O mar sempre soube meu nome.
Eu só não sabia o dele.
Durante toda a minha infância, minha mãe dizia que o oceano era capaz de reconhecer aqueles que pertenciam a ele. Dizia isso sempre que eu chegava em casa com os pés molhados, depois de passar horas sentada sobre as pedras negras das falésias, observando as ondas se chocarem contra os penhascos.
- Não chegue tão perto, Mara.
Eu nunca obedecia.
Talvez porque, naquela época, eu ainda não soubesse que o mar era considerado uma coisa viva em Vespera.
Não exatamente viva como nós.
Era algo mais antigo.
Mais faminto.
Mais paciente.
E, naquela noite, enquanto a vila inteira se reunia diante do templo, eu finalmente compreendi por que todos tinham tanto medo dele.
O sino tocou.
Uma vez.
Duas.
Três.
O som atravessou Vespera como um lamento.
Parei diante da porta de madeira da minha casa e olhei para a rua.
Ninguém conversava.
As janelas estavam fechadas.
As cortinas, puxadas.
As portas, trancadas.
Até os cães haviam desaparecido.
Era como se a vila inteira estivesse prendendo a respiração.
Eu também deveria estar.
Mas não estava.
Não ainda.
Minha mãe estava atrás de mim.
Eu podia sentir o olhar dela sobre minha nuca.
- Mara.
Meu nome saiu de sua boca tão baixo que quase não ouvi.
Fechei os olhos.
Por alguns segundos, pensei em fingir que não entendia.
Que não sabia.
Que talvez tudo aquilo fosse apenas uma cerimônia qualquer.
Mas não era.
Nunca fora.
A cada inverno, Vespera escolhia uma jovem.
Uma única jovem.
E a entregava ao mar.
A tradição era tão antiga que ninguém sabia dizer quando havia começado.
Os anciãos diziam que, séculos atrás, uma criatura surgiu das profundezas e ofereceu proteção à vila.
Em troca, exigiu uma mulher.
Uma por ano.
Um tributo.
Se a escolhida fosse entregue, as tempestades passariam ao largo de Vespera.
Os barcos retornariam.
As plantações sobreviveriam.
As crianças nasceriam saudáveis.
Se o tributo fosse recusado...
O mar cobraria sua dívida de outra maneira.
Pelo menos era isso que diziam.
Eu nunca acreditei.
Até aquela noite.
- Mara, por favor.
Abri os olhos.
Minha mãe estava chorando.
Foi isso que me assustou.
Não o sino.
Não o templo.
Não o oceano.
Minha mãe.
Ela era uma mulher que não chorava.
Nem quando meu pai morreu.
Nem quando a casa foi destruída pela tempestade.
Nem quando passamos três meses comendo apenas sopa de batatas porque a pesca havia sido ruim.
Minha mãe não chorava.
Mas naquela noite, chorava.
- Não faça isso comigo - ela sussurrou.
Eu me virei.
- Fazer o quê?
Ela me encarou.
Não respondeu.
Não precisava.
Eu já sabia.
Olhei para o vestido sobre a cadeira.
Branco.
Comprido.
Costurado pelas mulheres do templo.
O vestido do Tributo.
Eu havia encontrado a peça naquela manhã.
Estava sobre a minha cama.
Sem bilhete.
Sem explicação.
Como se eu não soubesse.
Como se não tivesse visto os anciãos conversando com minha mãe três dias antes.
Como se não tivesse percebido que, desde então, todos em Vespera evitavam olhar diretamente para mim.
Eu era a escolhida.
- Quantos anos você tinha? - perguntei.
Minha mãe franziu a testa.
- Quando?
- Quando entregaram a última.
Ela desviou os olhos.
- Você sabe disso.
- Quero ouvir você dizer.
Silêncio.
- Vinte e dois.
- E qual era o nome dela?
Minha mãe apertou os lábios.
- Mara...
- Qual era o nome dela?
- Elianor.
- Ela voltou?
Minha mãe fechou os olhos.
Aquilo foi resposta suficiente.
Sorri.
Não porque havia graça.
Mas porque, naquele momento, algo dentro de mim finalmente se partiu.
- Então é isso.
- Filha...
- Eu vou morrer.
- Não sabemos disso.
Soltei uma risada curta.
- Mãe.
- Não sabemos.
- Ninguém volta.
Ela se aproximou.
- Talvez seja diferente.
- Diferente como?
- Você é diferente.
Fiquei imóvel.
Aquelas palavras me atingiram de uma maneira estranha.
- Por quê?
Minha mãe não respondeu.
E foi então que entendi.
Ela sabia de alguma coisa.
- Por quê, mãe?
- Mara...
- Por que eu?
Ela segurou meu rosto com as duas mãos.
- Porque é a sua vez.
Foi a primeira vez que tive medo.
Não do monstro.
Não do mar.
De Vespera.
---
A cerimônia começou ao pôr do sol.
Eu caminhei até o templo cercada por quatro guardas.
Não porque precisassem me proteger.
Mas porque tinham medo de que eu fugisse.
E eu queria fugir.
Deus, como eu queria.
Cada passo parecia me aproximar de uma sentença.
A praça estava lotada.
Centenas de pessoas.
Nenhuma delas dizia uma palavra.
No centro havia uma fogueira.
Atrás dela, o templo.
E além do templo...
O mar.
Eu conseguia ouvi-lo.
As ondas batiam contra as pedras.
Uma.
Duas.
Três vezes.
Como se estivesse contando.
Subi os degraus.
O sacerdote me esperava.
Era um homem velho chamado Elias Veyr.
Todos em Vespera respeitavam Elias.
Eu nunca gostei dele.
Ele possuía olhos pequenos e escuros, sempre atentos demais.
Como se estivesse procurando alguma coisa.
Ou alguém.
Quando parei diante dele, seus olhos percorreram meu rosto.
- Mara Vale.
Meu estômago revirou.
- Não.
Algumas pessoas se mexeram atrás de mim.
Elias inclinou a cabeça.
- Não?
- Não quero fazer isso.
O silêncio ficou ainda maior.
Minha mãe soluçou.
Elias, porém, não demonstrou surpresa.
- Você conhece as consequências.
- Conheço as histórias.
- Não são histórias.
- São mentiras.
Um murmúrio percorreu a multidão.
O sacerdote se aproximou.
- Cuidado.
- Com o quê?
Apontei para o mar.
- Com ele?
Ninguém respirou.
Eu sorri.
Talvez tivesse enlouquecido.
Talvez fosse o medo.
Talvez eu simplesmente tivesse chegado ao meu limite.
- Vocês dizem que ele exige uma mulher todos os anos. Que precisa de uma vida para nos proteger. Então por que nunca deixaram ninguém voltar?
Elias ficou sério.
- Porque o pacto não permite.
- O pacto.
- Sim.
- E quem fez esse pacto?
Ele não respondeu.
- Quem fez?
- Seus ancestrais.
