Liora
Olhei para o espelho, sorrindo para mim mesma porque sabia que meu namorado não conseguiria tirar os olhos de mim quando me visse. As rosas na minha mão esquerda eram do florista favorito dele - um lindo marrom-dourado. Na mão direita, uma garrafa caríssima de champanhe, também a favorita dele, o que, eu ri sozinha, me deixou um pouco lisa.
Caminhei pelo corredor da Montague Tech e apertei o botão do elevador que me levaria ao andar do escritório do meu namorado. Hoje era Dia dos Namorados e eu ia pedi-lo em casamento depois de três anos juntos. Eu sabia que tradicionalmente era ele quem deveria me pedir, mas Flynn era bastante indeciso e nós tínhamos uma conexão de almas. Por que esperar mais se podíamos nos casar agora?
E conhecendo-o como eu conhecia, ele iria apreciar que eu tivesse tomado a iniciativa. Diria sim. Éramos perfeitos juntos. Eu sentia isso nos ossos.
Mesmo assim, meu coração estava disparado. Planejei tudo por dois meses. Flynn havia me dito que achava romântico quando a mulher propunha, então economizei, comprei o anel, reservei as passagens para as Maldivas e preparei toda a surpresa.
"Você realmente vai fazer isso", sussurrei para o meu reflexo enquanto o elevador subia até o décimo quinto andar. Flynn trabalhava como assistente executivo na Montague Tech, e fui eu quem consegui o emprego para ele. Tinha uma amiga no RH e dei uma boa recomendação. Flynn me era grato desde então, prometendo que iria retribuir. Eu o acompanhei nos momentos difíceis e agora ele estava financeiramente estável, ganhando bem. Era hora do próximo passo.
O casamento.
As portas do elevador se abriram no décimo quinto andar. Caminhei pelo corredor em direção ao escritório de Flynn. A porta estava fechada, mas não bati. Queria que fosse uma surpresa. Virei a maçaneta, sorrindo de orelha a orelha, e empurrei a porta.
"Flynn, cheguei..."
As palavras morreram na minha garganta.
Flynn estava atrás da mesa e Sage - a assistente dele - estava inclinada sobre ele, saia levantada, as mãos dele mexendo na lateral da calcinha dela, a boca no pescoço, na orelha, no cabelo.
Quando ela gemeu, foi o fim para mim. Arremessei a garrafa de champanhe nos dois. Errei. A garrafa bateu na parede e explodiu, espalhando espuma e cacos de vidro sobre eles. O barulho ecoou pelo escritório inteiro.
Flynn e Sage se afastaram bruscamente, olhando confusos para a parede e depois para a porta. Quando me viram, empurraram um ao outro. Ela puxou a saia para baixo, o rosto vermelho como um tomate. Os olhos de Flynn se arregalaram.
"Liora," ele gaguejou. "Não é o que você está pensando."
Eu o encarei como se fosse um cadáver. "Há quanto tempo?"
Quando eles trocaram olhares, eu soube que era havia muito tempo. Meu coração desabou.
"Baby, por favor," Flynn disse, pisando por cima dos cacos. "Deixa eu explicar."
"Não precisa." Minha voz saiu definitiva. "O que eu vi aqui explica tudo." Joguei as flores no chão, cerrando os punhos. Virei-me para sair.
"Baby, por favor..." ele gritou, segurando meu braço.
"Não encosta em mim!" berrei. As lágrimas que eu tentava segurar rolaram soltas. Todos esses anos me sacrificando por ele, e ele me traía pelas costas?
"Babe, por favor, eu não quis te machucar. Aconteceu sem querer. Não significou nada. Eu te amo."
"Não." Dei um passo à frente, os olhos ardendo de dor pela traição, o dedo indicador apontado para o queixo dele. "Nunca mais diga isso pra mim. Você não me ama. Nunca amou."
Sage pegou os sapatos debaixo da mesa. "Eu vou indo."
"É," eu disse, cravando os olhos nela. "Vai mesmo."
Ela passou correndo por mim, sem olhar nos meus olhos. A porta bateu atrás dela.
Olhei Flynn de cima a baixo. Todo o amor que eu sentia por ele tinha sido substituído por um ódio ardente.
