Eu dei meu rim para a minha noiva, para salvar a vida do pai dela.
Dois dias depois, ela me largou na cama do hospital, me chamando de "doador de órgãos conveniente" antes de voltar correndo para o ex-namorado rico.
Mas a crueldade deles estava apenas começando.
Depois que o ex dela atropelou e fugiu, deixando minha irmã ferida, minha noiva lançou uma campanha de difamação online para protegê-lo.
As mentiras dela inspiraram um estranho a entrar no quarto de hospital da minha irmã e assassiná-la.
A mulher para quem eu sacrifiquei uma parte do meu corpo tirou tudo de mim.
Agora, eu vou tirar tudo deles.
Capítulo 1
Ponto de Vista: Daniel Braga
"Eu preciso do seu rim."
Foi assim que a Diana começou a conversa, sentada na beirada da nossa cama, com as mãos delicadamente postas no colo. Ela disse isso com o mesmo tom casual que usava para perguntar se eu tinha comprado pão na volta para casa.
Por um segundo, achei que tinha ouvido errado. O zumbido do ar-condicionado da garagem de repente pareceu ensurdecedor. Larguei a chave de boca que estava limpando, o metal frio contrastando com o calor súbito que subiu pelo meu rosto.
"Você o quê?"
Ela me olhou, seus grandes olhos verdes - aqueles sobre os quais eu escrevi poesias ruins no colégio - arregalados com uma inocência ensaiada.
"Meu pai, Dani. Ele está com insuficiência renal. Os médicos dizem que ele só tem alguns meses sem um transplante."
Meu coração se apertou. O Sr. Almeida era um bom homem. Ele me ensinou a pescar, a dar um nó Windsor para minha primeira entrevista de emprego de verdade. Ele era o mais próximo que eu já tive de um pai.
"Meu Deus, Di. Eu sinto muito. O que a gente pode fazer? A gente arrecada dinheiro, coloca ele em todas as filas..."
"Ele já está nas filas", ela me cortou, a voz suave e perturbadoramente calma. "Mas a espera é muito longa. Já testaram a mim, minha mãe... ninguém da família é compatível."
Ela fez uma pausa, deixando o silêncio pairar no ar como uma guilhotina.
"Mas você é."
Eu a encarei.
"Você me mandou fazer o teste?"
"Quando você fez seu check-up no mês passado", disse ela, com um gesto displicente. "Pedi para incluírem alguns exames extras. Só por precaução. E você é perfeitamente compatível, Dani. É como se fosse o destino."
Senti um pavor gelado subir pela minha espinha, uma sensação que eu não conseguia nomear. Era como ser levado à beira de um penhasco por alguém em quem eu confiava minha vida.
"Diana... isso é... isso é uma cirurgia. Uma cirurgia séria. Não é como doar sangue."
"Claro que é, bobo", disse ela, a voz ficando melosa enquanto deslizava da cama e se ajoelhava na minha frente. Ela pegou minhas mãos sujas de graxa nas dela, ignorando a sujeira. "É o sacrifício supremo. É uma prova do nosso amor. Pense nisso. Você não estaria apenas salvando meu pai. Você estaria salvando nosso futuro. Você faria parte da minha família, de verdade. Para sempre."
A palavra "para sempre" ecoou no pequeno espaço entre nós. Foi a palavra que ela usou quando a pedi em casamento. Foi a palavra que ela sussurrou no escuro. Agora, parecia uma jaula.
Olhei para nossas mãos unidas. Meus dedos calejados e manchados de óleo envolviam os dela, perfeitamente cuidados. Éramos de mundos diferentes. Eu consertava carros para viver, encontrando satisfação em fazer coisas quebradas funcionarem de novo. Ela era uma Almeida, um sobrenome sinônimo de dinheiro antigo e clubes de campo em Campinas. Eu sempre soube que tinha sorte de tê-la. Passei nosso relacionamento inteiro tentando provar que eu era digno.
E agora, isso. O teste final.
"Você não entende, Dani?", ela murmurou, o polegar acariciando as costas da minha mão. "Depois disso, ninguém jamais poderia questionar seu lugar nesta família. Nem minha mãe, nem nossos amigos, ninguém."
Ela se inclinou, os lábios perto do meu ouvido.
"Imagine me levar ao altar, sabendo que você é o herói que salvou meu pai. Você seria tudo para mim."
O pavor gelado lutava contra o amor profundo e doloroso que eu sentia por essa mulher. Eu a amava o suficiente para fazer qualquer coisa. Mas isso parecia diferente. Parecia uma transação, o preço final e sangrento de admissão ao mundo dela.
