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A Obsessão do Rei do Cartel

A Obsessão do Rei do Cartel

Autor:: J.C. Rodrigues Alves
Gênero: Romance
JAVIER HERRERA é o herdeiro de um dos cartéis mais poderosos do México, moldado por um legado de ambição e rivalidade. Desde cedo, ele aprendeu a jogar o jogo de poder, mantendo uma fachada fria e impenetrável. No entanto, seu casamento arranjado com Sofia Montoya, uma mulher que despreza tudo que o cartel representa, começa a despertar sentimentos inesperados. Quando ela revela que está grávida, ele se vê diante de um dilema: sua lealdade ao cartel ou o amor que está nascendo em seu coração. CAMILLE MENDONZA sempre se opôs ao mundo do cartel, vivendo uma vida de independência e liberdade. No entanto, sua vida muda drasticamente quando é forçada a se casar com Javier Herrera, o herdeiro de um cartel rival, para selar a paz entre suas famílias. Enquanto tentam conviver em um relacionamento marcado por ressentimentos, sentimentos inesperados começam a florescer entre eles. Quando descobre que está grávida, ela se vê em um dilema: usar essa nova vida como moeda de troca para ter sua vida de volta ou se entregar aos seus sentimentos. "Entre o amor e a vingança, meu coração se tornava a arma mais perigosa."

Capítulo 1 PROLÓGO

O vento cortante da madrugada me feria a pele enquanto eu atravessava os jardins da mansão Mendonza, o coração batendo tão rápido que eu sentia uma pressão sufocante no peito. Cada passo parecia um eco na escuridão, um lembrete de que estava sozinha naquela tentativa de fuga. A qualquer momento, algum dos seguranças poderia me ver e me deter. Mas a possibilidade de ser pega não era o suficiente para me fazer parar.

Precisava sair dali antes que o sol nascesse e meu destino fosse selado para sempre.

Tudo o que sabia era que tinha que fugir.

Precisava escapar da vida que Diego havia decidido para mim. Tentava segurar as lágrimas enquanto corria em direção à garagem. A promessa de liberdade era como uma chama fraca dentro de mim, algo que eu sabia que poderia apagar a qualquer segundo.

Alcanço o carro preto, o único que sabia estar ali destrancado. Minhas mãos tremiam enquanto tentava uma ligação direta. Havia lido algo sobre fazer uma "luxação direta" na ignição para ligar o carro sem chave, e embora não tivesse muita certeza de como aquilo realmente funcionava, estava desesperada para tentar.

Mas minhas mãos estavam ficando cada vez mais trêmulas. O pânico e a ansiedade cresciam em uma onda que não conseguia controlar. A adrenalina que antes me movia agora parecia me engolir, como se uma pressão imensa estivesse esmagando meu peito, dificultando minha respiração.

Comecei a hiperventilar, e meu corpo paralisou. Minhas mãos estavam congeladas no volante, incapazes de continuar com aquele plano que, começava a parecer insano e fracassado. - Não... Não agora... - murmuro, sentindo meu coração disparar ainda mais rápido. Meu peito subia e descia descontroladamente, e um tremor tomou conta de mim.

Cada vez que eu tentava respirar, parecia que o ar me escapava, como se meus pulmões não conseguissem reter nada.

O mundo ao meu redor começou a escurecer, as bordas da minha visão se fechando, até que tudo o que conseguia ver era o painel do carro e o reflexo do meu rosto em puro desespero.

De repente, ouvi uma voz masculina ao meu lado.

- Ei, você está bem?

Viro o rosto bruscamente, ainda tremendo, e vi um homem parado ali, os olhos firmes e atentos em mim. Sua presença me assustou tanto que por um instante achei que iria desmaiar de vez.

Ele se aproximou devagar, levantando as mãos em um gesto de paz, como se quisesse me mostrar que não era uma ameaça.

- Respiro, está bem? Só respire fundo - disse ele, a voz calma, quase reconfortante.