"Liora, por favor," ele implorou enquanto eu segurava a maçaneta novamente. "Podemos conversar sobre isso. Foi um erro estúpido. Não vai acontecer de novo. Você é a única com quem eu quero ficar."
Três anos da minha vida jogados fora com alguém que nem me respeitava o suficiente para ser fiel.
Ignorei-o. "Acabou."
"Sabe de uma coisa?" A voz dele de repente ficou gelada. "Retiro o que disse."
Virei-me, surpresa. A rapidez com que ele mudou de modo súplica para vilão me deixou chocada. "O que você quer dizer?"
"Quem você pensa que é?" Ele me olhou de cima, a maldade nos olhos me fazendo recuar. "Só porque conseguiu um emprego pra mim acha que tem direitos exclusivos sobre mim? Eu não pertenço a você, Liora. Nem a ninguém."
As lágrimas pinicavam no fundo dos meus olhos, mas eu as segurei. Minha voz saiu como aço: "Eu nem quero alguém como você pertencendo a mim. Vá, seja livre. Não vou mais te prender."
"Acabou," eu disse, virando e saindo. Consegui chegar ao elevador antes das lágrimas começarem. Minhas mãos tremiam tanto que mal conseguia apertar o botão. A caixinha do anel ainda estava na minha bolsa. As passagens para as Maldivas ainda estavam no meu celular.
Quando as portas do elevador se abriram, entrei tropeçando. Havia outras pessoas, provavelmente indo almoçar. Encostei na parede do elevador e chorei. Chorei todas as lágrimas que tinha, porque quando saísse daquele prédio, pretendia deixar todas as memórias dele ali e seguir com a minha vida, por mais difícil que fosse.
Finalmente chegamos ao térreo. Todas as pessoas no elevador me olhavam com preocupação. Eu sabia que estava um desastre. Em frente ao elevador ficava o outro, e meu coração afundou quando vi Flynn saindo dele. Pior ainda, ele vinha marchando na minha direção, o rosto contorcido de raiva. O que mais ele queria?
Saí correndo em direção à porta da frente, desesperada para sair daquele prédio. Olhei para trás e ele vinha andando rápido atrás de mim. Virei a cabeça para frente e foi quando colidi com um... estranho lindo.
Ele me segurou antes que eu caísse. Eu me endireitei rapidamente. Ele tinha mais de um metro e noventa, cabelos escuros, rosto esculpido - uma verdadeira obra de arte. Tinha o ar de quem vem de família rica, alguém importante.
Quando olhei para trás novamente, Flynn estava no meio da multidão, procurando por mim.
Os próximos dez segundos aconteceram sem que eu pensasse. Segurei o pulso do homem à minha frente, enfiei a mão na bolsa e peguei a caixinha do anel. Ele ergueu uma sobrancelha, mas não puxou a mão.
"O que você está fazendo?" perguntou, com a voz tão suave e rouca que meu fôlego falhou.
Ajoelhei-me bem ali, no meio do lobby. As pessoas ao redor pararam e ficaram olhando. Eu não me importei. Abri a caixinha do anel.
"Quer casar comigo?" perguntei.
O rosto dele se dissolveu num riso divertido e um calor de vergonha subiu pelas minhas bochechas. O bom senso finalmente voltou e eu me perguntei que diabos estava fazendo. Pior ainda, todo o saguão ficou em silêncio absoluto. Comecei a me levantar devagar quando a voz grave dele ecoou pelo hall:
"Quero. Eu caso com você."
Levantei a cabeça surpresa. Atrás de mim, ouvi passos correndo.
"Liora, que porra você está fazendo?"
Flynn veio correndo e tentou me puxar, segurando a mão do estranho para tirar o anel, mas seguranças apareceram e o impediram, com olhares ameaçadores.
Foi então que ele olhou para o estranho. Vi o medo atravessar seu rosto.
"Senhor Montague?"
Senti um calafrio gelado percorrer minhas veias. Foi ali que reconheci o rosto que eu já tinha visto em dezenas de programas de TV e outdoors.
"Oh, meu Deus," sussurrei.
Sr. Montague. O CEO. O homem que era dono da empresa inteira e de todo o conglomerado. Tecnicamente, o chefe do chefe do chefe de Flynn.
