Blake Colleman solta com cuidado um cubo de açúcar em seu café expresso, mexendo suavemente a colher no pires. Seu olhar desvia para o relógio dourado em seu pulso, um troféu conquistado por meio milhão de dólares no leilão da Dalla's no outono passado.
Apesar da festa que o aguarda, Colleman decidiu ignorar o convite. O cansaço do dia pesa sobre ele, e a viagem a Nova York no dia seguinte , ele suspira e toma um gole do café. Com um gesto de elegância, ele recoloca a pequena xícara branca no pires.
Com um movimento discreto, chama um garçom para trazer a conta, enquanto observa a agitação na sala. Seus olhos seguem naturalmente a direção do interesse coletivo, pousando em uma figura feminina. Um vestido laranja barato e saltos de plataforma competem por atenção, um contraste notável naquele ambiente luxuoso.
Os pensamentos ressoam: "
O garçom, vestindo um colete bordô, coloca a conta silenciosamente ao lado de Colleman. Mantendo o olhar na mulher, ele pede um uísque. Um aceno é suficiente para afastar o garçom, deixando Colleman recostado com conforto, um mero espectador de um espetáculo intrigante.
O restaurante é exclusivo, mesas separadas por cortinas de voile preto, que balançam suavemente com a brisa. Três cortinas separam Colleman da mulher enigmática, a falta de visão clara irritando-o por um momento. Ele observa o sapato e avalia visualmente, estimando sua altura - talvez um metro e sessenta e cinco. Linhas finas e delicadas, lembrando a silhueta de Lady Gaga, com uma pele de tom creme.
Seu olhar segue o percurso: cabelos negros, a curva dos seios, os quadris, pernas bem definidas, até o destaque nos sapatos laranja brilhantes. A imagem se forma: impressionante, mas... vazia.
Aos vinte e nove anos, o magnetismo dela é familiar, mas o brilho se dissipou. A curiosidade permanece, mas ela já não é uma incógnita. Uma imagem de decepções passadas, amores falsos e ganância velada, ressoa em sua mente. Colleman não é inexperiente em relacionamentos complexos.
No entanto, algo nele fraqueja. Há algo nela que o intriga.
Ela cruza o espaço, e a cortina não consegue esconder sua beleza jovial. Curiosamente acompanhada por Magno Mccain, um nome manchado de desonestidade. Três garçons a cercam, entregando cardápios. Colleman a observa de perfil, suas mãos entrelaçadas, uma tensão perceptível.
Uma imagem involuntária se forma: pernas delicadas em lençóis de seda. Sua mente divaga, mas ele age rápido, levando o uísque aos lábios. Enquanto desvia o olhar, nota um garçom sussurrando algo para Mccain, que se levanta e sai.
Ao retornar seu olhar à mulher, Colleman nota seu relaxamento, o olhar triste se transformando em curiosidade. Seus olhos encontram os dele. Uma conexão intensa, um impulso de caça toma conta dele. Possuí-la.
Pode ter sido apenas alguns segundos, mas pareceram horas, Antonella estava presa e hipnotizada pelos insolentes olhos do estranho. Quando ela lembrar disso mais tarde, irá se lembrar que sua camisa surpreendentemente branca estava contra sua pele bronzeada, e jurar que até mesmo o ar entre eles brilhou. Como estranhamente também todos os sons de fundo dos talheres batendo, das vozes e risadas, desapareceram do nada. Era como se ela estivesse vagando em um universo estranho e constrangedor, onde não havia ninguém além dela e o homem diabolicamente bonito.
Mas ela está presa aqui.
O poderoso feitiço é quebrado quando ele levanta a taça em uma saudação irônica. Apressadamente, ela desvia seu olhar, mas sua fachada fina de equilíbrio foi destruída. Ela sentiu que corou, o sangue subiu em seu pescoço e bochechas; e seu coração bateu como um louco.
O que diabos aconteceu aqui?
Ela sente o olhar dele queimando em sua pele com um formigamento. Para disfarçar, inclina a cabeça e deixa seu cabelo cair para frente. Mas o desejo de dar outro olhar é imenso. Ela nunca experimentou uma atração instantânea e física antes. Com ombros largos, olhos intensos e quentes, uma mandíbula forte e reta, cabelo que cai sobre a testa, ele parece com um daqueles modelos da Abercrombie e Fitch, totalmente sexy, só que mais selvagem e feroz.
