A umidade pegajosa de uma tarde de verão nos anos 2000 grudava na minha pele, o cheiro de bolo de fubá vindo da cozinha me trazia uma sensação familiar de casa.
Eu tinha certeza que estava morta, pois me lembrava claramente de ter pulado do último andar do prédio abandonado onde Pedro Henrique e eu costumávamos nos encontrar.
Minha alma vagou, presa a um ressentimento que não me deixava partir, até que a verdade se revelou: Pedro, meu noivo que falsamente morreu como herói militar, vivia uma vida de luxo com Sofia, minha suposta melhor amiga, rindo da minha dor e da minha estupidez.
Eles riram de como eu, cegamente, cuidei da mãe dele enquanto meu próprio pai, o General Silva, definhava e morria sozinho, porque a "morte" de Pedro foi uma farsa para se livrar de mim e sumir com o dinheiro de Sofia.
Eu era apenas um fantasma, consumida pelo ódio, incapaz de agir, uma espectadora da felicidade deles construída sobre as ruínas da minha vida.
Até agora, quando abri os olhos e reconheci o teto do meu quarto de adolescente, percebendo que havia voltado três anos no tempo, antes de todo o sofrimento.
As lágrimas que não derramei como fantasma agora escorriam, não de tristeza, mas de uma fúria fria e alívio, e eu sabia que desta vez, ninguém me destruiria.
O telefone tocou, era Pedro, e diferente da vida passada, onde o atenderia cegamente, desta vez, minha voz era um gélido:
"Alô?"
Quando ele perguntou o que era mais importante que o futuro dele, respondi simplesmente:
"Meu futuro," e desliguei.
Naquele dia, eu não só terminei com ele, como também olhei para Marcos Vinícius, o vizinho "playboy" que sempre me olhou com carinho, e declarei na frente do meu pai:
"Eu vou me casar com o Marcos Vinícius."
Pedro apareceu na minha porta, furioso, e quando ele tentou me puxar, sussurrou algo que gelou meu sangue:
"Não... não de novo. Você não vai me deixar por ele de novo."
A única maneira de ele saber disso era se ele também tivesse renascido, e o jogo tinha mudado: agora, não era apenas minha vingança, mas uma batalha.
Naquele mesmo dia, vendo o rosto dele pálido de choque e fúria, eu gritei para Marcos, para que Pedro ouvisse:
"Marcos Vinícius, quer casar comigo?"
A expressão de Pedro, que não havia saído da calçada, se contorceu em desespero e fúria, e a certeza de que ele também se lembrava me atingiu.
A umidade pegajosa de uma tarde de verão nos anos 2000 grudava na minha pele. O som familiar de um ventilador de teto girando lentamente e o cheiro de bolo de fubá vindo da cozinha me atingiram com força.
Eu estava morta. Eu tinha certeza disso.
Tinha pulado do último andar do prédio abandonado onde Pedro Henrique e eu costumávamos nos encontrar. O vento frio, a queda rápida, o impacto final. Eu me lembrava de tudo.
Depois da morte, minha alma vagou, presa a um ressentimento que não me deixava partir. Foi então que eu descobri a verdade. Vi Pedro Henrique, meu noivo que todos acreditavam ter morrido heroicamente em uma missão militar, vivendo uma vida de luxo com Sofia, minha suposta amiga.
Eles riram da minha estupidez. Riram do meu luto. Riram de como eu, obedientemente, cuidei da mãe dele, Dona Fátima, gastando meu tempo e energia, enquanto meu próprio pai, o General Silva, definhava de tristeza e doença, morrendo sem que eu estivesse ao seu lado.
A "morte" de Pedro foi uma farsa. Um plano para se livrar de mim e da responsabilidade, para fugir com Sofia e o dinheiro que ela havia herdado. Minha depressão, meu suicídio, a morte do meu pai... tudo fazia parte do plano deles. O ódio me consumiu, mas eu não podia fazer nada. Eu era apenas um fantasma, uma espectadora da felicidade deles construída sobre as ruínas da minha vida.
