Amarrada àquela mesa fria de metal no subsolo do hospital, eu implorei por misericórdia ao meu Companheiro Predestinado, o Alfa Marcos.
Ele ignorou minhas lágrimas. Com uma voz desprovida de qualquer calor humano, ordenou que a médica injetasse prata líquida em minhas veias - um veneno projetado para dissolver o espírito do lobo.
- Faça - comandou ele. - Se ela continuar sendo uma loba, é um risco. Como humana, ela pode ficar como uma Ômega.
Eu gritei enquanto o ácido prateado corroía minha alma, cortando a conexão com minha loba.
Marcos nem piscou. Ele não estava me salvando das queimaduras; ele estava limpando o caminho para sua amante, Raquel, e o filho bastardo secreto deles.
Quebrada e sem loba, fui forçada a assistir enquanto ele reivindicava publicamente seu filho ilegítimo como o novo herdeiro.
Ele pensou que eu era submissa. Pensou que eu desapareceria silenciosamente nos alojamentos dos servos para ser seu caso de caridade.
Ele não sabia que eu havia arrombado seu cofre e encontrado os testes de DNA que provavam seus três anos de traição.
Na manhã de seu casamento com Raquel, eu sorri ao entrar no carro que me levaria ao meu "exílio".
Dez minutos depois, meu e-mail agendado expondo cada mentira chegou ao Conselho dos Anciãos.
E enquanto Marcos caía de joelhos gritando ao ver meu veículo em chamas, percebendo que havia destruído sua Companheira Verdadeira por uma fraude, eu já estava longe.
Capítulo 1
Ponto de Vista: Sara
Ferrugem e antisséptico sufocavam o ar no subsolo do hospital da alcateia. Era o cheiro de um matadouro limpo com água sanitária.
Eu estava deitada, presa à mesa de metal. As restrições de couro cavavam meus pulsos e tornozelos, esfolando uma pele que já estava em carne viva e com bolhas das queimaduras que sofri no incêndio três dias atrás.
- Alfa Marcos, por favor - sussurrou a Médica da Alcateia. O frasco de vidro em sua mão tremia contra a bandeja de metal como dentes batendo de frio. - Ela ainda está se recuperando da inalação de fumaça. O corpo dela está muito fraco. A prata... pode matar o lado humano dela, não apenas o lobo.
Virei a cabeça, com o pescoço rígido. Marcos estava nas sombras. Ele usava um terno grafite impecável, parecendo em tudo o poderoso Alfa da Alcateia Lua Negra. Seu maxilar estava travado, seus olhos vazios do calor que costumava haver lá quando éramos crianças.
- Faça - disse Marcos. Sua voz era baixa, mas carregava o peso esmagador do Comando Alfa.
A médica estremeceu. O Comando não era algo que um lobo de classificação inferior pudesse ignorar. Era uma força física, uma compulsão tecida em nossa biologia que forçava a submissão.
- Mas Alfa - ela implorou, lágrimas brotando em seus olhos. - Ela é sua prometida. O Laço de Companheirismo...
- O laço é um problema - Marcos a cortou, entrando na luz fluorescente dura. - Olhe para ela. Ela é fraca. O fogo quase a matou. Se ela continuar sendo uma loba, será desafiada. Ela será ferida. Isso é para a proteção dela. Como humana, ela pode estar segura. Ela pode ficar na alcateia como uma Ômega, sob meus cuidados.
Mentira.
Meu coração martelava contra minhas costelas. O sedativo que me deram mais cedo estava deixando meus membros pesados, mas minha mente estava aterrorizantemente clara.
Antes de me arrastarem para cá, eu estava na ala de recuperação. As paredes eram finas. Eu tinha ouvido Marcos ao telefone.
*Ela precisa ser neutralizada, ou o Conselho não aprovará o filho de Raquel como herdeiro*, ele tinha dito. *Queime a casa. Se Sara sobreviver, arrancarei a loba dela. Uma Luna sem loba não é Luna de jeito nenhum.*
Ele não queria me proteger. Ele queria abrir espaço para sua amante e seu filho bastardo.
- Prossiga - comandou Marcos. A pressão do ar na sala caiu, sua aura sugando o oxigênio do espaço.