- Então por que eu preciso pagar por ele?
- Porque você pertence à linhagem.
A palavra ecoou.
Pertence.
Eu odiei aquilo.
- Eu não pertenço a ninguém.
Pela primeira vez, algo mudou no rosto de Elias.
Medo.
Foi rápido.
Quase imperceptível.
Mas eu vi.
E então compreendi.
Ele tinha medo de que eu dissesse mais.
Não sabia o quê.
Mas tinha certeza.
- Levem-na - ordenou.
Os guardas avançaram.
Eu recuei.
- Não.
Um deles segurou meu braço.
Eu o golpeei.
Outro tentou me agarrar.
Mordi sua mão.
Alguém gritou.
A praça inteira explodiu em movimento.
Eu corri.
Não pensei.
Não olhei para trás.
Corri pelos degraus do templo.
Atravessei a praça.
Passei pelas casas.
Ouvi minha mãe gritar meu nome.
Continuei.
O vento cortava meu rosto.
O vestido branco se arrastava pela lama.
Eu não sabia para onde estava indo.
Sabia apenas para onde não iria.
Para o mar.
Nunca.
Quando cheguei à beira da floresta, parei.
Minha respiração estava ofegante.
Por um instante, achei que tinha conseguido.
Então ouvi os sinos.
Um.
Dois.
Três.
Dessa vez, porém, havia algo diferente.
O som não vinha do templo.
Vinha do oceano.
Virei lentamente.
A vila estava atrás de mim.
As pessoas tinham parado de correr.
Os guardas estavam imóveis.
Elias estava no alto dos degraus.
Todos olhavam para o mesmo lugar.
O mar.
As ondas haviam parado.
Completamente.
Aquela foi a primeira coisa que percebi.
A segunda foi o silêncio.
O oceano inteiro parecia ter desaparecido.
Nenhuma onda.
Nenhuma gaivota.
Nenhum vento.
Nada.
Então a água começou a se mover.
Não como uma onda.
Como se alguma coisa estivesse subindo.
Meu coração parou.
Uma sombra surgiu sob a superfície.
Grande demais.
Muito grande.
Ela se aproximou.
E continuou crescendo.
Um barco poderia ter desaparecido dentro daquela sombra.
Então dois pontos azuis surgiram no escuro.
Olhos.
Eu não conseguia respirar.
A criatura emergiu.
Primeiro, os chifres.
Depois, a cabeça.
Então os ombros.
E o restante do corpo.
Era enorme.
Monstruoso.
A água escorria sobre uma pele escura coberta por placas que pareciam escamas.
Garras se fecharam contra as pedras.
Um som grave saiu de sua garganta.
Não era um rugido.
Era algo pior.
Uma voz.
Antiga.
Profunda.
Eu não compreendia as palavras.
Mas compreendi meu nome.
- Mara.
Meu sangue congelou.
A criatura inclinou a cabeça.
Seus olhos luminosos estavam fixos em mim.
- Mara Vale.
Eu recuei.
Um passo.
Depois outro.
Ele saiu do mar.
Cada movimento fazia o chão tremer.
As pessoas atrás de mim começaram a gritar.
Alguns fugiram.
Outros caíram de joelhos.
Elias não se moveu.
Ele apenas observava.
Como se tivesse esperado por aquilo durante toda a vida.
A criatura caminhou em minha direção.
Eu não conseguia fugir.
Meu corpo não obedecia.
Ele parou diante de mim.
Era tão alto que precisei erguer completamente a cabeça para enxergar seu rosto.
Havia algo terrível nele.
Algo que deveria fazer qualquer pessoa correr.
Mas seus olhos...
Seus olhos não eram cruéis.
Eram tristes.
Foi isso que me confundiu.
A criatura estendeu uma das mãos.
As garras estavam a poucos centímetros do meu rosto.
Fechei os olhos.
Esperei a dor.
Ela não veio.
Em vez disso, senti uma pressão quente contra minha testa.
Abri os olhos.
A criatura me tocava com apenas uma garra.
Com cuidado.
Como se eu fosse frágil.
Como se tivesse medo de me quebrar.
- Você demorou - ele disse.
Sua voz fez meu peito vibrar.
Eu não consegui responder.
A criatura aproximou o rosto do meu.
Seu hálito era quente.
Cheirava a sal e algo metálico.
- Eu esperei por você.
- Eu...
Minha voz falhou.
Ele me observou.
Então olhou para o vestido branco.
Seus olhos mudaram.
Ficaram mais intensos.
- Eles disseram que você viria voluntariamente.
Olhei para a vila.
Minha mãe estava chorando.
Elias estava parado atrás dela.
- Mentiram.
A criatura ficou imóvel.
- O quê?
Foi a primeira vez que percebi que ele não sabia.
Não sabia.
Não entendia.
Olhei novamente para ele.
Para aquela criatura que todos chamavam de monstro.
- Eu não vim por vontade própria.
Os olhos azuis se estreitaram.
- Então por que veio?
Olhei para o mar.
Para a vila.
Para minha mãe.
E então para ele.
- Porque me entregaram.
Algo mudou.
As marcas azuis sob a pele da criatura começaram a brilhar.
Uma luz fraca percorreu seu pescoço.
Desceu pelos braços.
Iluminou as escamas.
Ele olhou para trás.
Para Vespera.
E, pela primeira vez, o medo apareceu no rosto de alguém que não deveria conhecer o medo.
O monstro das profundezas encarou os habitantes da vila.
- O pacto não era esse.
Elias deu um passo à frente.
- Leve-a.
A criatura virou lentamente a cabeça.
- Você sabia.
Elias empalideceu.
- Leve-a e cumpra o acordo.
O monstro rosnou.
As janelas da vila tremeram.
- Este não era o acordo.
Elias recuou.
Eu olhei para os dois.
Não compreendia.
Nada fazia sentido.
Então a criatura voltou sua atenção para mim.
- Você é Mara Vale?
Assenti.
- Sim.
Ele se aproximou.
- A descendente de Elyra?
Meu coração disparou.
- Quem é Elyra?
A criatura ficou em silêncio.
Por algum motivo, senti que acabara de fazer a pergunta errada.
Então ele se abaixou.
Seu rosto ficou próximo ao meu.
- Você não sabe.
- Saber o quê?
Ele estendeu os braços.
Eu recuei.
- Não toque em mim.
Ele parou.
Imediatamente.
Aquilo me surpreendeu.
Por alguns segundos, nenhum de nós se moveu.
Então ele perguntou:
- Você tem medo de mim?
Eu deveria ter mentido.
Mas não consegui.
- Sim.
As marcas em seu corpo brilharam novamente.
Ele pareceu ferido.
Não fisicamente.
De outra maneira.
- Eu não deveria ter medo de você?
- Não.
- Você é um monstro.
- Sim.
A resposta me desconcertou.
Ele não negou.
Não tentou me convencer do contrário.
- Então por que não devo ter medo?