Devastadoramente mais.
Mas não está aqui para flertar com modelos estranhos e lindos, ou para encontrar um homem para si. Ela aperta os dedos contra o rosto em chamas, e se força a se acalmar. Toda sua concentração deve ir para que Magno concorde com a sua proposta. Ele é sua última esperança. Sua única esperança.
Nada poderia ser mais importante do que sua razão para estar com um homem como ele. Ela olha tristemente para as portas altas por onde ele foi. Este lugar frio, com pilares opulentos é o lugar aonde as pessoas ricas vêm para comer. Um garçom com luvas brancas vem através das portas com uma bandeja coberta. Ela se sente deslocada. O vestido laranja dá coceira e espeta, e ela queria coçar vários lugares em seu corpo. Também há borboletas batendo desordenadamente dentro de seu estômago.
Não estrague tudo, ela diz para si mesma. Você já chegou até aqui. Nervosa para recuperar a postura, aperta os lábios com firmeza e empurra o sorriso sarcástico de sua mente. Ela precisa se concentrar na tarefa horrível que tem pela frente. Mas aqueles olhos insolentes não param de atormentá-la. Ela traz à mente o rosto magro e triste de sua mãe, e de repente os olhos do estranho magicamente desaparecem. Ela endireita as costas e se prepara.
Ela não falhará.
Magno, foi encontrar alguém e estava voltando; e quando seus olhos se encontraram, ela deu um sorriso brilhante. Ela não vai falhar. Ele sorriu de volta triunfante. Vem para o lado dela dando um beijo rápido em sua boca, antes de cair pesadamente em sua cadeira. Ela se obriga a parar, para evitar ceder à necessidade de limpar a boca.
Magno parece transformado. Expansivo, quase alegre.
- Esse acordo chegou em boa hora. É quase como se os céus decidissem que mereço um pedaço de você. - O modo como ele falou, quase a faz estremecer de horror.
- Sorte minha - diz baixinho, surpreendendo a si mesma. Ela diz para si que está representando um papel. Um que pode desempenhar e sair ilesa, mas sabe que não é verdade. Haverá repercussões e consequências.
Ele sorri maldosamente, pois sabe que ela não gosta dele, mas isso faz parte da emoção. Tomar o que não quer ser tomado.
- Bem, então, não seja tímida, vamos ouvi-la. Quanto você vai me custar?
Larespira profundamente. Um touro grande só pode ser tomado pelos chifres.
- Cinquenta mil libras.
Ele levanta as sobrancelhas loiras e sujas.
- Não é exatamente barato. - Há algo maldoso em sua voz. - O que recebo em troca?
Ambos são distraídos de sua conversa por uma voz profunda e seca.
- Magno.
- Sr. Colleman - ele engasga e se apressa em ficar de pé. - Que prazer inesperado - ele fala atenciosamente. Antonella abaixa a cabeça com vergonha. É o estranho. Ele a ouviu vender a si mesma.
- Acredito que não tive o prazer de conhecer sua acompanhante.
- Blake Colleman, essa é Antonella Capri; Antonella Capri, esse é Blake Colleman. - Ela olha para cima, muito acima, ele tem definitivamente mais de um metro e oitenta, talvez um metro e noventa, para encontrar seu olhar cinza tempestuoso. São os olhos mais hipnotizantes que já encarou. Ela procura desgosto neles, mas eles estão vedados, poços impenetráveis de mistério. Então começa a tremer. Seu corpo sabe de alguma coisa que ela não sabe. Ele é perigoso para ela de uma maneira que ainda não pôde compreender.
- Olá, Antonella.
- Oi - ela diz. Sua voz soa frágil. Como uma criança que foi obrigada a cumprimentar um adulto. Talvez, ele não a tenha ouvido falar sobre se vender, afinal.
Ele estende a mão, e depois de uma hesitação perceptível, ela estende a dela. Suas mãos são grandes e quentes, e tem um aperto firme e seguro, mas ela puxa sua mão longe como se estivesse queimando. Ele desvia seu olhar brevemente para Rupe
- Há uma festa hoje à noite no Senhor Jackie. - Então aqueles olhos sombrios voltam para ela. Impenetráveis como sempre.