Até agora.
Abri os olhos. O teto do meu quarto de adolescente estava exatamente como eu me lembrava. Pôsteres de bandas antigas, o papel de parede florido que eu odiava. Levantei a mão, trêmula. Era sólida. Real.
O calendário na minha escrivaninha marcava uma data de três anos antes da "morte" de Pedro. Eu tinha voltado. Tinha recebido uma segunda chance.
As lágrimas que não derramei como fantasma agora escorriam pelo meu rosto, quentes e reais. Não eram lágrimas de tristeza, mas de uma fúria fria e de alívio. Desta vez, seria diferente. Ninguém iria me destruir. Ninguém iria machucar meu pai.
O telefone tocou, o som estridente cortando o silêncio do quarto. Meu coração gelou. Eu conhecia aquela ligação. Era Pedro. Na minha vida passada, atendi com um sorriso, animada para ouvir sobre seus planos, seus sonhos de glória militar que eu apoiava cegamente.
Desta vez, deixei tocar. Uma, duas, três vezes. A cada toque, minha determinação se solidificava. Eu não seria mais a noiva tola e dedicada.
Finalmente, atendi, mas minha voz era gelada.
"Alô?"
"Ana, meu amor! Onde você estava? Pensei que não ia atender." A voz dele, tão familiar e agora tão repulsiva, soou do outro lado. "Tenho ótimas notícias sobre a promoção. Queria comemorar com você."
"Não posso, Pedro."
Houve um silêncio do outro lado da linha.
"Como assim, não pode? O que é mais importante que o meu futuro?"
O egoísmo dele, tão claro agora. Na vida passada, eu teria cancelado qualquer coisa por ele.
"Meu futuro", respondi com simplicidade, e desliguei.
Não esperei que ele ligasse de volta. Levantei-me, troquei de roupa e desci as escadas. Meu pai, o General Silva, estava na sala de estar, lendo o jornal. Ele parecia mais jovem, mais saudável. O peso que a minha tragédia futura colocaria sobre ele ainda não existia. A visão dele, vivo e bem, quase me fez desabar.
"Pai."
Ele baixou o jornal, seus olhos gentis focados em mim.
"Ana Lúcia, filha. Aconteceu alguma coisa? Você parece pálida."
Respirei fundo, reunindo toda a coragem que a minha morte me deu.
"Eu terminei com o Pedro Henrique."
Meu pai ergueu as sobrancelhas, surpreso, mas não chocado. Ele nunca foi o maior fã de Pedro, sempre achou o rapaz ambicioso demais, mas respeitava minha escolha.
"Tem certeza, filha? Parecia um relacionamento sério."
"Tenho, pai. Absoluta. Eu... eu acho que cometi um erro. E quero consertá-lo." Olhei pela janela e vi Marcos Vinícius do outro lado da rua, lavando seu carro sem camisa, rindo com um amigo. O "playboy" da vizinhança. O homem que sempre me olhou com um carinho que eu, cega por Pedro, nunca quis ver. O homem que, na minha vida passada, depois da minha morte, foi o único que visitou o túmulo do meu pai regularmente.
Meu pai seguiu meu olhar. Ele viu Marcos e um pequeno sorriso se formou em seus lábios. Ele sempre gostou do garoto, apesar da reputação. Sabia que, por baixo daquela fachada descontraída, havia um bom coração.
"E como pretende consertar esse erro?" ele perguntou, sua voz suave.
"Eu vou me casar com o Marcos Vinícius", declarei.
Se meu pai ficou chocado, ele disfarçou bem. Ele apenas dobrou o jornal, colocou-o na mesa de centro e me olhou com uma seriedade que eu raramente via.
"Se é isso que seu coração quer, e se ele te fizer feliz, você tem a minha bênção."
A aceitação dele foi um bálsamo. Um peso saiu dos meus ombros. Eu tinha um aliado.
Naquele momento, a campainha tocou furiosamente. Sabia que era Pedro. Meu pai se levantou para atender, mas eu o impedi.
"Deixa que eu atendo, pai."
