo por minha fuga ainda pior.
Em casa vejo que não estava errada. Papai está furioso, mas como tio Justin está comigo, apenas me manda para meu quarto dizendo que depois conversaremos; o que significa uma grande surra. Tio Justin diz que precisa conversar com papai e os dois vão para o escritório, enquanto eu vou para meu quarto, esperar pelo que virá.
Rose
Olho para o chão, satisfeita, vendo-o finalmente limpo depois de tantas horas de limpeza, a casa está tão limpa, que me sinto feliz apenas em admirar, mas não posso ficar aqui sentada, ainda tenho muito que fazer. Levanto e vou guardar tudo que usei no armário, ele ainda faz parte dos meus pesadelos, mesmo fazendo dez anos que não fico presa nele, só queria que aquele protetor que me salva nos pesadelos, realmente aparecesse para me proteger na vida real.
Naquele dia, depois que tio Justin foi embora, papai subiu até meu quarto e me deu a pior surra que já levei na vida, foram dias na cama até conseguir levantar, porém aquela foi a última vez que apanhei. Mas as coisas não melhoraram muito, papai mandou Grace embora e eu passei a ter que fazer todos os afazeres da casa, e também a comer na cozinha, só continuo dormindo no mesmo quarto, para que ninguém saiba que sou tratada como criada dentro de casa.
Há dois anos entrei em idade de me casar, papai trouxe alguns homens para me cortejar, mas, eu me fiz de malcriada e teimosa, eles rapidamente foram embora e não voltaram mais. Papai notando que eu não iria aceitar nenhum pretendente, parou de trazê-los em casa. Eu sei que o único jeito de ser livre das maldades de papai, é me casando, mas, eu vejo as marcas roxas e escuto mamãe chorando toda noite ao ir para o quarto com papai, e não quero isso para mim. Papai pode ser ruim, mas com ele ao menos sei o que esperar e não preciso ser vista como objeto para um desconhecido me usar e machucar.
Nathally e Alice também mantiveram a promessa, mas não pelos mesmos motivos que eu. Nathally, porque quer ir para a América em busca de aventuras, às vezes quando estamos juntas, sonhamos como seria viver longe daqui, mas a verdade é que não sei se teríamos coragem para fugir. Alice por outro lado, apenas não se casou, porque ao longo desses anos, manteve a paixão pelo Príncipe, e mesmo sabendo que não poderá estar com ele, espera ao menos encontrar um verdadeiro amor para se casar.
Minha irmã, Daisy, com os passar dos anos se tornou uma garota fútil e mimada, a única coisa que ela pensa é em se casar com um nobre e levar uma vida repleta de luxo. O que me preocupa é que Daisy está na idade para se casar, e em breve terá algum pretendente, o problema está no fato que papai, por mais que me despreze e odeie, segue as regras da sociedade, e casar a filha caçula primeiro não é bem-visto pelas pessoas.
Papai um dia falou que quando eu menos esperar, irá se livrar do peso que sou para ele, e sei que ele é capaz de fazer algo terrível, e se não fez nada ainda, é por medo da represália que pode vir de tio Justin, que sendo um Duque muito conhecido, pode fazer algo que acabe prejudicando as chances de Daisy em conseguir um bom casamento com um nobre importante.
Estou na cozinha começando os preparativos para o jantar, quando escuto que todos chegaram, pelo tom da conversa, eles parecem muito felizes, papai me chama e vou logo atendê-lo antes que se aborreça com minha demora.
Meu coração quase para de bater quando entro na sala, o chão que a pouco estava lustrado e brilhando, agora está com duas trilhas de lama, uma vai até a poltrona de papai e outra até o sofá que Daisy está sentada, não consigo acreditar que somente mamãe tirou o sapato para entrar em casa.
- O chão está coberto de lama.
- Depois você limpa. - Daisy está sorridente. - Temos novidades.
- Mas eu passei horas lustrando. - Fico um pouco exaltada.
- Não fez mais que sua obrigação. - Papai fala bravo. - Agora fique calada e deixe Daisy falar.
- Hoje fomos ao salão da corte para o chá mensal e lá conhecemos o Conde Sheffield, que ficou encantado com minha beleza, antes de virmos embora, ele pediu para falar com papai e depois de conversarem, foi assinado o termo de compromisso. Em breve teremos nosso noivado e então eu serei a Condessa Sheffield. - Daisy está pulando de alegria.