-Vocês gostariam de vir, como meus convidados? - Sua voz é uma combinação intrigante de veludo e pureza. É como se ele estivesse falando apenas com ela. Enviando deliciosos arrepios para cima e para baixo da sua coluna vertebral. Confusa pelas sensações desconhecidas, ela desvia os olhos para longe dele e olha para Magno.
As sobrancelhas dele estão quase em seu cabelo.
- Senhor Jackie? - Ele repete. Há um prazer estampado em seu rosto. Ele parece um homem que encontrou uma garrafa de vinho raro em sua própria adega.
- Isso é terrivelmente simpático da sua parte, Sr. Colleman. Absolutamente amável. É claro que nós adoraríamos - ele aceita rapidamente por ambos.
- Bom. Vou deixar seus nomes na portaria. Nos encontraremos lá. Ele acena para Antonella e ela tem a impressão de que ele é obsessivamente limpo e controlado. Não há confusão na vida deste homem. Um lugar para tudo e tudo em seu lugar. Em seguida, ele se foi. e ela o observam ir embora. Ele tem o andar de um homem extremamente confiante.
Magno se vira para encará-la novamente; seu rosto é duro e em desacordo com suas palavras.
- Bem, bem - ele gesticula - você deve ser meu amuleto da sorte.
- Por quê?
- Primeiro, ganho o negócio que estive perseguindo por um ano e meio, então esse homem importante não só se digna a falar comigo, mas me convida para uma festa dada pela nata da alta sociedade.
- Quem é ele?
- Ele, minha cara, é a próxima geração da família, sem dúvida, mais rica do mundo.
- Os Collemans - sussurra Antonella, chocada.
- Ele ainda tem cheiro de riqueza e estabilidade, não é? - Magno diz, e ri alto da sua própria piada. O próprio Magno cheira a casca de limão ralada. O aroma cítrico lembra detergente de lavar louça.
Um garçom aparece para perguntar o que eles gostariam de beber.
- Vamos querer a melhor champanhe da casa - diz Magno. Ele pisca para Antonella. - Estamos comemorando.
Uma garrafa e balde de gelo chegam com esplendor. A única vez em que bebeu champanhe, foi quando Poly e ela se vestiram e se apresentaram como noiva e dama de honra no Ritz, e fingiram que Antonella estava prestes a dar quarenta mil libras para seus cofres, cortando seu bolo de casamento. Elas beberam meia garrafa de champanhe e comeram uma bandeja inteira de canapés enquanto lhes mostravam as diferentes salas. Depois, Poly agradeceu e disse que entraria em contato. Como elas riram na viagem de ônibus de volta.
Antonella observa enquanto o garçom habilmente extraia a rolha. Ela deixa a garrafa com um silvo silencioso. Outro garçom em uma vestimenta preta falava quais eram os especiais para a noite e perguntava se eles estavam prontos para pedir.
Magno olha para ela.
- A carne aqui é muito boa.
- Acho que vou comer o mesmo que você.
- Na verdade, estou pedindo bife tartarré.
- Então, vou querer o mesmo.
Ele olha para o garçom. - Uma dúzia de ostras para a entrada, depois bife tartarré acompanhado de legumes e purê de batatas.
- Realmente não estou com muita fome. Sem entradas para mim - ela diz, rapidamente.
Quando o garçom se foi, ele levanta seu copo.
- A nós.
A nós - ela repete baixinho. A frase fica presa na sua garganta.
Ela toma um gole e não sente nada, então coloca o copo sobre a mesa e olha para as mãos.
- Você tem uma pele muito bonita. Foi à primeira coisa que notei em você. Será que... marca com muita facilidade?
- Sim - ela admite com cautela.
- Eu sabia - ele se gaba com uma fungada - Sou um conhecedor de pele. Amo o sabor e o toque da pele. Já posso imaginar o seu gosto. Com sabor de vinho.
