Enquanto o mundo queimava do lado de fora da nossa cobertura, meu marido conseguiu duas passagens para a Iniciativa Hélio - a arca de um bilionário para as mentes mais brilhantes da humanidade. Eu era uma arquiteta de software genial que sacrificou a carreira pela dele, então presumi que a segunda passagem era minha.
Em vez disso, ele me pediu um divórcio temporário. Ele precisava levar legalmente sua protegida de olhos pidões, Katia, como sua "Colaboradora-Chave".
"É a única solução lógica", ele disse com calma, me entregando os papéis.
Ele explicou que o trabalho dele com ela era essencial para reconstruir a civilização, enquanto nosso casamento era mero "apego sentimental". Ele estava me abandonando, junto com minha mãe, que vendeu a casa para financiar a carreira dele, para morrermos.
Ele me ofereceu um "fundo" para que eu ficasse confortável enquanto o mundo acabava, insistindo que ainda me amava. O homem ao redor de quem eu construí minha vida estava me descartando como um acessório ultrapassado.
Mas ele cometeu um erro de cálculo fatal. Ele se esqueceu de que o bilionário que financiava a arca me devia um favor que mudaria minha vida. Minha mão tremia sem controle enquanto eu discava o número que não tocava há dez anos.
"Eduardo", sussurrei, "preciso cobrar aquele favor".
Capítulo 1
Ponto de Vista: Adriana
Meu marido me pediu um divórcio temporário para poder levar legalmente sua protegida para o santuário do fim do mundo em vez de mim.
Ele disse isso enquanto o mundo do lado de fora de nossas janelas hermeticamente fechadas estava literalmente em chamas.
O ar em nosso apartamento na cobertura era frio e filtrado, um contraste brutal com a fumaça densa e ocre que se tornara o céu permanente de São Paulo. As manchetes passavam silenciosamente na parte inferior da tela montada na parede, um fluxo constante de mercados em colapso, hiperinflação e tumultos. O Colapso Econômico Global, ou o CEG, como os comentaristas o chamavam, não era mais iminente. Ele havia chegado.
E a Iniciativa Hélio era a única arca em um mundo que se afogava no caos. Um centro de estudos hiper-exclusivo, financiado por um bilionário em uma ilha remota e autossuficiente. Não era apenas um abrigo; era um berçário para uma nova sociedade, selecionando a dedo as mentes mais brilhantes do mundo para reconstruir a partir das cinzas. Um bilhete dourado.
Bruno conseguiu um.
Dr. Bruno Matos, meu marido, o proeminente economista cujas teorias sobre a recuperação pós-colapso o transformaram em uma estrela. Eu o observava agora enquanto ele andava de um lado para o outro em nossa sala de estar de mármore, seu reflexo deslizando pelo chão polido. Ele parecia em todos os aspectos o salvador da era moderna - terno impecável, passo confiante, uma mente na qual o mundo estava apostando.
O convite havia chegado há uma semana. Um data-chip preto e elegante com o logotipo dourado do sol da Iniciativa Hélio. Concedia a ele uma vaga. E, especificava, ele tinha permissão para levar um "Familiar e Colaborador-Chave".
Um.
Eu sempre presumi que esse um seria eu. Adriana Alencar. A brilhante arquiteta de software que engavetou sua própria carreira em uma startup unicórnio para se tornar a Sra. Adriana Matos. A mulher que programou os complexos modelos preditivos que sustentaram seu trabalho inicial, que editou seus artigos até as três da manhã, que construiu o andaime para sua ascensão enquanto deixava seu próprio nome desaparecer na obscuridade.
Ele parou de andar e finalmente olhou para mim. Seu rosto bonito, aquele que eu amei com cada fibra do meu ser, era uma máscara de racionalidade fria.
"É a única solução lógica, Adri", disse ele, sua voz calma, como se estivesse explicando um derivativo financeiro complexo.
Minha respiração ficou presa na garganta. Senti como se o ar tivesse sido arrancado dos meus pulmões.
"Lógica?" A palavra saiu como um sussurro estrangulado.
