Alice Medeiros secretamente agendou uma sessão de cinema adaptada para seu irmão autista, Davi, um raro ato de rebeldia contra seu noivo controlador, Guilherme Rizzo.
Guilherme, um poderoso herdeiro do ramo imobiliário, descobriu e se vingou torturando Davi remotamente com luzes estroboscópicas e ruídos estridentes, forçando Alice a assistir ao terror de seu irmão.
Ele a manteve cativa, fazendo-a testemunhar a agonia de Davi, tudo porque sua nova obsessão, uma estagiária chamada Kátia, alegou que Alice lhe deu um "olhar torto".
A crueldade aumentou, sempre ligada aos caprichos de Kátia. Se Kátia reclamava, Davi sofria. Quando Kátia fingiu um acidente de carro, Guilherme forçou Alice, que era anêmica, a doar sangue para Kátia, apenas para vê-lo ser descartado.
O mundo de Alice desmoronou. Ela percebeu que Guilherme via Davi como uma arma e ela como um objeto descartável.
O golpe final veio quando Guilherme, por uma falsa acusação de Kátia, matou brutalmente a amada égua de Alice, Estrela, bem na frente dela. Este ato monstruoso acendeu uma raiva fria e clara dentro de Alice, empurrando-a para o seu limite. Ela sabia que tinha que escapar, não apenas por si mesma, mas por Davi.
Capítulo 1
Alice Medeiros marcou o horário em segredo. Era para uma sessão de cinema adaptada, um evento raro projetado para crianças como seu irmão, Davi. Ela usou um cartão pré-pago e um e-mail descartável, cobrindo seus rastros com a precisão de uma espiã. Era um pequeno ato de desafio, uma minúscula bolha de normalidade que ela tentava criar para ele.
Guilherme Rizzo descobriu mesmo assim. Ele sempre descobria.
Ele parou na porta da sala de estar de sua cobertura, uma silhueta contra o horizonte cintilante de São Paulo. O sorriso em seu rosto estava errado. Não alcançava seus olhos.
"Planejando um passeio, meu bem?", ele perguntou.
O monitor na parede mostrava o quarto de Davi. Seu irmão, com dezessete anos, mas com a mente de uma criança pequena, balançava-se para frente e para trás em sua cama, cantarolando baixinho enquanto alinhava seus blocos coloridos. Ele estava calmo. Estava seguro. Por enquanto.
Guilherme caminhou até o painel de controle montado na parede. Era um sistema personalizado que ele havia instalado, um que podia manipular cada aspecto do ambiente de Davi.
"Você conhece as regras, Alice", disse Guilherme, sua voz perigosamente suave. "Se quiser fazer algo com ele, você me pede primeiro."
Ele apertou um interruptor.
Na tela, o quarto de Davi explodiu em caos. Luzes estroboscópicas piscavam erraticamente, e um guincho agudo e dissonante encheu o ar. Davi se encolheu, levando as mãos aos ouvidos. Ele soltou um lamento de puro terror, seu corpo se curvando em uma bola apertada na cama.
"Para com isso!", gritou Alice, avançando para o painel.
Guilherme segurou seu pulso, seu aperto como aço. "Ainda não. Ele precisa aprender. E você também."
Ele a segurou no lugar, forçando-a a assistir. Os gritos de Davi rasgavam os alto-falantes, um som que partia o coração de Alice em pedaços. Ela podia sentir seu terror, sua confusão, sua dor. Ele estava preso em um inferno sensorial, e o homem que ela um dia pensou amar era o demônio puxando as alavancas.
"Por favor, Guilherme, ele não fez nada de errado", ela implorou, lágrimas escorrendo pelo seu rosto. "Fui eu. Me castigue."
"Ah, eu estou", disse Guilherme, seu olhar fixo na tela. Ele parecia se deliciar com a cena. "Isso te machuca muito mais do que qualquer coisa que eu pudesse fazer com o seu corpo, não é?"
Ele estava certo. Sua própria dor era um eco distante comparado a isso. Davi era seu mundo.
"Por que você está fazendo isso?", ela soluçou, sua voz quebrando.
O polegar de Guilherme acariciou o controle remoto do sistema. Mais um toque e o volume aumentaria, as luzes piscaram mais rápido. "Eu vi a Kátia chorando hoje."