Ele a olha por cima da borda do copo. Ela tentou o seu melhor para não olhar para os flocos de caspa que literalmente polvilhavam os ombros do seu terno riscado de giz, mas com essa última observação ele sacudiu a cabeça e uma enxurrada de ciscos flutuaram da cabeça e caíram sobre a toalha de mesa imaculada. Seus olhos impotentes seguiram o seu progresso. Ela olha para cima para encontrá-lo olhando para ela especulativamente.
- O que eu vou receber pelo meu dinheiro?
Antonella pisca. Tudo nisso está errado. Ela não deveria estar aqui. Usando esse vestido ou sapato, sentada na frente desse pedaço imundo de obscenidade se escondendo atrás de sua camisa feita sob medida, abotoaduras de ouro, e o sotaque de classe alta. Este homem a degrada e a ofende simplesmente por olhá-la. Ela queria estar em outro lugar. Mas está aqui. Todos os seus cartões de crédito estão estourados. Dois bancos a rejeitaram. E não há muito mais a fazer, a não ser estar aqui neste vestido e neste sapato... Seu estômago está revirando, mas ela sorri e espera que seja de uma forma sedutora.
- O que você gostaria de ganhar em troca do seu dinheiro?
- Esqueça o que eu gostaria, por agora. O que é que você está vendendo?
Seus olhos de repente se tornaram duros.
- Eu ... eu acho ... - Isso faz ele bufar com um riso cruel.
-Você é uma mulher extraordinariamente bonita, mas para ser franco, consigo cinco supermodelos de primeira classe pelo preço que você está pedindo. O que a faz pensar que você vale todo esse dinheiro?
- Eu sou virgem.
Ele parou de rir. Um olhar desconfiado cruzou seus olhos azuis.
- Quantos anos você tem?
- Vinte - Bem, ela vai ter daqui a dois meses.
Ele franze a testa.
- E você diz que ainda é virgem?
- Sim.
- Se guardando para alguém especial, não é? - Seu tom foi irritante.
Será que isso importa? - Suas unhas cravam em seu punho fechado.
Seus olhos brilharam.
- Não, acho que não. - Ele faz uma pausa.
- Como sei que você não está mentindo?
Antonella engole a seco. O sabor de sua humilhação é amargo.
- Vou fazer todos os testes médicos que quiser...
Ele ri.
- Não há necessidade. Não há necessidade - ele diz.
- Sangue nos lençóis será suficiente para mim.
A maneira como ele pronunciou a palavra sangue, fez o sangue dela gelar.
- Todos os orifícios estão à venda?
Oh! A brutalidade do homem. Algo morre dentro dela, mas ela mantém a imagem de sua mãe em sua mente, e sua voz é clara e forte.
- Sim.
- Portanto, tudo o que resta é renegociar o preço?
Antonella tem que parar de recuar. Ela sabe agora que cometeu dois dos nove tipos de comportamentos que sua mãe a alertou que são considerados desprezíveis e indignos. Ela esperava generosidade de um avarento e contou sobre sua necessidade para o inimigo.
Seu olhar foi significativamente para a taça de champanhe.
- Vamos primeiro a esta festa e negociaremos mais tarde, quando você estará com um humor melhor.
Antonella entendeu a deixa. Ele acha que pode baixar o preço quando ela estiver bêbada.
- O preço não é negociável - diz ela com firmeza. - E terá de ser pago antecipadamente.
Ele sorri minimamente.
- Tenho certeza de que vamos chegar a um acordo em que ambos ficaremos felizes. - Antonella fez uma carranca.
Ela foi ingênua. Seu plano é impreciso e ela não tem muitos argumentos para negociações de preços ou apostas. Ela ouviu através dos vidros do escritório onde trabalhou como secretária temporária, que seu chefe era um desses homens que estão dispostos a pagar dez mil libras para seu prazer, sem titubear. Mas, nunca achou que ele tentaria rebaixá-la para poder negociar.
Enquanto Mase empanturra com queijo e biscoitos, ela se desculpa e vai para o banheiro. Há outra mulher de pé na frente do espelho. Ela olha para Antonella com uma mistura de inveja e desprezo. Antonella espera até ela sair, e em seguida, telefona para sua mãe.
- Oi, mamãe.
Onde está você, Antonella?
- Ainda estou no restaurante.
- Que horas você vai voltar para casa?
- Vou me atrasar. Fui convidada para uma festa.