A médica soluçou, um som sufocado, mas seu corpo se moveu contra sua vontade. O Comando Alfa sequestrou seus músculos. Ela pegou a seringa. Estava cheia de um líquido metálico cintilante.
Prata líquida.
Em nosso mundo, a prata é o veneno supremo. Ela queima nossa cura acelerada, interrompe nossa transformação e, se injetada diretamente na corrente sanguínea em altas doses, caça o espírito do lobo dentro de nós e o dissolve. É uma tortura geralmente reservada para traidores e assassinos.
- Marcos - eu grasnei. Minha garganta estava em carne viva por causa da fumaça. - Por favor.
Ele não olhou para mim. Ele olhou para a parede.
- Vai acabar logo, Sara. Você não sentirá mais o fardo do lobo.
A agulha perfurou a veia do meu braço.
Eu engasguei.
Não era frio. Era fogo. Chumbo derretido subiu pelo meu braço, correndo em direção ao meu coração.
Eu gritei.
A dor não era apenas física. Era espiritual. Eu senti *ela* - minha loba - entrar em pânico. Ela arranhava o interior do meu peito, uivando em confusão e agonia. Ela tentou curar a intrusão, mas a prata era muito potente. Era ácido corroendo seda.
*Sara!* ela gritou em minha mente, sua voz distorcida pela dor. *Corra!*
*Eu não consigo*, solucei internamente.
O fogo se espalhou para cada terminação nervosa. Minhas costas arquearam fora da mesa, forçando contra as tiras de couro. O som do meu próprio grito preencheu a pequena sala, ricocheteando nas paredes de concreto.
Marcos assistia. Ele não piscou.
Então veio o rasgo.
Parecia um gancho enferrujado prendendo o núcleo da minha alma e arrancando-o pela minha garganta.
Um ganido agudo ecoou na minha cabeça, seguido por um silêncio terrível e sufocante.
Minha loba deu um último estremecimento, uma sensação fantasma de pelo se eriçando, e então ela se foi. A conexão que tinha sido um zumbido quente no fundo da minha mente desde que eu era criança foi cortada.
Eu fiquei mole. O mundo ficou cinza. Minha audição, geralmente afiada o suficiente para ouvir um batimento cardíaco do outro lado da sala, embotou instantaneamente. O cheiro de ferrugem desapareceu em um odor metálico genérico.
Eu estava vazia.
- Está feito - sussurrou a médica, caindo de joelhos.
Marcos caminhou até a mesa. Ele olhou para mim. Eu estava suando, tremendo, lágrimas escorrendo pelo meu rosto até minhas orelhas.
Ele estendeu a mão e tirou uma mecha de cabelo úmido da minha testa. Seu toque, que deveria ter enviado faíscas do Laço de Companheirismo através de mim - a emoção elétrica de uma conexão predestinada - não parecia nada. Apenas pele quente e seca.
O laço estava quebrado fisicamente, mesmo que a lua ainda o reconhecesse.
- Shh - ele acalmou, sua voz pingando falsa ternura. - Você está segura agora, Sara. Você pode descansar. Sem mais fardos.
Ele se inclinou e beijou minha testa. Foi o beijo de um Judas.
Eu queria cuspir na cara dele. Eu queria arrancar a garganta dele. Mas eu era apenas uma garota humana agora, amarrada a uma mesa, cercada por lobos.
Se eu lutasse, ele me mataria. Se eu mostrasse a ele que sabia a verdade, nunca sairia desta sala.
Forcei minha mão trêmula a se levantar. Agarrei a lapela dele. Olhei em seus olhos com todo o desespero de um animal moribundo.
- Obrigada - sussurrei, a mentira com gosto de bile na minha boca. - Obrigada por me salvar, Alfa.
Marcos sorriu. Era um sorriso triunfante e arrogante. Ele pensou que tinha vencido. Ele pensou que tinha me quebrado.
Ele não tinha ideia do que acabara de libertar.
Ponto de Vista: Sara
O silêncio era a coisa mais alta que eu já tinha ouvido.
Por vinte e três anos, minha mente tinha sido um espaço compartilhado. Minha loba era meu instinto, minha força, minha companheira constante. Agora, havia apenas uma caverna oca onde ela costumava estar.