Aquelas palavras me fizeram tentar, mas meu corpo não obedecia.

Era como se eu estivesse presa em um pesadelo, em um pânico que não conseguia controlar.

Ele percebeu isso, e sem esperar, deu a volta para o lado do passageiro e entrou no carro, fechando a porta e se aproximando de mim com um toque suave, colocando uma das mãos em meu ombro.

- Olhe para mim - pediu ele, com uma firmeza gentil que me fez focar em seu rosto. Seus olhos eram escuros, intensos, mas tinham uma calma estranha, quase hipnotizante. - Respire fundo. Puxe o ar devagar e solte.

Eu o encarei, ainda hesitante, mas aos poucos fui tentando fazer o que ele dizia. Puxo o ar e o solto, sentindo a tensão começar a ceder, pouco a pouco.

Ele mantinha a mão em meu ombro, e mesmo sem saber por quê, aquele simples gesto fazia com que me sentisse mais segura.

- Isso. Continue respirando. Devagar - sussurrou, o tom suave como se quisesse me acalmar completamente.

Aos poucos, o mundo ao meu redor começou a voltar ao normal. Minha visão se ajustou, e o ar finalmente começou a preencher meus pulmões. Solto um suspiro tremido e encosto a cabeça no volante, exausta.

- Desculpe - murmuro, ainda sem forças para encará-lo. - Eu... eu precisava sair daqui. Preciso fugir antes que me obriguem a casar com um homem que é considerado um monstro.

O desconhecido ficou em silêncio por um instante, como se absorvesse o que eu acabara de dizer. Ainda estava tensa, mas o momento de pânico tinha passado, graças à sua intervenção.

- Casar contra a sua vontade? - ele perguntou, com um tom de curiosidade genuína misturado com algo que não conseguia decifrar.

Assenti, ainda sem coragem para olhar em seus olhos.

- Meu padrasto... Ele quer que eu me case com Javier Herrera, o herdeiro do cartel rival - digo, sentindo o veneno nas palavras. - Esse casamento... É um pesadelo. Eu não posso. Não consigo.

Ao dizer isso, finalmente olho para o homem ao meu lado. Ele me observava com uma expressão indecifrável, mas havia uma intensidade em seus olhos que me deixava nervosa. Havia algo no modo como ele me olhava, como se ele já soubesse tudo aquilo antes mesmo de eu falar.

- Fugir pode não ser a solução que você espera - ele disse, a voz baixa e séria. - Você tem ideia do que aconteceria com sua família se você fugisse?

Eu abaixei a cabeça, sabendo que ele estava certo. Fugir significava abandonar minha mãe e minha irmã à mercê de Diego Montoya. Sabia que o preço seria alto para elas, mas ainda assim, o medo daquele casamento parecia me devorar por dentro.

- Eu não sei o que fazer - admiti, sentindo as lágrimas se acumularem em meus olhos.

Ele ficou em silêncio por um momento e, então, gentilmente, colocou uma mão sobre a minha, que ainda segurava o volante com força.

- Às vezes, não é tão simples escapar de certos destinos. Especialmente quando existem pessoas que dependem de nós - Sua voz soa calma e segura. - Mas talvez enfrentar essa situação seja o primeiro passo para mudar algo, mesmo que seja pequeno.

Inspiro fundo, tentando absorver o que ele dizia. Havia uma sabedoria em suas palavras, algo que me acalmava, mesmo que a ideia de voltar para a mansão me parecesse tão insuportável quanto antes.

- Volte para casa - ele sugeriu, com uma gentileza surpreendente. - Por mais difícil que seja, talvez esse não seja o melhor momento para tentar escapar. Você pode estar se precipitando.

De alguma forma, aquelas palavras me atingiram profundamente. A raiva e o desespero ainda estavam ali, mas ele havia plantado uma semente de dúvida, uma pequena hesitação que me fazia reconsiderar minhas ações.