"A Katia é essencial para o meu trabalho", ele continuou, sem um pingo de hesitação nos olhos. "A dissertação recente dela sobre alocação de recursos em sistemas fechados é revolucionária. Ela não é apenas minha protegida; é minha colaboradora mais vital. A Iniciativa é sobre reconstruir a civilização, não sobre sentimentalismo."
Katia Rocha. Sua protegida ambiciosa, de olhos pidões. A garota que o olhava com uma adoração que eu não conseguia mais demonstrar há anos. A garota cujo nome estava em seus lábios com cada vez mais frequência no último ano.
"Eu sou sua esposa", eu disse, minha voz tremendo. A afirmação parecia absurdamente simples, ridiculamente fraca contra a onda avassaladora de seu pragmatismo.
"E eu te amo", disse ele, as palavras soando como um tapa. "Isso não muda nada. É uma medida temporária. Uma formalidade."
Ele caminhou até o bar e deslizou uma pasta fina pela superfície polida em minha direção.
"O estatuto da Hélio tem uma brecha. Uma sociedade legal, como uma LTDA, se qualifica como uma entidade de 'Colaborador-Chave'. Um cônjuge não se qualifica automaticamente se o selecionado principal considerar outro colaborador mais crítico para seu trabalho." Ele tomou um gole de seu uísque, sua mão firme. "Para eu levar a Katia, precisamos formalizar nossa relação de trabalho. E para que isso seja limpo, legalmente, não podemos ser casados."
Eu encarei a pasta. Um divórcio rápido e consensual. Uma dissolução temporária do nosso casamento de oito anos para que ele pudesse salvar outra mulher.
O mundo lá fora estava acabando, e meu mundo aqui dentro estava se despedaçando. Era uma demolição fria e precisa.
"Você está me pedindo para assinar isso... para que você possa levá-la?" Eu não conseguia entender. A crueldade era tão profunda, tão clínica, que era quase surreal.
"Estou pedindo que você seja racional, Adriana. Isso é sobre sobrevivência. É sobre garantir que meu trabalho, nosso trabalho, continue. Assim que estivermos estabelecidos na ilha, assim que as coisas se estabilizarem, podemos resolver nosso futuro. Vou garantir que você seja cuidada aqui. Eu separei um fundo..."
Eu o ignorei. O zumbido de sua voz, que tantas vezes fora um conforto, agora era apenas ruído. Minha mente estava a mil, vasculhando os destroços da minha vida, procurando um pedaço de madeira na enchente. E então, um nome emergiu das profundezas da minha memória.
Eduardo Monteiro.
O magnata da tecnologia que financiava a Iniciativa Hélio. O bilionário visionário que eu salvara da ruína corporativa uma década atrás, quando eu ainda era Adriana Alencar, a prodígio da programação. Eu havia encontrado uma falha catastrófica no algoritmo principal de sua empresa horas antes de um grande lançamento de produto, uma falha que sua própria equipe não havia percebido. Trabalhei por 48 horas seguidas, movida a café e desespero, e o reconstruí do zero. Ele me ofereceu uma fortuna, um cargo sênior, qualquer coisa que eu quisesse. Eu recusei tudo para seguir Bruno para São Paulo para seu pós-doutorado.
"Eu te devo um favor que pode mudar sua vida, Alencar", Eduardo havia dito, colocando seu número pessoal em minha mão. "Nunca hesite em cobrar."
Eu nunca o fiz. Até agora.
Meus dedos desajeitados puxaram meu celular do bolso. Bruno ainda estava falando, expondo seu plano cruel e lógico para o meu abandono. Ele nem percebeu quando me levantei e fui para o quarto, fechando a porta atrás de mim.
Meu coração martelava contra minhas costelas enquanto eu encontrava o contato antigo. E. Monteiro.
Tocou duas vezes.
"Monteiro." Sua voz era exatamente como eu me lembrava. Nítida, decisiva, sem rodeios.
"Eduardo", eu disse, minha própria voz tremendo. "É a Adriana. Adriana Alencar."
Houve uma pausa do outro lado, apenas por um segundo.
"Alencar", disse ele, uma nota de calor entrando em seu tom. "Eu estava me perguntando se algum dia ouviria de você. Faz muito tempo. Tudo bem?"
Lágrimas arderam em meus olhos.
"Não", consegui dizer. "Não, não está. Preciso cobrar aquele favor."