Eu estava deitada no quarto principal da mansão do Alfa. Marcos dormia ao meu lado, sua respiração profunda e regular. A arrogância do homem era espantosa; ele dormia profundamente ao lado da mulher cuja alma acabara de mutilar.
Eram 2:00 da manhã.
Deslizei para fora da cama. Meu corpo parecia pesado e desajeitado sem a graça sobrenatural do lobo. Cada articulação doía. As cicatrizes de queimadura no meu braço do "acidente" repuxavam contra minha pele.
Arrastei-me em direção ao escritório dele. O assoalho rangeu, e eu congelei, meu coração saltando para a garganta.
Marcos não se mexeu.
Cheguei à pesada porta de carvalho de seu escritório. Eu não precisava de chave; sabia onde ele escondia a reserva. Mas lá dentro, fui direto para o cofre de parede atrás da pintura do Alfa fundador da alcateia.
O teclado brilhava em azul no escuro.
Não me preocupei com aniversários de namoro ou datas sentimentais. Marcos era pragmático ao extremo, mas seu ego era seu ponto cego. Ele não usaria nosso aniversário. Ele usaria a data em que garantiu seu "legado".
Digitei o aniversário de Oliver. A data em que a criança bastarda nasceu.
*Bip. Clique.*
A porta pesada se abriu. Quase ri. Previsível.
Minhas mãos tremiam enquanto eu puxava uma pilha de documentos. Eu não tinha muito tempo. Sentei no chão, usando o luar que filtrava pela janela para ler.
O primeiro papel era um relatório de check-up pré-natal de três anos atrás. Nome da Paciente: Raquel Melo.
O segundo era um teste de paternidade por DNA. *Pai: Marcos Ferraz. Probabilidade: 99,99%.*
Cobri minha boca para abafar um soluço. Três anos. Ele me pediu em casamento há dois anos. Ele estava dormindo com Raquel, uma mulher sem sangue de lobo, uma simples humana que rondava as fronteiras da alcateia, enquanto me cortejava.
Deslizei pelo iPad desbloqueado guardado no cofre. As fotos da nuvem sincronizavam automaticamente.
Havia centenas delas. Um garotinho com os olhos escuros de Marcos e o queixo pontudo de Raquel. Fotos deles no zoológico, em uma praia privada, em um apartamento que eu não sabia que existia.
Então encontrei os registros de bate-papo.
*Raquel: Quando você vai se livrar daquela vadia? Oliver precisa do pai dele publicamente.*
*Marcos: Em breve, meu amor. O incêndio está marcado para terça-feira. Se ela sobreviver, a prata cuidará do resto. Ela será uma Ômega inútil. Os Anciãos não deixarão uma aleijada ser Luna.*
*Raquel: É bom que ela não seja mais bonita. Eu a quero arruinada.*
*Marcos: Qualquer coisa por você.*
Senti enjoo. Eu queria vomitar ali mesmo no caro tapete persa.
Não apenas coloquei os documentos de volta. Tirei fotos de tudo com meu celular descartável. Cada documento, cada mensagem de texto condenatória. Então, acessei o e-mail dele no iPad. Rascunhei um e-mail agendado para o Conselho dos Anciãos e para o Beta Tomás - o segundo em comando de Marcos, um homem que valorizava a honra acima da lealdade. Anexei todos os arquivos.
Defini o horário de envio para as 10:00 da manhã do dia da Cerimônia de Marcação. Uma bomba-relógio.
Coloquei tudo de volta exatamente como encontrei.
Retirei-me para o banheiro e tranquei a porta. Disquei um número que não usava há anos.
- Enfermaria da Alcateia Inverno Branco - uma voz sonolenta atendeu.
- Olívia - sussurrei. - É a Sara.
Houve uma pausa, depois uma inspiração brusca.
- Sara? Meu Deus, ouvimos sobre o incêndio. Ouvimos que você estava... indisposta.
- Não estou indisposta. Estou quebrada - eu disse, minha voz tremendo. - Marcos usou prata em mim. Minha loba se foi.
- Ele fez *o quê*? - A voz de Olívia subiu, perdendo a calma profissional. - Isso é ilegal. Isso é um crime de guerra contra a Deusa da Lua!
- Escute-me. Preciso sair. Mas preciso fazer do jeito certo. Preciso de um transporte.
- Vou enviar uma unidade furtiva. Podemos estar na fronteira sul em dois dias.