Eu tinha acabado de pedir em casamento o Montague.
Everett Montague olhou para mim com um sorriso no rosto.
"Olá, noiva," disse ele.
LIORA
Antes que eu conseguisse processar o que havia acabado de acontecer, Everett Montague segurou minha mão e me puxou em direção ao elevador. Flynn tentou nos seguir, mas os seguranças bloquearam seu caminho.
"Senhor Montague, por favor, eu posso explicar", gritou Flynn.
Everett nem sequer olhou para trás. Entramos juntos no elevador e as portas se fecharam bem na frente do rosto desesperado de Flynn. Fiquei parada ali, segurando a caixinha do anel, enquanto meu cérebro tentava acompanhar o que minha boca havia feito. Que diabos eu acabei de fazer?
"Me desculpe", soltei de uma vez. "Eu não sei o que deu em mim. Acabei de flagrar meu namorado me traindo, não estava raciocinando direito, te vi e simplesmente-"
"Me pediu em casamento na frente de cinquenta testemunhas?" Os lábios de Everett se curvaram como se ele estivesse segurando uma risada.
"Sim." Meu rosto queimou de vergonha. "Sinto muito mesmo. Pode esquecer que isso aconteceu. Eu digo pra todo mundo que foi uma brincadeira ou uma aposta ou-"
"Por que eu faria isso?"
Pisquei para ele. "O quê?"
As portas do elevador se abriram no último andar. Everett me guiou por um corredor com paredes de vidro que davam vista para a cidade. Paramos em frente a uma enorme sala de reuniões. Ele segurou a porta aberta e fez um gesto para que eu entrasse.
Hesitei. Aquele homem era um CEO bilionário. Ele poderia fazer qualquer coisa comigo ali e ninguém acreditaria na minha versão. Mas ele parecia mais entretido do que perigoso, então entrei, com a mente a mil por hora.
"Sente-se", disse ele.
Sentei. Ele ocupou a cadeira à minha frente.
"Você acabou de me pedir em casamento publicamente no meu próprio prédio", falou ele. "Isso exige ou muita coragem ou insanidade."
"Insanidade", respondi rapidamente. "Eu não fazia ideia de quem você era. Só queria que o Flynn parasse de me seguir."
Ele sorriu. "Me conte o que aconteceu."
Contei tudo: os dois meses de planejamento, a compra do anel, as passagens para as Maldivas e o momento em que entrei no escritório de Flynn e o encontrei com Sage. Quando terminei, me senti um pouco melhor. Era como se eu tivesse revivido a cena inteira.
"Flynn West", disse Everett, agora com a voz gelada. "Seu namorado é meu assistente executivo."
"Eu sei. Na verdade, fui eu quem consegui o emprego pra ele." Baixei os olhos para minhas mãos. "Uma amiga minha trabalha no RH."
"Interessante." Everett pegou o celular e digitou algo. "Ele tem me impressionado ultimamente com algumas ideias de marketing. Eu me perguntava de onde vinha esse talento repentino."
Levantei a cabeça bruscamente. "O que você quer dizer?"
"Não eram ideias dele, não é?"
A ficha caiu. Então ele não tinha apenas me traído. Também roubava meus ideias para subir na carreira.
"Eu o ajudei com algumas apresentações. Ele dizia que queria minha opinião porque eu tenho formação em marketing e valorizava minha opinião."
"Ele roubava seu trabalho e apresentava como se fosse dele." O maxilar de Everett ficou tenso. "Há quanto tempo?"
"Talvez uns seis meses?" Minha voz saiu baixa. "Ele sempre me pedia para revisar as apresentações. Achei que estava sendo uma boa namorada."
"Você estava sendo usada."
As palavras doeram porque eram verdadeiras. Eu tinha passado três anos colocando Flynn em primeiro lugar, ajudando-o a crescer, sacrificando meu próprio progresso na carreira para que ele brilhasse.
Fechei os olhos. Era a terceira vez naquele dia que eu tentava conter as lágrimas. "Sou uma idiota", sussurrei.
"Você não é idiota. Você confiou em alguém que não merecia." Everett se inclinou para frente. "Mas aquela proposta no lobby? Teve um timing perfeito." Seus olhos cinzentos encontraram os meus. "Tenho uma proposta para você."
