Estava grávida de oito meses, as minhas mãos acariciavam a barriga, sonhando com a vida que nos esperava. Miguel tinha prometido ser o melhor pai do mundo.
Mas no trânsito, o inferno começou. O cheiro a queimado, os gritos, a chapa de metal a prender-me a perna. Em desespero, liguei ao meu marido.
"Clara? Estou ocupado", a voz de Miguel soou irritada ao telefone. "A Sofia teve um ataque de pânico por causa do nevoeiro. Não a posso deixar." Ele desligou, abandonando-me ali, presa, enquanto o meu bebé lutava pela vida.
Acordei no hospital, num quarto branco e estéril, mas o berço do meu filho estava vazio. A dor da perda era sufocante.
Miguel chegou cinco horas depois, não com arrependimento, mas com desculpas esfarrapadas, como se eu fosse um inconveniente. A minha sogra, Isabel, do outro lado da linha, acusou-me de ser "dramática e ingrata" por questionar a lealdade do filho.
Como puderam eles, em uníssono, justificar tal crueldade? Como podia o homem que me prometeu o mundo escolher uma "amiga" em detrimento do nosso próprio filho, em tal momento de vida ou morte? O seu comportamento não era apenas negligência, era uma devoção cega e irracional.
Havia algo muito mais sombrio e escondido por detrás daquela "amizade". Tinha de haver uma razão para tanto desinteresse e frieza.
Naquele leito de hospital, a dor na minha perna era nula comparada à ferida na minha alma. Uma decisão fria e inabalável tomou conta de mim. A partir de agora, a minha vida seria só minha.
Peguei no telemóvel e apaguei o seu número. O divórcio seria apenas o primeiro passo.
A chapa de metal do carro gemeu, prendendo a minha perna.
O cheiro a queimado e a humidade do nevoeiro enchiam o ar.
Lá fora, só se ouviam gritos e o som de mais colisões.
Um engavetamento na autoestrada.
A minha mão tremia, mas eu tinha de ligar ao meu marido, Miguel.
Eu estava grávida de oito meses. O nosso bebé.
O telefone chamou uma, duas, três vezes. Finalmente, ele atendeu. O barulho de um videojogo soava ao fundo.
"Clara? O que se passa? Estou ocupado."
A sua voz era impaciente.
"Miguel, tive um acidente. Na A1. Um engavetamento enorme."
A minha voz falhou.
"Estou presa. A minha perna... dói muito."
Houve uma pausa. O som do jogo parou.
"Acidente? Estás bem? O bebé está bem?"
"Não sei, Miguel. Preciso de ti. Estás perto, não estás? Disseste que ias visitar a tua mãe hoje."
A casa da mãe dele ficava a dez minutos daquele troço da autoestrada.
Ele hesitou. Foi uma hesitação que durou uma eternidade.
"Clara, não posso ir agora. A Sofia está aqui."
Sofia. A sua melhor amiga de infância. A rapariga que ele sempre protegeu.
"Ela teve um ataque de pânico por causa do nevoeiro. Não a posso deixar sozinha, estás a perceber? Ela está muito assustada."
O meu cérebro não conseguia processar as palavras dele.
"Um ataque de pânico? Miguel, eu estou num acidente de carro! Estou a sangrar."
"Calma, não sejas dramática," disse ele, a sua voz a ficar mais fria. "Já chamei uma ambulância para ti. Eles estão a caminho. Devem ser mais rápidos do que eu."
Ao fundo, ouvi a voz chorosa da Sofia.
"Miguel, quem é? Diz-lhe para não te chatear. Preciso de ti aqui."
Ele não respondeu à Sofia. Em vez disso, disse-me a mim: "Ouve, os paramédicos vão tratar de ti. Liga-me quando chegares ao hospital. Tenho de ir. A Sofia precisa de mim."
Ele desligou.
O telemóvel caiu da minha mão.
A dor na minha perna era forte, mas a dor no meu peito era sufocante.
Olhei para a minha barriga.
"Aguenta, meu amor," sussurrei. "O papá está ocupado."
Depois, tudo ficou escuro.
Acordei com o som constante de um bip.
Um quarto de hospital. Branco, estéril.
A minha mãe estava sentada numa cadeira ao lado da cama, os seus olhos vermelhos e inchados.
Tentei mexer-me, mas uma dor aguda na minha perna e no meu abdómen parou-me.
"Mãe?"
Ela levantou a cabeça, o seu rosto um misto de alívio e dor.
"Clara, querida. Estás acordada."
A minha primeira pergunta foi a única que importava.
"O bebé... o nosso bebé está bem?"
A minha mãe pegou na minha mão. As suas mãos estavam frias.
Ela não precisou de dizer nada. O seu silêncio foi a resposta mais alta que alguma vez ouvi.
As lágrimas começaram a escorrer pelo meu rosto, silenciosas e quentes. Eu não soluçava. Apenas sentia a vida a esvair-se de mim.
"O Miguel..." comecei a dizer. "Onde está o Miguel?"
"Ele ligou," disse a minha mãe, a sua voz tensa. "Disse que a Sofia teve uma recaída e que ele a teve de levar para o hospital dela. Disse que viria assim que pudesse."
Assim que pudesse.
O meu marido escolheu confortar outra mulher por um ataque de pânico enquanto o seu próprio filho morria dentro de mim.
Fechei os olhos.
A imagem dele a desligar o telefone. A voz dela ao fundo.
Não era a primeira vez.
Houve o nosso aniversário, quando ele o perdeu porque a Sofia "precisava de ajuda para montar um móvel".
Houve a ecografia das doze semanas, à qual ele chegou uma hora atrasado porque o gato da Sofia tinha fugido.
Eu sempre desculpei. "Eles são como irmãos," eu dizia a mim mesma.
Mas irmãos não fazem isto.
Um marido não faz isto.
Um pai não faz isto.
"Mãe," disse eu, a minha voz era um fio. "Podes passar-me o meu telemóvel?"
Ela entregou-mo.
Abri o contacto dele. Olhei para a fotografia dele, a sorrir para mim. Uma fotografia do nosso casamento.
Parecia uma vida inteira atrás.
Apaguei o número. Bloqueei-o.
Depois, comecei a procurar o número de um advogado de divórcio.