A criatura se aproximou apenas o suficiente para que sua voz alcançasse meus ouvidos.
- Porque eu nunca pedi que entregassem você.
Olhei para Elias.
Depois para ele.
- Mas você vai me levar.
- Sim.
Meu coração despencou.
- Então qual é a diferença?
Ele me encarou.
- A diferença é que você não será meu sacrifício.
- O que eu sou, então?
A criatura permaneceu em silêncio.
Por um instante, seus olhos desceram até minha boca.
Depois voltaram aos meus.
E então disse:
- Minha.
Meu sangue ferveu.
- Eu não pertenço a você.
- Ainda não.
- Nunca.
O monstro inclinou a cabeça.
Quase parecia curioso.
- Você não compreende.
- Então me explique.
Ele olhou para o mar.
Depois para mim.
- Você é a primeira em trezentos anos.
- Primeira o quê?
Seus olhos encontraram os meus.
- A escolhida que não veio voluntariamente.
Eu não entendi.
- Isso deveria me tranquilizar?
- Não.
Ele estendeu a mão novamente.
Dessa vez, não me tocou.
Apenas apontou para o oceano.
- Mas significa que eles mentiram para nós dois.
O som das ondas voltou.
De repente.
Violento.
Ensurdecedor.
Olhei para trás.
A vila estava em pânico.
Elias gritava alguma coisa.
Minha mãe tentava chegar até mim.
Mas era tarde demais.
O monstro segurou minha cintura.
Eu gritei.
- Solte-me!
Lutei.
Chutei.
Arranhei.
Ele não reagiu.
Apenas me segurou.
- Pare.
- Me solte!
- Você vai se machucar.
- Eu prefiro morrer!
Ele ficou imóvel.
Aquelas palavras fizeram alguma coisa acontecer.
Seu olhar mudou.
- Não diga isso.
- Por quê?
A criatura me puxou contra o peito.
Meu rosto ficou pressionado contra aquela pele fria e escamosa.
- Porque eu esperei trezentos anos.
Meu corpo parou de lutar.
- Pelo quê?
Ele entrou no mar.
A água alcançou meus pés.
Depois meus joelhos.
Minha cintura.
Meu peito.
Eu gritei.
- Pelo quê?
O monstro me segurou com mais força.
Então mergulhou.
O mundo desapareceu.
A última coisa que vi antes de afundar foi Vespera.
Minha casa.
Minha mãe.
O templo.
E Elias Veyr.
Todos ficando para trás.
Depois, apenas o escuro.
E dois olhos azuis brilhando diante de mim.
O monstro me levou para as profundezas.
E, naquele momento, eu ainda não sabia que a criatura que eu havia passado a vida inteira aprendendo a odiar seria a única pessoa em todo o mundo capaz de me oferecer uma escolha.
Eu só sabia de uma coisa.
Eu estava indo para o reino do monstro.
E ele acreditava que eu era dele.
Morrer não era como eu imaginava.
Eu sempre pensei que, quando chegasse a minha hora, haveria dor.
Talvez fogo.
Talvez frio.
Talvez apenas um último suspiro antes de tudo desaparecer.
Nunca imaginei que morreria com os olhos abertos.
Nunca imaginei que continuaria enxergando.
E, principalmente, nunca imaginei que conseguiria respirar.
Abri a boca.
Água entrou.
Meu corpo inteiro entrou em pânico.
Tentei gritar.
Não saiu som algum.
Debati-me.
Minhas mãos procuraram alguma coisa para segurar, qualquer coisa que pudesse me puxar para cima.
Mas não havia cima.
Nem baixo.
Apenas escuridão.
E aqueles olhos.
Os olhos azuis da criatura.
Ele estava me segurando.
Eu podia sentir seus braços ao redor do meu corpo, mantendo-me junto ao peito enquanto afundávamos.
Afundávamos.
Afundávamos.
Eu queria lutar.
Queria me afastar.
Queria voltar.
Mas meus pulmões queimavam.
Minha visão começou a escurecer.
Então alguma coisa tocou meu rosto.
Uma garra.
Abri os olhos.
O monstro estava me observando.
Ele não parecia preocupado.
Aquilo me enfureceu.
Eu estava morrendo.
E ele parecia tranquilo.
Tentei empurrá-lo.
Ele não se moveu.
Então, quando achei que meus pulmões finalmente explodiriam, senti algo pressionar minha boca.
Um calor percorreu meu corpo.
E eu respirei.
Não água.
Ar.
Ar de verdade.
Meu peito se expandiu violentamente.
Puxei outra respiração.
E outra.
E outra.
O pânico não desapareceu.
Apenas mudou.
Eu conseguia respirar.
Debaixo do oceano.
Aquilo era impossível.
Olhei ao redor.
A escuridão havia desaparecido.
Ou talvez nunca tivesse sido escuridão de verdade.
Havia luzes.
Centenas.
Milhares.
Pequenos pontos azuis brilhavam nas profundezas.
Plantas gigantescas se moviam lentamente com a correnteza.
Peixes transparentes nadavam ao meu redor.
Alguns possuíam olhos enormes.
Outros não tinham olhos.
Vi uma criatura passar ao longe.
Era comprida.
Muito comprida.
Seu corpo parecia uma serpente coberta de espinhos.
Ela desapareceu em meio à escuridão.
Eu quis gritar.
Dessa vez, consegui.
- O que...
Minha voz saiu estranha.
Abafada.
Mas audível.
O monstro olhou para mim.
- Respire.
- Você...
Puxei o ar.
- Você me fez respirar.
- Sim.
- Como?
- Como você respira na superfície.
- Eu sei como eu respiro!
Minha voz ecoou na água.
Ele piscou.
Eu não sabia se criaturas como ele piscavam.
- Eu quis dizer...
Parei.
Ele me observava.
Esperando.
- Você fez alguma coisa comigo.
- Sim.
- O quê?
- Dei-lhe a capacidade de respirar aqui.
- Você pode fazer isso?
- Sim.
- Então por que não fez antes?
Ele pareceu pensar.
- Você não estava aqui antes.
Fechei os olhos.
- Eu odeio você.
- Eu sei.
Abri os olhos.
- Você sabe?
- Você disse.
- Eu poderia ter mudado de ideia.
- Não mudou.
- Como sabe?
Ele apontou para meu rosto.
- Você ainda está olhando para mim como se quisesse me matar.
Olhei para a mão dele.
Depois para o rosto.
- Talvez eu queira.
- Você é pequena demais.
Fiquei indignada.
- Pequena demais?
Ele assentiu.
- Para me matar.
- Eu poderia encontrar uma maneira.
- Talvez.
- Com certeza.
- Talvez.
- Pare de dizer talvez!
- Por quê?
- Porque é irritante.
- Entendo.
- Você não entende.
- Entendo que você está irritada.
Eu fiquei em silêncio.
Ele continuou me encarando.
- Isso não significa que eu entenda por quê.
A criatura era impossível.