Meu estômago deu uma cambalhota. "Que tipo de proposta?"
"Vamos fazer um noivado falso por três meses. Eu me livro das tentativas de arranjar casamento dos meus pais e te ajudo a se vingar do Flynn."
Fiquei olhando para ele, boquiaberta.
Ele tamborilou os dedos na mesa. "Meus pais estão tentando me casar com Diella Ashford há cinco anos. Ela vem de família tradicional, tem ótimas conexões, é tudo o que eles acham que preciso em uma esposa. O problema é que eu não a amo. Nem gosto dela. Mas eles não vão parar até eu estar noivo de outra pessoa."
Finalmente recuperei a voz. "Então você quer me usar como escudo."
"E você quer fazer o Flynn se arrepender amargamente de ter te traído. Esse acordo beneficia nós dois."
Eu deveria ter dito não. Mas a imagem de Flynn me vendo com alguém como Everett Montague - feliz, bem-sucedida, enquanto ele se consumia de culpa - era tentadora demais.
"O que exatamente esse acordo envolveria?" perguntei com cuidado.
"Haverá muitas aparições públicas. A mídia vai se interessar bastante. Você vai conhecer minha família e precisará se mudar para o meu penthouse para ficar convincente."
"Isso é loucura", foi minha resposta.
Um riso baixo escapou dos lábios dele e quase me derreti. "Você pediu um estranho em casamento no lobby de uma empresa. Se isso não é loucura, não sei mais o que é. Ah, e você receberia quinze mil dólares por mês como compensação. Depois de três meses, terminamos discretamente e seguimos nossas vidas."
Fiquei de boca aberta novamente. Nunca tinha visto tanto dinheiro na vida.
"Alguma pergunta?"
Balancei a cabeça.
"Algum comentário?"
Me inclinei para frente. "Não acha que vai ser estranho, já que o Flynn trabalha pra você?"
Ele dispensou a preocupação com um gesto. "Ah, sobre isso. Ele vai ser transferido para o escritório em Chicago. Ficará bem longe de nós dois." A voz dele estava fria.
"Preciso pensar", eu disse.
"Pense o quanto quiser." Everett se levantou. "Mas não demore muito. Minha mãe já está ligando para conhecer minha noiva misteriosa. As notícias correm rápido neste prédio."
Antes que eu pudesse responder, alguém bateu com força na porta da sala de reuniões.
"Liora, por favor. Preciso falar com você. Senhor Montague, por favor, me deixe explicar."
Suspirei. Flynn.
Everett me olhou. "Quer que eu peça para a segurança removê-lo?"
Olhei para a porta - Flynn do outro lado implorando por outra chance porque viu que eu tinha chamado a atenção do chefe dele - e depois para Everett Montague, com seu terno caro, olhos cinzentos divertidos e proposta completamente insana.
"Aceito o acordo", declarei.
"Excelente." Ele caminhou até a porta e a abriu. Flynn quase caiu para dentro.
"Liora, graças a Deus. Me escuta. A Sage não significa nada. Foi um erro estúpido. Eu te amo. Quero me casar com você. Por favor, não faça isso."
Nunca na vida tinha encontrado um mentiroso tão confuso e descarado.
Flynn gesticulou freneticamente na direção de Everett. "Você nem conhece ele. Isso é loucura. Você está magoada e agindo por impulso, mas nós podemos consertar isso..."
"Eu disse sim", interrompeu Everett. "Estamos noivos."
A boca de Flynn se abriu e fechou. "Você não pode estar falando sério."
Everett passou o braço ao redor da minha cintura e me puxou contra ele. "Não é verdade, querida?"
Meu coração martelava no peito. Isso estava realmente acontecendo. "Sim", consegui dizer. "Estamos noivos."
"Liora, você está sendo ridícula", retrucou Flynn. "Você o conheceu há cinco minutos. Isso é insano."
"Você tem razão", respondi. "É insano. Mas sabe o que mais é insano? Descobrir que o homem que eu amei por três anos estava me traindo há meses enquanto roubava meu trabalho para subir na carreira."
O rosto de Flynn ficou pálido. "Eu não-"
"Guarde isso. Acabou. Estou seguindo em frente." Meu olhar pousou nos lábios de Everett.