- Uma festa? - a mãe repete preocupada. - Onde?
- Não sei o endereço. Em algum lugar em Londres.
- Como você vai chegar em casa? - Um fio de pânico se infiltrou na voz de sua mãe. Antonella suspira. Ela quase nunca deixou sua mãe sozinha à noite e consequentemente isso deixava-a uma pilha de nervos.
- Eu tenho carona mãe. Só não espere por mim, OK?
- Tudo bem. Você vai ter cuidado, não vai?
- Nada vai acontecer comigo.
- Sim, sim - diz a mãe, mas ela parece distraída e infeliz.
- Como você está se sentindo, mamãe?
- Bem.
- Boa noite, então. Vejo você de manhã.
- Antonella?
- Sim.
- Eu te amo muito.
- Eu também, mamãe. Eu também.
Desligou o telefone com um estalo. Ela não se sentia mais barata ou suja. Agora se sentia forte e segura. Não há nada que Magno possa fazer que vá humilhá-la. Ia conseguir o dinheiro, não importava o quê. Ela mal comeu, apenas observar ele sugar as ostras a fez se sentir enjoada, e como ela saberia que bife tartarré era carne moída crua? Ela reaplica o batom e vai ao encontro de Magno.
- Vamos? - Magno perguntou, e antes que Antonella concordasse, ele imperiosamente estala seus dedos e pede a conta. Eles deixam o restaurante e uma vez lá fora, Magno chama um táxi preto. Está uma noite tão quente que Antonella carrega o casaco nas mãos. Rupert dá o endereço para o taxista e eles entram. O vestido dela levantou até as coxas, mas quando ela tenta puxá-lo de volta para baixo, ele coloca sua mão pálida sobre a dela e ordena com voz firme,
- Deixe.
Envergonhada, Antonella olha para o espelho retrovisor. O taxista os observava. Sem dizer nada, ela enrola seu casaco sobre os joelhos e vira o rosto longe de Magno, olhando para fora. Maldito. Enquanto ela olha para o nada, sente que a mão dele passa sob o casaco e sobre suas coxas. Mordendo o lábio, ela tenta ignorar, olhando para o lado, mas ele está arrastando a mão por sua coxa. Quando ele está quase em sua virilha, ela pega sua mão desagradável. Ela se vira para ele e o olha nos olhos.
- Nós ainda não temos um acordo.
- Verdade - ele diz, e tira a mão, mas o sorriso em seu rosto é provocativo e presunçoso. Ele sabe que ela precisa do dinheiro.
O resto da viagem é feita em silêncio, enquanto o estômago de Antonella dá voltas. Ela está tão nervosa, que está realmente com medo de perder os poucos legumes que comeu vomitando no chão do carro. Felizmente, o táxi vira para a Avenida Bispo e para do lado de fora de uma casa grande e branca, de três andares, parecida com as do período histórico da Regência. Há carros de luxo estacionados ao longo do comprimento da rua. Magno paga o motorista do táxi e sobe um pequeno lance de escada para um conjunto de portas pretas. Ele toca a campainha e através das janelas altas Antonella vê o tipo de pessoas que só tem visto nas revistas. Impecavelmente vestidas e com joias. Ela olha para baixo, para seu vestido laranja barato, em desânimo e puxa a bainha, mas seus esforços de modéstia são contra produtivos, já que acaba destacando o seu decote.
- Não se preocupe - Magno diz alegremente - Você vai ficar bem.
Um homem acima do peso vestindo um antigo uniforme de mordomo abre a porta. Sua atitude sugere desdém. Ele pode dizer imediatamente que eles não pertencem ao local. Magno altivamente informa que eles são convidados de Blake Colleman. Os olhos do homem registram reconhecimento. Um vislumbre de um sorriso superficial. Ele acena educadamente com a cabeça e fica de lado para recebê-los.
Antonella respira fundo, entra no grande corredor e abafa um grito ao ver o ambiente que a rodeava.
Do lado de fora não parecia tão grande e espaçoso. Ela nunca foi a um lugar tão bonito e agora compreende o que Magno quis dizer e entende o significado do cheiro de dinheiro velho. As paredes são cobertas com pinturas de qualidade de um museu. Ela olha para os querubins Madona, com um olhar de admiração. Eles são tão bonitos que ela quer olhar com mais atenção, mas Magno a está guiando com firmeza pelo cotovelo em direção a uma espécie de antessala, onde uma jovem mulher pega o casaco em troca de um bilhete.