Eu estava sendo carregada por um monstro no fundo do oceano.
E estava discutindo com ele.
Aquilo provavelmente significava que eu tinha enlouquecido.
Ou que já estava morta.
Talvez aquilo fosse o inferno.
Talvez o inferno fosse exatamente assim.
Um monstro enorme, azul e escamoso, carregando você para algum lugar desconhecido enquanto responde às suas perguntas como se estivesse entediado.
- Para onde está me levando?
- Para casa.
- Sua casa?
- Sim.
- Não vou ficar lá.
Ele continuou nadando.
- Vai.
- Não vou.
- Vai.
- Você não pode decidir isso!
Ele finalmente parou.
A água ao redor de nós continuou se movendo.
Ele me virou para que eu pudesse olhar diretamente em seus olhos.
- Então para onde você vai?
Eu abri a boca.
Nada saiu.
Eu não tinha resposta.
Vespera.
Não podia voltar.
Minha mãe...
Meu coração apertou.
Eu havia fugido.
Talvez ainda estivesse viva.
Talvez Elias tivesse feito alguma coisa.
Talvez...
- Minha mãe.
O monstro ficou imóvel.
- O que tem sua mãe?
- Ela ficou lá.
- Sim.
- Eu preciso voltar.
- Não.
- Ela precisa de mim.
- Você não pode voltar.
- Por quê?
- Porque eu não permitirei.
A raiva voltou.
- Você não manda em mim!
Ele me soltou.
Meu corpo imediatamente começou a afundar.
Eu gritei.
Ele me segurou novamente.
- Você está tentando provar alguma coisa?
- Estou tentando não morrer!
- Eu disse que você pode respirar.
- Eu não sei nadar!
Ele ficou em silêncio.
Eu também.
- Isso teria sido útil saber antes.
- Eu imaginei que soubesse.
- Por quê?
- Você vive perto do mar.
- Viver perto do mar não significa saber nadar!
- Então os humanos são estranhos.
- Você é um monstro!
- Já estabelecemos isso.
Eu o encarei.
Ele me encarou.
E, contra minha vontade, quase ri.
Quase.
Então me lembrei de onde estava.
E do que ele havia dito.
- Você disse que eu sou a escolhida.
- Sim.
- O que isso significa?
Ele começou a nadar novamente.
- Significa que você é minha.
- Não.
- Mara.
- Não sou sua.
Ele parou.
- Você tem um nome?
- O quê?
- Um nome.
- É claro que tenho um nome.
- Qual?
- Mara.
Ele repetiu.
- Mara.
Meu nome soou diferente na voz dele.
Mais grave.
Mais antigo.
Como se aquela palavra pertencesse àquele lugar.
- E você?
Ele ficou em silêncio.
- O quê?
- Seu nome.
Mais silêncio.
- Você não tem?
- Tenho.
- Então qual é?
Ele desviou o olhar.
Aquilo foi estranho.
- Diga.
- Não.
- Por quê?
- Você não consegue pronunciá-lo.
- Posso tentar.
- Não.
- Você é muito irritante.
- Você também.
- Então estamos empatados.
Ele olhou para mim.
- Meu nome é Vael.
A palavra pareceu vibrar dentro da água.
Vael.
Eu não sabia por quê, mas senti um arrepio.
- Vael.
As marcas azuis sob a pele dele acenderam.
Ele ficou completamente imóvel.
- O que foi?
- Nada.
- Eu disse seu nome.
- Eu sei.
- E daí?
- Nada.
- Então por que está me olhando assim?
- Você não deveria saber meu nome.
Franzi a testa.
- Por que não?
Vael não respondeu.
- Vael.
As marcas brilharam novamente.
Ele fechou os olhos.
- Pare.
- Por quê?
- Porque você está dizendo errado.
- Você acabou de dizer que eu não poderia pronunciá-lo.
- Não pode.
- Então como estou dizendo errado?
Ele abriu os olhos.
Havia alguma coisa diferente neles.
Algo que não compreendi.
- Você está dizendo meu nome como se fosse uma palavra.
- E não é?
- Não.
- Então o que é?
Vael se aproximou.
- É uma promessa.
Meu coração bateu mais rápido.
- Não entendi.
- Eu sei.
Ele continuou nadando.
Eu fiquei olhando para ele.
Uma promessa.
Aquilo não fazia sentido.
Mas, pela primeira vez desde que havia sido arrastada para o oceano, senti algo diferente de medo.
Curiosidade.
E eu odiei isso.
---
Demorou muito para chegarmos.
Ou talvez pouco.
Era impossível saber.
Debaixo da água, o tempo parecia não existir.
A única coisa que eu conseguia fazer era observar.
O mundo que Vael me mostrava era absurdo.
Havia torres.
Palácios.
Ruínas.
Algumas estruturas pareciam ter sido construídas por humanos.
Outras, não.
Passamos por uma cidade.
Ou o que restava dela.
As construções eram enormes.
Colunas cobertas por corais.
Estátuas de criaturas que eu não reconhecia.
Portões destruídos.
No centro havia uma praça.
E, no meio dela, uma estátua.
Era Vael.
Eu soube imediatamente.
Mesmo sem conhecer sua história, reconheci aqueles olhos.
A criatura representada na pedra possuía os mesmos chifres.
As mesmas garras.
A mesma postura.
Mas havia algo diferente.
Na estátua, Vael parecia...
Rei.
- Você construiu isso?
Ele olhou.
- Não.
- Então quem construiu?
- Meu povo.
- Seu povo?
- Sim.
Olhei novamente para a estátua.
- Onde estão eles?
Vael não respondeu.
Eu esperei.
- Vael.
- Mortos.
Meu peito apertou.
- Todos?
- Quase todos.
- O que aconteceu?
Ele continuou nadando.
- Uma guerra.
- Contra quem?
- Humanos.
Eu fiquei quieta.
Aquilo parecia importante.
- Humanos fizeram isso?
- Alguns.
- Por quê?
- Medo.
- Só isso?
- O medo faz os humanos destruírem coisas que não entendem.
A frase me incomodou.
Talvez porque fosse verdade.
- E você?
- O que tem eu?
- Você matou humanos?
Vael parou.
Olhou para mim.
- Sim.
Eu engoli em seco.
- Quantos?
- Não sei.
- Você não sabe?
- Foram muitos.
- Então você é um assassino.
- Sim.
A resposta foi tão simples que me deixou sem palavras.
Eu esperava uma justificativa.
Uma defesa.
Qualquer coisa.
Ele não ofereceu.
- Você não vai tentar dizer que eles mereciam?
- Alguns mereciam.
- E os outros?
Vael desviou o olhar.
- Não.
Meu estômago se revirou.
Eu queria odiá-lo.
Era mais fácil quando ele era apenas um monstro.
Quando era uma história.
Uma criatura sem rosto que habitava as profundezas.
Agora eu tinha um nome.
Vael.
E uma história.
E um passado cheio de mortos.