Fico em choque com o que acabei de ouvir, meu medo se tornou real e sei o que virá a seguir.
- Mas temos um problema. - Papai olha direto para mim. - Será uma vergonha se Daisy se casar antes de você e isso não irei permitir. Portanto, você irá encontrar um marido para si, uma vez que recusou todos que eu trouxe, na próxima semana acontecerá o Baile dos Lírios, você irá a esse baile e se portará corretamente, para que por algum milagre, um homem tenha interesse em desposá-la. Se não fizer o que estou mandando, garanto-lhe que irá se arrepender amargamente, agora que Daisy tem um compromisso garantido com o Conde Sheffield, não mais me importa o que Justin possa vir a fazer, já que em breve serei mais bem visto na corte e talvez consiga até um título de Barão para mim. Portanto, faça tudo certo e lembre-se, seu tempo é curto.
Apenas concordo com a cabeça e saio da sala, preciso ficar sozinha e também terminar o jantar, para minha surpresa, mamãe me acompanha e se senta em uma cadeira ao meu lado, enquanto deixo as lágrimas caírem. O que será de mim agora?
- Minha menina, não chore. - Mamãe pede me abraçando.
- Ele quer que eu vá viver com um desconhecido, mamãe não quero viver chorando toda noite como a senhora. - Digo em voz baixa, como medo que papai me ouça.
- Filha, nem todo homem é assim, Karl apenas me pune por um erro do passado, mas veja Justin, por exemplo, ele sempre foi um homem gentil. Acredite minha filha, saindo desta casa, você pode encontrar a felicidade, só que para isso você não pode deixar que minha vida seja um impedimento.
Olho assustada para mamãe, ela nunca falou comigo assim, sempre disse que papai tinha suas razões para ser como era, mas agora me pergunto que erro foi esse que aconteceu no passado.
- Mamãe, isso que aconteceu no passado, tem alguma relação com a sua briga com a tia Sophie?
Arrependo-me de ter perguntado assim que vejo como o olhar de mamãe fica triste quando menciono a briga. Uma vez Nathally me contou que tia Sophie lhe disse que mamãe pagava pelo que fez, uma tragédia que resultou na morte de alguém inocente e com isso, acabou com a amizade das duas. Mas apesar da briga, a tia Sophie jamais esteve longe e sempre me deu apoio quando precisei.
- Rose, algumas coisas não podem ser mudadas, por isso lhe digo para pensar bem no que irá fazer, para não passar o resto da sua vida se arrependendo de uma decisão errada.
Dizendo isso, mamãe saiu da cozinha sem responder minha pergunta, mas não posso me preocupar com o passado, agora preciso pensar em como irei escapar dessa situação, pois não importa o que mamãe diga, não irei me casar. Sei que papai ficará furioso por não lhe obedecer, mas terei que ser mais rápida para o que tenho mente do que em arrumar um marido.
Dimitri
Saio do salão de chá acompanhado por Patrick, me sinto satisfeito em ter meu objetivo alcançado, encontrar uma mulher para passar o resto de minha vida não é uma tarefa fácil. Não era assim que eu esperava me casar, mas é como as coisas precisam ser, gostaria de ter a sorte do meu pai, que se apaixonou por minha mãe antes de desposá-la, mas agora não posso me dar à chance de esperar. Meu pai está com a saúde cada dia, mais debilitada, e quero lhe dar a alegria de ver-me casando.
Cerca de um mês atrás, meu pai veio para a festa de aniversário de 21 anos do Príncipe Anthony e para passar meu aniversário de 30 anos que seria no dia seguinte, ainda que eu não tenha planejado nenhuma festa para mim. Assim que ele chegou, percebi que algo estava errado, ele estava abatido, então chamei o médico, Gregory Moore, que era o médico da família por muitos anos, mas ele decidiu parar e passou os pacientes para o filho Thiago. Foi ele quem veio e durante a consulta percebeu que meu pai estava mais doente do que aparentava, descobri naquela hora que ele vinha sentindo muitas dores no corpo e ficava facilmente cansado. Thiago, então, nos revelou que seu coração está fraco e não se sabe quanto tempo mais de vida meu pai tem, pois seu coração pode parar a qualquer momento, antes de ir embora, ele passou um remédio que tem ajudado a diminuir as dores.