- Dois dias - concordei. - A Cerimônia de Marcação é em três. Tem que ser antes disso.
- Vamos pegar você, Sara. Aguente firme.
Desliguei e destruí o cartão SIM, jogando os pedaços na privada e dando descarga.
Então, entrei no registro digital da alcateia no meu telefone legítimo. Acessei a página de modificação de status.
*Nome: Sara Campos.*
*Classificação Atual: Futura Luna / Loba de Alta Patente.*
*Ação: Rebaixamento Voluntário.*
*Nova Classificação: Ômega.*
Meu dedo pairou sobre o botão 'Enviar'. Em nosso mundo, classificação é tudo. Um Ômega é o mais baixo dos baixos - os servos, os fracos, os que comem por último. Ao fazer isso, eu estava me despindo de toda proteção legal.
Mas um Ômega também pode deixar o território da alcateia sem uma escolta completa se tiver uma permissão de trabalho. Era minha única maneira de chegar à fronteira sem levantar o alarme.
Pressionei 'Enviar'. A tela piscou em verde: *Aprovação Pendente.*
Voltei para a cama e deslizei para baixo das cobertas.
Na manhã seguinte, Marcos acordou e se espreguiçou, o braço passando pela minha cintura.
- Bom dia, linda - disse ele, beijando minha bochecha. Ele estendeu a mão para a mesa de cabeceira e pegou uma pasta que devia ter colocado lá enquanto eu estava no banheiro mais cedo.
- A médica enviou o relatório final - disse ele, o rosto uma máscara de tristeza. - Sua loba... ela morreu de complicações devido à inalação de fumaça. A prata foi uma tentativa de estabilizar seu coração, mas foi tarde demais.
Ele mentia tão facilmente. Era aterrorizante.
- Ah - sussurrei, olhando para baixo. - Eu... eu não consigo senti-la, Marcos.
- Eu sei. Sinto muito. - Ele me puxou para um abraço. - Mas temos que seguir em frente. A alcateia precisa de uma estrutura de liderança forte. Já que você não pode mais gerar filhos lobos...
Ele parou, esperando que eu preenchesse a lacuna.
Respirei fundo e olhei nos olhos dele.
- Deveríamos adotar - eu disse, minha voz firme. - Há tantos órfãos. Talvez possamos encontrar uma criança que precise de um lar.
Os olhos de Marcos brilharam. Foi a reação de um predador que acabara de ver a armadilha se fechar sobre sua presa.
- Essa é uma ideia maravilhosa, Sara. Você realmente é a mulher mais compreensiva que conheço.
Ele pensou que eu estava quebrada. Ele pensou que eu estava me submetendo.
Ele não sabia que eu estava afiando a faca.
Ponto de Vista: Sara
- Tem certeza de que está pronta para isso? - Marcos perguntou, verificando seu reflexo no espelho retrovisor do SUV.
- Preciso ser útil - eu disse suavemente, alisando a saia do meu vestido. Ele ficava largo no meu corpo; eu tinha perdido cinco quilos em três dias. - Se vou ser... apenas uma esposa humana, devo focar na caridade.
Estávamos estacionados do lado de fora do orfanato da alcateia. Era um prédio de tijolos sombrio na orla do território, geralmente com falta de verbas. Mas hoje, Marcos estava estranhamente ansioso para visitar.
Ele estendeu a mão para o banco de trás e puxou uma caixa. Era um robô mecha de edição limitada, do tipo que custava mais do que o salário anual de um Ômega.
- Uma doação? - perguntei inocentemente.
- Apenas algo para alegrar o dia de uma criança - disse ele com desdém.
Entramos. O cheiro de água sanitária e repolho cozido me atingiu - ou melhor, o fantasma do cheiro. Meu nariz humano era patético comparado ao que eu estava acostumada.
A matrona correu até nós, curvando-se para Marcos.
- Alfa! Não estávamos esperando o senhor.
- Apenas uma visita casual - disse Marcos, seus olhos examinando a sala.
Então, um borrão de movimento disparou pelo chão de linóleo.
- Papai!
Um garotinho, de cerca de três anos, chocou-se contra as pernas de Marcos.
A sala ficou em silêncio. A matrona parecia aterrorizada.