Olhei em seus olhos, procurando por um lampejo de dúvida, de medo por mim. Não encontrei nada. Tudo o que vi foi uma determinação de aço, inabalável.
Minha própria lógica gritava comigo. Isso era loucura. Isso era uma violação. Mas a parte de mim que a amava, a parte que vinha tentando preencher o abismo entre nossos dois mundos por anos, já estava se rendendo. Eu queria ser o herói dela. Eu queria garantir aquele "para sempre".
Um longo silêncio se estendeu. Eu podia ouvir a batida frenética do meu próprio coração.
Finalmente, ouvi uma voz, distante e oca, que mal reconheci como minha.
"Quando é a cirurgia?"
Um sorriso brilhante e deslumbrante se abriu em seu rosto. Era o sorriso que me cativou desde o primeiro dia, mas pela primeira vez, não me aqueceu. Gelou-me até os ossos.
"Eu sabia que você faria isso", ela sussurrou, me beijando com força. "Vou ligar para o hospital agora mesmo."
Ela praticamente saltitou para fora do quarto, o celular já no ouvido, me deixando sentado ali, coberto de graxa, sentindo como se tivesse acabado de entregar voluntariamente uma parte da minha alma.
Ponto de Vista: Daniel Braga
Acordei com uma dor lancinante na lateral do corpo e o cheiro estéril de antisséptico. Por um momento, a confusão nublou minha mente, densa como a neblina da manhã sobre a Lagoa do Taquaral. Então tudo voltou de uma vez: as luzes fortes da sala de cirurgia, os olhos gentis do anestesista me dizendo para contar de dez para trás, o rosto de Diana pairando sobre mim, sussurrando: "Você é meu herói, Dani."
A cirurgia foi um sucesso. Eu sabia que sim, mesmo antes da enfermeira me dizer. Eu podia sentir na energia aliviada que zumbia do lado de fora do meu quarto. O Sr. Almeida ia ficar bem. Eu tinha conseguido. Eu o tinha salvado.
Eu tinha garantido o nosso para sempre.
Diana entrou mais tarde naquela tarde. Ela não estava usando o suéter macio que eu amava, aquele que cheirava ao seu perfume de lavanda. Ela estava vestida com um terninho azul-marinho elegante, o cabelo preso tão firmemente que parecia esticar a pele ao redor dos olhos. Ela não parecia minha noiva vindo sentar ao meu lado. Parecia uma CEO prestes a fechar um negócio.
Ela não me beijou. Apenas ficou parada aos pés da minha cama, a bolsa apertada nas mãos como um escudo.
"Meu pai está acordado", disse ela, a voz sem expressão. "O rim está funcionando perfeitamente. Os médicos estão muito otimistas."
"Isso é ótimo, Di", consegui dizer, minha voz rouca. Tentei me levantar, mas a dor nos pontos era agonizante. "Isso... isso é tudo que importa."
"Sim", disse ela. "É."
O silêncio que se seguiu foi pesado, sufocante. Não era o silêncio confortável de duas pessoas apaixonadas. Era o silêncio de um tribunal antes da leitura do veredito.
"Estou tão feliz por ter feito isso por você, pela sua família", eu disse, tentando preencher o vazio. "Agora podemos finalmente só... ficar juntos."
A expressão de Diana não mudou.
"Sobre isso, Dani."
Meu sangue gelou.
"Eu não posso me casar com você", disse ela. As palavras foram secas, precisas e totalmente desprovidas de emoção. Elas caíram no quarto silencioso como pedras em um poço profundo.
Eu a encarei, certo de que isso era alguma alucinação cruel pós-anestesia.
"Do que você está falando? Você bateu a cabeça? A gente vai se casar em três meses."
"Não", disse ela, balançando a cabeça lentamente. "Não vamos."
"Mas... por quê?" A pergunta foi um sussurro cru. A dor na minha lateral não era nada comparada ao peso esmagador que de repente pressionava meu peito. "Eu não entendo. Eu fiz. Eu fiz o que você pediu. Eu salvei seu pai."
Um lampejo de algo - irritação, talvez? - cruzou seu rosto.
"E por isso, minha família será eternamente grata. Nós cobriremos todas as suas despesas médicas, é claro. E meu pai abriu um fundo para você. É bem generoso."
Um fundo? Despesas médicas? Ela estava falando comigo como se eu fosse um funcionário recebendo um pacote de demissão, não o homem com quem ela deveria passar a vida. Não o homem que tinha uma incisão de quinze centímetros na lateral e um órgão a menos por causa dela.