Eu precisei ser bem firme ao dizer que não iria aceitar que meu pai voltasse para Rússia, onde ele mora desde que eu tinha alguns meses. Sei que não é fácil para meu pai ficar em Londres depois que minha mãe faleceu em meu parto, ele ficou devastado e por isso foi embora para Rússia, onde minha babushka o ajudou a me criar. Para meu pai, Londres é apenas para visitar, não mais para morar, porém, preciso cuidar dele e não posso simplesmente desistir de minha vida e meus sonhos na corte para voltar à Rússia.
A Inglaterra possui uma monarquia diferente das convencionais. Por muitos séculos, tivemos uma monarquia absolutista, em que o poder era absoluto ao Rei e ele estava acima de tudo e de todos. Porém, com o surgimento da monarquia parlamentarista em muitos reinos, em 1538 o Rei George decidiu criar um sistema novo, pois não desejava abrir mão do poder que possuía. Assim ele criou um sistema semiparlamentar, onde grande parte do poder está com o Rei, todavia, algumas decisões cabem ao Parlamento, e em casos do Rei fazer algo que vai contra a lei, poderá o Parlamento ter autoridade para tomar uma atitude quanto a punição, embora isso nunca tenha acontecido. A última vez que o Parlamento interferiu de modo direto em um assunto da coroa, foi após a morte do Rei Herbert, pois o Príncipe Anthony, com seus onze anos, era jovem demais para assumir o trono, foi uma longa reunião até concordarem em deixar a Princesa Caitlyn, irmã do Rei Herbert, na época com apenas dezenove anos, como Regente até o Príncipe ter idade para ser coroado.
O Parlamento é constituído por Duques que tem uma vida engajada na política, e quando se afastam, seus cargos vão normalmente para os filhos. E apesar de meu pai ter abdicado de sua cadeira há muitos anos, desde que me mudei para Inglaterra, faço parte de forma indireta do Parlamento, criando propostas de lei e entregando a um Duque para que possa ser aprovada.
Outra mudança instituída pelo Rei George, foi a criação do cargo de Conselheiro Real, que tem o dever de estar sempre ao lado do Rei e lhe dar bons conselhos quanto a suas decisões. Atualmente o Conselheiro é escolhido durante a coroação de cada novo Rei. É para assumir esse cargo junto ao Príncipe Anthony, que tenho trabalhado com afinco durante os últimos anos.
Entro com Patrick em meu escritório e após cumprimentar Derek, sigo para minha sala, aqui poderemos conversar mais à vontade, sirvo-nos uma dose de whisky antes de sentar.
- Meu amigo, eu não acreditei quando disse que iria arrumar uma noiva hoje, e, no entanto, cá estamos com você oficialmente comprometido. - Patrick fala após esvaziar o copo.
Sei como ele pensa, pois assim como eu, Patrick também se dedica muito a seu trabalho na política, e concorre contra mim ao posto de Conselheiro do Príncipe Anthony após a coroação. No fundo também não achava que iria encontrar uma noiva adequada, mas tive sorte ao ir ao salão e ser apresentado ao Pritchard, que tem uma bela filha, a senhorita Daisy, que em breve irei desposar.
- Eu lhe avisei que iria me casar, e a senhorita Pritchard é uma bela dama.
- Está certo, mas lhe confesso que ficaria mais feliz se fosse com minha irmã esse compromisso.
Quando tomei a decisão de casar, meu primeiro pensamento foi em pedir a mão de Lady Alanis, irmã de Patrick, por ser uma moça de família e até certo ponto, conhecida por mim, no entanto, ele me informou que o pai não daria o consentimento. O Duque Southampton, assim como mais alguns nobres, esperam pela decisão do Príncipe, para ver quem ele escolherá para ser sua futura esposa, visto que poderá ser uma de suas filhas. Como para mim, a fortuna e os títulos não são o mais importante, e sim que a pessoa tenha caráter, não me importa que a senhorita Daisy seja de uma família mais simples, pois, ela aparenta ser uma boa pessoa, que me trará felicidade, e quem sabe um dia também amor.
- Infelizmente nem tudo é como desejamos, sua família tem parentesco com os Pritchard, o que poderia dizer-me sobre eles?
- Não muito, Karl Pritchard é irmão de minha tia Julie, mas nunca tivemos muita proximidade, só depois que a filha debutou que passaram a frequentar o salão de chá.