O sangue de Alice gelou. Kátia Rodrigues. A estagiária ambiciosa, de olhos inocentes, que havia se tornado a nova obsessão de Guilherme.
"O que isso tem a ver com o Davi?"
"Ela disse que você olhou torto para ela no corredor. Fez ela se sentir mal recebida", disse Guilherme, seu tom casual, como se estivesse discutindo o tempo. "Isso a chateou. E quando a Kátia fica chateada, eu fico chateado. E quando eu estou chateado..." Ele gesticulou para a tela, onde Davi agora se debatia, seus pequenos gemidos de dor mal audíveis sobre o barulho. "Ele paga o preço."
O mundo girou. Um olhar. Ele estava torturando seu irmão autista por causa de um olhar que Kátia alegou que ela deu.
Seu corpo amoleceu, a luta se esvaindo dela. Ela deslizou para o chão, seu olhar preso no monitor. As lágrimas embaçaram sua visão. "Ele é tudo que eu tenho, Guilherme."
"Eu sei", disse Guilherme, agachando-se na frente dela. Ele enxugou uma lágrima de sua bochecha com o polegar, um gesto que um dia foi terno e agora parecia uma violação. "É isso que o torna uma arma tão perfeita."
Ele sorriu aquele mesmo sorriso errado novamente. "Agora, você ainda quer levá-lo ao cinema sem a minha permissão?"
Ela balançou a cabeça, um soluço engasgado escapando de seus lábios.
"Boa menina."
Ele se levantou e desligou o sistema. O silêncio caiu, quebrado apenas pelo som da respiração ofegante e assustada de Davi vindo do alto-falante. Guilherme olhou para ela, sua expressão indecifrável.
"Você deveria ter se lembrado do seu lugar, Alice", disse ele. "Você está aqui porque eu permito. Nunca mais se esqueça disso."
Ele se afastou, deixando-a encolhida no chão de mármore frio, a imagem de seu irmão aterrorizado gravada em sua mente.
Nem sempre tinha sido assim.
Alice Medeiros era uma ninguém da Mooca. Uma estudante de psicologia na Mackenzie, com dois empregos para pagar o aluguel do minúsculo apartamento que dividia com Davi depois que seus pais morreram em um acidente de carro há dois anos. Ela era feroz e determinada, movida por um amor por seu irmão que era o sol em seu universo. Ele era sua razão para tudo.
Guilherme Rizzo era o herdeiro do império imobiliário Rizzo. Seu nome estava em metade dos prédios dos Jardins. Ele era um príncipe da cidade, poderoso, carismático e acostumado a ter tudo o que queria.
Eles se conheceram por acaso em uma gala de caridade onde ela estava trabalhando como garçonete. Ele derramou champanhe em seu uniforme barato e, em vez de ficar irritada, ela apenas lhe entregou um guardanapo e disse: "Não se preocupe, é alugado."
Ele ficou intrigado. Ele nunca tinha conhecido uma mulher que não estivesse tentando impressioná-lo.
Sua conquista foi lendária. Ele enviou mil rosas brancas para o apartamento apertado dela, um gesto tão grandioso que bloqueou o corredor. Ele mandou escrever no céu sobre o Parque Ibirapuera: "Alice Medeiros, quer sair comigo?". Foi um espetáculo para toda a cidade.
Alice ficou apavorada. Ela tentou fugir. Sabia que não pertencia ao mundo dele de jatos particulares e riqueza infinita. Isso era um jogo para ele, o capricho passageiro de um menino rico.
Mas ele foi persistente. Ele apareceu em seu segundo emprego, uma lanchonete decadente, e apenas sentou em uma cabine por horas, bebendo café e observando-a trabalhar. Ele não forçou. Apenas esperou. Uma noite, ele a encontrou encolhida no beco, chorando de exaustão. Ele tirou seu casaco de milhares de reais e a envolveu, depois a levou para casa em seu carro preto elegante sem dizer uma palavra.
Esse foi o momento em que suas defesas começaram a ruir.
Ele era bom para Davi. Contratou os melhores terapeutas, encontrou as melhores escolas. Ele comprou um cavalo para ela, uma linda égua que ela chamou de Estrela, realizando um sonho de infância que ela havia enterrado há muito tempo. Ele sussurrou em seu ouvido que cuidaria dela, que ela nunca mais teria que se preocupar.