A mão de Everett apertou minha cintura. Então ele fez algo que eu não esperava: inclinou-se e me beijou.
Era para ser só encenação. Mas no instante em que seus lábios tocaram os meus, uma corrente elétrica atravessou meu corpo inteiro. Minhas mãos subiram para o peito dele, sentindo o tecido caro do terno e o peito firme por baixo.
Eu queria mais. Ele me puxou ainda mais para perto, aprofundando o beijo. Meu corpo inteiro estava em chamas.
O rosto de Flynn desmoronou. "Liora-"
"O anúncio do noivado sai amanhã", disse Everett, com a voz fria novamente. Sua mão não saiu da minha cintura. "Limpe sua mesa, Flynn. Você está transferido para o escritório de Chicago. Efeito imediato."
A boca de Flynn se abriu e fechou sem emitir som. Ele me olhou uma última vez, os olhos suplicantes. Virei o rosto.
"Saia", ordenou Everett.
Flynn saiu. A porta bateu atrás dele.
Fiquei ali, nos braços de Everett Montague, com os lábios ainda formigando do beijo e o coração batendo tão forte que pensei que fosse explodir. O que foi que eu acabei de aceitar?
A mão de Everett ainda estava na minha cintura. Seu polegar fazia pequenos círculos no meu quadril, enviando arrepios pela minha espinha. "Arrume suas coisas", disse ele, com a voz baixa. "Você se muda hoje à noite."
"Hoje à noite?" Minha voz saiu ofegante.
"Precisamos tornar isso convincente. Quanto mais rápido nos mexermos, mais real vai parecer." Seus olhos cinzentos encontraram os meus. "A menos que tenha mudado de ideia?"
"Não mudei", respondi.
"Ótimo." Everett finalmente se afastou, interrompendo o contato entre nós. "Vou mandar um carro buscar você às sete. Leve o básico. Pode comprar o que precisar depois."
"Tudo bem", sussurrei.
Ele caminhou até a porta, parou e olhou para trás. "Ah, e Liora... Bem-vinda à família."
Então ele saiu, e fiquei sozinha na sala de reuniões, com os lábios ainda formigando, o coração acelerado, me perguntando em que diabos eu havia me metido.
LIORA
Mais tarde naquele dia, compartilhei minha localização com Everett porque sua assessora de imprensa me enviou uma mensagem pelo Instagram. Isso significava que eu não conseguia falar diretamente com ele, apenas através dela. Ele enviou um carro às sete da noite e, até lá, eu já havia guardado minhas roupas favoritas em duas malas. O motorista saiu do carro para me receber e me ajudou a colocar as malas no porta-malas. Ele não disse uma palavra enquanto abria a porta para mim.
A viagem até o destino durou vinte minutos - eu sabia porque olhava o relógio o tempo todo, com a ansiedade corroendo meu estômago ao pensar que iria dividir o mesmo espaço com um homem que mal conhecia. Paramos em frente a um prédio no distrito financeiro, um arranha-céu tão alto que eu não conseguia ver o topo. O porteiro abriu minha porta antes mesmo que eu pudesse alcançar a maçaneta.
"Senhorita Jovan", disse ele. "O Sr. Montague está à sua espera."
Tudo ali brilhava riqueza. Engoli em seco. Nunca havia estado cercada por tantas coisas caras. O elevador só subia até o penthouse com um cartão magnético. O porteiro passou o cartão para mim e as portas se fecharam.
Fiquei olhando meu reflexo nas paredes espelhadas do elevador. Eu parecia exausta por causa de toda a troca de mensagens com Flynn no Instagram. Tinha decidido bloqueá-lo em todas as redes sociais, mas acabamos nos destruindo verbalmente. Doía tanto... Eu o amei incondicionalmente por três anos. Minha maquiagem estava borrada de tanto chorar. Meu cabelo era uma bagunça. E eu estava prestes a me mudar para a casa de um bilionário parecendo que havia sido atropelada por um caminhão.
O elevador abriu diretamente dentro do penthouse. Saí e minha boca se abriu.
O espaço era enorme. Janelas do chão ao teto mostravam a cidade inteira acesa como um mar de estrelas. Parecia página de revista, não um lugar onde alguém realmente morasse.