- Entendo, uma coisa que notei essa tarde, é que a filha do Duque Plymouth, parece mais velha que a senhorita Daisy, no entanto, ela ainda não está casada.
- De fato, quando Alice teve seu baile de debutante, ela deixou bem claro ao pai que não se casaria, não sabemos o motivo para tal decisão, na ocasião, meu tio Justin disse aceitar a escolha da filha, mas tenho para mim que ele só aceitou, porque assim como o senhor meu pai, tem esperança de ver a filha casada com o Príncipe.
O que será que levou a filha do Duque a não querer contrair matrimônio? Deve ser algo muito sério, talvez um segredo bem guardado pela família.
Mudamos de assunto e passamos a conversar sobre nosso projeto, queremos o fim da escravidão, e para isso, estamos montando todo um plano bem elaborado e sem falhas que iremos mostrar ao Príncipe após a coroação.
Dimitri
Assim que chego em casa, procuro meu pai, para lhe contar sobre o meu compromisso, porém, o encontro deitado, descansando, desço e procuro por Hazel, o valete de meu pai.
- Como meu pai passou essa tarde?
- Não muito bem, senhor. O Milorde esteve à tarde toda deitado com dores no corpo.
Isso não é nada bom, o remédio deveria diminuir as dores, porém, ainda sim, tem dias que meu pai mal consegue se levantar. Deixo meu pai descansar, na hora do jantar, uma criada leva a refeição para ele no quarto, visto que não se sente bem, e eu faço a minha, sozinho. Isso não é um problema para mim, desde que me mudei para Londres, há quase dez anos, passei muito tempo sozinho em casa.
Antes de me recolher, passo no quarto de meu pai, para saber como ele está.
- Boa noite meu pai.
- Filho, que bom vê-lo, como foi seu dia? - Observo como sua voz está baixa.
- Foi bom, meu pai, estive no chá mensal, onde conheci uma moça muito graciosa, com quem firmei um compromisso.
- Tem certeza quanto a isso meu filho? Não quero lhe ver se arrependendo depois.
Eu sei que meu pai se preocupa comigo, e que ele sabe que casar não estava nos meus planos, mas não sou de tomar decisões sem pensar.
- Sim senhor.
- Que bom, então me fale sobre essa moça.
- Seu nome é Daisy Pritchard, filha de Karl Pritchard, é sobrinha do Duque Plymouth, porém, não é da nobreza.
- Conheço os Chambers desde a juventude, são uma boa família, se foram eles que lhe indicaram sua pretendente, então a família da dama também deve ser.
- É o que acredito, por isso firmei o compromisso, e pretendo marcar o mais breve possível o noivado.
- Se assim deseja, deve enviar uma carta à dona Masha, é uma viagem longa e ela demorará mais que o habitual para chegar.
Meu pai está certo, preciso enviar uma carta para babushka, não posso me casar sem a presença da mulher que me criou e ensinou ser o homem que sou. Foi ela que cuidou de mim depois da morte da minha mãe, gostaria que o dedushka estivesse aqui também, mas infelizmente, ele faleceu antes mesmo que eu viesse para Londres. Porém, hoje está tarde, amanhã envio a carta a ela.
Rose
Acordo pela manhã, muito cansada, mal consegui dormir essa noite, só pensando na ameaça de papai, ele está certo quando diz que tio Justin não pode me proteger, cheguei à conclusão que no fundo, ele nunca me protegeu de fato, era apenas o receio que papai tinha de que Daisy fosse prejudicada, que me manteve livre das surras, e agora não tem mais nada que me proteja, já que Daisy se casará com um Conde muito em breve.
Desço logo para fazer o café, não quero irritar papai, com a mesa servida, decido limpar os quartos, de modo a ficar fora de vista. Enquanto limpo posso pensar tranquilamente no que fazer.
Eu preciso encontrar uma saída, mesmo que signifique ficar livre de papai, não irei aceitar me casar, a única saída que vejo é fugir para bem longe, para um lugar que, se eu não encontrar a felicidade, pelo menos poderei ter um pouco de paz, mas por outro lado, se eu fugir, nunca mais poderei voltar para casa.
Estou tão imersa em meus pensamentos, que nem escuto a aproximação de Alice, fico surpresa e ao olhar para ela, vejo que está com o olhar preocupado.
- O que você está fazendo, limpando o chão? - Alice parece em choque. - E que roupa é essa que está usando?