E ela acreditou nele. De pé no cemitério no aniversário da morte de seus pais, com o braço de Guilherme em volta dela, ela disse às lápides deles que finalmente havia encontrado alguém. Alguém que a amaria e protegeria a ela e a Davi.
Ela pensou que tinha encontrado um conto de fadas.
Então veio Kátia Rodrigues. Ela era uma nova assistente em sua empresa, toda de olhos arregalados e inocência fingida. E Guilherme, um homem que se deliciava com a novidade, ficou instantaneamente apaixonado.
Kátia.
O nome surgiu pela primeira vez durante um jantar casual. Guilherme estava rolando o celular, com uma carranca no rosto.
"Essa nova leva de estagiários é inútil", ele resmungou. "Uma proposta de milhões de reais, e eles usaram a fonte errada."
Alice estendeu a mão sobre a mesa e colocou-a sobre a dele. "Não se estresse com isso. Você pode consertar de manhã."
"Vou levar uma equipe para Angra dos Reis neste fim de semana para resolver isso", disse ele, sem levantar o olhar. "As reservas estão todas feitas. Thompson, Hayes e Rodrigues."
Alice parou. Thompson e Hayes eram seus VPs seniores, ambos na casa dos cinquenta. Mas Rodrigues?
"Quem é Rodrigues?", ela perguntou, um pequeno nó de desconforto se apertando em seu estômago. Nos dois anos em que estiveram juntos, Guilherme nunca teve uma mulher em seu círculo profissional próximo. Ele dizia que era "mais limpo" assim.
Guilherme finalmente levantou o olhar, uma luz estranha em seus olhos. "Kátia Rodrigues. A nova estagiária. Ela é... perspicaz. Diferente."
O nó em seu estômago se apertou. "Você vai levá-la para Angra? Só com você e dois sócios seniores?"
Ele deu de ombros, desdenhoso. "É trabalho, Alice. Não seja dramática. Você sabe como este mundo funciona. Conexões são tudo para uma garota como ela." Ele então sorriu, aquele sorriso charmoso e desarmante que costumava derretê-la. "Além disso, é para você que eu volto para casa. Você será a futura Sra. Rizzo. Isso é tudo que importa."
Ela queria acreditar nele. Ela se agarrou a essa promessa, a esse futuro que ele pintava tão lindamente. Então ela engoliu sua dor e não disse nada. Disse a si mesma que era apenas um interesse passageiro. Um jogo de homem rico.
Mas não era.
A estagiária "perspicaz" tornou-se uma presença permanente. No início, eram pequenas coisas. Guilherme mencionava a ideia inteligente de Kátia em uma reunião, ou ria de uma piada que Kátia contou. Então, Kátia começou a aparecer em jantares, em eventos, sempre ao lado de Guilherme, seus olhos cheios de adoração por ele e um triunfo mal disfarçado quando olhava para Alice.
Os sussurros começaram. Alice se tornou "a antiga", a substituta. Kátia era a nova e excitante favorita.
Uma noite, Alice os encontrou na biblioteca. Kátia estava empoleirada no braço da cadeira de Guilherme, a mão apoiada em seu ombro. Eles riam intimamente. Alice se sentiu uma intrusa em sua própria casa.
"Guilherme", ela disse mais tarde naquela noite, sua voz tremendo. "Você prometeu. Você prometeu que era só eu."
"E é", disse ele, sem encontrar seus olhos.
"Então a demita", Alice implorou. "Mande-a embora. Transfira-a. Eu encontrarei outro emprego para ela, um melhor, eu juro. Apenas a afaste de nós."
O rosto de Guilherme endureceu. Seus olhos, antes cheios de paixão por ela, tornaram-se lascas de gelo frias e duras. "Não se atreva a me dizer o que fazer, Alice. E não se atreva a ameaçar a carreira da Kátia. Qualquer um que falar mal dela descobrirá como é não ter nada."
Ele se inclinou para mais perto, sua voz caindo para um sussurro aterrorizante. "E se você insistir nisso, vou me certificar de que Davi acabe em uma instituição pública tão imunda que você não deixaria um rato viver lá. Você me entendeu?"