Abri a porta e me deparei com um Pedro Henrique de rosto vermelho e furioso.
"O que significa isso, Ana Lúcia? Desligar na minha cara? Terminar comigo?"
"Significa que acabou, Pedro. Simples assim."
Ele me agarrou pelo braço, seus dedos apertando com força.
"Você não pode fazer isso comigo. Nós temos um futuro. Eu serei promovido, teremos uma vida..."
"Você terá uma vida", eu o corrigi, puxando meu braço. "Eu não farei mais parte dela."
A arrogância dele era inacreditável. Ele realmente achava que eu existia apenas para servir aos seus propósitos. Lembrei-me de todas as vezes que ele me fez esperar, que cancelou nossos planos por causa do trabalho ou de "obrigações" com a família dele. Lembrei-me de como a mãe dele, Dona Fátima, já me tratava como uma empregada, pedindo favores constantes, sempre com um sorriso falso no rosto. E eu, tola, fazia tudo, pensando que era meu dever como futura nora.
Enquanto eu o encarava, vendo o homem egoísta que ele sempre foi, a raiva em seu rosto se transformou em algo estranho. Uma confusão, um lampejo de reconhecimento que não deveria estar ali.
Ele olhou para mim, para a minha casa, para o carro de Marcos do outro lado da rua, e sussurrou, com uma voz que mal era audível, mas que gelou meu sangue.
"Não... não de novo. Você não vai me deixar por ele de novo."
Meu coração parou por uma fração de segundo.
De novo?
A única maneira de ele saber disso... era se ele também tivesse renascido.
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A revelação de que Pedro Henrique também se lembrava da vida passada me atingiu como um soco no estômago. O jogo havia mudado. Isso não era mais apenas eu, com o conhecimento do futuro, tentando consertar minha vida. Era uma batalha contra um inimigo que conhecia minhas fraquezas, meus medos e, o pior de tudo, o amor que um dia senti por ele.
Fiquei paralisada na porta, o ar preso nos pulmões. Minha mente girava, tentando processar. Aquele arrependimento em seus olhos era real ou apenas mais uma atuação para me manipular?
"Do que você está falando, Pedro?", forcei-me a perguntar, a voz mais firme do que eu me sentia.
Ele pareceu perceber o que tinha dito. O pânico substituiu a confusão em seu rosto.
"Nada. Eu não... Eu quis dizer que você sempre olhou para ele. Não vou deixar você me humilhar."
Era uma mentira fraca, e nós dois sabíamos disso.
Fechei a porta na cara dele, o som da madeira batendo ecoando a decisão final que eu havia tomado. Tranquei a fechadura e me encostei na porta, o corpo tremendo.
Lágrimas de raiva e frustração brotaram nos meus olhos. A dor da traição da vida passada voltou com força total. Lembrei-me dos anos que passei ao lado dele, apoiando sua carreira, abrindo mão dos meus próprios sonhos. Lembrei-me de como vendi as joias da minha mãe para ajudá-lo a pagar uma dívida de jogo que ele disse ser um "investimento que deu errado". Ele me prometeu que devolveria cada centavo, mas nunca o fez.
Lembrei-me de como cuidei de Dona Fátima quando ela quebrou a perna, passando semanas na casa dela, cozinhando, limpando, levando-a ao médico. Perdi o aniversário do meu próprio pai por causa disso. Pedro me disse que eu era a melhor nora do mundo, que a mãe dele me adorava. Agora eu sabia que era tudo uma farsa. Eles estavam apenas me usando, sugando tudo de mim antes do descarte final.
A injustiça de tudo aquilo queimava dentro de mim. Ele teve a audácia de renascer e ainda achar que tinha algum direito sobre mim.
"Filha, está tudo bem?", a voz preocupada do meu pai me tirou do meu torpor.
Enxuguei as lágrimas rapidamente.
"Sim, pai. Tudo ótimo. Só estava... me despedindo do passado."
Saí pela porta dos fundos e fui direto para o outro lado da rua. Marcos Vinícius ainda estava lá, agora secando o carro com uma flanela. O sol da tarde brilhava em suas costas musculosas. Ele sorriu quando me viu aproximar.