As peças começaram a se encaixar, afiadas e dolorosas. A maneira como ela me fez fazer os exames sem meu conhecimento. A maneira como ela enquadrou isso como um teste de amor. O terninho.
Minha voz tremeu.
"Esse sempre foi o plano, não foi? Pegar o rim, depois se livrar de mim."
Ela teve a decência de desviar o olhar, fixando-o no soro ao lado da minha cama.
"Não era para ser assim. Mas as coisas mudam."
"Que coisas?", exigi, minha voz falhando. "O que poderia ter mudado entre eu entrar na cirurgia e agora?"
Ela finalmente encontrou meus olhos, e a frieza neles era absoluta.
"O Eugênio voltou."
Eugênio Vasconcelos. Claro. Seu ex-namorado rico e arrogante da faculdade. Aquele com quem a mãe dela sempre disse que ela deveria ter ficado. Aquele que dirigia um Porsche e tinha uma casa de veraneio em Ilhabela. Aquele com quem eu nunca poderia competir.
"Ele veio ao hospital quando soube do meu pai", ela continuou, a voz se suavizando pela primeira vez, mas não por mim. "Ele foi tão solidário, tão forte. Ele me lembrou de como minha vida deveria ser. Do que nossa família precisa."
"E o que é isso?", engasguei. "Alguém que pode te comprar coisas? Eu trabalho duro, Di. Eu teria te dado tudo."
"Você já deu", disse ela, e a crueldade daquilo me tirou o fôlego. "Você deu ao meu pai uma segunda chance na vida. Isso é mais do que suficiente. Mas você não pode me dar o mundo ao qual eu pertenço, Dani. O Eugênio pode."
O quarto de hospital estéril começou a girar. O bipe rítmico do monitor cardíaco acelerou, uma trilha sonora frenética para o meu mundo se despedaçando. Eu tinha sido uma ferramenta. Um meio para um fim. Meu sacrifício não foi uma prova do nosso amor; foi o preço da saúde do pai dela e a minha taxa de saída.
Lágrimas escorriam pelo meu rosto, quentes e inúteis. O amor que eu sentia por ela estava se transformando em algo tóxico e amargo no meu estômago.
"Então é isso?", sussurrei, as palavras rasgando minha garganta. "Você me usa, pega uma parte do meu corpo e depois me joga fora por ele?"
"Não seja tão dramático", disse ela, a voz ficando afiada novamente. "Você é um bom homem, Dani. Você vai ficar bem. O fundo garantirá que você fique confortável."
Ela colocou um envelope branco e impecável na mesa de cabeceira.
"Isso é do meu pai. Um agradecimento."
Ela se virou para sair.
"Diana", chamei, minha voz embargada.
Ela parou na porta, de costas para mim.
"Eu te amava", eu disse, as palavras parecendo cinzas na minha boca.
Ela não respondeu. Apenas abriu a porta e saiu, me deixando sozinho com o buraco na minha lateral e o buraco ainda maior que ela acabara de rasgar na minha vida. O bipe constante do monitor era o único som, cada pulso marcando mais um segundo do meu novo e vazio para sempre.
Ponto de Vista: Daniel Braga
A semana que passei me recuperando no hospital foi um borrão de dor, medicação e um luto profundo que era pior do que qualquer dor física. Quando finalmente me deram alta, peguei um Uber de volta para a pequena casa que compartilhávamos. Nossa casa.
A chave parecia estranha na minha mão.
No momento em que entrei, eu soube. O ar estava diferente - parado e vazio. O cheiro dela, a leve fragrância de lavanda e baunilha que sempre impregnava tudo, havia sumido.
Andei pelos cômodos silenciosos. O armário estava meio vazio, todos os seus vestidos de grife e blusas de seda haviam desaparecido. A bancada do banheiro estava livre de suas dezenas de cremes e séruns. A foto emoldurada de nós dois na lareira, tirada no último Natal comigo usando um suéter de rena bobo e ela rindo, tinha sumido.
Ela não tinha apenas se mudado. Ela tinha se apagado.
Na mesa da cozinha, apoiado contra o saleiro, havia um único bilhete dobrado. Reconheci sua caligrafia elegante e floreada imediatamente. Minha mão tremeu ao pegá-lo.
"Dani", dizia, "Preciso de um espaço para pensar. Tudo isso está acontecendo tão rápido. Espero que você possa entender. Eu te amo. Sempre. - Di"
"Eu te amo." As palavras eram uma piada amarga. Amassei o bilhete na mão, o papel estalando em protesto, e o joguei na lixeira. Ela provavelmente já estava na cobertura do Eugênio, tomando champanhe e rindo do mecânico ingênuo que deixou para trás.
