Quando eu tinha dez anos, fui levada para a mansão dos Almeida, a família mais rica da cidade.
Eu era Sofia, a filha bastarda de Ricardo Almeida, e meus olhos se fixaram em Gabriel Santos, o namorado da minha meia-irmã, Juliana.
Por sete longos anos, agi como uma cadela fiel, obcecada por ele, fazendo loucuras como abandonar meu vestibular para esperá-lo.
Todos pensavam que eu era patética, a piada da família.
Até que um dia, vi Gabriel e Juliana se beijando no carro dele, um beijo faminto, e ouvi a conversa deles no banheiro.
"Ela é útil. Enquanto ela estiver obcecada por mim, sua mãe não vai suspeitar de nada. E seu pai... gosta da 'filha grata' dele. Isso me ajuda a conseguir os contratos que eu quero."
Era tudo uma farsa. Eu era usada por todos: Gabriel para manipular Juliana, Juliana para se sentir superior, Lúcia para manter a imagem de caridade e Ricardo para acalmar a consciência.
Saí da mansão, e escutei as empregadas: "Coitada da Sofia. Tão apaixonada pelo Sr. Gabriel, mas ele só tem olhos para a Srta. Juliana. É o destino. Uma é a filha legítima, a outra é só... a outra. Nunca vai dar certo."
Um sorriso frio se formou em meus lábios.
Eles pensaram que eu era uma peça no jogo deles, mas mal sabiam que era eu quem estava movendo as peças.
O vestibular que abandonei? O primeiro passo do meu plano. Um sacrifício tão grande, tão público, que ninguém duvidaria da minha paixão cega.
Ninguém suspeitaria que, por trás da garota ingênua e obcecada, existia uma mulher calculista esperando o momento certo para a vingança.
A vingança pela minha mãe. A vingança por tudo que eles me fizeram.
O jogo estava apenas começando, e eu ia destruir todos eles.
Fui acolhida pela família Almeida quando tinha dez anos.
Eles eram a família mais rica da cidade, e eu, a filha ilegítima do patriarca, Ricardo Almeida.
Desde o primeiro dia em que pisei na mansão dos Almeida, meus olhos se fixaram em um único homem.
Gabriel Santos.
O namorado da minha meia-irmã, Juliana Almeida.
Por sete longos anos, eu o persegui como uma sombra, uma cadela fiel que só tinha olhos para seu dono.
Para estar com ele, para vê-lo, fiz coisas que hoje parecem loucura.
No dia do vestibular, a prova mais importante da vida de qualquer estudante, eu simplesmente não apareci.
Fiquei do lado de fora do portão da escola, esperando que Gabriel aparecesse para buscar Juliana.
Quando ele chegou, corri até o carro, bati na janela e entreguei a ele uma garrafa de água.
"Gabriel, boa sorte para a Juliana na prova!"
Ele nem sequer olhou para mim. Apenas pegou a água e a colocou no banco do passageiro.
Juliana, sentada ao lado dele, riu com desdém.
"Sofia, você é patética. Para chamar a atenção do Gabriel, você até desistiu do seu futuro? Você é a piada do ano."
Todos ao redor riram.
Eles me viam como uma idiota, uma coitada apaixonada que faria qualquer coisa por um homem que nunca a olharia.
E por sete anos, eu alimentei essa imagem.
Até hoje.
Hoje, vi algo que mudou tudo.
Ou melhor, confirmou tudo.
Eu estava no banco de trás do carro do motorista da família, voltando de uma consulta médica.
Na esquina, vi o carro de Gabriel estacionado em um local discreto.
Dentro do carro, ele e Juliana se beijavam.
Não era um beijo delicado. Era um beijo faminto, desesperado.
As mãos dele estavam por baixo da blusa dela, e a cabeça dela estava inclinada para trás, em puro êxtase.
Eles achavam que ninguém estava vendo.
Mas eu vi.
Naquele momento, os sete anos de humilhação, de fingimento, de autossacrifício, tudo fez sentido.
Era tudo uma farsa.
Uma farsa da parte deles, e uma farsa da minha parte.
À noite, durante o jantar, a família estava reunida.
A Sra. Almeida, Lúcia, a matriarca, sentada na cabeceira da mesa com seu ar de superioridade.
Ricardo, meu pai biológico, ao seu lado, distraído com o celular.
Juliana, a princesinha da família, radiante como sempre.
E Gabriel, o genro perfeito, sentado ao lado dela, sorrindo e servindo-a.
Eu era a presença silenciosa, a filha bastarda que só estava ali para completar o quadro de uma "família feliz".