Solto um longo suspiro, exausta, e finalmente balancei a cabeça em um gesto de concordância. Eu sabia que ele estava certo. Ir embora sem um plano poderia acabar mal para todos. Mas algo em mim ainda resistia, ainda sentia a dor de uma liberdade perdida.

Antes de abrir a porta para sair, olhei para ele, curiosa.

- Eu nem sei o seu nome.

Ele me olhou de volta, e um pequeno sorriso curvou seus lábios, um sorriso que não era nem gentil, nem ameaçador, mas parecia carregar uma verdade cruel e oculta.

- Javier - disse, pausadamente, como se saboreasse o efeito de sua revelação. - Javier Herrera.

Um arrepio percorreu minha espinha.

Meu corpo inteiro congelou, e senti o sangue gelar em minhas veias.

Ele... ele era Javier Herrera. O homem que eu tinha acabado de confessar que odiava. O homem com quem eu estava prestes a me casar à força. E ele me ouvira desabafar cada palavra de desespero sobre o casamento.

Ele segurou minha mão novamente, a mesma mão que antes eu agarrava ao volante com medo, e seu olhar se fixou no meu com uma intensidade sombria, quase possessiva.

- É melhor você voltar para casa, Camila - ele murmurou, a voz suave, mas com um tom que parecia uma ordem disfarçada de conselho. - Nos vemos em breve.

Sem dizer mais nada, ele abriu a porta e saiu, deixando-me ali, sozinha e paralisada.

Capítulo 2 1

Camila

48 horas antes

A mansão estava em silêncio.

Um silêncio denso e carregado, daqueles que parecem anunciar uma tempestade.

Me sentei rigidamente em uma das poltronas de couro do escritório do meu padrasto, Juan Carlos Mendonza, observando os detalhes ao meu redor com uma inquietação que não conseguia aplacar, talvez fosse o cansaço depois de um dia exaustivo de trabalho em uma lanchonete, aonde desejava apenas minha cama de solteiro em um único cômodo que conseguia pagar com o salário que ganhava.

Cada móvel e cada peça de arte naquele ambiente carregavam um peso que só alguém como Juan Carlos poderia impor. Cada item parecia um símbolo de poder, de controle absoluto - algo que ele exercia não só sobre sua "família" de sangue, mas sobre todos os que dependiam dele. Incluindo minha mãe e a minha irmã.

O relógio na parede indicava meia-noite, e ele ainda não havia chegado.

O ar estava abafado, quase sufocante, e o único som que ouvia era o tique-taque incessante do relógio. Me sentia como um prisioneiro, aguardando a sentença.

Finalmente, a porta se abriu com um ranger, e Juan Carlos entrou, os passos firmes e calculados, como os de um predador.

Ele usava um terno preto, impecavelmente alinhado, e ajustava as abotoaduras enquanto caminhava em minha direção. Seu rosto estava impassível, mas os olhos, frios e duros, já me diziam o que temia.

Algo grande estava para acontecer. Algo que mudaria minha vida para sempre, e não por minha escolha.

Juan Carlos parou na minha frente e permaneceu em silêncio por alguns instantes, me observando com aquela expressão severa que me fazia lembrar de tudo o que ele havia feito para controlar minha família.

Ele sempre soubera o que significava para mim o fato de que minha mãe e irmã estavam sob sua proteção. Sabia o quanto eu as amava, e sabia exatamente como usar isso contra mim.

- Camila - ele começa, com a voz baixa e firme. - Chegou a hora de você fazer algo realmente importante para a nossa família.

A palavra "nossa" era amarga em seus lábios, porque ele sabia que, para mim, ele jamais seria "família" de verdade. Desde o momento em que se casou com minha mãe, ele a envolveu em uma teia de poder, lentamente a distanciando de qualquer resquício de liberdade.