A música clássica e as vozes emanam de duas portas abertas. Um garçom carregando uma bandeja de champanhe para na frente deles. Antonella quase não bebeu no restaurante, em um esforço para permanecer sóbria e equilibrada, mas agora sabe que deve beber ou nunca será capaz de passar por seu pacto com o diabo. Um diabo branco pálido e com caspa.
Antonella pega uma taça e coloca a mão no braço do garçom, parando-o e bebendo o copo todo. As bolhas arderam pela sua garganta e fizeram seus olhos lacrimejarem. Ela devolve o copo vazio para a bandeja e pega outros dois.
- Obrigada - diz ela, sem fôlego, e o garçom, um jovem do tipo mediterrâneo, permite que seus olhos escuros e inquietos passeiem até seu peito.
Magno olha para ela com olhos selvagens, excitados. Ele a quer bêbada pois tem planos para ela. Ele a leva pela parte baixa de suas costas para uma das saletas. Antonella olha para a roupa das outras mulheres. Provavelmente custaram mais do que ela ganha em um ano. Ela sente muitos pares de olhos sobre ela e tem consciência de que se destaca como uma ferida no polegar. Ela olha para o quarteto de cordas e encontra seus olhos nela também. Droga de Colleman por convidá-los. Ela suga a taça de champanhe seco. Outro garçom passa e ela puxa mais um copo da bandeja.
- Vá com calma - Magno a adverte.
Ela se virou para ele com um sorriso brilhante.
- Pensei que você me quisesse bêbada e flexível.
Ele a pega pelo cotovelo e a leva para o fundo da sala, perto de uma grande palmeira. De costas para a festa ele diz - Eu não gosto de mulheres inconscientes, porra.
Seus olhos se arregalam. O champanhe já subiu para a cabeça. Não há tempo melhor do que agora. Ela se sente corajosa novamente.
- OK, estou pronta para falar dos termos agora. Certo, você não quer corpos inconscientes. O que você quer?
Dos seus lábios veio o hálito frio.
- Você já leu Cinquenta tons de cinza?
Quase todas as outras meninas da agência leram o livro e ela estava atualizada sobre o assunto, enquanto elas ficaram entusiasmadas com isso, Antonella ficou confusa pela popularidade do livro. Será que todas as mulheres realmente têm um desejo secreto de ser propriedade de um homem poderoso? Poderia ser amor, quando um homem quer amarrá-la e açoitá-la nua? Quando ela mencionou isso para sua mãe, esta sorriu e astutamente observou - A mulher ocidental zombou das mulheres de burcas e agora veste uma coleira de cachorro e estão no mesmo patamar.
Antonella olha em seus olhos claros.
- Não, mas não é sobre um homem doente que abusa de sua amante?
- Talvez não seja uma doença, mas uma questão de gosto.
- É isso que você quer de mim?
- Não é bem assim. O que eu gosto mesmo é de tomar uma mulher à força. Do ato perigoso, da probabilidade de acabar atrás das grades, por isso estou disposto a aceitar o estupro consensual. Você vai me encontrar em parques e becos, ou eu vou buscá-la no meu carro em um canto da rua e você vai fingir resistir enquanto eu irei dominá-la e estuprála. Haverá um pouco de dor e, às vezes, envolverá um pequeno sangramento, mas eu nunca vou marcar o seu rosto ou deixar cicatrizes permanentes. E quando terminar, vou deixá-la na sarjeta para fazer o seu próprio caminho de volta. Isso seria aceitável para você?
Chocada, Antonella ouve a própria voz sair como se viesse de muito longe - Quantas vezes você esperaria esse... serviço de mim?
- Digamos que cinco vezes?
Ela sente como se fosse uma ave precariamente empoleirada em um fio fino. O rosto de Magno está congelado em uma máscara fria. Um homem de negócios até o fim. Dez mil deve ser o preço. O champanhe está fazendo ela se sentir muito tonta. Ele está esperando por algo dela e já descobriu que seu corpo é sua última opção. Ela pode realmente concordar em deixar alguém estuprá-la? Incapaz de falar, ela acena com a cabeça.