Talvez minha mãe estivesse certa.
Talvez eu devesse ter medo.
- Por que você não me matou?
Ele voltou a nadar.
- Eu já disse.
- Não.
- Disse.
- Você disse que eu era a escolhida.
- Sim.
- Isso não responde.
Vael não falou nada.
- Por que eu?
Silêncio.
- Por que minha família?
Silêncio.
- Por que esperou trezentos anos?
Ele parou.
Dessa vez, sua expressão mudou.
As marcas luminosas desapareceram.
- Porque ela prometeu.
- Quem?
- Elyra.
O nome fez alguma coisa dentro de mim.
Uma sensação estranha.
Como se eu já tivesse ouvido aquela palavra.
- Quem é Elyra?
Vael me encarou.
- Você realmente não sabe.
- Não.
- Sua mãe nunca contou?
- Contou o quê?
Ele aproximou o rosto do meu.
- Que você é a última.
Meu coração acelerou.
- Última o quê?
Vael não respondeu.
Eu segurei seu rosto com as duas mãos.
Ou tentei.
Minha palma alcançou apenas parte de sua mandíbula.
- Responda.
Ele olhou para minhas mãos.
Depois para mim.
- A última da linhagem.
- Qual linhagem?
- A dela.
- De Elyra?
- Sim.
- Quem era ela?
Vael fechou os olhos.
Quando os abriu novamente, havia algo parecido com dor.
- Minha noiva.
Eu parei de respirar.
- Sua...
Não consegui terminar.
Vael me soltou.
Comecei a afundar.
Dessa vez, ele não me segurou imediatamente.
Eu tentei nadar.
Foi um desastre.
Agitei os braços.
Bati as pernas.
Afundei mais.
- Vael!
Ele me agarrou.
- Você disse que não queria que eu tocasse em você.
- Eu não quero morrer!
- Então pare de afundar.
- Eu não sei como!
Ele me puxou contra seu peito.
- Fique quieta.
- Não me dê ordens!
- Você prefere continuar afundando?
- Não.
- Então fique quieta.
- Você é impossível.
- Você já disse.
Ele começou a nadar novamente.
Mas eu não conseguia parar de pensar naquilo.
Sua noiva.
Elyra.
Minha ancestral.
A mulher que havia existido trezentos anos antes.
A mulher que, de alguma maneira, havia prometido alguma coisa à criatura que agora me carregava.
- Vael.
- O quê?
- Você a amava?
Ele não respondeu imediatamente.
Apertei os lábios.
- Não precisa responder.
- Sim.
A palavra veio baixa.
Simples.
Crua.
Meu peito apertou.
Não sabia por quê.
Talvez fosse absurdo sentir qualquer coisa.
Talvez fosse apenas culpa.
Mas ouvir aquilo doeu.
- O que aconteceu com ela?
Vael ficou imóvel.
A água continuou passando ao redor de nós.
- Ela morreu?
Ele fechou os olhos.
- Não.
Meu coração acelerou.
- Então onde ela está?
Vael olhou para mim.
- Não sei.
- Você não sabe?
- Ela desapareceu.
- Quando?
- Na noite em que deveria vir até mim.
Meu corpo ficou rígido.
- O que aconteceu?
- Ela nunca chegou.
O silêncio entre nós se tornou pesado.
- E você esperou?
- Sim.
- Por trezentos anos?
- Sim.
Eu olhei para aquele monstro.
Para Vael.
Para a criatura que todos em Vespera chamavam de demônio.
E, pela primeira vez, uma pergunta diferente surgiu em minha cabeça.
E se ele estivesse dizendo a verdade?
- Então você não queria um sacrifício.
Vael me encarou.
- Não.
- Você queria Elyra.
- Sim.
- E quando ela não veio...
- Esperei.
- E depois enviaram outras mulheres.
- Sim.
- Você matou alguma delas?
- Não.
- Então o que aconteceu com elas?
Vael não respondeu.
- Vael.
- Não chegaram ao meu reino.
- O quê?
- Nenhuma delas.
Eu franzi a testa.
- Mas elas foram entregues.
- Foram.
- Eu não entendo.
- Eu sei.
- Então me explique!
Vael me olhou.
Dessa vez, sua expressão estava diferente.
Havia algo quase humano em seus olhos.
Algo que me fez esquecer, por um instante, que eu estava nos braços de um monstro.
- O pacto nunca exigiu uma morte.
Meu coração parou.
- Então o que exigia?
Vael se aproximou.
Sua voz caiu para um sussurro.
- Uma escolha.
Antes que eu pudesse perguntar qualquer coisa, o oceano ao nosso redor mudou.
Vael ficou tenso.
Seus músculos se contraíram.
- O que foi?
Ele não respondeu.
Olhei para trás.
Algo se movia na escuridão.
Uma sombra.
Depois outra.
E outra.
Vael me puxou contra o peito.
- Não olhe.
- Por quê?
- Mara.
Foi a primeira vez que ouvi medo na voz dele.
Eu olhei.
E me arrependi.
Havia dezenas de criaturas ao nosso redor.
Algumas possuíam corpos longos e finos.
Outras tinham bocas enormes.
Uma delas não possuía rosto.
Apenas uma abertura vertical cheia de dentes.
Elas nos cercaram.
Vael rosnou.
O som fez a água vibrar.
As criaturas recuaram.
Todas, exceto uma.
A maior.
Ela se aproximou.
Vael me colocou atrás dele.
Eu agarrei seu braço.
- O que são elas?
- Predadores.
- E por que estão aqui?
A criatura sem rosto abriu a boca.
Um som horrível atravessou a água.
Vael se virou para mim.
- Porque sentiram você.
- Sentiram o quê?
Seus olhos azuis encontraram os meus.
- Seu sangue.
Meu coração disparou.
- O que tem meu sangue?
Vael me segurou com uma das mãos.
- Muito.
- Vael...
Ele olhou novamente para as criaturas.
E eu percebi que as marcas em seu corpo estavam brilhando.
Intensamente.
Ele estava com raiva.
Não.
Aquilo era mais do que raiva.
Era posse.
Proteção.
Instinto.
- Fique atrás de mim.
- O que você vai fazer?
Vael abriu a boca.
As presas apareceram.
- Vou lembrar a elas quem governa este lugar.
A criatura avançou.
Vael também.
E, naquele instante, percebi que talvez eu tivesse cometido um erro.
Eu não havia sido levada para o reino de um monstro.
Eu havia sido levada para o reino de um rei.
E alguma coisa naquele lugar queria me devorar.
Eu deveria ter fugido.
Era a única coisa lógica a fazer.
Havia um grupo de criaturas predatórias cercando-nos no meio do oceano, e o único ser entre elas e mim era um monstro que eu conhecia havia menos de uma hora.
Ainda assim, quando Vael avançou, eu não consegui me afastar.
Segurei seu braço.
- Vael.
Ele parou.
A criatura que nos cercava também.
Era enorme.