Eu sabia o que ele era, sabia como usava a influência para dobrar as pessoas à sua vontade, mas mesmo assim, até hoje, ele sempre havia evitado me envolver diretamente em seus negócios. Pelo menos, era o que eu pensava.

- O que quer dizer com isso? - pergunto, tentando manter a voz firme, mas a verdade era que eu já temia a resposta. Sabia que algo estava errado, sabia que, naquela noite, algo muito maior do que um simples "pedido" estava sendo colocado em jogo.

Ele se aproximou e se sentou na cadeira de couro em frente à minha, cruzando as mãos sobre a mesa. Sua expressão era séria, quase impenetrável, mas algo em seu olhar deixava transparecer um toque de satisfação. Um gosto sombrio pelo que estava prestes a dizer.

- Você vai se casar, Camila.

As palavras saíram como uma lâmina, fria e precisa.

Fico sem reação por um momento, encarando-o, sem acreditar que ele tinha dito aquilo. Diego nunca se importara com a minha vida pessoal, desde que eu fizesse o papel de filha obediente e estivesse sempre disponível para acompanhar minha mãe em eventos.

Casamento? Aquilo era ridículo.

- Casar? Com quem? - Minha voz saiu ríspida, antes que eu pudesse controlar. A irritação e o medo se misturavam, formando um nó no meu estômago.

Ele sorri, um sorriso breve, cruel, antes de responder.

- Com Javier Herrer.

O nome se pendurou no ar como uma sentença de morte.

Alejandro Torres.

Conhecido como o herdeiro do cartel rival.

O homem que encarnava tudo o que eu detestava por causa de todas as atrocidades que já havia cometido. Sua família havia causado uma quantidade incalculável de dor à muitas pessoas, inclusive por causa deles e o poder que tinham na metade da cidade, quase nos tornamos uma das vítimas antes de Juan Carlos, e não havia como apagar o ódio que havia.

Minha mente tentou processar o que ele acabara de dizer, mas tudo parecia surreal.

Juan Carlos, no entanto, continuou como se aquilo fosse uma decisão trivial.

- O casamento com Javier é a única maneira de garantir uma aliança duradoura entre nossas famílias. A guerra entre os Mendonza e os Herrera não pode continuar. Se queremos estabilidade e paz, esse casamento é a resposta.

Rio, uma risada amarga e irônica.

Paz. Era essa a desculpa que ele usava para me vender como um peão de um jogo que ele sempre tentou controlar?

Juan Carlos ergueu uma sobrancelha, impassível diante do meu desprezo.

- E se eu disser que não? - questiono, com um veneno que eu não sabia que possuía.

A resposta dele foi instantânea, sem um segundo de hesitação, e congelou meu sangue.

- Então, sua mãe e sua irmã pagarão o preço.

Ele se recostou na cadeira, observando a mudança em meu rosto com um olhar calculista.

Eu conhecia aquele olhar. Ele sabia muito bem onde estavam as fraquezas das pessoas ao seu redor. Sabia exatamente o quanto eu amava minha família e que usaria esse amor contra mim, sem a menor hesitação.

- Camila, eu não tenho tempo para discussões sentimentais - ele continuou, a voz mais fria do que nunca. - Ou você se casa com Javier e garante a segurança de sua mãe e irmã, ou deixo que elas vivam sem a proteção do cartel Mendonza. E sabemos o que isso significa. Sua mãe, sua irmã... elas sofreriam as consequências.

Uma raiva insuportável cresceu dentro de mim.

Eu o odiava mais do que nunca, mas sabia que não tinha escolha. Juan Carlos me encarava, imperturbável, satisfeito com meu silêncio, como se já soubesse que eu estava derrotada.

Ele se levantou, andando até a janela e virando as costas para mim.

- Eu entendo que você não queria isso, Camila, mas deve pensar no bem maior. Esse casamento trará paz para todos nós. Inclusive para você.

"Paz."

A palavra me queimava.

Ele estava sacrificando a minha liberdade, minha dignidade, e chamava isso de paz.