A ameaça pairou no ar, sufocando-a. Ele estava amarrando o destino de Davi ao seu silêncio.
A partir daquele dia, a crueldade começou. Foi lenta no início, depois escalou com um ímpeto aterrorizante. Estava sempre ligada a Kátia. Se Kátia reclamava que Alice era fria com ela, a música calmante favorita de Davi era substituída por um ruído estridente por uma hora. Se Kátia queria uma nova bolsa de grife que Alice tinha, Guilherme fazia Alice entregá-la a ela, e então assistia enquanto Kátia "acidentalmente" derramava vinho nela.
Tornou-se um jogo doentio e perverso. Guilherme usava os desejos de Kátia para atormentar Alice, e Kátia, deleitando-se em seu poder, tornava-se cada vez mais exigente em suas queixas.
O incidente com a sala sensorial foi apenas a última e mais brutal virada.
Depois que Guilherme saiu, Alice correu para o monitor, suas mãos tremendo. Davi ainda estava encolhido, mas sua respiração estava se acalmando.
Ela tinha que tirá-lo de lá. Tinha que tirar os dois de lá.
No dia seguinte, enquanto Guilherme estava em uma reunião, ela levou Davi ao hospital para um check-up. O rosto do médico estava sombrio.
"O estresse está agravando a condição dele, Sra. Medeiros", disse o médico gentilmente. "O coração dele está mostrando sinais de esforço. A sobrecarga sensorial que você descreveu... é extremamente perigosa para ele. Ele precisa de um ambiente estável e calmo. Existem clínicas especializadas no exterior, na Suíça, que mostraram resultados incríveis com casos como o dele."
Suíça. Parecia tão longe quanto a lua. Como ela poderia escapar do alcance de Guilherme? Ele tinha olhos e ouvidos em todos os lugares. Ele uma vez a rastreou em uma cafeteria a quarteirões da cobertura só porque ela havia esquecido o celular. Seu controle era absoluto.
Derrotada, ela caminhou pelo corredor do hospital. E então ela os viu.
Guilherme estava do lado de fora de um quarto particular e, aninhada em seus braços, chorando dramaticamente, estava Kátia.
"Não é sua culpa, minha pobrezinha", Guilherme arrulhou, acariciando o cabelo de Kátia. Sua voz estava carregada de uma ternura que Alice não ouvia há meses. "Ela só está com ciúmes. Ela sabe que não pode competir com você."
Kátia olhou para ele, seus olhos grandes e inocentes nadando em lágrimas falsas. "Mas é com ela que você vai se casar, Guilherme. Eu nem deveria estar aqui. Eu sou só... eu sou só sua assistente."
"Não diga isso", disse Guilherme, sua voz firme. Ele ergueu o queixo dela. "A posição de Sra. Rizzo não está garantida. Ainda não."
As palavras foram um golpe físico. Alice sentiu o ar sair de seus pulmões e cambaleou para trás contra a parede, a mão voando para o peito para tentar parar a dor.
A cabeça de Guilherme se virou bruscamente. Ele a viu. Sua expressão mudou instantaneamente de preocupação para uma suspeita fria e dura.
"Alice? O que você está fazendo aqui? Está me seguindo?" Ele deu um passo à frente, posicionando-se defensivamente na frente de Kátia, como se Alice fosse algum tipo de ameaça.
O gesto protetor doeu mais do que suas palavras.
"Eu estava... Davi tinha uma consulta médica", ela gaguejou, apontando para o final do corredor. Sua voz estava rouca de lágrimas não derramadas. "Guilherme, o que você fez com ele ontem... o médico disse que poderia tê-lo matado. Ele é só um menino!"
Um lampejo de algo - culpa, talvez - cruzou o rosto de Guilherme, mas desapareceu em um instante. A presença de Kátia apagou qualquer vestígio de sua consciência.
"Ele está bem. Eu nem toquei nele", disse Guilherme, desdenhoso.
"Ele tem dezessete anos!", gritou Alice, sua voz quebrando. "Como você pode ser tão cruel?"
"Oh, Alice, sinto muito", Kátia interveio por trás de Guilherme, sua voz escorrendo falsa simpatia. "A culpa é toda minha. Eu não deveria ter dito a Guilherme que você me chateou. Eu vou embora."