Senti um enjoo repentino, uma náusea que subia pela minha garganta.
"Com licença, não estou me sentindo bem."
Levantei-me e fui em direção ao banheiro do andar de baixo.
A porta do banheiro estava entreaberta. Quando me aproximei, ouvi vozes.
Eram Gabriel e Juliana.
"Você viu a cara daquela idiota hoje?" A voz de Juliana era puro desprezo. "Ela realmente acha que você vai se apaixonar por ela se ela continuar agindo como uma cachorrinha."
Uma risada baixa de Gabriel.
"Deixe-a pensar o que quiser. Ela é útil. Enquanto ela estiver obcecada por mim, sua mãe não vai suspeitar de nada. E seu pai... bem, seu pai gosta de ver a 'filha grata' dele. Isso me ajuda a conseguir os contratos que eu quero."
Juliana suspirou. "Eu sei, mas às vezes eu tenho nojo dela. O jeito que ela te olha..."
"Paciência, meu amor. Só mais um pouco. Assim que eu conseguir o controle do novo projeto do seu pai, não precisaremos mais dessa farsa. Eu serei seu, e somente seu. E a Sofia... ela pode voltar para o buraco de onde veio."
Meu estômago se revirou de verdade.
A náusea não era física. Era a podridão das palavras deles que me sufocava.
Eu me afastei da porta, silenciosamente.
Voltei para a sala de jantar, peguei minha bolsa na cadeira.
Lúcia Almeida me olhou com desaprovação.
"Onde você vai? O jantar ainda não terminou."
Forcei um sorriso, o sorriso dócil e submisso que eles estavam acostumados a ver.
"Desculpe, Sra. Almeida. Realmente não estou bem. Preciso ir para casa descansar."
Sem esperar por uma resposta, virei as costas e saí da mansão.
Enquanto caminhava pelo longo caminho de pedras do jardim, ouvi duas empregadas conversando baixo perto do portão.
"Coitada da Sofia. Tão apaixonada pelo Sr. Gabriel, mas ele só tem olhos para a Srta. Juliana."
"É o destino. Uma é a filha legítima, a outra é só... a outra. Nunca vai dar certo."
Um sorriso frio se formou em meus lábios.
Sete anos.
Por sete anos, eu fui a piada. A cadela lambe-botas. A idiota apaixonada.
Por sete anos, eles me usaram. Gabriel me usou para manipular Juliana e para subir na empresa. Juliana me usou para se sentir superior. Lúcia me usou para manter a imagem de uma família caridosa. Ricardo me usou para acalmar sua consciência culpada.
Eles pensam que eu sou uma peça no jogo deles.
Mal sabem eles que sempre fui eu quem esteve movendo as peças.
Aquele vestibular que eu abandonei?
Foi o primeiro passo do meu plano.
Um sacrifício tão grande, tão público, que ninguém jamais duvidaria da minha "paixão cega".
Ninguém jamais suspeitaria que por trás da garota ingênua e obcecada, existe uma mulher calculista, esperando o momento certo para a vingança.
A vingança pela minha mãe.
A vingança por tudo que eles me fizeram.
O jogo está apenas começando.
E eu vou destruir todos eles.
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Minha infância não teve bonecas ou contos de fadas.
Teve o cheiro de álcool barato e a voz desesperada da minha mãe, Clara.
Eu era a filha ilegítima de Ricardo Almeida, um homem que minha mãe conheceu quando era garçonete em um bar.
Ele prometeu o mundo a ela, mas tudo que lhe deu foi uma barriga e um pouco de dinheiro para desaparecer.
Quando eu nasci, minha mãe tentou de tudo para que Ricardo me reconhecesse.
Ela me levava para a frente da empresa dele, segurando um cartaz.
"Ricardo Almeida, assuma sua filha!"
Ela era expulsa pelos seguranças todas as vezes.
Ela me dizia, com os olhos cheios de uma mistura de esperança e loucura: "Sofia, você é minha única chance. Você é a chave para uma vida melhor. Você tem que entrar naquela família."
Quando eu fiz dez anos, a desesperança dela atingiu o auge.
Ela me levou para o shopping mais caro da cidade, onde ela sabia que a família Almeida estaria.
Ela me encontrou, Lúcia Almeida, a esposa de Ricardo, saindo de uma loja de grife com Juliana.
Minha mãe me empurrou para frente.
"Vá! Vá falar com ela!"
Eu congelei. Lúcia parecia uma rainha, e Juliana, uma princesa. Eu, com minhas roupas velhas e sapatos furados, era uma mendiga.