Meu celular vibrou no bolso. Era meu melhor amigo, Marcos.
"E aí, cara! Já saiu?", ele perguntou, a voz alegre. "Ouvi dizer que a cirurgia foi um sucesso enorme. Você é um herói, cara. Dar um rim para o seu futuro sogro? Isso é amor de outro nível. A Diana deve estar nas nuvens."
Uma risada seca e áspera escapou dos meus lábios.
"É. Amor."
Afundei em uma cadeira da cozinha, o bilhete amassado um veneno no lixo ao meu lado. Três anos. Três anos de madrugadas na oficina, de economizar cada centavo para um anel que ela merecia, de acreditar que eu tinha encontrado minha pessoa. Tudo parecia uma mentira. Uma piada longa e elaborada, e eu era o alvo.
"O que foi?", a voz de Marcos ficou séria. "Você não parece bem."
Olhei para o espaço vazio na parede onde nossa foto de noivado costumava ficar. Eu ainda podia ver o contorno fraco na poeira.
"A gente vai se divorciar", eu disse, a palavra com gosto de ácido.
"O quê? Vocês nem casaram ainda! Que diabos aconteceu?"
Lágrimas arderam em meus olhos novamente. Eu as enxuguei com raiva com as costas da mão.
"Ela não quer mais se casar comigo, Marcos. Ela voltou com o Eugênio Vasconcelos."
O silêncio do outro lado da linha foi pesado. Marcos sabia tudo sobre o Eugênio. Ele esteve lá durante meus primeiros dias de insegurança, me dizendo que um cara como aquele não tinha chance contra o amor real e honesto. Nós dois estávamos errados.
"Depois que você deu um rim para o pai dela? Ela te largou depois disso?", a voz de Marcos estava carregada de incredulidade e fúria.
"Dois dias depois", confirmei, minha voz oca. "No quarto do hospital."
"Eu vou matar ele", Marcos rosnou. "E ela. Meu Deus, Dani. Eu sinto muito."
Conversamos por mais alguns minutos, mas mal registrei suas palavras de apoio. Depois que desligamos, fiquei sentado na casa silenciosa, o vazio me pressionando. Senti uma necessidade súbita e desesperada de me livrar de tudo que me lembrava dela, de purgar minha vida da mentira.
Comecei no quarto, tirando nossos velhos álbuns de fotos do armário. Minhas mãos pararam em uma pequena cesta de vime guardada na prateleira de cima. Eu tinha esquecido que estava lá.
Eu a peguei e abri a tampa.
Dentro, aninhados em papel de seda, havia um par de sapatinhos de bebê, um macacãozinho amarelo e uma cópia gasta de "Boa Noite, Lua".
Uma onda de náusea me atingiu com tanta força que tive que me apoiar na parede.
Quando começamos a namorar, Diana foi categórica em dizer que não queria filhos. Dizia que sua carreira era muito importante, que não tinha tipo maternal. Eu, por outro lado, sempre sonhei em ser pai. Eu era filho único, e a ideia de uma família grande e barulhenta era meu desejo mais profundo. Mas eu a amava. Então, respeitei sua decisão.
Eu me convenci de que ela estava apenas com medo. Comecei a comprar coisinhas, escondendo-as nesta cesta, imaginando um dia em que poderia mostrá-las a ela e ela sorriria, seus medos se dissipando. Eu assistia a programas sobre pais com ela, apontando como as famílias eram felizes. Eu via o lampejo de desejo em seus olhos às vezes, e pensei que estava a conquistando.
No dia em que finalmente desisti, guardei todas as coisas de bebê nesta cesta para jogar fora. Ela me encontrou sentado no chão, segurando os sapatinhos. Ela se ajoelhou ao meu lado, sua expressão suave com uma pena que agora percebo ser falsa.
"Desculpe, Dani", ela disse. "Eu simplesmente não consigo."
Eu sorri através da minha própria decepção, puxando-a para um abraço.
"Tudo bem", eu disse a ela. "Contanto que eu tenha você, é o suficiente. Nós somos o suficiente."
Eu guardei a cesta. Não consegui jogá-la fora. Uma parte pequena e estúpida de mim ainda mantinha a esperança.
Agora, olhando para os itens pequenos e perfeitos, senti uma raiva tão pura e incandescente que eclipsou o luto. Nunca foi sobre não querer filhos. Foi sobre não os querer comigo. Ela provavelmente já estava planejando um quarto de bebê com o Eugênio.
Foi tudo uma mentira. Cada toque gentil, cada promessa sussurrada, cada sonho compartilhado. Uma performance de três anos.
E eu tinha sido sua plateia mais cativada.