Não era paz.

Era uma sentença, uma prisão que ele me impunha com a mesma indiferença com que negociaria um carregamento de armas ou uma rota de tráfico.

Fecho os olhos por um segundo, sentindo a raiva ser sobreposta pelo desespero.

Eu não tinha escolha.

Não se tratava mais de mim. Se eu ousasse recusar, sabia o que ele faria. Sabia o que ele era capaz de fazer.

Minha mãe e minha irmã estavam nas mãos dele, vulneráveis. Era isso ou vê-las sofrer as consequências de minha rebeldia.

- Muito bem - murmuro, finalmente, a voz seca e rouca. - Eu farei o que você quer.

Ele se vira para mim, os olhos brilhando com uma satisfação fria.

Ele sabia que havia vencido.

Assentiu, como se tivesse selado um acordo lucrativo, e caminhou em direção à porta, sem dizer mais nada. Ele desapareceu no corredor, me deixando sozinha na pouca luz no escritório.

As lágrimas ardiam em meus olhos, mas eu me recusei a deixá-las cair. A raiva e a dor ainda estavam ali, mas sabiam que não podiam se expressar. Diego não me quebrou, não completamente. Eu podia ter perdido minha liberdade, mas não perderia minha dignidade.

Ali, naquele escritório sombrio, senti o peso do futuro que ele havia traçado para mim.

Capítulo 3 2

Javier

O restaurante estava lotado, mas nenhum ruído penetrava na sala privada em que eu estava.

A iluminação era baixa, e o som de jazz suave preenchia o ambiente, um contraste com o peso do que estava prestes a acontecer ali.

Do meu lado da mesa, mantive uma postura impassível, sem desviar o olhar de Juan Carlos, que estava sentado à minha frente. Ele se servia de vinho tinto com uma calma perturbadora, como se o encontro não fosse mais do que um jantar casual entre velhos amigos.

Mas eu não era amigo dele. Nunca fui. Ele sabia disso e não se importava; a única coisa que importava para ele era o poder. E, agora, aparentemente, esse poder passava pelo casamento entre a enteada dele e eu.

Espero até ele levantar a taça e dar o primeiro gole antes de finalmente quebrar o silêncio.

- Então, Juan Carlos - começo, mantendo o tom frio e controlado. - Isso é uma confirmação?

Ele deixa a taça pousada sobre a mesa e me lança um olhar que continha algo entre uma satisfação sádica e um toque de cinismo. Ele sempre foi assim: sorridente na superfície e venenoso por dentro.

- É claro, Javier - diz ele, com uma calma que só pessoas como nós conseguíamos sustentar em situações assim. - Isso tudo é pelo bem dos nossos negócios. E, pelo que vejo, você já entendeu que os interesses maiores de nossas famílias devem estar acima de... sentimentos pessoais.

Eu rio, um som seco e desprovido de humor.

Juan Carlos sabia exatamente o que estava fazendo, manipulando cada peça para conseguir o que queria. Casar com Camila significava unir duas potências do tráfico, mas também significava prender uma garota que ele dizia ser parte da família em um jogo que a esmagava.

- Sentimentos? - retruco. - Achei que você soubesse que sentimentos nunca fizeram parte dos meus negócios.

- Então estamos na mesma página. - Ele recostou-se na cadeira, cruzando os braços, enquanto um sorriso calculado se espalhava por seu rosto. - Camila vai se casar com você. Ela ainda não aceita, mas, a essa altura, você é o único a quem ela vai precisar se acostumar.

Engulo em seco, observando Juan Carlos.

Eu sabia que, por trás das suas palavras, havia uma ameaça velada. Talvez não contra mim, mas contra a própria Camila. Ele não estava me oferecendo a mão dela por simples aliança. Era um movimento estratégico para garantir o controle completo de sua própria família.

- E como ela reagiu à decisão? - pergunto, disfarçando o interesse. Parte de mim queria saber até onde Diego estava disposto a ir.