Vendo minha hesitação, minha mãe fez algo que eu nunca vou esquecer.
Ela me agarrou, correu para o segundo andar do shopping, me colocou sentada no parapeito de vidro e gritou.
"LÚCIA ALMEIDA! SE VOCÊ NÃO LEVAR A FILHA DO SEU MARIDO, EU A JOGO DAQUI DE CIMA!"
O shopping inteiro parou.
Todos olhavam para nós. Para a mulher louca e a criança assustada no parapeito.
Lúcia olhou para cima, o rosto uma máscara de fúria e humilhação.
Juliana, ao seu lado, apontou para mim e disse algo para a mãe.
Lúcia suspirou, derrotada pela vergonha pública. Ela disse algo para um segurança, que subiu correndo.
Minha mãe me entregou ao segurança e desapareceu na multidão.
Foi a última vez que a vi.
Naquele dia, Lúcia Almeida me levou para casa. No carro, ela me olhou pelo espelho retrovisor.
"Seu pai queria um cachorro novo. Acho que ter você por perto vai ser a mesma coisa. Ocupa espaço e talvez sirva para alguma coisa."
Juliana, com seus dez anos e seu vestido rosa cheio de laços, me olhou com nojo.
"Ela fede."
Essa foi minha recepção na família Almeida.
Assim que chegamos à mansão, Juliana soltou seu cachorro, um Doberman enorme, em cima de mim.
"Pega, Max! Pega a vira-lata!"
Eu corri pelo jardim, gritando, com o cachorro latindo e mordendo meus calcanhares.
Ninguém me ajudou. Eles ficaram na varanda, observando. Ricardo até riu.
Naquela noite, eu entendi as regras do jogo.
Para sobreviver, eu precisava ser invisível e útil.
Eu aprendi a limpar, a cozinhar, a fazer tudo que as empregadas faziam, mas sem receber salário.
Eu era quieta. Nunca pedia nada. Nunca reclamava.
Comia as sobras na cozinha, dormia em um pequeno quarto nos fundos, perto da lavanderia.
Minha única estratégia era a submissão.
Especialmente com Lúcia.
Quando ela ficava doente, com suas enxaquecas terríveis, eu ficava ao lado de sua cama por horas, em silêncio, trocando a compressa de água fria em sua testa.
Juliana entrava no quarto, reclamava do cheiro de remédio e saía para brincar.
Eu ficava.
Lentamente, Lúcia começou a me tolerar.
Ela não me via mais como um cachorro, mas talvez como um móvel útil. Um objeto obediente.
Ela começou a me dar as roupas velhas de Juliana e a permitir que eu me sentasse à mesa durante as refeições, desde que eu ficasse em silêncio.
Era uma forma de piedade, não de amor. Mas para mim, era uma vitória.
Meu status na casa subiu de "animal de estimação" para "parente pobre".
Tudo mudou novamente quando eu tinha dezessete anos.
Lúcia, já com seus quarenta e poucos anos, engravidou.
Foi uma gravidez de risco, e ela ficou de cama por meses.
O nascimento de Pedro Almeida foi a maior alegria da vida dela e de Ricardo.
Mas para Juliana, foi uma catástrofe.
Ela, que sempre foi o centro do universo, agora tinha um rival. Um irmãozinho que roubava toda a atenção.
"Eu odeio esse bebê!", ela gritava. "Vocês não me amam mais!"
A casa se tornou um campo de batalha. Ricardo e Lúcia mimavam o bebê, e Juliana se tornava cada vez mais cruel e mimada.
E eu?
Eu continuei no meu papel.
Cuidava de Lúcia, ajudava com o bebê e continuava minha perseguição silenciosa e obsessiva a Gabriel Santos.
Ele e Juliana namoravam desde o ensino médio. Ele era bonito, charmoso e vinha de uma família de classe média. Era o genro que os Almeida aprovavam.
Eu mandava mensagens para ele todos os dias.
"Bom dia, Gabriel. Tenha um ótimo dia."
"Gabriel, você comeu? Não se esqueça de almoçar."
"Boa noite, Gabriel. Sonhe com os anjos."
Ele nunca respondia.
Mas eu sabia que ele via.
E eu sabia que Juliana via. E isso a enfurecia, o que, por sua vez, a fazia se sentir superior.
Tudo era parte do plano.
Um plano que levou sete anos para ser construído.
Um plano regado a humilhação, paciência e um ódio tão profundo que se tornou o ar que eu respirava.
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