"Senhorita Jovan."
Levei um susto. Uma mulher de terninho cinza estava atrás de mim, com uma expressão séria que me intimidou.
"Sou Margaret, assistente do Sr. Montague. Ele está em uma reunião, mas pediu que eu a acomodasse." Ela me entregou uma pasta de couro. "Este é o contrato. Por favor, leia e assine."
Abri a pasta. O contrato tinha cinco páginas cheias de linguagem jurídica. Passei os olhos rapidamente, com o coração acelerado.
Quinze mil dólares depositados todo mês em uma conta no meu nome. Todas as despesas cobertas, incluindo guarda-roupa, transporte e necessidades pessoais.
Havia uma seção inteira sobre confidencialidade, outra sobre o que aconteceria se algum de nós quisesse terminar antes do prazo, cláusulas sobre redes sociais e regras de comportamento em público.
"Tem uma caneta?" perguntei.
Margaret me entregou uma. Assinei na última página sem ler o restante. Que diferença faria? Eu já tinha concordado com essa loucura.
"Excelente." Margaret pegou a pasta de volta. "Deixe-me mostrar seu quarto."
Ela me guiou pelo corredor. Passamos por uma cozinha enorme, uma sala de estar maior que todo o meu antigo apartamento, um escritório e uma academia. Finalmente, parou em uma porta no final do corredor.
"Esta é a suíte master de hóspedes." Ela abriu a porta. "Você terá total privacidade. O quarto do Sr. Montague fica do outro lado do penthouse."
O quarto era maior que meu antigo apartamento inteiro. Havia uma cama king size e um closet enorme. Olhei tudo boquiaberta.
"O closet já foi abastecido com o básico no seu tamanho", disse Margaret. Como ele sabia meu tamanho? "O Sr. Montague vai te levar para fazer compras amanhã para o que mais precisar. O jantar é às sete. O café da manhã, às oito. A cozinha está totalmente abastecida, sirva-se do que quiser. Tem alguma dúvida?"
Eu tinha cerca de um milhão. Hesitei por um momento antes de responder:
"Não."
"Então vou deixá-la se instalar." Ela saiu, fechando a porta atrás de si.
Sentei na cama e olhei ao redor. Não conseguia acreditar que aquela era minha vida agora. Há poucas horas, quase havia pedido meu namorado traidor em casamento. Agora eu estava morando no penthouse do solteiro mais rico da cidade.
Desfiz as malas - o que levou apenas dez minutos, já que eu não tinha muita coisa. Tomei um banho no banheiro gigantesco e vesti um pijama. Eram apenas nove horas, mas eu estava exausta.
O sono não veio. Fiquei deitada na cama enorme, olhando para o teto, com a mente a mil. O que aconteceria no jantar amanhã? O que os pais de Everett pensariam de mim? Quem era essa tal de Diella?
À meia-noite, desisti. Saí do quarto e vaguei pelo penthouse. Tudo estava escuro e silencioso. Encontrei a cozinha e abri a geladeira procurando água.
"Não consegue dormir?"
Virei-me assustada. Everett estava parado na porta, vestindo apenas uma calça de pijama. Meus olhos desceram do rosto dele para os gominhos do abdômen brilhando de suor - parecia que ele tinha acabado de malhar -, e para o V marcado que desaparecia dentro da calça. Se eu apertasse um pouco mais os olhos, conseguia ver o contorno do seu pau marcado no tecido. Fiquei encarando antes de conseguir me controlar, com a boca salivando.
Ele pigarreou e meu olhar voltou rapidamente para o rosto dele. A expressão em seu rosto deixava claro que ele sabia que eu estava despindo ele com os olhos.
"Desculpa", falei, sentindo o rosto queimar. "Só vim pegar água." Quando olhei para a geladeira de vidro, vi que meu rosto estava vermelho como um tomate.
Ele deu uma risadinha baixa. "Tudo bem. Eu causo esse efeito nas mulheres." Ele entrou na cozinha, apontou para o armário acima da pia, passou por mim e pegou uma garrafa de uísque. Serviu-se de um copo e encostou no balcão.
Peguei minha água e fiquei ali, sem graça. Deveria voltar para o quarto? Ficar e conversar? Aquilo era estranho.