Expliquei a situação em frases curtas e sem emoção. A vaga na Hélio. Meu marido. Sua protegida. Os papéis do divórcio no balcão.
Ele ouviu sem interrupção. Quando terminei, a linha ficou em silêncio por um momento. Eu podia ouvir o zumbido fraco de uma sala de servidores ao fundo.
"Ele é um idiota", disse Eduardo finalmente, sua voz carregada de uma fúria fria que de alguma forma era reconfortante. "Me dê dez minutos."
A linha ficou muda.
Voltei para a sala de estar. Bruno havia parado de andar e estava olhando para o relógio.
"Quem era?" ele perguntou, um toque de irritação em sua voz. "Não temos tempo para ligações sociais, Adriana."
"Era engano", menti, minha voz surpreendentemente firme.
Ele suspirou, apertando a ponte do nariz. "Olha, Adri, eu sei que isso é difícil. Mas você precisa encarar a realidade. Não há outras opções. Os transportes partem em quarenta e oito horas. Você não tem mais nenhuma conexão que importe. Você abriu mão de tudo isso, lembra?"
A condescendência em sua voz foi a facada final. Ele não me via apenas como descartável; ele me via como impotente. Um acessório que ele não podia mais se dar ao luxo de manter.
"Minha mãe", eu disse abruptamente, o pensamento dela sozinha em seu pequeno apartamento cortando minha névoa de dor. "Carolina. Se eu assinar isso, você tem que encontrar uma maneira de conseguir uma vaga para ela. Você tem que me prometer."
Ela havia investido todas as suas economias de vida no doutorado dele. Ela vendeu sua casa para nos sustentar quando estávamos começando. Ela era financeiramente dependente de nós, dele.
Bruno me encarou, seu rosto indecifrável. Ele pegou seu copo de uísque e tomou um gole longo e lento. Ele não disse uma palavra.
O silêncio era sua resposta.
Olhei para o rosto dele, o rosto ao lado do qual eu acordei por oito anos, e vi um estranho. Lembrei-me do dia do nosso casamento, sob um dossel de ipês. Ele pegou minhas mãos, seus olhos cheios do que eu acreditava ser adoração, e sussurrou: "Você e eu, Adri. Contra o mundo. Sempre."
Sempre.
Que porra de piada.
Ponto de Vista: Adriana
"Ela é um recurso não essencial", Bruno disse finalmente, sua voz impassível. Ele pousou o copo de uísque com um clique suave no balcão de mármore. "Carolina é uma mulher adorável, mas não tem habilidades críticas. Este é um gargalo genético e intelectual, Adriana. Estamos preservando o futuro da espécie, não administrando uma instituição de caridade."
"Ela pagou pelo seu futuro, Bruno!" retruquei, minha voz falhando. "Essa mulher 'não essencial' vendeu a casa dela para que você pudesse fazer seu doutorado!"
"E sou grato por isso", disse ele, seu tom irritantemente razoável. "Mas contribuições passadas não entram na equação agora. O cálculo é brutal, mas é simples. A contribuição potencial de Katia para o novo mundo é quantificável e imensa. A da sua mãe não é."
"E nossos votos?" perguntei, minha voz caindo para um sussurro rouco. "A parte do 'na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza'. Foi só uma piada? Não fazia parte da equação?"
Ele teve a audácia de parecer atormentado. "Claro que não. Mas esses votos foram feitos para um mundo que não existe mais. Temos que nos adaptar, Adri. Temos que ser pragmáticos."
Suas palavras foram como um balde de água gelada jogado sobre minha cabeça, chocando meu sistema em uma clareza fria e entorpecida. Senti os últimos vestígios de amor por ele congelarem e se estilhaçarem em um milhão de pequenos fragmentos. O calor do mundo moribundo lá fora pressionava contra o vidro triplo, mas dentro de nossa tumba climatizada, eu nunca me senti tão fria.
Ele empurrou a pasta em minha direção novamente. "Apenas assine. É temporário. Uma ficção legal."
Eu encarei o papel branco e nítido lá dentro. DISSOLUÇÃO DE CASAMENTO. Matos vs. Alencar. Não era uma ficção. Era o fato mais frio e duro na sala.