Maior do que qualquer coisa que eu já tivesse visto.
Seu corpo parecia uma mistura grotesca de serpente e peixe, coberto por placas ósseas. Não possuía olhos. Apenas uma abertura vertical no rosto, que se abriu lentamente.
Dentes.
Centenas deles.
Meu estômago revirou.
- O que é isso?
Vael não respondeu.
- Vael.
- Fique atrás de mim.
- Você já disse isso.
- Então obedeça.
Eu quase revirei os olhos.
- Não me dê ordens.
Ele virou o rosto.
- Mara.
A maneira como disse meu nome fez meu corpo inteiro se arrepiar.
Não havia irritação em sua voz.
Havia algo mais.
Um aviso.
Olhei novamente para a criatura.
Ela se aproximou.
Vael rosnou.
O som foi tão profundo que senti a vibração dentro do peito.
A criatura recuou.
Eu arregalei os olhos.
- Você fez ela recuar.
- Sim.
- Por quê?
- Porque ela sabe quem eu sou.
- Quem você é?
Vael mostrou os dentes.
- O rei.
Meu coração bateu mais rápido.
O monstro sem rosto avançou novamente.
Dessa vez, Vael não esperou.
Ele desapareceu.
Não literalmente.
Seu corpo se moveu tão rápido que meus olhos não acompanharam.
Um instante estava diante de mim.
No outro, estava sobre a criatura.
As duas massas colidiram.
A água explodiu ao redor.
Eu fui empurrada para trás.
Girei.
Não sabia para onde estava indo.
Não sabia onde era cima.
Não sabia onde era baixo.
A única coisa que conseguia ver eram sombras.
Vael e a criatura lutando.
Garras.
Dentes.
Sangue.
Muito sangue.
O oceano ficou escuro.
Eu deveria ter fugido.
Mas não havia para onde ir.
Então ouvi um som.
Um grito.
Não de Vael.
Da criatura.
Olhei.
Vael havia cravado as garras no pescoço dela.
A criatura se contorceu.
Tentou escapar.
Ele não deixou.
Por um instante, os olhos de Vael encontraram os meus.
E eu entendi.
Ele não estava lutando para vencer.
Estava lutando para matar.
Meu estômago revirou.
- Vael!
Ele ignorou.
- Vael!
A criatura tentou atacá-lo novamente.
Ele arrancou uma parte de sua garganta.
O sangue se espalhou.
Eu gritei.
- Pare!
Vael congelou.
A criatura aproveitou.
Escapou.
Desapareceu na escuridão.
As outras foram atrás.
Em poucos segundos, estávamos sozinhos.
Vael permaneceu imóvel.
O sangue escorria por seu corpo.
Eu o encarava.
Ele olhou para mim.
- Você está ferida?
Balancei a cabeça.
- Não.
- Tem certeza?
- Sim.
Ele se aproximou.
Eu recuei.
Vael parou.
O silêncio entre nós foi estranho.
Eu olhei para as garras dele.
Ainda estavam cobertas de sangue.
- Você matou aquela coisa?
- Não.
- Você tentou.
- Sim.
- Por quê?
- Ela queria matar você.
- Então?
Vael parecia genuinamente confuso.
- Então eu tentei matá-la.
- Você não podia simplesmente mandá-la embora?
- Não.
- Por quê?
- Porque ela voltaria.
- E se voltasse?
- Eu a mataria.
A resposta foi simples.
Definitiva.
Eu engoli em seco.
- Você não hesita.
- Não.
- Você não sente culpa?
Vael me observou.
- Por matar um predador que tentava devorar você?
- Não foi isso que perguntei.
Ele permaneceu em silêncio.
- Vael.
- Eu sinto culpa pelos mortos.
Aquilo me surpreendeu.
- Sente?
- Sim.
- Mas você acabou de dizer que não hesitaria em matar aquela criatura.
- Não são coisas incompatíveis.
- Para mim são.
- Você é humana.
- E você não?
Vael ficou imóvel.
- Não.
- Eu sei que você não é humano.
- Não.
- Eu quis dizer...
Parei.
Ele me observava.
- Esqueça.
- Não.
- Vael.
- Você perguntou.
- Não quero mais saber.
- Por quê?
- Porque você transforma qualquer conversa em uma coisa estranha.
- Eu não entendo.
- Eu sei.
Ele continuou olhando para mim.
Então levantou uma das mãos.
Eu imediatamente recuei.
Vael parou.
- O que está fazendo?
- Você está sangrando.
Olhei para o próprio corpo.
Não havia sangue.
- Não estou.
- Eu.
Ele apontou para o próprio braço.
- Você está ferido?
- Não.
- Então...
- O sangue é da criatura.
- Ah.
Ele aproximou a mão do meu rosto.
Eu me afastei.
- Não.
Vael parou.
- Eu não vou machucar você.
- Eu sei.
- Então por que recuou?
- Porque você está coberto de sangue.
Ele olhou para si mesmo.
- Isso é um problema?
- É nojento.
Vael piscou.
- Nojento?
- Sim.
- Você prefere que eu esteja coberto de sangue humano?
Meu rosto perdeu a cor.
- O quê?
Ele inclinou a cabeça.
- Era uma pergunta.
- Você é horrível.
- Eu sei.
- Pare de dizer isso!
- Por quê?
- Porque...
Não consegui terminar.
Ele estava sorrindo.
Eu percebi.
Vael estava sorrindo.
Não como um humano.
Seus dentes continuavam assustadores.
Mas havia uma mudança em sua expressão.
Uma espécie de satisfação.
- Você está se divertindo.
- Sim.
- Comigo?
- Sim.
- Você é um idiota.
- Não sei o que isso significa.
- É melhor assim.
---
Continuamos a viagem.
Dessa vez, Vael nadou mais rápido.
Eu não reclamei.
Ainda estava pensando na luta.
Ele havia matado sem hesitar.
Talvez tivesse razão.
Talvez aquela criatura realmente tivesse me matado.
Mas havia algo que não conseguia esquecer.
Quando ele me viu com medo...
Ele parou.
Não porque eu pedi.
Não porque a criatura tinha fugido.
Ele parou porque eu disse seu nome.
Isso me incomodava.
Muito.
- Vael.
- Sim?
- O que aconteceu com as outras mulheres?
Ele continuou nadando.
- Já conversamos sobre isso.
- Não conversamos o suficiente.
- Não chegaram até mim.
- Mas foram enviadas.
- Sim.
- Então onde estão?
- Não sei.
- Isso não faz sentido.
- Muitas coisas não fazem sentido para você.
- Você poderia explicar.
- Poderia.
- Então explique.
Vael ficou em silêncio.
- Você faz isso de propósito?
- O quê?
- Fica em silêncio quando não quer responder.
- Sim.
- Isso é extremamente irritante.
- Eu sei.
- Vou jogar uma pedra em você.
- Você está no oceano.
- Então vou encontrar uma pedra.
- Boa sorte.