Guilherme a puxou de volta, envolvendo um braço em volta dela possessivamente. "Não seja boba. Não é sua culpa que ela seja uma vadia ciumenta." Ele olhou para Kátia, então se inclinou e a beijou, um beijo longo e lento bem na frente de Alice.
Alice soltou uma risada amarga e quebrada. O som era feio, mas ela não conseguia parar. Todos em seu círculo a chamavam de a mulher mais sortuda de São Paulo, a Cinderela que havia capturado o príncipe. Eles não viam as grades de sua gaiola dourada. Eles não viam o monstro por trás do sorriso encantador. Isso não era um conto de fadas. Era um pesadelo.
"Com licença", disse ela, sua voz plana e morta. "Preciso passar."
Ela tentou contorná-los, mas a mão de Guilherme disparou, agarrando seu pulso. "Não tão rápido."
Seus olhos estavam frios. "Kátia sofreu um pequeno acidente de carro esta manhã. Foi só uma batidinha, mas ela está muito abalada. O médico quer dar a ela um soro nutritivo para ajudar com o choque, mas ela tem pavor de agulhas." Seu olhar se voltou para o centro de doação de sangue no final do corredor. "Ela precisa de sangue. Você vai doar."
Alice o encarou, sua mente se recusando a processar a exigência monstruosa. "O quê?"
"Kátia tem um tipo sanguíneo raro. Você também. É uma combinação perfeita."
Alice sentiu uma onda de tontura. Ela tinha anemia leve. Guilherme sabia disso. Ele costumava ser quem garantia que ela tomasse seus suplementos de ferro, quem a repreendia se ela parecesse pálida demais. Aquele cuidado, que ela um dia valorizou, agora parecia outra mentira.
"Nós... não temos o mesmo tipo sanguíneo", disse ela fracamente, uma mentira desesperada. "Eu sou O-positivo. Ela é..."
"Não seja difícil, Alice", Guilherme a interrompeu. "O gesto é o que importa. Vai mostrar a ela o quanto você está arrependida."
Ele se afastou e olhou para Kátia. "O que você acha, meu bem? Ela deveria fazer isso?"
Ele estava dando o poder a Kátia, transformando a humilhação dela em um espetáculo para a diversão de sua amante.
Antes que Alice pudesse protestar, dois dos seguranças de Guilherme apareceram, agarrando seus braços. Eles a arrastaram em direção ao centro de doação, seus pés tropeçando no chão polido.
Eles a prenderam na cadeira. A agulha entrou, uma picada afiada e fria. Ela observou seu próprio sangue, escuro e vermelho, serpentear pelo tubo de plástico. Sentiu-se tonta, o quarto girando levemente.
A enfermeira olhou para ela com preocupação. "Senhor, ela está muito pálida. Já tiramos uma bolsa inteira. Mais do que isso pode ser perigoso."
Guilherme, que estava perto da porta com Kátia em seus braços, nem sequer olhou. "Continue. Eu digo quando parar."
A enfermeira pareceu horrorizada, mas não ousou desafiá-lo. A máquina continuou zumbindo. A visão de Alice começou a embaçar nas bordas. O mundo desbotou para um cinza opaco. Ela podia ouvir Guilherme e Kátia sussurrando e rindo, suas vozes um murmúrio cruel e distante.
Ela acordou em uma pequena sala de recuperação vazia. Um cobertor estava jogado sobre ela. Sua cabeça latejava, e uma fraqueza profunda e dolorosa se instalou em seus ossos. Ela se levantou e viu.
Na lixeira ao lado de sua maca, jogada de lado como lixo, estava a bolsa de seu sangue.
Ela se lembrou então, uma memória nebulosa de antes de desmaiar. A voz de Kátia, alta e enojada.
"Eca, Guilherme, não quero o sangue dela em mim. Provavelmente está sujo. Jogue fora."
E a risada fácil de Guilherme. "O que você quiser, meu bem."
Eles haviam tirado seu sangue, a empurrado ao limite do colapso, apenas para jogá-lo fora. Não se tratava de ajudar Kátia. Tratava-se de quebrar Alice.
E enquanto ela olhava para a bolsa descartada de sua própria força vital, ela soube que ele havia conseguido. Algo dentro dela se quebrou completamente.