Isso não é bom, por todos esses anos, eu escondi de Alice que papai tornou-me a empregada de nossa casa, tive medo que ela contasse ao tio Justin, e isso trouxesse problemas a mim. Levanto-me, pego na mão de Alice e vamos para meu quarto, lá poderemos conversar melhor.
Aos poucos vou contando como tem sido minha vida, Alice não me interrompe nenhuma vez, no entanto, consigo ver em seus olhos o quanto está chateada por não ter ficado sabendo antes.
- Alice, você tem que me jurar que não vai contar isso a ninguém, principalmente ao seu pai.
- Por que me escondeu isso todos esses anos?
- Eu sabia que você iria contar ao seu pai, não queria que tio Justin soubesse e tentasse intervir, ser empregada é melhor do que ficar apanhando, estou bem assim, Alice, eu juro.
- Isso não está certo.
- É assim que as coisas são, mas e você, por que veio aqui hoje?
- Depois de ontem, fiquei preocupada com você, a Daisy irá se casar em breve, e sei que tio Karl vai querer lhe casar antes.
- Não é bem assim, ainda tenho algum tempo até se tornar oficial.
- Acho que não, papai contou que o Conde Sheffield pretende marcar o noivado o quanto antes.
Essa não, eu pensei que teria ao menos algumas semanas antes que o noivado fosse marcado, mesmo que compromissos sejam por pouco tempo, não precisa ser tão pouco assim.
- Meu Deus, para que essa pressa toda? Ele está à beira da morte?
- Eu não sei, papai falou que ele é um bom homem, junto com o Patrick, tem criado importantes projetos de lei para melhorar a vida dos mais pobres.
Patrick é um primo de Alice por parte de pai, é um Conde importante no cenário político. Mas o que eles fazem não é importante, e sim o fato de ele estar com tanta pressa para casar.
- Alice, quem ele é não me importa, o problema é que papai quer que eu me case antes de Daisy, e se esse homem apressar as coisa, só vai ser pior para mim.
- Rose, eu sei que juramos na infância nunca nos casar, mas talvez seja melhor se casarmos, vamos achar um homem bom e assim você estará livre do seu pai.
- Alice, não é nem por causa daquela promessa, eu simplesmente não consigo me ver presa a um homem, depois ser obrigada a ter filhos e eles passarem pelo mesmo que eu passo. Não dá, não mesmo.
- Eu sei que você já sofreu muito e isso não é justo, mas tem que dar uma chance para as coisas serem melhores.
- Falar é simples, mas você também nunca se casou.
- Sim, mas você sabe o motivo, e que outra opção você tem?
A verdade é que só tenho uma opção, se quero me livrar de um casamento, tenho que ir embora, e dessa vez, decido falar a verdade a Alice.
- Vou fugir para bem longe.
- Agora você enlouqueceu de vez, seu pai irá te matar se tentar fazer isso e ninguém poderá impedi-lo, nem mesmo meu pai, pois, ele estará defendendo a honra da família.
Eu preciso de tempo para pensar, algo que esse tal Conde não quer facilitar.
- Alice, me ajude com alguma ideia para não ir ao Baile dos Lírios.
- Está pedindo isso para a pessoa errada, se quer ideias para planos, procure a Nathally, só me prometa que não fará nada sem me falar antes.
- Pode deixar que você ficará a par de tudo, mas quero saber uma coisa, se não houver saída e eu precisar fugir, posso contar com seu apoio?
- Sabe que não concordo com isso de fugir, mas posso lhe prometer uma coisa, se você aceitar se casar e seu marido for como seu pai, eu mesma providenciarei tudo para que você vá embora para a América.
Alice nunca conseguiu de fato entender o quanto tenho pavor de me casar, e por mais que a ajuda dela seja boa, não vou correr o risco de ser entregue a um homem, isso nunca, mas para deixá-la tranquila, digo o que é preciso.
- Obrigada Alice, vou pensar sobre isso.
Assim que ela vai embora, volto ao meu serviço, espero que ela consiga guardar meus segredos, do contrário, estarei com sérios problemas.
(...)
Passei os últimos dias pensando no que irei fazer para sair da situação em que me encontrava, mas não vejo nenhuma solução além de fugir. Uma coisa a Alice estava certa, a pessoa que melhor pode me ajudar nesse momento é a Nathally, para isso vou aproveitar que estou sozinha e vou à casa da tia Sophie.