"Você assinou o contrato", disse Everett.
"Sim."
"Foi bem rápido. Não esperava. Normalmente leva uns cinco dias para ler e entender todas as cláusulas." Ele fez uma pausa. "Bem... exceto que você não leu."
"Por que um noivado falso precisa ser tão complicado?" Tomei um gole de água.
Ele bebeu o uísque. "Minha mãe ligou. Ela quer te conhecer."
Meu coração acelerou. "Quando?"
"Amanhã à noite. O motorista vai te levar até a casa deles." Ele me olhou. "Ela está animada e vai fazer muitas perguntas. Você precisa estar preparada. Tem que parecer loucamente apaixonada por mim."
"Isso eu consigo. Desde que ela não seja uma mulher assustadora."
Ele suspirou.
"Além disso, Diella Ashford vai estar lá."
Esse nome me era familiar. "A mulher com quem eles querem que você case?"
O maxilar dele ficou tenso. "Eles a convidaram antes que eu pudesse impedir."
Meu estômago afundou. "Então vou conhecer seus pais e sua suposta noiva na mesma noite?"
"Bem-vinda ao meu mundo." Ele virou o resto do copo. "Diella já sabe do nosso noivado. Minha mãe contou para ela. Ela não está nada feliz."
"Ótimo." Coloquei o copo de água na bancada. "Isso vai ser um desastre."
"Provavelmente." Everett encheu o copo novamente. "Por que você ficou com o Flynn por três anos?"
A pergunta me pegou de surpresa. "O quê?"
"Você é inteligente. Devia saber que ele estava te usando." Seus olhos cinzentos encontraram os meus. "Então por que ficou?"
Baixei o olhar para minhas mãos. "Achei que se eu o apoiasse o suficiente, se o colocasse em primeiro lugar, eventualmente ele faria o mesmo por mim. É assim que relacionamentos funcionam, não é? Você dá e, no final, recebe de volta."
"Não é assim que funciona." A voz de Everett saiu baixa. "Você dá, eles pegam. Depois pegam mais, até não sobrar mais nada de você."
Levantei os olhos para ele, surpresa com a dor que ouvi em sua voz.
"Meus pais." Ele girou o uísque no copo. "Meu pai deu tudo para a minha mãe. Tempo, atenção, a vida inteira. Ela pegou tudo e mesmo assim o abandonou, destruindo-o no divórcio. Ele nunca se recuperou."
Ele me olhou. "Você merecia alguém que te colocasse em primeiro lugar desde o início, não alguém que te fizesse lutar por um mínimo de respeito."
As palavras me acertaram fundo. "É. Acho que merecia."
Everett se aproximou. Agora estávamos a poucos centímetros de distância.
"Devíamos estabelecer limites", disse ele. Sua mão subiu e colocou uma mecha de cabelo atrás da minha orelha. O polegar roçou minha bochecha. "Isso é falso. Precisamos nos lembrar disso."
Meu fôlego ficou preso. "Certo. Falso."
Mas nenhum de nós se afastou. O polegar dele ainda estava na minha bochecha. Meu coração martelava.
O celular dele vibrou no balcão. O momento se quebrou. Everett recuou e pegou o telefone. Sua expressão mudou enquanto lia a tela.
"O que foi?" perguntei.
"Diella." O maxilar dele travou. "Ela quer tomar café amanhã de manhã. Antes do jantar."
Meu estômago afundou. "Por quê?"
"Ela quer conhecer a concorrência."
"Não vou", respondi imediatamente.
"Ela tenta casar comigo desde que éramos adolescentes. Não vai te deixar em paz sem lutar." Ele colocou o celular na bancada. "Encontre com ela. Deixe ela falar o que precisa. Depois venha para o jantar e mostre que não importa."
"Isso é loucura", bufei, balançando a cabeça.
"Você vive dizendo isso." Os lábios de Everett se curvaram. "Mas continua aqui. Se quiser ir embora, eu não vou te impedir."
Pensei no meu apartamento minúsculo, no meu emprego mal pago, em acordar todos os dias sabendo que Flynn e Sage ainda estavam juntos.
"Vou ficar", declarei finalmente, batendo o copo na mesa.