- Talvez eu deva deixar você lamber a borda para provar o veneno - ele murmura, e se aproxima dela. Instintivamente, ela dá um passo para trás com seu sapato alto, e se não fosse a parede sólida contra suas costas, cairia. Com as folhas da palmeira e seu grande corpo a escondendo, a mão dele chega até ela e belisca o mamilo direito. Tão forte que ela engasga numa mistura de choque e dor. Ele aproveita essa oportunidade para se enfiar em sua boca entreaberta e bate os dentes contra os lábios dela, empurrando a língua dura e pontiaguda em sua boca. Sua língua tem gosto de cobre amargo.
Grande quantidade de saliva derrama em sua boca fazendo-a querer vomitar. Ela lembra das ostras que não comeu, mas o viu saborear e a lembrança pisca em sua memória. Sua língua está viscosa e suja. Ela quer escovar os dentes, lavar, cuspir e enxaguar novamente com o antisséptico bucal extra forte que seu pai costumava ter no armário do banheiro. Ela realmente precisa ir a algum lugar e vomitar, mas está presa firmemente por seu forte corpo de atleta contra a parede, ela se encontra totalmente incapaz de se mover e sente a força de sua mão entre suas coxas. Seus dedos ásperos já estão agarrando a borda da sua calcinha e empurrando o material para o lado. E não há uma única coisa que ela possa fazer sobre isso. Lágrimas se acumulam no fundo de seus olhos e começam a rolar pelo seu rosto.
De repente, ele retira sua boca e olha para ela. Seu rosto está branco com horror e ela está tentando recuperar o fôlego. Ele traz uma mão e toca seu rosto. Sua angústia parece agradá-lo. Seu sofrimento é o seu prazer. Ela está fazendo o papel perfeitamente. Se tivesse gostado, teria arruinado tudo para ele.
- A maior parte dos sintomas de excitação e medo são tão parecidos que a maioria dos homens não pode dizer a diferença. Mas eu sei - ele sussurra perto de seu ouvido, os dedos grossos se movimentam nas dobras de sua boceta - Vou te foder com os dedos entre todas essas pessoas altas e poderosas e nenhum deles jamais saberá. - Ela está cheia de ódio por ele. Seu cérebro luta pela fuga.
- Você não se importa - ela sussurra de volta, através dos lábios horrorizados - Com o que essas pessoas vão pensar de nós? De você? Pensei que estivesse satisfeito em estar na companhia da nata da sociedade.
Sua risada é dura e repentina.
-Você viu alguém vir me cumprimentar ou falar comigo? Sou tão invisível quanto você, provavelmente mais.
Ninguém está olhando para nós, porque ninguém se preocupa conosco. Nós somos os intrusos.
Desesperada, ela empurra as palmas das mãos contra o peito dele.
A náusea ameaça em sua garganta.
- Preciso ir ao banheiro - ela engasga.
Ele hesita por um segundo e, em seguida sorri. É o sorriso de um homem que está muito satisfeito consigo mesmo. Não é muito elegante dizer banheiro. Estas pessoas chamam de toalete.
- Vá em frente, então - ele diz e fica de lado.
A primeira coisa que seus olhos chocados e com vergonha encontram é Blake. Há uma loira com um vestido vermelho longo, enrolada em torno dele, mas ele está olhando para Antonella com uma expressão no rosto que ela não consegue entender. Seus olhos estão em chamas.
Antonella fecha a boca, endireita os ombros, e se desencosta da parede, dando um passo adiante. Seus joelhos estão bambos e ela sente medo de cair, mas não cai. Ela precisa fugir. Ir para longe da cena de sua humilhação. Sente cabeças girando para vê-la, expressões desgostosas e sussurros. Ela tropeça indo em direção à porta e mal pode controlar a náusea.
Ela não se atreve a abrir a boca para perguntar a ninguém onde estão os banheiros, mas vê duas jovens desaparecendo por um corredor e corre atrás delas. Elas a levam a um vestiário e ela as empurra, ignorando os gritos ofendidos e corre para um dos dois cubículos, cai de joelhos, vomita violentamente os pedaços de legumes que comeu e a champanhe. Uma das meninas pergunta se está bem e ela engasga,
- Tudo bem - Ela as ouve ir para o outro cubículo e tranca a porta.