Minha mão tremeu quando a alcancei. "Você não pode estar falando sério. Um divórcio?"
"É apenas um pedaço de papel, Adri. Não significa nada sobre como me sinto."
"Significa que você está formando uma sociedade legal com ela", eu disse, minha voz oca. "Significa que você a está levando para a segurança e deixando a mim e minha mãe para morrer."
"Não seja dramática", ele retrucou. "Eu te disse, preparei um fundo para você. Você ficará mais confortável do que noventa e nove por cento da população."
Um fundo. Ele estava me oferecendo dinheiro para assistir ao mundo queimar de um assento um pouco melhor.
"É só para colocá-la no transporte como minha 'colaboradora-chave'", explicou ele, sua voz suavizando para um tom apaziguador que agora eu reconhecia como pura manipulação. "Assim que estivermos lá, é irrelevante. No meu coração, você ainda será minha esposa. Eu te amo, Adri. Só você."
As palavras, que antes teriam feito meu próprio coração cantar, tinham gosto de cinzas na minha boca. Era uma mentira. Tudo. Uma mentira que ele contava a si mesmo para justificar a coisa monstruosa que estava fazendo.
Quando isso começou? Eu me perguntei, uma parte desapegada do meu cérebro analisando os dados. Foi quando parei de corrigir as falhas em seus modelos e apenas o deixei publicá-los? Foi quando recusei o cargo de Diretora de Tecnologia naquela empresa de biotecnologia porque ele disse que exigiria muitas viagens? Ou foi no dia em que ele trouxe Katia para jantar pela primeira vez, seus olhos arregalados de adoração pelo grande Dr. Matos, e eu vi um brilho de algo em seus próprios olhos - não apenas orgulho, mas uma fome pelo tipo de validação que eu não lhe dava mais?
"No seu coração", repeti, as palavras pingando com um sarcasmo que eu não sabia que possuía. "Isso é reconfortante. Tenho certeza de que isso e o 'fundo' serão um ótimo escudo contra as erupções de radiação e as guerras por recursos."
Sem outra palavra, peguei a caneta do porta-canetas na mesa. Minha mão estava perfeitamente firme agora. Eu a destampei e assinei meu nome na linha. Adriana Alencar. Não Matos. Alencar.
O traço da caneta pareceu uma ruptura. Um corte limpo.
Bruno estendeu a mão para o papel, um sorriso aliviado começando a se formar em seus lábios, mas eu o segurei.
"Você parecia esperar uma briga", eu disse, minha voz desprovida de emoção.
Seu sorriso vacilou. "Bem, eu... eu sei que isso é emocional para você."
"Não é emocional", eu disse, meu olhar nivelado com o dele. "É uma transação. Você fez sua escolha."
"Adri, assim que eu me estabelecer, encontrarei uma maneira...", ele começou, estendendo a mão para a minha.
Eu me afastei como se seu toque fosse tóxico. Deslizei o documento assinado pela mesa. "Não."
"Não o quê?"
"Não faça promessas que você não tem intenção de cumprir. É um insulto." Virei-me e me afastei dele, em direção à vasta janela com vista para a cidade fumegante.
Ele soltou um suspiro exasperado. "Tudo bem. Fique assim. Embure. Mas em algumas semanas, quando você estiver segura e confortável, perceberá que eu tomei a decisão certa. A única decisão."
Eu não respondi. Apenas olhei para a névoa amarelada e doentia, sentindo um estranho vazio onde meu coração costumava estar. Ele ficou do seu lado da sala, e eu fiquei do meu. O espaço entre nós, antes preenchido com amor e risos, era agora um abismo de pragmatismo frio e duro.
Uma única lágrima escapou e traçou um caminho pela minha bochecha. Eu a enxuguei antes que ele pudesse ver. Eu não lhe daria essa satisfação.
Naquela noite, o sono foi um luxo que eu não podia me permitir. A rede elétrica da cidade estava falhando novamente, e o zumbido intermitente do gerador de reserva do nosso prédio era a única coisa entre nós e o calor sufocante. Cada rangido do prédio, cada sirene distante, era um lembrete do mundo em decomposição e do meu bilhete de sobrevivência que expirava rapidamente.
Por volta das 2 da manhã, um zumbido frenético veio da sala de estar. O celular de Bruno.