Ele dÁ de ombros, como se a opinião da enteada fosse tão irrelevante quanto uma peça de xadrez.

- Ela não tem escolha. E, se souber o que é bom para ela, vai entender que esse é o único caminho para garantir a segurança... dela e da família dela.

Aquelas palavras, ditas com uma casualidade que me enojava, deixavam claro que ele faria qualquer coisa para garantir sua vontade. Ele sequer tentava disfarçar. Era como se ele quisesse que eu soubesse que ela estava sob o seu domínio - e que, caso eu tivesse qualquer interesse em proteger sua segurança ou bem-estar, eu deveria estar ciente disso.

O silêncio entre nós se prolongou, e continuei observando ele com uma calma fria, tentando compreender suas intenções, embora, no fundo, soubesse que, para ele, tudo era apenas um jogo de poder.

Ele finalmente quebra o silêncio.

- Javier, sei que você é um homem que aprecia... liberdade. E entendo que esse tipo de aliança pode parecer, hum... um peso. Mas é algo de que ambos precisamos para manter o controle e, quem sabe, expandir nossas operações sem interferências.

Aceno lentamente, mantendo a expressão neutra.

Juan Carlos sabia que eu era calculista o suficiente para entender os benefícios de um casamento com Camila. Sabia também que eu jamais me comprometeria com nada que me fizesse perder o controle de meus próprios planos.

- E o que ela pensa sobre tudo isso? - pergunto, desafiador, esperando que, por uma vez, ele deixasse escapar alguma reação genuína.

Ele sorri, mas seus olhos ficaram frios.

- Ela pensa... que está sendo obrigada. Mas ela é inteligente e vai perceber que esse é o caminho. Aliás, ela não tem escolha. Ela é uma Mendonza querendo ou não, Javier. E, como Mendonza, ela sabe que o dever sempre vem antes do desejo.

Aquilo me irritou, embora eu não demonstrasse.

Ele realmente tratava a enteada como uma peça descartável, e talvez, no fundo, eu soubesse que aceitar isso fazia de mim cúmplice. Mas minha posição como líder do cartel Herrera exigia alianças que, por vezes, não respeitavam sentimentos ou vontades individuais.

Respiro fundo e o encaro, sem desviar o olhar.

- Que assim seja, então - digo, finalmente. - Vamos oficializar esse acordo.

O sorriso dele se alargou, e fez um gesto para um dos seus homens, que prontamente se aproximou com uma pasta. Ele a colocou sobre a mesa e abriu, revelando o contrato que tornava tudo isso oficial.

- É o que eu esperava ouvir - Juan Carlos mantém o sorriso, levantando a taça de vinho em um brinde silencioso.

Levanto minha própria taça e toco na dele, sem realmente brindar, apenas um gesto vazio para selar o acordo.

Deixo a taça de lado e, antes de me levantar, encaro Juan Carlos pela última vez.

- Espero que tenha deixado claro para ela que, agora, será minha responsabilidade. E não pretendo lidar com interferências externas.

Ele assenti, seu sorriso jamais deixando o rosto.

- Camila agora é sua, Javier. Quanto a isso, você não precisa se preocupar. Nos vemos mais tarde em minha casa, assim que o advogado garantir que está tudo certo com a papelada.

Nos despedimos com um aperto de mãos firme, e deixoo restaurante, a mente fervilhando.

A noite estava densa, e a cidade parecia fria sob a luz dos postes. Ao sair do local, meus homens me aguardavam, posicionados ao redor do carro. Assenti, sinalizando para que me acompanhassem, enquanto os pensamentos sobre Camila e o peso do que estava por vir se misturavam.

Se ela achava que estava presa numa armadilha, não fazia ideia de que eu, também, estava preso ao jogo de Juan Carlos, amarrado a uma guerra que tinha me tornado mais prisioneiro do que qualquer um.

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