Antonella se senta sobre os calcanhares e as lágrimas quentes vêm. Ela cobre a boca para abafar seus soluços pois fez papel de boba. O que vai fazer? O que vai fazer? Entorpecida, ouve as meninas no cubículo ao lado rindo sobre o que todas mulheres riem e conversam sobre homens. Em seguida, seus ouvidos captam os sons delas cheirando linhas de cocaína. Quando elas saem, ela libera o banheiro e abre a porta e percebe que não viu nada antes. Como a grande mobília.
Há um grande espelho ornamentado de dourado que se estende ao longo da parede. O outro cubículo parece estar em uso e uma mulher magra, com cabelos perfeitos está sentada em uma das cadeiras dourada e creme, esperando sua vez. Há um ar de calma superior, sobre ela. Seus olhos curiosos se encontram brevemente com os de Antonella, antes dela entrar no cubículo que ela desocupou.
Antonella fica na frente do espelho e olha para si mesma. Seu rosto está pálido e o rímel barato que comprou no mercado está manchado; os lábios estão como se ela tivesse sido picada por abelhas, e seus olhos estão vermelhos de tanto chorar. Isto foi o que Blake Colleman viu. Ela está parecendo exatamente como se sente. Suja.
A mulher do outro cubículo sai. Ela parece idêntica à mulher que estava sentada na cadeira. Com um olhar rápido e surpreso em Antonella, vai para o outro lado do espelho. Ela acaricia o cabelo impecável, sacode de longe manchas de poeira imaginárias de seu vestido rosa suave. Antonella abre a torneira e enxágua a boca com água em abundância. Escavando água em suas mãos ela lava o rosto com sabonete e esfrega, depois seca com uma toalha de papel. Sem a maquiagem ela se sente indefesa.
Há um pervertido doente lá fora que quer violentá-la e deixá-la rasgada e sangrando em um beco. Você pode ir embora. Mande ele se foder. Mas ela não podia. Era tanto dinheiro. E ele sabia disso. Ela precisava daquele dinheiro. Pensou em pegar o dinheiro e não se entregar. O que ele poderia fazer? Não é como se ele pudesse ir à polícia ou recorrer à justiça por reembolso. Então, ela se lembra de seus olhos frios e perigosos. Não. De qualquer forma, ela sempre disse que preferia ser a pessoa que comprou a ponte de Brooklyn do que aquela que a vendeu.
Mais uma vez os seus pensamentos voltam para o homem Colleman. Por que ele ainda está em sua mente? Provavelmente, pela maneira como ele a olhou. Ninguém. Absolutamente ninguém a olhou assim.
Ela se entrega a um momento da fantasia. Talvez ele realmente a queira. Ele é podre de rico e irá simplesmente dar o dinheiro que ela precisa. Galante, ele irá se apaixonar por ela e irão se casar. Enquanto ela está de pé dentro dos seus sonhos, outra mulher abre a porta e entra. É a loira de vestido vermelho. Ela é alta e muito bonita, com um nariz aristocrático e olhos verde-garrafa e tem o mesmo ar superior de todas as pessoas nessa festa. O mesmo ar que Blake Colleman reivindicou para si mesmo.
Antonella não pode deixar de observá-la através do espelho. Seus olhos se encontram por um segundo, em seguida, se afastam da loira. Todo mundo sabe que ela não pertence a este lugar.
Antonella olha para seu reflexo. Com quem ela está brincando? Blake Colleman é o maior partido deste lugar. Simplesmente a maneira de Magno se comportar na sua presença disse isso. Ele estava, provavelmente, olhando para ela porque está vestida como uma prostituta e acha que realmente é uma. A única coisa real que ela tem é sua mãe. E não há nada que não vá fazer por ela. Antonella pensa em seu pai. Como facilmente se afastou quando ele era mais necessário. Quão fraco seu amor por elas foi. O dela é diferente. Ela não iria embora, mesmo que tivesse que andar em um caminho de espinhos. Vai sangrar, e essa será a prova de seu amor.