Eu cerrei os olhos.
Ele estava definitivamente se divertindo.
- Você acha que é engraçado?
- Às vezes.
- Você não parecia tão engraçado quando estava arrancando a garganta daquela criatura.
- Ela não era engraçada.
- Por que não?
- Porque queria comer você.
- Você está obcecado com essa história de me comer.
Vael parou.
Eu percebi tarde demais que havia falado alguma coisa errada.
Ele se virou.
- O que foi?
Seus olhos estavam fixos em mim.
- Você disse que eu estou obcecado.
- Sim.
- Com você.
- Não foi isso que...
- Foi.
- Não.
- Foi.
- Não foi!
- Você disse que estou obcecado com a ideia de alguém comer você.
- Isso não significa...
- Significa.
- Você é impossível.
Vael se aproximou.
Muito.
Meu corpo ficou tenso.
- Você tem medo de mim?
A pergunta era diferente dessa vez.
Mais séria.
Eu não respondi imediatamente.
Ele continuou:
- Eu perguntei antes.
- E eu respondi.
- Quero saber agora.
Olhei para ele.
A água se movia lentamente ao nosso redor.
- Sim.
Vael ficou imóvel.
- Por quê?
- Porque você é um monstro.
- Isso não explica.
- Porque você é muito maior do que eu.
- Isso também não explica.
- Porque você matou uma criatura diante de mim.
- Ela queria matar você.
- Ainda assim.
Ele ficou em silêncio.
- E porque você me levou contra a minha vontade.
A expressão dele mudou.
- Eu não sabia que você não queria vir.
- Eu disse.
- Depois que chegamos.
- Eu disse antes.
Vael pareceu confuso.
- Quando?
- Na vila.
- Você disse que eu era um monstro.
- E que não queria ir.
- Você disse muitas coisas.
- Eu estava tentando fugir!
- Sim.
- Então você deveria ter entendido.
Vael ficou imóvel.
Por um longo momento, não disse nada.
Então perguntou:
- O que significa ser escolhido?
Eu franzi a testa.
- O quê?
- Você disse que não queria ser escolhida.
- Sim.
- Mas eu não compreendo o que isso significa.
- Você não sabe?
- Não.
- Mas você disse que eu era a escolhida.
- Sim.
- Então como não sabe?
- Porque não fui eu quem escolheu você.
Fiquei em silêncio.
- Quem escolheu?
- Os humanos.
- Elias?
- Sim.
- Então por que me chama de escolhida?
Vael não respondeu.
Olhei para ele.
- Vael.
- Porque foi o que disseram.
- Quem?
- Os anciãos.
- Eles falaram com você?
- Há muitos anos.
- Quando?
- Quando o primeiro tributo foi enviado.
Meu coração acelerou.
- Você conheceu o primeiro?
- Sim.
- E depois?
- Conheci todos.
- Todas as mulheres?
- Sim.
- Você disse que nenhuma chegou ao seu reino.
- Nenhuma.
- Então como conheceu?
Vael parou.
Eu percebi que ele estava evitando a resposta.
- Você está mentindo.
- Não.
- Está.
- Não.
- Então explique.
- Não posso.
- Por quê?
- Porque não sei.
Aquilo me calou.
Vael desviou o olhar.
- Eu não sei onde elas foram parar.
- Você não tentou descobrir?
- Tentei.
- E?
- Não encontrei respostas.
- Por trezentos anos?
- Sim.
- Então por que continuou esperando?
Ele me encarou.
- Porque Elyra prometeu.
Meu coração apertou novamente.
- O que ela prometeu?
- Que voltaria.
- E você acreditou?
- Sim.
- Mesmo depois de trezentos anos?
- Sim.
- Você é um idiota.
- Talvez.
Dessa vez, não consegui evitar.
Ri.
Foi apenas um som curto.
Mas ri.
Vael ficou imóvel.
Eu parei.
- O quê?
Ele estava olhando para mim.
- Você riu.
- E daí?
- Você riu.
- Eu sei.
- Você não deveria estar rindo.
- Por quê?
- Você estava com medo de mim.
- Ainda estou.
- Mas riu.
- Uma coisa não impede a outra.
Vael pareceu pensar.
- Humanos são estranhos.
- Você já disse isso.
- Continuo achando.
- Problema seu.
- Sim.
Ele começou a nadar novamente.
E, dessa vez, eu não consegui impedir o sorriso.
---
O palácio surgiu diante de nós.
Eu não sabia que existiam palavras capazes de descrevê-lo.
A construção era gigantesca.
Erguia-se do fundo do oceano como uma cidade inteira.
Torres negras atravessavam a água.
Pontes ligavam estruturas enormes.
Janelas iluminadas brilhavam em azul.
Havia jardins.
Fontes.
Estátuas.
Tudo submerso.
Tudo impossível.
Eu fiquei olhando.
- É aqui?
- Sim.
- Você mora aqui?
- Sim.
- Sozinho?
- Sim.
- Por trezentos anos?
- Sim.
Meu peito apertou.
Não sabia por quê.
Talvez porque, pela primeira vez, eu tivesse conseguido imaginar.
Trezentos anos.
Sozinho.
Esperando alguém que nunca chegou.
Olhei para Vael.
Ele não parecia triste.
Mas talvez tivesse aprendido a esconder.
- Por que não foi até ela?
- A superfície não é meu lugar.
- Mas você foi até Vespera.
- Para buscá-la.
- E se ela estivesse lá?
- Eu a traria.
- Contra a vontade dela?
Vael me olhou.
- Não.
A resposta veio imediatamente.
- Então por que me trouxe?
- Porque achei que você fosse ela.
Meu coração parou.
- O quê?
- Quando vi você.
Ele olhou para mim.
- Eu pensei que fosse Elyra.
- Mas você sabia meu nome.
- Porque disseram seu nome.
- Então por que achou que eu era ela?
Vael não respondeu.
- Vael.
- Você se parece com ela.
- Eu nunca vi Elyra.
- Eu vi.
- E daí?
Ele se aproximou.
- Seus olhos.
Fiquei imóvel.
- O que tem meus olhos?
- São iguais aos dela.
- Minha mãe disse que eu tinha os olhos do meu pai.
- Sua mãe mentiu.
Eu senti uma pontada de raiva.
- Você não conhece minha mãe.
- Não.
- Então não diga que ela mentiu.
- Ela mentiu sobre Elyra.
- Talvez não soubesse.
Vael ficou em silêncio.
- Você disse que ela desapareceu.
- Sim.
- Talvez ela tenha voltado para a superfície.
- Não.
- Como sabe?
- Porque eu procurei.
- Onde?
- Em todos os lugares.
Aquela resposta me atingiu.
- Você procurou por ela?
- Sim.
- Por trezentos anos?
- Sim.
- E nunca desistiu?
Vael me encarou.
- Eu prometi esperar.
Não consegui responder.
Ele começou a nadar novamente.
Dessa vez, eu o segui.