Eu o ouvi se mexer, o farfalhar dos lençóis enquanto ele o procurava. Ele estava tentando ser silencioso, tentando não me acordar. Como se eu estivesse dormindo. Como se eu pudesse dormir ao lado dele novamente.
Ele saiu do quarto, sua voz um murmúrio baixo. Alguns minutos depois, ouvi o som da porta da frente.
Meu sangue gelou.
Saí da cama e me arrastei até a porta do quarto, abrindo-a apenas o suficiente para ver.
Lá, parada na porta, estava Katia Rocha. Seu rosto estava manchado de sujeira, suas roupas um pouco desgrenhadas. Ela parecia em pânico.
"Bruno, graças a Deus", ela soluçou, praticamente caindo em seus braços. "A energia acabou no meu prédio. Os sistemas de segurança caíram... pessoas estavam tentando arrombar. Eu estava com tanto medo."
"Está tudo bem, você está segura agora", ele murmurou, abraçando-a.
"Posso... posso por favor ficar aqui esta noite?" ela perguntou, sua voz pequena e suplicante. "Só no sofá? Não sei para onde mais ir."
Eu me preparei, esperando que ele fizesse a coisa decente. Dizer não. Dizer a ela que isso era inapropriado. Ter um pingo de respeito pela mulher cujo casamento ele acabara de pedir para dissolver.
"Claro", disse Bruno, acariciando o cabelo dela. "Você pode ficar no quarto de hóspedes. Apenas fique quieta. Não queremos acordar a Adriana."
O quarto de hóspedes. O quarto em que minha mãe sempre ficava.
Katia se afastou um pouco, seus olhos se voltando para a porta do nosso quarto. "Obrigada, Bruno. Você é meu herói."
Então seus olhos encontraram os meus através da fresta na porta. Não havia medo neles. Apenas um triunfo frio e calculado.
"Ela não vai se importar, vai?" Katia perguntou, sua voz tingida de falsa preocupação.
A mandíbula de Bruno se contraiu. Ele a conduziu em direção ao quarto de hóspedes, de costas para mim. "Não importa se ela se importa", disse ele, sua voz baixa e firme. "Sua segurança e seu foco são minha prioridade. Você é o futuro, Katia. Não podemos deixar nada comprometer isso."
Foi a coisa mais honesta que ele disse o dia todo.
Ele não estava apenas a escolhendo para a arca. Ele já havia me substituído em sua vida. Eu era apenas um detalhe administrativo que ele precisava resolver.
Um nó frio e duro de desespero se apertou em meu estômago. O futuro do qual ele estava falando, aquele que ele estava tão determinado a proteger, não tinha lugar para mim. Eu era obsoleta.
Naquele exato momento, meu celular, apertado em minha mão, vibrou silenciosamente. Olhei para a tela. Uma nova mensagem criptografada.
Remetente: Iniciativa Hélio - Gabinete do Fundador.
Mensagem: Sua solicitação foi aprovada. Transporte e Acomodações para Você +1 (Carolina Alencar) estão confirmados. Detalhes a seguir. Bem-vinda à Hélio, Sra. Alencar.
Um suspiro escapou dos meus lábios, uma inspiração aguda que era parte choque, parte alívio. Era real. Eu tinha um bote salva-vidas.
E eu ia me agarrar a ele com tudo o que tinha.
Ponto de Vista: Adriana
A mensagem de confirmação do escritório de Eduardo foi um facho de luz em um quarto totalmente escuro. Pela primeira vez no que pareceu uma eternidade, eu consegui respirar. Foi uma respiração superficial, mas era minha.
Eu não dormi. Fiquei deitada na cama, ouvindo o silêncio do apartamento. Um silêncio que de alguma forma era mais condenatório do que gritos teriam sido. Bruno nunca voltou para o quarto. Ele provavelmente estava no sofá, montando guarda do lado de fora do quarto de hóspedes onde seu "futuro" estava dormindo.
Imaginei-o lá fora, criando uma nova narrativa. Ele me diria de manhã que era seu dever proteger sua colaboradora-chave. Que o estado emocional dela era primordial para o sucesso do trabalho deles. Ele tinha uma desculpa para tudo, uma racionalização para cada crueldade.