"Ana Lúcia! Que surpresa. Veio me ajudar a lavar o possante ou só admirar a vista?"
O jeito brincalhão dele era exatamente o que eu precisava. Na vida passada, eu sempre achava essa atitude dele superficial, irritante. Agora, eu via o calor genuíno por trás da brincadeira.
"Na verdade, vim fazer uma proposta", eu disse, parando na frente dele.
Ele largou a flanela, a expressão de repente séria.
"Proposta? Gosto de propostas."
Meu coração batia forte. Era loucura, mas eu precisava fazer isso. Precisava selar meu destino, criar um fato consumado que nem mesmo o Pedro Henrique renascido pudesse desfazer.
"Marcos Vinícius, quer casar comigo?"
O queixo dele caiu. Literalmente. Ele ficou me encarando com os olhos arregalados, a boca ligeiramente aberta, completamente sem palavras.
Atrás de mim, ouvi um som engasgado.
Virei-me e vi Pedro. Ele não tinha ido embora. Estava parado na calçada, perto do portão da minha casa, e tinha ouvido cada palavra. Seu rosto estava branco como papel, os olhos fixos em mim com uma mistura de choque, dor e fúria. A máscara de arrependimento tinha caído, revelando o mesmo homem possessivo e arrogante que eu conhecia.
O choque de Marcos durou apenas mais alguns segundos. Um sorriso lento e deslumbrante se espalhou por seu rosto.
"É a melhor proposta que eu já recebi na vida", ele disse, a voz rouca de emoção. Ele deu um passo à frente, diminuindo o espaço entre nós. "Sim, Ana Lúcia. Mil vezes sim."
A resposta dele, tão rápida e certa, aqueceu meu coração.
Pedro, no entanto, não aceitou a derrota tão facilmente. Ele marchou na nossa direção, o rosto contorcido pela raiva.
"Você enlouqueceu, Ana Lúcia? Casar com ele? Um playboy irresponsável que não tem futuro?"
Ele se virou para Marcos, o desprezo evidente em sua voz.
"E você? Acha que eu vou permitir isso? Ela é minha noiva!"
Marcos, que sempre pareceu tão descontraído, endireitou a postura. Ele era mais alto que Pedro e, naquele momento, parecia dez vezes mais imponente.
"Ela acabou de dizer que quer casar comigo. E pelo que eu saiba, ela não é propriedade de ninguém", Marcos respondeu, a voz calma, mas com um tom de aço.
"Isso não é da sua conta!", Pedro rosnou, dando um passo ameaçador em direção a mim. "Ana, vamos entrar e conversar. Você não está pensando direito. Deve ser o estresse."
Ele tentou me agarrar novamente, usando a mesma tática de manipulação, tratando-me como uma criança histérica que não sabia o que queria.
"Eu nunca pensei com tanta clareza na minha vida", eu disse, dando um passo para trás e me colocando ao lado de Marcos. "A minha resposta é para ele", apontei para Marcos, "e a minha decisão sobre você já foi tomada. Acabou, Pedro. Aceite."
A rejeição final, pública e inequívoca, pareceu quebrar algo dentro dele. A raiva em seus olhos se transformou em desespero puro.
"Você não pode fazer isso...", ele repetiu, a voz quebrando. "Eu... eu me arrependo. De tudo."
A confissão pairou no ar, carregada com o peso de duas vidas. Mas para mim, era tarde demais. O arrependimento dele não traria meu pai de volta. Não apagaria a dor e a humilhação. Não consertaria a vida que ele destruiu.
"Seu arrependimento não me interessa", eu disse, friamente. "Agora, se nos der licença, temos um casamento para planejar."
Virei as costas para ele, um ato que eu nunca tive a coragem de fazer na vida passada, e olhei para Marcos. Ele me deu um pequeno sorriso, um misto de triunfo e ternura, e pegou minha mão. O calor da sua pele na minha era real, sólido. Era o meu futuro.
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