---
Entramos no palácio.
A primeira coisa que senti foi frio.
Não o frio do oceano.
Um frio diferente.
O lugar parecia abandonado.
Havia corredores enormes.
Portas.
Salões.
Estátuas.
Mas nenhum som.
Nenhuma criatura.
Nenhum sinal de vida.
- Você realmente vive aqui sozinho?
- Sim.
- Isso é deprimente.
Vael olhou para mim.
- O que significa?
- Que é triste.
- Não é triste.
- É.
- Não.
- É.
- Não.
- Você é uma criatura de trezentos anos discutindo comigo sobre se sua casa é triste.
- Minha casa não é triste.
- É enorme e vazia.
- É silenciosa.
- É triste.
Vael parou.
- Você fala demais.
- E você fala de menos.
- Talvez.
- Pare de dizer talvez.
Ele continuou andando.
Entramos em um salão.
Havia uma mesa enorme.
Cadeiras.
Velas.
Tudo perfeitamente organizado.
Eu parei.
- Você esperava alguém?
Vael não respondeu.
Olhei para a mesa.
Havia apenas dois lugares.
Um diante do outro.
Meu estômago se apertou.
- Vael.
Ele não olhou para mim.
- Por que existem duas cadeiras?
- Porque sempre existiram.
- Isso não responde.
- Uma era dela.
Eu olhei para a cadeira.
- Elyra?
- Sim.
- Você nunca tirou?
- Não.
Meu peito apertou.
Aquilo era absurdo.
Três séculos.
E ele ainda mantinha uma cadeira esperando.
- Você realmente acreditava que ela voltaria.
- Sim.
- Até agora?
Vael me encarou.
- Até você.
Eu não consegui respirar.
Ele se aproximou.
Devagar.
Dessa vez, eu não recuei.
- Eu não sou ela.
- Eu sei.
- Então pare de olhar para mim como se eu fosse.
- Eu não olho.
- Olha.
- Não.
- Vael.
Ele ficou em silêncio.
- Eu não sou Elyra.
- Eu sei.
- Não sou sua noiva.
- Eu sei.
- Não fiz nenhuma promessa a você.
- Eu sei.
- Então pare de agir como se eu tivesse feito.
Vael permaneceu imóvel.
- Eu não sei o que você é.
A honestidade daquela frase me atingiu.
- E você?
Ele inclinou a cabeça.
- O que tem eu?
- O que você é para mim?
Vael pareceu pensar.
Por um longo tempo.
Então respondeu:
- Não sei.
Pela primeira vez, uma resposta dele me deu esperança.
Talvez aquilo significasse que eu ainda poderia ir embora.
Talvez ele realmente não soubesse.
Talvez eu ainda tivesse escolha.
Então ele se aproximou.
Colocou a mão sobre a mesa.
As garras tocaram a madeira.
- Mas sei o que você é para o Abismo.
Eu franzi a testa.
- O quê?
Vael olhou para mim.
- Perigo.
O chão tremeu.
Eu perdi o equilíbrio.
Vael me segurou.
- O que foi isso?
Ele não respondeu.
Outro tremor.
Mais forte.
Algo bateu contra o palácio.
Uma vez.
Duas.
Três.
Vael virou a cabeça.
Sua expressão mudou.
- O que está acontecendo?
Ele me soltou.
- Fique aqui.
- Nem pense nisso.
- Mara.
- Eu não vou ficar sozinha.
- Você está em perigo.
- Então me leve com você.
- Não.
- Por quê?
Vael se aproximou.
- Porque não sei o que está lá fora.
- Você acabou de dizer que é o rei.
- E daí?
- O rei deveria saber.
Ele me encarou.
- Você é irritante.
- Você já disse.
O chão tremeu novamente.
Dessa vez, uma rachadura surgiu na parede.
Vael imediatamente ficou diante de mim.
- Não se mova.
- Vael...
Ele rosnou.
Não para mim.
Para alguma coisa do lado de fora.
Então ouvi.
Uma voz.
Distante.
Vinda da água.
Uma voz humana.
- Mara.
Meu sangue gelou.
Era minha mãe.
- Mãe?
Vael virou-se para mim.
- Não.
- É ela.
- Não é.
- Como sabe?
A voz veio novamente.
- Mara!
Eu dei um passo.
Vael segurou meu braço.
- Não.
- É minha mãe!
- Não é.
- Solte-me!
A voz gritou novamente.
Dessa vez, porém, havia algo errado.
Minha mãe nunca pronunciava meu nome daquele jeito.
A voz parecia...
Vazia.
Como se alguém tivesse aprendido a imitá-la.
Olhei para Vael.
- O que é isso?
Ele me puxou para perto.
- Uma criatura que aprendeu seu nome.
- Por quê?
Os olhos dele ficaram luminosos.
- Porque agora ela sabe que você está aqui.
A voz veio novamente.
Mais perto.
- Mara.
Vael mostrou os dentes.
- E ela não deveria saber.
Eu senti o braço dele apertar minha cintura.
- O que ela quer?
Ele olhou para mim.
- Você.
- Por quê?
Vael ficou em silêncio.
Então disse:
- Porque você não é apenas a descendente de Elyra.
Meu coração parou.
- Então o que eu sou?
As portas do salão explodiram.
Vael me puxou contra o peito.
Uma criatura entrou.
Mas não era como as outras.
Ela tinha forma humana.
Pele pálida.
Cabelos longos.
Olhos negros.
E o rosto...
O rosto era o da minha mãe.
Eu gritei.
Vael me colocou atrás dele.
A criatura sorriu.
E falou com a voz dela.
- Finalmente encontrei você.
Vael rosnou.
A criatura olhou para ele.
- Rei Vael.
- Saia.
- Não.
- Você não pertence a este reino.
- Nem ela.
A criatura apontou para mim.
Vael se moveu.
- Não olhe para ela.
A coisa riu.
- Você ainda não contou?
- Cale-se.
- Ela não sabe.
- Cale-se!
- Não sabe o que existe em seu sangue.
Eu olhei para Vael.
- O que ela está falando?
Ele não respondeu.
- Vael.
A criatura sorriu.
- Pergunte ao seu monstro.
Meu coração bateu violentamente.
- O que existe no meu sangue?
Vael ficou imóvel.
A criatura recuou.
- Pergunte.
- Vael!
Ele fechou os olhos.
Quando os abriu, havia algo terrível neles.
- Você não é apenas humana.
O mundo pareceu parar.
- O quê?
- Mara...
- Você disse que eu era humana.
- Eu disse que você era descendente de Elyra.
- Isso não responde!
A criatura começou a rir.
Vael avançou.
- O sangue dela pertence ao Abismo.
E, naquele momento, eu compreendi que minha fuga de Vespera não havia me salvado.
Eu havia apenas trocado uma prisão por outra.
Porque, se Vael estivesse dizendo a verdade...
Talvez eu nunca tivesse sido humana de verdade.