Marcos congelou por um segundo, depois riu nervosamente, desgrudando a criança de sua perna.
- Ora, você não é amigável?
Olhei para o menino. Ele era a imagem cuspida das fotos no cofre. Cabelos escuros, olhos escuros, a mesma inclinação arrogante do queixo.
Mesmo sem meus sentidos de loba, a conexão biológica estava gritando. No mundo dos lobisomens, o cheiro de um filhote é uma mistura de sua mãe e pai. É uma assinatura inegável.
- Qual é o seu nome? - perguntei, agachando-me.
O menino zombou de mim.
- Oliver. E quem é você? Você parece queimada.
- Oliver! - A voz de uma mulher cortou o ar.
Raquel saiu do escritório dos fundos. Ela não estava usando o uniforme cinza da equipe do orfanato. Ela usava uma blusa de seda e jeans justos, pingando joias de ouro.
- Sinto muito, Alfa - Raquel arrulhou, caminhando e colocando uma mão possessiva no ombro do menino. - Ele é apenas espirituoso. Ele ama lobos fortes. - Ela olhou para mim com desprezo velado. - Ele não gosta de... fraqueza.
- Ele é encantador - eu disse, levantando-me. Minhas pernas pareciam fracas. - Marcos, por que você não vai com a Senhorita...?
- Raquel - ela forneceu.
- Com a Senhorita Raquel e Oliver para verificar as instalações? Preciso me sentar um momento. A viagem me deixou tonta.
- Claro - disse Marcos, parecendo aliviado por fugir do meu escrutínio. Ele entregou o brinquedo caro para Oliver. - Aqui, amigão. Vamos olhar a sala de brinquedos.
Eles se afastaram, uma pequena unidade familiar perfeita.
Esperei até que virassem a esquina, então deslizei para o corredor adjacente à sala de brinquedos. Eu não conseguia mais ouvir sussurros, mas as paredes aqui eram de gesso fino. Pressionei meu ouvido contra a superfície.
- ...ela parece horrível - a voz de Raquel veio, abafada, mas audível. - Aquela cicatriz no pescoço dela? Nojenta.
- Serve a um propósito - respondeu a voz de Marcos. - Mantém ela insegura. Ela não vai me deixar se pensar que ninguém mais vai querê-la.
- Por que você simplesmente não a matou? - Raquel choramingou. - Eu quero ser Luna agora. A cerimônia é em dois dias.
- Temos que ser inteligentes, Raquel. Se ela morrer de forma suspeita logo após o incêndio, o Conselho investiga. Se ela 'renunciar' por causa de seus ferimentos e da perda trágica de sua loba, eu pareço o Alfa benevolente cuidando de uma aleijada, e você entra como a mãe do meu herdeiro.
- Olha isso! - Raquel exclamou. - Consegui um Cristal de Cura do Luar no mercado. Devemos usar nela? Talvez consertar o rosto dela para que ela fique pelo menos apresentável para as fotos?
- Não desperdice - Marcos zombou. - Esses cristais são raros. Guarde para Oliver. Sara não precisa de cura. Ela precisa ficar exatamente como está - quebrada.
- Mamãe, diga para a mulher feia ir embora - a voz de Oliver soou.
- Em breve, bebê. Em breve ela estará morando nos alojamentos dos servos, onde pertence.
Afastei-me da parede. Minhas mãos tremiam, mas não de medo desta vez. De fúria.
Ele preferia me ver marcada para a vida toda do que desperdiçar um cristal comigo. Ele já estava planejando me mudar para os alojamentos dos servos.
Voltei para o saguão de entrada.
Quando eles retornaram dez minutos depois, eu estava sentada no banco, sorrindo.
- Fizeram um bom passeio? - perguntei.
- Muito informativo - disse Marcos. Ele parecia corado, feliz.
- Acho que deveríamos apadrinhar o pequeno Oliver - eu disse, olhando diretamente para Raquel. - Ele parece... especial. Não acha, Marcos? Ele tem seus olhos.
Marcos empalideceu. Raquel estreitou os olhos, tentando avaliar se eu sabia.
- Sim - Marcos gaguejou. - Sim, talvez.
- Ótimo - eu disse, levantando-me. - Vamos para casa. Tenho tanto para preparar para a cerimônia.
*Preparar para queimar tudo até o chão*, pensei.