Eu estava tão cansada de suas desculpas. Estava cansada de lutar uma batalha que eu já havia perdido.
A luta não era mais sobre ele. Não era sobre nosso casamento morto.
Era sobre minha mãe. Era sobre sobrevivência.
Eu tinha minha saída. Só precisava passar pelas próximas trinta e seis horas.
Finalmente caí em um sono tenso e sem sonhos, bem quando o céu negro começou a clarear para seu cinza doentio habitual. Acordei com o cheiro de café. Café de verdade, um luxo racionado.
Quando entrei na cozinha, a cena era de uma domesticidade surreal. Bruno estava no fogão, fazendo ovos. E Katia estava encostada no balcão, bebendo de uma caneca.
Minha caneca.
Era uma caneca de cerâmica feita sob medida, um presente de aniversário bobo de anos atrás. Tinha uma linha de código impressa nela - o primeiro loop elegante que eu já havia escrito, algo de que me orgulhava desde a universidade. Bruno a mandou fazer para mim. "Para minha gênia", dizia o cartão.
Katia me viu e ofereceu um sorriso brilhante e falso. "Ah, bom dia, Adriana! Espero que não se importe. Não consegui encontrar nenhuma outra caneca limpa."
A mentira era tão descarada que era quase impressionante. Os armários estavam cheios de canecas.
"Eu estava apavorada ontem à noite", ela continuou, sua voz cheia de uma vulnerabilidade ensaiada. "Bruno foi tão heroico, me deixando ficar."
Olhei para além dela, para Bruno. Ele não encontrou meus olhos. Apenas raspou os ovos para um prato. "Tem café", ele murmurou, gesticulando com a espátula.
Katia ergueu a caneca. Minha caneca. "É tão única! Bruno, o que o código significa?"
"Não é nada", disse ele, sua voz curta. Ele olhou para mim, um brilho de algo - irritação? culpa? - em seus olhos. Ele se virou de volta para Katia. "Apenas um projeto antigo da universidade. Pode ficar com ela se quiser."
Meu estômago revirou. Não foi um golpe físico, mas pareceu um. Aquela caneca era uma relíquia de um tempo em que ele me via, quando celebrava minha mente. Agora, ele a estava dando como um bibelô barato.
"Vou sair", anunciei, minha voz impassível.
A cabeça de Bruno se ergueu. "O quê? Você não pode. Não é seguro. Os alertas finais de lockdown estão sendo emitidos."
"Vou buscar minha mãe", eu disse, caminhando em direção ao armário do corredor para pegar minha jaqueta.
"Adriana, seja razoável!" disse ele, me seguindo. "Estaremos partindo amanhã de manhã. Não faz sentido."
"Faz todo o sentido", eu disse, calçando meus sapatos.
Katia apareceu ao seu lado, colocando uma mão delicada em seu braço. "O Bruno está certo, Adriana. É perigoso. Não gostaríamos que nada acontecesse com você." A falsa preocupação em sua voz fez minha pele arrepiar.
"Vou trazê-la para cá", eu disse, minha mão na maçaneta. "Vamos esperar nosso transporte juntas."
"Isso é ridículo!" Bruno explodiu, agarrando meu braço. "Ela não pode vir conosco! Quantas vezes eu tenho que dizer isso?"
No movimento súbito, seu cotovelo bateu na mão de Katia. Ela gritou quando a caneca de cerâmica, minha caneca, escorregou de suas mãos e se espatifou no chão de mármore.
Café quente e cacos do meu passado se espalharam pela pedra branca imaculada.
Bruno congelou, olhando para a bagunça. Por uma fração de segundo, vi um lampejo de arrependimento genuíno em seus olhos enquanto ele olhava para os pedaços de código quebrados. Um fantasma do homem que ele costumava ser.
Então desapareceu, substituído por frustração.
"Agora olha o que você fez", ele retrucou, como se a culpa fosse minha.
Arranquei meu braço de seu aperto, minha última conexão com ele se quebrando com o som da caneca se estilhaçando.
"Não me toque", rosnei, minha voz baixa e perigosa.
Não lhes dei outro olhar. Abri a porta e saí para o corredor, deixando-os parados ali, em meio aos destroços que eles mesmos criaram.