Hoje papai saiu para ver um amigo e mamãe foi levar Daisy para um encontro na praça com o tal Conde, esses encontros são o meio dos casais se conhecerem um pouco antes do casamento, ocorrem apenas em locais públicos e com algum familiar da moça presente.
Chego à casa da tia Sophie e ela não está, melhor assim, pois posso conversar com Nathally sem perigo. Sentamos no sofá e vou logo contando sobre o compromisso de Daisy.
- Está brincando comigo, a Daisy conseguiu um pretendente tão rápido assim? - Nathally parece indignada.
Minha irmã só debutou há dois meses, esse foi o segundo chá mensal dela, poucas conseguem um compromisso tão rápido. E sei que um pouco da indignação de Nathally, vem do fato de ela não se dar bem com Daisy, ela acha minha irmã muito mimada, e não discordo dela.
- Conseguiu sim, e o tal Conde já quer marcar o casamento.
- Isso que eu chamo de pressa.
- Você não ouviu a parte ruim.
- Até já imagino qual seja, seu pai quer que você case antes da Daisy.
- Ele quer que eu arrume um marido no Baile dos Lírios.
- Isso é pouco tempo e o que você vai fazer? Imagino que não queira procurar um marido.
- Claro que não, sabe muito bem que não quero casar, Alice esteve há alguns dias lá em casa e para ela, devo casar-me, que posso ter um marido bom, mas não consigo nem pensar nisso.
- Isso não é surpresa, você sabe que amo a Alice como se fosse uma irmã, mas ela não vive a mesma realidade que nós duas, nunca teve que trabalhar na vida e vive no conforto.
- Eu sei disso, Alice não entende que não consigo ver-me casada. Mas, ela me prometeu que se eu me casar e meu marido me fizer algo, ela me ajuda a ir para América.
- E o que você vai fazer?
- No momento preciso ganhar tempo até conseguir um jeito para fugir de Londres, mas não tenho ideia de como fazer isso, por isso vim lhe procurar na esperança que tenha alguma boa ideia e me ajude.
- Claro que irei ajudar com tudo e imagino que a Alice deve ficar fora dos nossos planos.
- É melhor assim, pelo menos por enquanto.
- Tudo bem, agora o primeiro passo é não ir ao baile.
- Isso não irá acontecer, meu pai me leva nem que seja arrastada.
- Não se você estiver doente.
- Você sabe que eu não fico doente fácil, além disso, como posso saber que vou estar doente no dia?
- Você pode garantir isso. Tomando um suco batizado com xarope de ipeca, você irá começar a vomitar muito e nem mesmo seu pai poderia querer que você fosse ao baile.
Já ouvi falar desse xarope, é feito de uma planta, se não estou enganada, é de ipecacuanha, ele faz a pessoa vomitar muito, normalmente é usado quando alguém come algo que não devia.
- Nathally, essa é uma boa ideia, com isso consigo um pouco de tempo, mas aonde vou conseguir xarope de ipeca?
- Claro que é boa, eu que a tive, eu conheço alguém que sabe fazê-lo e posso conseguir uma dose. Agora, conseguir tirar você de Londres não será fácil, mas tem alguém que conheço e que talvez possa ajudar.
- Quem é?
- Um rapaz que conheci quando trabalhei no Palácio, o irmão dele trabalha no navio que vai para América e às vezes ele vai junto para ajudar. Um dia, durante uma conversa, falei que tinha vontade de ir tentar uma vida nova e ele disse que se eu quisesse mesmo isso, ele daria um jeito de me colocar no navio e levar embora. Posso procurá-lo e ver se ele consegue colocar você no próximo navio.
- Essa pode ser uma boa solução para ir embora, mas tem que avisar a ele que não tenho dinheiro para nada.
- Pode deixar que vejo tudo e te aviso, agora você não pode deixar seu pai suspeitar de nada, para isso, você tem que agir naturalmente e continuar relutante com a ideia de casar.
- Eu sei disso, e só vou contar a verdade para Alice mais para frente, sei que ela não vai fazer nada para me prejudicar, mas não quero ficar ouvindo os sermões dela.
- Combinado. Assim que der, levo para você o xarope e as notícias que conseguir.
- Obrigada Nathally, você é uma amiga maravilhosa, melhor, você é uma irmã de ouro.
Com esse plano formado, retorno mais feliz para casa, sei que Nathally irá fazer o impossível para me ajudar e então eu serei livre.